Por favor, esteja
4 Mais
Notas iniciais
Jane acordou antes de Matthew. Sorriu, pois era a primeira vez que o via dormindo. Sempre era ele que acordava antes dela. Mas esse dia foi diferente. Esse dia seria diferente. Porque, provavelmente, esse seria o primeiro e último dia que acordava antes de Matthew.
A menina se levantou da cama e vestiu seu lindo e tão bem feito vestido. Olhou para o seu lado e viu o tão belo corpo de seu amado descansando tranquilamente na cama. Suas costas levantavam e abaixavam conforme ele respirava. Jane sorriu, mas sentiu pequenas lágrimas formarem em seus olhos. Como conseguiria fazer isso com ele? Abandoná-lo?
Depositou seu livro nos pés dele. Pelo menos deixaria para trás um peso que a incomodava. O livro que a incomodou durante todos esses anos.

Ela tinha acabado de ganhar seu primeiro livro, Romeu e Julieta, e odiou o final. Por que Romeu se matou ao saber da morte (a qual era 100% falsa e planejada) da sua esposa Julieta? Jane bufou, achou a maior idiotice do mundo. Custava Romeu esperar mais alguns minutos até Julieta acordar? Ele podia muito bem continuar admirá-la enquanto isso.
Fechou o livro de capa dura bruscamente e ajeitou os cabelos. Por mais que tivesse muito tempo livre, ainda precisava ajudar seu avô no comércio e na memória. Desceu as escadas e abriu a porta dos fundos para cumprimentar seu querido avô, mas sua visão foi atraída por dois seres desconhecidos dentro da loja.
A movimentação era diferente. Tudo bem que, diariamente, poucos clientes visitavam a loja, mas Jane não se referia a esse tipo de movimentação física. Ela quis dizer que o ar era outro.
A garota beijou ambas as bochechas de seu avô, o qual estranhou, porque não se lembrava de nem o motivo que o fez sentar atrás do balcão de uma loja que supostamente seria sua e de nem quem era aquela pequena boneca. Após isso, a menina se infiltrou dentro das estantes.
Não ia negar, ela tinha sim reparado no jovem dentro da loja, mas a timidez de nunca ter se interagido com outra pessoa a assustava de tentar chegar perto de alguém.
Assim que avistou o mensageiro dos ventos, correu para mais perto do objeto e fechou os olhos, na esperança de conseguir alguma coragem para conseguir conversar com o garoto, e que ele aparecesse atrás dela e magicamente falasse como Romeu se dirigia a Julieta. Então ouviu passos e sorriu ao perceber que aquele corpo atrás dela só poderia ser dele. Quem mais se arriscaria a se infiltrar nas estantes marrons e empoeiradas cheias de antiguidades?
Mas ao contrário do que Jane desejava, ele ficou quieto. Então ela resolveu abrir os olhos e puxar assunto. Quem sabe não era ela quem deveria ser o Romeu nesse momento:
— Bonito, não é?
Ela já estava na plataforma esperando o próximo trem quando sua consciência voltou. Olhou para seus pequenos pés. Mal sabiam eles que seria a causa do adeus dela, porque, afinal, eles a guiaram ao fim da jornada.
Dentro de seu peito ela carregava a saudade que já sentia de seu avô. Será que ele se daria bem? Será que eles se encontrariam em breve, ou Jane terá de esperar sozinha?
O grande relógio da plataforma indicou 10h40min.
O próximo trem estava perto, Jane o sentia.
Os passos apressados, as pessoas sem expressões, a falta de amor, a solidão que estava presente num lugar tão lotado eram motivos para Jane fazer aquilo.
Ela precisava parar as pessoas.
A vida pode ser bela.
Ela finalmente entendeu porque Romeu se matou por causa de Julieta: ele não conseguiria viver sem a amada, da mesma forma que Jane não conseguiria viver num mundo que Matthew sofria diariamente pela morte de seu pai.
O barulho dos trilhos aumentou de intensidade, indicando que o trem passaria apressadamente por eles antes de frear.
Jane começou a correr em direção ao barulho, já sentindo as lágrimas escaparem de seus olhos e escorrerem pelas suas bochechas rapidamente. O trem estava mais perto agora.
De longe ela escutava os passos correndo para chegarem primeiro perto da linha amarela.
Não ultrapasse a linha amarela da plataforma.
Jane estava em cima da linha.
O trem já estava à vista.
As pessoas começaram a se amontoar mais ao fundo enquanto esperava o trem chegar.
O veículo estava mais perto.
Jane fechou os olhos.
Jane mergulhou no ar.
Jane dormiu antes de Matthew.
Matthew não chegou a se suicidar ao lado de Jane quando a viu morta nos trilhos do trem.
Havia se passado três meses depois do incidente. Matthew não estava em choque ou ainda sentia os arrepios ao ver a cara sem expressão da -agora- falecida Jane. Mas uma coisa ele não podia negar: o garoto não sabia mais como era sorrir e viver.
Agora ele trabalhava durante meio período numa biblioteca, para ajudá-lo a pagar a faculdade de engenharia civil. Era um bom aluno e o seu chefe o considerava um bom -senão o melhor- funcionário da biblioteca.
Pelo menos em alguma coisa eu sou bom, o rapaz pensava.
E sua vida se tornou monótona, mas já estava acostumado. Levantava-se da cama, trocava de roupa, pegava o carro e ia estudar de manhã na faculdade. Depois disso, ia trabalhar na biblioteca. Matthew nem lembrava se comia as refeições diárias.
Um belo dia o rapaz se pegou não pensando em nada, ergueu a cabeça e esfregou o rosto com as mãos, para acordar para a realidade. Ele estava trabalhando sozinho na biblioteca nesse dia. A gigantesca biblioteca e suas inúmeras estantes de madeira só o faziam sentir mais e mais falta de Jane. Quem sabe não era por isso que ele resolveu inconscientemente trabalhar lá? Para, de alguma forma, matar as saudades que o matava por dentro.
Depois de meia hora brincando com sua caneta esferográfica azul, seus pensamentos descartáveis foram interrompidos por um baque no balcão.
— Cara, você precisa superar isso. — Uma voz desconhecida disse. Matthew seguiu o olhar para onde vinha o som e avistou uma menina segurando um livro de capa dura. — Eu odeio esse livro, mas não é por causa disso que eu vou sair por aí com essa cara depressiva. Dá pra perceber sua tristeza a metros de distância.
Matthew levantou-se e pegou o livro, mas o que leu quase o fez derrubar o livro e desmoronar-se no chão: Romeu e Julieta. Jane também odiava o livro. Ele limpou a garganta e disse:
— Veio devolver?
— Sim. — A menina respondeu com um sorriso amarelo.
Após Matthew ter anotado a devolução do livro e a menina ter ido embora, precisou sair de trás do balcão para colocá-lo no devido lugar da estante.
Estava no meio da estante de obras de Shakespeare, quando suas memórias com a Jane chegaram à tona. Ele não estava preparado e começou a chorar. Deixou até que seus joelhos cedessem e encontrassem o chão.
Ouviu risadas, mas não qualquer risada. Era a risada dela, Jane. Ele se virou e a encontrou, no fim do corredor, em pé e vestindo o vestido que tanto amava, o vestido que usou na sua morte.
O vestido cor de lavanda.
Jane correu em direção a Matthew ainda largado no chão e se ajoelhou na frente dele. Olhos nos olhos. A menina sorriu docemente ao olhar para ele, porém antes que o garoto pudesse encostar suas mãos tremendo no rosto da amada, ou dizer qualquer coisa, Jane caiu morta e fria no colo de Matthew, sumindo logo em seguida.
Ele não podia negar, sua vida tinha se tornado um grande nada depois do suicídio de Jane e sua vida estava se tornando cada momento mais complicado, porque Jane fazia falta. Porque Jane era o único motivo de sua felicidade.
E Matthew sabia que independente do tempo passar, nunca conseguiria superar isso.
Fale com o autor