Por Uma Noite Apenas.
5 Capítulo 5
Jared e Jensen estavam juntos há seis meses. A cumplicidade entre os dois era cada vez maior, o amor mais intenso e bastava olhar para os dois juntos para perceber que estavam felizes. Quem conhecia Jensen jamais imaginaria que isso fosse possível um dia: o homem de uma noite apenas finalmente havia dado o braço a torcer e se envolvido sem reservas. A única coisa que ainda incomodava eram os pesadelos de Jensen, embora cada vez mais espaçados. Jared sabia que tinham a ver com o que ele havia sofrido no passado e, à medida que se sentia seguro, estavam diminuindo. Mesmo assim, Jared se sentia impotente, queria poder ajudar Jensen a superar, fosse o que fosse, de uma vez por todas. Portanto, na próxima vez, ele iria insistir até o namorado abrir o jogo com ele.
A oportunidade surgiu menos de uma semana depois de Jared tomar a decisão. Começou com um murmúrio que foi se intensificando até Jensen começar a se debater violentamente.
– Não... por favor... não aguento mais...
– Jen! Acorda! – dizia Jared, embora em vão.
– Eu não... não quero morrer...
– JENSEN! — ... não quero morrer... – repetia Jensen, sem parar, banhado em suor e lágrimas.
Com medo de que dar tapinhas no rosto fosse assustar Jensen ainda mais, Jared foi até a cozinha, de onde voltou com um copo d'água. Com os dedos, respingou água no rosto de Jensen, que finalmente acordou ofegante. Sentando na cama, olhou para Jared, assustado.
– Jen, está tudo bem, você não vai morrer.
– Foi outro daqueles, huh?
– Se foi. Jen, sério, a gente precisa conversar sobre isso, até para você superar o que houve. Se sentir seguro comigo.
Jensen suspirou e enxugou o rosto. Talvez Jared tivesse razão e, compartilhando o seu passado, fosse mais fácil superar. Com a voz baixa, olhando para as próprias mãos, ele começou a contar.
– Eu tinha 14 anos, morava em Dallas com minha família ainda, quando conheci Michael, por acaso, numa biblioteca. Era mais velho, experiente, ao passo que eu nunca havia tido um relacionamento... Deus, como é difícil...
– Tudo bem, Jen, vá devagar.
Inspirando profundamente, Jensen continuou:
– Toda semana nos encontrávamos no mesmo lugar, conversávamos e eu fui me encantando. Tínhamos muito em comum, ao menos era o que eu, na minha ingenuidade, achava na época. Hoje não sei se não era tudo fingimento ou se ele mudou mesmo com o tempo. Enfim, os primeiros meses foram ótimos. Minha primeira vez foi com ele, entende? Cheia de carinho e cuidados. Praticamente morava com ele já, de tanto tempo que passávamos juntos. Eu achava que não poderia ser mais feliz... como fui idiota.
"Com o tempo ele foi mudando, ou se revelando, isso nunca vou saber. Um dia me atrasei por causa de um trabalho da escola. Cheguei na casa dele e encontrei-o totalmente bêbado. Ele nem quis me ouvir, foi logo me agredindo com socos e xingamentos. Me chamou de tudo quanto é coisa, de vagabundo pra baixo, me acusou de estar saindo com outro. Daí pra frente foi só piorando. Qualquer coisinha que eu fazia que o desagradasse ou despertasse ciúme era suficiente para virar motivo para uma nova surra. Resolvi terminar tudo e voltar pra casa.
"No dia seguinte ele foi até lá pedindo desculpas, chorando, se dizendo arrependido, e eu acreditei, dei uma segunda chance pra ele. Meus pais ainda insistiram para que eu ficasse, mas não dei ouvidos, coisa de adolescente bobo e, apesar de tudo, apaixonado. Michael passou duas semanas todo cheio de carinho, mas logo voltou a ser agressivo. Um dia, porque ele me viu com um colega de escola, além de me espancar, me estuprou. Eu implorava para que ele parasse, mas quanto mais eu pedia, mais violento ele ficava. Passei dois dias na cama. Depois outros dois dentro de casa, com vergonha de sair e enfrentar os vizinhos, que deveriam ter ouvido tudo.
"Pensei em dar queixa na polícia, mas acabei desistindo. Não estava disposto a virar motivo de piada para um bando de policiais, rindo do menino gay que apanha do amante. Talvez achassem que eu merecia isso mesmo. Tentei voltar para casa de novo. Foi outra novela, com choradeira, pedidos de perdão, o tradicional 'não vou mais fazer isso, não sei onde estava com a cabeça' e por aí vai. Desta vez eu não caí, mas nem por isso tive paz. Ele passou a me perseguir. Até que um dia ele conseguiu me encurralar em um beco perto da minha casa. Me deixou desacordado. Quando voltei a mim, estava preso na casa dele, no quarto. Naquele dia ele me espancou tanto, me violentou tantas vezes que..."
Jensen fez uma pausa, respirou fundo buscando forças. E continuou:
– Jay, eu implorei, dizia que não queria morrer, até ficar totalmente sem forças, sem esperanças. Mas não adiantou. Foi quando a polícia invadiu a casa. Uma vizinha ouviu meus gritos e fez a denúncia. Michael foi preso e eu passei duas semanas no hospital me recuperando. Estive muito mal. Costelas quebradas, braço quebrado, concussão. A cicatriz no meu queixo foi ele quem me deu. Para resumir, ele foi julgado e condenado a seis anos de prisão, dos quais cumpriu um antes de ser assassinado por um colega de cela. E eu prometi que não me envolveria com ninguém nunca mais, porque estava certo de que a culpa era minha, por não saber reconhecer a maldade nas pessoas, por ser ingênuo, por confiar demais, me entregar demais...
Jared ouvia em silêncio sem, contudo, conseguir esconder o espanto, a surpresa pelo que Jensen havia passado. Ele não merecia tanto sofrimento. Mas ao mesmo tempo Jared sentia alívio por tudo aquilo fazer parte do passado. Quando deu por si percebeu que havia lágrimas escorrendo pelo seu rosto, e também pelo de Jensen. Eles se abraçaram e assim ficaram por um longo tempo.
– Jen... nem sei o que dizer... foi tanto sofrimento que você não merecia, não merece... e eu sei que nada que eu diga vai apagar essa dor toda de você, mas quero que saiba que eu nunca vou machucar você desse jeito... que você não está sozinho... eu te amo, Jen.
– Também te amo, Jay.
J2J2J2J2J2J2J2
19 de julho de 2009. Aquele domingo era especial. Afinal, Jared completava 25 anos. Jensen tinha preparado tudo, feito reservas, organizado a agenda. Iria levar Jared para Los Angeles onde jantariam em um restaurante especial e depois passariam a noite em um hotel antes de voltar a Santa Cruz. Tudo isso depois de assistirem juntos ao show único nos Estados Unidos de Led Zeppelin, que havia se reunido para uma apresentação na Europa e acabou cedendo aos pedidos dos fãs e concordado em tocar na América também.
A exemplo do show na Europa os ingressos para a apresentação foram disputados. E caros demais para um estagiário. Sem contar que eram sorteados. Mas Jensen seria capaz de usar do benefício de ser proprietário de uma rádio de sucesso para conseguir as entradas, caso não tivesse conseguido pelos meios normais. Era um presente para os dois.
– NÃO ACREDITO!
Jensen apenas sorria. Sabia que Jared iria adorar a surpresa.
– Pois acredite e trate de escolher uma roupa para o show e algumas outras coisas para levar junto. Vamos tomar café e partir. Assim posso dirigir tranquilo, sem correria.
Foi a primeira vez que Jensen viu Jared recusar comida. Estava ansioso demais para comer, segundo ele. Pegou algumas peças de roupa, pôs em uma sacola de viagem junto com as coisas de Jensen e já ia para o carro quando foi interrompido.
– Hei! EU tenho fome. Não precisamos sair assim tão cedo também. O show vai ser à noite, independente de chegarmos lá ao meio-dia ou no meio da tarde – disse Jensen, divertido.
Durante o trajeto foram ouvindo e cantando Led, claro. Serviu como aquecimento. E era a primeira viagem que faziam juntos, por perto que fosse, e queriam se divertir ao máximo. Já mais relaxado, no meio do caminho Jared pediu que parassem em um posto de gasolina ou qualquer outro lugar que tivesse alo doce para vender.
– Esse é o Jared que eu conheço – debochou Jensen.
– Rá-rá.
Passaram a tarde passeando antes de irem para o teatro onde aconteceria o show que, como era de se esperar, foi fantástico. Jared chorou em Stairway to Heaven. Estava assistindo a um show único, raro e perfeito de sua banda favorita ao lado do homem que amava. A vida não poderia ser melhor.
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