Fomos todos ao estacionamento do Pacaembu, para nossa sorte, naquele momento estava acontecendo um encontro de pick-ups no mesmo local, perfeito para distração, mas péssimo para achar uma pick-up em específico. Depois de um tempo a localizamos, eu fui em direção a ela, junto com a sombra, Sniper estava do lado de fora do estacionamento em uma rua mais elevada, em uma posição perfeita para poder nos dar cobertura caso algo desse errado. O Motorista aguardava no carro e o Nerd ia andando nas redondezas, avaliando o local.

Aproximei-me do carro, achei a chave no local que deveria estar, entrei no veículo e vi no banco do passageiro uma pasta preta de couro, abri e vi rapidamente todo seu conteúdo, pastas, fotos, o de sempre, aparentemente não íamos explodir nada ou matar alguém, não havia nenhuma foto de pessoas, mas sim de objetos, o que só poderia significar uma coisa, tínhamos que roubar alguma coisa, quanto mais detalhes o cliente passava para nós a respeito do que ele queria, menos trabalho teríamos e mais barato saia para ele, mas pelo pouco que vi do nosso objetivo, o preço sairia bem mais caro que o normal, mesmo que ele tivesse dado todas aquelas informações completas.

Eu simplesmente odiava esse tipo de missão, era necessário um planejamento muito mais detalhado, um estudo do local, da segurança, achar falhas e toda a equipe trabalhando junto, as chances de as coisas darem erradas eram bem maiores, mas ele ia pagar bem, então que se dane, já passamos por coisas mais complicadas.

Sai de perto da caminhonete e caminhei em direção ao nosso carro, acenando a todos os integrantes para que fizéssemos o mesmo, todos entramos no carro e o silencio prevaleceu até chegarmos em nossa base temporária, uma casa abandonada perto da região, na avenida paulista, uma casa que com certeza, há tempos atrás deveria ser muito bem frequentada, uma mansão que deveria ser invejada por muitos e agora servia de quarto e banheiro para mendigos. Montamos uma mesa no centro da sala principal e cada um preparou sua cadeira, o cheiro de urina, misturado com a poeira e cimento era algo que já estávamos acostumados, depois de anos nos reunindo nesses tipos de lugares, já não incomodava mais.

Abri a maleta e fui espalhando os papéis pela mesa, o Motorista acendeu seu cigarro, olhou para mim e perguntou:

— Aonde iremos dessa vez?

— Museu do Ipiranga, e pelo visto vamos precisar de um carro maior — conclui ao ver a foto do objeto que era marcado como alvo.

— O que vamos roubar? — Perguntou curiosa minha namorada, afinal essa era a área de total interesse dela

— "A Fundação de São Vicente" do Martim Afonso de Souza.

— Mas essa porra é imensa, como esperam que saímos do museu carregando algo que é maior que é do tamanho Motorista? — Se indagou o Nerd

— Bem, isso é o que passaremos essa semana pensando não é verdade? Motorista, quero que você vá preparando o veículo para poder carregar o quadro de uma maneira rápida e que não vá prejudicar ele, será preciso um caminhão para isso, com um baú grande. Sombra, eu e você vamos dar um passeio pelo museu amanhã.

— Que lindo amor, sempre quis esse tipo de programa em casal — o sarcasmo e a frieza em sua voz era algo que estava começando a me preocupar

— Ótimo, Nerd, quero todas as informações sobre segurança do museu, os guardas são treinados? Qual o sistema de alarme deles? Se der merda quanto tempo teremos para correr? Tudo que você conseguir além do que o contato já nos passou até quarta. Quinta já teremos as informações e os planos feitos, aí escolheremos o melhor dia para agir.

— Tem mais uma coisa, aparentemente o contato nos deu carta branca para roubar qualquer outra coisa que vimos de interessante, caso conseguimos, todo o lucro que tirarmos será nosso bônus, aparentemente o nosso cliente tem interesse em tudo, mas o quadro é a prioridade, o que significa que podemos cobrar o preço que for por tudo, além do que ele se dispôs a pagar pelo quadro. — Ressaltou o Sniper, ainda analisando os documentos na mesa — Podemos ir atrás do acervo de armas do memorial de 32, com certeza haveria muitos colecionadores atrás daquelas armas.

— Isso seria quanto mesmo? — Perguntou interessado o Motorista

— 6 Milhões só pelo quadro — disse Sombra

— E quanto podemos conseguir pelas outras coisas no museu? — Perguntou o Sniper.

— No mínimo uns quatro milhões, se conseguirmos vendermos as armas e pegarmos algumas porcelanas da nobreza.

— Dois milhões limpo para cada um, acho que vai valer a pena esse trabalho — respondi juntando as papeladas e entregando ao Nerd para que ele fizesse uma avaliação melhor dos dados.

O silêncio de cada um mostrava bem o interesse que todos tinham no trabalho, não era pra menos, de fato com aquele valor no bolso podíamos escolher quando quiséssemos um novo trabalho sem contar que se completássemos a missão sem nenhum problema, ia fazer nosso nome crescer muito no mercado, mas os riscos só aumentavam quanto mais pensávamos na missão, o veículo não teria como ser rápido, pois a carga era pesada, o lugar era protegido 24 horas por dia, tínhamos que avaliar tudo com muito cuidado, um pequeno erro e estaria acabado, era o tudo ou nada.

Fomos para casa, e nos preparamos para as tarefas do dia seguinte. Ainda sem conseguir nenhuma reação amorosa da Sombra, ela estava fria e distante de mim, não sabia mais o que fazer, mas agora eu tinha algo muito maior na mão que as alterações, sem explicação, de humor da minha namorada.

Saímos pela manhã como um casal qualquer, querendo um programa diferente e cultural para o fim de semana, tiramos fotos das redondezas, sempre usando poses de casais felizes, fazendo um imenso teatro, colocávamos todas as câmeras dos lados externos, entrada de funcionários e tudo mais que um casal comum não se importaria em prestar atenção em quadro nas fotos, afinal tudo aquilo eram itens simples que estão presentes em todos os lugares. Algo tão comum que a mente de uma pessoa normal nem se quer dá uma mínima importância, logo notei um problema, a distância entre a porta do museu e onde estaria o nosso veículo de fuga, tinha que pensar em uma forma de contornar essa situação.

Assim fomos visitando todo o museu do Ipiranga, sem dar atenção aos detalhes artísticos, que não fossem saídas e entradas alternativas, horários de picos e troca de seguranças. Finalmente chegamos ao nosso objetivo, na sala das "imagem que recriam nossa história" lá estava ele, a "A Fundação de São Vicente" uma grande obra de arte, 2x4 metros para ser mais exato, com certeza teríamos uma grande dificuldade em conseguir levar aquilo, mas eu confesso que adoro um desafio, e aquele era, literalmente, o maior de todos. Depois de marcarmos todas as saídas e as possíveis rotas que poderíamos fazer com o quadro, fomos atrás de outros ambientes próximos que pudessem ter coisas mais interessante para nosso bónus, chegamos a ver o acervo de armas e uniformes no memorial de 32, um vestido de noite dos anos 20 e as porcelanas que um dia pertenceram a uma baronesa de Jundiaí.

Passamos todo nosso domingo visitando o museu, assim como fizemos no sábado e na sexta e eu sinceramente não aguentava mais brincar de namorado fazendo passeios culturais, conhecia cada centímetro daquele museu, cada degrau, entrada e saída, poderia fazer todos os caminhos de olhos vendados e era exatamente esse o nosso objetivo, conhecer cada palmo do lugar, era hora de irmos fazer nosso trabalho e aquele sim era algo divertido para fazer. Marcamos de nos encontrar novamente na mansão da paulista para podermos nos atualizar de todos os fatos pesquisado até então e poder começar o projeto.

Sentamos todos na mesa, resolvemos começar pelo mais simples e o primeiro passo de todos, transportes e caminhos.

— Vamos pelo início, Motorista, o que você tem para nós?

— O caminho é simples, temos bastante avenidas e uma estrada por perto, isso vai facilitar muito a nossa vida, afinal teremos que entregar o quadro em outra cidade, o que em minha opinião foi uma péssima pedida, pois não teremos muitas opções para despistar a polícia, caso algo de errado, mas tenho um plano bom para isso.

— Ótimo, e qual seria?

— Achei melhor termos dois veículos, um para pegar o quadro, e um mais rápido e mais discreto para pegarmos a estrada, algo mais condizente com a viajem. Pensei em uma van, uma Splinter ou coisa do tipo, para o roubo, assim algum de nós pode ficar na traseira com o quadro para garantir que não aconteça nenhum acidente no caminho, quanto à estrada pode ser um VUC mesmo, tem espaço o bastante para todos, é seguro para o quadro e podemos disfarçar como um caminhão de mudança qualquer, já estou cuidado da papelada também, caso haja um imprevisto na estrada.

— Fechado então, vou providenciar para que nossos veículos particulares estejam próximos ao ponto da entrega, assim que entregarmos os quadros, pegamos nosso dinheiro e já saímos. Um trabalho deste tamanho não podemos marcar nenhuma bobeira. Nerd, o que você conseguiu?

— Bem, já não é novidade o ramo de assaltar museus aqui no Brasil, o bom que isso aconteceu poucas vezes e ninguém nunca pensou em levar algo desse tamanho antes, o que facilita nossa vida. O sistema de segurança é bom, mas nada comparado a bancos ou residências de alta classe. Empresa de segurança terceirizada, com porte de arma, mas pouco treinamento e nenhuma ação em seus currículos, a barriga saliente ajuda nossa vida também. A segurança eletrônica, por outro lado compensa um pouco pelos guardas, temos um alarme silencioso em contato direto com a polícia, que fica a poucas quadras dali, se fomos trabalhar de dia, teremos vantagem da polícia ser atrasada pelo transito, mas teremos muitas testemunhas, sem contar que esse tipo de roubo cara de pau só funciona em filmes, o que não é nosso caso.

— É possível desativar ou desviar do alarme?

— Com uma pessoa como eu junto? Claro, não me faça perguntas idiotas, por favor. Posso instalar um embaralhador de sinal no telhado do prédio, isso vai atrapalhar qualquer tipo de comunicação da segurança com a polícia, uso um aparelho para interceptar o alarme silencioso, e um blackout deve nos dar tempo o bastante para entrar e sair com o quadro antes que as câmeras voltem a funcionar, mas não muito tempo.

— Quanto tempo?

— De 10 a 20 minutos, depende do tamanho do estrago que formos fazer.

— A gente sempre faz muito estrago. Eu e a Sombra andamos passeando pela redondeza, realmente não tem como fazer o serviço de dia, o quadro é muito grande para conseguirmos levar ele com um golpe, e o transito iria atrapalhar nossa vida tanto quanto a polícia. Temos boas entradas e saídas de funcionários, podemos usar elas, vamos nos misturar como uma equipe do museu, ele vai entrar em reforma semana que vem, com isso, conseguimos a vantagem que precisamos, vamos colocar uma Van em um acesso mais tranquilo durante o dia. Nerd, você vai ficar no telhado cuidando do alarme, Motorista, fica nos aguardando com o veículo, quando conseguirmos pegar o quadro te daremos um sinal, você entra na praça em frente e nos ajuda a carregar ele. Eu, Sombra e Sniper faremos todo o serviço de dentro. Sniper, use somente armas não letais, ninguém está nos pagando para matar, somente para roubar. Quando limparmos todo o caminho e chegarmos no quadro, daremos um sinal ao Motorista, ele entra e nos ajuda a levar o quadro ao carro, enquanto isso a Sombra vai buscar nosso bônus, todo o plano irá durar 10 min. Nerd, você terá que desativar o alarme quando estivermos já dentro, como parte da equipe de manutenção. Eu, Sombra e Sniper teremos 5 min para pegar o quadro e sair, Sombra, você terá somente 5 min para pegar nosso bônus e nos encontrar no veículo, o que não der para pegar fora desse tempo deixe para trás.