Por Trás Da Atuação
3 Capítulo 2
– Acho que eu preciso mudar de agente, o Sr. Roger tem me irritado profundamente. – Disse Cartman, enquanto andava e chutava a neve, fazendo-a voar em milhares de floquinhos pelo ar.
– Por quê? O que foi que aconteceu? — Perguntou Kyle, olhando para Eric que vinha andando ao seu lado.
– Porque ele é um porre! – Esbravejou ele, socando o vazio – O cara não me deixa fazer nada direito, além do mais eu estou lutando muito melhor do que ele, ele não tem mais nada de útil pra me ensinar. Eu só fico lá, lutando com aqueles babacas que não sabem nem mirar direito na hora de dar um soco!
– É, mas o que você pretende fazer? O Sr. Roger é o único professor da cidade e só tem aquela academia... – Stan cruzou os braços, tentando soar racional. Estava tão frio, por que Cartman não falava sobre aquilo quando eles estivessem em algum lugar quente? Não conseguiria conversar normalmente andando na neve.
– Não sei, preciso dar um jeito. Tem alguma ideia? Talvez eu possa matar o meu professor e assim a academia vai procurar um novo e-
– Você não vai matar o seu professor, Cartman! – Kyle o censurou. Se fosse qualquer outra pessoa ele levaria na brincadeira, achando que era só uma forma exagerada de se expressar, mas como se tratava de Cartman... Tudo era possível.
– E por que não? Me diz um só motivo para eu não matá-lo, Kyle.
– Porque não se matam pessoas, porra! – Gesticulou com as mãos, como se aquele fato fosse óbvio – Eu sei que o seu senso de sociedade e humanidade é péssimo, mas você tem que se lembrar que não se pode matar outro ser humano só porque você está com vontade!
Eric bocejou longamente, fazendo o judeu franzir os olhos em reprovação.
– Era esse o argumento brilhante que você tinha pra me impedir, Kyle? Se foi, não funcionou muito bem.
– Stan, fale alguma coisa! – O ruivo olhou para o moreno, que andava silenciosamente e pouco havia participado da conversa – Tire essa ideia idiota da cabeça do Cartman!
Ele levantou a cabeça e observou brevemente a expressão indignada de Kyle e a implicante de Cartman. Aqueles dois nunca iriam crescer? Por fim, deu de ombros e disse de modo desinteressado, se dirigindo a Eric.
– Se você precisar de ajuda, estamos aí.
Os olhos de Kyle se arregalaram e por um momento ele achou que havia ouvido errado.
– Não acredito que você está apoiando o Cartman nisso, é loucura!
– Viu, Kyle? O Stan me dá força! Por que você sempre precisa ser a putinha mimada e ser o do contra?
Stan deu de ombros, tudo que ele queria era ficar quieto para não ficar com dor de garganta mais tarde. Sabia que aquela era uma discussão inútil, não entendia o motivo de Kyle ainda perder o seu tempo. Se Cartman estivesse realmente decidido a cometer um crime, ele iria fazer, independente do que eles falassem para ele, principalmente se ficassem batendo o pé do jeito que Kyle estava fazendo. Cartman tinha uma estranha fascinação em ser o do contra e contrariar a todos, nem parecia que o ruivo o conhecia desde sempre.
E também não entendia a forma que Kyle o olhou quando falou que ajudaria Cartman se ele quisesse realmente matar o seu professor. Ele poderia ter toda a moral do mundo, mas tinha certeza que se Eric fosse a fundo nisso, todos eles iriam ajudar, não deixariam ele entrar naquela sozinho.
Kyle massageou a testa, inconformado com a passividade de Stan. Ou cumplicidade, tanto faz. Olhou para Kenny e percebeu que ele andava olhando para baixo, totalmente alheio àquela situação.
– Kenneth... Kenny, o que você acha sobre isso?
O loiro não disse nada, o que só demonstrou para Kyle que ele estaria ao lado de Cartman.
– Por Deus cara, você é o Mysterion! Vai mesmo deixar esse idiota falar na sua frente que vai matar um cara inocente?
Kenny encolheu os ombros. Podia sim ser o Mysterion, mas...
– Será que eu sou o único sensato por aqui?
– Kyle, deixa de ser invejoso e pare de tentar colocar eles contra mim! – Cartman virou-se para o ruivo e apontou o dedo para ele acusadoramente.
– Invejoso por quê, babaca? — Kyle arqueou as sobrancelhas, descrente — Por que eu teria inveja de você nessa situação?
– Porque eu vou ter um novo professor e vou lutar melhor. Aposto que está morrendo de inveja, admita!
– O quê? Isso é ridículo Eric, não faz sentido algum!
Cartman ia contra-argumentar, quando Stan interrompeu a pequena briga dos dois garotos.
– Ei caras, vamos parar ali na banca de jornal pra comprar algumas revistas. – Disse, atraindo a atenção dos três que suspiraram cansados. Sabiam bem o tipo de revista que Stan estava se referindo.
– Claro. – Resmungou Kyle.
Chegaram à banca e foram direto para a parte que eles já conheciam muito bem: a seção de revistas de pornografia. Os quatro garotos olharam aquele festival de playboys sem interesse algum. Foram pegando, cada um, três revistas aleatórias, não se dando ao trabalho de conferir quais eram. Contanto que houvesse mulheres na capa em poses provocantes e sensuais, estava ótimo.
Eles se entreolharam, enquanto sentiam aquelas revistas asquerosas pesarem em suas mãos. Aquilo era tão, tão errado...
– Vamos pagar? — Perguntou Kyle, quebrando o silêncio dos quatro.
– Vamos. – Stan foi em direção ao caixa, onde um homem os observava silenciosamente.
O dono da banca estava atrás da caixa registradora e olhou torto para o cigarro na boca de Stan assim que ele se aproximou.
– Garoto, você não se acha novo demais pra fumar? — Sua voz era arrogante e grosseira.
Stan levantou uma sobrancelha.
– E você não se acha velho demais pra ficar tomando conta da vida dos outros? – Rebateu na mesma hora, sem mudar a expressão de indiferença. Era só o que faltava, se já não bastava os seus pais tomando conta da sua vida... Agora receberia lição de moral até de desconhecidos.
O homem franziu o cenho e seu rosto se tornou sombrio. Não parecia muito contente com a resposta que havia recebido, principalmente quando vinha de um fedelho que mal havia saído das fraldas e que achava que podia dar foras em quem quisesse. Encarou Stan nos olhos e este sustentou o olhar, não tinha medo de ninguém, muito menos daquele homem intrometido. Apesar de não possuir um corpo coberto de músculos igual a de Cartman, Stan possuía um corpo robusto, ao contrário dos magrelos e frágeis de Kyle e Kenny.
– Diz logo o preço das revistas moço, não temos a noite inteira! Meu rabo está congelando! – Reclamou Eric, querendo apressar logo e também com medo do dono da banca querer encrencar com Stan. Não estava afim de brigar, já tinha lutado muito no ringue naquele dia, mas se aquele cara viesse para cima de Stan... Iria ter que mandá-lo para o hospital.
O homem olhou frio para Cartman, que enfrentou de volta com cara de mau. Se havia algo que ele tinha aprendido naqueles anos todos de academia de musculação e até mesmo com o Sr. Roger, era fazer uma expressão tão agressiva e intimidadora que deixava qualquer um com medo. E, como Cartman já sabia que seria, o homem não aguentou a intensidade de seu olhar e baixou os olhos.
– Você é surdo? Queremos ir embora! Qual é o preço dessas porras? — O lutador jogou as revistas no balcão de alumínio da banca e observou com deleite o homem pegar as revistas com as mãos trêmulas. Gostava quando as pessoas tinham medo dele, sentia-se forte e poderoso. Superior. Uma razão a mais para ter ingressado no mundo das luta.
– Quatorze dólares para cada um.
Os quatro suspiraram em uníssono. Doía no coração e no bolso gastar dinheiro daquele jeito, com inutilidades como aquelas. Iriam servir só para enfeitar as suas escrivaninhas durante um tempo, até que aquelas revistas ficassem velhas e eles precisassem comprar novas. Era um ciclo que jamais terminaria, não enquanto eles morassem com seus pais.
Eric e Kyle deram o dinheiro certo, menos Stan, que deu vinte e oito dólares. O homem estranhou, olhando confuso para as notas verdes em sua mão.
– Ei garoto, tem mais aqui do que eu pedi. – Avisou com uma voz debochada, como se estivesse chamando-o de burro por não dar a quantia correta.
Stan sorriu falsamente.
– É, eu sei. Estou pagando pro meu amigo aqui – Apontou com o polegar para Kenny, que escondia o seu rubor por trás do casaco laranja – Achei que não precisava falar, já que estava meio que óbvio. – Kenny quase sempre não tinha dinheiro então, sabendo disso, os três garotos se revezavam para pagar e comprar as coisas para ele. Kenny morria de vergonha, mas a sua situação financeira era tão miserável que ele não via alternativa além de aceitar, era isso ou não comer quando estava fora da escola.
O homem sentiu as bochechas queimarem, mas não falou nada. Sentia que havia algo de errado com aqueles dois garotos, não seria muito inteligente se meter com eles. Guardou o dinheiro na caixa registradora, pegou as revistas e colocou-as em quatro sacolas diferentes, dando nas mãos de cada um. Eles murmuraram um ‘obrigado’ e começaram a sair da banca, até que Stan parou no meio do caminho, voltou até o balcão e apagou o seu cigarro em um cigarreiro de vidro. Pegou em seu bolso um maço de cigarros e tirou um, colocando-o na boca e olhando desafiadoramente para o homem que o acompanhava com os olhos, um tanto chocado com a atitude do rapaz.
– Estou sem isqueiro, acende pra mim? — Disse, cravejando os seus olhos nos dele desafiadoramente.
Kenny, Kyle e Eric olhavam aquela cena totalmente surpresos. Era óbvio para qualquer um que Stan estava debochando dele, mostrando que o pequeno sermãozinho sobre ele ser muito novo e não poder fumar era idiota e ele fazia o que queria da sua vida. Kenny segurou um risinho, enquanto Kyle rolava os olhos e Cartman olhava orgulhoso para Stan. As reações de Stan sempre o divertiam, era sempre uma surpresa.
O dono da banca sentiu a boca amargar em humilhação, mas engoliu em seco e tentou se recompor para tentar resgatar o pouco da dignidade que ele deveria mostrar ter. Não seria diminuído por um garoto que se achava o fodão só porque fumava e usava preto.
– Claro, sem problema. – Tentou sorrir e agir com naturalidade, mas dava para perceber que seu maxilar estava trincado e ele estava falando entre os dentes.
Tirou de seu jaleco um isqueiro vermelho e o levou até o cigarro na boca de Stan, que sentia um prazer quase sádico de ver aquele homem intrometido acendendo o seu cigarro. Era como se ele fosse rei por apenas alguns segundos.
Quando o cigarro acendeu, Stan deu uma boa tragada e soltou toda a fumaça no rosto do homem, fazendo-o fechar os olhos e tossir.
– Obrigado. – Stan disse ironicamente, saindo da banca e sendo seguido pelos três garotos que assistiram o espetáculo de camarote.
Eles alcançaram o garoto que seguia na frente fumando solitariamente, ansiosos para comentarem sobre o ocorrido.
– Cara, você é foda! – Elogiou Cartman, dando um abraço de ombros em Stan, que sorriu envaidecido para ele.
– É, eu sei. – Mas sua voz permanecia calma, como se ele já soubesse disso e não estivesse nem um pouco surpreso que mais alguém tivesse notado.
– Não vamos poder mais comprar revistas nessa banca... – Kenny lamentou, mas era notável o seu euforismo.
– Que nada, faço questão de só comprar aqui agora!
Só Kyle que não parecia nada feliz com aquele circo todo. Não achava a menor graça.
– Cara, por que você fez isso? O moço não fez nada demais, ele só parecia preocupado com a sua saúde! – Kyle começou a discursar, ignorando o rolar de olhos de Stan – Foi totalmente desnecessário, se dissesse que ele foi babaca com você, mas ele só quis te dar um toque! Não precisava ter chegado a soltar fumaça na cara dele, foi bastante grosseiro e-
– Puta que pariu, Kyle, será que dá pra você parar de reclamar? – Cartman explodiu, voltando-se para o judeu com os seus olhos amadeirados brilhando em impaciência — Você parece uma velha, tudo o que a gente faz você fica falando sem parar fazendo monólogos politicamente corretos que são chatos pra caralho!
Kyle arregalou os olhos com o rompante que Cartman havia dado. Abriu a boca para responder, mas ficou sem fala. Não esperava ser interrompido, estava tão concentrado no que estava falando que era como se a sua cabeça tivesse esquecido como raciocinar para outros assuntos.
Stan, que olhava tudo de soslaio, aproveitou a brecha e a forma que Kyle estava desconcertado para tornar aquela conversa um pouco mais divertida.
– Sabe o que é isso? – Sua voz saiu tão suave deslizando por aquela noite silenciosa que atraiu o olhar curioso dos três — É falta de sexo.
Se antes Kyle estava sem saber o que falar, agora ele não queria falar. Sentiu as suas bochechas ruborizarem e tinha certeza que até os seus dedos dos pés haviam corado. Seus olhos se arregalaram e sentiu a respiração falhar durante alguns segundos. Como Stan conseguia falar sobre aquilo tão naturalmente? Como não se lembrava automaticamente daquelas cenas e conseguia encará-los nos olhos? Invejava a sua capacidade de agir como se sexo fosse a coisa mais natural do mundo, o que de fato era, ele que era tímido ao extremo.
Stan olhou para Cartman e esse entendeu o olhar, respondendo com um sorriso malicioso. Ótimo, adorava aquela brincadeira.
Cartman colocou a mão na cintura de Kyle e o puxou para perto de si, pegando o ruivo desprevenido.
– É isso mesmo, Kyle? Não estamos lhe dando sexo o suficiente? Você quer mais? – Sussurrou em seu ouvido sedutoramente, fazendo Kyle se arrepiar.
Ele tentou se afastar, mas Eric o segurava com força. Seria impossível sair dali se o lutador não o soltasse.
– Calem a boca, estamos em público! – Censurou-os enquanto se debatia, mas sua voz parecia mais desesperada de vergonha do que com medo de ser descoberto.
Kenny olhava a cena dos três garotos de fora, agradecendo por não estar participando e se divertindo com o rumo que as coisas estavam tomando. Ele e Kyle sempre eram vítimas da malícia de Cartman e Stan, poder somente observar dessa vez era uma oportunidade que não iria perder. Se emitisse qualquer ruído, tinha certeza que iriam implicar com ele também.
Eric e Stan olharam em volta dramaticamente, colocando até mesmo a mão em formato de concha encostada nas sobrancelhas, acima dos olhos, para conseguirem enxergar melhor.
– Não, não estamos. Estamos no meio de uma noite deserta e fria, sem uma alma viva para nos ouvir. – Stan também se aproximou de Kyle e o pegou pelo outro lado, roçando os lábios em seu pescoço enquanto falava.
O judeu estava desesperado. Se alguém surgisse do nada naquele momento e os pegasse daquele jeito, não haveria nada que eles pudessem falar para se justificar.
– É, mas você sabe que South Park tem ouvidos, parem de ficar falando sobre isso! E de ficarem me agarrando!– Afastou-os com as mãos e eles enfim desgrudaram. Sentiu o alivio vir junto com a capacidade de respirar tranquilo de novo, mas durou pouco tempo.
Doce ilusão achar que eles o deixariam em paz tão facilmente assim.
– Por que você não quer falar sobre isso, Kyle? Porque fica com vergonha ou porque alguém escondido em alguma lata de lixo vai nos ouvir? – Cartman rolou os olhos e cruzou os braços, soltando farpas com o olhar.
O garoto baixou os olhos, sem saber o que responder. Antes que pudesse evitar, já havia encolhido os ombros e tentado se esconder dentro dele mesmo para fugir daquelas perguntas constrangedoras.
Stan sorriu para essa cena, sentindo o coração transbordar de ternura ao fitar Kyle tão frágil e embaraçado com aquela situação. Jogou o cigarro no chão e o enterrou na neve antes de se aproximar de Kyle.
– Você fica uma gracinha com vergonha, sabia Kahl? — Stan o segurou pelo queixo delicadamente, acariciando as suas maçãs rosadas e seus cílios ruivos que não paravam de piscar — Seus olhos ficam brilhando e piscando freneticamente, parece que você está tentando se esconder atrás deles... Não se esconda, Kyle, você é lindo demais para ficar escondido. – Kyle ficou paralisado com o toque morno de Stan em sua pele e com o aveludado de suas palavras que pareciam o entorpecer. Foi por causa disso, somente disso, que ele se distraiu completamente e quase deixou os lábios de Stan encostarem aos seus.
Mas foi quase. Por muito pouco eles não consumaram o beijo, mas Kyle pareceu acordar do feitiço que Stan tinha sobre ele e fugiu, andando na frente e tomando uma boa distância dos dois.
– Vou andar na frente, já que vocês não estão sabendo se comportar em público! – Kyle disse mais desesperado do que queria parecer, tentando inutilmente acalmar as batidas do seu coração.
Stan sorriu para ele, não se sentindo nem um pouco frustrado. Era como se já estivesse esperando essa reação.
– Que viadinho. – Comentou Cartman, olhando as costas de Kyle, que se mantinha afastado deles por motivos de segurança.
– Aposto que ele vai ficar reclamando sobre isso a noite inteira quando ficarmos sozinhos, quer apostar quanto? — Stan tirou outro cigarro do bolso e pegou o seu isqueiro de prata dentro do bolso para acendê-lo. Sim, ele tinha um isqueiro, ele só pediu para o dono da banca acendê-lo para desafiá-lo.
– Não se não der tempo dele reclamar. – Cartman disse maldosamente, olhando para Stan e Kenny — Hoje à noite vamos descobrir se o problema dele é falta de sexo ou não.
Kenny mordeu o lábio. Dessa ele sabia que não iria escapar, mas não se importava. Na verdade, não via a hora de chegar em casa logo.
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