A viajem fluiu de uma forma tranquila, realmente o plano tinha corrido tudo bem e ali na estrada, naquele momento de paz, preste a concluir com perfeição o trabalho, eu pude notar o que estava prestes a acontecer, estava junto dos meus melhores amigos e a garota que amava, pronto para receber uma enorme quantia de dinheiro e com aquilo poderia escolher as próximas missões, missões pequenas, seguras, rápidas que serviriam somente para manter uma vida e porque não sonhar em ter uma vida normal? Logo ficaria velho demais para continuar nesse ramo e ainda tinha um sonho de constituir uma família, casar com a Sombra, ter filhos e o mais importante, ter um relacionamento onde pudesse chamar a pessoa que amo pelo seu nome, e não apenas por um código de ladrões. A noite estava linda conseguia ver um pouco pela pequena janela que havia no baú do caminhão, estávamos sentados apoiado nas paredes frias de ferro, Sombra dormindo em meu colo, do outro lado Nerd e Sniper gargalhavam com comentários e piadas idiotas e com um olhar cheio de orgulho.

Logo chegamos no endereço marcado na nossa missão, ouvi o caminhão parando e o motor sendo desligado, logo depois o Motorista abriu o baú, revelando para nós o destino de nossa missão, o que aparentava ser uma casa comum. Confesso que imaginava que seria uma casa maior, uma mansão de algum colecionador de quadros ou coisa do tipo. Faria mais sentido que a troca fosse feita em uma casa que não fosse a do comprador, com certeza era uma ideia muito mais segura. Na garagem da frente já avistei os nossos veículos, tudo estava conforme o planejado, caminhei em direção à porta da casa e toquei a campainha, esperando encontrar alguém para nos receber, talvez o cliente em si ou um representante dele ou até mesmo nosso contato, mas a questão é que eu nunca saberia quem atenderia a porta de fato, pois nunca fiz ideia qual era o rosto dessas pessoas, se algo do tipo acontecesse, seria a primeira vez. Após um tempo não vi nenhum sinal de vida na casa, nem uma luz acender ou qualquer som ser emitido, tentei novamente, e ainda não obtive nenhuma resposta. Meus instintos começaram a apitar, resolvi tentar a maçaneta, a porta estava destrancada, quando abri notei que a casa estava completamente vazia, abandonada, não recebia uma visita em anos. Chamei o Nerd e o Sniper para fazer uma ronda pela casa, se encontrássemos alguém ou alguma pista do que estava acontecendo. Sombra e Motorista guardariam o caminhão e o quadro. Eu fui para os quartos no andar de cima, enquanto Nerd percorria por todo térreo e Sniper olhava os fundos e a área de serviço. Depois de alguns minutos percebi que estava em uma armadilha, depois de um trabalho tão bem feito, cai em uma armadilha igual um animal qualquer, pronto para virar um enfeite na parede de alguém. Corri de volta para o andar de baixo, encontrei o Nerd no meio da sala de jantar e voltando dos fundos, cansado, o Sniper.

— Parece que fomos enganados — disse ao resto do grupo — vamos voltar ao caminhão e procurar um local para podermos despachar esse quadro antes que alguma merda aconteça.

Quando estávamos caminhando em direção à saída, ouvi um som próximo que me fez arrepiar onde nem sabia que tinha pelos, pela primeira vez senti um medo crescer em minha espinha. Sons de sirenes inundavam a sala, estavam próximos, próximos demais para eu ter tempo de criar um plano ideal para todos escaparmos com facilidade, somente uma ideia apontou em minha cabeça.

— RÁPIDO, CORRAM, CADA UM PARA SEU VEÍCULO, NOS ENCONTRAMOS NA BASE DESSA MISSÃO. TENHAM CERTEZA QUE NÃO ESTÃO SENDO SEGUIDOS ANTES DE CHEGAR LÁ

Corri com toda minha força, ao sair à primeira coisa com que me preocupei foi a Sombra e o Motorista para poder avisá-los do que estava acontecendo, mas meus olhos me decepcionaram, não conseguia encontrar os dois, nem mesmo o caminhão, ambos tinham sumido tinha já algum tempo levando junto a mala. Não podia acreditar que tinha sido traído pelas pessoas que mais confiava, havia sido abandonado por elas, deixado para trás, para apodrecer na cadeia enquanto ambos desfrutavam de todo dinheiro em liberdade. Minhas pernas travaram, meu corpo não reagia mais, não conseguia organizar uma linha de raciocínio direito, meu cérebro estava em desespero, tinha caído em uma emboscada e abandonado por minha namorada e meu melhor amigo, o que eu podia fazer? Pela primeira vez não conseguia pensar em um plano ou uma estratégia, por mais simples que poderia ser.

À minha frente, Nerd gritava comigo, chamando pelo meu nome, meu codinome, seus gritos se misturavam com o som estridente das sirenes, cada vez mais perto. Tudo ficou em câmera lenta, por um momento meu cérebro entrou em paz, em um estado de meditação, para mim, os segundos haviam se tornados horas, e essas horas eu usaria para poder ver e entender o que antes não tinha visto.

A missão tinha corrido perfeitamente bem, estávamos já saindo da cena quando a polícia estava para chegar, não deixamos testemunhas nem trilhas, não usamos o mesmo carro do roubo na viajem, não foi através disso que eles nos rastrearam, então como eles conseguiram descobrir onde estávamos? Não havia nenhuma possibilidade disso... a não ser que alguém tenha feito uma denúncia, mas para saber de tal detalhe, onde faríamos a entrega e quando, precisaria ser alguém com acesso a tais informações, teria que ser alguém de dentro.

Até então meu cérebro apenas me deu a certeza do que era óbvio, havia um traidor entre nós, mas eu, Sniper e Nerd estávamos prestes a serem pegos, somente restara Motorista e Sombra como suspeito e isso meu cérebro nunca aceitaria, deveria haver mais alguma coisa que não estava vendo, não podia aceitar isso. No meio da confusão voltei ao que estava acontecendo no momento, e foquei no rosto do Nerd que gritava desesperadamente comigo

— LÍDER, AS CHAVES NÃO ESTÃO NOS CARROS, O QUE VAMOS FAZER? ME RESPONDE CACETE.

— Como assim as chaves não estão lá? — Perguntei sem ainda conseguir processar o que estava acontecendo

— AQUELE FILHO DE UMA PUTA JUNTO COM AQUELA VADIA DEVE TER LEVADO AS NOSSAS CHAVES E NOSSO DINHEIRO PARA TER CERTEZA QUE IRÍAMOS PARA A CADEIA

— Chama a sombra de vadia mais uma vez e você não terá um dente em sua boca para pronunciar o nome dela novamente

— Como você quer que eu a chame então? Admita, os dois fuderam a gente, e se não foi eles quem mais seria? — Ele tinha razão, eu sabia disso, mas não podia acreditar nisso. Não queria acreditar nisso.

— Ainda não temos provas e certezas de que fomos traídos por eles, mas isso não vem ao caso, a polícia estará aqui logo e não conseguiremos fugir, vamos correr para o fim da rua, ficar longe de todas as provas do crime, eles podem nos pegar, mas não terão nenhuma prova da nossa participação no roubo. Corram para o fim da rua e ajam como cidadãos normais, isso vai nos dar um tempo e talvez nossa inocência.

Alguns instantes depois a rua havia sido invadida por policiais, a casa rapidamente tomada, depois um grupo de policiais corriam em nossa direção, eles sabiam quem éramos, sabiam que era a nós que eles deveriam capturar, eles não estavam lá pois sabiam que tínhamos roubado o museu, nem mesmo o quadro e as coisas roubadas estavam na cena. Eu olhei para os policiais, coloquei a mão no bolso, tirei um cigarro, acendi e dei uma tragada. Nerd e Sniper olharam minha reação e admiraram minha calma perante toda situação e isso fez com que eles também se acalmassem, mal sabia eles que por fora eu estava completamente tranquilo, mas minha cabeça, havia simplesmente desativado para evitar a ideia que havia sido traído e abandonado. Para quem passa por isso, a ideia de ser preso e apodrecer em uma prisão não tem nada de assustador, ali, vi todos meus sonhos de uma vida pacata e uma família ser destruída, queimada e consumida como a ponta do meu cigarro a cada tragada.

Os policiais se aproximaram rapidamente, sacaram suas armas apontando para gente e começaram a gritar ferozmente como cães de caça se preparando para atacar suas presas, não estávamos armados, não tínhamos nenhuma prova que pudesse ser usada contra nós, à única coisa de que éramos culpados era por estar perto do local do crime, mas isso não seria o bastante para nos jogar em uma cela pelo resto da vida.

Fomos levados à delegacia da cidade, e depois transferidos para São Paulo, lá passamos a noite, fomos interrogados, pressionados, enrolados, mas não havia nada de fato que poderia ser usado contra nossa pessoa. Não me preocupava nem um pouco com isso, era inútil, minha cabeça estava em outro lugar, havia sido traído, pela minha namorada, pelo meu melhor amigo, abandonado por ambos, como não vi isso acontecer? Tudo ficava tão claro, as atitudes dela e dele, ambos estavam coagindo pelas minhas costas havia tempos já e eu estava cegado pela missão, pelo sonho de poder ter uma vida normal com a pessoa que eu amo ao meu lado. Agora a pessoa que eu amo está em algum lugar metendo um par de chifres na minha cabeça com a pessoa que eu mais confiava, eu era o líder por ser o mais esperto, o mais político e aquele que tinha maior facilidade em visualizar todas as possibilidades, todas as falhas. Praticamente a piada do século, e todos deveriam estar rindo da minha cara agora, até meus colegas de cela, meus colegas de trabalho, que com certeza depois disso também me abandonariam. Seriam burros se não o fizessem, foram presos porque eu tinha um ponto fraco, meus sonhos.