Por cima dos ombros.
10 Capítulo 10
Ao retornarmos a casa, sentamos todos no sofá de couro escuro na sala, eu a poltrona na ponta do ambiente, a minha frente Sniper, na outra poltrona e no sofá ao meu lado ficaram Nerd e Motorista.
— Bem, sabemos já quem ajudou a Sombra, agora precisamos pensar em como iremos tirar essa informação de Fatboy — Comecei já querendo acelerar o processo, estava ansioso para que tudo isso acabasse logo.
— Fatboy trabalhou com a gente por um bom tempo, acho que podemos pelo menos dar o mérito de uma abordagem mais, cordial, se me entendem. Não vejo necessidade de chegarmos com violência. — Respondeu Sniper, ainda mantendo sua calma.
— Uau, nunca achei que fosse viver para ouvir o Sniper dizer para não usarmos violência. — Disse Nerd em um tom cômico.
— Bem, acredito que você tem razão, Sniper, afinal Fatboy é um mercenário, deve ter seu preço. — Disse colocando um pouco de razão aos meus pensamentos, tentando controlar um pouco mais as emoções. — Amanhã vamos observar Fatboy, ver se conseguimos extrair alguma coisa antes mesmo de entrar em contato com ele, para depois tentarmos conversar.
Após terminar de falar, o silêncio se prevaleceu na sala, nem mesmo o barulho de um relógio ticando havia, pois na sala não havia nenhum relógio. Para amenizar o constrangimento, acabei esticando o braço e pegando um jornal velho que se encontrava na mesinha de centro da sala, talvez tivesse sido melhor não ter feito isso, pois o jornal era tão velho que todos ao perceber esse detalhe, começaram a bater em retirada, como se tivessem entendido que eu havia feito aquilo para ignorar o fato deles ainda estarem na sala comigo. Confesso que de fato essa era minha intenção, mas somente depois percebi que havia feito isso de forma tão grosseira. Minha mente andava tão barulhenta que não conseguia mais raciocinar e ver todos os detalhes de minhas atitudes, precisava dar um fim naquilo.
Levantei da poltrona e coloquei o velho jornal no mesmo lugar que o havia tirado, ele nunca saia de lá. Subi as escadas e entrei em meu quanto, fechando a porta. Junto ao meu quarto tinha um escritório, um dos pontos mais isolados da casa, era lá que passava maior parte do tempo quando estava em casa. Aproveitei o momento para sentar na escrivaninha, puxei meu caderno e comecei a escrever, sem motivo e sem nenhum assunto específico, apenas colocando no papel todos os pensamentos que passavam por minha perturbada mente. Gostava de fazer aquilo de tempos em tempos, ajudava a esvaziar minha cabeça e escrevendo redizia a velocidade de meus pensamentos, ficando mais fácil assim refletir sobre o assunto. Página e páginas depois, me cansei de escrever e acabei jogando o corpo no encosto da cadeira, era obvio que o único tema que perturbava minha mente era a traição da Sombra, mas aquilo ajudara a acalmar minha mente e agora conseguia pensar de forma mais clara, estava assim pronto para me preparar para a próxima missão, usar de toda estratégia necessária e evitar qualquer tipo de problema que poderia ter. Voltei a escrever, só que dessa vez, focando em ideias e planos para dar continuidade a nossa busca
Mais um dia estava chegando, mais uma manhã nascendo e novamente o clima plástico estava reinando em minha casa. Tinha certeza de que nunca iria me acostumar com aquilo. Tomei café em silêncio sentado na mesa da sala de almoço, a luz da manhã entrava pelas janelas atrás de mim e iluminava muito bem o ambiente, com as paredes e os pisos brancos, o local ficava extremamente claro. Junto comigo estavam todos, embora já tivessem comido e estavam lá somente para fingir que me faziam companhia.
— Tem alguma ideia de como conseguiremos entrar em contato com Fatboy? — Perguntei a Sniper, colocando minha xícara de volta a mesa.
— Acredito que nada tenha mudado com o tempo, se estiver certo, Fatboy ainda deve usar as mesmas formas de entrar em contato e ainda deve usar o mesmo lugar para retirar seu pagamento. Isso nos dá duas oportunidades, podemos atrair ela como um cliente, ou acamparmos em seu local de pagamento e conversar com ela ali mesmo. — Me respondeu Sniper.
— Ótimo, onde fica esse lugar?
— Uma praça na Alameda Santos, em cima da Av. 9 de Julho. A praça fica em cima de um estacionamento subterrâneo que tem mais de uma saída, isso acaba sendo um ponto muito vantajoso a ela, caso alguma coisa de errado, ela tem uma rota de fuga fácil, caso ela precise resolver algo de forma mais discreta, o estacionamento lhe fornece toda cobertura que precisa.
— Parece ser de fato um excelente local para esse tipo de coisas, por que nunca usamos ele também? — Perguntou o Motorista, querendo parecer interessado no assunto.
— Muito descampado e com muitos prédios ao redor, eu nunca me sentiria confortável em fazer uma transação ali. — Respondeu de imediato o Sniper.
— Como discutir com um profissional — disse Nerd.
— Nerd e Motorista, quero vocês nessa praça a partir de hoje, em algum momento Fatboy irá aparecer, quando isso acontecer quero que vocês a sigam para onde ela for, vamos ficar no encalço dela o máximo que pudermos, vamos ver se ela não acaba nos levando a Sombra — Passei o comando.
— E vocês? — Me perguntou Motorista.
— Ficaremos aqui em casa mesmo, ela pode reconhecer o Sniper e comprometer a missão e eu preciso por umas ideias no lugar ainda para desenhar uma estratégia do que faremos depois. Acredito que somente vocês dois será o suficiente para essa missão.
Confesso que minha justificativa era um pouco falsa, não tinha mais nada para resolver ou coisa assim, estava começando a fazer pequenos testes de confiança, iria aos poucos soltar mais as coleiras de meus colegas, queria agora parecer a eles mais abalado, caso ainda tivesse um traidor embaixo do meu teto, essa poderia ser uma grande chance para ele querer me atacar, então estaria pronto para isso. Caso contrário poderia ficar mais tranquilo com o passar do tempo. As ideias fluem bem mais facilmente quando esvazio minha mente, estava satisfeito com isso.
A noite daquele mesmo dia, Nerd e Motorista marcaram plantão na praça. O terreno em declive ajudava eles a encontrar um bom ponto de observação, de lá conseguiam ver toda a praça, que não era muito grande, do tamanho de um pequeno quarteirão. Como Sniper havia descrito antes, o terreno era de fato descampado e havia muitos prédios ao redor, junto com algumas árvores. Havia vários bancos, cada um deles ocupados por grupos de adolescentes ou pessoas que haviam saído do trabalho e estavam ali para descansar e apreciar a vista, que não era muito diferente do que o pessoal de São Paulo já está acostumada a ver.
— Já estamos em posição Líder — disse a voz do motorista no Nextel em minha mão
— Só para saber, tem algo que devemos tomar cuidado em relação a Fatboy? — Perguntou Nerd pelo rádio.
Olhei para o Sniper, esperando a sua resposta, afinal era fato que não tínhamos nenhum detalhe sobre Fatboy em si. Ele deu uma risadinha e pegou o rádio de minha mão para responder.
— Podem ficar tranquilos, Fatboy é apenas um Hacker, ela é inofensiva.
— Ela? Ele disse "ela"? — Se exaltou Nerd.
— Positivo senhores, Fatboy é uma garota, fiquem atentos aí para uma garota, por volta de 27 anos, baixinha, provavelmente mexendo em um celular ou um tablet.
— Você acaba de descrever 30% das pessoas aqui da praça Sniper, pode ser um pouco mais específico? — Respondeu Motorista
— Ela usa óculos e possui uma tatuagem de uma cereja em seu ombro direito.
— Acredito que temos uma pessoa que se encaixa no perfil, vou mandar uma foto para confirmação
Alguns segundos depois, meu celular vibra com a notificação de uma nova mensagem de Nerd, ao abrir vejo uma foto de uma garota de aparência delicada, sentada sozinha no banco apoiada com os cotovelos em suas pernas e mexendo freneticamente em seu celular, a camiseta larga, com a gola bem grande caia sobre o ombro deixando à mostra sua tatuagem, que se encaixava com a descrição feita por Sniper.
— É ela mesmo, que sorte que vocês deram rapazes, no primeiro dia já conseguiram encontrar o alvo. — Disse o Sniper.
— Bem senhores, a partir de agora manteremos silêncio no rádio, quero um retorno de vocês dentro de 12 horas com o máximo de informação que conseguirem a respeito dela, ok? — Disse no rádio, passando minha última ordem do dia.
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