Por Trás Da Atuação
4 Capítulo 3
Chegaram à casa de Cartman uma hora depois, munidos de baldes de frango frito, sanduíches, fritas e copos gigantescos de refrigerante. Nem eles sabiam como conseguiram levar aquilo tudo para casa, principalmente correndo, porque Eric ficara falando o tempo inteiro que eles tinham que ir rápido, senão a comida iria esfriar e ficaria horrível.
Depositaram toda a comida em cima da mesa da cozinha, junto com as revistas que eles haviam comprado antes.
- Cara, me lembre de nunca mais sair pra comprar comida com você quando estiver nevando. – Stan falou, sem ar, olhando para Cartman. Ele era o mais ofegante dos quatro.
- Isso que dá ficar acendendo um cigarro atrás do outro sem parar. – Eric se virou pra ele, cruzando os braços – Você sabe que isso fode o seu pulmão, sem falar na sua resistência!
Stan revirou os olhos. Maldita hora que dera a brecha para Cartman começar os seus discursos de Dr. Saúde.
- Tá bom, Eric, tá bom. – Stan parecia sem paciência – Você já falou isso comigo mil vezes, eu já sei. Não precisa repetir.
- Mas parece que eu nunca falei nada, porque você nunca me escuta! — Franziu os olhos para ele, que mantinha a postura rebelde. Percebeu que manter aquele tom agressivo e paternal não adiantaria, então amoleceu a voz e olhou mais compreensivamente para Stan – Olha cara, eu sei que você é apaixonado por fumar, eu sei. Eu não estou pedindo para que você pare de fumar, estou falando para você fumar um pouco menos. Digo isso porque você acende um cigarro após o outro, sem parar! Eu te amo, Stan. – Deu um passo até ele e acariciou o seu rosto com a ponta dos dedos, fazendo-o fechar os olhos automaticamente — Eu sei que, se você continuar nesse ritmo, pode acabar morrendo. Você ficar cansado desse jeito só porque andou um pouco mais rápido é um sinal gravíssimo de que algo está errado. Nós não queremos te perder, muito menos queremos que você sofra.
Stan abriu os olhos e encarou Cartman, que retribuiu o olhar com afeto. Sentiu-se privilegiado naquele momento, ele despertara aquele olhar e aquela preocupação de ninguém menos que Eric Cartman, o cara tido pelo mundo inteiro como frio, sociopata, sem sentimentos e totalmente egoísta. E de fato ele era tudo aquilo, ninguém nunca havia exagerado para descrever as “qualidades” do lutador, mas Stan sabia que com eles era diferente. Só de sentir aquele toque, aquele olhar, aquelas palavras... Cartman era péssimo com as palavras, era esse o motivo de sempre, sua vida inteira, ter preferido atacá-los ao invés de demonstrar amor a eles. Por essa razão que ele sabia que Eric estava preocupado com sua saúde e sendo bastante sincero. Eric Cartman jamais falaria tão abertamente assim sobre o amor se não houvesse um motivo realmente forte que o impulsionasse a isso. Sua vida, por exemplo.
Como conseguiria reagir negativamente a toda essa demonstração de amor e preocupação? Como não amá-lo?
- Ok, vou tentar fumar um pouco menos. Mas por vocês. – Stan sorriu fraco, arrancando um sorriso de Cartman também. Nem mesmo depois de ganhar uma luta o sentimento de vitória era tão doce quanto o que estava sentindo naquele momento.
Kenny e Kyle sorriram para a cena, sentindo alívio ao perceber que tudo acabara bem e eles não haviam se matado. Mexer com os vícios de Stan era sempre pedir para arrumar briga, mas Cartman havia desarmado todas as defesas do garoto ao declarar que o amava. Não que Stan não soubesse, não que eles não soubessem disso, mas sempre que Cartman falava aquelas palavras, era como se elas tivessem um poder purificador que conseguia se alastrar por todo o ambiente e limpar todas os sentimentos negativos. Era como se o mundo estivesse em paz durante aquele momento e não houvesse motivos para tanta tristeza e dor. Palavras curadoras, que tinham um poder incrível quando recitadas por Cartman.
Ou talvez não, talvez fossem só impressões de garotos bobos e apaixonados que eles eram.
Quem provaria que eles estavam errados?
Kenny, que já estava com o capuz abaixado, olhou para a mesa e encontrou toda a comida ali, esperando por eles. Haviam esquecido completamente dos frangos fritos!
- Pessoal, não queria estragar o clima, mas... – A voz de Kenny era tão suave e meiga que ela jamais seria capaz de quebrar clima algum — Se demorarmos muito não vai ter adiantado nada a gente ter saído correndo do KFC, a comida vai esfriar dentro de casa mesmo.
- Se já não esfriou... – Kyle também pareceu acordar do transe, olhando para a comida que esfriava lentamente.
- Vamos comer então, estou morrendo de fome. – Cartman e Stan sorriram uma última vez um para o outro e se voltaram para a mesa e todas as comidas ali em cima, junto com Kenny e Kyle.
Tiraram tudo dos plásticos e espalharam pela mesa para que todos pudessem comer o que haviam pedido. Sentaram-se e começaram a comer, Eric devorando os dois baldes de frango frito que ele comprara só para ele enquanto Kenny, Kyle e Stan comiam os seus hambúrgueres e batatas fritas. O ambiente ficou silencioso e só se ouvia o barulho das mastigadas, do papel rasgando e do refrigerante sendo sugado pelo canudo.
Kenny os observava enquanto devoravam os seus lanches como se fossem animais selvagens. Fitava-os com carinho, sentindo o coração ser inundado por sentimentos bons e cheios de afeição. Ele gostava de ficar quieto por causa disso, gostava de ficar olhando-os, notando cada mania, cada tique bobo, cada linha de expressão... Eles eram únicos no mundo inteiro, não os trocaria por ninguém. E tinha certeza que Eric, Stan e Kyle se sentiam da mesma forma.
Se não fosse esse o motivo, por que eles iriam aceitar um namoro a quatro? Era estranho, esquisito e doente demais, eles sabiam disso. Mas o que eles sentiam uns pelos outros... Era algo que quebrava esse tabu e qualquer preconceito que pudesse existir. Pecado de verdade era ficar sofrendo por amor e se sentindo uns lixos por gostarem de três caras ao mesmo tempo.
E dava certo para eles esse relacionamento. Estavam juntos desde que eram pequenos, se conheciam como ninguém e a intimidade era absurda, às vezes não precisavam nem conversar, bastava um olhar que tudo estava esclarecido. E como a personalidade dos quatro era bastante distinta, não tinham risco de cair na monotonia e de tornar tudo previsível e chato. Ciúmes entre eles também era algo que não existia, a ligação era tão forte, tão intensa que às vezes eles mesmos se perguntavam como não conseguiam ficar com dor-de-cotovelo quando viam um passar mais tempo com o outro do que com si próprio.
Tudo entre eles era fácil e bem simples.
Mas por mais que esse namoro fosse lindo entre eles, para os que viam de fora não poderia ser assim tão perfeito. Eric, Kyle, Kenny e Stan sabiam bem que não era algo que pudesse ser dito para qualquer um, era um assunto muito delicado e precisava ser tratado da mesma forma. Por mais que o relacionamento fosse só deles e só a eles importasse, as pessoas achavam que podiam julgar e condenar qualquer um que levasse uma vida diferente da delas. E Cartman queria ingressar no mundo da luta, queria se tornar um profissional. Se um universo extremamente machista como aquele soubesse sobre a sua vida íntima... Poderia estragar todas as suas chances, por mais que ele fosse extremamente talentoso.
E por isso precisavam se esconder. Fingir que eram amigos, e só. Nem melhores amigos eles faziam questão de se mostrar, porque poderia acarretar suspeitas já que eles nunca estavam com mulher alguma. E então faziam a atuação perfeita: trocavam xingamentos bastante agressivos, compravam revistas pornográficas, falavam de mulheres quando estavam perto de outros homens, não andavam juntos em público... Qualquer coisa que desviasse a atenção sobre a verdade entre eles.
Mas tudo bem, eles conseguiam aguentar. Era o sacrifício que eles teriam que fazer até se tornarem maiores de idade e poderem dar a desculpa que “iriam dividir o apartamento para ficar mais barato”. Todos faziam esse tipo de coisa, não iria ser suspeito.
Só tinham que aguentar até lá.
Kenny comia sem vontade enquanto pensava sobre tudo e os observava. Não estava com muita fome, mas se via quase obrigado a comer. Não fora ele que comprara, não fora o seu dinheiro gasto. Sentia-se um monstro tendo feito Eric comprar um lanche para ele, quando estava sem fome e comia por obrigação. Empurrava o sanduíche à força, dando mordidas grandes para ver se assim descia mais fácil e comia cinco batatas de uma vez só, tentando acabar com a comida que parecia interminável.
Eric, quando conseguiu aliviar um pouco da fome que sentia por estar treinando praticamente o dia inteiro, levantou os olhos da sua comida e olhou para os três namorados que comiam em silêncio, também parecendo concentrados no que comiam.
Menos um.
Eric estreitou os olhos na direção do garoto loiro que parecia estar fazendo um sacrifício imenso só para conseguir colocar a comida na boca e engolir. Seu rosto estava entediado e parecia que Kenny fazia um esforço colossal só de olhar para tudo aquilo que estava à sua frente, como se estivesse passando pelo maior martírio do mundo e não comendo um lanche de um fast-food. Para ele, era claro que Kenny não queria mais comer, mas estava com vergonha de dizer isso, já que havia sido ele que pagara o KFC de todos.
Pf, que besteira. Ele era rico, os campeonatos juvenis mundiais que ele participara lhe renderam uma boa quantia de dinheiro, mas como Eric desde pequeno era esperto e sabia armar negócios para conseguir lucrar, logo aprendeu a mexer na bolsa de valores e aplicar bem tudo o que havia ganhado. Ele sabia sempre exatamente onde colocar o seu dinheiro, era quase um gênio na questão de economia. Se não quisesse trilhar a carreira de lutador profissional, tinha certeza que se esforçaria mais e seria o melhor da área em todo o país. Ele tinha a malícia e a esperteza necessária para esse setor, dando até alguns cursos online sobre como lidar com a bolsa.
Havia ficado rico fazendo o seu próprio dinheiro, por que iria se preocupar se Kenny não estava aguentando comer tudo? O dinheiro que ele gastou com aquilo não era nada. Ficava irritado era por ver o garoto se violentar daquela maneira, não querendo comer e se forçando só para não gastar o seu dinheiro à toa.
- Não precisa comer Kenny, tá tudo bem.
Kenny tomou um susto pela quebra de silêncio e levantou os olhos, encontrando os de Cartman fitando-o fixamente, como se só existisse ele naquela cozinha. Stan e Kyle também foram puxados dos seus próprios pensamentos e olharam para os dois, sem entender nada. Estavam distraídos demais para entender o que acontecia.
O rapaz do casaco laranja sentiu-se mal. Droga, ele tinha que ter sido mais discreto, não precisava ter dado tanto na cara assim que só estava comendo porque não queria desperdiçar.
- E-eric... – Ele gaguejou – Não se preocupe, eu vou comer...
Ele era pobre e vivia a custa dos três, sempre se sentindo muito sem-graça quando eles pagavam algo para ele e o bancavam. Stan e Kyle não eram ricos como Eric, mas tinham uma situação financeira estável. Só não arranjava um emprego porque tinha noção que nunca teria tempo para ficar com os três, uma vez que na escola eles não podiam ficar muito tempo juntos. Fazia parte da atuação, na escola eles mal se falavam ou se olhavam direito. Tentavam agir como colegas que já foram grandes amigos um dia e agora só restava poeira daquela amizade que antes era tão bonita. Quando eram pegos dormindo na casa de algum deles, mentiam fingindo que era só uma noite de garotos normal, assistiam televisão, comiam pizza e depois dormiam, sem compromisso de amizade duradoura.
Era difícil interpretar esse papel, mas eles se esforçavam tanto que ninguém desconfiava.
- Já disse que está tudo bem, Kenny. – Cartman franziu os olhos para ele, autoritário – Não quer comer, não come.
O tom de voz do lutador saiu tão forte e intimidador que Kenny não conseguiu argumentar. Resignou-se em baixar o olhar e encarar as próprias coxas enquanto fechava as mãos nelas e sentia os olhos marejarem. Sentia-se um lixo. Um aproveitador barato que ficava se aproveitando do dinheiro dos outros.
Se ele tivesse algo além de cinco centavos naquele momento, ele pagaria a Eric o dinheiro que ele gastara inutilmente com ele. Mas não tinha nada.
Ele queria pagar, pagar de qualquer jeito.
Quando Eric viu Kenny baixar a cabeça e não comer nada, deu aquele assunto como encerrado, já que não viu os olhos do loiro refletirem toda a sua culpa. Não percebeu o quanto um assunto tão banal quanto aquele havia tomado proporções catastróficas na mente do rapaz.
Mas a culpa não era sua. Por mais que se conhecessem há anos, se havia algo que faltava em Cartman era sensibilidade.
Olhou para Kyle e Stan percebeu que eles o encaravam de volta, acompanhando o que ele falava com Kenny. Levantou-se e se espreguiçou, passando a mão na barriga em movimentos circulares.
- Porra, comi pra cacete. Faz tempo que eu não como tanto assim...
- “Faz tempo” você quer dizer, um dia? — Kyle perguntou enquanto rolava os olhos – Você comeu três cheeseburgueres com bacon ontem na hora do intervalo.
Eric soltou um olhar fulminante para o judeu, que o olhava com desdém.
- Eu posso comer isso, já viu a quantidade de horas que eu malho, Kyle?
- Já, eu também acho que você pode, mas não precisa dizer que não come assim há muito tempo, é mentira e a gente sabe.
- E daí? O que porra isso vai mudar na sua vida, caralho?- Eric cruzou os braços – Deixa eu exagerar em paz, você é muito certinho!
Stan bateu com a mão na testa, não acreditando que eles já estavam discutindo de novo. Será que eles conseguiam manter um diálogo normal sem um não usar um tom agressivo com o outro?
- Eu não acredito que vocês estão perdendo tempo da vida de vocês com esse assunto, é ridículo. – Stan os censurava – Parem de agir como crianças, é muito irritante.
- Foi ele que começou! – Falaram os dois ao mesmo tempo, percebendo isso logo depois e se encarando com raiva.
- Sai daqui Cartman, quem começou foi você mentindo! – Kyle levantou
- Eu? Quem é a senhora “fale a verdade, somente a verdade”? Vai tomar no cu antes que eu me esqueça, Kyle!
Stan suspirou profundamente, cansado daquela cena. Eles nunca iriam crescer. Conseguia visualizá-los velhinhos, os quatro morando juntos, e Kyle e Cartman brigando e se engalfinhando por causa de um jogo de gamão. Aquela imagem mental era tão fácil de ser imaginada que ele se pegou rindo sozinho, atraindo o olhar dos dois e desviando a atenção daquela briga sem sentido algum.
- Do que você está rindo, Stan? — Perguntou Kyle.
Stan fechou os olhos e riu soltando ar pelo nariz, balançando a cabeça.
-Nada, nada. Estava pensando em umas paradas aqui.
Eric e Kyle se entreolharam, dando de ombros enquanto Cartman rodava o dedo indicador na têmpora para supor que Stan estava maluco.
Stan ignorou a provocação do namorado e se levantou da cadeira, dando a mão para Kyle se levantar junto com ele.
- Bom, vamos pra sala jogar alguma coisa? — Sugeriu Kyle, sorrindo docemente para Stan que ainda segurava a sua mão.
Cartman iria concordar, mas olhou para a mesa toda bagunçada, com pratos e copos pra lavar. Não iria sair da cozinha antes de arrumar tudo, sabia que depois que fosse ficar com eles seria difícil sair e se deixasse a cozinha desarrumada daquele jeito, atrairia insetos. E Kyle tinha medo de barata.
Não havia opção, teria que arrumar aquilo tudo.
- Vão indo lá pra sala ligar o videogame que eu vou dar um jeito na cozinha. – Olhou para o caos que estava a mesa e sentiu um arrepio. Se não soubesse que empregadas eram enxeridas demais, teria contratado uma, mas enquanto morasse em uma cidade pequena como South Park... Não podia se arriscar a ter uma mulher que mexeria em todas as suas coisas e que pudesse levar à tona todos os seus segredos.
- Nossa, vocês ouviram essa? – Stan disse com sarcasmo, olhando implicante para o lutador — Eric Cartman falando que irá arrumar alguma coisa! E sem nos escravizar junto! É um milagre!
Eric rolou os olhos. Estava fazendo uma gentileza e ainda tinha que aguentar as farpas irritantes de Stan. Ótimo.
- Vai se foder, Stan. — Bufou — Vão logo antes que eu mude de ideia e obrigue vocês a me ajudarem!
- Opa, acho melhor a gente ir então. – Kyle falou rindo, puxando Stan em direção à sala – Temos que aproveitar esses raros momentos de altruísmo. – Brincou, saindo da cozinha grudado em Stan.
- Isso, me deixem em paz, seus merdinhas. – Ele resmungou sozinho, pegando os plásticos do KFC e juntando tudo em uma mão para jogar no lixo de uma vez só – Insuportáveis do caralho.
Cartman ia arrumando a cozinha, colocando os pratos na pia, jogando o lixo fora e passando o pano na mesa suja de molho, frango e pão. Estava concentrado e tão acostumado com a sua presença que não prestou atenção que Kenny ainda estava ali, sentado na cadeira e observando todos os seus passos por detrás da franja loira, com um plano armado dentro da cabeça.
Iria recompensar Cartman de algum jeito e ele já sabia qual.
Enquanto o lutador estava de costas e lavando os pratos na pia, Kenny saiu sorrateiramente de sua cadeira e andou o mais silenciosamente possível até ele, tomando todo o cuidado para não emitir nenhum barulho. Ele tinha que agir de surpresa, porque senão sentia que não daria certo.
Quando estava bem atrás de Eric, Kenny o abraçou com firmeza, sentindo-se uma criança que abraçava o pai. Kenny e Kyle eram bem pequenos e franzinos comparados a Cartman, que media quase dois metros de altura e tinha o corpo musculoso de um lutador de boxe que treinava várias horas por dia e ainda fazia musculação. Apertou-o contra o peito, o corpo de Cartman era quentinho e confortável, poderia ficar ali o dia inteiro e provavelmente nem ficaria cansado. Mas esse não era o seu objetivo.
Cartman retesou o corpo automaticamente ao se sentir abraçado. O seus instintos de luta o mandavam atacar e quebrar a cara do insolente que ousava pegá-lo por trás, mas como estava dentro de casa, tentou segurar seus impulsos homicidas. Era óbvio que era algum dos três garotos, ele não precisava se defender.
- Kenny? — Antes mesmo de olhar para baixo e ver as mangas do casaco laranja, Cartman sabia que era ele. Não precisava vê-lo para identificar na mesma hora o seu toque, o seu cheiro, o jeito que ele encostava a cabeça em suas costas... E saberia identificar da mesma forma se fosse Kyle ou Stan – Kenny, eu não mandei todo mundo dar o fora pra sala? Quê que você tá fazendo aqui? — Disse com a costumeira voz áspera — Anda, sai!
Mas Kenny não saiu. Continuou abraçando Eric por trás com força, achando graça como não conseguia entrelaçar os seus dedos por causa da largura do seu peitoral. E aos poucos foi soltando a mão, fazendo-a escorregar pelo tecido do casaco vermelho até chegar ao fecho de sua calça.
Cartman entrou em alerta. Ele queria fazer aquilo... Agora? Tudo bem que por mais que Kenny e Kyle fossem quietinhos e fofos, Kenny tinha muito mais impulso e desejo sexual que Kyle. Era normal ele buscar sexo com Stan e ele, daquele jeitinho meigo que eles não conseguiam resistir, mas agora? Kenny estava agindo de modo estranho e atirado demais, ele não era do tipo que saía por aí tentando arrancar as calças deles na cozinha para fazer um amor louco e selvagem.
Tinha algo acontecendo, mas ele não conseguia enxergar o que era.
Só tinha noção que era muito, muito errado.
Kenny sentiu o coração acelerar de nervosismo. Não estava acostumado a agir daquela maneira, mas era necessário. Somente assim ele se sentiria realmente em paz com a sua pequena dívida com Cartman. Puxou-o de frente para si lentamente e Eric se virou, sem mostrar resistência. Não tinha coragem de olhar nos olhos de Cartman, por isso fugiu deles manteve a cabeça baixa, focado em seu objetivo.
Antes que Cartman pudesse falar qualquer coisa, Kenny ficou de joelhos e encarou o zíper da calça do namorado. Já havia feito isso várias vezes, mas nunca havia se sentido tão mal com a situação. Porque nas outras vezes, ele havia feito para vê-lo feliz e ver que ele sentia prazer com a sua boca, mas agora... Era como se ele fosse um objeto. Uma puta barata que pagava favores com sexo.
Quando havia se tornado uma pessoa tão baixa?
Cada segundo que passava, Eric tinha mais certeza de que tinha algo fora do lugar naquela cena. Kenny não agia daquele jeito, aquilo não era normal. Ele poderia sim, querer fazer isso na cozinha do nada, mas tinha certeza que antes ele iria beijá-lo, provocá-lo, fazer juras de amor ao pé do ouvido, ou então falar alguma besteirinha... Qualquer coisa. Menos aquela ação fria e seca que ele estava tomando, agindo como se aquela fosse a sua obrigação.
O loiro desabotoou a sua calça e baixou o seu zíper lentamente, fazendo as suas calças escorregarem e caírem até os seus tornozelos. Observou a sua cueca preta e passou a mão por cima do tecido, sentindo-o endurecer imediatamente. Deu um meio sorriso e começou a baixar a cueca, fazendo aquele membro gigante e ereto saltar para fora da cueca, olhando diretamente para ele.
Cartman observava Kenny intensamente, tentando ver as suas expressões para tentar entender o que estava se passando pela sua cabeça enquanto estava fazendo aquilo. Estava gostando? Estava odiando? Por que droga ele não o olhava? Soltou o ar pesadamente e desviou os olhos de Kenny, percebendo que não adiantaria ficar tentando pedir por telepatia para que ele o encarasse. Ele queria fugir, empurrar o garoto e perguntar o que estava acontecendo, mas o poder que Kenny tinha sobre ele o deixava imobilizado, totalmente caído por seus encantos. Como se cordas imaginárias o prendessem no chão e não deixassem que ele andasse por vontade própria.
Mas o encanto foi quebrado quando olhou para frente e encontrou a comida praticamente inteira de Kenny na mesa, intocada. Foi necessário menos de um segundo para ele entender o que estava acontecendo e se sentir a pessoa mais idiota do mundo por não ter pensado nisso antes. Era óbvio o que acontecia ali, por isso sentia que algo errado estava acontecendo.
Respirou fundo e olhou para baixo, Kenny já iria segurar o seu falo e a boca estava ligeiramente aberta para abocanhá-lo. Mas aquilo não conseguia o excitar, não com aqueles motivos. Se fosse qualquer outro garoto do mundo ele não iria nem ligar, achava mais que seria a obrigação dele querer chupá-lo depois de largar um lanche inteiro que ele havia pagado, mas não com eles, não com Kenny. Eles não eram quaisquer garotos, eles eram os homens que ele amava. E jamais submeteria os caras que ele gostava em uma situação tão degradante quanto aquela.
- Kenny, você está fazendo isso por causa da comida? – Perguntou com a voz mais tranquila e séria que ele conseguia impor.
Ele parou tudo o que estava prestes a fazer e olhou para Cartman com os olhos esbugalhados. Arrependeu-se logo em seguida, pois o lutador já tinha os seus olhos nele e o encarava desapontado.
- É, Kenny? É por causa da comida? — Perguntou de novo, mas não obteve nenhuma resposta – Me responda.
Porém Kenny continuava sem dizer uma palavra. Quando conseguiu se encontrar livre do olhar de Cartman, baixou os olhos e assim ficou, sem ter coragem de encostá-lo de novo. Não queria continuar vendo o desapontamento estampado em seu rosto.
Eric suspirou fundo e puxou a sua cueca e calça de volta, se afastando de Kenny enquanto fechava o zíper.
- Desculpa Kenny, mas eu não quero. Não por esse motivo sujo. – Olhou para trás, fitando com melancolia o garoto que estava ajoelhado no chão, apoiando o quadril nos calcanhares – Acho melhor você ir pra sala ficar com o Kyle e o Stan.
Mas Kenny não se mexeu, continuava de joelhos no chão frio da cozinha, com os olhos vidrados naqueles azulejos enquanto sentia o gosto da humilhação preencher sua boca e seus olhos começarem a pinicar, tornando-se úmidos e vermelhos. Se antes ele havia se sentido um lixo, agora ele se sentia o ser mais asqueroso do mundo. Não conseguia se levantar e fazer o que Cartman tinha mandado, parecia que raízes haviam o prendido no chão. Ele era nojento. Degradante. Sujo, como Cartman mesmo havia falado.
Talvez sua pobreza não viesse só do seu bolso, talvez ele fosse muito mais pobre e imundo do que ele pensava.
Cartman estranhou o silêncio de Kenny e também o fato dele não ter insistido ou ter saído da cozinha. Olhou-o, ainda de costas, e percebeu que seus ombros estavam arqueados para frente, enquanto suas costas tremiam em movimento uniforme.
Sentiu o sangue gelar quando percebeu do que se tratava. Só poderia ser uma coisa.
Engoliu em seco, respirou fundo e andou controladamente até o garoto de casaco laranja, agachando-se na sua frente e levantando o seu queixo levemente com o dedo indicador.
Dos seus olhos azuis transbordavam lágrimas tão claras quanto cristal, que percorriam o seu rosto e respingavam direto no chão, criando uma pequena poça.
O desespero lhe tomou por completo ao ver aquela cena, não sabia o que dizer. Não tinha jeito nenhum com gente chorando, principalmente quando ele sabia que era por sua causa.
- Caralho Kenny, não chora... – Disse nervoso, tentando arranjar alguma palavra mais inteligente para dizer — Puta merda cara, não faz isso comigo... Você sabe que eu sou péssimo nessas situações.
O loiro desviou os olhos, rindo levemente da expressão de Eric. Ele estava realmente nervoso, era notável só de observar os seus olhos tão arregalados que beiravam a insanidade de tanto que corriam de um lado para o outro. Estava tão bonitinho preocupado com ele que Kenny quase se esqueceu da sensação de inferioridade que estava sentindo. Cartman não tinha culpa disso, ele estava mais do que certo em não querer que Kenny fizesse sexo oral nele como pagamento, visto que eles eram namorados.
Eric se desesperava cada vez mais com o silêncio do garoto, que agora olhava para baixo e sorria melancolicamente. Cacete, se ele queria enlouquecê-lo, ele havia conseguido! Por que Kenny tinha que ser tão calado e na dele? Era tão difícil arrancar palavras de sua boca, com Kyle era sempre mais fácil! Tinha certeza que, se fosse Kyle naquela situação, o judeu já estaria discursando horas e horas, falando do quanto ele havia magoado os seus sentimentos e o quanto ele era um imbecil. Esse era o tipo de coisa que Kyle faria e embora fosse realmente irritante boa parte das vezes, pelo menos era esclarecedor e eles conseguiam se resolver logo. Kenny bem que poderia seguir o seu exemplo.
- Olha cara, desculpa pelo que eu falei, tá legal? – Lágrimas realmente mexiam com ele, ele estava até mesmo pedindo desculpas! – Eu só não quero te ver assim, chorando por minha causa.
Kenny levantou os olhos para ele, surpreso com a conclusão que ele havia tomado.
- Eu não estou assim por sua causa, Eric... – Murmurou ele, com aquela voz tão encantadora que deixou o coração de Cartman arrepiado – Estou assim por minha causa.
O lutador franziu as sobrancelhas.
- Por sua causa?
- É, por minha causa. Porque às vezes eu sinto que não mereço estar com vocês, sabe? — Levantou o canto da boca, em algo que era para parecer um sorriso, mas era infeliz demais para algum dia ousar sê-lo.
- Não, não sei. – Cruzou os braços com irritação, não acreditando no que estava saindo da boca do loiro — Não faço a mínima ideia do que você está falando, Kenny.
- Vocês tem dinheiro, tem educação e... Não se comportam como uma puta igual a mim.
- Que babaquice é essa, Kenny? Quem disse que você se comporta igual a uma puta?
- Eu disse. E você não pode negar. Eu acabei de tentar te recompensar com um boquete e você me recusou. Isso só mostra a diferença dos nossos níveis.
- Kenny... – Balançou a cabeça negativamente. Não era possível que ele realmente pensasse isso sobre si mesmo, era inacreditável!
- Você disse naquela hora que achava “sujo demais”. Sujo demais algo que eu ia fazer em você porque eu achava correto. Isso não mostra a diferença dos nossos estados de consciência? Isso não mostra que eu sou uma vadia imunda e você alguém que repudia coisas que vadias como eu fazem?
- Kenny, para de falar merda... – Cartman bagunçou os cabelos impacientemente, tentando manter a calma. O que Kenny estava falando beirava ao absurdo!
- Eu não estou falando merda, estou falando a verdade e-
- Kenny, para com isso, que porra! – Segurou-o pelo ombro e sacudiu, falando autoritariamente — Pare de ficar se depreciando por causa disso, se você está com a gente é porque nós gostamos de você! Você pode ter tido essa ideia babaca agora a pouco, mas já passou! Eu não quis porque você é o meu namorado e eu não quero te ver naquela posição, como se você fosse meu escravo só porque eu te dei dinheiro. Entende? É por causa disso que eu não quis, porque eu não quis que você se humilhasse! Se eu deixasse você prosseguir com aquilo, é como se eu concordasse que só porque eu te paguei algo e você não comeu, você me devia algo! – Kenny olhava impressionado para Cartman que o sacudia e o olhava severamente — E não é assim que a nossa relação funciona, você sabe muito bem disso!
- Eu sei, mas...
- “Mas” o cacete! – Afastou-o o suficiente para apontar o dedo indicador em seu rosto — Acabou, pára de drama! Eu não estou chateado com você e nem acho que você não mereça estar com a gente. Nós estamos juntos há quatro anos e meio e se isso te faz uma puta, então eu não sei como chamar pessoas recatadas!
Kenny sorriu para ele, sentindo-se mais leve e achando graça da forma que Eric estava tentando fazê-lo se sentir melhor. Ele não sabia lidar com a tristeza deles, muito menos com as lágrimas. Cartman era durão o tempo inteiro, mas eles sabiam como amolecê-lo na medida certa.
- Cinco, Cartman.
- O quê? Cinco o quê? — Falou com a voz agressiva e desconfiada.
- Estamos juntos há cinco anos, não quatro e meio. – Sorriu puramente para Eric.
Cartman ficou sem-graça, sentindo o rosto esquentar enquanto via Kenny rir fraco. Que tipo de namorado era ele que esquecia o tempo em que eles estavam juntos?
- Que seja, Kenny! É quase a mesma coisa! – Cruzou os braços e virou para o outro lado, de cara emburrada – Você tá parecendo o Kyle, se ligando nos pequenos detalhes e me enchendo o saco!
Nesse momento Kenny não se aguentou e começou a rir alto, o que fez Eric franzir o cenho.
- Do que é que você está rindo, garoto?
- De você, todo envergonhado! Tá até vermelho! Só te vejo vermelho assim quando está lutando!
Cartman semicerrou os olhos.
- Quem é que está envergonhado aqui, heim?
- Você! – Continuava gargalhando, apontando para suas bochechas mais vermelhas ainda – Olha só, parece um tomate! Que gracinha!
Ok, gracinha já era demais. Por acaso Kenny havia se esquecido quem era o macho dominante naquele grupo? Ele não era e nunca seria “gracinha”, aquela característica era de Kenny e Kyle. Ele teria que lembrá-lo quem Eric Cartman era e colocá-lo para respeitar a sua autoridade.
- Gracinha, é? — Ele riu de lado maliciosamente — Vou te mostrar quem é gracinha...
Cartman lançou-se em cima de Kenny e capturou os seus lábios em um beijo sôfrego e dominador. Jogou-o no chão e ficou por cima, prendendo os seus braços no alto da cabeça e o colocando no meio das suas pernas, para que tivesse o total controle da situação e impedisse Kenny de fugir — embora isso nem se passasse pela cabeça do loiro. Kenny sentia a boca ser invadida pela língua de Cartman, sem poder se mexer e dizer qualquer coisa. Havia tomado um susto, mas quando percebeu do que se tratava, resolveu relaxar e deixar que Cartman o conduzisse qual fosse a sua vontade.
- Seus tratantes, foi por isso que você nos mandou para a sala? – Uma voz os interrompeu e eles pararam o beijo para olharem para a porta da cozinha.
Lá estava Kyle com as mãos na cintura, com Stan logo atrás. Ele olhava maliciosamente para os dois, fingindo dramaticamente que estava se sentindo traído.
- Antes fosse. Kenny ficou aqui para me encher o saco e até agora eu não consegui terminar de arrumar minha cozinha! – Cartman suspirou e largou Kenny. O lutador começou a levantar e deu a mão para ajudar o loiro a ficar de pé também — Vocês me fariam um favor enorme se o levassem com vocês pra sala, ele está me atrapalhando!
- É, a gente está vendo o quanto... – Stan disse entre risos debochados, o que fez Kenny e Cartman se entreolharem com cumplicidade. Só eles sabiam o que havia se passado na cozinha naquela noite enquanto os dois estavam na sala.
Kyle andou até Kenny enlaçou o braço no do loiro, puxando-o para fora da cozinha
- Vamos Kenny, vem com a gente. Antes que o Cartman coloque você para arrumar com ele. Sabe como ele é aproveitador.
- Não fode Kyle, eu por acaso pedi alguma coisa pra vocês hoje? — Franziu os olhos e cruzou os braços, injuriado.
- Não, exatamente por isso que a gente tem que escapar enquanto você não pede. – Stan segurou o outro braço de Kyle, formando uma corrente.
- Até você, Stan? — Cartman olhou para aquela cena e não conseguiu evitar de rir – Que bichinhas vocês são.
- O que poderia ser mais gay que dois homens se pegando no chão da cozinha, Cartman? — Kyle se virou para ele, olhando-o desafiadoramente.
Mas Cartman sorriu debochadamente para ele, levando a mão ao queixo e parecendo pensar.
- Três homens andando de mãos dadas pela casa. É. Acho que isso é bastante gay. Mais gay que dois caras se beijando no chão de uma cozinha.
Stan olhou para Kyle com compaixão.
- É, acho que ele ganhou.
Kyle deu de ombros, puxando os dois pelo braço enquanto empinava o nariz dramaticamente.
- Vamos logo, vamos ser gays sozinhos na sala já que ele não quer a nossa presença.
Antes de sair da cozinha, Kenny olhou uma última vez para Cartman, que também olhou para ele. Sorriu calorosamente e recebeu um sorriso controlado do lutador, o que ele não estranhou. Cartman era durão. Pelo menos enquanto eles não derretiam todo o gelo que o garoto trazia dentro de si.
Quando se viu sozinho na cozinha de novo, começou a andar em direção a pia para lavar os pratos, mas parou no caminho quando encontrou a comida largada por Kenny jogada na mesa. Foi até ela e pegou uma batata frita, mas entortou o nariz.
- Que pena, esfriou. – Pegou o resto do lanche e jogou no lixo. Mesmo que estivesse quente ele não comeria. Uma comida que causou tanto problema com certeza lhe daria dor de barriga pela energia impregnada ali.
Andou até a pia e suspirou enquanto olhava para o resto da louça que ainda precisava ser lavada.
- Hora de dar um “finish him” nesses pratos. – Estalou os dedos e começou a lavá-los com pressa.
Não via a hora de terminar com tudo o que tinha para fazer e ir para a sala.
Notas finais
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Obrigada pelos comentários até agora, vocês todos são uns lindos ♥
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