Notas iniciais
Penúltimo!!! Aproveitem, leitorinhos queridos... e deixem review.

Setembro de 2009. A Universidade da Califórnia sediou uma campanha de conscientização entre os alunos sobre a importância da doação de sangue. Jared, além de participar da criação das peças publicitárias, foi um dos primeiros na fila de doação. Quando chegou a sua vez foi surpreendido pelo atendente.

– Hei, você não é o namorado do Jensen?

– Sim... – respondeu intrigado.

– Desculpe, meu nome é Jason. Sou um amigo dele de muito tempo.

– Muito prazer, Jason – Jared, na verdade, estava apenas sendo educado. Jensen nunca havia falado de nenhum Jason e isso deixou uma pulga atrás da orelha do rapaz. Mas estava ali para doar sangue, não para ficar de papo. E antes que as pessoas da fila começassem a reclamar, assinou a autorização e foi para o ambulatório.

Jared optou por não comentar nada com Jensen. Mas quando chegou em casa o amigo Chris logo percebeu que havia algo incomodando o mais jovem.

– O que há, cara?

– Não sei dizer ao certo. Mas é que conheci um cara hoje na universidade, um funcionário do Banco de Sangue, que sabia que eu sou namorado do Jensen, disse que eram amigos de anos, mas o Jen nunca me falou a respeito...

– Quem era o cara?

– Um tal Jason.

– O Jensen nunca falou a respeito porque não são amigos. O Jason foi um dos caras do tempo que o Jen era o "homem de uma noite apenas", ou seja, antes de Jared Padalecki – finalizou, rindo.

– Hum... E por que a mentira, então?

– Para te deixar com ciúmes, sei lá. Só sei que ele chegou a perseguir o Jensen por um tempo, implorando que desse uma chance, que queria ficar com ele, que estava apaixonado, essas coisas. Um dia cansou. Ou ao menos pareceu, porque nunca mais se ouviu falar.

– Cara, como você é fofoqueiro!

– Não sou fofoqueiro. Eu não procuro as fofocas, elas caem no meu colo. É o que dá namorar mulheres. As amigas das minhas namoradas, ou "ficantes", como quiser, não se conformam do Jensen ser gay e ficam falando tudo o que acontece com ele. E eu acabo sabendo mesmo sem querer.

– Enfim. Isso não há de ser muito importante mesmo. Vou deixar pra lá.

Dois dias depois Jared recebeu uma correspondência do Banco de Sangue com o resultado dos exames de rotina feitos na sua amostra de sangue para confirmar se poderia ou não ser utilizado. Entrou em desespero quando leu que era HIV positivo. Não poderia ser verdade. Não sabia o que fazer. Andou em círculos pela casa por um tempo e depois atacou o armário de bebidas de Chris. Queria beber até cair. Quem sabe quando acordasse se desse conta que não passava de um pesadelo.

Antes de cair, transtornado pela notícia e fora de si pelo álcool, foi até o apartamento de Jensen. Somente ele poderia ser responsável, só com ele havia feito sexo sem segurança. Nunca havia usado drogas nem tido qualquer outro comportamento de risco. Jensen era o culpado, na sua opinião encharcada em álcool. Bêbado, Jared deixou de lado o amor e a confiança que sentia por Jensen e passou a culpá-lo e a odiá-lo pelo que estava acontecendo com ele, mesmo sem ter certeza.

Quando Jensen abriu a porta percebeu no mesmo segundo que algo havia de errado. Jared estava bêbado e transtornado.

– Hei, Jay, o que houve?

– Seu desgraçado! Como pôde fazer isso comigo? – disse Jared, com dificuldade em pronunciar as palavras.

– Calma, Jay, o que eu fiz?

– Não seja cínico, seu filho-da-mãe! – dizendo isso, desferiu um soco no rosto de Jensen. Surpreso e magoado, Jensen encarou Jared.

– Eu não sei do que você está falando e, para ser sincero, nem quero mais saber. Saia do meu apartamento agora! Agora!

– É típico de você, não assumir suas culpas. Desgraçado. Mas você também vai sofrer pelo que me fez – dizendo isso, Jared foi embora, deixando para trás um Jensen extremamente machucado, não pelo soco, mas pelas atitudes e palavras do rapaz que ele amava e que julgava estar em seu futuro, que seriam felizes juntos... E sem entender do que estava sendo acusado.

J2J2J2

Ao chegar em casa Chris levou um susto. Jared estava desmaiado no chão da sala, com garrafas vazias de whisky por todo lugar. Alguma coisa havia acontecido de errado. O mais velho tentou de todas as formas acordar o rapaz, em vão. Teve que chamar uma ambulância.

No pronto-socorro, enquanto Jared estava sendo atendido, Chris resolveu ligar para Jensen. Talvez ele tivesse uma explicação para o que estava acontecendo.

– Hei, Jen, é o Chris.

– Hei, Chris – respondeu o loiro, secamente.

– Desculpe estar ligando a essa hora, mas encontrei o Jared em coma alcoólico no meio da sala e achei que devia avisá-lo.

Depois de um silêncio longo demais para uma ligação telefônica, Jensen apenas respondeu:

– É só isso?

– Puxa, Jen, é seu namorado e você reage assim ao saber que ele está mal?

– Depois do que ele me fez hoje à tarde, ex-namorado. E sim, é assim que eu reajo.

– O que houve, cara? Vocês estavam tão felizes juntos e...

– Chris, quando seu amigo acordar, pergunte a ele. Só sei que ele invadiu meu apartamento, bêbado, me deu um soco no meio da cara, me chamou de desgraçado e que eu ia sofrer pelo que fiz com ele. Eu não sei o que fiz. E para ser sincero, não me interessa. Eu havia prometido que não deixaria ninguém mais me magoar e o Jared me machucou de uma forma... traiu minha confiança. Enfim, foi bom enquanto durou, Chris, mas acabou. Tenha uma boa noite – e desligou.

Ainda mais confuso, Chris teve que se resignar e esperar o amigo acordar.

Horas se passaram até que Jared acordasse com uma dor de cabeça lancinante. Medicado e liberado, foi levado para casa pelo amigo.

– Você vai ter que me contar o que houve, Jay. Você nunca bebeu tanto e quando fui perguntar ao Jensen o que aconteceu ele me disse que você invadiu o apartamento, deu um soco nele, encheu o cara de desaforos e saiu. Alguma coisa tem por trás disso tudo e você vai me dizer o que é.

– Humpf.

– Não adianta resmungar. Vou insistir até saber de tudo.

Jared começou a chorar desesperadamente. Chris não sabia o que fazer.

– Jared do céu, o que houve? 'Tá me deixando angustiado, cara!

– Chegaram os resultados do Banco de Sangue... diz que sou HIV positivo, Chris... O Jensen passou para mim, só pode. Aquele desgraçado!

– Jay, você tem certeza?

– Está ali, no papel.

– E você foi assim, acusando o Jensen? Sem saber se foi ele mesmo, sem saber se o resultado está certo, sem fazer um novo exame em outro laboratório para tirar a prova?

– Falando assim até parece que o Jensen não tem culpa de nada.

– Cara, nunca se sabe... você recebeu uma transfusão de sangue logo no início da faculdade, quando sofreu o acidente de moto... poderia ter sido ali. Ou o exame pode ter dado falso positivo, é raro, mas acontece, por isso as pessoas fazem em vários lugares para ter certeza... Sem contar que o Jason é funcionário do Banco de Sangue e me passou pela cabeça que ele pode ter manipulado os resultados justamente para separar vocês. Se for isso, cara, como ele teve sucesso!

Jared ficou em silêncio. Em seu desespero não pensou direito e acusou o homem que amava de algo que talvez ele nem tivesse culpa. Jogou fora a melhor coisa que havia acontecido em sua vida: Jensen.

J2J2J2J2

Jensen desligou o telefone e continuou a arrumar suas malas. Havia conversado com Steve, coordenador da rádio, que ficou de contratar um comunicador freelancer para, pelo menos, 30 dias. Assim Jensen poderia tirar as férias que precisava, por mais súbitas que fossem.

A rádio estava em boas mãos, o apartamento ficaria sob responsabilidade da sua funcionária, não tinha bichos de estimação para se preocupar. Poderia viajar tranquilo para tirar Jared da cabeça e do coração, não importava quanto tempo levasse. Estava machucado como há anos não se sentia. Traído, ofendido, magoado, com raiva. De Jared, da vida. Que haviam lhe dado o que sempre quis, amor, felicidade, e depois voltado atrás, deixando-o de mãos vazias, de coração quebrado, por mais brega que isso pudesse soar.

Não iria levar muita roupa. O que precisasse compraria em Vancouver mesmo, onde o outono estava iniciando. Não precisava se preocupar com hospedagem, tampouco. Jeffrey tinha um apartamento lá que, no momento, estava vazio, e ele se prontificou a emprestá-lo pelo tempo que Jensen precisasse. O voo partiria de Los Angeles às 14 horas do dia seguinte. Sairia cedo para evitar problemas.

Jared resolveu seguir o conselho de Chris e fazer o exame em outro laboratório. Por garantia, fez em dois outros. Seriam três dias de espera angustiante pelos resultados. Enquanto aguardava, tentava encontrar Jensen para se explicar, pedir perdão, mas parecia que ele havia evaporado. Não cumpria mais o horário na rádio, o celular havia sido cancelado, não estava no apartamento. Ou ao menos era o que o porteiro dizia.

Se Jared já estava se sentindo péssimo, deprimido, infeliz, com remorso, quando os resultados chegaram, então, teve vontade de cavar um buraco na terra e se enfiar dentro. HIV negativo. Nos dois. A hipótese de Chris de que Jason havia manipulado os resultados era a mais provável. Jared havia caído feito um patinho e estragado a melhor coisa que havia lhe acontecido. Sentiu vontade de morrer. Passou a tarde chorando. Chris não sabia mais o que fazer para consolar o amigo.

– Jared, não adianta chorar agora. Você precisa pensar em uma maneira de consertar os erros, procurar o Jensen, denunciar o Jason, essas coisas.

– O Jensen trocou de celular, nem na rádio tem trabalhado, não consigo achá-lo...

– Ele não pode ter evaporado, cara.

– Mas parece que evaporou.

– Então se concentre em denunciar o Jason. Um cara que faz algo assim precisa ser punido!

– Ele vai receber a punição que merece quando eu quebrar a cara dele!

E foi o que Jared fez. No dia seguinte ele invadiu o laboratório e deu um soco na cara de Jason na frente de seus colegas. Quando o chefe do setor pediu satisfações, Jared contou o que houve.

Duas semanas se passaram e nada de Jared encontrar Jensen. Enquanto isso, foi feita uma investigação interna que provou que os resultados dos exames haviam sido manipulados. Jason foi demitido por justa-causa e ainda processado por Jared por danos morais. Nada, no entanto, teve importância. Jared não havia reconquistado Jensen.O desespero do rapaz acabou sensibilizando Steve, o coordenador da rádio.

– Jared, o Jensen está de férias por tempo indeterminado. Viajou. Ele precisava de um tempo, estava muito machucado... na verdade, nunca o vi tão deprimido. Ele sempre foi o cara mais alegre e feliz que eu conheci. Mas estava quebrado.

– Steve, me ajude, cara, eu fiz besteira, estou arrependido, preciso pedir perdão, me explicar para o Jensen. Eu o amo... não podemos deixar acabar assim. Eu preciso de uma segunda chance. – Jared contou com detalhes o que havia acontecido. Steve ouviu com atenção e entendeu o porquê de Jensen ter ficado tão magoado.

– Eu entendo rapaz, mas você vai ter que esperar ele voltar, de cabeça fria, descansado.

– Onde ele está?

– Não posso dizer e, mesmo se pudesse, não adiantaria, eu garanto. Esfria a cabeça, ele vai voltar e vocês conversam. Eu não prometo nada, mas vou tentar conversar com ele antes, adiantar seu lado. Mas, repito, não prometo nada.

Naquela noite, quando Jensen ligou para saber como andavam as coisas na rádio, Steve não se conteve e contou a versão de Jared da história, depois de muita insistência para que fosse ouvido pelo amigo.

– Jen, o Jared me procurou desesperado.

– Por favor, não quero falar sobre isso, Steve.

– Jen, só me ouve, então... O Jason, aquele Jason que te perseguiu, estava trabalhando no laboratório e manipulou o resultado do exame de sangue de Jared...

– Steve, por favor...

– Foi demitido e está sendo processado até.

– Isso não justifica a atitude do Jared.

– Dê um desconto, ele estava bêbado e desesperado, achando que era HIV positivo, isso deve mesmo ser assustador, perturba qualquer um, ainda mais um cara tão jovem...

– Não interessa! Eu prometi a mim mesmo que ninguém mais iria abusar de mim ou me machucar de nenhuma forma. Baixei a guarda por Jared e olha no que deu!

– Mas o Michael, que fez o que fez, mereceu uma segunda chance. Então por que o Jared não?

Jensen ficou em silêncio, sentindo uma pontada de remorso.

– Não estou pronto para isso ainda...

– Se dê esse tempo, mas pense com carinho, Jen. Deu pena de ver o estado do rapaz. Parece que não dorme ou come desde aquele dia... consumido pela culpa, remorso, dor.

– Ele não é o único a sofrer. E é o responsável pelo que está passando, não eu. Agora, por favor, vamos mudar de assunto.

Steve deixou escapar um suspiro e começou a falar sobre a rádio, o amor fiel de Jensen. Não seria fácil convencer o amigo, machucado como estava, a dar ao menos a chance de Jared se explicar. Mas ele estava determinado a ajudar o garoto e, quando Jensen voltasse, continuaria a campanha pró-Jared.