Minha cabeça se enchera de perguntas durante a noite, odeio quando isso acontece, só torna mais difícil o meu sono, o que faríamos depois? Não no dia seguinte, mas no futuro. Depois que entrássemos na trilha da Sombra e quando finalmente a encontrássemos. O que faríamos? Daríamos a ela a chance de se explicar? Mataríamos ela? Perdoaríamos ela? Como Líder eu não poderia deixar que o sentimento influenciasse em minhas decisões, o que ela fez foi errado e eu tenho certeza que todos ali iriam querer arrancar pessoalmente um pedaço dela e guardar como suvenir. Mas era meu lado "humano" que me preocupava. Pensando como Líder a escolha era fácil, mas pensando como namorado, ou melhor, ex-namorado dela, as coisas complicavam completamente. Com certeza não seria uma decisão fácil de ser tomada, mas eu precisava ir pensando em qual seria a melhor atitude, para não fraquejar no momento decisivo.

No dia seguinte, quando desci do meu quarto vi que todos já estavam prontos para a missão, notei que cada um se encontrava em um canto da sala, motorista estava encostado a janela a minha frente, fumando seu cigarro olhando o movimento da rua, novamente sem nenhuma descrição, afinal a janela era praticamente de sua altura e qualquer um que passava pela rua reparava uma pessoa grande, mal encarada fumando seu cigarro com a melhor cara de filósofo que ele conseguia fazer; Nerd estava a minha direita, sentado no banquinho que era praticamente metade de seu tamanho, apoiado no bar da sala, a sua frente sua pasta com os equipamentos necessários para o dia, ele iria precisar de seu note e eu não poderia mais proibir que todos tivessem acessos a seus computadores e celulares, se quisesse ajuda deles teria que confiar em todos nesse ponto, hoje em dia ficar sem pelo menos um celular faz a pessoa se sentir novamente na idade da pedra. Sniper estava no lado oposto da sala, perto da estante com livros que nunca ninguém havia aberto para ler, estavam lá somente para enfeitar e juntar pó, ele aproveitava da mesa perto do sofá que se acomodara, para limpar e montar sua 9mm e seu rifle.

A sensação de um clima plástico e artificial ainda pairava sobre o ar, mas nada podia ser feito a respeito daquilo, deveríamos continuar em frente. Descemos todos para a garagem, nenhuma palavra havia sido mencionada até então, todos sabiam o que tinha que ser feito e até então não havia nenhum segredo ali, era uma missão muito simples, apenas observar. Era fato que aquela manhã chuvosa havia tirado até mesmo o ânimo assustador do Nerd. Ao abrir a garagem, o silencio constrangedor fora substituído pelo barulho das gotas d'água se chocando com o chão, era um barulho até mesmo confortável, mas o silêncio ainda estava incomodando a todos. Motorista então resolveu ligar o som do carro para abafar melhor o momento e arrancou com o carro rumo ao local onde ele havia descoberto ser a central das pessoas que possivelmente haviam ajudado a Sombra em sua fuga.

Todos apreciavam a chuva caindo sobre o para-brisa do carro, presos no transito da Avenida Marques de São Vicente. Por um momento me desliguei do mundo, ficava vendo os movimentos das pequenas gotas que dançavam ao lado de fora do carro, seguindo sem rumo guiado apenas pelo vento que a guiava, levando elas de encontro a superfície fria do vidro do carro, para serem bruscamente arrastadas pelo limpador de para-brisa. Dava até para tirar uma grande metáfora em relação a vida com tudo isso, mas eu não estava muito no clima de ficar filosofando sobre os momentos difíceis que a vida reserva para nós. Talvez minha vontade de fazer a metáfora estava sendo conduzida pela letra da música que tocava ao fundo de todo o cenário, "Adeus você/ Eu hoje vou para o lado de lá/ Eu tô levando tudo de mim/ Que é pra não ter razão pra chorar/ Vê se te alimenta e não pensa que fui por não te amar". Sério, eu poderia escrever um livro inteiro de autoajuda com todo esse cenário, ou talvez eu pudesse ler um livro inteiro de autoajuda, não sei direito qual será a alternativa certa, mas sei que os Los Hermanos não estavam me ajudando muito agora.

Depois de um tempo, finalmente chegamos em um prédio, próximo à avenida Pompéia, de acordo com o Sniper, lá seria um ponto perfeito para observarmos com segurança. Motorista havia nos dito que as pistas dele haviam indicado que o grupo estava alocado em um terreno que supostamente estavam construindo um bairro novo, planejado, cheio de prédios. A construção existia de fato, não era abandonado ou embargado, o que dava um disfarce bom, junto com os caminhões que eles tinham, poderia até afastar bem os curiosos e policiais, mas isso nos dava uma imensa vantagem em observar eles de longe sem levantar suspeitas.

Fomos para o terraço do prédio, sem encontrar nenhuma dificuldade no caminho, algumas identidades falsas que o Nerd havia preparado para nós foi suficiente para convencer a segurança na portaria que éramos de uma empresa de telefonia móvel e que estávamos ali para fazer uma manutenção na antena que se localizava no topo do prédio. Hoje em dia é muito comum, prédios terem isso, principalmente os comerciais, com isso eles conseguem tirar um lucro e abater de algumas contas do condomínio.

Lá em cima nos posicionamos, Nerd e Motorista ficaria de vigia, caso algum segurança viesse acompanhar nosso trabalho, eu e Sniper chegamos perto do parapeito para olharmos de cima quem entrava e saia do terreno em construção. com o muro alto, construído para evitar que funcionários caíssem acidentalmente de terraço, tivemos um pouco de dificuldades para nos ajeitar, Sniper conseguiu improvisar um degrau e subiu na mureta, se ajeitando com a maior naturalidade sentando ali mesmo, com as pernas balançando fora do prédio, nada daquilo o incomodava, era como se ele fizesse isso desde pequeno, seu jeito frio o ajudava em não demonstrar medo e desconforto nessas ocasiões, era como se ele não se importasse caso caísse, mas isso não era uma ideia que eu cogitava, não era muito fã de alturas e os ventos fortes nesses lugares sempre me davam uma impressão que iriam me arrastar para baixo. Preferi então ficar em pé no degrau, que já me dava altura suficiente para me debruçar na mureta e ver tudo com o binóculo.

Horas se passavam e nada acontecia, já estávamos revezando nas tarefas, somente Sniper, continuava em sua posição como uma águia no ninho, esperando surgir sua presa, olhando através da mira de seu rifle que ele havia desacoplado, não precisaria de toda arma, somente da mira que servia como um binóculo no qual ele já estava habituado a olhar através dela.

O sol estava já se pondo, quando Sniper esboçou uma reação, me chamando logo em seguida.

— Eu sei quem ajudou a Sombra — disse ele ainda sem tirar os olhos de sua mira. — Passou uma pessoa pela janela do escritório, a princípio achei que era mais um comprador, mas depois que consegue ver melhor consegui identificar perfeitamente quem era.

— Como sabe que é essa a pessoa certa?

— Nós trabalhamos juntos já. Seu nome é Fatboy.

Não havíamos conseguido o que esperávamos, mas pelo menos não íamos sair de lá de mão vazias, conseguimos identificar a pessoa que havia ajudado a Sombra, era um tiro no escuro, nada nos garantia que era de fato aquela pessoa que havia ajudado, poderia ser tudo uma imensa coincidência, mas ainda era melhor que nada.

— Bem, então vamos precisar de uma forma de entrar lá e extrair o Fatboy — Disse já pensando em um plano e como poderíamos fazer isso o quanto antes.

— Não vai precisar — respondeu o Sniper, finalmente descendo de seu ninho. — Fatboy é um mercenário como nós, trabalha sozinho, deve estar com esse pessoal para um freela, provavelmente pagando pelo favor por ter resgatado Sombra. É só ter um pouco de paciência e vamos ter nosso encontro.

Paciência, uma característica bem forte em quem consegue passar um dia olhando através de sua mira, esperando seu alvo e o momento perfeito para puxar o gatilho. Algo que era forte em mim também, para esperar o melhor momento, para poder planejar com mais perfeição e reduzir as chances de riscos de todos que estão comigo, mas por algum motivo eu havia perdido aquilo, havia perdido a paciência e não sabia nem mesmo o porquê disso, talvez por se tratar de uma busca vingança, talvez por querer um pouco de minha vida de antes de volta, ou por querer a Sombra novamente ao meu lado. Novamente estava sendo atingindo pelos pensamentos do que teria que fazer em seguida.