Por favor, esteja
3 Aguento
Notas iniciais
— Você? — Matthew perguntou, dessa vez mais paciente. — O que aconteceu, Jane? Por que você está aqui?
Ela enxugou as lágrimas e olhou ao seu redor, as pessoas impacientes ainda a faziam rir. Por que a pressa? Jane respirou fundo e sorriu:
— Não importa mais, eu quero sorvete. Vamos?
A mudança de humor repentina na garota só preocupou mais ainda Matthew. Sorrindo, chorando e sorrindo. O que estaria Jane escondendo? Mas, para não preocupar a menina, foram a sorveteria mais próxima.
Jane pediu um de baunilha e Matthew pediu outro de chocolate. Era como se até os seus sabores prediletos de sorvetes se complementassem. A branca e misteriosa baunilha e o suave e silencioso chocolate. Depois de bem alimentados pelos sorvetes, resolveram dar uma passada até a casa de Matthew, de mãos dadas. Eles nunca se esquecem de estarem se tocando quando estão lado a lado, porém raramente se beijam.
Não que Matthew não queira. Se fosse por ele, Jane nem conseguiria respirar, por causa dos beijos que estariam dando, mas ele a conhece. Não sabia uma coisa sequer que estivesse passando pela cabeça de sua namorada, mas Matthew sabia que na cabeça dela tinha o porquê de só se beijarem quando estão a sós.
— Você acha que sua mãe ainda ama seu pai? — Jane perguntou se jogando na cama do garoto, assim que chegaram à sua casa, fazendo com que seu vestido subisse um pouco.
Matthew não queria, mas demonstrou sua fraqueza a respeito do assunto quando derrubou as chaves de casa no chão, ao invés de colocá-las na escrivaninha de seu quarto.
Seu pai falecera repentinamente na vida do garoto e, por mais que o tempo passasse, esse assunto ainda era muito sensível para Matthew. Sem contar que Jane não era de fazer perguntas, muito menos perguntas tão pessoais assim.
— Depois desse tempo todo, você ainda acha que ela o ama? — Jane continuou. — Não é o que eles falam em Romeu e Julieta? Ou em qualquer outro romance? Que o amor é eterno?
— Mas em Romeu e Julieta ambos morrem. — Matthew sorriu para esconder o pânico. — O que você quis dizer com isso, Jane?
— Você ainda acha que, depois da morte de seu pai, a sua mãe o ama? — Ela prosseguiu, olhando para o teto. — Assim como Julieta amaria Romeu se não tivesse se matado?
Matthew olhou ao redor. O que responderia? Ora, se Jane queria tanto saber se sua mãe amava ou não seu pai, perguntasse para ela! O menino não estava com muita vontade de pensar. Não sobre isso. Não agora.
Jogou-se na cama, ao lado de Jane. A princípio, apenas as mãos estavam entrelaçadas, mas conforme Jane ouvia a respiração ofegante de Matthew, ele se posicionou em cima dela.
Jane o beijou. Raramente ela iniciava o beijo. Na verdade, Matthew acreditava que aquele era o primeiro beijo que ela iniciara em todo esse tempo juntos. A mão da garota parou na barra da calça, Matthew aprofundou o beijo, porém fez isso com cautela. Enquanto isso, a mão esquerda do garoto foi das bochechas macias da menina, até seus ombros, longos e finos braços até sua cintura. Parou por aí, mas as mãos da garota continuaram e subiam e desciam numa necessidade incomum de tocar cada parte do outro corpo.
E assim foi, as carícias aumentaram de intensidade, as isso não parecia nenhum problema para eles. Jane sorriu entre o beijo e Matthew só conseguiu ficar mais feliz com aquilo.
Nessa tarde, eles seriam um só.
Matthew sentiu frio nas suas costas. Mais uma vez adormecera com as janelas abertas e as costas desnudas, mas automaticamente lembrou-se da noite anterior, as palavras, os beijos e as promessas. Jane completava sua vida.
Porém a cama estava fria do seu lado direito e o rapaz ficou preocupado com onde Jane teria se metido. Ouviu barulhos tranquilizantes de talheres vindo da cozinha e relaxou: talvez a namorada só tivesse acordado mais cedo e com fome.
Quando o garoto tentou se levantar, percebeu que havia algo duro entre os lençóis perto dos seus pés e quando pegou o objeto percebeu ser um livro.
Romeu e Julieta
De Shakespeare. Abriu a primeira página: um desenho de um trem passando por longos trilhos. Ele reconhecia o jeito de desenhar, era de Jane. Lógico. Que outra pessoa faria essas surpresas superficiais pro namorado?
Arrumou-se depressa e correu em direção à cozinha, mas quem estava lá era apenas sua mãe.
— Bom dia. — Ele disse animado.
— Bom dia. — Matthew saiu de casa apressado demais para perceber a cara inchada por conta do choro de sua mãe. Mais uma coisa pura ia embora de sua vida.
Chegou apressado na estação de trem. Tão apressado que facilmente seria confundido pelos trabalhadores apressados. Ele ria disso, porque Jane tinha umas comparações muito anormais, entretanto fofas.
O sorriso não saia de seu rosto. Não entendia o porquê Jane quis que ele fosse até a estação de trem em plena manhã, mas não discordaria em ver sua namorada, principalmente depois do dia anterior.
Mas seu sorriso se fechou. Um silêncio predominou sua mente quando seus olhos avistaram o que Matthew não queria, o que Matthew não desejava.
Pela primeira vez na sua vida, ele não ficou feliz em reconhecer a cor lavanda. A cor do vestido de Jane. A cor favorita dela. Se é que pode chamar de lavanda, a cor estava mais para vermelho.
O sangue humano é preto. Ele só fica vermelho quando entra em contado com o oxigênio. Disse sua professora de biologia, quando Matthew tinha treze anos e estavam aprendendo sobre o corpo humano.
Aproximou-se do local que tanto chamava a atenção dos adultos agora não tão apressados, porém aquele lugar não lhe chamava atenção. Na verdade, o garoto só queria acordar do pesadelo.
— O que aconteceu? — Cochichavam em seus ouvidos, enquanto Matthew só sentia as lágrimas penderem.
Fale com o autor