Por Um Dia

14 Sobre Quartos e Amigos


Notas iniciais
Diana leva uma vida tranquila e cercada de conforto. Ao viver um dia no corpo de Larissa, ela aprende algo sobre a importância da família e dos amigos.

Meus olhos se abrem e noto que fui acordada pelo meu belíssimo despertador. Eu o desligo e volto a fechar os olhos, mas minha porta se abre e ouço:

— Nossa, Diana, ainda não acordou!? — diz minha mãe surpresa, como se isso fosse novidade.

— Já estou acordada, mãe, e já estou levantando!

— Então se arrume logo ou vai se atrasar para a escola! – diz ela, enfática.

— Tá, mãe!

Levanto-me e me arrumo para ir à escola, penteio meus cabelos longos e lisos, tomo o meu café e vou. Tive seis aulas, como todos os dias, sorte que hoje é quinta e só mais amanhã tem aula. Estudo em um colégio particular não muito longe da minha casa, no período da manhã.

São 13h00min e estou aguardando minha mãe chegar. Minhas amigas que estão do meu lado sugerem uma ida à minha casa amanhã, e então eu digo que tudo bem se forem às três horas. Minha mãe chega, despeço-me das minhas amigas e vamos ao shopping almoçar; depois tomamos um sorvete e vamos às compras.

Chegamos em casa às 16h00min. Vou para o meu quarto assistir à minha série favorita na TV, chamada Glee. Acabo cochilando e já está quase na hora do jantar. Desço as escadas e vou para a mesa, onde já estão minha mãe, meu pai e meu irmão mais novo. Sento-me e começo a me servir.

— E então, como você está indo na escola? – pergunta meu pai diretamente a mim.

— Vou bem, minhas notas são as melhores!

— Que bom, continue assim. E você, Wesley?

— Eu só tirei uma nota ruim, em ciências — responde meu irmão. Wesley tem 12 anos e quase sempre vai mal em ciências.

— Procure melhorar, não estou pagando escola para que você tire notas ruins — fala meu pai.

— Sim, papai — responde meu irmão, um tanto constrangido pela bronca.

— Agora vamos comer, chega de conversa – diz minha mãe, com um sorriso tímido.

Acabamos de jantar e vem a sobremesa; como estou satisfeita, subo para meu quarto, pego as minhas coisas para o banho, aproveito e já escovo os dentes. Deito na minha cama e começo a ler um livro para me distrair, já que não tenho lição de casa. Minha mãe abre a porta e diz para eu ir dormir. Eu a obedeço, pois eu realmente já estou com sono. E adormeço.

Acordo e noto que não fui acordada nem pelo meu despertador nem pela minha mãe, o que acho estranho, mas em um segundo vejo que acordei em um ambiente diferente. Este não é o meu quarto! Onde está o meu guarda-roupa branco com detalhes cor de rosa? E esta cama na qual estou? Não é minha, ela é macia demais, sem falar que a roupa de cama não é nem um pouco parecida com a minha.

Levanto-me e vejo que o meu piso de madeira se transformou em um piso branco repleto de detalhes floridos; estou usando um pijama preto com uma caveira na frente, sendo que o meu pijama, ao me deitar, era rosa e branco. Vou até um espelho que tem ao lado do guarda-roupa e quando me olho dou um grito estridente:

— Aaaaaah!

Fico pasma com o meu reflexo, essa não sou eu! Em lugar dos meus cabelos longos, lisos e castanhos, está um cabelo com corte Chanel preto e ondulado, e os meus olhos escuros agora são claros, com um tom esverdeado muito suave e bonito. Será que estou sonhando? Belisco-me, mas não acordo.

— Bom, já que não acordo, vou descobrir o que está acontecendo — digo a mim mesma.

A porta do quarto se abre e entra uma mulher. Reparo prontamente em seu rosto, pois há muita maquiagem, e logo em seguida noto que seus cabelos são louros tingidos e então ela abre a boca e diz:

— O que você está fazendo aí parada, Larissa? Vá logo me preparar um café.

O hálito dela é horrível, nota-se que recentemente bebeu algo com álcool, talvez um uísque, pois o cheiro é familiar. Papai muitas vezes bebia à tardezinha, mas nunca quando acabava de acordar.

— Você é minha mãe? – pergunto.

— Está zombando de mim? Lógico que sou sua mãe. E vá logo fazer o café, se não você não vai ensaiar com a sua banda hoje!

— Tudo bem, já estou indo, mas onde fica o banheiro? E... qual instrumento eu toco mesmo ?

— Você deve ter acordado com um parafuso a menos – ela diz, e sai sem me oferecer maiores explicações.

Vasculho o meu quarto em busca de alguma pista a respeito do que “eu” toco e, sem muito esforço, identifico um estojo bem no canto da parede que parece ser de uma guitarra. Lembro-me de que sempre gostei de música clássica, mas parece que Larissa tem gostos diferentes.

Saio do quarto e vou para um pequeno cômodo; lá está o banheiro, que por sinal é minúsculo. Entro, fecho a porta e lavo o meu rosto. É uma casa pequena. Além do banheiro, há a sala, que comporta a mesa de jantar; e em seguida há a cozinha, onde entro e encontro aquela mulher que entrou no meu quarto momentos antes.

— Droga! Tenho que ir ao mercado comprar comida! Já, já estou de volta – diz a mulher, e sai correndo.

O que me resta é esperar, então vou para o quarto de novo e mexo em tudo que vejo até que tenho uma surpresa. Há vários livros debaixo da cama, uns de suspense, outros de terror, mas eu peguei algo que não se parece muito com um livro, e sim com um diário. Eu o abro e começo a ler. Descubro que “eu”, Larissa, tenho 17 anos, sou filha única e aos 10 anos meu pai morreu. Após a sua morte, minha mãe começou a beber — isso explica o cheiro de álcool em sua boca — e fica fora de casa o dia inteiro.

Desse modo, Larissa tem que se cuidar sozinha; e para tirar o vazio que há dentro dela, toca guitarra e seus problemas desaparecem. Noto também que em seu diário há registro de um círculo de amizades bastante restrito: apenas três amigos — que são tudo o que ela precisa — e que também tocam na banda: Less, Thiago e Léo.

Absorta nessa leitura, escuto um barulho vindo de fora. Assustada, tento esconder o diário cujas histórias não fui convidada a ler. Coloco-o de volta em seu esconderijo e vou até a porta que dá acesso ao portão. Vejo um garoto animado e ofegante que começa a dizer:

— Lari, tenho uma novidade grandiosa! Vamos assinar com a gravadora e já conseguimos um empresário! Nosso sonho vai se tornar realidade!

— Nossa, que demais... – digo, tentando saber se ele seria o Thiago ou o Léo.

— Lari, está tudo bem? Por que não está pulando e gritando de felicidade ou pelo menos mais animada com a notícia? Achei que fosse ficar feliz – diz o garoto.

— E estou! É que eu acordei agora e estou meio lerda – digo sorrindo.

— Entendo – diz ele dando um sorriso largo. Confesso que fiquei admirada, pois ele é muito bonito.

— E aí? Já contou a novidade, Léo? – diz outro garoto que chega correndo. Agora sei que esse é o Thiago e o outro (que achei bonito demais) é o Léo.

— Já sim, ela ficou feliz... mas não como eu esperava. Disse que é por causa do sono – diz Léo, dando uma piscada para mim.

— Bom, chega de conversa, vamos até a casa da Less, precisamos ensaiar – diz Thiago, nos apressando.

— A gente devia comemorar e amanhã ensaiar – sugiro a eles.

— Verdade, concordo com ela – diz Léo.

— Tudo bem então, mas vá trocar de roupa Lari, você não quer sair de pijama, quer? – diz Thiago, brincando comigo.

Entro na casa, vou para o quarto, pego um vestido jeans e uma sapatilha. Visto-me e vamos à casa de Less. Depois vamos até a sorveteria e ficamos até o finalzinho da tarde. Os três me acompanham até em casa, e quando chego em frente vejo minha mãe (que na verdade é mãe de Larissa) deitada no chão da garagem. Eu corro para socorrê-la, enquanto Less liga para a ambulância. Ela está com a respiração muito estranha, e fico muito preocupada. Assim que a ambulância chega, nós quatro também entramos nela.

Chegando ao hospital, as enfermeiras nos pedem para que fiquemos na sala de espera. Agora são 20h00min , faz uma hora e meia que estamos esperando e eu estou ficando muito nervosa, pois, por mais que não seja alguém que eu conheça, eu penso em como me sentiria se fosse com a minha mamãe. Finalmente, a enfermeira chega e diz que ela teve uma overdose, acabou perdendo a consciência, começou a ter dificuldades de respirar e quase teve uma parada respiratória, mas conseguiram salvá-la. A enfermeira diz que a Mônica (“minha mãe”) quer me ver.

Entro no quarto e começamos a conversar:

— Mãe, por que você não para de beber? Não vê que isso atrapalha a nossa vida? – pergunto a ela.

— Desculpe-me, sei que não fui uma boa mãe desde que o seu pai morreu, mas eu te prometo que a partir de hoje vou melhorar, não vou mais beber, quero ser presente na sua vida – diz ela, com lágrimas nos olhos. Dá para perceber que se arrepende e quer realmente cuidar de “mim”.

— Eu te perdoo, mamãe, nós vamos encarar isso juntas – digo.

Conto a ela sobre a banda, sobre a gravadora e ela ama, já que eu (Larissa) estou realizando meu sonho. Ela conversa tão carinhosamente comigo que sinto como se realmente fosse muito importante para ela. Então percebo que realmente sou, afinal sou sua filha. Depois de muito conversar, a enfermeira entra no quarto e diz que agora ela precisa descansar e que eu posso me sentar ao seu lado. Ela fecha os olhos e vejo que realmente está cansada.

Começo a ouvir um som estranho, um barulho bem alto, som de batidas na porta, saio do quarto, mas não vejo ninguém. Sem entender de onde vem, escuto a voz de minha mãe, já alterada:

— Diana, tudo bem? O que houve? Não vai à escola?

Em meio a tantas perguntas, abro meus olhos e vejo que estou de volta ao meu quarto. Onde não tem nada de especial. É só o meu velho e aconchegante quarto de sempre, mas que é meu refúgio, meu canto favorito para ler, pensar ou apenas descansar.

Mas uma ideia me persegue: por que tive esse sonho? Parecia tão real! Talvez seja um alerta para que eu preste mais atenção nas pessoas que estão ao meu redor. Às vezes, quem mais precisa da nossa ajuda, do nosso apoio, é quem está bem perto de nós e não percebemos nada, apenas seguimos com as nossas vidas.

Notas finais
Olá, moça! Não nos conhecíamos antes, mas posso dizer que foi um prazer dar o primeiro passo para mudar isso. Você me parece mesmo adorável e espero ter a sorte de ser sua professora ano que vem (ou em qualquer outro momento).