Tinha que tomar uma atitude e tinha que ser rápido, não podia deixar a oportunidade passar, desci correndo para a sala onde encontrei a Sombra sentada no sofá, lendo um livro e tomando um chá. Agarrei seu rosto e lhe dei um beijo

— O que foi? — Me perguntou assustada

— Preciso de um favor seu, liga para o Nerd e para o Motorista, pede para eles passarem aqui e te pegar as 21 e te deixar na praça em Santa Teresinha, onde a gente teve nossa última missão — expliquei a ela

— Eu não estou entendendo nada, por que você quer que eu faça isso?

— Você vai entender depois — estava afobado — Uma coisa muito importante, quero que você preste atenção na maneira como o Nerd e o Motorista agem com você, qualquer coisa suspeita que você achar, me mande uma mensagem avisando.

— Estranha como? — Me perguntou ela enquanto já me via saindo em direção a garagem para ir embora

— Lembra do que te contei do sonho — gritei já quase entrando no meu carro e arrancando com ele

Sai da casa e comecei a dirigir em direção a praça que tinha combinado com a Sombra, não tinha pressa, estava aproveitando o caminho para refletir sobre tudo que precisava, gostava de dirigir por causa disso, me ajudava a pensar. No caminho aproveitei para mandar uma mensagem ao Sniper, era importante que ele me encontrasse ali antes da Sombra chegar com o resto. Quando cheguei na praça, o sol já havia sumido, a noite se acomodava e trazia com ela a chuva. Procurei abrigo embaixo de uma árvore perto de meu carro, acendi um cigarro e comecei a observar a chuva cair, tinha algo naquela cena que me relaxava. "Deus está na chuva", havia ouvido essa frase em um filme uma vez, adorava sentir ela cair, depois de ter visto esse filme, tomar chuva ganhara um sentido completamente diferente. ​Conseguia sentir cada gota gelada da chuva escorrer sobre meu rosto, não sabia o que pensar, achei que estaria preparado para esse momento, mas como nos preparamos para isso? Nada é tão simples como fazem parecer nos filmes não é verdade?

Meus pensamentos foram cortados junto à luz do farol do carro do Sniper, vi ele parar o carro ao lado do meu, saindo dele, vestindo uma jaqueta de couro preta longa. Joguei meu cigarro fora, mal havia tragado ele, já estava mais da metade consumido em cinzas.

— O que foi Líder? Por que me chamou aqui?

— Eu acredito que o Contato está vivo, aquele rapaz pendurado era apenas uma distração para sairmos da pista dele.

— E como você sabe disso? — Me perguntou ele se aproximando e tentando entender o que estava acontecendo.

— O plano dele, era meticuloso, calculado, preciso. — Respondi ainda olhando a chuva cair, a forma como ela batia no asfalto duro e as que eram amortecidas pela folhagem das arvores — Ele conseguiu nos atingir porque nos atacou pelo nosso lado pessoal, ele sabia nossas fraquezas e como agiríamos nas situações, nos manipulou perfeitamente. Não posso simplesmente acreditar que uma pessoa capaz de fazer um plano assim simplesmente desistiu e se matou como se não fosse nada.

— Então você não sabe quem é? Só que ele não é a pessoa que encontramos no apartamento?

— Sei mais que você imagina — voltei meu olhar para ele — Sei que ele é um de nós, por isso nos conhecia tão bem. Sei que ele é uma pessoa fria, calculista paciente e meticuloso a. Sei qual o motivo pelo qual ele fez o que ele fez, por isso chamei você aqui primeiro.

— Não estou entendendo Líder

— O Contato, o traidor — Comecei a explicar enquanto conferia no meu celular se havia alguma mensagem da Sombra — Ele não me queria morto, isso ficou claro quando entendi que ele poderia ser um de nós, ele poderia ter matado a gente enquanto dormíamos, envenenando com a comida, ele tinha tantas opções e simplesmente não agarrou elas. Ele queria a Sombra. Quando a gente foi atrás de uma pista da Sombra, você reconheceu a Fatboy de uma época que você trabalhou junto com ela não é mesmo? Junto com a Sombra também.

— Onde você está querendo chegar?

— Todo esse momento, era isso que você queria não é verdade? — Era hora de jogar a verdade — A Sombra, por todo esse tempo você se fez de falso amigo esperando a melhor oportunidade para tirar ela de mim. Deixa eu adivinhar, não estava em seu plano ser preso junto com a gente, você acabou perdendo a pista de onde ela foi, depois que saiu tentou encontrar ela sozinho, mas não conseguiu, então viu a oportunidade perfeita em nos usar para isso, depois que conseguimos você se fez passar por morto para ter tempo de bolar seu próximo plano. Me diz o quanto eu acertei.

— HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA — Ele começou a gargalhar na minha cara, mas algo estava diferente nele, acredito que até mesmo seu tom de voz não era o mesmo ali. — Impressionante, você consegue estar tão errado que no final consegue acertar

— Isso que você falou não fez sentido algum — respondi tentando não me alterar pela reação dele

— Você acertou, eu sou o Contato, acertou também que fui eu que armei tudo para vocês, até estava certo da paixão que eu tenho pela Sombra, mas realmente acredita que esse foi o motivo pelo qual eu fiz tudo? — Ele voltou a gargalhar — Você era a missão seu merda, isso é o que realmente importa sempre, a missão. A Sombra era um bônus por mais uma missão perfeita. Sim eu tive diversas oportunidades de te matar, na cadeia, na sua própria casa, qualquer lugar, qualquer momento, mas e ai? Onde estaria a graça nisso tudo? Você era o alvo mais fácil que já me pagaram e não me pagaram pouco e ainda me deram o direito de fazer da maneira que julgava ser a melhor.

— Meu plano era perfeito — Continuou ele — Vocês iam preso, eu ia atrás da Sombra, consolava ela, dava o ombro amigo que ela precisava, quando você saísse da cadeia eu te encontrava, acabava com sua vida fazendo tudo parecer um suicídio, ninguém desconfiaria de outra coisa, afinal todos viram o seu maior fracasso e ainda teria todas as noites na minha cama, meu maior troféu, aquela que você perdeu.

— Na próxima vez, não brinque com seu alvo seu merda — a raiva começava a tomar conta de meu corpo — você se achou o superior, o gênio e se fudeu no final, sua missão falhou e você foi descoberto.

— E você vai fazer exatamente o que Líder? — Me disse ele sacando sua arma e apontando para mim — Você se diz o mais inteligente de nós, o mais estratégico, mas daqui onde estou, você me parece ser bem burro.

— Para mim ele parece bem inteligente mesmo — Falou o Motorista com sua arma já em punho, aproximando junto com a Sombra e o Nerd, chegando na melhor hora. — Somos quatro contra um Sniper, não tem o que você possa fazer, conta para a gente quem te contratou e a pensa em deixar você sair daqui vivo.

Sniper olhou ao seu redor ainda me mantendo em sua mira, sua feição não mudou, por mais que ele percebesse a desvantagem que estava, isso ainda não o assustava.

— Inteligente? — Ele disse voltando a me olhar no fundo de meus olhos — Vocês consideram uma pessoa que quer encurralar o melhor atirador que ele conhece, sem me desarmar, sem usar um colete, como inteligente?

— Acabou Sniper — disse querendo balançar seu emocional

— Você acha que pode dizer quando minha missão acaba? — Me respondeu já se deixando levar pela sua raiva — EU DIGO QUANDO A MISSÃO ACABA E ELA SÓ ACABA QUANDO EU OU MEU ALVO CAI MORTO.

Ouço um disparo seco, alto, no momento meu corpo treme pelo susto, espero o pior, logo atrás do Sniper vejo o motorista apontando sua arma para o Sniper, o cano de sua arma soltando fumaça do disparo, Sniper cai a minha frente com um sorriso em sua face.

Tudo parece estar em câmera lenta, as gotas gordas da chuva dançam a minha frente, escuto o barulho da capsula da bala do motorista cair e quicar no chão, em seguida, ouço outra capsula caindo. Duas balas foram disparadas, praticamente ao mesmo tempo.

Sinto a chuva gelada em meu rosto, um calor intenso na região de meu estomago e um frio imenso em minhas costas, olho para baixo, vejo sangue, olho para o lado, vejo o olhar desesperado da sombra, se esticando em minha direção. A chuva ainda cai. A minha perna parece que não suporta mais o peso de meu corpo, parece que colocaram um peso imenso sobre mim, não aguento, perco o equilíbrio, caio.

Logo vejo que todos estão a minha volta, o mais curioso é que não sinto dor, sinto calor, sinto frio e sinto a chuva. Vejo que todos estão falando e gritando comigo, mas não consigo entender nada, a escuridão da noite vai ficando mais forte, a chuva mais fria, meu corpo mais pesado, mais fraco.

Consigo forças para virar minha cabeça suficiente para focar o rosto da sombra. Sinto muito meu amor. Adeus meu amor.

FIM

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