Por cima dos ombros.
15 Capítulo 15
Acendi meu cigarro, parte de mim estava aliviada por ter confirmado agora que a Sombra não teve participação na armadilha, mas a outra parte não parava de perguntar, se não foi ela, quem nos traiu?
— Que porra foi essa Líder? — Veio esbravejando o Sniper
— O que você quer saber? Ainda não está óbvio os meus motivos?
— Você pede para que a gente confie em você, você pede para que a gente volte a agir como um grupo e a pessoa que caçamos esse tempo todo, se entrega de bandeja para você e você esconde de nós? A gente estava dormindo há quanto tempo com o inimigo no mesmo teto?
— O fato é que ela não era nossa inimiga, nunca foi. Você quer saber o porquê não falei nada? Você quer saber o que está infernizando minha cabeça durante todo esse tempo? É simples, a gente tem dormido com o inimigo a mais tempo do que todos imaginam. Eu tinha que ter certeza que era a Sombra a pessoa a ser acusada antes de mais nada, porque se não fosse ela, todos aqui voltam a ser suspeitos, por isso o detector de mentira, vamos todos sentar lá e vamos tirar essa história a limpo.
— Acho que não vai ser necessário Líder, acho que sei quem nos traiu — disse Nerd sentado numa cadeira ao fundo — A gente esse tempo todo apontamos os dedos para quase todos do nosso grupo, como o verdadeiro traidor, mas tem uma pessoa de nosso grupo que não consideramos até o momento, a única pessoa que ainda não reapareceu durante todo esse tempo.
— Contato — a hora que caiu a ficha em minha cabeça, era tudo tão óbvio, confiávamos tão cegamente nele, que nunca consideramos a possibilidade de ele ser o traidor. Ele poderia ter passado a missão para nós, sabia todos nossos esquemas, era perfeito.
— Mas como vamos encontrar ele? — Perguntou motorista se juntando ao grupo — Nós praticamente não conseguimos encontrar a Sombra e a gente conhecia boa parte da maneira dela agir, como vamos encontrar alguém que nem sabemos como ele é fisicamente?
— A gente não sabe quem é ele, mas sabemos quem sabe — disse Sombra saindo do quarto onde havia sido interrogada — O propósito do Contato é fazer a ponte entre a gente e o cliente, dessa forma não há riscos nem para a gente, nem para o cliente, se a gente conseguir encontrar um de nossos clientes, a gente consegue descobrir como chegar a ele
O silencio constrangedor ainda pairava no ar, não havia como evitar ele, todos ainda viam a Sombra como a traidora do grupo, levaria um tempo para se acostumarem com a ideia de que ela estava do nosso lado, assim como levou um tempo para todos se acostumarem a conviver juntos novamente. Eu precisava acelerar esse processo de cura, se fossemos trabalhar juntos, não podíamos fazer isso com o constante medo de tomar um tiro na nuca, mas isso seria muito mais complicado, afinal eu mesmo estava com o medo de tomar um tiro na nuca de qualquer um ali.
— Junte-se a nós, vamos todos sentar aqui na mesa e pensar no melhor plano de ação — puxei a cadeira da mesa do quintal e fiquei impressionado quando vi todos fazerem o mesmo sem ter nenhuma objeção — Antes de começar quero deixar claro o seguinte, a partir de agora teremos que trabalhar junto, temos um inimigo em comum a todos aqui, não podemos agir enquanto a gente não ter a certeza que a pessoa ao seu lado estará disposta a cobrir suas costas.
— Disse o cara que manteve um segredo de todos por semanas — resmungou o motorista — desculpa Líder, mas eu preciso colocar isso para fora, eu sei que passamos por muitas coisas de um tempo para cá, mas o que o Sniper disse é verdade, não tem como você pedir para a gente confiar um no outro e esconder uma coisa dessas da gente. Vocês estavam dormindo juntos esse tempo todo, não é?
— Ok, vamos lavar essa roupa, assim a gente já se livra de uma vez por todas disso tudo, sim eu escondi isso de vocês, mas tive meus motivos para isso, eu não tinha 100% de certeza que a Sombra era a traidora, muita coisa não se encaixava, do mesmo jeito que te dei o benefício da dúvida, dei a ela também a chance de se explicar, o que ela fez, na frente de todos liga a um detector de mentira
— Mas isso não justifica você ter mentido e escondido ela da gente — respondeu o Nerd
— O que justifica o Sniper entrar pronto para colocar uma bala na cabeça dela sem antes saber a verdade?
— Ela matou a Fatboy, queria fazer com ela o que ela fez com uma antiga companheira — Sniper finalmente quebrava seu silêncio
— Eu não matei ela, ela era minha companheira tanto quanto era sua, nunca fui capaz de matar uma pessoa, ainda mais alguém que considerava uma aliada. — Se defendia Sombra — Busquei ajuda dela sim a princípio, mas para ter um abrigo por uns dias, para me esconder. Depois nunca mais entrei em contato com ela
— Se esconder do que? Por que você abandonou a gente alias? — Nerd fez a pergunta de um milhão de dólares
— Essa é uma pergunta que gostaria de responder somente para o Líder a princípio, sei que vocês estão desconfiados de mim e sei que dei motivos para isso, mas essa resposta está ligada à nossa vida pessoal, não vejo problema em compartilhar com todos depois, mas a princípio preciso conversar com ele a sós sobre isso
— Vamos ao que interessa agora então, já que todos já desabafaram o que estava em seus peitos. — Cortei o silêncio da mesa — Antes de mais nada, caso alguém queira desistir dessa caçada e ir embora, fique à vontade. A coisa agora vai chegar em um outro patamar e acredito que caso queiram sair pois não acha mais possível trabalhar em equipe conosco, ninguém irá julgar.
— Pode ter a certeza que você tem o meu apoio e a minha tecnologia — Disse Nerd, colocando seu celular na mesa, querendo imitar algum filme
— Cala a boca, ninguém gostou desse filme e ninguém teve o saco de ler o livro — Respondeu o Motorista — Mas você pode contar comigo também Líder
— Eu ainda quero meter a bala na cabeça do puto que matou Fatboy
— Fui caçada até agora por causa desse merda, eu não vou a lugar nenhum mais. — Respondeu por fim a Sombra
— Ótimo, qual o plano então? — Perguntei
— Como disse antes, a gente não sabe quem é o Contato, mas há quem saiba, os nossos clientes, eles já falaram com ele, sabe pelo menos como encontrar ele. — Explicou Sombra — Basta a gente tirar a informação de um cliente nosso
— Qual foi a última missão que tivemos antes do museu?
— A empresa farmacêutica, que explodimos — respondeu a Sombra
— Essa vai facilitar nossa vida, não tivemos vítimas nessa missão, quem pediu isso queria lucrar de alguma forma, ou algum concorrente ou o próprio dono com o seguro, Nerd, tente achar essa informação, quem foi a pessoa ligada a empresa que mais lucrou? — Passei os comandos, parecia até que tudo estava voltando a ser como era antes.
Após dada a ordem, teríamos que esperar a pesquisa do Nerd dar algum resultado, isso levaria um tempo, talvez fosse a hora ideal para amarrar as pontas soltas. Aparentavam ser problemas maiores que aqueles onde eu corria um risco de tomar um tiro no meio da minha testa, mas não podia mais evitar, tinha que enfrentar de frente, ainda mais agora que os problemas estavam encaminhados para uma solução e não havia mais nada que eu pudesse fazer a não ser esperar.
Olhei para a Sombra, perdida em seus pensamentos, talvez avaliando tudo que havia acontecido até chegar naquele momento, não tinha como saber, só podia imaginar o que passava dentro da cabeça dela, mal sabia ela o que se passava na minha, na realidade, nem mesmo eu conseguia acompanhar a bagunça do que se passava em minha cabeça. Ao cruzar nossos olhares, levantei e comecei a caminhar em direção ao meu escritório, ela já entendeu que aquele era o momento para discutir os nossos problemas e veio me seguindo.
Entrei no quarto, virei para trás e vi Sombra entrar e fechar a porta
— Por que você nos abandonou naquele dia? — Perguntei
— Finalmente você me fez essa pergunta
— Precisava ter certeza que não foi porque você havia nos traído
— Não fui que trai, eu fui a traída, por isso eu fugi, porque não podia conviver mais com você e não queria saber do drama
— Do que você está falando? Eu nunca seria capaz de trair nenhum de vocês, nunca entreguei nem sequer uma informação a respeito de qualquer um aqui. Fui eu que acabei parando na cadeia por cair em uma cilada e....
— Você acha que eu estou falando da missão? — Me interrompeu Sombra — Tudo para você é a maldita missão, o grupo, a estratégia. Existe um mundo inteiro além das lógicas e estratégias, acorda para a vida.
— De que traição que você está falando então?
— Da que você fez para mim, não como sua aliada, mas como sua parceira, sua namorada. — Seus olhos começaram a encher de lágrimas, seu lado emocional finalmente estava sendo exposto — Eu descobri na nossa festa de retorno, uma garota que estava ali, contando para uma amiga que havia sido convidada por você, que vocês estavam apaixonados e que iriam fugir juntos, ela nem sabia quem eu era.
— Espera, para. — Não podia deixar ela continuar, nem sequer conseguia entender o que estava acontecendo ali — Que menina? Do que você está falando?
— Não se faz de idiota, você me traiu quando nos separamos, você queria pegar o dinheiro e aposentar, como você sempre planejou. Eu fui tonta de acreditar que seus planos seria fugir comigo, mas você queria fugir com ela. — Sombra começou a subir o tom, se entregando completamente a suas emoções no momento.
— Eu não te trai, pelo o amor de Deus, olha como você está sendo ridícula. Foi por isso que você sumiu? Você simplesmente deduziu que aquilo tudo foi verdade e nem sequer me perguntou o que era verdade ou mentira?
— Você simplesmente assumiu que eu levei vocês a uma armadilha e matei uma colega e agora quer julgar o que eu deduzi quando soube que a pessoa que amava havia dormido com outra?
— eu fui o único a te dar o benefício da dúvida, se tivesse assumido como você diz que fiz, teria te matado antes de você ter soltado uma palavra — comecei a sentir meu coração acelerar e meu corpo se tencionar, algo que não sentia há muito tempo — Você não consegue entender o que é simples, eu sempre te amei, que droga, ainda te amo, o meu maior desespero era pensar que aquela máquina poderia indicar que você estava mentindo para nós, que você era sim a pessoa culpada por tudo, não saberia o que fazer, como agir, simplesmente...
Sombra voou em minha direção, arrancando um beijo de mim, mal consegui reagir, apenas sentia sua respiração pesada, sentia seu coração acelerado batendo contra meu peito, em nosso beijo sentia o gosto de suas lágrimas. Sabia que tudo que me transtornou durante aquele tempo, também infernizava dentro de sua cabeça. Dois mal-entendido, duas suposições em cima do que ouvimos da boca de outros, ali tínhamos perdido o essencial de nosso amor, tudo aquilo foi embora quando as dúvidas foram respondidas. A segurei em meus braços, apoiando meu queixo em cima de sua cabeça, que escondia o rosto agora contra meu peito.
— O que aconteceu com a gente? — Perguntei a ela — como chegamos a esse ponto?
— Não importa, nada mais importa agora, estamos juntos e vamos pegar o maldito que nos fez mal por todo esse tempo.
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