Por cima dos ombros.
13 Capítulo 13
— O que você está fazendo aqui? — Disse rapidamente, nervoso sem conseguir raciocinar, cabeça pesada com o sono ainda, mas a arma em punho, mirada para a testa dela, por sorte o susto deixou meus reflexos bons o bastante para não ser surpreendido naquele momento
— Soube que estavam me procurando, então aqui estou, o que você quer?
— Depois de tudo o que você fez, o pessoal lá embaixo não quer mais conversa, querem você morta. — Eu não sabia o que estava falando, ou o que pensar, aquilo estava me consumindo por dentro, não era daquele jeito que imaginava que seria quando a visse novamente, nem sei como imaginava que seria, mas com certeza não era daquele jeito.
— E você também pelo visto. — Disse Sombra se levantando e vindo em minha direção, sem medo, sem hesitar. — Por que você não puxa logo o gatilho? Ninguém vai te culpar de fazer isso? Até deixei um trinco quebrado para provar que entrei, você pode alegar legitima defesa, vai sair como herói — ela encostou o peito no bico da arma e segurou minha mão, olhando fundo em meus olhos. — Puxa o gatilho e a gente acaba logo de uma vez com tudo isso.
— Eu não consigo mais te reconhecer, não sei mais quem você é, não depois do que você fez ontem.
— E o que exatamente eu fiz?
— O que? Tive que ficar duas horas no chuveiro limpando o sangue da Fatboy. Por que você a matou? Se queria tanto calar ela para não descobríssemos onde você estava, por que matou ela e aparece na minha frente hoje? — Respondi empurrando ela para trás tirando ela da mira da arma, não podia deixar minha raiva crescer a ponto de fazer algo que me arrependeria depois
— Fatboy está morta? Do que você está falando?
— Como do que estou falando? — Me segurei para não gritar, como ela ousava desrespeitar a memória de uma amiga fingindo que não sabia de nada — você a matou, com um tiro na cabeça, quis silenciar ela para que não soubéssemos onde estava
Um tapa me atingiu o rosto com tudo, senti minha cara esquentar na hora, olhei para sombra, seus olhos se enchiam d'água, pela primeira vez via uma expressão de sentimento nela naquele dia.
— Quem você acha que eu sou? Nunca matei uma pessoa, nunca feri um inseto sequer e você me acusa de matar uma amiga minha? É isso que você acha que me tornei? Uma assassina fria e sem sentimento?
Ainda não acreditava no que estava acontecendo, nada fazia sentido, estava novamente perdido e sem rumo, sem saber o que fazer
— Por que? — Juntei forças para falar — por que você nos traiu? Por que nos abandonou? Por que me deixou? — Voltei a olhar em seu rosto
Não consegui nenhuma resposta, o silêncio seria a pior resposta que ela poderia me dar e foi justamente isso que ela buscou, vi uma lágrima escorrer em seu rosto e uma força imensa sendo feita para que ela não desabasse, ela não estava aguentando tudo aquilo, estávamos há horas discutindo, mas não chegávamos em nenhum lugar, surgiam mais dúvidas do que respostas.
— Vá embora. Vou te dar 24 horas para sumir novamente, depois disso vou falar para eles que desisti de te encontrar, se eles quiserem te caçar é escolha deles, mas não quero mais fazer parte disso, cansei de ser um fracasso, como líder, como namorado, como ser humano, toda essa busca só me deu certeza que tenho sido isso, um fracasso. Vá, vou te dar tempo para conseguir despistar eles, você vai conseguir viver em paz com o tempo.
— Não. Você não é o único que está cansado disso, eu também estou. Nunca pensei que acabaria sendo caçada pelos meus melhores amigos, pela pessoa que um dia amei. Você está cansado de me caçar e eu estou cansada de fugir, então a gente resolve tudo agora, desce lá e avisa que você conseguiu me capturar, você deixa de ser um fracasso e sua missão termina.
— Você não entende, não é? Se eu falar para eles que você está aqui, eles vão te matar na primeira chance que tiverem, não darão a mesma chance de você falar que eu te dei e se derem, não vão acreditar em você. E eu nunca fui atrás de você como uma missão, eu queria te ver de novo, queria entender o que aconteceu, queria acreditar em você, mas depois do que houve ontem, não acredito mais nem mesmo em meu próprio julgamento.
— O que faremos então? Eu não vou embora e você não quer me entregar nem acreditar em mim. Eu não vou fugir, você está com a arma na mão, se quiser acabar logo com isso, não me importo, ou acabe comigo, ou acredite em mim. A escolha sempre foi sua Líder.
Então uma ideia me bateu, como se fosse o elefante no quarto que até então não tinha visto, havia sim uma saída e era muito simples.
— Não saia do quarto, eu já venho.
Troquei rapidamente de roupa, sai do quarto descendo para a sala, encontrei todos ali sentados, motorista fumando olhando o movimento da janela, sniper regulando suas miras e o Nerd sentado vendo TV. Chamei o Nerd da porta mesmo e pedi para ele me acompanhar até o fundo da casa. Em cima da edícula da casa, havia uma lavanderia e um quartinho de empregada que não era usado, chegando lá, mostrei o espaço para o Nerd.
— Preciso de um favor seu, quanto tempo você acha que levaria para construir um polígrafo?
— Depende do que você quer exatamente, um polígrafo simples eu devo conseguir um para amanhã
— Preciso do mais preciso que você puder construir, quero dividir esse quarto em dois ambientes, o interrogado ficar em um lado e o entrevistador do outro, manuseando o aparelho.
— Aí vamos precisar subir uma parede, talvez até mesmo uma de dry wall, preciso comprar os equipamentos, baixar o programa. O polígrafo em si, não deve demorar muito, o problema é a mão de obra, mas com a ajuda de todos deve ser rápido.
— Não, preciso que faça isso sozinho, use a saída dos fundos para comprar as coisas e o que for grande demais para passar despercebido faça a noite, não quero que ninguém saiba que está construindo isso, todos vamos passar por ele e não quero ninguém sabendo para se preparar antes. Vou depositar toda minha confiança em você nisso. Não quero mais dar brechas para tomar mais apunhalada nas costas, a partir de agora devo confiar 100% em todos vocês para poder conseguir executar todos os planos.
— Entendi, bem, me de duas semanas no máximo, devo conseguir algo até lá. Não posso prometer o melhor, mas prometo o mais eficiente.
— Ótimo, obrigado. Esses dias ficarei isolado um pouco, preciso refletir e pensar mais sobre cada passo que daremos, por isso não posso mais me descuidar. O que você precisar bata no meu quarto, se perguntarem por mim, estarei pensando e pesquisando e não quero ser incomodado a não ser que seja necessário.
— Sim senhor.
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