Popstar

9 VIII - I will let you down, let me go.


Notas iniciais
nem eu acredito que o "breve" foi breve mesmo rs mas cá estamos nós com mais um capítulo de popstar e estou MUITO animada porque as coisas vão começar a melhorar (ou seria piorar?). queria deixar meu MUITO OBRIGADA a todos que comentaram e que continuam acompanhando a fanfic, apesar de toda minha demora e desaparecimentos. significa muito para mim ter tantos leitores incríveis ♥ ~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~ PS: cada capítulo contém sua "playlist" e eu vou deixar as músicas linkadas no decorrer do texto, então para quem quiser ouvir enquanto lê, cliquem nos "•", ok? Músicas do capítulo: • Let The Flames Begin - Paramore • When It Rains - Paramore • Anxiety - Julia Michaels • It's nice to have a friend - Taylor Swift • Flames - Zayn • Easier - 5 Seconds of Summer Ah, e para quem quiser o link da playlist completa (com as músicas sendo adicionadas no decorrer da fanfic), aqui está o link do spotify: https://goo.gl/mDSCwE ~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~ espero que gostem! ♥

[APARTAMENTO UNIVERSITÁRIO, 512 | QUINTA-FEIRA — 26 DE OUTUBRO, 2017]

Eram onze e meia da noite quando o tudo começou a desandar.

Não fazia muito tempo que Lily chegara do trabalho e, agora, encontrava-se bem acomodada em um dos grandes sofás na sala do apartamento que dividia com suas amigas vestindo o seu pijama mais surrado, uma taça de vinho na mão direita e uma caneta na esquerda para apontar a pontuação do jogo que estavam jogando. Alice e Mary ocupavam o sofá maior localizado em frente, ambas tão à vontade quanto Lily – Mary, inclusive, estava usando um dos pijamas Pokémon de Alice (o que gerara muitas risadas quando ela começou a imitar a voz do Pikachu alguns minutos atrás).

Marlene estava deitada no chão fazendo mímica do que parecia ser uma orca morrendo – ela era realmente péssima nisso – enquanto as outras três tentavam adivinhar o que diabos ela estava imitando ao passo em que os níveis de álcool aumentavam cada vez mais em suas correntes sanguíneas.

Até então, estava sendo um dia incrível.

As aulas de Lily haviam sido canceladas – o que rendera tempo para que ela conseguisse aproveitar as últimas horas de Frank em Londres – os guardas da HSR conseguiram evitar a maior parte dos paparazzi, afoitos por qualquer notícia sobre Emmeline, que a aguardavam na entrada antes que ela chegasse e conseguiram esgueirarem-na pela saída traseira na hora de ir embora e, para completar, estava tendo um ótimo momento com suas melhores amigas.

Marlene, Alice e Mary – após todo desconforto inicial de “você-é-a-namorada-de-um-dos-meus-ídolos” – se deram tão bem que, se Lily fosse uma pessoa ciumenta, ela estaria morrendo naquele momento, afinal Mary tinha agora todo o foco das outras duas.

Mas, como Lily não era uma pessoa ciumenta e, também, pelo fato de que nenhuma das suas melhores amigas estava prestando muita atenção nela desde o dia anterior (o que era um feito e tanto de Mary, afinal toda vez que Marlene e Alice tentavam tocar no tópico Emmeline, ela mudava o assunto de forma realmente perspicaz, parecendo compreender que Lily ainda não se sentia à vontade para falar sobre o tema), ela estava realmente feliz com tudo aquilo. Era bom não ser o centro das atenções – e preocupações – para variar.

Mary simplesmente se encaixava com elas. Ela era inteligente e divertida, tinha um senso de justiça muito apurado e – para o deleite de Marlene e Alice – não se continha ao compartilhar histórias sobre The Marauders. Era bonito de ver, na verdade. Mary falava sobre eles com tanto carinho e adoração, mesmo quando estava contando algo não muito agradável que Sirius tinha feito ou sobre a última briga que Peter tinha se envolvido... era doce.

Lembrava Lily do jeito que Frank costumava falar sobre “sua melhor amiga de infância” nas entrevistas. Só aquele pensamento fez com que o coração dela apertasse um pouquinho, afinal Frank havia voltado para o Tour poucas horas atrás, deixando Lily com um abraço apertado e a promessa de que voltaria assim que tivesse um tempinho.

Ela o amava muito. Ele era seu porto seguro. Mesmo que insistisse em zoar com a cara dela após o que ela havia contado sobre o “encontro” com James Potter no dia anterior.

— Oh meu Deus, Lily, vocês dois chegam a ser ridículos de tão envolvidos que estão. — Frank comentara de madrugada enquanto dividiam a mesma cama, após o que pareceram ser horas de choro (de Lily) e xingamentos (de Frank) por conta de Emmeline. — É tão nojento que até parece um episódio de romcom. Céus, não duvido em nada que o próximo CD deles seja uma ode à sua beleza e tenha pelo menos cinquenta citações de “olhos verdes”.

— Oh, sim? Mais ou menos como “Divide” tem pelo menos doze músicas falando sobre a Alice? — Ela dissera, sarcástica, fazendo com que o assunto se encerrasse. Aceitando sua derrota, Frank decidira voltar aos xingamentos à Emmeline e Lily adormecera em seus braços, pela primeira vez em dias (desde que dormira com James, se fosse sincera), sem precisar da ajuda de alguma medicação.

— Lily! — A voz de Marlene a arrancou de seus devaneios. — Tem alguém aí?

Piscando algumas vezes para focar a visão, Lily percebeu que as três garotas a encaravam, risonhas.

— O quê? — Lily perguntou, sentindo as bochechas esquentarem por ter sido pega zoneando.

— Seu celular está tocando. — Alice dissera, rindo ao observar Lily se erguer de um pulo, deixando papel e caneta caírem de qualquer jeito no chão, e correr até onde o celular estava depositado sobre a mesa de jantar. — Uau, um pouco desesperada, não acha?

— Talvez ela estivesse esperando a ligação de alguém. — Marlene comentou, maldosa.

— Oh, não duvido nada. Dei o número dela para esse alguém dois dias atrás. — Mary adicionou, piscando para Lily enquanto as outras duas garotas gritavam em choque e animação diante da novidade.

— Shh. — Lily que, embora jamais fosse admitir, estivera mesmo esperando pelo menos uma mensagem, franziu o cenho ao ver de quem era a ligação. Sentindo o estomago embrulhar, deixou sua taça de vinho sobre a mesa e caminhou até seu quarto fechando a porta atrás de si, sabendo que enfrentaria um inquérito assim que saísse. — Tuney? — Atendeu.

Hey, Lil’. — A voz da sua irmã respondeu, doce, embora firme. Familiar. — Como você está?

— Você sabe que é quase meia noite aqui, não é? — Lily disse. — Por que está ligando tão tarde? — Indagou, suspeita.

Oh, eu estou ótima, obrigada por perguntar! Los Angeles está começando a esfriar, embora o frio deles nem se compare ao de Londres, é claro. — Petunia disse, alegremente, seu tom indicando que ela sabia perfeitamente que estava fazendo Lily rolar os olhos. — É bom ouvir sua voz após tantas semanas de nada, Lil’.

— Você sabe que também sinto sua falta. — Lily suspirou e então se encaminhou até sua cama, sentando na beirada enquanto remexia no edredom. — O que aconteceu? Por que está ligando, Tuney?

Ora, eu até demorei demais para ligar levando em conta que você está aparecendo em todos os tabloides americanos pelas últimas semanas. — O tom de Petúnia era divertido, o que apenas fez Lily gemer. — Oh, não soe tão revoltada. Você sabe tão bem quanto eu que estar atenta à essas publicações faz parte do meu trabalho, irmãzinha. Isso para não falar daquele contrato que você me mandou para analisar na semana passada. — Então uma pausa. — Eu só pensei... bem, eu pensei que você fosse me contar antes.

— Não tem nada para contar, Tuney. — Lily podia ouvir a mentira na própria voz.

Certo. Claro, eu esqueci que beijar e almoçar com popstars faz parte da sua rotina diária.

— Não seja sarcástica.

Então não minta para mim! — Petunia a cortou e então bufou. — De qualquer forma, não foi por isso que liguei.

O coração de Lily acelerou ao ouvir aquelas palavras. Não parecia ser uma boa indicação o fato de que Petunia não estava tão empolgada com as fofocas envolvendo popstars (ela era uma competição acirrada com Moody no que dizia respeito a tabloides) e, também, por parecer menos empolgada ainda a falar sobre o assunto pelo qual ligara. E Petunia sempre estava empolgada.

— O que está acontecendo?

— Uma das suas composições recebeu uma grande proposta. Duas, na verdade. — Petunia disse, ainda quieta demais para o gosto de Lily.

— Qual delas? E quão grande?

Youngblood. — A irmã respondeu, o que fez com que Lily se surpreendesse. Aquela era uma música que havia escrito há quase dois anos. Uma das últimas composições sobre suas próprias experiências amorosas antes que o bloqueio tomasse conta de sua mente. — E tenho certeza de que nunca recebeu uma oferta tão grande quanto essa.

— E isso é ruim porque...?

— Não é exatamente ruim.

— Petunia Evans! Pelo amor de Deus, fale logo! — Lily reclamou, irritada com a enrolação.

Um longo e sofrido suspiro foi ouvido pela ligação antes de Petunia responder.

— Uma das propostas, bem... foi de Emmeline.

Uma risada quase histérica escapou da boca de Lily. Ela não conseguia acreditar na audácia daquela filha da-

— Você não precisava nem me ligar para recusar, Petunia. Eu acho que deixei bem claro o que penso sobre minhas composições nas mãos dela. — Lily bramiu e então se atirou sobre seus travesseiros, encarando o teto enquanto tentava não fazer nada impulsivo. Mesmo que ela quisesse sair correndo dali e ir direto ao hotel que (graças a Kingsley) ela sabia que Emmeline estava hospedada e gritar com ela sobre quão estupidamente ridícula ela era por pensar que Lily deixaria qualquer coisa dela, quanto mais suas preciosas composições, serem usadas por ela. Não mais. Nunca mais. — Ela armou para mim, você sabe. Ela chamou os paparazzi.

Eu imaginei. — E havia fúria contida nas palavras de Petunia. Elas não eram tão próximas quanto haviam sido quando eram mais novas, mas elas se amavam e Lily sabia que Petunia faria qualquer coisa para protege-la. Ainda mais quando o assunto envolvia Emmeline. — E eu recusei a proposta no momento em que a recebi. — Lily podia ouvir o rolar dos olhos da irmã. — Só achei que você deveria saber que ela ainda está tentando...

— Eu não- — Lily engoliu de volta as palavras grosseiras que estava prestes a expelir. Não era culpa de Petunia a bagunça que a vida dela havia se tornado. Muito pelo contrário, Petunia tentara impedi-la de fazer muitas das coisas que a levaram até onde estava agora. — Obrigada. — Ela disse, por fim, sabendo que a irmã conseguiria ouvir a sinceridade em suas palavras. Lily limpou a garganta e mudou de assunto. — Mas então... de quem é a outra proposta?

Hm, bem. — Petunia também limpou a garganta, claramente tentando esconder alguma emoção. — Como disse, é uma das melhores ofertas que você já recebeu, Lily. Contém MUITOS dígitos. E, hum, eu tenho certeza absoluta que os royalties serão tão grandes ou ainda maiores que o valor do contrato.

— Incrível. — Lily disse, sentindo o orgulho e animação, que sempre sentia quando suas músicas eram bem reconhecidas, borbulhar em seu peto. Ela havia produzido mais do que uma cota de singles nos últimos anos. Todos eles ficaram no topo da Billboard e dos serviços de streaming por mais de semanas – ela mesma fora obrigada a tocá-las várias vezes durante o Show do Chá da Manhã (mesmo que tivesse suas ressalvas sobre ouvir suas próprias músicas). Alguns deles haviam feito parte de obras cinematográficas realmente impressivas – ganhadores de Oscars inclusive – e duas delas haviam sido indicadas para o Grammy (ambas interpretadas por Frank, é claro). Lily tinha dinheiro o suficiente para não precisar trabalhar o resto de sua vida (e da próxima provavelmente), todo ele provindo de royalties das suas composições. Ela era uma compositora renomada e muito procurada, mesmo que ninguém, exceto o pessoal que trabalhava para ela (Frank e Petunia sendo dois deles) e, é claro, algumas das pessoas para quem compusera, soubesse quem, de fato, ela era. Aquela era provavelmente a única parte de sua vida que estava nos eixos no momento. — De quem é a proposta?

Silêncio.

— Tuney? — Lily indagou, começando a sentir o nervosismo retornar. — De quem é a proposta?

Hm, bem- — Silêncio novamente. E então um suspiro. — The Marauders.

Oh, é claro que era.

— Tuney- — Ela começou a dizer, mas a irmã a interrompeu.

Lily, eu disse que queria falar com você primeiro, mas a proposta era muito boa e Frank- bem — A culpa era bastante risível no tom de voz da irmã.

Lily sentiu a animação esvair, dando lugar a uma raiva abrasadora.

— O que o Frank fez, Tuney? Ele saiu daqui essa tarde e tenho certeza de que ainda não chegou em Los Angeles para que pudesse fazer qualquer coisa sobre isso. — Lily disse, entredentes.

Nós recebemos a proposta na Terça, Lil’-

— O que diabos o Frank fez? — Lily voltou a perguntar, sentindo-se começar a tremer.

Ele aceitou. Ontem. Ele assinou o contrato por você ontem, aí mesmo em Londres com a gerência da banda, já que ele tem a sua procuração. — Petunia disse, quase um sussurro. — Lily, eu realmente acho que-

— Boa noite, Petunia. — Lily disse, interrompendo o que seria claramente uma tentativa de limpar a barra de Frank (pois, infelizmente, Petunia também era muito próxima do garoto), e então desligou.

É claro que Frank – e Kingsley (infelizmente) – tinha a procuração para assinar contratos para Lily. Ela sempre confiara neles para lidar com aquilo. Sem falar que evitava muita burocracia e estresse em ter que voar toda vez que precisava assinar alguma coisa com um artista de outro país, afinal Frank estava sempre viajando, o que tornava muito mais fácil para ele lidar com aquele tipo de situação do que para Lily simplesmente abandonar a universidade toda vez que precisasse assinar um contrato.

E também havia o fato de que Lily preferia manter sua identidade em sigilo e somente revela-la para o artista se realmente precisasse. Ela amava compor, mas não gostava da ideia de ser exposta. Não que ela tivesse conseguido fugir da exposição ultimamente. Afinal, ao que parecia, estava estampando até mesmo as manchetes internacionais agora.

Não bastasse isso, Frank Longbottom, seu suposto melhor amigo – com quem tivera uma longa conversa sobre não ocultar coisas importantes na segunda-feira de manhã – decidira assinar um contrato sem avisar para ela. Oh, não, estava bastante claro que ele pretendia avisar sobre aquilo apenas quando estivesse seguro a um oceano de distância da ira de Lily.

Deus, ela queria tanto poder gritar com Frank agora. Poder perguntar o que diabos ele estava pensando ao assinar tal coisa. Mas, é claro, ele estava inalcançável pelas próximas horas por estar em um maldito avião.

Voando para longe.

Após assinar um maldito contrato.

Com a The Marauders.

Frank acabara de vender uma música de Lily para The Marauders!

Você está morto, Longbottom. — Lily resmungou para o teto antes de afundar o rosto nos travesseiros e começar a gritar de frustração.

Pelo resto da noite, Lily ignorou o chamado de suas amigas gritando da sala, preferindo o conforto da própria cama enquanto tentava não entrar em combustão ou cometer um crime de ódio.

[CLINICA DE PSICOLOGIA FAWKES | SEXTA-FEIRA — 27 DE OUTUBRO, 2017]

O dia seguinte não foi muito melhor.

Lily teve dois períodos com Umbridge na primeira hora da manhã – o que nunca era uma boa indicação – e, por ser obrigada a ficar vinte minutos após a aula terminar para conversar com a professora sobre o fato de ter matado aula na última quarta-feira (ela era adulta, pelo amor de Deus!), acabou perdendo o almoço e tendo que correr para pegar o ônibus que a levaria a sua primeira consulta com seu psicólogo.

Ugh.

Psicólogo.

Era eufemismo dizer que Lily não estava feliz sobre aquilo. Mas ela prometera a Marlene e Alice que faria terapia e, apesar de estar suando e tremendo diante da possibilidade de ter a mente dissecada por alguém enquanto adentrava o prédio com paredes brancas cheias de quadros esquisitos, Lily estava disposta a cumprir sua promessa.

É claro que ela se arrependeu quase imediatamente no momento em que adentrou o consultório e deparou-se com o homem de longos cabelos brancos e óclinhos de meia-lua encarando-a com olhos azuis penetrantes que pareciam ver mais do que ela gostaria de demonstrar. Era como se ele pudesse ler sua alma e ela sequer havia dito uma única palavra.

— Boa tarde. Você deve ser a Senhorita Lily Evans, certo? — O homem disse e sorriu calorosamente para ela, cumprimentando-a com um aperto de mão enquanto Lily assentia. — Sou Albus Dumbledore, é um prazer te conhecer.

Ela o odiou instantaneamente. Toda aquela simpatia, aquela aura de compreensão fazia com que sua pele eriçasse.

— Boa tarde. — Ela respondeu secamente, sabendo que seu tom não era muito simpático, mas não conseguiu se importar.

O homem – Dumbledore – sorriu mais um pouco enquanto caminhava para sua cadeira e a observava com atenção. Lily ainda estava parada em frente à porta, respiração acelerada e pés praticamente grudados no chão enquanto sua mente trabalhava freneticamente, procurando desculpas ou qualquer coisa que a deixasse ir embora dali o mais rápido possível.

— Isso vai ser mais fácil se você não ficar perdendo tempo tentando fugir. — Dumbledore disse, interrompendo os devaneios de Lily e arqueando uma sobrancelha ao ouvi-la bufar. — Prometo que hoje a consulta será bastante breve, Lily. Falaremos um pouco sobre o porquê decidiu vir até aqui e, assim, vou poder te conhecer melhor e pensar em maneiras de te ajudar.

Lily apenas o encarou, seus instintos lutando dentro de seu cérebro, um sinal de alerta parecendo berrar em seus ouvidos enquanto seu pulso acelerava.

Ela certamente não precisava da ajuda dele. Podia se virar muito bem sozinha, obrigada. Sim, ela tinha alguns ataques de ansiedade e tomava algumas pílulas para dormir, mas aquilo não era o fim do mundo, não é? Lily podia lidar com tudo aquilo sozinha. Ela vinha fazendo isso pelos últimos anos – talvez não muito bem quanto poderia, mas, ei, ela ainda era um ser humano funcional!

Ela queria sair dali.

Ela não queria dizer para aquele homem que ela mal conhecia nada sobre sua vida.

Não quando sequer tinha certeza do porquê de estar ali em primeiro lugar.

— Lily? — Dumbledore a chamou, arrancando-a mais uma vez de seus pensamentos. — Por que você não senta um pouco? Parece cansada. Você veio caminhando? — Ele perguntou, ainda naquele tom de voz extremamente simpático que a irritava.

— Corri para pegar o ônibus. — Ela respondeu, por fim, quando conseguiu controlar a mente o suficiente para lembrar que ficar apenas cinco minutos naquela sala antes de sair correndo não seria o suficiente para cumprir a promessa que fizera às suas amigas.

Lenta e com muita cautela, Lily se aproximou do centro da sala, mas ainda não sentou.

— Quer um chá? — Dumbledore perguntou, de repente, indicando a térmica do que deveria ser água quente e algumas xícaras que estavam em uma mesa próxima de onde ele estava sentado.

Chá.

— Sim, obrigada. — Lily respondeu quase automaticamente diante da oferta, afinal era chá. Chá ela conhecia. Chá era seguro. Chá ocuparia sua boca e daria tempo a ela para pensar no que fazer a seguir.

De modo quase robótico, Lily finalmente sentou numa poltrona confortável em frente à cadeira de Dumbledore enquanto o observava preparar a bebida para ela. Quando o homem depositou a xícara em suas mãos e a quentura da porcelana tocou em seus dedos, Lily soltou um suspiro que nem sabia que estava segurando diante da sensação familiar.

Sabia que estava reagindo demais, que não fazia nem dez minutos desde que adentrara aquela sala e que não havia qualquer motivo para odiar aquele homem que, até o momento, se mostrara tão prestativo. O problema era que Lily odiava se abrir, odiava falar sobre sentimentos, odiava se sentir vulnerável.

Ela lembrava perfeitamente do que acontecera a última vez que se abrira daquele modo para alguém.

E não fora justamente aquele o motivo de ela estar tão quebrada agora?

Não fora aquele o motivo pelo qual suas amigas a obrigaram a estar ali, em frente à Albus Dumbledore, naquela sexta-feira à tarde?

Apertando com força a xícara em suas mãos, Lily a levou aos seus lábios, percebendo tardiamente que estava tremendo. Dumbledore pareceu perceber também, pois puxou uma caneta-tinteiro de aparência bastante cara – quem utilizava aquelas canetas, pelo amor de Deus? – e começou a escrever rapidamente em um caderninho.

— E então, Lily? — Ele perguntou quando finalmente ergueu os olhos de suas notas, fazendo-a dar um pulo ao ouvir sua voz após os longos minutos em silêncio que passara a observá-lo traçar o papel precisamente com a caneta-tinteiro.

— E então... o quê? — Ela repetiu, sentindo a voz rouca. Limpou a garganta.

— Por que você está aqui hoje? — Ele perguntou, pacientemente.

Sentindo a boca secar, Lily deu mais um longo gole em seu chá antes de responder.

— Minhas amigas, Marlene e Alice, me fizeram prometer que eu viria. — Ela disse, pensando que era uma informação segura de dar, afinal de contas aquele era, de fato, o motivo pelo qual estava ali. E então deu de ombros, tentando demonstrar que não era nada, um mal-entendido talvez, que ela estava ali apenas para manter sua palavra e não porque realmente precisava.

Dumbledore, é claro, não pareceu lhe dar créditos.

— E por que Marlene e Alice te fizeram prometer isso? — Dumbledore indagou após anotar mais alguma coisa no caderninho. — Por que elas acharam que você precisava de terapia?

— Nós tivemos uma briga porque eu- — Mas Lily não continuou. Não sabia como. Como poderia dizer a ele coisas que sequer conseguia admitir para si mesma? Como seria possível se abrir para outra pessoa quando ela sequer tinha as chaves para a própria mente? E porque ele ainda estava escrevendo naquele caderno se ela quase não dissera nada?

Percebendo o olhar de Lily sobre suas mãos, Dumbledore a encarou por longos instantes antes de fechar o caderno e colocá-lo sobre a mesa junto com a caneta.

— Por que você não me conta o motivo de ter corrido para pegar o ônibus? — Lily franziu o cenho, surpresa com a mudança no rumo da conversa.

Pelo menos aquilo ela podia responder.

— Minha professora me trancou após a aula. Quando consegui sair, já tinha perdido o almoço e, se não corresse, teria perdido o ônibus também.

Os olhos azuis enrugaram levemente quando ele sorriu para ela mais uma vez, parecendo aprovar a resposta.

— E por que sua professora te trancou? — Ele insistiu enquanto se ajeitava na cadeira, juntando as mãos e movendo os polegares juntos.

— Ela queria saber porque não fui na aula dela na quarta-feira. — Lily rolou os olhos, lembrando da vontade absurda de xingar a professora e suas estúpidas roupas cor-de-rosa que faziam-na parecer demais com um bebê gigante e feioso.

— E o que você disse?

— Que ocorreu um imprevisto.

— E ocorreu mesmo um imprevisto? — Os olhos de Dumbledore estavam fixados nos dela, aguardando a resposta.

— Não exatamente. Eu recebi uma mensagem de um amigo sobre... bem... um artigo. — Lily disse, não se sentindo exatamente à vontade para falar sobre o Profeta Diário ou dar qualquer indicação de estar envolvida com celebridades.

— Oh. E porque esse artigo seria um imprevisto?

— Ele, bem- era sobre- — Mais uma vez, Lily se interrompeu, sentindo a boca secar novamente enquanto seu peito acelerava.

Ela ergueu os olhos para o homem à sua frente e, por um instante – um aterrorizante instante – os olhos azuis pareciam demais com os do próprio pai, Edward Evans. E eles a julgavam. E eles a odiavam. E eles demonstravam todo o desgosto que ele nutria por ela.

— Lily? — A voz, que não era a mesma de seu pai, a chamou, fazendo com que ela piscasse várias vezes até que voltasse a ver o terapeuta.

— Era sobre alguém que costumava ser uma amiga. — Ela conseguiu completar, a voz rouca e o coração pesado por dizer aquela meia verdade. Afinal de contas Emmeline fora uma amiga, uma das melhores de Lily. Mas aquela não era a única palavra que descrevia o que Emmeline havia sido em sua vida.

Dumbledore a encarou por mais algum tempo, observando-a, lendo-a, e Lily tinha certeza de que ele conseguira ver através da mentira, mas ele não insistiu, apenas assentiu e puxou a própria xícara de chá para bebericar.

— Marlene. E Alice. — Ele comentou, por fim. — Vocês se conhecem há muito tempo?

— Há três anos. — Ela respondeu, agradecida mais uma vez pela mudança de tópico. — Quando vim para Londres estudar em Durmstrang, Marlene e eu fomos colegas de quarto no primeiro ano. Alice e ela eram amigas do tempo de escola, então sempre estava por perto. Acabou que todas nós tínhamos muita coisa em comum e, desde então, somos inseparáveis. Até dividimos um apartamento maior agora.

— Você parece gostar muito delas. — Dumbledore estava sorrindo.

— Eu as amo. — Lily disse com sinceridade, sorrindo de volta.

— E elas são as amigas mais próximas que você tem?

Lily assentiu e então acrescentou:

— E Frank. Nos conhecemos desde o nascimento, nossas mães eram amigas. — Lily pausou, sentindo um aperto no peito ao lembrar que a amizade entre as duas havia acabado há algum tempo e que a culpa também era dela. Limpando a garganta, prosseguiu: — Ele é como um irmão para mim.

Parecendo perceber que aquele era um tópico doloroso – e Lily parecia ter muitos daqueles – Dumbledore apenas assentiu antes de continuar.

— Você disse que veio à Londres para estudar. De onde você é?

— Godric’s Hollow. — E, assim, ele continuou pelos próximos quarenta minutos, perguntado coisas aparentemente banais da vida de Lily, engatando de um tópico a outro, desviando para outro assunto toda vez que Lily fazia uma pausa muito longa para responder ou quando a respiração dela acelerava – percebendo que ela não conseguia falar, talvez.

Quando, por fim, encerrou a consulta, Lily se sentiu estranhamente esvaziada, mas, ao mesmo tempo, percebeu que não o odiava tanto, afinal de contas.

Dumbledore tinha voltado a pegar seu caderno enquanto eles conversavam e, agora, terminava de escrever o que quer que fosse antes de encará-la.

— Muito bom, Lily. — Ele disse, parecendo satisfeito. — Fizemos algum progresso hoje. Tenho certeza de que será melhor na próxima semana.

Fizeram progresso? Lily se perguntava enquanto se despedia, afinal de contas, embora ele tenha perguntado de tudo um pouco para ela, não tinha certeza de quanto ele poderia descobrir sobre suas batalhas mentais ou problemas psicológicos baseados em sua marca de chá favorita ou sua rotinha pela manhã.

Não que ela estivesse reclamando, é claro, afinal quanto mais eles evitassem falar sobre os problemas de Lily, melhor para ela.

Certo, Lily, porque é assim que a terapia funciona. Você apenas fala baboseiras e seus problemas se solucionam magicamente. Ela rolou os olhos para os próprios pensamentos enquanto se afastava pelas ruas abarrotadas de Londres, o capuz do moletom cobrindo boa parte de seu rosto para o caso de alguém reconhecê-la.

Ela sabia que seria obrigada a falar sobre o que realmente a afligia qualquer hora dessas mas pensou que não seria ruim se aquilo demorasse a acontecer.

Quando chegou à parada de ônibus – sem precisar correr dessa vez – Lily sentiu o celular vibrar. Puxou-o do bolso do moletom e bufou ao ver de quem era a ligação.

Frank.

Sem pensar duas vezes, Lily recusou a chamada. E então desligou o celular.

No dia anterior, ela estivera louca para falar com ele – gritar, xingar, matar— mas, agora, toda batalha havia saído de seu corpo. E tudo o que ela queria era fingir que ele não existia – mesmo que tivesse sentido o coração aquecer ao falar sobre ele em sua sessão com Dumbledore.

Lily estava magoada com ele. E exausta.

Exausta de se sentir traída.

Exausta de não ter controle sobre a própria vida.

Exausta de estar exausta.

Quando o ônibus finalmente chegou, Lily apoiou a cabeça contra o vidro e observou a paisagem passar sem vê-la de fato.

E ela desejou – não pela primeira vez – poder continuar ali, naquele ônibus, viajando por quilômetros até chegar em casa. Onde quer que casa fosse agora, afinal ela tinha a sensação de estar perdida há muito tempo. Abandonada. Sozinha.

Quase como se estivesse em um sonho, Lily observou suas mãos buscarem por sua bolsa, abrindo-a e puxando um pequeno caderno, novo em folha – comprado, em vão, semanas atrás numa tentativa de incentivar sua criatividade – e, junto dele, um lápis usado.

Rindo para si mesma, Lily pensou que, talvez, comprasse uma caneta-tinteiro também. E então, como há tanto tempo não acontecia, ela começou a escrever. E as palavras que ali se formavam não eram sobre qualquer pessoa a não ser ela mesma.

Lágrimas se formaram no canto dos olhos de Lily, escorrendo por seu rosto e impedindo-a de ver claramente, mas ela não parou, com medo de que se o fizesse a inspiração simplesmente fosse embora.

Ela perdeu a própria parada, mas não conseguiu se importar porque, quando finalmente desceu – uma hora depois do que deveria – duas estrofes estavam finalizadas e seu coração parecia dez vezes mais leves.

[HOGSMEAD PLACE, 713 | SEXTA-FEIRA — 27 DE OUTUBRO, 2017]

— Peter, pelo amor de Deus, sai do Twitter! — Mary disse pelo que deveria ser a milésima vez, mas Peter a ignorou. — Você sabe que a gerência vai acabar brigando com você de novo.

— Não me importo. — Peter retrucou, ainda sem desviar os olhos do telefone, enquanto tentava encaixar nos 280 caracteres todo seu desprezo por aquele babaca que decidiu demonstrar toda sua homofobia ao falar sobre Remus e Sirius.

— Eles vão acabar desativando você, Pete. — Foi James quem disse dessa vez, mas ele não parecia tão avesso ao que Peter estava fazendo.

— E daí? Posso fazer uma conta falsa. As pessoas pensam que eu me importo com a verificação, quando na verdade eu só quero ser capaz de falar o que penso, pelo menos uma vez, de verdade. — Peter deu de ombros, sorrindo ao sentir-se satisfeito com a resposta e clicando no botão de enviar. — Pronto. — Disse, finalmente soltando o telefone e tentando fazer uma expressão inocente para Mary que bufou.

— O que vamos fazer com você? — Ela perguntou para ninguém em específico antes de se aproximar e mexer nos cabelos de Peter. — Vê se se comporta, ok?

— Você e Remie vão sair?

— Sim, temos um encontro romântico. — Mary sorriu brilhantemente e então rolou os olhos. — Nada artificial, é claro.

— É claro. — Sirius bufou ao se aproximar pelo corredor, beijando Mary na bochecha antes de ir até o sofá e puxar sua jaqueta dali. — Pete, tem certeza de que não quer sair comigo e com o Jay? Vamos no-

— Three Broomsticks. — Peter rolou os olhos para os dois, rindo. — Eu sei. Nah, vou ficar em casa hoje. Quero ver se termino a melodia para Nervous e depois vou tentar dormir um pouco.

— Sim, certo. Nós sabemos que na verdade você só quer ter privacidade para ficar brigando no Twitter sem estarmos por perto. — Remus disse, saindo da cozinha e entregando uma xícara de café para Peter. — Vê se não arranja muita encrenca.

— Vou dar o meu melhor. — Peter assentiu solenemente, observando enquanto os quatro amigos saiam do apartamento.

Quando, por fim, estava sozinho, soltou um longo suspiro antes de se erguer do sofá e se encaminhar para a sala no final do corredor – a única do apartamento que era totalmente à prova de som e que eles utilizavam como mini estúdio quando queriam testar alguma música nova.

Pegando seu violão e seu caderno de composições, Peter começou a dedilhar a melodia que ainda estava inacabada, testando alguns acordes e murmurando as estrofes enquanto tentava encaixá-las.

James, Sirius e Remus eram responsáveis pela maior parte da composição das letras – embora a gerência recusasse grande parte delas – e Peter ficava com as melodias. Ele tinha um ouvido bom e era talentoso o suficiente para conseguir criar harmonias que se encaixavam perfeitamente para as letras dos amigos. E ele amava fazer aquilo, porque sempre tinha uma parte dele em tudo que cantavam.

Ele ficou assim, cantarolando em meio as notas, por quase duas horas. Quando estava finalmente satisfeito com o que criara, desligou o gravador do celular e enviou a melodia para Ted – o produtor e compositor responsável pelo álbum deles. Peter gostava de Ted, pois apesar de ser um funcionário da Riddle, o cara pensava fora da caixa e sempre dava o melhor para convencer Lucius a dar mais liberdade de criação para os quatro.

Espreguiçando-se e sentindo as costas estalarem, Peter pensou no que faria a seguir. Tinha dito aos amigos que tentaria dormir, mas era quase meia noite e, ainda assim, estava sem um pingo de sono.

Começara a chover, mas aquilo não seria impedimento caso decidisse sair. Sem falar que quando não estava chovendo em Londres?

Pensou em encontrar James e Sirius no Three Broomsticks, mas desistiu, não gostando muito da ideia de ir para o local que provavelmente estaria lotado em plena sexta-feira. Sem falar que seria bom para os outros dois serem vistos sozinhos e se divertindo, ainda mais depois de toda a baboseira envolvendo o Profeta Diário.

E, como Mary e Remus estavam em um “encontro romântico”, não sobrava muita companhia.

Isto é, até ele lembrar de outro lugar.

Diferente dos outros três garotos, Peter não viera de uma cidade interiorana para participar do The X Factor. Ele nascera e crescera em Londres e, antes de toda a fama, ele era apenas mais um universitário tentando a vida em bares de quinta categoria que quase nunca tinham pessoas o suficiente para prestar atenção no que ele estava, de fato, tocando.

Um desses bares era o Hog’s Head Inn. Aberforth, seu dono, era quase como um velho amigo para Peter – embora tudo o que o velho fizesse fosse rosnar e resmungar na maior parte do tempo – e ele não o havia visitado desde antes do Tour.

Era hora de mudar isso.

Com um novo foco, Peter caminhou até seu quarto e trocou de roupa, pegando um moletom com capuz e um boné antes de sair, rogando aos céus para que pudesse passar pelo menos uma noite tranquila sem que ninguém o descobrisse.

—--

Ao chegar no bar, foi direto ao balcão, sorrindo para Aberforth que bufou quando reconheceu quem ele era por debaixo do capuz.

— Pensei que tivesse esquecido das raízes. — O velho disse, resmungão. Peter sorriu para ele, divertido.

— Nah, cara, você sabe que jamais seria capaz de fazer isso. — Disse, sorrindo ainda mais quando o homem depositou o grande copo com cerveja à sua frente. — Por conta da casa, certo?

Aberforth bufou.

— Com todo dinheiro que você ganha? Nem pensar. Vou cobrar até mais caro. — Mas o velho piscou ao se afastar para atender outro cliente.

Feliz com a familiaridade – e normalidade – do local, Peter se afastou do balcão, procurando uma mesa mais afastada para sentar. Apesar de ser sexta feira o bar não estava muito lotado e a maioria das pessoas que ali se encontravam parecia estar acima da faixa etária das fãs da The Marauders (é claro que haviam algumas exceções como aquela senhora de uns cinquenta anos que levara um pastor para um M&G e tentara força-lo a casar com ela..., mas Peter evitava aquele tipo de recordação, então, bem).

Quando, por fim, escolheu uma mesa não muito longe do balcão e com uma meia vista do palco onde alguém se preparava para cantar, embora razoavelmente escondida de olhares curiosos, Peter relaxou. Puxou o celular do bolso e decidiu dar mais uma olhada no Twitter.

Como previsto, ele estava tendendo. E, também como previsto, havia uma mensagem de Narcissa repousando em suas notificações.

Decidindo que lidaria com aquilo no dia seguinte, Peter ignorou a notificação e desceu pelo feed, bebericando sua cerveja e cantarolando a música que começara a ser tocada. Ele a reconhecia – era uma das mais novas de Frank Longbottom – mas a melodia era diferente, quase como se fosse algo totalmente novo.

Parando de olhar o celular, Peter fixou o olhar sobre a garota que estava agora no palco. A meia luz do salão e o fato de que havia um pilar em frente à mesa onde estava tornava difícil de distinguir seu rosto, mas sua voz... era linda. Alta, forte e rouca. Vibrava as palavras com sentimento, fazendo com que ele se arrepiasse. E Peter já fora a inúmeros concertos – mesmo antes de ser famoso – e podia contar nos dedos as vezes que sentira tal coisa ao ouvir alguém cantar.

Fechou os olhos por alguns instantes, deixando que a música ressoasse dentro de si. E então, voltou a observá-la. Seus dedos moviam com precisão pelo violão – Peter não conseguia ver as notas exatas, mas podia ouvi-las. Ela era boa. Muito, muito boa.

O que diabos ela estava fazendo naquele bar caindo aos pedaços ao invés de estar enchendo estádios ele não fazia ideia, mas, oh sim, ele iria descobrir até o fim da noite.

É claro que, embora ele estivesse embasbacado pela performance e não tenha desviado o olhar da garota por todo o tempo em que ela se apresentou, Peter não estava preparado para o choque de reconhecimento que o atingiu no momento em que ela desceu do palco após terminar e se aproximou do balcão do bar. Como o local era um pouco mais iluminado – e livre do pilar que o impedia de enxergar todo o palco – Peter conseguiu distinguir seu rosto.

E ele conhecia aquele rosto bem demais.

Era Lily.

A host do The Aurores Show.

A mesma garota por quem James estava total e perdidamente caído.

— Que diabos-?

—--

Quando Lily terminou de tocar, sorriu ao receber as palmas e congratulações da pequena plateia do Hog’s Head Inn naquela sexta-feira. Era uma noite chuvosa, o que significava que poucas pessoas estavam por ali. Aquele também era o motivo pelo qual Lily decidira pedir à Aberforth para tocar. Ela sabia que não estaria muito cheio, exceto pelos clientes da casa. O risco de ser reconhecida seria bem menor e ela... bem, ela precisava cantar.

Depois de ter passado a tarde inteira compondo e, mais tarde, ter Moody chamando sua atenção várias vezes durante o The Aurores Show daquela noite porque ela simplesmente não conseguia pensar em mais nada além de música – suas músicas— Lily sabia que só havia um jeito de aliviar sua ansiedade.

Ao descer do palco, sua mente estava calma como há muito tempo não acontecia. Havia um novo foco para seus pensamentos e ela sentia como se não houvesse nada no mundo que pudesse estragar aquele sentimento de satisfação. Pelo menos não naquela noite.

É claro que aquela sensação foi quase imediatamente destruída no momento em que se aproximou do bar e pediu uma cerveja antes de começar a guardar seu violão e um cara de capuz e boné se aproximou para falar com ela.

— Então, além de ser a host mais legal do momento você também canta? — E Lily reconhecia aquela voz, afinal, além de tê-lo entrevistado, Marlene e Alice passavam mais da metade do tempo fazendo “shh” (para absolutamente ninguém) toda vez que as partes dele nas músicas começavam, pois diziam que ele era um “ícone subestimado”.

Peter Pettigrew.

Da The Marauders.

Lily sentiu toda a felicidade desaparecer e dar lugar para o medo. Oh, Deus, de todas as pessoas

Virando-se lentamente para encarar o garoto, Lily recebeu um grande sorriso em cumprimento. Ela tentou retribuir, mas sabia que parecia mais uma careta do que qualquer outra coisa.

O carma dela, sério, tinha proporções astronômicas.

— Hey, Peter. — Ela cumprimentou, sentindo a pulsação aumentar e a boca secar. — Você está sozinho? — Perguntou logo em seguida, sabendo que não estava sendo muito educada, mas sem conseguir se importar muito com etiqueta enquanto pesquisava o bar com os olhos à procura de alguém.

— Aham. — Peter disse, muito animado, observando-a com um olhar que parecia saber demais. — Não se preocupe, ruiva, seu segredo está à salvo comigo. — E, indicando o resto do bar com o dedo, adicionou: — E com eles.

Não era uma maravilha como esses garotos dessa banda estavam sempre se metendo na vida dela, mesmo que, até um mês atrás, ela sequer soubesse quem era quem?

— Certo. — Lily disse por fim, após encará-lo por alguns instantes, julgando que sua palavra era tudo o que podia pedir naquele momento. E talvez a morte.

— Ei, porque você não senta comigo para que a gente possa conversar? — Peter perguntou após longos segundos de um silêncio desconfortável.

— Hum, eu- — Ela começou a dizer, mas então Peter a interrompeu.

— Por favor! Sei que não nos conhecemos muito bem, mas eu realmente gostaria de mudar isso. E, também, você fez alguma coisa com as notas no meio do refrão de Dive. — Ele disse e então apontou um dedo para Lily. — Eu preciso saber como fez aquilo. — E, sem dar tempo para que ela recusasse, pegou o violão que Lily havia acabado de guardar na case e se direcionou à uma mesa não muito longe, mas bastante escondida.

Sabendo que aquela era uma batalha perdida – e não eram todas quando The Marauders estava envolvida? – Lily pegou a cerveja que Aberforth acabara de depositar à sua frente e o seguiu, sentando enquanto o garoto a observava.

— Lily Evans. — Peter disse, por fim, o tom de voz conspiratório. — Você parece estar em todos os lugares ultimamente.

— Bem, eu poderia dizer o mesmo sobre vocês. — Lily retrucou. — Hoje mesmo, estava passando pela Piccadilly e vi um ônibus com as caras de vocês estampadas nele. Gigantescas. — Ela fingiu estremecer, o que fez com que Peter risse.

— É, bem, suponho que você tem razão. — Ele deu de ombros. — Eu acho aquilo sinistro.

— Realmente. Os rostos de vocês ficaram realmente esquisitos com algumas janelas abertas. — Eles riram mais um pouco e Lily sentiu um pouquinho da tensão deixar seu corpo. — Ei, sabia que você foi um dos assuntos no TAS hoje?

— Sério? — Peter parecia surpreso. Então franziu o cenho, triste. — Oh, não! Justo no dia que não escutei!

— Aham. Estávamos comentando suas últimas peripécias no Twitter. — Lily sorriu conspirativamente para ele. — Eu realmente gostei do que você falou para aquele cara.

— Babaca homofóbico. — Peter resmungou, a irritação voltando a atingi-lo ao pensar no imbecil. — Não entendo porque as pessoas são assim. Qual é a droga de dificuldade em deixar os outros em paz? Quero dizer, não é como se tivéssemos coisas mais importantes para nos importarmos do que com a vida amorosa dos outros. — E então, parecendo perceber o que dissera, limpou a garganta. — Ou, neste caso, suposta vida amorosa.

Não querendo admitir que sabia sobre a sexualidade de Sirius ou do fato de que havia se encontrado com ele mais do que algumas vezes para falar sobre um contrato relativo aquilo, Lily assentiu em concordância.

— Pois é. Infelizmente ainda tem muita gente que pensa assim. — E daquilo ela sabia muito bem.

— E eu nunca vou entender. — Peter resmungou, mas então sacudiu a cabeça e voltou a encará-la com uma sobrancelha arqueada. — Mas, e aí. Você canta.

— E você também. — Lily respondeu fazendo-o rir mais uma vez e rolar os olhos.

— É, mas todo mundo sabe sobre isso. — Deu de ombros. — Agora, sobre você. Bem, estou bastante surpreso. Você canta muito bem, Lily.

Sentindo as bochechas esquentarem, ela agradeceu.

— Não, é sério. — Peter insistiu e então se inclinou um pouco mais em sua direção, o que deixou seu rosto um pouco mais visível. Os olhos azuis dele encaravam-na cheios de adoração. — Eu me arrepiei todo. E eu fui em muitos concertos durante toda a vida e posso contar na mão quantas vezes senti isso. Você é simplesmente incrível.

— Uau, eu- — Limpando a garganta, Lily sentiu, se era possível, o rosto esquentar ainda mais. — Obrigada, Peter. De verdade. — E então desviou o olhar, fazendo com que ambos caíssem em mais um silêncio estranho.

Afinal era muito estranho estarem ali, sentados naquele bar, juntos, quando não possuíam quase nenhum vínculo exceto a entrevista e – infelizmente – o reencontro contínuo de Lily com alguns dos outros amigos dele.

— Sabia que foi aqui que comecei a cantar? — Peter voltou a interromper o silêncio, chamando sua atenção.

Lily franziu o cenho diante da afirmação, confusa.

— Aqui... em Londres? — Indagou. — Ou aqui no Hog’s Head?

— Aqui, aqui. — Ele indicou o palco e então sorriu. — Eu estudava em Durmstrang também, sabia? Primeiro semestre de Música. E, nos finais de semana, vinha para cá, enchia o saco do Aberforth até ele me deixar tocar e então ganhava algumas gorjetas da plateia. — Os olhos de Peter brilhavam com as memórias. — Me inscrevi no X Factor por causa de uma aposta com alguns colegas, mas nunca imaginei que chegaria onde estou agora. — Seu tom de voz era incrédulo. — E tudo começou aqui, nesse bar.

— Não fazia ideia. — Lily disse e então sorriu para ele. — Frank tocou muito aqui também, sabia? — Os olhos do garoto arregalaram. — Talvez esse bar seja mágico.

— Bem, nós podemos testar essa teoria.

— Como? — Ela indagou, uma sobrancelha arqueada.

Peter sorriu ainda mais.

— Bem, ruiva, se daqui a algum tempo você aparecer famosa e fazendo shows por aí- o que, acredite em mim, não é nada impossível se você quiser – então nós vamos chegar à conclusão de que este bar é, de fato, mágico. — Ele então acenou a cabeça, sério. — Quer apostar?

Foi a vez de Lily rir.

— Nah. Eu gosto de cantar, mas é apenas isso. — Ela deu de ombros. — Odeio a exposição. Odeio os paparazzi. Odeio ter pessoas xeretando minha vida o tempo inteiro.

— Parece que você está meio sem sorte ultimamente então, huh? — Peter parecia triste ao comentar. Lily suspirou.

— Pois é. Estou tendo um gostinho da fama, mas não da parte boa dela. — Lily brincou, embora não soasse muito verdadeiro.

— Sinto muito. — Havia sinceridade em sua voz. — A fama é muito boa, sabe. Até que você começa a perceber que não é apenas cantar e pronto. Você tem que decorar respostas para entrevistas, expressões; você também não tem muita liberdade para sair por aí sem ter de se disfarçar ou então ter um guarda-costas à tiracolo — e apontou para o lado oposto do bar, próximo à entrada, onde um homem alto estava parado, muito sério, muito quieto, observando a multidão. O segurança de Peter. — Precisa se comportar nas festas, na rua, na internet-

— Imagino que você deva dar muita dor de cabeça para sua gerência por conta dos tweets então, heim? — Lily tentou brincar, mas Peter apenas suspirou.

— Eu tento. — Ele murmurou, parecendo estar falando mais para si mesmo do que para ela. — Tento incomodar o suficiente, fazer algum estrago, para ver se as atenções desviam um pouco dos outros. Eu odeio saber que eles estão sempre na mira. — Peter então ergueu os olhos para encará-la, e havia muita seriedade em seu olhar. — Ser o ignorado, o menos reconhecido membro da boyband, bem, não é a pior coisa, sabe? Porque, por causa disso, eles puxam minha orelha às vezes por conta dos tweets. Eles ameaçam desativar minha conta e publicam uma dezena de artigos falando sobre o quanto sou barraqueiro. Mas, fora isso, eles me deixam em paz. Eu não preciso assinar contratos com modelos, nem preciso fingir ser algo que não sou.

Lily sentiu seu peito apertar diante da confissão e, sem saber o que dizer, esticou a mão até tocar na de Peter e apertá-la levemente.

— Sinto muito. — Foi tudo o que pode dizer, porque, afinal de contas, ela sentia mesmo. Muito. Porque não era justo que Sirius precisasse fingir ser algo que não era. Que Remus – e consequente Mary – tivesse de fingir ter uma namorada. Que James precisasse fingir que estava saindo com vária garotas ao mesmo tempo. E que Peter fosse deixado de lado como se valesse menos, como se não importasse. Irritação borbulhou pela corrente sanguínea de Lily ao pensar naqueles garotos que haviam entrado na vida dela e que, estranhamente, confiavam nela para contar sobre suas vidas. Que confiavam nela para deixar à mostra as partes não tão bonitas da vida supostamente perfeita que deveriam ter. Naquele momento, Lily odiou Riddle Management o suficiente para esquecer dos próprios problemas.

— Obrigado. — Ele disse e retribuiu o aperto em sua mão.

— Ei. — Ela disse, a voz rouca, e então limpou a garganta. — Que tal se eu te ensinar aquele acorde que você queria, heim? — Sugeriu. — Abbie tem uma sala lá no fundo e tenho certeza de que ele nos deixaria usar.

Parecendo feliz com a mudança de assunto e animado com a sugestão, Peter imediatamente se ergueu, puxando o violão de Lily e caminhando até o bar a fim de incomodar Aberforth para deixá-los irem para o fundo.

Lily riu durante todo o tempo, observando o velho fingir estar irritado com o pedido enquanto resmungava ao deixá-los passar para a sala em questão.

O resto da noite passou em um borrão de risadas e muita conversa sobre música. Lily não iria admitir para ninguém que seu pequeno preconceito com boybands a fez ficar completamente embasbacada com a quantidade de coisas que Peter sabia sobre a música – não apenas acordes e essas coisas, mas a história da música em si. Ele era inteligente. E completamente apaixonado pelo que fazia de uma maneira que a deixava muito à vontade para tagarelar sobre composições e acordes.

Eles não falaram sobre nada além daquilo. Não sobre a banda, não sobre os tabloides de Lily, não sobre qualquer coisa que não tivesse a ver com o violão que agora compartilhavam e algumas várias histórias de shows em que haviam ido e músicas que amavam.

Quando, por fim, o segurança de Peter estacionou em frente ao seu apartamento, Lily não podia negar que se divertida. E muito.

— Obrigada pela carona. — Ela disse ao homem antes de se voltar para Peter. — E obrigada pela companhia hoje, Pete. — Porque sim, após toda a conversa, agora ele era Pete.

Aqueles garotos, sinceramente.

— Eu que agradeço. — Ele disse e então, parecendo nem hesitar, esticou-se para ela e deu-lhe um breve abraço. — Lily, sei que disse que seu segredo estava seguro comigo, mas- — Ele a encarou fixamente. — Você é muito talentosa. De verdade. E eu realmente acho que seria um desperdício você não mostrar sua voz para o mundo.

— E você acha que vale a pena? — Lily perguntou e sabia que ele entenderia o que ela estava implicando: a fama, os problemas, o medo constante, o cansaço.

Peter não pensou muito antes de responder.

— Se você ama isso o suficiente, vale totalmente a pena.

E, assim, ele se despediu, deixando-a com as suas palavras ressoando na cabeça de Lily pelos dias que se seguiram.

[BEAUXBATONS HALL | SÁBADO — 28 DE OUTUBRO, 2017]

James odiava usar terno.

Ele realmente, realmente odiava.

E também era um mistério para ele como alguém tão “livre” quanto Sirius conseguia usar aquelas coisas tão frequentemente e gostar.

— Eu odeio usar gravata. — James resmungou quando a grande limusine estacionou em frente ao salão de festas. — E eu odeio usar terno. E odeio esses sapatos.

— Você disse isso pelo menos dez vezes desde o momento em que entrou no carro, James. — Mary comentou, levemente irritada.

— E nós não ficamos nem quinze minutos aqui dentro. — Peter adicionou.

— É, James, cale a boca. — Sirius finalizou e então colou um sorriso no rosto no momento em que a porta foi aberta e ele começou a sair em direção ao tapete vermelho.

Flashes incansáveis começaram a pipocar e só pararam no momento em que todos eles – Remus, Sirius, Peter, Mary e James – estavam do lado de dentro do salão.

— Eu me sinto um tributo nos Jogos Vorazes toda vez que tenho que fazer isso. — Remus comentou, entredentes, após serem apresentados para os anfitriões da festa e vários outros convidados que estavam por perto.

— É. Só que eles são a Katniss. — Peter complementou e então piscou para eles antes de começar a se afastar na direção que um dos organizadores lhe indicava, próximo, é claro que sim, de uma modelo. — E, por isso, nós não temos chance. — Adicionou por cima do ombro antes de sentar com um sorriso charmoso e engatar uma conversa com a garota.

Voltando-se para Remus que parecia divertido com a situação, James assentiu.

— Nenhuma chance.

Mary e Remus logo foram levados para outra mesa, deixando apenas Sirius e James para sentarem próximos ao palco – cada um em uma mesa diferente.

Como era um evento de caridade, eles geralmente eram dispostos separados, pois assim seriam capazes de atrair mais doadores entre os outros convidados. E, apesar de James odiar ter de usar ternos e ter de fazer conversa fiada com pessoas ricas demais que não pareciam se importar com nada além dos próprios umbigos, ele amava poder ajudar. E a instituição de caridade para crianças com câncer para a qual estariam angariando fundos naquele dia era, sem sombra de dúvidas, uma das que tinham um lugar especial em seu coração.

Sua mãe, Euphemia Potter, sofrera de câncer de mama durante a pré-adolescência de James. Foram dias horríveis e desesperançados, mas, por conta de uma daquelas instituições, ela fora capaz de superar a doença.

Desde o momento que ele ganhou seu primeiro salário como popstar, James fez de tudo ao seu alcance para ajudar o maior número de instituições voltadas para a cura e tratamento do câncer. Ele, assim como Sirius – que estava junto dele durante todo o tempo – dava o seu melhor para arrancar as mais gordas doações daqueles ricos idiotas que não estavam nem aí para as instituições e só compareciam porque aquilo dava uma boa aparência nos tabloides.

O local ainda não estava muito cheio, afinal de contas Andrômeda, a assistente da banda, era muito pontual, o que significava que eles sempre chegavam cedo aos eventos.

James aceitou uma taça de champanhe e bebericou enquanto observava as mesas se encherem ao seu redor. Um casal de ricaços logo sentou ao seu lado, cumprimentando-o e conversando sobre a decoração. Ele deixou-se levar pela conversa fútil, imaginando que poderia ser capaz de conseguir uma boa doação dali. Estava tão focado na conversa com eles, que demorou para perceber que os dois lugares ao seu lado direito haviam acabado de ser ocupados.

— Ora, ora, se não é o infame James Potter. — E, ao voltar-se para ver de quem se tratava, deparou-se com os olhos azuis de Emmeline Vance. E, ao seu lado, sua “ex-namorada”, Gwenog Jones, olhava de um para o outro com a expressão ilegível.

Certo. Porque aquilo era tudo o que precisava naquela noite.

— Emmeline Vance. — Ele disse, por fim, cumprimentando-a com um sorriso que ele sabia ser forçado. E então, voltando-se para a outra garota, sentiu o rosto relaxar um pouco. — E Gwen. Quanto tempo! — Gwen sorriu em resposta.

— Hey, Jay. Como você está? — Ela perguntou, simpática. — Odiando ternos como sempre?

— Ugh. Não acho que isso algum dia irá mudar. — James resmungou dramaticamente, fazendo-a rir mais um pouco. Emmeline, por outro lado, não parecia nada feliz. E James não podia se importar menos. — Mas, fora isso, estou bem. E você? Fiquei sabendo que está namorando. Estou muito feliz por você. De verdade. — E ele estava mesmo, pois, apesar de nutrir um pequeno sentimento de irritação com relação à Emmeline (que podia ou não estar ligado ao fato de que ele tinha certeza de que ela era o motivo pelo qual Lily estivera tão triste quando se encontraram pela última vez), Gwen sempre fora muito legal para James. Na verdade, ela fora sem sombra de dúvidas a melhor “namorada de aluguel” que tivera durante os últimos anos e, quando eles terminaram, ele ficou realmente triste, não porque estava apaixonado por ela, mas porque sabia que dificilmente teria sorte de ser pareado com alguém tão legal de novo.

— Obrigada. — Ela disse, sincera.

Eles não conseguiram conversar muito mais depois daquilo, pois mais algumas pessoas ocuparam os lugares vazios em volta da mesa e logo em seguida as apresentações e discursos foram iniciados.

James estava indo muito bem no seu plano de angariar fundos bem gordos para a instituições e ignorar veementemente Emmeline – que parecia estar muito interessada em tudo que ele conversava, pois volta e meia se intrometia nos assuntos com comentários, irritando até o último fio de cabelo dele – até que a música começou e a pista de dança foi liberada.

O casal com quem conversava se desculpou e imediatamente levantou, ambos um pouco embriagados e risonhos, direcionando-se para o centro do salão onde outras pessoas estavam dançando.

— Preciso ir no banheiro, você cuida para mim? — A voz de Gwen desviou a atenção de James do casal, fazendo com que ele se voltasse para observá-la deixando sua bolsinha de mão sobre a mesa em frente à Emmeline antes de se afastar em direção aonde deveriam ser os banheiros.

— Parece que somos você e eu, Potter. — Emmeline comentou quando os outros dois homens que ocupavam as cadeiras adjacentes se levantaram e direcionaram-se até um dos organizadores, engatando uma conversa aparentemente animada.

— Parece que sim. — James concordou, embora pesquisasse o salão com os olhos em busca de algum dos seus amigos para que lhe socorressem. Nenhum deles estava à vista.

É claro que não.

— Bom. Eu realmente queria falar com você. — A garota continuou, impaciente diante da falta de atenção que James estava lhe dando.

— É mesmo? — Ele perguntou, ainda sem encará-la, puxando mais uma taça de champanhe de um dos garçons e bebendo-a rapidamente antes de voltar-se para a garota. — Olha, se é sobre a Gwen e eu, quero deixar bem claro que-

— Não é sobre isso, Potter. Eu sei que vocês dois não namoraram de verdade. — Ela rolou os olhos.

— Então sobre o que diabos você poderia querer falar comigo? — E é claro que ele sabia sobre o quê, mas ele não iria facilitar. Não quando ele ainda podia ouvir a dor na voz de Lily ao falar sobre seu encontro de negócios.

Emmeline não pareceu gostar do tom de James, pois estreitou os olhos antes de responder.

— Sobre a Lily. — Ela disse simplesmente e então afastou uma mexa de cabelo loiro e muito bem cuidado para longe do rosto, enquanto o encarava com uma sobrancelha arqueada. — Você deve saber que eu e ela temos um passado, não é?

— Acho que poucas pessoas não sabem sobre isso, Vance, afinal você fez questão de deixar tudo isso muito claro ao dar aquela entrevista. — E, inclinando a cabeça para o lado e fazendo uma cara de pensativo, adicionou: — E eu imagino que todos aqueles paparazzi também não estavam passando pela porta daquele restaurante privativo no exato momento em que vocês saíram por pura sorte.

As bochechas da garota tingiram-se de um tom rosado e a irritação era bastante clara em seu olhar.

— Isso não é da sua conta.

— Mas você acabou de dizer que queria falar sobre a Lily comigo. — James retrucou, sarcástico.

— Você não a conhece, Potter. Não sabe do passado dela, nem por tudo o que ela passou. Sei que vocês têm... uma espécie de relacionamento agora, mas a Lily- — Emmeline desviou o olhar, fixando seus olhos sobre a mesa por alguns instantes antes de voltar a falar. — Ela vai mentir. Ela vai dizer que está tudo bem. Mas não está. Nunca está. Porque ela tem problemas, Potter. E você não vai conseguir ajudá-la com eles.

— Mas você vai? — Ele perguntou e o deboche estava explícito em seu tom.

— Eu sou a única que pode. — Emmeline disse e estava tão cheia de certeza, tão cheia de si, que James sentiu a raiva ferver em sua corrente sanguínea.

— Quem diabos você pensa que é, Emmeline?

— Sou alguém que conhece Lily melhor do que você jamais poderia. Acredite em mim, Potter, a Lily vai quebrar seu coração porque por mais que você queira, nunca será o que ela precisa.

— E do que ela precisa? — As palavras saíram da boca de James entredentes. Seus punhos estavam cerrados onde repousavam sobre suas pernas.

— De mim.

James não conseguiu se conter e começou a gargalhar.

— Desculpe. Desculpe. — Ele disse e então limpou os cantos dos olhos por onde as lágrimas de riso começavam a descer. — É só que é tão engraçado te ver falando isso, sabe? Porque, não sei se você lembra, mas você tem uma namorada agora. Que você supostamente ama. E, também, Lily te odeia. — A pose da garota estremeceu quando ele disse aquilo e James decidiu se aproveitar da fraqueza, sabendo que estava indo longe demais, mas não podia parar. Não queria parar. — Oh, sim, ela te odeia. Talvez ela não tenha me dito com todas as palavras, mas, naquela terça-feira? Depois do almoço com você? Bem, foi a mim que ela recorreu. E eu estava lá para ela quando ela chorou por sua causa. Era eu quem estava recolhendo os pedaços do coração dela, que você quebrou. Então, não, Vance, você não é o que ela precisa. Sabe por quê? — Ele se aproximou da garota, encarando seus olhos azuis com desprezo. — Porque Lily merece pessoas boas. Lily merece amigos. Pessoas que se importem verdadeiramente por ela. Que a queiram bem. E eu não acho que você se encaixe em nenhuma dessas categorias. Não depois do que você- — Mas ele não conseguiu terminar, porque Emmeline virou todo o conteúdo da própria taça de champanhe sobre James. — Que diabos?

— Vá à merda, James Potter. — Emmeline disse, furiosa. — Você não sabe do que está falando. Você acha que a conhece, mas você nunca vai conhecê-la como eu. Você é patético.

— Me desculpe, mas a única patética aqui é você que começou tudo isso por conta do quê? Ciúmes? — James disse e começou a se levantar. Ele sabia que as pessoas estavam olhando, sabia que estavam chocadas, mas ele não podia se importar menos.

Foi a vez de Emmeline gargalhar.

— Ciúmes? De você? — Ela o olhou de cima abaixo, ainda rindo. — Não, Potter, eu não preciso disso.

— Se você diz. — E então ele estava de pé, pronto para ir embora, mas Emmeline parecia ter outros planos, pois também se levantara, prostrando-se à sua frente. Ela era alta e o salto fazia com que ela estivesse da mesma altura que James. Aproximando-se o suficiente para arrumar a gravata dele, Emmeline murmurou.

— Você vai se arrepender de não ter me ouvido, Potter. Daqui a uma semana, um mês, quem sabe um pouco mais se tiver sorte — Ela deu alguns tapinhas no nó, um pouco fortes demais. — Ela vai te deixar para trás. Porque você nunca vai ser o que ela precisa. Você nunca vai ser.

Em um gesto automático, as mãos de James subiram até os pulsos dela, afastando-os de sua gravata com rispidez.

— Não encoste em mim. — James riçou, tremendo de fúria.

— O que está acontecendo aqui? — Foi Gwen quem perguntou, chocada ao olhar de Emmeline para James e então para o champanhe que ainda estava escorrendo dos cabelos para o rosto do garoto. — As pessoas estavam comentando, dizendo que vocês estavam brigando e-

— Que diabos está acontecendo aqui? — Desta vez foi Sirius quem perguntou e, oh, não era simplesmente maravilhoso que os dois aparecem somente agora? Depois que todo o drama havia sido feito?

Incrível.

— Nada. Não está acontecendo nada. — James disse, sem desviar os olhos de Emmeline, que o observava com satisfação incontida. — Vamos embora, Sirius.

— Já que está pedindo com tanto carinho. — O outro disse, mas seus olhos também estavam fixos em Emmeline, parecendo compreender um pouco do que deveria ter acontecido ali. — Tchau, Gwen. — E então, pegando no pulso de James, começou a se afastar.

— Emmeline, o que você pensa que está fazendo? — A voz irritada de Gwen soou no mesmo momento em que James sentiu um puxão no braço que não estava sendo segurado por Sirius.

Ao voltar-se, deparou-se mais uma vez com a garota que – pelo menos naquele momento – ele odiava.

— O quê- — ele começou a perguntar, mas ela o interrompeu ao se aproximar de seu ouvido e sussurrar as palavras que fizeram sua mente e seu corpo paralisar.

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Sem reação, James observou-a sorrir quase apologeticamente para ele antes de voltar até onde uma Gwen muito desgostosa a esperava.

— James? — Sirius o sacudiu levemente. James piscou algumas vezes, voltando-se em direção ao amigo sem vê-lo. — O que ela disse? O que aconteceu? James?

— Nada. — James voltou a responder, mas sua voz estava oca agora. Totalmente vazia. Da mesma forma que seu peito estava se sentindo após ouvi-la. — Vamos, vamos embora.

E, sem dar mais explicações, encaminhou-se para a saída sem se importar com os flashes que perseguiam todo o caminho até o carro. Sem se importar com as palavras que os paparazzi gritavam. Pois não podia vê-los nem os ouvir.

Não.

Em sua cabeça apenas uma coisa ressoava.

E essa coisa eram palavras de Emmeline.

[HOGWARTS RADIO STUDIO | DOMINGO — 29 DE OUTUBRO, 2017]

Lily estava sentada em seu escritório, lendo alguns roteiros para os programas da semana, quando alguém bateu na porta.

— Entre. — Ela disse, ainda sem desviar o olhar de um parágrafo que chamara sua atenção. Talvez devesse falar com Moody sobre aquilo. Ela tinha algumas ideias que tinha certeza de que incrementariam aquele roteiro.

— Hey, Lily. — Era Dorcas.

Lily sentiu o rosto esquentar de vergonha quase imediatamente. Depois que saíra praticamente correndo da rádio na última segunda-feira, ela não havia mais visto Dorcas – desde que a garota assumira o Show do Chá da Manhã e Lily o TAS, seus horários quase não mais se cruzavam.

Mas agora Dorcas estava ali, bem em sua frente, e Lily sabia que lhe devia desculpas.

— Oh, Doe. Me desculpe. — Ela disse e então se ergueu de onde estava, fazendo a volta na mesa e prostrando-se em frente à garota. — Desculpe por sair tão desasada naquele dia e por não te responder direito. Eu estava fora de mim e sei que isso não é justificativa, mas não conseguiria ter reagido de qualquer outra forma. Me desculpe mesmo.

Dorcas bufou e então se aproximou de Lily, abraçando-a bem apertado.

— Pare de ser idiota, Evans. Não precisa me pedir desculpas por isso. Eu é que preciso, afinal de contas fui eu quem insistiu em um assunto que você claramente não estava pronta e não queria falar sobre. — Ela então se afastou e sorriu para Lily. — Não seja tola. Você vai precisar de bem mais do que isso para que eu fique brava com você, docinho. Ainda mais daquela atuação fantástica que você teve quando fingiu ser minha namorada na festa de família. É claro que é uma sorte que minhas tias não acompanhem muitas fofocas, mas, de qualquer forma, elas amaram você.

Foi o que bastou para que Lily caísse na gargalhada. Ela lembrava perfeitamente do sábado em que ajudara Dorcas a acabar com os “e as namoradinhas” de suas tias. Toda a encenação fora hilária – ainda mais depois que a mãe de Dorcas, que não era boba, entrou na jogada, fazendo comentários sobre a nora.

— Eu amo sua família. — Lily disse após recuperar o fôlego.

— Isso é bom, meu amor, porque muito em breve eles vão querer te ver de novo. — Dorcas disse, solene, o que causou outro acesso de riso em Lily.

— Sua mãe vai estar na jogada?

— Sem dúvidas.

— Então estou dentro. — Lily assentiu, fazendo com que Dorcas pulasse e a abraçasse novamente.

— Você é a melhor! — A garota disse e então, parecendo lembrar que pretendia fazer algo ali que não envolvia convidar Lily para um encontro com sua família, se afastou um pouco. — Oh, o Moody pediu que eu te chamasse. Ele disse que tinha um assunto urgente para tratar com você.

Franzindo o cenho, Lily tentou pensar no que Moody poderia querer com ela. Normalmente as urgências dele envolviam alguma nova fofoca das Kardashians ou, o que era ainda pior, comentar sobre um novo episódio do De Férias com o Ex.

E, bem, ela não estava enganada. Após agradecer Dorcas pelo recado e se encaminhar para a sala de Moody, Lily deparou-se com o velho bastante absorvido enquanto lia uma revista de fofocas.

— Eu não acredito que você me chamou aqui para falar sobre a Kim de novo, Alastor! — Lily resmungou para ele enquanto se atirava em uma das cadeiras giratórias em frente à sua mesa.

— Só um minuto. — Ele ergueu um dedo para silenciá-la enquanto terminava de ler o artigo da revista. Rolando os olhos, Lily bufou por todo o tempo até que ele finalmente parou e voltou-se para encará-la. — Não é sobre a Kim que quero falar, idiota. Embora eu não tenha dúvidas de que seria muito mais interessante do que essa baboseira. — E, sem dar tempo de Lily dizer qualquer coisa, atirou a revista que estava lendo para ela.

Sentindo o estômago despencar ao perceber que era uma edição de Domingo do Profeta Diário, Lily quase desistiu de virar a revista para ver a capa.

Mas, por fim, a curiosidade venceu e, embora ela soubesse que deveria ser algo a envolvendo – afinal Moody a chamara ali em caráter emergencial— ela não esperava que fosse aquilo.

Em letras garrafais “JAMES POTTER E EMMELINE VANCE DISCUTEM EM EVENTO” estava escrito e, junto de uma foto dos dois, lado a lado – provavelmente tirada no referido evento – a pequena descrição “Com assentos localizados lado a lado no evento de caridade para crianças com câncer que aconteceu no último sábado, par começou discussão acalorada que que precisou da interferência de Sirius Black e Gwenog Jones para terminar”. E, porque somente aquilo não era o suficiente, um questionamento logo abaixo “A pergunta que fica é: eles estavam brigando por Jones ou Evans?”

— Mas que merda? — Lily resmungou consigo mesma enquanto começava a abrir a revista para ler a matéria completa. — Que merda?

— Exatamente o que pensei. — Moody concordou, mas ela não lhe deu atenção.

Saindo da sala dele, apressou-se até seu próprio escritório e pegou o celular que havia deixado sobre a mesa antes de sair.

Abrindo seus contatos, clicou sobre Popstar e esperou enquanto chamava. James e ela haviam trocado algumas outras mensagens desde a última terça, mas nada muito profundo, apenas os “tudo bem?” esporádicos, porque ambos estavam sempre muito ocupados para conseguir responder propriamente.

Lily estava quase pensando que ele não iria atender quando a voz de James soou, estranhamente abafada e deslocada.

Oi, Lily.

— James. — Ela o cumprimentou e então limpou a garganta. — Você está bem?

Houve uma pausa. E então:

Você leu a matéria? — Ele perguntou por fim e parecia cansado.

— Sim. — Lily respondeu e começou a andar de um lado para o outro na sala, sem ter muita certeza do que deveria falar a seguir. — O que- Por que vocês discutiram? Quero dizer, vocês realmente discutiram?

Eu- — James respirou fundo antes de voltar a falar, o tom de voz completamente oco. Quase frio. — Olha, Lily, não é um bom momento, ok? Eu não acho que possa falar com você agora.

— O quê? Espera, James, o que está acontecendo?

Por favor, Lily, não me ligue mais, ok? Eu não- ugh. Eu realmente preciso pensar em algumas coisas antes de falar com você de novo. — E, sem dar chance de Lily responder, ele desligou.

Parada no meio de sua sala, Lily encarou a parede com o celular ainda grudado na orelha para uma ligação que não estava mais acontecendo e que ela nem sabia se voltaria a acontecer algum outro dia.

Sentindo-se começar a tremer, encaminhou-se, por fim, até uma das cadeiras próxima a mesa e sentou-se, apoiando a cabeça entre as mãos quando as lágrimas – de raiva ou tristeza, ela não sabia dizer – começaram a cair.

Ela não fazia ideia do que havia acabado de acontecer. Nem o porquê de James magicamente parecer não querer mais conversar com ela.

A única certeza que ela tinha era que a culpa de tudo aquilo era de Emmeline. E, bem, não era uma maravilha como aquela garota parecia estar envolvida em cada um dos problemas dela nos últimos dois malditos anos?

Sem pensar muito, voltou a pegar o celular com as mãos trêmulas e abriu novamente os contatos, pesquisando pelo único que, talvez, fosse capaz de responder o que diabos estava acontecendo.

Eu estava esperando por sua ligação.

— Preciso te encontrar.

Tudo bem, ruiva. Só me diz onde e eu estarei lá, lindo e maravilhoso como sempre.

Notas finais
ps: o título do capítulo foi retirado da música Flames do Zayn. —--------------------------------- e aí, galera, que cês acharam, heim? aquela breve relembrada para ninguém tentar me matar porque se não não vai ter próximo capítulo, taokei? eheheh sem falar que, na fic, o halloween tá bem próximo e o dia 31 de outubro sempre é uma data importante para jily, então... não esqueçam de comentar e me dizer o que acharam! sempre fico muito feliz ao ler seus reviews ♥ dúvidas, sugestões ou só para conversar comigo, estou sempre no twitter @wolfstar ♥ beijos, gente e até breve ♥