Por Trás Da Atuação
2 Capítulo 1
Aquela era mais uma noite fria em South Park. Não um frio congelante que prenderia as pessoas dentro de suas casas, mas o frio típico da cidade que via o sol apenas uma vez ao ano. Era sempre daquele jeito, o branco da neve já fazia parte das calçadas da cidade e muitos meninos ganhavam dinheiro para tirar a neve do quintal de seus vizinhos – já que a grama estava sempre coberta. Todos estavam acostumados com aquela situação, não era nada extraordinário a temperatura estar abaixo de zero para os cidadãos, que tinham como roupa padrão casacos, cachecóis, botas e luvas.
E era assim que os três garotos estavam vestidos enquanto andavam pelas calçadas e só tinham como companhia o som dos pés triturando a neve em que eles pisavam. O trio não ligava para o frio, viviam naquela cidade desde que se entendiam por gente e já estavam acostumados com aquela temperatura. Parecia que o DNA já estava programado para aquele tipo de situação.
Kenny McCormick vestia uma versão maior do seu casaco laranja de infância, aquele mesmo que agora era guardado com carinho em alguma das suas gavetas quebradas em seu armário. Havia passado por muita coisa com ele, não queria se desfazer dele assim, como se fosse apenas uma peça de roupa usada. Agora Kenny não escondia mais tanto o rosto, mas para andar de noite, ventando forte do jeito que estava? Não, preferia deixar o seu rosto escondido, não queria ficar com a cara toda cortada. Sua pele do rosto era muito sensível e não agüentava aquele tipo de friagem.
Kyle Broflovski não havia abandonado o seu ushanka verde-limão que protegia as orelhas, mas também era só isso que ele vestia que remetia à sua infância. Jeans surrados, blusas largas, coturnos por cima da calça e jaquetas de couro compunham o seu visual de adolescente rebelde e encrenqueiro. Mas era só aparência. Kyle continuava o mesmo garoto sensível, carinhoso, atencioso e que ia bem na escola, sua personalidade contrastava totalmente com o modo que ele se vestia, causando sempre espanto nas pessoas que o julgavam sem o conhecer.
Já Stanley Marsh... Esse havia mudado completamente, tanto no jeito de se vestir quanto no modo de agir. Continuava sendo um bom garoto e não fazia mal a ninguém, mas o seu comportamento era de bad boy. Seu atual visual era parecido com o de Kyle, mas era mais carregado de spikes pontiagudas, correntes e piercings nas orelhas. Usava all star e coturnos, outros tipos de sapatos eram inadmissíveis e já havia perdido a conta de quantos já havia queimado quando sua família ainda se preocupava com a forma dele se vestir e lhe dava roupas diferentes. Agora ele bebia, fumava, passava a noite fora e só voltava de manhã, quando voltava. Talvez a fama de garoto certinho e normal tenha lhe irritado e ele quis ser diferente, ninguém sabia ao certo ou entendia o que havia acontecido para um menino aparentemente normal ter mudado tanto. Mas mesmo assim não desrespeitava os seus pais e tinha uma boa relação com eles, só tinham problemas quando eles resolviam questionar a forma que ele se vestia e estava conduzindo a sua vida, essa questão ele não deixava ninguém se meter.
– Estamos atrasados? — Perguntou Kyle, ajeitando-se dentro de sua jaqueta de couro, tentando se aquecer mais – Esqueci o relógio.
Stan acordou de suas divagações internas quando ouviu a voz mansa de Kyle quebrar a quietude da noite, chegando a fazer eco. Pegou o iPhone do bolso remendado de sua calça jeans e olhou para o visor do celular, jogando o cigarro para o canto da boca para conseguir falar.
– Que horas ele falou pra gente aparecer? — Sua voz havia mudado também, estava mais grossa e adulta, marrenta e arrogante. Havia mudado tanto que era difícil qualquer um enxergar algo do velho Stan naquela nova versão que ele agora ostentava sem se importar com as opiniões alheias.
Somente três pessoas conseguiam ver que ele continuava o mesmo por detrás de todas aquelas roupas negras e correntes de prata.
– 19:30, cara. – Respondeu Kyle.
– Então estamos na hora, são 19:20, vamos chegar até antes. – Dizendo isso, encerrou-se a conversa. Eles evitavam falar quando estava tão frio assim, suas gargantas agradeciam.
Kenny era o único que não falou nada, apenas observou os dois enquanto conversavam. Sabia que ninguém iria o entender se tentasse falar algo e mesmo assim não tinha nada de interessante para acrescentar.
Depois de mais cinco minutos de caminhada eles chegaram ao local de destino: a maior academia de South Park, isso porque ela era a única.
Entraram no estabelecimento sentindo os ossos agradecerem por estarem finalmente em um lugar aquecido e longe do gelado vento noturno. Stan foi até a bancada da recepção e antes que a balconista falasse que ele precisava apagar o cigarro, ele mesmo o fez no cigarreiro de vidro. Por que as recepcionistas sempre tentavam avisar algo que ele já sabia? Havia um aviso gigantesco escrito “Proibido Fumar” na porta da academia, ele não era analfabeto para não ter visto. Olhou de modo desafiador para a funcionária, seus olhos negros e profundos a acuavam silenciosamente e tudo que ela conseguia fazer era engolir em seco.
– É, eu sei. – Deu um sorrisinho que brilhou junto com o seu alargador na orelha – Não sou cego.
Ela concordou com a cabeça parecendo mais nervosa do que deveria, arrancando mais um sorriso de Stan. Kyle, que observava a cena de fora, rolou os olhos. Stan aproveitava a sua aura soturna e suas vestimentas agressivas para intimidar as outras pessoas.
– Vamos Stan, pare de ficar assustando a moça. – Kyle o segurou pelo braço e o puxou – Não foi pra isso que viemos aqui.
Stan confirmou com a cabeça e deixou que Kyle o levasse pelo braço, não sem antes lançar um beijo debochado para a recepcionista, fazendo o ruivo rolar os olhos e a moça tremer com medo daquele garoto maluco.
Quando saíram da recepção e foram para os corredores da academia, Kyle olhou com uma cara de poucos amigos para o moreno
– Porra Stan, será que você não consegue se comportar igual a uma pessoa normal? — Soltou o seu braço dramaticamente.
– Ah Kyle, não fode, deixa de ser tão certinho. – Revirou os olhos – Você fala como se eu estivesse agarrando a moça e a levando pro mato para estuprá-la. Eu estava só... Brincando. – Sorriu ao dizer a última palavra
– Brincar com o medo das pessoas não é legal, cara! – Disse Kyle, mas percebeu que era perda de tempo. Stan não estava mais o escutando e tinha ido beber água no bebedouro, deixando-o falando sozinho.
Suspirou profundamente, sentindo todo aquele ar quente bater em seu rosto. Discutir com Stan era perda de tempo.
– Ei, nós vamos ficar aí discutindo ou vamos pra área de lutas? — Perguntou uma voz melodiosa, fazendo os dois voltarem os olhos na mesma hora na direção em que ela vinha.
Kenny havia tirado o capuz e agora exibia os seus olhos azuis claros e com um brilho inocente e curioso. Os cabelos loiros lhe caíam sobre a testa e seu rosto parecia que nunca iria amadurecer, conservando as feições infantis e bochechas rosadas devido ao frio. Parecia um anjo daquele jeito, um anjo que trocara a sua túnica celestial por um casaco laranja.
Kyle e Stan se entreolharam. Por mais que já tivessem visto Kenny sem o casaco várias vezes, sempre se surpreendiam quando o garoto tirava o capuz e falava, ouviam na maior parte do tempo a voz de Kenny meio abafada, raramente a ouviam tão límpida quanto ela estava naquele momento.
Sem falar mais nada, os garotos seguiram academia adentro, sem nem prestar atenção nas mulheres que malhavam em diversos aparelhos, vestindo tops curtos e calças leggins, se mostrando para os professores e alunos enquanto faziam suas séries de exercícios. Eles eram diferentes, não se importavam com isso.
Kenny pigarreou discretamente, cutucando com o cotovelo os dois garotos que andavam distraídos. Stan e Kyle o olharam sem entender nada, mas Kenny apressou-se e falou sussurrando:
– Atuem. – Foi então que eles perceberam o que o loiro queria dizer, era óbvio, como podiam ser tão distraídos? Que tipo de garotos normais de dezesseis anos não estariam se comportando que nem cachorros no cio ao entrarem em uma academia cheia de mulheres gostosas e praticamente seminuas? Iriam desconfiar com certeza.
No mesmo momento eles começaram a olhar para os lados, observando as mulheres e obrigando os seus olhos a se fixarem naquelas curvas que deixariam muitos homens enlouquecidos, mas não a eles. Era uma tortura ter que ficar olhando para as mulheres forçadamente, como se fosse um programa muito empolgante que estivesse passando na televisão. Para eles, era como assistir a um espetáculo de ópera moderna, ou seja, chato. Tedioso. Eles não odiavam mulheres, mas era cansativo ter que agir daquela forma sempre que aparecia uma. Kenny colocou o capuz, deixando apenas uma frestinha para enxergar, impossibilitando qualquer um de ver para onde ele estava olhando.
– Trapaceiro. – Resmungou Stan, estreitando os olhos para o garoto que sorriu vitorioso, mas Stan obviamente não viu – Vamos apressar o passo, parece que a gente não chega nunca.
Finalmente chegaram na parte mais afastada e reservada da academia: a área das lutas. Havia várias salas e ambientes diferentes para cada tipo de arte marcial, mas o que mais chamava atenção era um ringue de boxe no meio do ambiente. Kenny, Stan e Kyle se aproximaram devagar, observando as lutas em cada tatame, do judô ao krav-magá. Isso sim eles tinham interesse de olhar, era realmente interessante ver os golpes das lutas e os movimentos das pessoas para se esquivarem dos golpes e aplicarem os seus próprios. Achavam incrível, mas preferiam ficar só olhando. Deixavam as lutas para quem tinha vocação.
Chegaram perto do ringue de boxe e sentaram nos bancos que ficavam ali para quem quisesse observar a luta. Colocaram algumas luvas de boxe, águas e panos suados para o lado e se focaram no que acontecia no ringue, ou melhor, no que certo alguém fazia no ringue.
Lá estava ele, totalmente diferente da imagem que todos traçaram de como ele seria quando crescesse. Sempre imaginaram que ele seria um daqueles homens obesos, que nunca percebem que precisam emagrecer e vão se entupindo cada vez mais de McDonalds, Burger king e KFC como se não houvessem artérias para serem entupidas, pressão alta e glicose.
Não. Ele havia trapaceado a imaginação de todos.
Eric Cartman percebeu que precisava mudar aos onze anos de idade. Finalmente havia caído na real de que não tinha ossos largos, mas era gordo. Não tinha problemas hormonais ou nada do tipo, o seu problema era comer demais e se mexer de menos, dando brecha para que o seu tecido adiposo crescesse cada vez mais e o deixasse mais gordo a cada dia. Procurou uma nutricionista e ela o receitou uma dieta balanceada que não o deixaria com fome, o faria emagrecer e também falou para Eric praticar algum esporte. Começou a seguir a dieta religiosamente, sem brecha nem nos finais de semana. Na hora do recreio ficava longe da cantina e comia somente barras de cereal. Tudo para ter um corpo igual ao de todos e igualmente saudável. Se sua mãe não havia cuidado dele o dando comida decente durante todos aqueles anos, ele iria fazer isso por si próprio. Matriculou-se na academia e começou a correr todos os dias mais de uma hora na esteira, fazendo musculação e até spinning.
E então um dia ele acabou indo para a área das lutas beber água, já que a área da musculação estava com o bebedouro quebrado. Ele já estava magro e forte naquela época, não lembrava nem de longe aquele menino que precisava dormir em uma cama de casal porque não cabia em uma cama de solteiro, o que chamou a atenção do professor de Muay Thai. Ele percebeu que Cartman tinha a estrutura óssea perfeita de um lutador de boxe e o chamou para uma aula experimental. Eric se apaixonou pela luta e começou a treinar desde então, mantendo um ritmo de luta e disciplina equivalente a de lutadores profissionais. Já havia ganhado competições nacionais e até internacionais, pretendia mesmo levar a carreira de lutador a sério, ele era mesmo bom nisso. A luta também havia feito bem para o seu caráter, o deixando menos agressivo e aprendendo a ter disciplina, mas sim, ele ainda continuava sendo o velho Cartman. O boxe tailandês poderia ser bom, mas também não fazia milagre.
Os três garotos fitavam Eric enquanto ele estava em uma luta com outro aluno. Vestia apenas um calção vermelho de luta, deixando todos os músculos e uma barriga de tanquinho amostra. O suor escorria pelos seus cabelos castanhos e percorria o seu rosto oval, caindo vez ou outra em seus olhos amendoados cor de madeira, dificultando a luta por deixar sua visão embaçada. Limpou os olhos rapidamente com o ombro, não podendo usar as mãos porque ambas estavam cobertas com luvas de boxe negras da Everlast. Cartman acertava o seu adversário de modo certeiro, era óbvio para qualquer um que eles não estavam no mesmo nível e era até covardia colocar aquele menino para lutar com um campeão internacional quanto Eric. Mas Eric estava sendo bonzinho e dava para perceber que não estava lutando a sério, deixando o pobre do menino acertá-lo uma vez ou outra, mas não o deixaria ganhar. Não, ele não era tão bom assim, seu instinto competitivo nunca o deixaria perder por caridade. Quando ficou de saco cheio daquela luta que não levava a nada, Cartman deu o golpe final, nocauteando o outro lutador e saindo vitorioso. Como sempre. Observou com desprezo o garoto levantar com dificuldade, parecia que estava vendo uma barata rastejando no lixo. Não o ajudou, nem sequer pensou em estender a mão para ajudá-lo a se reerguer. Na verdade, o único pensamento que se passava em sua cabeça naquele momento era fazer uma dança da vitória, mas tinha uma reputação a zelar naquele ringue e não pretendia arruiná-la só porque havia derrotado um calouro.
– Esse é o Cartman. – Murmurou Kyle, negando com a cabeça.
O professor, o Sr. Roger, um homem de meia idade e bastante conservado, andou até ele e deu leves batidas em suas costas.
– Muito bem Eric, gostei da forma que você não o destruiu logo de primeira.
Cartman rolou os olhos.
– É, é, tanto faz. Fiz isso só porque o senhor me pediu.
– Claro, a última vez que eu não te pedi pra pegar leve com os iniciantes você os mandou direto para o hospital. – Sr. Roger cruzou os braços, arqueando as sobrancelhas.
– E qual é a graça de lutar se não for pra valer? — Ergueu o queixo, olhando-o desafiadoramente — Não me coloque mais para lutar com esses iniciantes, vou quebrá-los todos de porrada na próxima vez.
Sr. Roger teve que engolir e concordar. Eric era o seu melhor lutador e ele era o seu agente. Temia entrar em conflito com ele e o perder para outra academia ou agente, precisava pisar em muitos ovos para conseguir lidar com ele sem irritá-lo, já que seu pavio era curtíssimo.
Ia responder, mas percebeu que os bancos não estavam vazios, haviam três pessoas ali sentadas olhando compenetradamente para ele e seu aluno. Reconheceu-os na mesma hora, além deles sempre estarem por lá, South Park era uma cidade muito pequena para que todos os habitantes não se conhecessem, nem que seja de vista.
– Olha Cartman, não são os seus amigos? – Apontou com a cabeça, fazendo Cartman se virar para espiar com curiosidade.
Sr. Roger não viu, mas Eric não conseguiu segurar um rápido e discreto sorrisinho de felicidade. Achava que eles não iriam vir mais, estava quase perdendo as esperanças de ver Stan, Kenny e Kyle ainda naquela noite. Quando percebeu que estava sorrindo, e isso durou apenas três segundos, Eric vestiu uma cara emburrada e andou batendo o pé pela lona, fazendo-a tremer toda. Os outros alunos se entreolharam assustados, não entendiam como aqueles três garotos ainda tinham coragem de ir ver Cartman lutando, ele não parecia gostar nada disso e ninguém que fizesse algo que Eric Cartman não gostasse poderia ser normal. Eles só podiam ser loucos.
Eric se debruçou nas cordas do ringue e olhou para os três de forma nem um pouco amigável.
– O que vocês estão fazendo aqui, seus cuzões? – Não berrou, mas disse alto o suficiente para que todos ouvissem o que ele estava falando.
Era a hora da atuação.
– Deixa de ser chato Cartman, viemos ver o boxe. – Stan rolou os olhos, entrando no jogo também.
– Certo, já viram, agora vão embora e me deixem em paz!
– Cale a boca bundão, você deveria era agradecer por nós sairmos de casa nesse frio pra vir te ver! – O ruivo cruzou os braços, enquanto cerrava os punhos.
– Vieram porque quiseram, eu não chamei ninguém. E se tá reclamando tanto assim do frio, por que não entra no forno, judeuzinho de merda?
Kyle franziu o cenho.
– Cartman, se você continuar fazendo piadinhas de judeus eu vou...
– Vai fazer o quê? Circuncidar meu pinto? – Apontou para o próprio short e olhou debochadamente para o garoto que o encarava com ódio. Era perfeito, se ele não soubesse, teria certeza que eles estavam brigando sério e pra valer.
Os outros alunos se entreolharam. Aquele garoto estava desafiando Cartman? Ele queria morrer?
Sr. Roger, sentindo que o clima estava ficando tenso, resolveu acabar logo com a aula daquele dia. Já estava no final mesmo e não daria tempo para ninguém fazer nenhuma luta, no máximo uma meditação, mas sentia que a turma não estava em clima para isso naquele dia. Sempre que aqueles três meninos surgiam Cartman ficava ouriçado daquele jeito, não conseguia entender o por quê deles andarem juntos já que se odiavam tanto assim.
– A aula acabou, crianças. Podem ir se trocar. – Não foi preciso nem mais meia palavra e todos eles saíram em disparada para o vestiário masculino.
– Oh, que merda. – Reclamou Cartman, saindo do tatame por baixo – Já que vieram até aqui, me esperem enquanto eu vou me trocar então. – Saiu andando e resmungava alto – Bando de desocupados...
Os três concordaram, demonstrando pouco interesse e fingindo não ouvir a agressão gratuita do lutador. Eles sabiam que era tudo fingimento mesmo.
– O Cartman é insuportável. – Afirmou Stan e os outros dois concordaram.
E ele só falou isso porque o Sr. Roger estava por perto.
Alguns minutos se passaram e Cartman havia retornado de cabelo molhado e vestindo calças de moletom, casaco vermelho, gorro azul de pompom amarelo com luvas da mesma cor. Sentiram uma sensação estranha de deja vu quando o viram com aquelas roupas, era do mesmo jeito que ele se vestia quando criança. Lá dentro estava quentinho, mas lá fora estava frio e ele não era maluco de sair com o corpo aquecido do jeito que estava para encarar a noite de South Park. Deixaria para pegar pneumonia em outra ocasião, em alguma que tivesse uma prova importante na escola e que ele não tivesse estudado nada.
– Vamos galera, quero passar no KFC antes de ir pra casa. – Agora que Cartman se exercitava regularmente e tinha o corpo seco de gorduras, ele conseguia comer o que fosse de consciência limpa – Vamos comprar uns potões de frango frito para enchermos o rabo enquanto vemos televisão ou jogamos videogame.
Eles sorriram levemente, lembrando-se que ainda estavam em público. Andavam para fora da academia, dando graças a Deus pela área de musculação estar praticamente vazia e não terem que atuar garotos nojentos de dezesseis anos cheios de hormônios.
– Hoje vamos pra casa de quem? — Perguntou Stan, já tirando um cigarro do bolso assim que avistou a recepção. Olhou para o balcão e percebeu que a recepcionista da academia não estava mais lá, já havia acabado o seu turno. Que pena.
– Pra minha casa não dá. – Disse Kenny, pela primeira vez depois de muito tempo, mas eles não estranharam. Kenny era mais quieto e na dele quando não estavam sozinhos.
– Que novidade. – Cartman rolou os olhos impaciente – Podemos ir pra minha casa. Minha mãe vai ficar fora a noite toda hoje, ela foi pra cidade resolver alguns assuntos.
Eles se entreolharam e uma fagulha de excitação e ansiedade brilhou nos olhos de cada um.
– Ok, então hoje será a sua casa. – Confirmou Kyle – Então vamos logo, eu estou morrendo de fome.
Passaram pela porta e seus corpos pediram automaticamente para voltarem ao quentinho do aquecedor, mas não podiam dormir na academia. Iriam ter que enfrentar o caminho gelado até o KFC tentando manter o calor no corpo do jeito que podiam.
Queriam dar as mãos, mas não podiam. Não ainda. Não os quatro ao mesmo tempo.
Teriam que esperar chegar em casa.
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