O primeiro dia do ano foi mesmo especial para ambos. Ao chegarem ao apartamento de Jensen foram direto ao quarto para uma sessão de sexo tranquilo, sem pressa, como se para aproveitar cada momento, como se cada movimento dos dois fosse especial. Depois o cansaço chegou e os derrubou, fazendo-os dormir até perto das cinco da tarde.

Desta vez foi Jared quem acordou primeiro. Ele não conseguiu evitar o sorriso ao ver Jensen dormir tranquilamente, boca entreaberta, como uma criança. Era gostoso ouvi-lo respirar, vê-lo de olhos fechados, os longos cílios conferindo ainda mais charme ao rosto pintado de sardas. “Podia ficar a vida inteira olhando para ele”, pensou Jared. Mas em vez disso preferiu preparar algo para surpreendê-lo quando acordasse.

Por isso levantou-se, tomou uma ducha e foi até a cozinha. A ideia inicial era preparar um bom café da manhã, embora fosse final da tarde, e levá-lo na cama para Jensen. A decepção tomou conta de Jared ao perceber que a cozinha estava praticamente vazia, não havia nada o que fazer, sequer pó de café.

Decidido a pôr seu plano em prática Jared saiu do apartamento levando a chave. Poucas coisas estavam abertas neste dia, naturalmente, então Jared teve que se contentar com uma loja de conveniência mesmo. Comprou pão, café, leite, margarina, geleia, uma caixa de bombons. Não tinha frutas. Nem ovos para uma omelete ou panquecas. Mas havia uma porção de muffins que serviriam como substitutos. Mesmo assim, Jared não conseguiu esconder a decepção. Queria algo especial, mas teria que ficar para outra hora.

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Jensen acordou em uma cama vazia. “Jared deve estar no banheiro.” Esperou mais um tempo, mas não havia sequer um ruído pela casa. Jensen levantou-se, vestiu a boxer branca e foi até a sala. Vazia. O mesmo na cozinha e no escritório. Lágrimas surgiram em seus olhos. “Claro. Eu o abandonei da outra vez, está aí meu troco.”

Nem bem tinha terminado seu pensamento quando ouviu barulho de chave na porta. Era Jared. Nos braços um saco de compras. Jensen se sentiu envergonhado por pensar que Jay o deixaria assim, sem explicações. E ao mesmo tempo aliviado e feliz por vê-lo de volta.

– Ah, Jen, estraga-prazer! Volta já para a cama e finge que está dormindo!

– Por que isso, Jay? – respondeu Jensen, lutando para disfarçar a voz embargada e o brilho das lágrimas mal-formadas em seus lindos olhos verdes com um sorriso.

– Eu queria fazer uma surpresa...

Entrando na brincadeira para não derrubar por terra os esforços do mais jovem, Jensen voltou para o quarto e fez o que lhe havia sido pedido. Deitou-se de bruços e fingiu que dormia, embora não conseguisse esconder o sorriso que aumentou de intensidade ao perceber as intenções do jovem.

Na cozinha, Jared fazia o que podia com o que havia conseguido comprar. Pôs o café com leite quente, torradas, muffins e alguns bombons em uma bandeja e levou até o quarto.

– Bom dia, Jen – falou baixinho perto de seu ouvido. Para sua surpresa, Jen havia caído no sono de verdade enquanto esperava. Dava para perceber pelo seu respirar lento, pelo jeito da boca entreaberta e a expressão serena. Jared largou a bandeja no chão e acariciou os cabelos bagunçados de Jensen até despertá-lo de mansinho.

– Hei, Jay. Não precisei fingir... você demorou tanto que não resisti ao cansaço.

– Tudo bem, foi até melhor assim. Trouxe café da manhã para você. Faz de conta que não são seis da tarde, ok? E não repare que não tinha nada na sua geladeira e não tem nenhum mercado aberto hoje.

– Então o que fez? Arrombou um?

– Eu tentei, mas não tenho esse dom. Tive que me contentar com o pouco que uma loja de conveniência tinha para me oferecer. Desculpe, eu planejava algo bem melhor.

Olhando para a bandeja, Jensen sorriu.

– É mais do que eu costumo comer quando acordo. Está ótimo! Obrigado! – e deu um beijo suave no rosto de Jared.

– Eu percebi pelo estado de sua cozinha. Espero que goste de café com leite, pois só encontrei um bule por lá e fui obrigado a misturar. Faltou achar um ninho de aranha dentro de tão abandonado.

– Eu adoro café com leite. E se não tenho muita coisa é porque como fora quase sempre, ou peço algo de tele-entrega. Não tenho horário fixo, por isso minha funcionária não cozinha. Não valeria à pena ela se dar ao trabalho de fazer comida só para estragar e ir fora depois. Ainda mais em um mundo onde tanta gente passa fome, seria um absurdo.

“Então além de tudo é preocupado com questões sociais... Ele é mais perfeito do que eu imaginava”, pensou Jared.

– Que foi? – perguntou Jensen com expressão intrigada, sobrancelha esquerda erguida. – Está me olhando estranho...

– É que você... É tão legal isso de você se preocupar com o próximo.

– Eu faço o que está ao meu alcance o que, na verdade, nem é muito. Sempre que posso faço uma ou outra doação para caridade, divulgo gratuitamente na rádio ações beneficentes e campanhas de sensibilização de todo o tipo, contribuo mensalmente com um orfanato, essas coisas.

– Isso já é bastante. Tem tanta gente que pode mais e não faz nada – lamentou Jared.

– Eu sei. Mas eu queria poder fazer mais, a vida me dá tanto e esse seria um ótimo jeito de retribuir... – disse Jensen enquanto mordia um muffin.

– Bom, eu não posso fazer doações em dinheiro, mas ajudo uma ONG que faz campanhas de conscientização pela paz no trânsito como voluntário nas ações. E também crio o material de divulgação deles. É bem interessante, quem sabe um dia você conhece?

– Eu adoraria.

Conversando amenidades os dois tomaram o primeiro café da manhã juntos, desprezando o fato de ser quase noite. E logo em seguida estavam dormindo nos braços um do outro novamente.

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2 de janeiro de 2009. Jensen bem que gostaria de emendar quatro dias de feriadão, mas precisava trabalhar. Acordou e foi ao banheiro tomar uma ducha. Só que, desta vez, o bilhete que deixou para Jared era diferente do anterior. Sorriu ao deixar o pedaço de papel sobre seu travesseiro. Deu um beijo na testa do mais novo e saiu.

Jared sentiu um frio percorrer sua espinha ao acordar e ver que estava sozinho na cama outra vez. Quase sentiu medo de ler o recado. Mas logo veio o alívio. “Tive que trabalhar. Que tal se jantarmos juntos hoje? Às oito? Te pego na frente do meu prédio, já que não faço ideia de onde você mora. Precisamos cuidar disso. Ou me liga se tiver outro compromisso. Jen.”

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O dia não poderia ter passado mais lentamente. Jared não teria aula antes de segunda-feira e os professores foram piedosos, não deixando trabalho a ser feito no feriadão. O que era bom, pois estava feliz demais para se concentrar em pesquisas, mas ao mesmo tempo era ruim, pois deixava poucas opções para matar o tempo até chegar a noite.

Ficou ouvindo a Gênesis enquanto tentava ler The Client, de John Grisham. Sem conseguir, no entanto. Então tentou dormir, mas estava agitado demais para isso. No final da tarde tomou um banho demorado e escolheu uma roupa menos casual, pois não sabia onde Jensen iria levá-lo para jantar. Vestiu-se com uma calça jeans mais apresentável, camisa branca e sapatos e foi até o prédio do namorado.

Não demorou muito para Jensen aparecer, também de jeans, mas com uma camisa bordô, mangas arregaçadas até pouco abaixo dos cotovelos, os cabelos lisos e loiros ainda molhados. Jared quase se esqueceu de respirar ao ver aquele homem que parecia ficar ainda mais lindo a cada dia.

– Hei, esperando há muito tempo?

– Não, acabei de chegar. Então, aonde você vai me levar para jantar, afinal?

– No restaurante La Cantina, que fica perto da nossa praia. Tem ótima comida italiana lá. A não ser que você não goste deste tipo de prato.

– Não há comida que eu não goste, Jen.

O jantar foi ótimo. Jensen ficou espantado com a quantidade de comida que Jared era capaz de consumir de uma única vez, mas se divertiu com o fato. Eles conversaram sobre muitas coisas, se conheceram um pouco mais. A família e a faculdade de Jared, o acidente com os pais de Jensen e o início da rádio, assuntos variados. Ao saírem do restaurante resolveram caminhar um pouco na praia, barras das calças dobradas para cima e pés descalços na areia enquanto curtiam a brisa leve que soprava do mar. Jensen não se sentia tão leve e feliz há muito tempo. O mesmo acontecia com Jared. Tudo parecia estar em seus devidos lugares.

– O Chris resolveu passar o feriadão na casa da loira que ele conheceu no Réveillon, pelo que me consta. Que tal irmos até o apartamento que divido com ele para você saber, finalmente, onde eu moro? Só aviso que não tem luxo, além de simples é moradia de dois bagunceiros!

– Eu adoraria, Jay. E pode ter certeza de que não vou reparar ou me importar se estiver mesmo bagunçado.

Ao chegarem ao local Jensen sentiu uma pontada de saudade dos tempos de estudante. Era mesmo simples, mas não estava tão bagunçado quanto Jared fazia parecer.

– Fique à vontade, Jen, vou buscar cerveja para nós.

– Jay, não precisa. O que eu quero mesmo é conhecer o seu quarto.

Jensen pegou Jared pela mão e pediu que o guiasse com um sorriso maroto nos lábios.

– Eu não sei o caminho, Jay, você me leva? – Dizendo isso, Jensen beijou Jared carinhosamente.

Sem pronunciar uma única palavra Jared puxou Jensen até seu quarto.

– Duvido que você caiba nesta cama, Jay!

– Pois eu posso provar que não só eu caibo como cabemos os dois!

Aos beijos e risos, Jared conduziu Jensen até a cama e deitou-o, deixando seu corpo sobre o dele e desabotoando a camisa bordô que lhe caía tão bem. Jensen interrompeu o beijo e olhou nos olhos de Jared.

– Puxa. Você tinha razão, cabemos os dois – disse ofegante.

– Vai sobrar mais espaço quando tirarmos toda essa roupa...

– Jay? É você? O que aconteceu com o rapaz tímido com olhos de cachorro abandonado que eu conheci?

– Ele perdeu a cabeça por um loiro de olhos verdes estonteantes.

Jared continuou a despir Jensen lentamente, para prolongar o momento. Às vezes sentia medo de que durasse pouco. Às vezes achava que não merecia a felicidade de ter Jensen a seu lado. E, justamente por isso, fazia o possível para aproveitar ao máximo enquanto podia.

Jensen se deixava conduzir desta vez. Tudo o que estava vivendo com Jared era extremamente novo para ele. Havia doçura e carinho, envolvimento e entrega.

Houve uma época em que Jensen era aquele que se entregava com carinho. Era jovem, inexperiente e estava apaixonado. Em troca sofreu todo tipo de abuso. Agora as posições estavam trocadas, mas Jared não precisava temer, pois Jensen não seria capaz de infligir à outra pessoa o que ele próprio havia sofrido. E Jensen começava a se sentir seguro, pois Jared não parecia ser do tipo que abusava de alguém.

Lutando para tirar as memórias ruins da cabeça, Jensen voltou a focar-se no momento presente. Deslizou as mãos por baixo da camisa de Jared, tateando suas costas, sentindo os músculos definidos. Ao mesmo tempo Jared percorria o pescoço e o peito de Jensen com beijos e murmúrios indecifráveis.

Não demorou muito para que Jared também estivesse completamente nu e excitado. Jensen segurou o mais jovem pela nuca e o guiou para que suas bocas se unissem em um beijo ardente e intenso. Depois de alguns minutos, ofegante e com o coração acelerado, Jared interrompeu o beijo, ajoelhou-se entre as pernas de Jensen e ajeitou-se de modo que pudesse envolver seu membro com a boca.

Ao sentir o calor úmido da boca de Jared, Jensen fechou os olhos e se deixou levar pelas sensações. Acolhimento, segurança, tesão, êxtase. Sentia seu corpo tremer, o suor brotar de cada um de seus poros, a pele arrepiar, enquanto Jared se movimentava. Jensen gemeu alto e, erguendo os braços, segurou na cabeceira da cama para evitar o grito, com receio de que os vizinhos pudessem ouvi-lo. Jogou a cabeça para trás e mordeu o lábio inferior quando sentiu o orgasmo crescendo dentro de si. Finalmente não conseguiu mais segurar e explodiu na boca de Jared.

Abraçados na cama estreita, ambos tentavam desacelerar os batimentos cardíacos e fazer a respiração voltar ao normal, até que caíram no sono. Nenhuma palavra foi necessária.