Por cima dos ombros.
3 Capítulo 3
A viajem foi bem tranquila, ainda era começo de tarde da quinta, quando cheguei em uma pacata cidade a aproximadamente duzentos quilômetros ao norte de São Paulo. A cidade estava vazia, não havia muitos turistas por ali no meio da semana e os moradores provavelmente estariam em seus respectivos trabalhos ou simplesmente cuidando de suas vidas.
Tinha uma casa naquela cidade que ninguém sabia da existência, nem mesmo a Sombra, ali era meu refúgio e meu plano de fuga, caso precisasse sumir, ninguém me procuraria ali.
A noite fui em um boteco no centro da cidade, estava vazio, frequentado somente pelos pinguços da cidade. Encostei no balcão de madeira escura, para disfarçar a sujeira do lugar, e pedi ao dono do bar por uma cerveja e logo tinha em minha frente um copo americano sendo completado e embaçando rapidamente devido o choque de temperatura. Após o primeiro gole olhei para a TV, onde vi um jornalista falando na frente de um terreno cheio de entulhos do que antes era um prédio de uma conhecida empresa farmacêutica.
— Hugo, pode aumentar o volume da TV? — Pedi ao dono do bar. Por mais que já fossemos conhecidos de tempos atrás, ele ainda sempre bufava depois que lhe pedia algo, mas isso não assustava ninguém, afinal ele fazia isso com todos.
—...a polícia ainda não tem nenhuma certeza do que houve aqui na madrugada dessa quarta-feira, quando uma imensa explosão acordou os moradores de Santa Teresinha. Os bombeiros alegam que a explosão tenha sido por um vazamento de gás dentro do próprio prédio, junto com alguma pane elétrica que serviu de ignição, causando imensos danos a estrutura...
— Claro, gás e pane elétrica — disse para mim mesmo, terminando a cerveja e deixando o dinheiro em cima do balcão para Hugo, onde ele finalmente apresentava um sorriso.
Fui para casa descansar, para poder finalmente aproveitar minhas merecidas férias, já estava claro para mim que a missão havia sido perfeitamente concluída, o objetivo fora comprido, o dinheiro recebido e distribuído, todos estavam em lugares seguros e a polícia não fazia a menor ideia do que estava acontecendo.
Da mesma forma que ninguém do meu grupo sabe onde estou ou o que estou fazendo, eu nunca fiz a mínima ideia do que eles aprontam durante este período, isso torna as coisas mais seguras e sabemos que podemos confiar uns nos outros, afinal somos todos conhecidos de longas datas.
Era chegada a hora de retornar, e mais importante, a hora da festa, nossa assinatura, nossa marca, onde mostramos a todos o sucesso que tivemos. Éramos bem sacanas nesse conceito, esfregamos na cara de nossos concorrentes que novamente tínhamos sucedido e dessa forma, ampliávamos nosso nome no mercado e com isso mais trabalhos apareciam. A lista de convidados estava crescendo automaticamente, afinal era uma festa aberta, o que significa que basta você convidar cinco pessoas para saber que cinquenta irão aparecer no dia. O local da festa já estava estipulado, assim como todas as bebidas, comidas, tudo comprado com uma grande parte do meu pagamento da última missão, era com isso que eu gostava de gastar, férias e festas, do que mais eu precisava na vida, que ainda não tinha? Grandes amigos, uma excelente namorada, um trabalho que me paga muito bem e que eu adoro fazer e que me dava pelo menos uns quatro meses de férias no ano.
Estava já na estrada a caminho da cidade grande, minha próxima parada seria minha casa, encontrar com meu amor, tomar um banho e me preparar para a festa. Dessa vez ia ser em um buffet, ao melhor estilo festa chique, com direito a bebidas caras, mulheres de vestidos e homens de ternos.
Ao chegar em casa, entrei no apartamento, a luz rosada do fim de tarde iluminava bem a sala, as janelas imensas dispensavam o uso das luzes do ambiente e os poucos móveis dava um ar mais frio e claro ao ambiente, maioria das pessoas achavam que meu apartamento era daquela forma por ter uma arquitetura moderna, mas eu gostava de coisas simples, o pouco que se torna muito e todos esses tipos de clichês básicos. Estranhamente eu não obtive a recepção que esperava, a saudade pelo visto não era tão grande quanto eu achava que seria, aparentemente estava naquela época do mês, perigosa para todos namorados, noivos e maridos. Ótimo, ainda bem que logo teria a festa para podermos relaxar. Encontrei minha namorada deitada em nossa cama, jogada ao meio dela, tomando quase todo o espaço, com o quarto escuro, sendo iluminado somente por pequenas frestas de luz e o reflexo da TV ligada à sua frente, com uma roupa incrivelmente pequena e sexy, o que me deixava completamente confuso, o que ela queria afinal? Ela demostrava duas coisas opostas ao mesmo tempo, o rosto dela mostra como se algo tivesse incomodando todos os sistemas delas e estivesse a ponto de explodir em cima de mim como uma bomba instável e ao mesmo tempo ela se veste como um lindo presente pronto para ser desembrulhado e eliminar, em algumas horas, todas as saudades que sentimos durante o mês. O que fazer nessa hora é sempre um mistério, mas eu sempre prefiro optar pela pior das hipóteses, é melhor eu não fazer nada e ela vir falar que está precisando, do que eu tentar alguma coisa e ter que ouvir que sou do tipo insensível que só pensa naquilo. E pelo visto eu estava certo, tomamos banho e nos arrumamos para irmos à festa, não trocamos quase nenhuma palavra desde o momento que cheguei até irmos para o salão, eu realmente odiava aquela época do mês.
Aos poucos as pessoas foram chegando e a festa foi tomando forma, confesso que não conhecia maioria das pessoas que estavam ali e com certeza elas não faziam ideia do motivo da festa. Maioria deveria acreditar que era um evento beneficente ou qualquer coisa do tipo, uma vez encontrei uma garota que acreditava estar em uma festa de uma grande marca de moda. O importante mesmo era termos sempre bastante dente alo, para a festa chamar atenção sem levantar grandes suspeitas, claro que quem era importante, nós sabíamos quem eram e eles sabiam o porquê estavam ali, esse era o investimento em futuros clientes.
Ficamos sentados em uma mesa, ao fundo do salão, bem ao centro, entre duas grandes pilastras imitando uma arquitetura grega, o salão era grande e vazio de decoração, preferi assim, pois queria ver ele cheio de pessoas, não de flores e quadros sem sentido. Ficamos bebendo, conversando sobre alguns detalhes de nossas férias e dando risadas, depois de algumas taças e copos de bebidas a Sombra já retornava ao seu normal, mas aparentemente esse era um luxo para poucos, na verdade para todos, menos para mim, como se eu fosse o grande culpado de alguma coisa que nem sequer fazia ideia do que era, o que não significava necessariamente uma coisa boa, mas era o que eu tinha para o momento.
O tempo foi passando depressa, já estávamos interagindo com os convidados, conversava com uma pessoa que nunca havia visto antes na vida, mas aparentemente uma pessoa muito culta educada e um pouco mais "alegre" com os efeitos do álcool que deveria. Não sabia mais onde estava minha namorada, mas isso não me assustava, ela tinha amigas ali também, poderia simplesmente estar com uma conversa de garotas normal, algo que não tinha interesse e até um pouco de medo de ouvir.
Um garçom veio em minha direção e disse que havia uma ligação importante para mim na cozinha, acompanhei ele até onde se encontrava o telefone, já sabia do que se tratava, só não esperava receber uma missão em tão pouco tempo.
— Líder, reúna seu grupo, tenho um novo trabalho para vocês — a voz distorcida por programas de computador do Contato era algo que sempre me incomodava, por motivos óbvios, mas ele preferia se manter oculto, nunca soubemos como ele era, mas como ele era responsável pelo nosso pagamento eu não questionava.
— Confesso que não esperava algo tão cedo, nem terminamos de comemorar nosso último trabalho.
— Não se preocupe, este trabalho é grande e vai pagar muito bem. O bastante para você poder escolher qual trabalho aceitar depois. Amanhã à noite, no estacionamento do estádio do Pacaembu, haverá uma Montana branca com a placa DYJ 1823, a chave estará dentro do para-lama do pneu esquerdo e dentro do carro todos os detalhes que vocês precisam. Aproveite a festa.
Assim que voltei ao salão fui à procura do grupo, encontrei o Nerd xavecando uma garota perto da entrada, o Sniper fumando perto da porta, o motorista e a Sombra conversando sozinhos encostados na parede, assim que consegui reunir todos passei a eles às novidades, e tive a mesma reação que apresentei quando soube da nova missão, mas o fato de ser o pagamento mais gordo do ano era algo que incentivava a todos. Fomos curtir o fim da festa, e em poucas horas estávamos caindo na cama, aguardando para saber o que nos esperava para a próxima missão.
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