No dia seguinte descemos para tomar café com todos que estavam na casa, o clima parecia outro, todos sabiam quem era o verdadeiro inimigo agora, ou toda essa ideia era minha impressão já que via que metade dos meus problemas haviam sido resolvidos, Freud explica.

— Senhora e senhores, nós temos um vencedor — chegou Nerd anunciando virando o seu tablet para nós ver a foto de um homem, muito acima do peso, aparentando ter seus quarenta e poucos anos com a testa com mais óleo que a chapa de uma lanchonete — esse aqui é o senhor André, dono da principal concorrente de uma certa empresa farmacêutica que explodiu, coincidência ou não, as ações da empresa do senhor André subiu igual um foguete no dia seguinte à nossa missão e ele lucrou mais em um dia com suas ações do que sua empresa lucrou em meses.

— Bem, parece que vamos conhecer pessoalmente um cliente nosso — respondi passando o requeijão no meu pão — o que já temos a respeito dele?

— A grande vantagem para nós é que o Sr. André, por ser uma pessoa importante, tem muitos dados dele simplesmente espalhados na internet, mas o que vai facilitar nossa vida mesmo é o vício que ele tem em redes sociais, ele posta cada passo que dá e faz check-in em todo lugar que entra. — Me respondeu Nerd, navegando na página do Face de nosso cliente — Olha só quem comeu um "caixote marinho" no La Figueira ontem, alguém tem bom gosto, pena que é um escroto.

— Bem, hoje à noite vamos fazer uma visita ao nosso cliente vip.

A noite nos preparamos para ir em nossa mais nova missão. Entramos no velho Mustang do Motorista e saímos em direção a nada humilde casa de nosso cliente. Me impressiona o quão é fácil conseguir pegar pessoas que se acham poderosas, elas por um momento acham que podem tudo, que são intocáveis, que são Deuses, basta você mostrar que ela está errada e elas começam a chorar e fazer de tudo para você demonstrar sua piedade a elas.

Entramos em sua casa, que ainda estava vazia, nem fazíamos ideia de onde eles estava, mas isso não importava, uma hora ele voltaria e teríamos o tempo perfeito para nos prepararmos. Algumas horas depois ouvimos o barulho das chaves entrando na fechadura e a porta se destrancando, lá estava ele o gordo, cabelo ralo, loiro, cantarolando e feliz com mais um dia de escrotidão. Ele joga as chaves no móvel ao lado da porta, tira seu paletó e joga em cima do sofá da sala. Observo tudo da sala ao lado, uma casa tão grande acaba tendo esses problemas, muitos lugares para ter alguma coisa escondida, ele passa na minha frente, sem ainda me notar no escuro, caminha para a cozinha, pega um copo d'água. Ainda observo tudo a distância tentando não rir de toda cena patética, noto que o Nerd e a Sombra já assumiram posições estratégicas, ele já não tinha como fugir, antes de tudo já tínhamos dado uma geral na casa, tínhamos a certeza que ele não teria acesso a nenhum alarme e nenhuma arma escondida que fosse nos surpreender. A àquela altura, estávamos apenas nos divertindo com a presa mesmo.

Resolvi me revelar a ele, acendendo uma luz ao meu lado, iluminando toda a sala, quando ele passou novamente pela minha frente. Sua feição de alegria sumiu no exato momento que percebeu a sala se iluminando ao seu redor e notou alguém observando. Rapidamente ele correu, nem sequer olhou para mim, disparou como nunca deve ter corrido em sua vida, mas ao chegar na sala principal deu de frente com o Nerd o aguardando na porta e a Sombra encostada do sofá ao lado de seu paletó jogado, ele olhou para baixo e notou também o laser da mira do Sniper dançando em seu peito, claro que nada aconteceria com ele ali, muito provavelmente o Sniper não estava nem com seu rifle empunhado, somente com o laser apontado para ele, mas ele nunca saberia disso. O tempo que ele levou para cair na realidade foi o tempo que levei para alcançá-lo com tranquilidade, quando ele virou, talvez pensando em alcançar um de seus alarmes ou a pequena arma que encontramos na gaveta, se deparou novamente comigo.

— Não estamos aqui para te roubar ou para te fazer mal — Disse a ele, caminhando contra sua direção forçando-o a cair sentado no sofá atrás dele — E manteremos nossa promessa, desde que você colabore conosco.

— Que....quem são vocês? — Gaguejou ele enquanto sua testa escorria suor, ou do nervosismo ou da micro corrida que ele deu para se salvar.

— Somos colegas, ex funcionários seus, por favor, sente-se e me responda, podemos contar com sua colaboração?

— Eu...eu não sei de nada — ao gaguejar novamente, Sombra deu um tapa no pé de seu ouvido que deve ter deixado apitando por um instante.

— Nada me incomoda mais que uma pessoa que não consegue responder uma simples pergunta — disse agachando e mantendo meus olhos na mesma linha dos olhos dele — vou facilitar um pouco sua vida, já sabemos do seu envolvimento em uma explosão de uma certa concorrente sua, sabemos que você contratou especialistas para esse serviço, para que esse fato não fosse ligado a sua pessoa, sabemos o quanto gastou e quanto lucrou, ou seja, o pior a gente já sabe, mas agora queremos saber os detalhes simples, por isso vou perguntar novamente, podemos contar com sua colaboração? — Ele acenou com a cabeça positivamente, olhando para o chão como se estivesse envergonhado das decisões que havia tomado no passado

— Ótimo, então vamos começar — disse sentando na poltrona ao lado dele, com a Sombra sentada no braço ao meu lado — queremos saber sobre o começo de tudo, como você soube da gente? Como entrou em contato? Como pagou? E mais importante, como era a pessoa com quem você falou?

— Eu nunca encontrei ninguém pessoalmente. — Disse ele quase com uma cara de choro — Eu soube de vocês através de boatos, quase que uma lenda urbana, diziam que se você tinha algum tipo de problema que ele poderia ser resolvido por uma pessoa, tudo que precisava fazer era sentar em um banco de praça cruzar a perna e ler um jornal que ficava no banco. Eu estava desesperado, sabe, eu sou bom com números, vi que minha empresa iria começar a falir em alguns meses, vi isso antes da maioria e não tinha o que fazer, então pensei que poderia ver se essa tal lenda urbana era verdadeira. Bem, quando eu comecei a ler o jornal, ouvi um celular tocar do meu lado, achei estranho pois ele não estava lá antes, quando eu peguei ele, parou de tocar e veio uma mensagem perguntando o que eu precisava, eu escrevi que precisava destruir meu principal concorrente então ele me deu instruções para trazer as informações necessárias no dia seguinte, pediu para eu jogar o celular no lixo ao lado e voltar no dia seguinte as 21:00.

— E no dia que seu concorrente explodiu? Você não encontrou ninguém?

— Não, tudo acontecia no mesmo banco da praça, tudo com celulares descartáveis e por mensagem de texto. Recebi instruções antes para estar lá com o dinheiro em um envelope em um horário. Quando cheguei lá o celular já estava me esperando no banco, minutos depois ele tocou e a mensagem veio com a foto do lugar destruído e a instrução de largar o envelope embaixo do banco e ir embora.

— E onde fica esse banco?

— Vila Boin, na frente da farmácia

— Muito obrigado Sr. André, foi um prazer fazer negócios com você, nós vamos embora agora, acho que vai ser desnecessário falar que se o senhor for a polícia contar o que houve aqui hoje, a única coisa que a polícia vai descobrir é como o senhor ficou tão rico, tão rápido, sem contar que você receberá outra visita nossa, onde não seremos tão bondosos.

— Sim, sim, claro, não quero mais me envolver com isso. — Disse André se levantando, voltando a respirar aliviado — Eu vou abrir a porta para vocês

​- Muito gentil de sua parte, se eu puder te dar um conselho, tente não resistir, que vai acabar tudo bem — quando terminei de falar, vi o Nerd pegando o pescoço de André por trás em um mata-leão, na hora André entrou em desespero, mas não teve muita chance de reação, Nerd havia encaixado bem o golpe, antes que ele pudesse se levantar, aos poucos seu rosto foi ficando vermelho e seu olho foi virando para trás, até ele apagar completamente.

— Ele já apagou, pode soltar ele — disse me levantando da poltrona e caminhando em direção a porta.

— Tinha necessidade de fazer isso? — Perguntou Sombra olhando para ele desmaiado no sofá.

— O cara é um baita escroto; e outra, ele só está dormindo, daqui a pouco ele acorda bem e confuso — respondi — Vamos que o Motorista está esperando a gente.

Nos encontramos no carro uma quadra pra baixo e voltamos para casa, no caminho já fomos atualizando o Sniper e o Motorista com os detalhes de tudo que coletamos com nosso cliente. Resolvemos esperar o dia seguinte para analisar a tal praça, o relógio podia não estar ao nosso favor, mas não podíamos fazer as coisas simplesmente se jogando nela, precisávamos nos preparar antes.

Chegando em casa, cada um foi para seu aposento e eu novamente me vi surpreso por entrar no meu quarto acompanhado pela Sombra. Me sentia cansado, desgastado, parecia que toda aquela história não teria fim. Por mais que senti alegria em resolver parte de meus problemas, o cansaço voltava a bater, junto com ele a realidade. Parecia que sempre estava um passo atrás, comecei acreditando que meu melhor amigo havia me traído junto a minha amada, depois cacei minha namorada como um animal perigoso, hoje durmo sob o mesmo teto que ambos e com a ideia de quem havia me traído na verdade era uma pessoa a qual confiava minha vida, que até onde eu sabia, não tinha nenhum motivo para me trair. Era isso que me atormentava, o motivo, ou melhor a falta dele.

— Você está com uma cara péssima — disse Sombra fechando a porta atrás dela

— De novo, obrigado — tudo que pensava em dizer para ela para largarmos tudo e fugir, esquecer de tudo aquilo, acredito que mais de uma vez enchi meu pulmão para falar isso, mas as palavras não saíram, no fundo sabia que não podia fazer aquilo. Todos ali dependiam de mim, precisavam da minha ajuda para por um ponto final nessa história, até mesmo a Sombra precisava de um desfecho para toda essa história, não podia desapontar eles, não agora.

— Vem cá, deita aqui que eu vou fazer uma massagem em você — Sombra fez um convite irrecusável

Tirei minha camiseta e deitei de bruços na cama, fui sentindo seu toque delicado em minhas costas, pegando nos pontos de tensão e relaxando meus músculos, estava quase dormindo de tão relaxado, quando senti ela beijar minha nuca e ela falar para eu me virar. Ao virar vi ela em cima de mim, tirando sua blusa, ficando somente com seu sutiã branco e me roubando mais um beijo, dessa vez muito mais calorosamente. Vamos apenas dizer, que foi a noite mais bem dormida em alguns anos.