Por Uma Noite Apenas.
4 Capítulo 4
A vida seguia relativamente tranquila. Jared dividia seu tempo entre estudos e Jensen; Jensen dividia seu tempo entre trabalho e Jared. Mas havia algo interferindo nessa paz. Há algumas semanas o sono do mais velho começou a ser interrompido por pesadelos que faziam com que ele acordasse suando frio e ofegante no meio da noite. Jared deixava-o livre para contar o que quisesse quando estivesse pronto, mas estava incomodado, pois queria ajudar e não sabia como. Reservava-se a segurar a mão de Jensen para que ele soubesse que estava ali se precisasse.
Era meados de fevereiro, véspera do Dia dos Namorados, e estavam ambos dormindo no apartamento de Jensen quando ele começou a se debater violentamente na cama, resmungando palavras incompreensíveis, encharcando os lençóis com suor. Jared acordou e tentou fazer com que Jensen acordasse também, tocando-o de leve no ombro. Não teve sucesso. Então o chamou pelo nome sacudindo-o, embora sem brutalidade. Jensen então começou a lutar com Jared, tentando se desvencilhar do contato, chorando baixinho.
– Não, por favor – Jensen implorava. – Não me machuque mais, por favor... por favor...
– Jensen, sou eu, Jared, nunca vou te machucar. Acorde, é só um pesadelo.
– Não... eu não quero... não quero morrer.
– Jensen! Sou eu, Jared! – gritou o jovem.
Jensen acordou assustado, lágrimas ainda escorriam pelo seu rosto. Ofegante e de olhos arregalados, ele tentava entender onde estava, quem era este que gritava com ele, por que estava chorando. Com a respiração entrecortada, finalmente ele conseguiu se centrar. Olhou para Jared enquanto enxugava o rosto.
– Me desculpe.
– Jensen, não precisa se desculpar.
– Eu não te deixo dormir em paz, hein? – tentou brincar para deixar o clima mais leve, sem sucesso.
– Jensen, não é isso que me incomoda. O que me incomoda é o fato de você não confiar em mim, não desabafar comigo sobre o que causa esses pesadelos, para que eu possa ao menos tentar te ajudar a superar tudo isso...
– Não é que eu não confie, Jay. Porque confio, sério. – soltou um suspiro. – É que não se trata de algo que eu goste de ficar lembrando e para contar eu preciso relembrar. E também tenho certeza de que você já tem uma ideia do que se trata, pois eu sei que se comenta a respeito em todo o lugar. Sei que falam de mim por aí.
– Jensen...
– Jay, eu não me incomodo com os comentários. Os meus amigos me tratam com respeito e isso é o que realmente importa. Sobre te contar a respeito do que eu enfrentei no passado... bem, eu realmente não estou pronto. E não é por falta de confiança, Jared, é simplesmente porque me machuca falar...
– Tudo bem, Jen. Desde que você me garanta que vai me procurar quando precisar. Quero que saiba que estou aqui para te ajudar, que não vou te julgar, nem forçá-lo a nada.
Jensen baixou os olhos e sentiu-se à vontade para chorar. Jared abraçou-o, acariciando suas costas e seus cabelos, na tentativa de confortá-lo, até que Jensen, totalmente exausto, caiu no sono em seus braços.
~*~
14 de fevereiro de 2009. Dia dos Namorados. Jared fingiu esquecer a data, pois queria surpreender Jensen. Saiu do apartamento cedo, antes mesmo do outro acordar, deixando um recado no travesseiro, o que acabou virando um hábito entre os dois. “Hei, saí cedo, pois precisei passar em casa antes da aula. Nos vemos à noite. Beijos. Jay.”
Na verdade ele sequer tinha aula naquela manhã. Havia planejado passar em algumas lojas à procura de algo especial para Jensen. “Puxa, é tão difícil encontrar um presente para Jen, ele tem praticamente tudo...” Mas Jared não estava disposto a desistir. Iria comprar algo que provasse seu carinho por ele. Só não seria a qualquer custo porque era estudante, estagiário, que ainda dependia de ajuda financeira do pai. O que dificultava algumas coisas.
À noite Jensen foi até o prédio de Jared. Subiu as escadas e bateu à porta que se abriu ao seu toque. Tudo estava escuro no apartamento.
– Jay? Você está aqui?
Silêncio.
– Jay? – “Onde pode estar? Combinamos de nos encontrar aqui...” As luzes não acenderam ao seu comando como era de se esperar e ele seguiu tateando a procura de Jared. No corredor, algumas velas aromáticas indicavam o caminho pelo qual Jensen deveria seguir. O quarto estava totalmente decorado ao melhor estilo “Dia dos Namorados”, com balões em forma de coração pelos cantos, pétalas de rosas vermelhas no chão, música suave ao fundo, champanhe em um balde com gelo.
– Sei que é meio piegas, Jen, mas eu queria te provar que te amo e que jamais vou te machucar, mas não encontrei outro jeito – falou Jared, saindo de trás da porta.
Jensen estava emocionado. Ninguém havia feito nada semelhante para ele antes.
– Jay... – Disse em um sussurro. – Nem sei o que dizer.
– Então me beije e deixe as palavras pra lá. Elas, às vezes, são totalmente desnecessárias.
Depois de um longo beijo pontuado de carinho, Jensen olhou no fundo dos olhos castanhos de Jared.
– Também tenho um presente para você.
– Como assim, “também”? Não te dei o presente ainda!
– Tem mais?
– Você se contenta com pouco assim?
– Como pouco? Jamais alguém fez algo assim para mim antes...
– Jen, você merece tanto mais...
Jensen tentava evitar as lágrimas que já se formavam em seus olhos. Nunca havia recebido tanto carinho, consideração, respeito ou mesmo amor. E ao mesmo tempo em que se sentia extremamente feliz, não conseguia evitar sentir medo de que tudo não passasse de uma ilusão ou de que fosse acabar a qualquer momento.
– Preparado? – A pergunta de Jared o tirou de seus devaneios.
– Er... sim, estou. O que é, afinal?
– Já vou avisando que não é nada demais. Você sabe, né? Minha renda não é lá essas coisas. Portanto, o presente é simples, mas eu acho que você vai ficar ainda mais lindo... vai ressaltar os seus olhos.
Ansioso feito uma criança, Jensen abriu o pacote de onde tirou uma linda camisa verde, de um tecido macio e gostoso ao toque que ele não soube identificar.
– Uau, Jay, é linda! Nem sei o que dizer...
– Ué, não diga nada então, já não era o combinado?
– Ok, então. Não vou dizer nada. Mas agora é a minha vez.
– Sério?
– Achou que eu iria deixar passar a data em branco? E vou confessar, mais nada vai ficar em branco depois do meu presente...
Então foi a vez de Jared ficar ansioso com o pacote. Era um kit de tintas, pincéis e material artístico.
– Você nunca me mostrou os seus quadros, mas o Chris me deu a dica. Ele disse que você gosta de rabiscar por aí e que seus trabalhos são lindos. E eu quis ajudar no desenvolvimento de mais um artista... espero que não se importe.
– Como assim “me importar”, Jensen? Eu amei o presente! Sempre sonhei com um desses, com tantos recursos. E desculpe se nunca mostrei o que eu fiz, mas eu ainda não estava pronto para isso... Não sou muito bom...
– Tudo bem, Jay. Vamos ter muito tempo... ao menos eu espero que sim.
À luz de velas, mais uma vez eles fizeram amor na cama estreita de Jared. O primeiro Dia dos Namorados de Jensen foi envolvido por magia.
~*~
Mal se passaram duas semanas e já era aniversário de Jensen. Desta vez, entretanto, Jared sabia o que dar de presente. Estava trabalhando no quadro desde o Dia dos Namorados e queria caprichar. Afinal, seria o primeiro trabalho seu que Jensen veria. O nervosismo era tanto que ele mal conseguia embrulhar a tela. Jogou o primeiro papel fora. Tentou de novo. Ficou horrível. Resolveu dar o braço a torcer e pedir ajuda a Annabelle, afinal, mulheres têm mais jeito para essas coisas.
Pacote devidamente feito, com direito a laço e tudo, Jared foi até o prédio de Jensen. Não conseguia esconder o nervosismo, pois ele não costumava mostrar suas pinturas, tampouco compartilhava da opinião de Chris que o achava talentoso. Estava extremamente inseguro. Mas tinha decidido e não iria voltar atrás. Tocou o interfone e aguardou.
– Já estou descendo, Jay.
Depois de alguns minutos de espera, Jensen apareceu, cabelos molhados, a camisa verde que havia ganho no Dia dos Namorados. Jared soltou um suspiro. Jensen estava mesmo a cada dia mais lindo.
– Hei, Jared!
– Como você sabia que era eu?
– Quem mais poderia ser? – respondeu Jensen, sorrindo.
– Vamos?
– Aonde vamos?
– Achei um lugarzinho legal para jantarmos. Reservado, simples e com comida boa.
– E esse pacote aí? – perguntou o loiro ansioso, olhar sapeca de um menino travesso.
– Te dou lá.
No Land Rover de Jensen, Jared indicou o caminho do pequeno restaurante. O ambiente era mesmo aconchegante, com ar de casa de avó com suas toalhas em xadrez vermelho e branco, pequenos vasos com flores no centro das mesas, louça simples. E a comida caseira também, extremamente saborosa, regada a um vinho suave e tinto produzido na vinícola dos mesmos proprietários da cantina.
– Jared, que delícia! Como você descobriu esse lugar? Moro aqui há 13 anos e não sabia que existia!
– Lembra da loira que estava com o Chris no Réveillon? Adrianne? Pois eles ainda estão juntos, por mais incrível que possa parecer. E esse restaurante é dos pais dela.
– Que achado!
– Então, pronto para o presente?
– Sempre! – disse Jensen, com os olhos brilhando de entusiasmo. Ele não conseguia disfarçar a felicidade, parecia uma criança, sem reservas, espontânea. E não sentia mais medo de se entregar. Estava completamente apaixonado.
O pacote estava tão bem feito que Jensen teve pena de rasgá-lo. Então, apesar da curiosidade, abriu o embrulho com cuidado desta vez, o que deixou Jared ansioso.
– Rasga logo isso!
– Calma, rapaz! – respondeu Jensen que, vendo a ansiedade do mais novo, se esmerou em demorar ainda mais na tarefa, apesar da própria curiosidade o estar importunando. Era divertido ver Jared angustiado.
Finalmente, depois de aberto o presente, Jensen olhou para o quadro e ficou sem palavras. Era um retrato seu, sorrindo, sob a luz do sol na praia em que se conheceram. Pintado por Jared. O mesmo Jared que dizia que não tinha talento havia pintado um retrato seu que era praticamente como se estivesse se olhando no espelho. Jensen ficou em silêncio, admirado, emocionado.
– Puxa, Jen, fala alguma coisa...
Jensen chegou a abrir os lábios com a intenção de ao menos agradecer o presente tão perfeito, delicado, especial. No entanto, olhou para Jared sem emitir som algum. Não conseguia. Engoliu em seco.
– Jen?
Finalmente, num sussurro, Jensen conseguiu responder.
– Jay, é lindo...
– Pode dizer se não gostou, Jen, seja sincero.
– Eu adorei, Jay... nem sei o que dizer. Tão rico em detalhes, tão perfeito, é... Nunca ninguém fez algo assim para mim. Puxa, eu... – sua voz ficou embargada e Jared pôde ver que Jensen estava mesmo emocionado, que havia gostado do presente que ele havia feito com tanto carinho e, porque não?, com tanto amor. Nesse instante ambos estavam certos de que a felicidade era possível, que o amor era possível.
~*~
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