Por cima dos ombros.
2 Capítulo 2
Chegamos ao local combinado pelo Contato, uma igreja em um bairro próximo na zona norte de São Paulo, era muito cedo para ter alguém ali e aparentemente tudo tinha sido arranjado para que pudéssemos pegar nossa encomenda sem sermos incomodados, o ar frio e a luz baixa do amanhecer dava um clima especial para aquele lugar, era quase como uma piada o Contato ter escolhido uma Igreja, mas era com ele que nosso pagamento ficava, então ele tinha o direito de escolher onde seria a entrega.
Era assim que fazíamos em todas as missões, depois de concluir elas, nos encontrávamos em algum ponto da cidade para receber nosso pagamento. Era a melhor coisa, deixar a parte de negociação com um terceiro, alguém que os clientes poderiam ficar o tempo inteiro de olho para garantir que seu dinheiro seria bem aplicado e sem atrapalhar nosso trabalho. Não tínhamos nenhum contato direto com nossos clientes, não sabíamos seus nomes, se eram homens ou mulheres, tamanho, etnia, nada. Bastava saber se pagavam bem ou não e não precisávamos de mais nenhuma informação além dessa. O Contato era o responsável por essa parte, ele negociava, contatava a gente, passava os detalhes e ficava com o dinheiro já em mãos, todo o tempo sendo vigiado pelo cliente, se nossa missão desse errado, bastava ele devolver o pagamento e ninguém saia machucado, caso contrário, como estava sendo o caso atual, o cliente simplesmente saia da marcação cerrada e ia para casa tranquilamente. Nunca encontramos o Contato cara a cara, para nós ele era apenas uma voz ao telefone, era mais seguro para ele dessa forma e de certa forma, para nós também.
O Contato havia deixado a Mochila em cima de um banco, bem perto da imagem de Jesus, era como se ele próprio estivesse guardando o dinheiro para nós, dinheiro muito bem abençoado. Eu a abri, mostrando seu conteúdo, em cima da maleta havia um gravador, provavelmente o Contato havia deixado ali com alguma despedida gravada para nós.
— Um milhão, conforme o combinado, claro que vocês encontrarão uma quantia menor aí dentro, pois, como sempre, eu tomei a liberdade de pegar minha fatia assim que soube do sucesso de vocês, bom trabalho a todos, entrarei em contato novamente quando souber de algo novo para vocês. Aproveitem um pouco o ambiente e o dia para rezar e confessar seus crimes, sempre bom ter a consciência limpa.
— Parece que ele ainda não confia na nossa divisão. Talvez ache que daríamos uma fatia menor do que você merece.
— Quando se trabalha com profissionais como agente, confiança é uma palavra um tanto quanto engraçada. — Respondeu o Sniper.
— Justo... bem, quem quer contar a grana?
O Contato nunca teve o mesmo gosto por aventuras como nós, era uma pessoa de bem com um grande desejo por fazer dinheiro fácil, muitos amigos e uma lábia impressionante. Era exatamente o tipo de pessoa perfeita para o trabalho que exercia e todos fazíamos questão de nunca o envolver nas missões, se alguma coisa desse errado ele seria a primeira pessoa a sofrer as consequências, isso já era um imenso risco, nem todos poderiam simplesmente aceitar a devolução dos investimentos, mesmo que durante todo o tempo era informado que ele era apenas uma ponte entre eles e a gente, nada além disso, ainda assim as pessoas achavam que machucariam a nós se machucassem a ele.
Começamos a dividir o dinheiro de forma igual a todos, afinal, por mais que as participações fossem diferentes, o risco era sempre o mesmo, portanto nada mais justo que todos recebam a mesma quantia, a vida de ninguém valia mais ali.
Assim que terminamos, fomos ao estacionamento em frente da igreja, nossos veículos já estavam nos esperando ali, desde o começo da missão, foi ali onde recebemos o briefing dela, seria ali que receberíamos o pagamento e onde iríamos nos separar, cada um com seu veículo, seu dinheiro e seu destino. Sempre nos afastávamos por volta de um mês, dificultando assim qualquer pista que a polícia poderia encontrar, se houvesse algum rastro ela levaria a uma trilha que se dividiria em cinco pontas e até conseguirem alcançar o fim de uma as evidencias já estaria fria e as provas eliminadas, "sem provas não há crime", eu devo confessar, eu adoro como as coisas funcionam no Brasil.
Joguei minha mochila no porta-malas do meu Mitsubishi Eclipse e me virei para me despedir do bando, o Motorista guardava seu Camaro como um pai que coloca o filho na cama depois de uma tarde toda brincando com ele, logo ele ia descobrir seu outro carro, um Mustang GT 500 Shelby Cobra, sonho de consumo de todos e eu simplesmente adorava quando ele puxava o manto de cima do carro e dava partida no motor, como eu disse antes, discrição era uma palavra que não existia em seu vocabulário e eu não me importava nem um pouco com isso. O Nerd já ia montando em sua moto, uma Ducati Streetfighter, do tipo que combinava muito bem com o couro de sua jaqueta e as lentes escuras de seus óculos, que seriam extremamente úteis no momento, afinal andar com o sol nascendo bem a sua frente pode ofuscar um pouco a vista, mas não combinavam muito com sua baixa estatura e, bem, vamos dizer que há um motivo mais forte para chamarmos ele de Nerd, além de seu vasto conhecimento em computação e produtos químicos.
Fui até ele e me despedi, um aperto de mão e um abraço
— Vê se não torra todo dinheiro com puta e pôquer
— Vou me esforçar, te conto se consegui mês que vem
Depois fui de encontro ao Motorista, que me esperava para dar a partida em sua preciosidade
— Vê se não torra todo dinheiro no carro — disse quase gritando para sobressair o ronco do motor.
— Toda vez você me fala isso e toda vez não dá certo
— Sou um cara que gosta de tradições e que acredita que um dia as coisas mudam. — O sorriso em meu rosto estampava todo sarcasmo que usei — Te vejo mês que vem na festa.
— Não vejo a hora.
Quando me virei para falar com o Sniper, ele já tinha colocado todo seu equipamento em seu Troller vermelho, em algum tipo de compartimento secreto que ele mesmo havia construído no minúsculo porta-malas do carro, para não ser pego de surpresa pela polícia, já estava sentado no assento do motorista dando partida no motor.
— Não vai nem se despedir de nós?
— Sabe que não gosto muito dessa melação de despedidas e até logo. Daqui um mês já terei que aguentar vocês de novo. — Disse já arrancando com o carro e deixando uma nuvem de fumaça do diesel para trás.
Ele sempre foi o mais frio e calculista do grupo, talvez isso fosse características que o tornavam tão bom no que era, em acertar as pessoas a longas distancia, mantendo a calma, o sangue frio e sempre calculando os momentos exatos de puxar o gatilho.
E por fim, a parte mais difícil, já era errado eu ter um relacionamento com uma colega de trabalho, todos sempre dizem que amor e profissão são duas coisas que não podemos misturar, ainda mais em nosso ramo de atuação. Eu já estava quebrando uma regra, não poderia quebrar outra, por mais que fosse bem difícil para mim eu precisava ainda passar um tempo afastado de minha namorada, sem nenhum contato, tendo apenas a confiança um no outro. Caminhei em direção ao carro, ela era a única que não ia com um veículo próprio para as missões, a única discreta do grupo. Eu a deixaria em algum ponto da cidade, e como toda boa Sombra, ela se dissiparia no ar e chegaria a seu destino pelo seus próprios meios
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