A noite havia chegado, estávamos já próximo da hora da ação, a qualquer momento a Fatboy iria entregar seu trabalho feito e coletar seu pagamento.

— Eu vou ficar na praça sozinho, quanto menos ameaçador parecer para ela melhor será, motorista, quero você dentro do carro, se ela tiver um veículo de fuga e tentar usar você já estará pronto para segui-la, sniper, procure um ninho para você, mas não quero vítimas hoje, somente reporte o que ver de suspeito, Nerd, quero você do lado oposto da praça, caso ela resolva sair por aquele lado. Eu acredito que ela vá voltar ao apartamento dela, por isso ficarei no banco aqui nessa ponta, quando ela passar por mim eu abordarei ela, se tudo der certo a gente vai para casa com todas as respostas que precisamos dentro de 2 horas.

Sentei-me no banco e aguardei o momento, minha cabeça girava com todos os possíveis cenários, sempre fazia isso, como se tudo fosse um imenso jogo de xadrez, tentar antecipar os movimentos do adversário sempre foi a melhor maneira de vencer, ali eu antecipara todas as possíveis reações dela, caso ela tentasse fugir tinha as saídas cobertas, se ela ainda conseguisse isso, teria o motorista pronto para segui-la, o sniper em posição caso ela tivesse algum tipo de ajuda. O melhor cenário era o que eu procurava, uma conversa calma e pacífica.

A hora havia chegado, vi Fatboy saindo do prédio, uma garota ainda jovem baixa delicada, completamente o oposto do que qualquer imaginava quando pensava em um hacker, ela não tinha um estilo "matrix" ou qualquer coisa do tipo que vemos em filmes de ficção, o cabelo mais curto e a tatuagem no ombro até poderiam encaixar nessa descrição, mas ambos eram de formas delicadas. Ela com certeza sairia sem nenhuma suspeita se não soubéssemos quem ela realmente era. Vi ela chegando em uma pessoa sentada num banco no centro da praça e entregando a ela um envelope pequeno, provavelmente com um pendrive lá dentro, a pessoa com traços de nervosismo, um senhor que aparentava ter seus quase 50 anos, olhava para os lados e para dentro do envelope, como se estivesse comprando cocaína da prostituta mais suja da rua, estava muito mais nervoso que a pessoa que de fato comprava cocaína do traficante cadeirante a 20 metros dele. Assim que ela recebeu o envelope com seu pagamento, o cliente levantou e ela deu um beijo em sua bochecha se despedindo dele, como se nada de errado havia acontecido, como se ele fosse somente um amigo dos tempos de faculdade que viera conversar com ela. Assim que ela começou a se aproximar de mim eu levantei, acendi um cigarro e virei em direção a ela, ela nada suspeitou até o momento, ninguém nunca repara em fumantes, quando ela estava a um metro de mim, olhei em seus olhos e disse:

— Fatboy, preciso falar com você um minuto.

ela olhou pra mim com uma cara espantada, não esperava ser abordada naquele momento, vi seu jeito delicado ser quebrado e uma afeição assustada por um momento aparecer em seu rosto, tinha que falar algo rápido antes dela me ver como uma ameaça, rapidamente tirei as mãos do bolso para mostrar a ela que não estava armado ou coisa do tipo, mas antes que conseguisse pronunciar qualquer palavra, ouvi um zunido alto em minha orelha esquerda, como um assobio de vento rente a ela, quase que a queimando, então vi um impacto atingir a testa de Fatboy, uma massa de sangue saindo pela sua nuca e ela caindo no chão, desmontando como uma boneca de pano já sem vida.

— NÃÃÃÃÃÃÃOOOOOO — gritei com toda força de meu pulmão, dando um passo em sua direção e pegando ela em meu colo, sem nenhuma reação, já esfriando, sem vida

— O QUE CARALHO ACONTECEU AQUI? SNIPER? NERD? ALGUÉM? — Gritei esperando alguma explicação no ponto de rádio que estava em minha orelha

— O tiro veio do apartamento dela líder, não consegui ver a tempo. — Disse rapidamente o Sniper

— Sombra? — Perguntou Nerd

— SÓ PODE SER AQUELA VADIA, ELA DEVERIA ESTAR ESPERANDO A FATBOY DENTRO DO APARTAMENTO DELA, SNIPER, NERD, ME ENCONTREM NA PORTARIA DO PREDIO DELA, ELA NÃO VAI ESCAPAR DESSA VEZ. — Gritava ainda sem conseguir ter controle de minhas emoções.

— LÍDER. ABORTA ISSO AGORA, PRESTA ATENÇÃO NAS SIRENES, VOLTEM TODOS PRO CARRO TEMOS QUE IR EMBORA — ouvi o Motorista bravejar no rádio, ele tinha razão, se foi a Sombra que havia feito isso, ela tinha planejado isso muito bem, com a polícia chegando não teríamos chance de ir atrás dela, novamente seríamos flagrados em uma cena de crime e dessa vez seria muito mais complicado que a última.

— Todos para o carro, o Motorista tem razão, precisamos sair daqui.

O trajeto de volta foi somente silencio, ouvíamos somente o ronco do motor e os barulhos de transito da cidade de São Paulo. A única coisa que me passava pela cabeça era como eu havia fracassado naquela noite, como não havia antecipado o cenário onde a Sombra poderia aparecer e impedir meu contato com a Fatboy daquela maneira. Acho que nunca havia pensado que Sombra seria capaz de matar alguém, ainda mais uma aliada. No que ela havia se tornado? O que acontecia que tornava ela uma pessoa capaz de ir contra seus próprios princípios?

Chegamos em casa sem ao menos trocar nenhuma palavra, o peso da derrota ainda pesava em meus ombros, não me importava com mais nada, a cada dia via meus sonhos e minhas esperanças morrendo de uma forma diferente, estava se tornando uma coisa repetitiva, um clichê, estava me cansando já de tudo aquilo, quanto mais me esforçava para levantar e lutar, mais a vida me colocava no chão. Talvez fosse hora de desistir, talvez fosse hora de parar de lutar. Entro no chuveiro, deixo a agua quente escorrer pelas minhas costas e vejo o sague de Fatboy escoar pelo ralo, quanto mais olho para ele mais penso na ideia de desistir e nada me convence do contrário. Coloquei minhas coisas na cabeceira da cama, deitei e dormi, precisava de uma noite de sono para colocar as ideias no lugar, se no dia seguinte ainda não conseguisse me convencer do contrário, anunciaria que estava desistindo do projeto e provavelmente pegaria a estrada e sumiria.

Abro o olho ao acordar, ainda sentindo o gosto amargo do dia anterior, o peso não havia sumido de minhas costas, aparentemente nada havia mudado magicamente, uma pena. sento na cama tentando assimilar as coisas aos poucos, ativando meu cérebro, me alongo, virando meu corpo para a parede e para o outro lado, em direção ao closet, levanto paro em frente a cabeceira da cama e reparo como minhas coisas estão minuciosamente ajeitadas ali, mesmo com a cabeça bagunçada do jeito que estava, existem certos costumes que o corpo obedece sem nem ao menos pensar nele, como por exemplo, sempre coloco minhas coisas na mesma posição na cabeceira antes de dormir e sempre... sempre fecho a porta do closet. Rapidamente pego minha arma que estava a minha frente, engatilho ela e viro em direção ao closet, que estava com a porta semiaberta. Lá dentro vejo a cadeira dele colocada no centro, a luz se acende e uma pessoa sentada ali olha diretamente para mim.

— Bom dia amor — diz Sombra