Por Um Dia

4 Caos e a Calma


Notas iniciais
Acostumada a gastar sem restrições, Gwendolin é obrigada a enfrentar a dor e o medo de não ter nem mesmo o básico para sua sobrevivência.

“Você está a milhas de distância, eu vejo você em um horizonte vermelho

O caminho de seu coração, eu te tocaria em um céu de tempestade

E eu sempre estarei ouvindo seus sorrisos e suas lágrimas”

Scars – JAMES BAY

Tento abrir os olhos, mas eles estão grudados. Forço um pouco as pálpebras e assim descolo a pele. Minha mente está num delírio inerente entre sonho e realidade. Tento me aproximar o máximo possível do foco. Enquanto apenas enxergo um mosaico amarronzado, sinto o gosto amargo de minha boca. O gosto de quem acorda pela primeira vez em um novo dia. Esfrego os olhos e quando termino, as coisas se distinguem umas das outras. Um teto de madeira já podre há muito tempo, um chão de terra seca e dura e uma esteira feita de bambu velho. Movo meus olhos até minhas mãos, lentamente. Em vez de ver minha pele lisa, impecável e cheirosa, livre de arranhões e qualquer sinal de manchas, eu enxergo exatamente o oposto. Exatamente tudo o que repugnei a minha vida inteira. Tudo o que eu mais temia. Minha pele é negra, seca, cheia de manchas e machucados. Meu braço é tão magro que tenho medo de mexê-lo e acabar quebrando algum osso. De repente, uma dor de cabeça horrível toma conta de mim. É como se tivessem batido meu crânio diversas vezes em uma pedra íngreme e me deixassem para morrer à mercê da sorte ou do destino. Estou fraca. Muito fraca. Todo o meu corpo parece estar anestesiado, mas ao mesmo tempo muito desnutrido. Tem alguma coisa errada. O que está acontecendo comigo?

Uma dor aguda invade meu estômago e eu, involuntariamente, me dobro na esperança de aliviar a dor. Ela é excruciante, voraz, mortal. É como se um buraco negro tivesse se instalado dentro de mim e, aos poucos, começasse a sugar tudo que eu tenho. A dor é tão grande, tão forte, tão exacerbada que lágrimas brotam nos meus olhos. Estou confusa, o que está acontecendo? Não consigo pensar. É como se estivesse delirando ao mesmo tempo em que estou consciente. Como se girasse num vórtex cortante entre sonho e realidade, onde os dois, por mais impossível que pareça, se misturassem num borrão de tons amargos e melancólicos, fazendo-me afogar enquanto giro violentamente. Pouso minhas mãos ósseas na barriga e uso a pouca força que me sobra para apertar o local da dor. Ouço um ronco absurdo, como se... Como se... Como se eu não.... Comesse. Como se eu não me alimentasse há dias. Há muitos dias. Mas eu me alimentei, não? Lembro-me de ter jantado. Lembro-me de...

— Kênia... – chama uma voz masculina, tão fraca que pensei ser um zumbido. — Kênia, eu.... Eu estou morrendo.... Estou morrendo de...

Olho na direção do garoto. Sinto um enorme afeto por ele... E ele é meu irmão. Meu irmão Zaki. O irmão que me levou a primeira vez na Floresta de Gard, para colhermos algumas amoras. Agora toda a floresta estava cercada... A Floresta de Gard estava elétrica nas extremidades. Abro a boca seca, me falta saliva. Minha voz sai tão rouca e fraca que penso, por um breve momento, que talvez eu pudesse morrer por estar usando a pouca força que me resta:

— Não, Zaki.... Você.... Não.... Vai.... Morrer. Vamos permanecer juntos. Como sempre.

— Kênia, você não entende. Estamos morrendo de fome...

Morrendo de fome? Morrendo? Como eu, Gwendolin Hedford, poderia estar morrendo de fome? Eu sou dona de uma das maiores empresas de biotecnologia do planeta, não posso simplesmente... morrer... Morrer de fome. Não! Não posso morrer no corpo de Kênia! Não posso morrer aqui!

— Kênia... Minha querida irmã, Kênia. Eu te amo, eu te amo muito. Lembre-se disso. Sempre.

Resolvo perguntar, já que não consigo me mover para realizar alguma ação:

— Cadê o papai e a mamãe?

— Eles estão trabalhando, Kênia. Estão trab...

Zaki de repente para de falar e um pavor imenso invade meu coração. Ele... morreu?

— Zaki? – chamo aos sussurros mais fracos. – Zaki?!

Fecho os olhos. Isso não pode estar acontecendo. A dor aguda torna a voltar, tão mortal quanto da primeira vez que veio. Ela me toma de uma forma tão intensa que começo a me debater no chão duro de terra como se estivesse levando um choque de dez mil volts por minuto. Alguma coisa branca começa a sair de minha boca, alguma coisa branca e amarga. Começo a tossir, apavorada. Eu não posso morrer! Não posso morrer! NÃO!

* * *

O escuro me envolve por completo. É como se estivesse tomando um banho de piche ou algo parecido, uma gosma viscosa inundando todo o meu corpo. Enquanto afundo em um poço negro e fétido de dor e lamentação, procuro entender o que significam as imagens que estou vendo. Uma mulher negra, de cabelos curtos e afro, com colares velhos em volta do pescoço. Sua pele é tão feia quanto a de qualquer outro ser humano de Nova York. Ela olha diretamente para mim e diz:

— Kênia, seja forte, querida.

Olho para ela, apavorada, porque eu não sou Kênia. Eu sou Gwendolin. Eu não deveria estar aqui, eu não deveria... Outra imagem me vem à tona.

Uma imagem minha. E eu estou fazendo compras no shopping com a minha mãe.

— Mas esse vestido não é muito caro, querida? – ela pergunta, depois de eu ter decidido levar o mais caro da loja, não por ser o mais bonito, mas por ser caro.

— Claro que não, não é, mãe? Custa apenas oito mil dólares. Você sabe que esse dinheiro para mim não significa nada.

E então a imagem de Zaki aparece no lugar da minha, ele está olhando diretamente para mim, um olhar sonhador e glorioso:

— Quando eu crescer, vou trabalhar para sustentar nossa família. Vou trabalhar para ganhar o dinheiro que for. Eu vou trabalhar para cuidar de você, Kênia.

Ganhar o dinheiro que for, essas palavras ficam ecoando no vazio escuro. No vácuo inerte e sombrio em que me encontro afundando. Ganhar o dinheiro que for para cuidar de você, Kênia.

Nesse momento, meu coração é jogado contra a parede. Quantas pessoas eu deixei de ajudar, quantas famílias, apenas por interesse próprio? Quantas crianças como Zaki eu deixei morrer, apenas por ganância? Quantas cestas básicas eu não poderia ter comprado com o preço de um vestido? E agora, olha eu aqui. Sentindo na pele o que é estar no corpo de uma dessas pessoas, dessas crianças, sem saber se vou morrer ou não. Sem saber se consigo ter forças para aguentar ou não...

Sinto algo refrescar minha garganta. Algo gelado, mesmo em temperatura ambiente. Como se um oceano fosse jogado contra minha garganta. E eu anseio por mais, por muito mais. Aos poucos, o borrão negro vai se tornando ligeiramente marrom e eu vejo um copo de barro bem à minha frente. Sinto a água descer pela minha garganta, me sentindo um pouco feliz. Abro os olhos e uma mulher solta um grito entre o que é um choro e um sorriso. Seu rosto está banhado de lágrimas, seu nariz está entupido e sinto que estou sendo envolvida por seus braços. A sensação de estar nos braços dessa mulher, da mãe de Kênia, é indescritível. Como se não houvesse refúgio melhor, como se não houvesse porto seguro mais infalível, como se eu estivesse deitada no colo do próprio Deus.

— Mamãe... — sussurro, aliviada, contente e um pouco esperançosa.

A mulher me abraça, transmitindo um carinho, um amor, tão caloroso e cheio de cosmo vibrante, que mesmo que minha carne não tenha sido alimentada, aposto que meu espírito foi.

Olho para um buraco que se parece com uma janela e já é noite. Procuro Zaki e não o encontro.... Então ele realmente...

Minha barriga ronca novamente, desta vez muito mais alto. Fecho os olhos, com medo da dor extrema. Em vez da dor, um cheiro forte de maçã podre invade minhas narinas e é logo esquecido pela fome. Avanço sobre a maçã como um animal e devoro-a quase que por inteiro, deixando um pouco mais que metade para a mãe de Kênia, a minha mãe.

Após me deitar de novo na esteira de bambu e cantar uma canção de ninar, Urbi, minha mãe, vai para o lado de fora do que parece ser um barracão de barro. Antes que o sono tome conta de mim e eu volte novamente para o meu corpo, prometo-me diversas vezes que ajudarei a família de Kênia. E muitas outras famílias, porque nada vale mais que uma alma, nada vale mais que o sorriso de uma criança feliz, nada e absolutamente nada, vale mais que uma vida.

Notas finais
Significado dos Nomes: Urbi: Princesa. Kênia: “Montanha de brancura”, inocente, pequena rainha. Zaki: Proeza do leão. Este é o conto do nosso campeão. Parabéns, querido. Espero que você saiba que sempre vai encontrar apoio entre nós e que valorizamos muito o seu talento.