Ao chegarmos em casa, todos sentaram na mesa da sala, não havia comemoração, não havia vitória, mas com certeza havia muitas dúvidas, entre elas, o que faríamos a seguir. Parecia que tinha ficado um gostinho faltando, todo aquele tem, dúvidas e investigações, para encontrarmos nosso inimigo morto pela sua própria covardia.

— Bem, acho que é isso então não? — Disse Sniper quebrando o silêncio de todos — Não conseguimos nossas respostas nem nossa vingança, mas nosso inimigo está morto.

— Acredito que sim — respondi — Acho que nossa missão se encerra por aqui, quem quiser ir embora fique à vontade, quem quiser ficar mais uns dias, serão sempre bem-vindos.

— A gente podia voltar a trabalhar juntos — Falou Nerd — Como nos velhos tempos, só prensar em alguma forma nova de encontrar clientes, o que acham?

— Acho que não vou conseguir pensar numa resposta agora tão cedo — Respondeu Motorista

— Concordo, vamos digerir o que houve primeiro, conversamos sobre isso um outro dia — complementei — Não vamos perder o contato, acho importante nos mantermos unidos, esse foi o ponto onde o Contato tentou nos derrubar e ele quase conseguiu, não podemos baixar a guarda novamente

Todos concordaram e aos poucos começaram a juntar suas coisas e irem embora. Sniper foi o último a sair, até que finalmente sobrou somente eu e Sombra na casa. Subimos e ficamos em meu escritório, mas nenhuma palavra foi dita por um tempo, ambos estávamos ainda refletindo sobre o que aconteceu naquela noite, até que ela finalmente resolveu falar algo.

— O que passa na sua cabeça?

— Tudo, estou achando tudo muito estranho.

— Só porque você não teve o prazer de pegar ele de frente a frente?

— Não é isso, tudo pareceu ser fácil demais

— As vezes a vida ajuda a gente, acredite nisso ou não. Não tem mais com o que se preocupar, você conseguiu mais uma vez, evitou que a gente se matasse, descobriu quem estava por trás de tudo, conseguiu até conquistar a garota — Disse Sombra sentando no meu colo e se evolvendo em meu pescoço

— Mas isso não é um filme, as coisas não podem acabar sem nada fazer sentido só porque alguém decretou que é assim que acaba e ponto. Se sobrou ainda uma ponta solta eu preciso encontrar ela antes que seja tarde e só percebamos quando já estivermos em risco novamente.

— Bem Senhor "devo pensar até todo o universo fazer sentido", fique à vontade aí com seus pensamentos, eu vou para a cama, se quiser me acompanhar fique à vontade, caso contrário, até amanhã.

Minha cabeça estava tão cheia que com certeza não conseguiria acompanhar a Sombra, muito menos dormir, resolvi usar o momento de silêncio e meditar a respeito de tudo que houve, revisando cada momento para tentar encontrar algum detalhe que não tinha visto. Fechei os olhos e passei a assistir tudo desde o começo como se fosse um filme em minha mente.

Começamos com uma operação simples, nada de estranho até aí, mas até então foi a última coisa que não teve nada de estranho, talvez no momento que coletamos nosso pagamento e saímos para nossas férias foi onde o Contato conseguiu planejar tudo, agora que sabia os motivos da Sombra de ter nos abandonado, dava para ter uma ideia que ele já havia se preparado antes de nos encontrarmos novamente. Ali já tinha o começo do estopim, uma garota que provavelmente foi contratada para começar um boato e plantar na cabeça da Sombra que eu estava traindo ela e que ia abandonar o grupo. Depois daquilo tivemos a missão surpresa, a armadilha, com isso dava para entender que o que o Contato queria na verdade era nos separar e nos voltarmos um contra o outro, ele sabia que quando isso acontecesse estaríamos preocupados demais que com alguns detalhes e que não veríamos o fato de que fazia parte do plano dele irmos um contra o outro. Ele sabia que o Motorista iria junto a Sombra, impressionante, ele sabia de tudo, conhecia bem demais nosso perfil, não profissional, mas pessoal, foi aí que ele conseguiu encontrar nosso ponto fraco, com nosso perfil pessoal. Como ele nos conhecia tão bem? Era a primeiro ponta solta que encontrei.

No fim ele não contava com uma coisa, o fato de não termos nos deixado nos levar pelo sentimento de vingança e ódio, se não fosse isso pouco de nós estaríamos vivos. A segunda pergunta surge então, quem era o alvo dele? Quem de nós ele queria morto? Ou ele queria apenas a gente fora do mercado?

Volto a avaliar as coisas, o que houve depois, provavelmente não estava nos planos dele, por isso ele deve ter se matado, se viu encurralado depois que seus planos não deram certo. Era essa a peça que não encaixava no quebra cabeça, isso não fazia parte do perfil de uma pessoa que planejou isso, ele levou seu tempo para avaliar todos nós, conhecer nossas fraquezas, sabia como cada um agiria e onde pressionar. Ele foi paciente e frio suficiente para esperar o momento certo de agir, uma pessoa calculista dessa maneira não iria tomar a saída dos covardes simplesmente por sentir um pouco de pressão e perigo. Então um pensamento me bateu à cabeça, como ele sabia que estávamos já no encalço dele? Claro, havia ali a possibilidade de ele ter se matado por outro motivo que não fosse a gente, mas se considerarmos que fosse esse o motivo, somado a ideia que ele nos conhecia bem, não profissionalmente, mas pessoalmente, ele teria que ter no mínimo convivido com a gente um bom tempo, nos conhecer no nosso dia a dia. Ele era um de nós.

Não conseguia lidar com a ideia de que novamente o traidor era um de nós, um de meus amigos, novamente esse pesadelo voltava. Minha cabeça girava, quem poderia ser? Poderia eu estar errado? Quase me faltou ar nessa hora, parecia que esse pesadelo nunca terminava, era um labirinto sem fim, toda vez que via uma luz no fim do túnel achando que tinha encontrado a saída dele, percebia que novamente estava perdido. Resolvi deitar na cama e dormir um pouco para ver se no dia seguinte, com as energias recarregadas, conseguia analisar melhor tudo que tinha, mas novamente teria que ir atrás disso sozinho, novamente, não podia confiar em ninguém.

Acordei incomodado, um sonho extremamente realista, acordei com o sentimento que ainda estava nele, que o que eu havia sentido ali era real, que o que eu havia visto em meu sonho era real. Sentia raiva, estava irritado, estava com ciúmes, mas não me sentia traído, não pela Sombra, era como se eu tivesse visto alguém, que eu confiava, desejando ela, tentando conquistar ela. Tentei esquecer essa ideia e voltar a me focar no que interessava, voltar a focar em encontrar algum detalhe que havia deixado passar, mas não conseguia me focar, minha cabeça ainda estava incomodada com os sentimentos que trouxe de um sonho e não conseguia me livrar daquela sensação ruim.

— O que você tem? — Me perguntou Sombra ao notar minha feição

— Nada demais, tive um sonho ruim

— Me conta, pode melhorar depois que você falar sobre ele.

— O duro que eu não lembro do sonho, mas acordei com esse sentimento pesado, de raiva, mas raiva de ciúmes, não contra você, mas contra alguém que queria tirar você de mim.

— Às vezes você não lembra do sonho porque é uma memória que você revisitou, não somente um sonho, você acordou somente com o sentimento dele — Me explicou a Sombra — Tenta lembrar o que te fez ficar assim e ver se consegue se livrar desse sentimento.

​Fiquei pensando naquilo que a Sombra havia me dito, se fosse uma memória que tinha ignorado? Talvez tivesse me concentrado tanto em rever minhas memórias que meu cérebro ficou preso aquilo mesmo quando fui dormir, mas o que ele queria me mostra? Nunca havia percebido alguém que desejasse separar a Sombra de mim. Então me veio o estopim, e se o Contato, o verdadeiro Contato, não aquele que encontramos pendurado no apartamento, se todo o plano não foi para nos matar ou nos tirar do mercado, mas sim, para nos separar, eu e a Sombra. O pensamento era um tanto ridículo, eu sei, mas a essa altura do campeonato estava aceitando toda e qualquer hipótese. A ideia se encaixava no quebra cabeça, se parar para avaliar melhor o plano dele, ele conseguiu mexer com o emocional da Sombra de uma tal maneira que ele sabia que ela não estaria ali quando a polícia chegasse, ela estaria emocionalmente abalada, não estaria fugindo de um inimigo ou da polícia, mas sim de um sentimento, de um relacionamento, ela estaria vulnerável. Quanto mais eu pensava, mais aquela ideia ridícula se encaixava e dava sentido ao cenário todo. O Contato apareceu morto quando voltamos a ficar junto, aquilo era uma distração, para ele voltar a ter tempo e planejar seu próximo ataque. Todas as pontas soltas que tinha encontrado na noite anterior, se encaixavam com essas ideias, no fim, a ideia ridícula era a resposta que faltava, agora só faltava a pergunta mais importante, quem estava por trás de tudo?

Sentei em minha cadeira no escritório, fechei os olhos e comecei a forçar ao máximo meu cérebro tentando ver o que ele quis me mostrar enquanto dormia, foquei melhor na linha de raciocínio que tivera a pouco, passei rever as cenas, dessa vez, não pensando em alguém querendo me matar, mas querendo me ver longe, querendo ver a Sombra vulnerável. Revisitei a cena onde o Motorista foi atrás dela quando fomos pego na armadilha, ele não foi preso com a gente, ele poderia saber que ela ia fazer aquilo, já estava esperando ela sair e ir atrás dela, no momento onde nós estaríamos presos, ele teria todo o tempo para conquistar ela, mas aquilo não faria muito sentido, ele havia sido a pessoa que nos ajudou a ficar junto, se éramos um casal, devíamos a ele, por mais que ele fosse o suspeito número um, não faria sentido ele ter todo esse trabalho, sendo que ele poderia ter feito algo do tipo antes mesmo da gente ficar juntos. Ainda sobrava o Sniper e o Nerd como suspeitos. Então, como se dentro de minha mente tivesse quebrado uma barreira e uma avalanche de imagens me veio à cabeça, tinha de alguma forma desbloqueado memórias que me mostrava claramente quem era a pessoa que trouxe o sentimento de meus sonhos, tinha o suspeito número um. Só precisava ter a certeza e sabia como conseguir isso.