Fomos dormir e aguardar o dia do encontro. Falei para o Motorista dormir em minha casa, onde eu pudesse manter o olho nele e ter certeza que ele não enviaria nenhum sinal, caso tudo aquilo fosse uma cilada. Pedi para ele deixar todos seus celulares e aparelhos eletrônicos em minha posse e ele aceitou sem nenhuma resistência, talvez as intenções e a história dele fossem verdadeiras, mas eu não arriscaria descobrir da pior maneira.

Chegamos ao local e ainda tivemos que aguardar um tempo, teria uma grande chance de a mensagem não ter chegado a ninguém ou até mesmo ter sido ignorada, mas só teríamos certeza disso na próxima hora, até lá teríamos que ser muito pacientes. Peguei um cigarro e vi o Motorista imitar meus movimentos com o cigarro dele, olhando para mim no meio das fumaças que pairavam entre nossas pessoas, no momento ninguém se sentiu confortável o bastante para querer sentar no banco, não queríamos parecer relaxados e calmos em uma situação onde não era nada além de tensa. A praça estava com um pequeno movimento, apenas jovens querendo um lugar discreto para namorar, fumar e beber sem ser visto por seus pais, o outro lado da rua que continha o maior movimento, carros parando e saindo dos valets, pessoas fumando na frente dos bares, ali era uma região cheia de bares e restaurantes que tinha alta frequência dos alunos da universidade ao lado.

— Então, está trabalhando com o que? — Me perguntou, quebrando o silencio constrangedor que havia no momento.

— Assistente de marketing em uma empresa de comunicação, mas aposto que você está perguntando isso somente por educação. Desde quando você tem me observado?

— Não faz muito tempo que consegui te localizar, não foi muito difícil já que você voltou a usar seu nome verdadeiro, fiquei na sua cola por uns dias para ter certeza que não havia ninguém que pudesse ser uma ameaça para mim ou para você mesmo.

— A única ameaça que existe para sua preocupação, sou eu. Qual foi a última pista que você teve da Sombra?

— Ainda continuaremos nos chamando pelo codinome? Nunca mais poderei mencionar seu nome ou de qualquer um dos nossos amigos?

— Agora mais do que nunca, antes achava que conhecia todos vocês muito bem, agora vocês são meros desconhecidos para mim, tanto quanto seus nomes. Para de me enrolar e desembucha logo.

— Você não prefere que eu comece quando eles chegarem mais perto. — Respondeu o Motorista apontando com a cabeça do outro lado da praça, onde eu pude ver Sniper e Nerd se aproximando.

— E não é que quem está vivo, de fato, sempre aparece — disse o Nerd em tom de sarcasmo.

— Vamos ver então se quando ele morrer ele vai desaparecer então — complementou Sniper puxando, sem pudor, sua arma da parte de trás da sua cintura e apontando para a cabeça do Motorista.

— Abaixe essa arma, ninguém morre hoje, muito menos em uma praça pública, você quer voltar para cadeia? — Respondi, colocando minha mão sobre a arma e forçando ela para baixo. Para a sorte de todos, os jovens ali presentes estavam mais preocupados com suas drogas do que com as pessoas perto deles.

— Que ótimo, mais um dia com pessoas apontando armas para minha cabeça — disse o motorista, soltando um último trago de seu cigarro.

— A gente vai ouvir o que ele tem para nos dizer, depois vamos decidir o que faremos com ele. — Disse, esperando uma resposta positiva de ambos

— Olha só quem voltou a ser nosso Líder — respondeu o Nerd — Ok, o que você tem a nos contar?

— Em primeiro lugar, eu nunca traí vocês, o que houve foi bem diferente do que vocês estão pensando.

— Claro, por um momento eu achei que tinha passado um mês inteiro numa cela porque você tinha nos denunciados. Agora tudo ficou mais claro. Talvez essa ideia tenha sido apenas uma viajem de ácido. Só que sem o ácido. — Respondeu prontamente o Sniper.

Aquela noite não seria nada fácil. Convencer os dois de que eles não haviam sido de fato traídos seria muito mais difícil que o Motorista imaginava, mas isso não era um problema meu. Na pior das hipóteses haveria um cadáver sentado em uma praça no meio do bairro de Higienópolis. Puxei mais um cigarro e comecei a ouvir o que ele tinha a dizer.

— Sim vocês pagaram o pato por tudo, mas eu não traí ninguém, muito menos denunciei ninguém para a polícia. — O Motorista acabou contando a eles a mesma história que havia me contado no dia anterior, a reação dos outros também não foi muito diferente da minha.

— E você conseguiu encontrá-la? — Perguntou o Nerd.

— Claro que não, primeiro, ela é a Sombra, ninguém acha ela, e outra coisa, se ele tivesse conseguido você acha que ele estaria aqui se explicando? — Respondeu, acertando em cheio, o Sniper

— Você tem razão, eu não consegui encontrá-la, minha última pista era um beco sem saída e a trilha esfriou, foi por isso que voltei, eu sei que juntos podemos encontrá-la, com as informações que eu tenho, mais toda a experiência de vocês, conseguiremos encontrar uma nova trilha que nos levará a ela.

— Então, já ouvimos a sua pobre história, agora, o que faremos? Alguém tem uma ideia? — Falei, pisando na bituca que tinha acabado de jogar no chão.

— Eu acho que podemos ver no que dá isso, vamos caçar a sombra, assim teremos a chance de fazer ela se explicar e pagar pelo que fez. — Respondeu o Nerd.

Sniper não opinou, apenas demonstrou claramente que não concordava com a ideia, sua vontade de puxar o gatilho era maior que a de encontrar a Sombra, mas não havia nada ali que ele pudesse fazer e ele sabia disso.

— Parece um plano para mim, vamos para minha casa, faremos lá a nossa base até encontrarmos a Sombra. — Disse, pondo um fim na discussão.

As coisas não seriam nada fáceis daquele dia em diante, o convívio com o grupo nunca mais seria o mesmo. Morávamos juntos agora, acordávamos quase no mesmo horário, não íamos mais para nossos empregos, nossas vidas seriam completamente diferentes agora, iríamos iniciar a busca de alguém especialista em não existir. Já ali conseguia ver que os dias seriam bem longos.

O clima da casa estava muito estranho, tudo parecia calmo, como se nada tivesse acontecido, mas ao mesmo tempo esse era um cenário plástico, falso, como algo mal escrito em um livro ruim. Era possível ver a falsidade reinando na casa, mas havia um motivo para todos estarem fingindo que tudo estava bem, cada um lá tinha um objetivo e por isso toleravam um ao outro. Motorista precisava de nós para provar sua inocência e tirar sua cabeça da guilhotina, Sniper queria sua vingança, ainda mais se ela viesse com um peso a mais em seu bolso, era a única coisa que o convencia a fazer algo, como todo bom mercenário; o Nerd, bem, ele era o mais estranho, estava lá realmente fingindo que tudo estava bem e que ninguém ali iria matar o outro caso houvesse um movimento muito brusco, somente o fato de estarmos "juntos" novamente, para ele bastava, era o que ele queria.

Mas o que era mais estranho para mim, era que conseguia ver claramente ali a intenção de cada um, a verdade por detrás das máscaras plásticas que usavam, mas não conseguia fazer isso comigo mesmo. Não conseguir ver qual o verdadeiro motivo pelo qual me encontrava reunido aquele grupo. Chega a ser engraçado o fato de que nunca conseguimos ver em nós o que vemos nos outros, por mais que seja algo comum, algo já visto antes, os defeitos que você enxerga em uma pessoa ao seu lado, você nunca a verá em você, mesmo que essa seja uma característica clara de sua personalidade. E ali estava eu, sem conseguir ver em mim mesmo, qual o verdadeiro motivo pelo qual estava na mesa junto aos outros.

— Bem, vamos do começo, Motorista, por que você não compartilha com a gente como foi sua busca até o momento para a gente ver se encontra uma trilha a seguir? – Perguntei com a esperança de conseguir as respostas o quanto antes.

— Eu a segui até São Paulo, não foi fácil, mas ela não teria muito para onde ir na estrada que eu não pudesse ir atrás, quando chegamos aqui foi que a coisa complicou, como ela estava com uma moto acabou ficando muito mais complicado de seguir ela, sem contar que também não tinha como eu seguir ela discretamente com meu carro. Enfim, a perdi de vista quando chegamos na cidade.

— O que ela fez? Entrou em alguma viela? Uma favela? – Perguntou o Nerd atrás de qualquer pista possível.

— A princípio sim, mas foi quando chegamos na região da paulista que a coisa complicou, o transito lá é constante, ainda mais com as obras que estão fazendo, o transito fica pesado e constante, ela usou dos corredores, passava entre os carros e eu acabei ficando para trás. Provavelmente havia planejado tudo desde o início. Quando consegui finalmente sair da paulista, achei que já era tarde, então resolvi tomar o rumo de casa, quando estava passando pela Barra Funda, vi que tinha um caminhão fechando o baú e antes de fechar ela por completo, notei que havia uma moto lá dentro, parecida com a que a Sombra utilizou para fugir, anotei a placa e essa foi o meu ponto de partida.

— Mas você não chegou a ver ela em si, somente a moto, certo? — Perguntou o Nerd.

— Infelizmente, mas ninguém pegaria a moto dela atoa, ela deve ter tido algum tipo de ajuda.

— Certo, Motorista, passe essa placa para o Nerd, quero todas as informações possíveis desse caminhão, de quem é, como é, é roubado? Tudo que for possível tirar dele eu quero saber – Ordenei já tendo um ponto de partida para começar

— Você acha realmente que eu já não fiz isso antes? – Indagou o Motorista.

— Você não vai se importar se refizermos seus passos não é verdade, na pior das hipóteses empacaremos no mesmo ponto que você e isso pode te favorecer um pouco. O que mais você teve depois disso?

— Bem, eu descobri que o caminhão não era roubado e pertencia a uma empresa. Coisa mascarada. Fui atrás da empresa, mas é uma fortaleza, à primeira vista você não vê nada de errado nela, não tem como criar uma suspeita, passei meses observando e pesquisando sobre eles para conseguir descobrir o que eles fazem de fato. Compra e venda de armas, além de assassinatos, coisas de gangs, negócios pequenos, mas são muito organizados.

— Provavelmente ela deve conhecer alguém da época que ela trabalhava antes de se juntar a nós. – Deduzi

— Sniper, você era parceiro da Sombra antigamente, tem alguma notícia de seus parceiros antigos que possa nos ajudar aqui?

— Não sei até onde isso poderia ajudar, éramos todos mercenários freelances, trabalhávamos juntos quando o trabalho nos obrigava, não era como o que tivemos aqui, mas posso dar umas sondadas no grupo, ver se encontro um rosto familiar.

Talvez aquela teria sido nossa melhor pista, pouco sabíamos de fato sobre a vida de Sombra e Sniper antes de nos tornamos um bando, era diferente de como era entre eu, motorista e Nerd que sempre fomos amigos de infância. Tanto Sniper, quanto a Sombra, eram profissionais já antes de nós sequer pensar na hipótese de nos tornarmos no que somos hoje

— Líder, parece que o que o Motorista falou era verdade, o veículo não é roubado e pertence a uma empresa de transportes e mudanças. Acho que teremos que começar por lá mesmo. – Me reportou o Nerd.

— Bem, então já temos por onde começar. Precisamos descobrir tudo que pudermos sobre essas pessoas, quem são, como atuam e o mais importante, como eles tiveram o contato com a Sombra e onde ela está.