Depois de fazer a pilha de deveres e tomar um belo banho, ah tenho que admitir que é renovador tomar um banho quente, mesmo que fosse mais fã de banho gelado no Brasil, mas fazer o que...São países e climas diferentes. Assim que me deitei na cama vi meu celular vibrar sobre a escrivaninha, fui correndo ver quem era, na esperança de falar com o Yuan, não era ele, mas era importante também, era Miki.

[Miki]: Boooaaa Noite Samanta-chan! ʕ•ᴥ•ʔ

[Samanta]: Olá Miki, o que me conta de bom?

[Miki]: Nada de mais na verdade...

[Miki]: Eu só estava pensando e queria te pedir uma coisa.

[Samanta]: O que?

[Miki]: Ah...Antes de tudo, você já tem clube Sa-chan?

[Samanta]: Não tenho não Miki.

[Miki]: (◉▿◉)

[Miki]: Sa-chan, você joga super bem, te admiro por isso e queria perguntar, na verdade pedir que você faça uma visita ao clube do mangá.

[Miki]: Creio que você irá gostar muito de lá...O que me diz?

[Samanta]: Hum.... Pensei que mangás fossem proibidos na escola.

[Miki]: Hai hai! Mas mangá na verdade é uma sigla que criamos para tapear a direção. O nome oficial do clube é “ Clube de Manipulação de imagem, Artes gráficas, Gerenciamento da arte do jornal e Analogia critica visual”

[Samanta]: Uau, que nome inusitado.

[Miki]: Pois é, tão inusitado que a direção não percebeu que era mangá.

[Samanta]: E tem mangá no clube?

[Miki]: Hum.... Vai lá e você pode descobrir.... Ou talvez não...Hihihihi.

[Samanta]: Ok então

[Samanta]: Que dias são as reuniões?

[Miki]: Segunda, terça e quinta.

[Samanta]: Hum.... Então amanhã estarei lá.

[Miki]: Ebaa.... Até amanhã Sa-chan!!

[Samanta]: Até amanhã Miki.

Desliguei o celular e fiquei pensando, de onde ela tirou Sa-chan (Sá-Tian) meu Senhor? Admito que gostei, porque Lembra Satangirl ou Satangaaruu na pronuncia japonesa (racho de rir com isso).

Dormi bem essa noite, mas acordei atrasada, na verdade acordei na hora que acordo todo dia, mas hoje tinha que ir mais cedo para poder limpar a sala. Arrumei de qualquer jeito correndo mesmo, peguei qualquer coisa na cozinha e saí comendo, quase esqueci meu almoço. Chegando exatamente meia hora mais cedo e Ren já estava lá, com as mangas da blusa dobradas varrendo a sala, concentrado em sua tarefa.

—Já está terminando de varrer? —Perguntei até sem folego pelo tanto que havia corrido.

—Sim—Respondeu ele friamente sem olhar para mim.

—Então vou pegar água para passarmos pano aqui.

—Ok, vai lá— Respondeu ele novamente de forma seca e fria, sem se quer olhar para mim.

Peguei o balde, a pia do nosso bloco estava quebrada e ainda em manutenção, tive que ir no bloco vizinho pegar água, basicamente estava no lado oposto ao de onde estava, só que no mesmo andar. Enchi o balde, parecia leve, mas eu enchi demais, porque ficou pesado para carregar de volta. Na hora que estava entrando na sala tropecei bem na porta e derrubei a água, acabei molhando minhas meias e a sapatilha, Ren virou o rosto furioso na minha direção.

—Sumimasen! (Desculpa) — Disse eu já involuntariamente.

—Tanto faz—Ele me levou o rodo e um pano—Eu vou buscar outro balde, limpe isso—Disse ele novamente de forma fria, segurando a evidente raiva em seu olhar.

Ren saiu, eu tentei usar a água no chão para limpar um pouco do chão, consegui passar na metade da sala, depois Ren voltou e terminamos o serviço juntos. Ren hora nenhuma me comprimento ou perguntou se estava bem, ou falou qualquer coisa, ele apenas fixou o olhar em seu trabalho. Faltavam quinze minutos para a aula começar, a sala estava vazia apesar de alguns alunos já terem entrado e deixado suas mochilas, a única coisa que faltava era escrever a data de hoje na lousa. Estava um pouco distraída e acabei escrevendo 13日04月2016年, ou seja 13/04/2016, nessa hora Ren que estava segurando uma papelada (Não sei de que) a deixou cair no chão e veio furioso na minha direção, pegou o apagador e disse gritando enquanto apagava o quadro:

—É impressionante! Você não é capaz de escrever a data de forma certa no quadro, muito menos limpar direito a sala, você é a pior parceira que eu já tive!

—Mas...

—Custava colocar escrever a data na ordem certa?

Ele escreveu 2016年1 04月3日, droga, só agora fui lembra que a ordem que eles usam para datas é ao contrário da que usamos.

—Perdão é que no Brasil usamos assim.

—Você não está no Brasil se não percebeu Kaidai!! —Gritou ele sem educação alguma.

—Não.... Você tem razão, estou há um mês aqui e eu não sei da maioria das coisas aqui—Disse eu séria, mas sem levantar o tom de voz.

—Puff, você é patética, não sabe nem fazer tarefas domésticas simples—Disse ele debochando da minha cara.

—Cara, na boa...O que eu fiz para você?

Ele simplesmente fez um “hum” para mim e virou as costas saindo da sala logo em seguida. Odeio essa forma de se expressar, “hum” devia ter um dicionário próprio, porque tem mil e um significados, dependendo da forma como a pessoa o diz pode significar que alguma coisa gostosa, ou até um “tanto faz”. Mas o “hum” do Ren era rude, algo como “Não vou perder meu tempo contigo, lixo”, eu por fora parecia calma, mas por dentro estava morrendo de raiva e com vontade de enforcá-lo, se eu o irritava só de estar por perto, o mesmo estava acontecendo comigo.

Um pouco antes da aula começar Hiro e Miki vieram conversar comigo, na verdade Hiro veio ansiosíssimo correndo até mim, já Miki veio calmamente sorrindo tranquila.

—Saaaaaa-chaaaan!!! —Gritou Hiro animado—É verdade que você vai fazer uma aula experimental no clube do Mangá?

—Agora você também vai me chamar de Sa-chan?

—Não gostou do apelido? —Perguntou Miki.

—Eu achei fofo—Completou Hiro.

—Gostei, só não é o que usualmente me chamam, só isso.

—De que te chamam usualmente então? —Perguntou Hiro.

—Ah, só Samanta... Meio sem graça né, só estou achando estranho porque geralmente não se preocupam em me dar apelidos, só isso. E sim eu vou fazer a aula experimental. Aliás, essa é a última semana de inscrição dos clubes, não é?

—Uhuuu mais uma Tanker para nosso time—Disse Hiro animado—Aliás, você é tanker mesmo, não é?

—É a última semana mesmo—Respondeu Miki depois que Hiro disse animado.

Não sabia a qual responder primeiro, os dois estavam falando basicamente ao mesmo tempo.

—Bem, eu não tenho o hábito de jogar mmorpg, então nem sei...E Miki, eu não sei se vou entrar no clube de vocês, mas eu quero conhecer.

—Ahh—Disse Hiro mudando suas feições de feliz e elétrico para triste e cabisbaixo de repente.

—Bom, acho que você vai gostar—Disse Miki antes do sinal tocar—O sinal já tocou, bom Sa-chan, até mais tarde! —Disse ela sorrindo um sorrisinho muito fofo.

—Tchau Sa-chan—Disse Hiro sendo arrastado por Miki, todo triste e com voz manhosa...

Eu não sei por que eu me divirto tanto com as palhaçadas desse garoto? Na verdade, ele e o Ichiro são hilários juntos, a Miki parece ser a mais centrada deles, não se mistura muito nas palhaçadas deles, só fica quieta no seu canto observando os dois brigarem por coisas inúteis e rachando de rir (como eu) por isso.

Depois que a última aula acabou fui quase que escoltada por Ichiro e Hiro até o terceiro andar no bloco dos clubes, passei em frente ao clube de karate, já tinha gente lá e estavam varrendo o tatame. Depois de percorrer um longo corredor e passar por várias salas, virei à esquerda e cheguei à um corredor com apenas uma porta no final dele. Chegando lá parei bem ao lado da porta e fiquei apenas observando, avistei Miki abrindo os janelados da sala, um menino de óculos passou por mim e começou a destrancar um armarinho muito bem guardado à minha frente, um garoto pôs algumas cadeiras em volta do armário e uma menina simplesmente chegou parecendo um zumbi, sentou-se à mesa e dormiu sobre ela. Me assustei com o modo estranho que agiam e dei um passo para trás, sem querer esbarrei em alguém, quando virei-me para ver quem era quase que entrei em pane, era o infeliz, enjoado e chato professor Sr. Ōmori, ele arqueou a sobrancelha perplexo, creio que por me ver ali e entrou na sala.

—Sensei, essa é a Samanta—Disse Miki.

—Sei quem ela é, é minha aluna, mas o que ela faz aqui? —Disse Sr. Ōmori colocando suas coisas sobre uma mesa.

—Ela veio ter uma aula experimental.

—Humm...Diga me Samanta.... Você passou por todos os clubes e essa é sua última opção? —Perguntou Sr. Ōmori sério, mas em tom sarcástico.

“Poxa, magoou! Sei que ele me acha uma inútil, mas não precisava fazer isso”.

—Não—Respondi engolindo o seco, esse cara realmente me assusta—Eu só tentei um clube até agora na verdade.

—Hum... interessante—Respondeu Sr. Ōmori ainda desconfiado.

—Sensei, ela é gamer como nós—Disse Ichiro.

—E joga super bem—Completou Miki.

—Sério?! Você não tem cara de quem gosta de videogame, muito menos que joga alguma coisa—Disse um menino, que nem sei o nome.

—Veja... —Disse Hiro mostrando seu celular.

Um grupo de garotos se reuniu em volta, não sei o que viram, mas Hiro mostrou algo que os deixaram boquiabertos olhando pasmos para mim.

—Você então é a Satangirl? —Perguntou outro garoto, esse vi um dia, acho que o nome dele é Yuji.

—Sim.

—Esse é seu recorde em Sayonaka? —Perguntou uma garota de franjinha e cabelo preso.

—Puta que pariu Sensei.... Olha isso! —Disse o garoto de óculos que eu vi abrindo o armário antes.

O professor olhou sério o celular, depois voltou o olhar para os integrantes do clube, deu uma pequena tossida e disse:

—Você gostaria de fazer parte do clube do Mangá Samanta?

—Bem.... Sim.... Eu acho. Quer dizer, eu nem sei o que o clube faz direito...

—A função básica é jogar e ler revistinhas em quadrinhos, o resto é só para mascarar isso—Disse um menino com olhos meio puxadinhos, mas cor um pouco escura para ser japonês mesmo.

—Hã?!

—Também não sermos pegos pela Uta—Disse um garoto com o cabelo lambido grudado na testa e todo repicado na franja..

—Quem?!

—Gente... —Disse calmamente o professor—Gente... —Repetiu novamente tentando chamar a atenção dos alunos, mas sem sucesso—Silencio!! —Gritou Sr. Ōmori já sem paciência, todos olharam para ele—Arrumem a sala!

Todos voltaram ao que estavam fazendo, dentro do armário havia três monitores de computador, um grande no centro e dois pequenos de lados opostos, formando uma fila. Havia um pequeno armarinho encostado na parede com alguns mangás a vista, tiraram alguns desenhos muito bonitos de uma pasta e jogaram na mesa onde a menina zumbi estava dormindo. Ligaram o Datashow no outro extremo da sala e abaixaram o telão também, conectando ao notbook de alguém. Eu achei aquilo tudo muito estranho, espalhavam cadeiras em lugares específicos e mexiam em muitas coisas ao mesmo tempo para arrumar a sala.

—Então Samanta... Gostou da minha sala? —Perguntou amigavelmente Sr. Ōmori, ele nunca falou tão calmamente comigo...É de arrepiar os pelos da nuca.

—Sim.... Acho... —Sr. Ōmori me analisava friamente—Quer dizer, eu gostei muito da sua sala Sr. Ōmori.... —Ele interrompeu me corrigindo.

—Pode me chamar de Yasuo aqui.

—Ok, então Sr. Yasuo... —Ele me interrompeu novamente.

—Não, só Yasuo mesmo.

—Ok, Yasuo....Sua sala parece ser muito legal—Olhei em volta—Tem gente jogando videogame de um lado, outros já lendo mangá.... Aqui é realmente um lugar surreal para se ficar.

—Hum.... Bem-vinda ao clube então! —Disse ele levantando-se e saindo da sala.

Eu fiquei parada olhando todos aqueles malucos me encarando sem entender porque o Sr. Ōmori havia saído da sala, pensando até se aquilo não seria uma seita satânica pela estranheza de tudo ao meu redor. Depois de dois segundos todos pareceram me esquecer, uns foram para a frente dos computadores jogarem, outros foram ler mangá e eu fiquei ali, sobrando, sem saber o que estava acontecendo lá. Até que enfim Ichiro, Hiro e Miki virou até mim e eu me senti não tão deslocada mais.

—Então... O que achou do nosso refúgio? —Perguntou Ichiro.

—Não entendi nada daqui para falar a verdade—Disse eu sentando-me ao lado da garota Zumbi que parecia estar em um sono profundo.

—Hum.... Deixa eu te apresentar o pessoal.... Depois te explico o que acontece aqui—Disse Miki.

Havia três garotos numa roda para jogar Tekken na maior das três telas dentro do armarinho, aliás as outras duas estavam conectadas a câmeras que mostravam imagens dos dois corredores antes de chegar à sala, achei estranho já que não havia notado nenhuma câmera de segurança no caminho.

—Esse é o Minori—Disse Miki mostrando um garoto de óculos (o único garoto de óculos na verdade) um tanto gordinho—Ele é o melhor hacker que temos aqui, responsável por todos aparatos tecnológicos daqui.

—Eu não diria hacker—Defendeu-se Minori ainda concentrado no jogo— Eu prefiro guru da tecnologia e alguém precisava ficar responsável por essa parte de todo jeito mesmo.

—Esse é o Toshio—Disse Miki colocando a mão no ombro do garoto de cabelo lambido e grudado na testa—Ele não tem nada de especial, só conhece todo mundo do clube do jornal, então é meio que nosso informante nosso.

—Aham... —Disse Toshio concentrado no jogo, parecia estar perdendo para Minori—Aff, é sua vez Yuji! —Disse ele entregando o controle para o garoto que eu tinha quase certeza que se chamava Yuji mesmo— Eu sou só um informante? Poxa Miki, não precisa machucar tanto assim meu kokoro(coração) sabia?

—Foi mal... Mas é um trabalho importante aqui.

—Tô vendo...Do jeito que você falou só faltou completar “ o inútil daqui”—Disse Toshio.

—Já pedi desculpa... E ah...Ele é muito dramático, um excelente ator—Falou Miki o fuzilando.

—Hum.... Melhorou a fala, gostei—Disse Toshio já sorrindo.

—Esse é o Yu.... —Ele a interrompeu.

—Sou Yuji, prazer... Programador e um pouco hacker também—Disse ele rapidamente—Agora se me dão licença eu preciso dar uma surra no quatro olhos aqui.

Miki me levou até a mesa onde o resto do pessoal estava sentado.

—Esse é o Raiden—Disse Miki apontando para o “meio japa” creio eu, já que ele bem moreno e seus olhos lembram um pouco o puxado asiático—O nosso fornecedor de mangás.

—Boa tarde, é que meu pai é dono de uma livraria, então se precisar de algum material algum dia é só falar comigo —Disse ele meio atrapalhado, mas seu Japonês parece fluente, então ele realmente é um mestiço.

—Essa é a Natsumi—Disse Miki apontando a menina de franjinha e cabelo amarrado— Basicamente nossa tradutora de jogos americanos e as vezes coreanos.

—Nem tanto.... Eu só ajudo no que posso—Disse ele fechando o mangá que lia.

—E essa é... —Disse Miki cutucando a menina Zumbi que nem se quer acordou com isso—Bem, essa é a Kin.... Ela parece que morreu, mas juro que só está dormindo.

—Me deixa dormir poxa! —Disse Kin cobrindo seu rosto e virando para o outro lado.

—Ok então—Disse Miki tristonha.

—Na boa Miki.... Você só está deixando a garota mais confusa ainda. Vamos fazer assim, é melhor você vencer o Tanker no Sayonaka, depois a gente discute a teoria da relatividade e como funciona o clube do Mangá tá? —Disse Ichiro.

“Ele está certo eu basicamente não vou lembrar o nome de ninguém amanhã de cedo, vou precisar anotar na minha agenda, sem brincadeira”.

—Falando nisso.... Cadê o Tanker? —Perguntou Minori.

—Na gráfica com o Sensei vendo o orçamento do nosso almanaque—Respondeu Hiro.

“Que diabos é esse Tanker? Quem é esse carinha que me plagiou usando o pseudônimo de Falling Angel? Sei que são a mesma pessoa, mas quem é o mister Fodástico no videogame que eles tanto falam?”.

Peguei o celular do Hiro e tentei uma vez, consegui 177.000 apenas Ichiro, Hiro e Miki estavam ao meu redor torcendo por mim, depois da segunda tentativa os que estavam na mesa vieram me ver jogar e consegui 192.450 pontos dessa vez. Na terceira vez fui mal, consegui apenas 100.300, mas os que estavam jogando também param o que estavam fazendo e vieram me assistir. Por fim já havia conseguido chamar a atenção de todos no clube, menos a garota zumbi que só faltava roncar, eu havia sentado no chão, alguns sentaram-se em um pufe detrás de mim e outros deitaram na mesa para poderem me ver... E eu achando que gostava de videogame, eles além de gostarem torcem por outros players, não é igual meu irmão e eu que torcemos para o outro perder e podermos assumir seu lugar, gostei disso.

Com todo o peso da responsabilidade que eles sem querer colocaram a mim, respirei fundo, relaxei os músculos (como se fosse fazer um esforço monstruoso, mas deixa eu sonhar um pouco), peguei o celular e me propus a vencer aquele recorde idiota de vez. Parece algo fácil eu dizer “Venci ”, mas os dois minutos de corrida pareciam duas horas de tão longos e tortuosos, eu admito que perdi vários combos e não aproveitei alguns caminhos, mas mesmo assim consegui o score final de 250.240 pontos. Nem eu sei como fiz isso, creio que com o público me olhando não podia fazer feio, então tentei faze meu melhor, mesmo tento perdido várias oportunidades.

Virei me para trás e vi todos catatônicos me olhando, fiquei sem saber o que você fazer ou falar.

—Vo... Vo.…. Você passou e muito o recorde do Tanker—Disse Toshio quase babando por conta de a boca estar aberta demais.

—Não pensei que fosse tão boa jogadora—Disse Minori.

—Ah, que isso gente.... Foi só uma partida de jogo—Disse eu tentado parecer humilde e escondendo a pontadinha de vergonha que sentia.

—Por favor Samanta.... Diz que você vai entrar para nosso clube—Disse Natsumi.

—Bem.... Na verdade, eu não sei se...

Antes de eu terminar de falar Hiro e Ichiro trocaram olhares e ajoelharam-se do nada, logo em seguida Miki e Raiden fizeram o mesmo e por fim os outros o imitaram. Eu realmente não sabia o que fazer ou pensar sobre aquele povo doido ajoelhado em minha direção, até a garota zumbi levantou a cabeça para ver o que tinha acontecido, mas isso durou cerca de dois segundos, depois ela voltou à sua função primária.

—Por favor Sa-chan! —Disse Hiro.

—Por favor Sa-cha! —Disseram os outros logo em seguida em uníssono.

Diante aquela situação totalmente inusitada e nada convencional eu só conseguia pensar:

“Gente, eles ensaiaram isso antes...É alguma pegadinha? ”.

Depois de ganhar meu dinheirinho da aposta tive uma breve explicação da Miki de como funcionava o clube do Mangá. Ela me disse que o clube fazia quadrinhos para o clube do jornal, mas havia somente um desenhista no clube, então enquanto ele desenha os outros jogam ou leem.... Ou fazem o que quiser.

A base que sustenta o clube são os jogos, mas como o videogame traz dinheiro para o clube? Pelo que entendi eles jogam em campeonatos por Tokyo, Saitama, Nagano e Yamanashi, ou outras províncias próximas, enfim onde tiver grana disponível. Mas isso até agora ando só no papel, porque eles não são jogadores tão bons, então o que eles têm até agora são doações do Minori mesmo, mas querem melhorar tudo que tem lá.

A última coisa que entendi é que tudo aquilo era proibido, mas eles conseguiam esconder com auxílio das câmeras e os projetos que eles já deixam espalhados pela mesa caso a supervisora Uta apareça. A supervisora Uta é a responsável por todos os clubes e ao que parece é muito chata, a Miki disse que o Sr. Ōmori já brigou várias vezes com ela.

A única coisa que eu não entendi até agora é que diabos o Sr. Ōmori está fazendo lá? Mas tá bom, depois descubro isso, por hora o melhor que posso fazer é jogar com o pessoal.

Depois da aula eu fui até a mercearia onde o Yuan trabalha decidida a ganhar um beijo dele, acabei vendo que estava sendo idiota também, eu estava esperando que ele tomasse a iniciativa, quando eu podia ter tomado a muito tempo. Sei lá, ele me trata tão bem, sempre lembra de mim, terça-feira mesmo ele fugiu do trabalho para ir ao parque comigo e ainda me deu uma vasilha cheinha de Manju, um doce de mochi(arroz japonês) com recheio de azuki(feijão japonês próprio para doce), todos feitos artesanalmente por ele e com formato de pandinhas(o rosto). Mesmo sabendo que ele gosta de mim eu não faço ideia porque ele não me beija, já dei várias chances e ele apenas sorri e parece não reparar.... Já estou perdi a paciência com isso, hoje eu vou beijá-lo e ponto final!

Cheguei na porta da mercearia e vi o avô lavando a entrada, ele me viu, deu uma rápida encarada e me disse para o seguir. Fomos até o final do último corredor no extremo da loja onde havia uma porta escrito “Somente para funcionários”, ele abriu a porta e me pediu novamente para o seguir, subimos uma escada até o segundo andar, lá era o depósito da loja e havia várias caixas empilhadas e alguns frezeer perto da parede. De um lado havia um cômodo espelhado na frente, dava para ver que era uma cozinha e Yuan estava sentado à mesa de frente para a janela, ele estudava rodeado de uma pilha de livros sobre a mesa.

Seu avô chegou na porta, falou algo em Mandarin e ele voltou seu olhar rapidamente para mim, estava espantado.

—Samanta—Disse ele sorrindo.

—Oi—Disse eu meio sem jeito sentando-me de frente para ele.

—Juízo vocês dois—Disse seu avô nos deixando a sós.

Yuan tirou os livros da mesa, depois se sentou de frente para mim, ele não devia ter dormido bem noite passada, pois suas olheiras evidenciavam seu cansaço, mas o sorriso alegre e espontâneo permanecia em seu rosto .

—Então... O que faz aqui? —Perguntou Yuan sorrindo meio sem jeito.

—Vim te visitar, sei lá, queria te ver e conversar contigo— Disse eu também sorrindo—Você tem prova amanhã?

—Sim sim... E meu avô me obrigou a parar de trabalhar para vim estudar.

—Seu avô é legal. Bem, eu estou te atrapalhando então…. Acho melhor ir embora—Disse eu me levantando, mas ele me segurou pelo braço...FIQUEI TÃO FELIZ!!

—Espera, são cinco e meia.... Eu não comi nada desde o almoço e se você está de uniforme ainda, provavelmente também não comeu nada há bastante tempo. Você não quer jantar comigo não?

—Sim, mas posso te ajudar.... Meu que me senti uma inútil com aqueles doces que você me deu, porque eu nunca na minha vida vou conseguir algo como aquilo.

—Hum... Mas eu posso te ensinar... Sabia disso? Sou um bom professor. Já comeu Omuraisu(オムライス)alguma vez?

—Não.

Omuraisu é a tradução fonética e reduzida do inglês omelete of rice, e como o próprio nome diz é omelete com arroz, o prato consiste em arroz frito e bem temperado envolto por omelete e comido com ketchup por cima. Parece simples mas fica parecendo um prato chique ao final.

Depois de pronto as omeletes nos sentamos, colocamos em um prato (na verdade o único que tinha lá) e fomos nos sentar. Dessa vez Yuan sentou-se ao meu lado e puxou a cadeira para mais próximo de mim. Ele partiu cada omuraisu em quatro partes, depois pegou um pedaço com o garfo.

—Feche os olhos, abra a boca e saboreei—Disse ele levando o garfo na minha direção, obedeci—Então o que achou?

—Bom, eu acho que quero outro pedaço... —Disse eu tomando um gole d’água, depois abrindo a boca novamente.

—Hum.... Vou te deixar folgada desse jeito—Rimos juntos—Mas tudo bem, é bom te mimar um pouco.

Abri minha boca novamente e fechei meus olhos, vi que ele havia se aproximado mais de mim e não ouvi o som do garfo tocar o prato, pude sentir sua respiram perto de mim, abri os olhos de vagar e pude ver que ele estava bem próximo de mim. Nos encaramos momentaneamente, meu coração deu uma pequena palpitada naquela hora, ele pôs a mão em meu rosto e eu fechei meus olhos novamente deixando meus lábios semiabertos… Mas... Mas... Poxa, eu jurava que ele ia me beijar naquele momento, então do nada ele tirou a mão do meu rosto e se afastou, abri os olhos perplexa.

—Perdão Samanta, eu não devia ter sido tão...

—Tão o que? Você ia me beijar não ia, por que parou?

—Pensei que você não quisesse—Disse ele se afastando mais ainda.

—NÃO QUERIA?! Você é tão cego ou está brincando com a minha cara?

—Hã?! Não entendi.

—Ah, esquece... —Disse eu me levantando e indo embora.

Ele foi me seguir quando eu já estava perto da escada, Yuan me chamou, mas eu simplesmente fingi que não o escutei, estava fazendo aquilo de propósito, se ele não me beijasse agora.... Se bem que ele não beijou agora pouco.... Enfim, se ele não me beijar agora eu o beijo, sei que ele vai me seguir e porque eu realmente não sei se o que ele tem é timidez excessiva ou burrice aguda. Ele permaneceu em silencio na loja, mas foi só eu sair da loja e Yuan me segurou pelo braço.

—Ei, por que foi embora? —Perguntou Yuan.

—Eu sou muito feia? Gorda, chata, ou sei lá fedida talvez? —Perguntei eu séria.

—O que?! —Respondeu Yuan perplexo—Você não é nada disso, você é a garota mais legal que eu já conheci até hoje na verdade.

—Então por que você não quer me beijar?

Ele se assustou, olhou ao redor e depois disse sem olhar em mim.

—É porque eu nunca beijei ninguém, nunca tive tempo para namorar.... Então eu queria fazer certo com você.

“What?! Por isso ele não... AHH, agora estou me sentindo um pouco idiota...De novo para variar”.

—E como seria o certo ao seu ver?

Ele se aproximou de mim e disse olhando em meus olhos:

—Sei lá, eu sou um garoto bem tímido, mal sei dizer como tive coragem de te chamar para sair.... Tinha planejado te beijar no nosso encontro domingo agora, pois por mais que eu nunca tenha dado um beijo na vida, a paisagem do lugar poderia te fazer esquecer um pouco o fato de eu provavelmente beijar terrivelmente mal.

“Tadinho gente! Me sentindo duplamente idiota, ele parecia estar falando realmente a verdade. Puff, o Japão é desigual demais na questão de relacionamentos, enquanto uns ficam noivos aos nove anos, outros nunca beijaram aos 18”.

—Então você tinha medo disso?

—Sim—Disse ele cabisbaixo.

—Aff, e por que você não me beija agora então? Eu estou aqui sabia? E eu n-ã-o mordo!

Ele me sorriu de lado, se aproximou de mim colocou novamente a mão em meu rosto, levantando-o para poder olhar em meus olhos, finalmente depois de tanto esperar ele finalmente me beijou de forma terna e muito carinhosa.

—Me desculpa—Disse ele cabisbaixo.

Antes dele se afastar de mim eu pulei o abraçando, ele me segurou e nos beijamos novamente, dessa vez pude sentir o quanto ele gostava de mim, pois ele me abraçou fortemente para eu não cair e isso me fez sentir segura, fora o beijo em si.... Me sentindo realizada por hoje.

—Viu, não foi nada ruim—Disse eu sorrindo, ele me sorriu novamente me respondendo.

Quando nos soltamos vi que todos ao redor nos observavam e alguns nos encaravam, Yuan então me disse:

—É que não é comum casais demonstrarem tamanho afeto em público, japoneses mal andam de mãos dadas na rua.

—Costume chato.... Então você nos vê como um casal? —Disse eu sorrindo.

Ele me respondeu sem uma palavra se quer, me sorriu meigamente e isso foi o suficiente para entender o que queria dizer. Ele pode ser tímido, mas é um garoto encantador, valeu a pena essa novela mexicana por um beijo. Me despedi de Yuan com um selinho e voltei feliz da vida para casa....

—Que quinta-feira agitada! — Disse eu para mim mesma, enquanto lavava meu rosto.