Abri meu olho, sem saber mais o que pensar, o que sentir, estava feliz, tinha recuperado parte de minha vida, mas ainda não tinha acabado, ainda havia muito trabalho para ser feito e agora a coisa havia mudado de novo de cenário, tinha que proteger aqueles que um dia julguei como traidores, contra uma pessoa que um dia confiei minha vida, nada daquilo fazia sentido na minha cabeça. Novamente a ideia de desistir de tudo e sumir me tentava, mas novamente, senti o peso das pessoas que dependiam de mim, de minha liderança, de minhas ideias, era o porto seguro deles agora e se demonstrasse que queria desistir, isso acabaria prejudicando a todos.

— Bom dia — Disse Sombra saindo do banheiro, enrolada na toalha — alguém está com uma cara melhor hoje

— Finalmente um elogio — respondi me levantando da cama — desconsiderando os de ontem à noite, claro.

— Muito engraçado você, vai se arrumar logo, o dia vai ser longo hoje.

Ela tinha razão, teríamos que investigar a única pista para encontrar uma pessoa que até então não existia fisicamente, meu dia mal havia começado e já estava difícil entender o que esperar dele. Depois de todos devidamente preparados e alimentados, fomos a tarde conhecer o tal banco da praça, Motorista parou o carro na lateral da praça, passando a mencionada farmácia, todos descemos e ficamos parados ao lado do carro olhando para o banco, lá estava ele, com o jornal dobradinho, esperando alguém fazer o sinal necessário;

— Não foi aqui que a gente se encontrou a primeira vez? Depois que saímos da cadeia? — Perguntou o Nerd olhando para o banco onde tivemos nosso peculiar encontro

— Foi, esse tempo todo, ficamos do lado dessa pista, sentado literalmente ao lado dela, sem saber nada — respondeu o Motorista — Bem, quem vai pegar o jornal e cruzar as pernas no banco?

— Não vamos precisar fazer isso — respondi indo em direção ao banco — A gente não sabe quem é o Contato, mas com certeza ele sabe quem somos, não iria nos atender de qualquer forma. — Disse chegando no banco e pegando o jornal — Ele com certeza tem um bom ponto de vista desse banco, é assim que ele sabe que tem um cliente novo, ele deve observar a pessoa de algum lugar e ver ela fazendo o sinal, então ele faz o que precisa ser feito. Acredito que um desses mendigos deve colocar o celular quando a pessoa se distrai, mas vamos perder tempo com isso. Sniper, qual você acha que é o melhor ponto para observar esse banco sem ser notado?

— Bem, temos 3 prédios, começaria por eles. — Disse Sniper sentando no banco e observando os prédios — Podemos eliminar um já, ele não dá visibilidade para a frente da pessoa, ele não saberia se a pessoa está só sentada aqui ou se está com o jornal na mão, sabemos que não pode ser um andar muito alto porque as árvores atrapalhariam a visão, acredito que qualquer um desses dois prédios nos 4, 5 primeiros andares no máximo.

— Vamos começar a ver eles então.

A tarde se estendia e a noite se aproximava, começamos a investigar o primeiro prédio, mais longe da praça, embora estivesse de frente com o banco. A ideia era simples e muito usada por nós, eu e Sombra passaríamos por um inocente e curioso casal interessados em comprar um apartamento ali. Chegamos na primeira portaria e tocamos o interfone.

— Pois não? — A voz do porteiro veio através do interfone.

— Boa tarde, eu e minha noiva estamos procurando uns apartamentos para morar e a gente queria saber se esse prédio tem algum apartamento vazio para vender ou alugar que a gente possa conhecer ou ter o contato da imobiliária — respondi

— Olha, temos um apartamento sim, mas você só pode entrar nele acompanhado da corretora mesmo, não tenho autorização de abrir para você.

— Tudo bem então, a gente entra em contato com a imobiliária e voltamos aqui, obrigado

— Alguma outra ideia para a gente entrar? — Perguntou Sombra

— Vamos voltar aqui mais tarde, ainda temos que ver o outro prédio, não quero causar antes de ter certeza que esse aqui é o suspeito número um — Respondi enquanto caminhávamos em direção ao prédio que se encontrava na lateral do banco, passamos pelo Motorista, Nerd e Sniper que conversavam calmamente, entre um cigarro e outro. Chegando no portão do prédio, começamos a mesma encenação

— Boa Tarde — disse o porteiro, saindo pela janela lateral da portaria — O interfone está quebrado, posso ajudar?

— Oi, boa tarde, eu e minha noiva estamos olhando uns apartamentos para comprarmos, queríamos saber se tem algum aqui no prédio que podemos conhecer ou entrar em contato com a imobiliária para vermos — respondi gritando para o porteiro

— Ah sim, temos um que está à venda sim, o Senhor gostaria de ver ele? Eu posso levar o senhor lá

— Jura? Nossa isso seria bom demais, aí a gente já tem uma ideia melhor antes de falar com os corretores, é sempre melhor assim. — Respondi vendo o portão sendo destravado. Era impressionante como a bondade das pessoas podem sempre acabar colocando elas em grandes problemas

— Ah sim, eu sei como é, hoje em dia a gente precisa ficar bem esperto com esses corretores, qualquer informação já ajuda né? O Senhor espera só um segundo, eu vou chamar o menino aqui para ficar na portaria enquanto levo vocês lá — disse o porteiro enquanto interfonava no quarto dos funcionários pedindo para alguém tomar seu lugar por um tempo

— com certeza, mas que andar que é o apartamento?

— Fica no décimo terceiro, na parte de trás do apartamento, sinceramente acho uma vista até mais bonita que os que pegam a praça.

— Putz cara, não teria nada nos andares mais baixos? — Respondi procurando algo que pudesse ser mais perto do que me interessava — Sabe porquê? A patroa não curte muito andares altos — Tomei uma olhada feia da Sombra que logo em seguida acabou entrando na cena fazendo uma cara, confirmando a desculpa que tinha dado ao porteiro, que na hora deu uma risada.

— Olha doutor, infelizmente eu não vou ter nada não, mas acho que se o senhor quiser, não vai demorar muito pra um ficar disponível no terceiro andar — Respondeu ele já nos guiando até o tal apartamento livre — tem um morador que ele anda meio sumido, não vejo ele há meses, eu sei que ele tem o apartamento alugado, nunca foi de falar muito mas também nunca deu dor de cabeça, mas agora o cara anda sumido e as contas dele estão acumulando lá na portaria, logo logo vão dispensar ele e ai fica disponível pro senhor.

Entramos no tal do apartamento e fizemos todas as cenas de casal sonhador, não precisávamos de mais nada do porteiro, tudo que tinha que fazer agora era esperar a madrugada e conhecer o tal apartamento do inquilino que sumiu misteriosamente. Aproveitamos as oportunidades para ver de perto o que o prédio tinha disponível de segurança, o que precisávamos evitar e nos preparar, mas pelo que chegamos a ver e até mesmo pelo que o próprio porteiro falou para gente (realmente eles dão qualquer informação se você simplesmente perguntar a eles), não havia nada de muito complexo, poderíamos fazer nosso trabalho naquela madrugada mesmo.

Saímos de lá depois de um tempo e fomos de encontro ao resto do grupo na praça e fomos em direção ao bar que tinha do outro lado da praça, pegamos uma mesa, fizemos nosso pedido então começamos a traçar nossas estratégias.

— Pelo que vimos, temos um principal suspeito que vale a pena investigar e podemos fazer isso hoje ainda — Comecei explicando após dar meu primeiro gole no chope que havia pedido — Aparentemente temos um inquilino que anda sumido no prédio na lateral do banco, terceiro andar de frente com a praça, cabe perfeitamente no que procuramos. A segurança do prédio é fraca, algumas câmeras que devemos evitar somente, na escada não tem nada, então podemos usar ela mesmo, pensei em algo simples, nada que vá levantar suspeitas depois, temos uma rua lateral, escalamos o muro, já caímos no térreo vamos para a escada e de resto é só se passar por morador que ninguém vai desconfiar.

— E se ele estiver lá? O contato? — Perguntou o Sniper

— Bem, a gente vai ter uma conversa tranquila com ele, se ele não quiser colaborar, a gente leva ele pra casa e conversa com mais calma e com mais brinquedos a nossa disposição

— Um brinde a isso — levantou o copo Nerd, todos brindaram e ficamos durante algumas horas jogando conversa fora esperando o tempo passar. Era engraçado como as coisas mudavam de cenário de uma forma que chegava até ser suspeita, começava a pensar que o cenário era sempre o mesmo, mas meu estado emocional fazia eu ver ele de maneiras diferentes, eu não estava mais achando que eles iriam atirar na minha nuca, não estava mais sofrendo de um imenso desapontamento amoroso e agora via novamente amigos juntos, não mais inimigos trabalhando para enfrentar uma ameaça maior. Precisava buscar ajuda de uma terapia, essa era a verdade que eu conseguia chegar naquele momento.

Depois de mais algum tempo, pagamos a conta e começamos a sair do bar, a rua ainda estava movimentada devido a quantidade de bares que tinham ali, mas todas as ruas próximas ficavam mais deserta, era exatamente o que queríamos, sabíamos que a atenção de qualquer um ficaria onde houvesse maior movimento e não onde planejávamos começar nosso plano. Paramos no carro do Motorista para pegar uma escada de corda, era o que tínhamos a disposição para o momento, a ideia era amarrar uma corda na ponta dela e entregar a Sombra, ela teria mais facilidade para escalar o muro, usando as janelas e as saídas de ventilação como apoio, ela conseguiu subir rapidamente. O muro não era alto, mas precisávamos de uma forma rápida e silenciosa para entrar. Ao chegar no topo, Sombra puxou a corda trazendo a escada e amarrou em um apoio que encontrou próximo a ela, o primeiro a subir foi o Motorista, seguido pelo Sniper, Nerd e por fim eu. Quando cheguei junto ao grupo, recolhi a escada e escondi tudo atrás de um vazo. Vimos uma câmera perto, mas ela apontava para outra direção, nenhum desafio ali, rapidamente entramos no saguão principal pela entrada dos fundos até chegar no hall do elevador, onde na frente ficava a escada de incêndio.

Ao chegar no andar, fomos para o lado do prédio que dava para a praça, bastava ver qual apartamento era o nosso principal suspeito, esperamos alguns segundos, quando ouvimos o som de uma TV no apartamento da direita, isso o eliminou da lista. No mesmo momento a Sombra já sacou de seu bolso suas ferramentas para destrancar a porta, enquanto nós olhávamos os outros pontos de acesso, caso viesse alguém ali.

— Abri — disse ela recolhendo o material e girando a maçaneta.

Ao entrarmos, não precisamos de muito tempo para saber que estávamos no lugar certo, o apartamento tinha basicamente as quatro paredes, alguns pratos descartáveis num canto, caixas de comidas congelada no lixo, uma luneta apontada para a praça, um colchão no chão, uma TV pregada na parede e um corpo pendurado pelo pescoço no teto, estava explicado o porquê o inquilino estava sumido, ele havia se matado.

— Parece que ele não vai poder responder muitas perguntas nossa — Disse Nerd cutucando o pé do morto — Você acha que ele se matou porque soube que estávamos chegando?

— Ele está pendurado aí há mais de um dia com certeza, já está frio e rígido, não vai levar muito tempo para os vizinhos sentirem o cheiro dele apodrecendo — Respondeu Sniper

— Talvez ele tenha visto a gente antes, ou ouvido já as notícias que a gente já tinha descoberto que ele traiu a gente — Disse o motorista — Ou sei lá, ele acabou se metendo em problemas maiores que a gente, se matou sem nem saber o que tínhamos descoberto, venhamos e convenhamos o trabalho dele não é dos mais tranquilos não é mesmo?

— Uma coisa podemos ter certeza, lá se foi nossa vingança, mas pelo menos nosso inimigo tomou o caminho dos covardes, uma preocupação a menos — Disse Nerd — Não é Líder?

— É — respondi, mas confesso que ainda tinha alguma coisa me incomodando, tudo parecia fácil demais — Bem, vamos embora, acho que não temos mais nada para ver aqui.