Popstar
10 IX - Baby, can we dance through an avalanche?
Notas iniciais
[HOGWARTS RADIO STUDIO | DOMINGO — 29 DE OUTUBRO, 2017]
— Gostaria de poder dizer que me sinto em um daqueles filmes de espiões, me esgueirando pela porta dos fundos dos lugares, mas acontece que nessa vida de celebridade isso é muito mais comum do que a gente gostaria. — Sirius comentou no momento em que adentrou pela porta dos fundos de Hogwarts, fazendo com que Lily rolasse os olhos antes de fechá-la e trancá-la atrás do garoto.
— Nem sou celebridade, mas entendo perfeitamente o que você quis dizer. — Ela disse. — Esse foi basicamente meu portão de fuga semana passada. É realmente uma sorte que, depois do que aconteceu quando vocês estiveram aqui, eles tenham aumentado a segurança nos fundos. Isso evita muitos encontros desagradáveis com os paparazzi.
Suspirando dramaticamente, Sirius encarou-a com uma expressão de falsa tristeza.
— Sinto muitíssimo, ruiva, que você entenda o meu problema. — E colocou a mão sobre o peito.
— Idiota. — Lily retrucou, mas estava rindo. — Vem, vamos lá para cima. Esses corredores aqui embaixo são frios demais para que eu tenha de aturá-los. Só você já é o suficiente.
— Ei! — Sirius bufou. — Eu sou uma companhia incrível. As pessoas não me aturam, elas me amam.
— Black, o que eu foi que te falei, heim? — Lily parou a meio caminho na escada, colocou as duas mãos na cintura e arqueou uma sobrancelha para o garoto que a encarava confuso. — Eu falei que quando o espelho começasse a te responder, você precisava procurar ajuda!
Rolando os olhos com tamanha força que Lily ficou surpresa de que voltaram para o lugar, Sirius bufou para ela.
— Eu tenho a leve impressão de que você tentou ser engraçada, ruiva. — E, empurrando-a levemente para passar por ela e continuar subindo as escadas, acrescentou por cima do ombro. — Haha.
— Ah, Black, eu sei que você está gargalhando por dentro. — Lily retrucou e então o seguiu.
Quando eles finalmente chegaram à sala de Lily, ela esperou que ele estivesse dentro para trancar a porta, o que gerou um olhar malicioso de Sirius.
— Se era para isso que você queria que eu viesse deveria ter me avisado, ruiva. Não tive tempo de me depilar. — O garoto brincou, fazendo-a bufar.
— Não se preocupe com isso, você não faz meu tipo. — Lily brincou de volta e então se encaminhou até a escrivaninha, atirando-se em sua cadeira enquanto Sirius fazia o mesmo logo à sua frente.
— Ah, sim, esqueci. Seu tipo é o James. — Ele piscou e ela sabia que o garoto estava tentando ser engraçado, mas tudo em que Lily pode pensar era na ligação que fizera mais cedo e no modo como James a respondeu.
Sentiu a leveza desaparecer, dando lugar para um peso incômodo em seu estômago.
— O que diabos aconteceu, Sirius? — Ela perguntou olhando diretamente para os olhos cinzentos do garoto. — Eu liguei mais cedo quando vi a revista e ele foi tão... distante. — Lily tentou não deixar transparecer a mágoa em sua voz, mas sabia que havia falhado espetacularmente quando a expressão de Sirius suavizou ao observá-la. — Foi por causa da Emmeline? O que ela fez para ele? Por que eu- — os ombros de Lily caíram e ela mordeu os lábios, sentindo o peito apertar. — Eu não entendo.
Havia uma expressão ilegível no rosto de Sirius quando ele se aproximou levemente e tocou em sua mão.
— Não sei exatamente o que aconteceu entre eles. Quando cheguei James já estava levantando para ir embora. Emmeline tinha virado uma taça de champanhe nele.
— O quê? — Lily não podia acreditar que Emmeline fora capaz de ter um comportamento tão infantil. — Você tem que estar brincando.
— Não. — Sirius negou e então balançou a cabeça em descrença ao lembrar da cena. — Eu estava conversando com um velho comendador tentando conseguir uma doação quando aconteceu, foi o que me fez ir até eles. James estava se levantando, todo molhado, e ela o parou, mexeu em sua gravata e falou alguma coisa. James afastou as mãos dela e disse “não encosta em mim” bem quando Gwen e eu chegamos para ver o que diabos estava acontecendo. Nenhum dos dois respondeu, mas Emmeline, ela- — Franzindo o cenho, Sirius afastou uma mexa do longo cabelo para longe do rosto. — Ela disse alguma coisa para o James antes de sairmos. Sussurrou no ouvido dele. Não sei o que foi, ruiva, mas ele ficou muito esquisito depois disso. Você sabe o que poderia ter sido? — E os olhos cinzentos dele fixaram-se sobre os dela.
Lily retribuiu o olhar com confusão estampada em sua face.
— Como eu poderia saber?
— Porque eles estavam discutindo sobre você, é claro. — Sirius disse em um tom de voz que indicava estar falando o óbvio. — Afinal de contas todo mundo sabe que Gwen e James não eram um casal de verdade, o que nos leva a você e Emmeline. E você e James. Você. — Ele apontou para ela pungentemente. — Então... o que Emmeline poderia ter dito à James, sobre você, que o faria agir esquisito?
— Não faço a menor ideia. — Lily respondeu sinceramente, porque ela realmente não fazia. É claro que ela possuía um passado em comum com Emmeline e que nem todas as lembranças daquilo eram felizes. Bem longe disso, na verdade. Mas ainda assim, não conseguia pensar em nada que ela pudesse ter falado para James que culminasse naquela reação.
— Também não, ruiva. — Sirius disse, parecendo triste por não ter uma resposta.
Mordendo os lábios, Lily se preparou por alguns instantes, pensando na melhor forma de perguntar o que queria sem parecer muito desesperada.
— O que- Sirius, o que eu faço com o James? — Ela perguntou e então suspirou, sentindo a ansiedade tomar conta de seus pensamentos. — Me sinto péssima só de imaginar que Emmeline possa ter dito alguma coisa para ele que o fez me odiar-
— Ele não odeia você, ruiva.
— Mas pareceu como se odiasse! — Lily disse, soando muito mais triste do que gostaria. — Ele disse que éramos amigos. E agora ele simplesmente não quer falar comigo.
— Ele disse que não quer?
— Ele disse que “não achava que poderia falar comigo agora”. — Ela fez aspas no ar, lembrando do modo quase oco com que James respondeu a ela. Só o pensamento fez com que ela sentisse o peito apertar ainda mais. — E, também, que não era para eu ligar de novo.
— Quanta gentileza. — Sirius, que tinha uma expressão levemente irritada, suspirou e então voltou-se para ela. — Se ele disse isso, ruiva, então ele vai falar com você. Só não agora. Diferente de mim, James não é uma pessoa impulsiva quando se trata de sentimentos, embora ele seja muito intenso. Ele geralmente espera as coisas assentarem antes de agir sobre elas. Tenho certeza de que ele só está tentando se acalmar ou pensar um pouco sobre o que quer que a Vance tenha dito antes de falar com você. Dê um tempo a ele.
A resposta de Sirius, apesar de não ser a que ela queria, acalmou um pouco os ânimos de Lily. Se ele, que conhecia James desde sempre, estava dizendo que ele não a odiava e que provavelmente estava apenas tentando pensar, então deveria ser isso, não é?
— Então ele não me odeia? Ou está com raiva de mim?
— Olha, ruiva, não tenho como te responder com cem por cento de certeza, mas do jeito que o James estava emocionado sobre você — deu de ombros e riu um pouco. — Eu tenho sérias dúvidas de que ele seria capaz de te odiar. Talvez se você matasse alguém. Mas isso também dependeria da pessoa que você matasse, porque, quem sabe, ele até te ajudaria a esconder o corpo.
— Não exagere, Black. — Lily bufou, mas suas bochechas estavam quentes.
Sirius abriu a boca como se fosse falar alguma coisa, mas então parou, parecendo não achar que fosse uma boa ideia.
— Que bagunça. — Ele disse, por fim, fazendo com que Lily assentisse em concordância.
— Ugh. Eu odeio ela.
— É, ela não está facilitando as coisas ultimamente, não é? — Sirius comentou levemente, mas sua expressão demonstrava preocupação.
— Não. — Ela fechou os olhos por alguns instantes, sentindo todo o peso das últimas semanas recaírem sobre ela. Era como se a vida dela, que estivera em um equilíbrio precário sobre uma corda bamba nos últimos dois anos, tivesse pendido para um dos lados e agora ela estava caindo sem saber exatamente o que havia lá embaixo para pegá-la. Se é que havia alguma coisa para pegá-la. Talvez fosse apenas concreto. — Como você consegue lidar com tudo isso, Sirius?
— Não consigo. — O garoto respondeu, fazendo-a voltar a abrir os olhos para encará-lo. Ele estava rindo. — Na maior parte do tempo os garotos têm que limpar a minha bagunça. Sou muito esquentado, então acabo fazendo merda impulsiva toda hora. Você deveria perguntar para eles como eles conseguem lidar comigo.
— Eles te amam. — Lily disse simplesmente porque era a verdade. Qualquer um podia ver o tanto que todos eles se amavam.
— É, eu sei. Seria de imaginar que eu fosse retribuir esse amor com um pouco menos de problemas. — Os ombros de Sirius caíram e sua expressão anuviou. Lily odiou vê-lo daquele jeito.
— Eles sabem que você os ama também, Sirius. E eles sabem que você se revolta e age impulsivamente porque não gosta de ver as injustiças que acontecem com eles.
— Mas isso não muda o fato de que tudo seria mais fácil se eu simplesmente ficasse quieto.
— Mais fácil para quem? — Lily rolou os olhos. — Só para a Riddle.
Sirius bufou e então passou a mão pelos cabelos.
— Mas falta pouco agora. Só mais um ano e alguns meses e seremos livres. — E sorriu sonhadoramente.
Lily não quis comentar que um ano podia parecer muito longo quando merda acontecia porque estava bastante claro que aquela era a última esperança de Sirius. E ela não iria estragar aquilo para ele.
— Ei. — Lily disse, por fim, mudando o tópico da conversa. — Como está o Remus?
Um sorriso que Lily só podia descrever como enamorado surgiu em seu rosto, eliminando todos os resquícios de preocupação que restavam por ali.
— Lindo como sempre. — Disse, fazendo com que Lily risse. — Ele passou a manhã inteira no estúdio hoje, mas não me deixou ver o que compôs. — Estreitando os olhos, irritado, Sirius deu de ombros. — Logo descubro. — E pelo modo como sua expressão estava maliciosa, Lily podia imaginar como ele descobriria.
Oh se Marlene e Alice pudessem ver o que ela estava vendo agora. Elas provavelmente morreriam. Ou, o que era mais provável no caso de Marlene: desmaiaria.
— Nojento, Black. — Ela resmungou, dramática, fazendo-o rolar os olhos novamente.
— Você diz isso porque não viu o que ele sabe fazer com a-
— Ai meu Deus, cale a boca! — Lily colocou as mãos nos ouvidos, tapando-os com força enquanto Sirius gargalhava. — Guarde esse tipo de informação para as loucas do Tumblr.
— Oh, ruiva, mas eu poderia te dar tantos detalhes. — Os olhos cinzentos de Sirius brilhavam em diversão. Lily gostaria de socá-lo. — Detalhes super detalhistas. Com encenações. E falas.
— Cale a boca, cale a boca, cale a boca! — Ela riçou novamente, erguendo-se da cadeira para atender a porta onde alguém batia incessantemente. Girando a chave, Lily abriu só para dar de cara com um Moody muito desconfiado. — Olá, Alastor.
— Porta trancada, Evans? — O velho perguntou com uma sobrancelha arqueada e então mancou para dentro da sala, olhando para Sirius com um olhar conhecedor antes de voltar-se mais uma vez para Lily. — Ah, entendi. Mas achei que o seu cara fosse o outro.
Foi o que bastou para Sirius cair na gargalhada novamente, se dobrando e batendo as mãos nas pernas como o imbecil que ele era.
— Nossa, sim, isso é realmente muito engraçado. — Lily rolou os olhos, mas sentiu as bochechas esquentarem mesmo assim. — O que você quer? — Perguntou rispidamente para Moody, que tinha uma expressão satisfeita demais para o gosto de Lily.
— Ah, só vim te avisar que, apesar de você ser uma imprestável, decidimos que você vai apresentar os shows na Festa de Halloween. — E ele disse aquilo tão calmamente que ela precisou de vários segundos para absorver suas palavras.
E ela não gostou nem um pouco do que absorveu.
— Que diabos? Você está louco? — Lily praticamente gritou, sentindo o rosto esquentar por um motivo totalmente diferente. A seu lado, Sirius finalmente parou de rir, de repente muito interessado na conversa. — Passei as últimas duas semanas ajudando todo mundo a organizar as coisas com a BBC e absolutamente ninguém pensou que deveriam me avisar que eu estava cotada para apresentar a droga dos shows? — Ela estava furiosa.
Porque, embora ela adorasse apresentar a rádio e que cantasse de vez em quando no Hog’s Head, Lily não era exatamente fã de estar no palco em frente a multidões. Principalmente se essas multidões estivessem cheias de celebridades e subcelebridades com seus iPhones gravando cada segundo da festa de forma meticulosa, espalhando pelo mundo inteiro sua performance.
E tudo bem que ela só precisaria anunciar os participantes, mas ainda assim, era exposição demais. Principalmente se levasse em conta o momento já extremamente exposto que estava vivendo.
— Ei, ruiva, qual o problema? — Sirius perguntou parecendo genuinamente confuso enquanto limpava as lágrimas de riso dos cantos dos olhos. — Você é boa nessas coisas.
— Cale a boca, Black. Não se meta. — Ela resmungou e então voltou-se novamente, furiosa, para Moody. — Eu não vou fazer isso. Faça você.
— Mas eu vou fazer, assim como em todos os outros anos, Evans. — Moody rolou os olhos. — Você só vai me acompanhar. Ou você achou mesmo que dariam toda essa responsabilidade para uma idiota como você?
— Foda-se. — Lily retrucou, embora a irritação tivesse diminuído um pouco ao pensar que não estaria sozinha no palco. — Mas porque você precisa de mim? Você faz isso todo ano! Sozinho!
— Pelo mesmo motivo que você está apresentando The Aurores Show comigo, Evans. — O velho encarou-a como se duvidasse de suas capacidades facultativas. — Vou me aposentar qualquer hora dessas e vou precisar de alguém para me substituir.
— Mas você disse que eu sou uma idiota. — Lily fez uma careta dramática.
— É. Talvez eu também seja já que estou pensando em passar o trono para você. — E, balançando a cabeça em negação, suspirou sofregamente. — Já acabou o drama, Evans?
— Não.
— Certo. Então eu vou voltar para a minha sala, deixar vocês dois à sós, e quando você acabar com toda essa bobagem aparece lá para que eu te passe a programação.
— Eu já sei a programação. Fui eu quem fiz. — E ela havia decorado toda lista de convidados, de cor e salteado, também. Só para estar segura de que certa cantora pop não estaria entre eles. Lily tinha certeza de que, se Dorcas fosse a responsável pela lista, Emmeline seria a primeira a ser convidada e, bem, tudo o que ela não precisava naquele momento era ter de vê-la pessoalmente
Ainda mais que The Marauders também estaria lá.
— Melhor ainda! Assim evitamos que eu perca meu tempo tentando fazer seu cérebro funcionar. — E, piscando para Sirius, Moody mancou para fora da sala, deixando-a sozinha com o imbecil que estava claramente prestes a cair na gargalhada. De novo.
— Cale a boca. — Lily disse pelo que deveria ser a milésima vez, mas foi o que bastou para que Sirius começasse a rir novamente.
O porquê de ela não o chutar para fora, ainda era um grande mistério. Talvez ela realmente gostasse de sofrer.
[HOGSMEAD PLACE, 713 | DOMINGO — 29 DE OUTUBRO, 2017]
Assim que Sirius chegou em casa, o cheiro do bolo recém assado de James o atingiu. Ele amava bolos, é claro, mas sabia que o fato de James estar fazendo aquilo no meio da tarde significava que ele estava sob altos níveis de estresse.
— Hey. — Remus o cumprimentou com um sorriso e então depositou um pequeno beijo em seus lábios antes de se afastar e indicar a cozinha. — Sabe porque ele está assim?
— Além de todo o drama com a Vance ontem? — Remus apenas rolou os olhos para ele antes de assentir.
— Além de todo o drama com a Vance ontem.
— Bem, ela disse alguma coisa para ele. Não faço ideia do quê. Mas ele está assim desde então. — Sirius respondeu e então suspirou, preparando-se mentalmente pois sabia que seria o responsável a tentar extrair alguma informação de James.
— Como está a Lily? — Foi Mary quem perguntou, quase sussurrando, aproximando-se de onde eles estavam para encará-lo.
— Magoada. — Sirius respondeu e então adicionou: — James disse para ela que não era para ligar para ele. Agora. — Acrescentou ao observar os olhos de Mary estreitarem-se em irritação. — Vamos, Mcdonald, você sabe como ele é. Fica ruminando tudo como uma vaca e depois toma uma decisão baseada na lógica.
— Sim. É bem a cara dele mesmo. — Remus bufou. — É o motivo pelo qual ainda não fomos dizimados pela gestão, suponho.
— É bom ele ruminar tudo bem rapidinho, então. E parar de ser um idiota. — Mary disse, não tão irritada, porém ainda incomodada com o comportamento de James.
Sirius não podia culpá-la. Ele mesmo estava um pouco incomodado, afinal ele vira o modo como Lily ficara. E, embora a ruiva estivesse fazendo um grande esforço para não demonstrar, estava mais do que óbvio que o fato de James ter sido tão frio a machucava. Muito.
Como se Sirius não tivesse mais o que fazer além de tentar arrumar a bagunça de relacionamentos héteros que seria facilmente resolvida com um pouquinho de conversa. Ah, o peso de ser sensato era cansativo às vezes.
— Onde está o Peter? — Perguntou.
— Ele teve de ir na Riddle hoje mais cedo. Sabe... por conta dos tweets. De novo. — Mary respondeu e então rolou os olhos. — Mas não faz muito que mandou uma mensagem dizendo que tinha conseguido acalmar a Narcisa e que iria passar no estúdio antes de vir para casa.
— Ele queria dar uma testada na música nova. — Remus adicionou e então sorriu. — Pete estava muito empolgado por termos conseguido uma composição da famigerada Sally Aevn.
— É claro que ele está. — Sirius riu consigo mesmo, lembrando da animação do amigo ao receber a confirmação da gerência sobre o contrato. — E não está errado. A letra é incrível. Mal vejo a hora de ouvir a demo também.
— Ela é boa. — Remus disse, sério. — Muito boa. James e eu ouvimos a demo mais cedo. É de surpreender que a garota não tenha decidido lançar um álbum ela mesma.
— Vai ver ela gosta de ser anônima.
— Eu não a julgaria. — Mary disse e então suspirou. — A fama consegue ser um saco às vezes.
Trocando um olhar rápido com Remus, Sirius se aproximou e deu um abraço de urso em Mary, sendo seguido pelo outro logo em seguida.
— Vocês estão me esmagando. — Ela reclamou, mas era possível ouvir o sorriso em sua voz.
— É um sanduíche de Mary. — Remus brincou.
— É um Mcdonald. — Sirius complementou, o que fez os três caírem na gargalhada por conta da piada péssima. — Certo, casal do ano, se vocês me dão licença, tenho algo muito importante para fazer. — Ele disse antes de se afastar. — Me desejem sorte.
— Boa sorte. — Os dois responderam em uníssono.
Tirando os sapatos e deixando o casaco no aparador, Sirius por fim encaminhou-se para a cozinha e, quando chegou na porta, precisou parar por alguns instantes para tentar compreender o que estava vendo.
Deveria haver pelo menos uns sessenta cupcakes espalhados sobre cada uma das superfícies da cozinha. E uns em cima dos outros. E havia dois bolos também. E uma torta de limão. E, se Sirius não estivesse muito enganado, James – que estava envolto em uma aura de farinha – estava retirando uma leva de cookies do forno.
Ele não estava enganado.
— Então você decidiu virar a Izzie Stevens agora? — Brincou levemente, embora estivesse realmente preocupado com o comportamento de James.
Eles estavam acostumados, é claro, com o garoto cozinhando para aliviar a irritação e ocupar a mente. Até tinham uma cozinha industrial feita sob medida para ele. Mas o que ele estava vendo naquele momento ia além de qualquer coisa que James tivesse feito durante todo o tempo que se conheciam. O que era dizer muito, afinal de contas James trabalhara em uma padaria antes da The Marauders.
— Estava a fim de cozinhar. — James disse simplesmente, embora seus ombros estivessem tensos.
— E estava pretendendo convidar todas as nossas fãs para comer aqui ou...?
Suspirando, James voltou-se para ele e cruzou os braços com força sobre o peito.
— O que você quer, Padfoot? — Perguntou, ríspido.
— Para começar? Bem, um cupcake. — Sirius brincou antes de pegar um dos muitos bolinhos (de diversas cores!) que estavam espalhados sobre a ilha e sentar-se num dos bancos. — E, além disso, acho que está bem claro que precisamos conversar.
— E porque você acha que eu quero fazer isso? — James indagou enquanto tirava os óculos e tentava limpar a farinha deles no avental (o que não funcionou muito bem, porque James estava basicamente empanado).
— Ah, eu não sou idiota o suficiente para achar que você quer. — Ele disse e então gemeu ao morder o bolinho e sentir o sabor explodir em sua boca. — Sério, cara, você está perdendo dinheiro ao não comercializar isso daqui.
— Haha. — James rolou os olhos e então voltou-se para – pelo amor de deus – mais uma forma de cookies não assados. — E que bom que você sabe que eu não quero. Portanto a conversa está encerrada antes mesmo de começar.
— Prongs, Prongs. Tsc, tsc. — Sirius disse e deu um muxoxo. — Você me conhece há muito tempo para saber que não pode me impedir de fazer algo que eu quero muito. E eu quero muito conversar com você.
— É realmente uma pena para você, então, pois não vai rolar.
— Certo. E o que você pretende fazer então? Continuar com isso? — E indicou os bolos por todo lado. — Pretende tornar todo mundo nessa casa diabético? Ou é sua tentativa de competir com a Batalha dos Cupcakes ou de virar o novo Cake Boss?
— Já disse que você precisa parar de assistir tanto Home & Health.
— Home & Health é um estilo de vida, Prongs. — Sirius frisou, sério. — Mas vamos lá, cara! — Sirius empertigou-se, mas James não voltou a olhar para ele, muitíssimo concentrado nos cookies para sequer desviar os olhos da forma. — Você querendo ou não, vamos ter uma conversa. Pode ficar aí quietinho se quiser, não precisa nem responder. Mas você vai me escutar.
— Sou todo ouvidos. — James murmurou, irônico e, após enfiar a forma em outro forno, pegou uma nova vasilha onde enfiou mais farinha e leite para fazer Deus sabia mais lá o quê.
— Certo. — Sirius mordiscou mais uma vez o cupcake antes de falar, ainda com a boca cheia. — Eu acabei de vir da HRS, sabe. Estava lá com a Lily. — Foi o suficiente para que James quase derrubasse a vasilha que segurava. Seus olhos fixaram-se em Sirius como dardos, fazendo-o sorrir, satisfeito com a atenção que suas palavras atraíram. — Ah, sim. Nós conversamos. Ela até respondeu, sabia? Conversa faz milagres mesmo.
— Foda-se, Sirius. O que diabos? — James soltou o pote e então se aproximou da ilha, parando bem em frente a ele. — O que você estava fazendo lá para início de conversa?
— Oh, então você assume que estamos tendo uma conversa? Vitória, irmãos! — Sirius ergueu as mãos para o alto dramaticamente, recebendo um punhado de farinha no rosto. — Mas que mer-
— O que você estava fazendo lá?
— Ei, Prongs, não precisa ficar ciumento. — Sirius resmungou enquanto tirava a farinha do rosto e franzia o cenho. — Ela me chamou- — Mas a mão de James estava muito perto da farinha para o gosto de Sirius e ele tinha amor pelos próprios cabelos para não querer aquilo perto deles. — Será que você pode me deixar terminar? Obrigado. Como eu estava dizendo, Lily me chamou porque queria falar sobre algumas coisas-
— Que coisas?
— Hm. — Sirius parou para pensar no que poderia dizer, afinal ele sabia que Lily não iria querer que ele contasse à James que ela o chamara lá apenas para falar sobre ele. Decidiu, por fim, contar uma meia verdade. — Bem, você lembra da nossa entrevista, certo? Em que eu deixei escapar quando ela perguntou sobre encontros que achava que “não era tão importante” se o encontro fosse com homens ou com mulheres? — James assentiu. — Então, eu meio que pedi para ela não cortar aquela parte da entrevista.
— Sirius!
— Shh! — Sirius resmungou e então olhou sobre o ombro, não querendo que ninguém além de James ouvisse aquilo. — Eu não contei para ninguém sobre isso, ok? Só que eu fiquei tão furioso com o negócio dos nossos contratos que decidi que queria ferrar com a imagem estúpida que a Riddle tenta nos fazer passar. Daí pedi para ela fazer isso por mim-
— E ela fez? — James parecia ao mesmo tempo horrorizado e impressionado.
— Bem, você lembra das capas dos tabloides naquela semana, não? — Sirius mexeu as sobrancelhas, fazendo James dar um meio sorriso antes de parecer lembrar que estava irritado com ele e voltar a ficar sério. Sirius contou aquilo como uma vitória. — De qualquer forma, pedi para o Arthur fazer para mim um contrato de não-divulgação para ela assinar, para o caso da Riddle desconfiar de que ela estivesse envolvida no vazamento ou qualquer coisa assim. — James assentiu, compreendendo. — Eu fui lá hoje porque ela queria me perguntar sobre umas cláusulas. Mas nós acabamos conversando sobre outras coisas também — E deixou bastante claro para James que outras coisas eles haviam falado sobre.
— Hum. — James disse após alguns instantes em silêncio. — Ok. — E então voltou-se para o forno como se a conversa houvesse acabado, o que não tinha, afinal Sirius não terminara.
— James! — Chamou, mas o amigo o ignorou. — Você, ugh! Depois não reclame, ok? Mas a Lily está chateada. Muito, muito chateada. Porque você foi um idiota.
E bingo.
— Isso foi jogo baixo, Black. — James murmurou, mas voltou-se para ele muito à contragosto. Sirius sentiu-se um pouco mal ao perceber a culpa brilhar nos olhos do garoto, mas logo passou, afinal de contas James tinha mesmo que se sentir culpado por magoar Lily sem qualquer motivo aparente. — Ela- ela está mesmo chateada?
— Eu não sei o que o relacionamento de vocês é-
— Somos apenas amigos.
— Bom, então esse foi um jeito bem horrível de tratar uma amiga, não acha? — Foi a vez de Sirius cruzar os braços sobre o peito, arqueando uma sobrancelha julgadora para James que corou de vergonha. — Olha, cara, não sei de verdade o que rola nessa “amizade” de vocês nem quando vocês decidiram ser apenas amigos, já que você não me contou de ter encontrado ela novamente, porém ela gosta de você. E se importa com você. E ela é uma garota muito legal e que, infelizmente, tem um passado fodido.
— Você sabe sobre-
— Ela nunca me falou nada sobre o passado dela, James. — Sirius cortou-o antes que pudesse continuar. — Mas dá para ver de longe que ela tem muitos problemas para lidar com isso. E eu não sei o que a Vance disse para você, mas- que diabos? Sério? O que ela poderia ter dito para te fazer reagir desse jeito? — E voltou a apontar para a cozinha abarrotada de confeitaria.
— Eu- — James baixou os olhos, encarando as próprias unhas cheias de farinha. — Não é meu segredo para contar, Sirius. Não era da Vance também, sabe. Mas por um lado foi bom que ela tenha me dito porque se for verdade-
— Se for verdade? — Sirius bufou, interrompendo-o novamente. — E você vai esperar confirmar isso como? Ficando incomunicável pela próxima década?
Passando as mãos pelos cabelos e logo em seguida gemendo ao perceber que era um erro – afinal estava cheio de farinha – James suspirou.
— Não é bem assim, ok? Você me conhece, Sirius. Sabe que eu preciso de um tempo para absorver as coisas antes de reagir. E o que Vance me disse- o que ela me disse muda as coisas, ok?
— Por quê? — Sirius não conseguia entender o que a garota poderia ter dito que pudesse fazer alguma coisa mudar.
— Porque se o que ela disse for verdade, então eu vou ser obrigado a agir de modo diferente com a Lily, porque senão não seria justo com ela. E nem comigo.
Um silêncio tenso recaiu sobre eles enquanto James voltava a passar as mãos pelos cabelos – afinal já estavam cheios de farinha mesmo – e Sirius tentava compreender o que diabos tudo aquilo queria dizer.
Desistindo, por fim, Sirius simplesmente suspirou e deu de ombros.
— Certo. Tudo bem. — Disse, cansado. — Só vê se não demora muito com isso, ok? E, sei lá, fala com ela, diz que não a odeia ou qualquer coisa assim, ok? — Ergueu os olhos para James, encarando-o de modo inquiridor.
— Ok. — James disse por fim, culpa novamente brilhando em seus olhos.
Sentindo toda a luta sair de seu corpo, Sirius levantou do banquinho onde estivera sentado e se encaminhou até James, puxando-o para um abraço que logo foi retribuído por um James muito enfarinhado.
Bem, não era como se não precisasse de um banho mesmo. Afinal de contas ainda tinha outra tarefa – muito importante – a cumprir: descobrir o que Remus compusera mais cedo. E estar limpo e cheiroso era parte fundamental de seu plano para recolher tal informação.
— Eu não sei exatamente em que você está pensando, mas imagino que seja no Remus. — James disse, seu tom de voz abafado pelos cabelos de Sirius. — Me solte por favor, eu não quero saber sobre isso.
E, percebendo o que James queria dizer, Sirius se afastou, gargalhando, enquanto recebia um pouco mais de farinha na cara.
Ah, a intimidade que uma amizade duradoura proporcionava. Era linda.
[APARTAMENTO UNIVERSITÁRIO, 512 | SEGUNDA-FEIRA — 30 DE OUTUBRO, 2017]
Assim que a tontura familiar começou a entorpecer os sentidos de Lily, ela sorriu. Afinal de contas aquilo era exatamente o que precisava para tentar distrair sua mente depois de tudo que acontecera no dia anterior e da tristeza que insistia em toldar seus pensamentos toda vez que lembrava de certa pessoa.
Sua cabeça estava zumbindo e uma sensação de felicidade se espalhava lentamente por seu corpo. E, embora ela soubesse que aquilo se devia em grande parte por causa do álcool no qual seu sangue estava nadando, o fato de ter Marlene, Alice e Dorcas estarem deitadas no tapete ao seu lado, cada uma delas em diferentes estágios de embriaguez, apenas aumentava a bolinha de alegria em seu peito.
Estavam comemorando o final dos midterms, os quais deveriam ter sido encerrados na semana anterior, porém como as aulas da quinta-feira haviam sido canceladas devido à uma reunião de professores, as provas daquele dia foram consequentemente adiadas para a segunda-feira. O que significava que a comemoração delas também havia sido adiada.
— SO DON’T CAAAALL MEEE BAAAABY UNLESS YOU MEAN IT! DON’T TEEEEEELL MEEE YOU NEEED MEEE, IF YOOOU DON’T BELIEEEEEEVE IT. SO LEMME KNOW THE TRUTH! BE-FO-RE I DI-VE RIGHT INTO YOOOUUU — Alice decidira ligar a rádio para terem música tocando ao fundo enquanto conversavam, mas, no momento em que Dive começara a tocar, ela se arrastara até o aparelho para aumentar o volume e, agora, encontrava-se gritando a letra a plenos pulmões, a voz embolada e totalmente fora de ritmo, porém com muito sentimento para compensar.
Lily, que estava logo ao seu lado, gargalhava ao observar a garota se entregar à canção. Estava inclusive pensando em gravar a amiga para mandar para Frank em um momento em que não estivesse furiosa com ele – o que talvez acontecesse na próxima vida, quem sabe –, quando Alice parou subitamente de cantar.
E então começou a chorar.
Que diabos?
— Allie? — Lily chamou, erguendo-se do tapete e sentindo sua visão embaçar por conta da bebida, antes de firmar-se e sentar sobre as próprias pernas a fim de encarar a amiga. — O que está acontecendo?
— Nada. — Ela disse, mas então soluçou e debulhou-se em mais lágrimas logo em seguida, contradizendo as próprias palavras. — É só que- — mas ninguém conseguiu entender o que diabos ela estava falando.
Erguendo os olhos para Marlene, que também se sentara para poder dar apoio moral à amiga chorosa, percebeu que a outra estava tão confusa quanto ela mesma. O fato de que ambas estavam muito bêbadas também não as ajudava a processar o que estava acontecendo de forma adequada.
— O que- — Marlene começou a dizer, mas Dorcas, que ainda estava no chão, deitada ao lado de Alice, a interrompeu.
— Só existe uma explicação para alguém cantar essas músicas descornadas com tanta emoção e depois se debulhar em lágrimas. E sei disso por experiência própria. — E havia tanta certeza em sua voz, que nem Marlene ou Lily contestaram. — Ela está sofrendo. Ou porque foi traída, ou porque está apaixonada por alguém e não é retribuído.
— A Alice? — Marlene encarou a outra com olhos arregalados. — Mas você disse que estava bem. Você disse que não estava sofrendo por Caradoc.
Mais soluços.
— Oh meu Deus, ele te ligou? — Marlene insistiu, ansiosa. — Não acredito que você está sofrendo desse jeito por causa daquele... garoto. — E estava claro que aquela não era a palavra que Marlene gostaria de utilizar para se referir à Caradoc.
Lily estava prestes a rir daquilo, mas, como se uma luz acendesse em seu cérebro, algo lhe ocorreu. Arregalando os olhos, voltou-se para encarar uma Alice ainda mais soluçante e chorosa que segundos atrás.
— É porque ela não está sofrendo por Caradoc! — Lily disse e então vários dos comentários da amiga nas últimas semanas pipocaram em sua mente, finalmente fazendo sentido. — Oh meu DEUS! ALICE! EU NÃO ACREDITO!
— Vai se foder. — Alice resmungou e fez um gesto obsceno para Lily que fez o favor de a ignorar.
— OH MEU DEUS! — Ela gritou enquanto se erguia e tentava começar a pular, o que se mostrou um erro porque bambeou e caiu sobre o sofá como uma idiota quase que imediatamente. Sem se importar, porém, afastou os cabelos do rosto e adicionou, embasbacada com a própria conclusão: — VOCÊ ESTÁ APAIXONADA PELO FRANK?!
— Alguém cala a boca dela antes que eu cometa um crime de ódio. — E as palavras teriam sido ameaçadoras se Alice não a estivesse encarando do tapete, deitada e com os olhos inchados enquanto lágrimas escorriam de seus olhos e caíam por seus cabelos.
— O que- OH. MEU. DEUS. — Marlene, que demorara longos segundos para processar a nova informação, começou a gritar no momento em que compreendeu e então atirou-se sobre Alice, praticamente a esmagando, e apertou suas bochechas enquanto gargalhava. — FINALMENTE!
— Não pensei que fosse tão literal assim. — Dorcas, que ainda estava deitada e muito bêbada, comentou, olhando enviezadamente para Lily. — Jesus Cristo, deve ser horrível sofrer cantando as músicas do Frank Longbottom... por causa do Frank Longbottom.
— Eu não estou- não estou apaixonada pelo Frank! — A negação saiu quase em um sussurro enquanto Alice empurrava Marlene para longe e sentava. Seus cabelos estavam uma bagunça e seus olhos, embora ainda marejados, expressavam descrença. — Não é como se houvesse algo entre a gente além da amizade.
— Certo. — Lily rolou os olhos para ela de sua posição semideitada no sofá. — E aquela vez que vocês se beijaram no verdade e desafio, heim? Ou quando brincamos de Sete Minutos no Paraíso uma semana depois disso e vocês saíram daquela sala completamente amarrotados?
— Sim! E teve aquela outra vez, também, quando vocês se beijaram nos bastidores do show da Emme Vaca. — Marlene disse e riu da própria piada, erguendo uma garrafa de cerveja para Lily como se estivesse brindando a própria genialidade.
— Isso é ridículo! Aquilo era apenas uma brincadeira entre amigos! — Alice balançou a cabeça, mas seu rosto se tornava mais vermelho a cada instante.
— Oh, sim. Amigos. Olha, vou te dizer, a primeira vez pode até ter sido brincadeira, mas se isso se repetiu... e mais de uma vez... não parece continuar sendo uma brincadeira para mim. — Dorcas, em sua eterna sabedoria bêbada, acrescentou.
— Sim. E é por ser uma brincadeira entre amigos que os últimos dois álbuns do Frank foram quase que inteiramente dedicados a sofrer por você. — Lily deixou escapar e então estremeceu, apavorada e furiosa por ter comentado sobre algo que Frank havia lhe feito prometer não contar (embora ele mesmo não parecesse muito bom em cumprir as próprias promessas), quando os olhos de Alice se voltaram muito rapidamente para ela, cheios do que era indubitavelmente esperança.
— O quê? — Alice se ajoelhou em frente a Lily, agarrando-se aos seus joelhos com força, fazendo-a gemer de dor. Mas ela não se afastou. — O que você disse? O QUE VOCÊ DISSE?
— Eu disse o que eu disse. — Lily inclinou-se e deu um beijinho no nariz de Alice, fazendo-a rir. — Ele estava um caos quando você começou a namorar com o Caradoc. Escreveu Happier na noite do primeiro encontro de vocês. “But if he breaks your heart like lovers do just know that I'll be waiting here for you”. Sério, Allie, ele está muito de quatro por você. Há muito tempo.
— Ele nunca me disse. — A garota parecia estar lutando para absorver o que Lily estava dizendo. — Por que ele nunca me disse?
— Porque ele é um idiota. E porque, depois do show da Vance ele teve o tour, lembra? Quando ele voltou, você já estava saindo com o Caradoc. Frank não queria atrapalhar.
— Mas-
— Honestamente, Allie, você não acha mesmo que todo aquele cavalheirismo do Frank com você era porque ele é legal, não é?
— Ugh, sim. Ele me obrigou a fazer panquecas para ele utilizando-se de chantagem. — Marlene resmungou, ainda brava com a lembrança. — Nada cavalheiro. Não sei porque ainda gosto dele.
— Ei! — Alice voltou-se para Marlene, mas então, antes que pudesse falar alguma outra coisa, novas lágrimas começaram a cair de seus olhos. — Oh meu Deus.
— O que foi agora? — Dorcas perguntou enquanto terminava sua cerveja. — Caraca, já disse o quanto é doido ouvir elas falando do Frank LONGBOTTOM com tanta naturalidade? Sortudas do cacete, viu. — Comentou com a própria garrafa antes de depositá-la no chão ao seu lado e voltar a contemplar o teto.
— Eu preciso falar com ele! — Alice disse, ignorando os comentários de Dorcas, e então se ergueu. — Quero dizer, se ele gosta de mim e eu gosto dele... o que estamos esperando?
— Estar sóbria, talvez? — Dorcas murmurou, mas Alice não lhe deu ouvidos novamente e bamboleou para o próprio quarto, fechando a porta atrás de si para muito provavelmente fazer uma ligação da qual se arrependeria na manhã seguinte.
Ou talvez não, afinal Frank a amava.
E Lily tinha certeza de que não ficaria bravo por conta da ligação. Muito pelo contrário, ele provavelmente voaria para Londres o mais rápido possível só para poder declarar seu amor eterno pessoalmente.
Bem, Frank, você me deve mais uma, Lily pensou consigo mesma, olhos estreitos enquanto lembrava do garoto estúpido que ela também não fazia ideia de por que continuava considerando como amigo.
— Oh, essa música. — Dorcas praticamente gemeu de dor e sofrimento, arrancando-a de seus devaneios e, Marlene, como se tivesse sido enfeitiçada, de um pulo pôs-se de pé (quase caindo) para poder cantar a todo pulmão, utilizando a garrafa de cerveja como microfone.
If I Could Fly da The Marauders começara a tocar e era uma das poucas músicas que Lily conhecia deles porque, em uma de suas muitas pesquisas para se preparar para o TAS, descobrira que James escrevera a letra junto de Sirius e, desde então, perdera todo seu embasamento e fora obrigada a deixar o pensamento de que boybands não produziam conteúdo de qualidade de lado.
— IF I COULD FLYYY I’D BE COMING RIIIIIIGHT BAAACK HOME TO YOOU — Marlene gritava, olhos fechados e expressão sofrida, acompanhando a voz de Sirius que soava pela primeira estrofe. — I THINK I MIIIIIGHT GIVE UP EVERYTHIIIING JUST AAAAASK ME TOOO — Dorcas, que fizera um esforço quase hercúleo para se erguer e agora se apoiava em Marlene, usava a mesma garrafa que a outra para encorpar a música como se fossem um dueto. — PAY ATTENTION, I HOPE THAT YOU LISTEEEEEEN, CAUSE I LET MY GUAAAAAAAARD DOWWWN! — Dorcas e Marlene berraram em um tom de sofrência inigualável, balançando-se perigosamente em frente à Lily e apontando para ela se juntar. — RIGHT NOW I’M COMPLETELY DEFENCELEEEESS! VAMOS LÁ, LILY!
Rindo levemente por conta da cena, Lily suspirou, sabendo que a batalha estava perdida, e fechou os olhos antes de cantar junto de James:
— FOR YOOOOUR EYES OOOOOONLY I SHOW YOU MY HEAAAART. FOR WHEEEEN YOU’RE LOOOOONELYYYYYY AND FORGEEET WHO YOU ARE, I’M MISSING HALF OF MEEEEEEE-
— Caraca, que voz é essa, amiga? — Dorcas parara de cantar, chocada, observando enquanto Lily ficava em pé sobre o sofá para poder dar vazão à emoção enquanto bradava o refrão, lágrimas nos olhos ao se deixar levar pelos sentimentos causados por conta da música (e da voz – e do dono da voz) por pelo menos alguns instantes.
— WHEN WE’RE APAAAAAART! NOW YOU KNOOOOOW MEEEEEE, FOR YOOUR EYES ONLY! — E, abrindo os olhos, deparando-se com uma Marlene que a encarava de maneira conhecedora e Dorcas, ainda chocada com sua voz, Lily praticamente sussurrou. — For your eyes only.
E o que fora que Dorcas dissera mais cedo mesmo?
Ah, sim.
“Só existe uma explicação para alguém cantar essas músicas descornadas com tanta emoção e depois se debulhar em lágrimas. E sei disso por experiência própria. Ela está sofrendo. Ou porque foi traída, ou porque está apaixonada por alguém e não é retribuído”
Bem, merda.
[HOGWARTS RADIO STUDIO | TERÇA-FEIRA — 31 DE OUTUBRO, 2017]
Sustentando uma ressaca maior que o mundo, Lily gemeu ao se atirar no sofá logo ao lado de onde uma Dorcas de aparência zumbística estava deitada. Elas haviam se arrastado juntas para a rádio, deixando Marlene adormecida no sofá e Alice babando no tapete (Lily sequer lembrava de quando ou como a garota havia chegado lá), embora tudo o que ambas quisessem fosse fechar os olhos e continuar dormindo.
Infelizmente aquela não era uma opção para as apresentadoras da HRS naquela triste manhã de terça-feira.
— Eu trouxe café. — Lily murmurou, a voz rouca, enquanto estendia o copo para a garota que murmurou alguma coisa ininteligível, mas que provavelmente era um agradecimento.
As duas beberam em silêncio, aproveitando aquele momento para tentar fazer o cérebro acordar. Eram oito e meia da manhã, elas tinham um dia cheio pela frente e nem um pingo de vontade dentro de seus corpos.
A decoração da festa de Halloween na BBC Studios havia sido finalizada na noite anterior – BBC tendo ficado responsável pelo local, decoração e comida, enquanto a HRS ficara responsável pela organização do evento e convidados (o que era totalmente injusto, porque era a parte mais cansativa – era uma sorte eles terem Moody para orientá-los sobre que celebridades podiam ou não convidar de acordo com as fofocas sobre seus desafetos) –, o que significava que durante a tarde elas precisariam ajudar com o som (no caso de Dorcas) e com os ensaios (no caso de Lily) para que as apresentações – que seriam transmitidas ao vivo pelas redes sociais da BBC e da HRS – fossem perfeitas.
Depois que tudo estivesse pronto, as duas deveriam ir até a loja de fantasias para buscar suas roupas – e, como era uma festa produzida por duas rádios, a temática era “popstars/rockstars”, o que era simplesmente estúpido, mas ninguém dera atenção à Lily quando tentara dizer aquilo – e depois voltariam para o apartamento de Lily a fim de se aprontarem junto das outras duas (Marlene e Alice ficaram simplesmente extasiadas quando Lily lhes contara que, pelo fato de ser uma apresentadora oficial agora, tinha o direito de convidar duas pessoas).
— Bom dia, meninas. — Uma Minerva McGonagall muito enérgica, acompanhada de um Amos Diggory de aparência ansiosa, cumprimentou-as antes de dar um meio sorriso nada simpático. — Eu espero que a aparência de vocês esteja melhor quando chegarem na BBC para os ensaios. Não seria de bom tom se o pessoal de lá — E McGonagall fez uma careta ao dizer “lá”, a antiga rixa entre rádios jamais esquecida — descobrisse que temos duas alcoólatras como apresentadoras. Já basta o rabugento do Alastor.
— Ei! — Moody resmungou enquanto mancava sala adentro e roubava o copo de café das mãos de Lily, ignorando seus protestos. — Todos me adoram.
— E isso sempre será um mistério para mim. — McGonagall murmurou, alto o suficiente para que todos ouvissem e então balançou a cabeça. — Vamos, andem logo, o carro chegou. Chop, chop.
Gemendo e resmungando por todo o caminho, Lily, Dorcas, Amos e Moody se direcionaram para o lado de fora – que estava livre de paparazzi, obrigada— e entraram no carro que os esperava.
As próximas horas foram um inferno, mas pelo menos mantiveram a mente de Lily ocupada, o que a fez esquecer da dor de cabeça e do sentimento esquisito que permeava seus pensamentos desde que cantara ao som de The Marauders na noite anterior, pelo menos por algum tempo.
Quando, por fim, tudo estava feito, uma Dorcas muito mais acordada, embora com grandes olheiras, um Amos ainda mais ansioso, um Moody rabugento como sempre e uma Lily exausta marcharam novamente para o carro, observando em silêncio a cidade passar por eles através dos vidros escuros do conversível.
— Foi tudo bem, imagino? — McGonagall, que ficara na rádio para instruir os apresentadores especiais que estavam à cargo da programação do dia já que os outros estavam muito ocupados com a organização da festa, indagou no momento em que pisaram dentro de Hogwarts.
— Perfeito, Minnie. Uma maravilha. Mal posso esperar para terminar. — Moody respondeu, irônico, e então rolou os olhos antes de mancar em direção ao elevador.
— O som foi checado e testado e está tudo ok, os ensaios correram perfeitamente bem e Amos não desmaiou quando Selena Gomez veio nos cumprimentar após a apresentação. — Lily sorriu maliciosamente para o garoto que virara um camarão. — Ah, Dorcas e eu conseguimos disfarçar a ressaca também, então não acho que ninguém da BBC tenha desconfiado dos nossos hábitos.
— É, mas você viu aquele cara? O Nick da Radio One? Tenho certeza de que ele estava tendo a pior ressaca da vida dele. — Amos disse, fazendo com que Dorcas e Lily rissem ao lembrar do homem que praticamente se arrastara durante os ensaios.
— Em resumo, tudo perfeito e pronto para mais tarde. — Dorcas concluiu, por fim, dando um sorriso cheio de dentes para McGonagall que apenas os encarou por alguns segundos, como se estivesse repensando todas as escolhas que a levaram a ter aqueles três como empregados (o que provavelmente era exatamente o que estava acontecendo) antes de suspirar e assentir.
— É o que espero. Bem, andem. Vão para casa se arrumar e voltem para cá antes das oito. — E então praticamente os empurrou porta a fora novamente.
— Ah, como é bom ter uma chefe tão compreensiva. — Amos resmungou, fazendo-as rir novamente enquanto se afastavam do prédio.
— Mas, e aí, Am, vai vestir o quê hoje? — Dorcas perguntou assim que dobraram a esquina a fim de chegar até a parada de ônibus.
— Bowie. — O garoto respondeu simplesmente. — Posso usar minhas próprias roupas e minha mãe vai fazer a maquiagem e o cabelo em mim. Nem vou precisar gastar.
— Ah, sorte a sua. — Lily suspirou, exausta só de pensar em toda a preparação que teria de fazer para mais tarde. — Doe e eu tivemos de gastar um pouco, ela vai ir de Madonna e eu the Florence Welch.
— Uau, duas potencias musicais. — Amos comentou e sorriu. — Tenho certeza de que vão arrasar.
— Mas eu ainda acho que esse tema é ridículo. — Lily bufou, ainda muito indignada.
— É, e você disse isso o quê? Só umas quinhentas vezes hoje, Lil’. — Dorcas riu.
— E eu concordei em todas elas. — Amos adicionou e então voltou a sorrir. — Bem, meninas, obrigado pela companhia e por não me deixarem passar muita vergonha na frente da Selena. — Os olhos azuis do garoto brilharam sonhadoramente. — Vejo vocês mais tarde! — E se despediu antes de encaminhar-se para o ônibus que estacionava.
— Até, Am! — Dorcas acenou adeus.
— Hey, Doe. — Lily a chamou, os olhos ainda fixos no ônibus que se afastava. — O que você acha de trocar de lugar comigo hoje?
— O quê? — Dorcas voltou-se para ela, uma sobrancelha arqueada em indagação. — Do que está falando?
— Se eu te oferecesse alguma coisa que você quer muito, você apresentaria os convidados junto do Moody no meu lugar? — Lily a encarou, olhos verdes brilhando enquanto observava a expressão da garota ir de desconfiada para interessada.
— E o que seria essa coisa que eu quero muito que eu não faço ideia do que é? Mas que aparentemente você sabe?
[BBC STUDIOS | TERÇA-FEIRA — 31 DE OUTUBRO, 2017]
A música explodia à sua volta, ribombando em suas veias de acordo com a batida eletrizante. Pessoas fantasiadas e embriagadas dançavam ao seu redor e, há apenas alguns metros de onde estava, Sirius, vestido de Mick Jagger, e Peter, de Paul McCartney, conversavam animadamente enquanto bebiam de grandes copos de cerveja.
Alguns conhecidos – principalmente colegas do meio musical – paravam ocasionalmente para conversar e os cumprimentar, o que era bom, pois mantinha a mente de James focada em outras coisas além do fato de que Lily provavelmente estava por ali embora em nenhum lugar para ser vista.
E que estava magoada com ele.
E que ela tinha toda razão em estar porque, agora que pensava sobre seu comportamento, percebia que poderia ter respondido com um pouco menos de frieza. Lily era uma pessoa inteligente e compreensiva – e provara aquilo inúmeras vezes durante o pouco tempo em que se conheciam – portanto ela teria entendido caso precisasse de um tempo para pensar antes de falar com ela, certo?
Certo.
Só que James estragara tudo sendo um idiota.
— Jay, seu topete está desmanchando. — Mary, vestida de Rihanna, e que estivera na pista junto de Remus, de Kurt Cobain, comentou ao parar de seu lado e recostar-se contra ele para mexer em seus cabelos. James sorriu para ela. As bochechas da garota estavam coradas e suor escorria de sua testa. Remus não estava muito diferente.
— É, você sabe que meu cabelo não lida muito bem com gel. — Ou com qualquer produto, para falar a verdade. Durante os últimos anos os cabelos de James haviam feito mais de uma cabelereira chorar no momento em que estas percebiam que eles tinham suas próprias vontades. Só o fato de terem conseguido fazer algo próximo de um topete para sua fantasia de Elvis era realmente um milagre. — Hey, Mary, sei que minha companhia é incrível, mas acho que é melhor você ir ali. — James indicou o local onde Sirius e Remus estavam próximos demais e trocando olhares que não deixavam muito para a imaginação. Peter, que estava do lado deles, estava lutando contra uma gargalhada.
— Eu deveria receber um salário maior, você sabe. — Mary comentou antes de soltar um longo suspiro. — Ser exposta à toda essa tensão sexual deve ter efeitos comparáveis aos da radioatividade. — E então se encaminhou até lá, colocando-se no meio dos dois garotos e lançando olhares severos para ambos.
Percebendo que aquela era uma batalha perdida e que provavelmente acabaria morto se continuasse ali, Sirius – que tinha uma expressão entre vergonha e decepção – se afastou da garota e se aproximou de James, esticando para ele seu copo.
— Cale a boca. — Sirius riçou ao perceber a expressão divertida de James. — Beba e cale a boca.
— Sim, senhor! — James respondeu, deixando uma gargalhada escapar antes de bebericar a cerveja, lançando mais um olhar para a multidão.
— Huh. Não a vi hoje. — Sirius disse após observar James por alguns instantes, sabendo exatamente o quê, ou melhor, quem ele estava procurando. — O que é engraçado porque Moody havia dito que ela iria apresentar os convidados da noite junto dele.
James franziu o cenho diante da informação, afinal de contas lembrava de Dorcas, a garota que os acompanhara na HRS no dia da entrevista e que estava vestida de Madonna, apresentando a programação junto de Moody, vestido de uma versão mais velha e caquética de Paul McCartney que ninguém teria reconhecido se não fosse pelo crachá que o homem utilizava e que fizera Peter quase cair no chão de tanto rir.
Entretanto, não vira qualquer sinal de Lily.
— Você acha que aconteceu alguma coisa com ela? — James perguntou, preocupado, afinal Lily parecia alguém muito responsável com o trabalho, o que fazia o fato de ela não ter aparecido para a apresentação não parecer ser um bom presságio. — Ou você acha que ela não veio porque sabia que eu estaria aqui?
— Hm. Quem sabe? — Sirius meneou a cabeça, sem dar uma resposta direta, mas James compreendeu que o amigo chegara na mesma conclusão que ele: que ela pudesse estar o evitando. Sentindo o estômago embrulhar, James devolveu o copo de cerveja para Sirius e puxou o celular do bolso, mordendo os lábios enquanto esperava o aplicativo que queria abrir.
Ele estava a meio caminho de seus contatos quando o grito de Peter o fez estacar.
— LILY! — O garoto disse e então, se afastando do bar onde estivera ao lado de Remus e Mary, encaminhou-se para o meio da pista de dança onde, usando um vestido roxo escuro de tecido acetinado e uma capa azul marinho com detalhes em dourado, Lily se encontrava segurando um copo de cerveja. Seus cabelos ruivos estavam soltos e uma franja recaia sobre seus olhos. Ela estava linda.
— Tem baba escorrendo, Prongs. — Sirius murmurou próximo ao ouvido de James, fazendo-o pular de susto e corar imediatamente.
— Cale a boca. — Ele resmungou irritado, mas ainda assim não desviou os olhos da garota.
Assim que chegou até onde ela estava, Peter a puxou para um abraço que logo foi retribuído por uma ruiva muito risonha. Oh, bem, aparentemente a garota conseguira trabalhar sua mágica em todos os integrantes da banda – exceto Remus, talvez, emborra James tivesse certeza de que não demoraria muito ali também. Não que fosse uma surpresa para ele, afinal fora o primeiro a ser afetado pelo seu carisma.
Peter e Lily trocaram mais algumas palavras, caíram na gargalhada algumas vezes e, após o que pareceu ser uma eternidade, o garoto finalmente indicou o local onde eles estavam, o que fez James corar mais uma vez quando foi flagrado pelos olhos verdes que recaíram sobre os seus. Seu olhar não se demorou, porém, desviando-se para os outros logo em seguida. Sorrindo em reconhecimento e sendo praticamente arrastada por um Peter super animado, Lily se aproximou para poder cumprimentá-los.
— Hey! — Ela disse, mas, antes que pudesse falar qualquer outra coisa, foi engolfada pelos braços de Mary que a apertaram contra si.
— Senti sua falta! — Mary disse antes de se deslocar para deixar que Remus a cumprimentasse.
— Eu também, Mary! Queria que você pudesse ter ido ontem. Foi muito divertido. — Lily disse enquanto sorria para Remus. — Amei a fantasia. Fez bem o seu estilo se quer saber. — Adicionou, recebendo um sorriso do garoto.
— Obrigado. Também amei a sua, achei bem conceitual. — Remus retribuiu, educado como sempre e, oh, lá estava, o brilho quase carinhoso nos olhos do garoto. Embora aquilo provavelmente tivesse mais a ver com as coisas que Sirius e ele haviam contado sobre ela do que com o comentário sobre sua fantasia de Kurt Cobain.
— Obrigada! Fiz o melhor que pude levando em consideração o tema nada criativo da festa. — Lily rolou os olhos antes de voltar-se com uma sobrancelha arqueada para Sirius. — E você é o quê? Cosplay do Chitãozinho?
— Cale a boca, idiota. — Sirius bufou, mas logo a puxou para um de seus famosos abraços de ursos, o que só podia significar que ele gostava muito de Lily, afinal Sirius normalmente era muito comedido em seus abraços quando se tratava de pessoas de fora do seu círculo de amigos (que no caso se estendia apenas à banda e Mary).
Quando os dois, por fim, se separaram – não que James tivesse contado o tempo de abraço (quinze segundos) ou que estivesse com ciúmes (talvez um pouco) – Lily finalmente se voltou para ele.
O brilho de incerteza que pairou nos olhos verdes foi o que bastou para fazer com que James se sentisse o pior ser humano da face da Terra.
— Hey. — Ela o cumprimentou e sorriu levemente, embora não chegasse aos seus olhos.
— Oi. — James retribuiu e sentiu o peso do olhar julgador dos outros quatro recaírem sobre si. — Hum, adorei a fantasia. — Pelo amor de Deus, James, resmungou internamente. — Florence?
— Sim! — Lily assentiu e então olhou para a própria roupa, desviando o olhar do dele. — Amo as músicas dela.
— Eu também. — James concordou e então um silêncio tenso, o que era hilário já que a música estava a todo vapor no salão, pairou sobre eles.
— Ei, Lily, você conhece aquelas garotas que não param de fazer sinal na sua direção? — Peter, compadecendo-se de James (ou mais provavelmente de Lily, já que o olhar do garoto para ele não era nada amigável), interrompeu, indicando o lado oposto do bar, onde James reconheceu Marlene dando pulinhos e, logo ao seu lado, tão pálida quanto papel, outra garota, que ele julgou ser Alice, segurava-se no balcão como se este fosse um bote salva-vidas.
— Ah, sim. — Lily disse e então deu um sorriso culpado para eles. — Elas vão me matar se eu não as apresentar para vocês.
— Vai ser um prazer, ruiva. — Sirius disse, o sorriso malicioso em seus lábios indicando que ele pretendia virar aquilo contra Lily.
A garota pareceu compreender aquilo também, porque estava prestes a abrir a boca para falar alguma coisa – dar uma desculpa para se afastar, talvez, e levar as amigas para longe das garras de Sirius – quando Remus a interrompeu.
— Oh meu Deus, elas parecem prestes a desmaiar. — Ele disse, o que fez com que Lily e James se voltassem imediatamente para trocar um olhar divertido.
E então, parecendo perceber o que estava fazendo, algo muito parecido com dor brilhou rapidamente nos olhos da garota antes de ela virar-se para o outro lado.
Ugh. James precisava conversar logo com ela.
Precisava explicar o que estava acontecendo e descobrir se o que Emmeline dissera era verdade, porque se fosse... bem, ele não sabia o que faria. Exceto que perder Lily estava totalmente fora de questão. Não apenas porque ele não conseguia imaginar não ser capaz de tê-la por perto, mas também porque tinha certeza de que acabaria assassinado pelos seus melhores amigos (a quem ele estava tentando enganar, francamente? Era totalmente porque ele não queria ficar longe dela).
— Acho melhor ir lá falar com elas. — Lily disse, por fim, mas Mary a impediu de ir até lá, parecendo perceber que Lily estava muito perto de fugir.
— Deixa que eu faço isso. — E, praticamente correndo até onde as garotas estavam, Mary as cumprimentou, abraçando-as e falando rapidamente antes de arrastá-las até onde estavam.
As expressões das duas eram impagáveis.
Marlene realmente parecia à beira de colapsar e Alice, embora um pouco mais composta que a amiga, continuava tão pálida quanto antes.
— Então vocês são as duas azaradas que dividem o apartamento com a ruiva? — Sirius perguntou em cumprimento, numa clara tentativa de quebrar o gelo.
Marlene soltou algo muito parecido com um grito, embora o som tenha sido parcialmente abafado pela música.
— Infelizmente. — Alice conseguiu responder enquanto acotovelava Marlene numa clara tentativa de situá-la.
— Ei! — Lily reclamou, mas foi ignorada por todos.
— E ela é sempre mandona? Ou esse é um comportamento especial que ela direciona apenas para mim? — Sirius prosseguiu, o que fez com que Marlene parecesse despertar um pouco e desviasse o olhar irritado que estava lançando para Alice a fim de encará-lo.
Corando fortemente, ela conseguiu dizer:
— Oh, você não faz ideia. — E então, percebendo a expressão traída de Lily, rolou os olhos. — E nem adianta fazer essa cara, Evans, você sabe muito bem que parece uma mãe galinha.
— Eu? — Lily cruzou os braços sobre o peito e arqueou uma sobrancelha. — Você quer mesmo falar sobre ser mandona? Porque eu posso lembrar de vários chinelos voando em minha direção quando não respondi algo que você queria saber porque eu simplesmente não lembrava.
— Foi tudo em nome do bem maior! — Marlene contra argumentou, séria, parecendo muito mais segura agora que estava discutindo com Lily.
— Ora-
— Hey, Lil’? — Uma voz masculina interrompeu a discussão, fazendo com que todos eles se voltassem para o garoto vestido de David Bowie que estava parado um pouco atrás deles, perto do bar.
— Hey, Am. O que houve? — Lily perguntou, preocupada, aproximando-se do garoto.
Am se inclinou para Lily, sussurrando alguma coisa em seu ouvido e fazendo-a exclamar em surpresa antes de voltar-se para eles novamente.
— Preciso resolver uma coisa, depois volto para falar com vocês. — E, embora parecesse não querer deixar suas amigas ali, junto deles, suspirou e, sem dar maiores explicações, Lily enganchou seu braço ao de Amos, deixando-se ser levada pelo garoto para Deus lá sabia onde.
— Oh, o que será que houve? — Foi Mary quem perguntou.
— Hm, bem, aquele era o Amos. — Marlene disse, cenho franzido, porém não parecia muito preocupada. — Algo relacionado à rádio provavelmente, já que eles trabalham juntos.
Ah. James lembrava do garoto. Ele estava lá no dia da entrevista também. Muito, er- simpático.
— Am. — Imitou, irritado e então percebeu que havia falado alto demais, pois Peter, que estava logo ao seu lado, bufou uma risada. — Cale a boca, Peter.
— Eu nem disse nada! — Peter ergueu as mãos como em rendição, mas seus olhos dançavam em diversão.
James simplesmente rolou os olhos para ele.
— Mas então, Marley, conte-me mais sobre Lily ser uma mãe coruja. — Sirius, com seu sorriso gigante e malicioso, se aproximou da garota que, embora parecesse estar hiperventilando por conta da proximidade, encarava-o com um sorriso igualmente diabólico.
Trocando um olhar com Remus que parecia tão preocupado quanto ele, afinal eles tinham anos convivendo com aquele tipo de expressão para saber que nada de bom viria dali, James se compadeceu por Lily.
—---
Após receber um grande sermão de uma McGonagall furiosa e um Moody extremamente irritado – e de tê-los acalmado contra argumentando como a aluna de direito que (infelizmente) era, dizendo-lhes que Dorcas fora incrível e que salvara a noite e a plateia de ter de aturar a chatice de Lily – ela só queria sair de perto deles o mais rápido possível.
Puxando Dorcas, que passara a maior parte do tempo segurando a risada, Lily começou a se encaminhar pelos corredores em direção ao salão onde a festa estava – se era possível – ainda mais agitada do que estivera quando fora chamada por Amos.
— Calma, Lily, por que você está correndo? — Dorcas perguntou, confusa, enquanto tentavam se esgueirar em meio à multidão.
— Porque eu deixei a Marlene e a Alice junto dos garotos da The Marauders. O que significa que a Marlene e o Sirius provavelmente estão planejando minha morte. E que Alice vai acobertá-los.
— Isso se elas sobreviveram após conhecerem seus ídolos pessoalmente. — Dorcas disse, divertida, fazendo Lily bufar.
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No canto oposto de onde estiveram anteriormente, parados ao redor de uma pequena mesa onde vários copos se empilhavam, The Marauders, Mary, Marlene e Alice se encontravam. E, é claro que Sirius e Marlene estavam lado a lado, conversando animadamente como se se conhecessem há milênios.
Quando a viram de longe, sorrisos gêmeos e diabólicos despontaram em suas bocas e Lily sabia que iria se arrepender por ter decidido juntá-los.
— Hey, Lily! — Alice, que estivera conversando com Peter, sorriu para ela. — Está tudo bem?
— Aham. — Ela respondeu, embora seus olhos continuassem fixos na dupla que estava abertamente rindo agora.
— Ela só precisou ouvir meia hora de gritos da McGonagall e do Moody por ter trocado de lugar comigo hoje, mas, fora isso, tudo muito bem. — Dorcas adicionara antes de cumprimentar todo mundo e roubar o copo de cerveja de Peter, piscando para o garoto logo em seguida. — E aí, está a fim de dançar? — Perguntou, ao que Peter prontamente esticou o braço para ela e sorriu. Em um piscar de olhos, os dois haviam sumido em meio à multidão de corpos suados que dançavam ao som da voz de Rihanna ao fundo.
Ninguém soube o que dizer, exceto rir por algum tempo até que Marlene, muito sorridente e parecendo ter acabado de ganhar a noite por conta daquela interação, voltou-se para Alice e Mary.
— Acho que também quero dançar.
— É, eu também. — As outras duas disseram e, quase tão rápido quanto Peter e Dorcas, embrenharam-se na pista de dança, não dando tempo para que Lily se oferecesse para juntar-se a elas.
— Que dia- — Ela começou a falar, mas foi interrompida por Sirius, que, com um sorriso tão grande que Lily estava impressionada que ainda não tivesse rasgado seu rosto, voltou-se para Remus, balançando as sobrancelhas de modo malicioso.
— Ei, acho que vou ir no banheiro. O que acha de me fazer companhia? — E indicou as portas próximas de onde se encontravam, que Lily sabia não se tratar do banheiro, mas sim de uma escadaria que levaria aos andares superiores (afinal ela passara a tarde inteira subindo e descendo as mesmas enquanto organizava as apresentações).
— Tudo bem. — Remus disse, sem nem mesmo hesitar.
— Vocês sabem que isso pode dar em merda, não sabem? — James, muito preocupado, inclinou-se em direção aos dois, segurando-os pelos pulsos para impedi-los de prosseguir.
— Ah, James, nem se preocupe. Se alguém perguntar, digo que precisei de ajuda no banheiro. — Sirius comentou e então sorriu ainda mais. — Para, você sabe... sacudir.
— Oh meu Deus, vocês são nojentos. — James resmungou, mas os soltou, observando-os se afastarem com uma expressão de derrota estampando sua face. — Tentem não foder com tudo. Ou, bem, foder e foder tudo. Merda.
— Se serve de consolo, não acho que exista alguém que seria capaz de pará-los. — Lily comentou, brincando.
Passando as mãos pelos cabelos – e desmanchando ainda mais o já desmanchado topete – James voltou-se para ela e deixou os ombros caírem.
— Mary seria.
— Provavelmente. Mas ela está ocupada com a Marlene e a Alice agora. Dançando. — Lily rolou os olhos. — Sutileza não é muito o forte deles, não é?
— Acho que não. — James baixou os olhos para a cerveja, corando levemente. — Eu deveria ter desconfiado que eles tentariam algo assim no momento em que Sirius e Marlene se juntaram.
— Oh, aqueles dois! — Lily estremeceu, sem encontrar as palavras para descrever o que a união daquelas duas pessoas parecia significar para a humanidade. — Eles ainda vão dominar o mundo.
— Ou acabar com ele. — James retrucou fazendo-os, assim, começar a rir. Mesmo que a piada não tivesse graça. Mesmo que o riso não fosse verdadeiro. Afinal de contas, o que mais poderiam fazer agora que estavam à sós.
Ou, bem, tão à sós quanto duas pessoas poderiam ficar em meio à uma multidão.
James foi o primeiro a parar, franzindo os lábios e soltando o copo sobre a mesa antes de voltar-se para enfrentá-la novamente. Havia culpa em seus olhos e, pelo modo como seus ombros estavam tensos, Lily sabia exatamente o que ele iria fazer a seguir: tentar conversar, explicar o que acontecera, contar o que diabos Emmeline havia dito, pedir desculpas talvez.
Mas, ao fixar os olhos nos castanho-esverdeados dele, Lily sentiu o coração descompassar – não pela primeira vez e provavelmente não pela última já que ela estava falando de James Potter— e, de repente, um peso gigantesco pareceu recair sobre os próprios ombros.
Ela estava tão cansada.
Passara o dia inteiro correndo feito uma barata tonta, sem falar que, no dia anterior, ficara horas sentada tentando responder questões que se tornavam a cada segundo mais confusas, principalmente porque a mente de Lily, ao invés de estar focada em seus midterms, insistia em voltar para a ligação do dia anterior e para o modo como seu peito doía por conta de alguém que ela nem conhecia assim tão bem para que tivesse o direito de causar tanto dano.
Isso para não falar de todos os outros dramas nos quais sua vida estivera diretamente envolvida no último mês – ou, mais precisamente: nos últimos anos.
Lily estava exausta.
E toda a luta, toda a vontade de dialogar, toda a curiosidade que a corroera pelos últimos dois dias, simplesmente saiu de seu corpo, dando espaço para outro sentimento, um que ela conhecia bem até demais. Desespero.
Desespero porque ela queria que aquela conversa fosse adiada indefinidamente. Desespero porque, se a conversa não fosse adiada e eles a tivessem agora, ela tinha medo de que, assim que a encerrassem, James poderia chegar à conclusão de que seria melhor se afastar completamente. Desespero porque talvez Emmeline não houvesse mentido para ele, talvez ela apenas tenha lhe dito a verdade sobre o que Lily era: uma bagunça. E talvez aquilo fosse o suficiente para que ele não a quisesse mais em sua vida.
Afinal de contas, quem iria querer uma bagunça como ela, certo?
Sem falar que Lily nunca tivera muita sorte quando as pessoas precisavam escolher entre ela e alguma outra coisa, então ela não queria passar por aquilo mais uma vez. Não com James. Nunca com James.
Porque só o pensamento de o perder – mesmo que o conhecesse tão pouco e por tão pouco tempo – era o suficiente para fazer com que a respiração dela acelerasse e que algo muito parecido com pânico se esgueirasse por sua traqueia, apertando-a, roubando seu ar, roubando tudo de si.
— James. — A voz de Lily soou rouca e ofegante para os seus próprios ouvidos, mas ela não se importou, porque, naquele momento, tudo o que queria era impedir que ele falasse o que estava claro que queria falar. — James. Será que a gente pode deixar isso para lá? — Ela pediu e o desespero era quase tangível em sua voz. O garoto franziu o cenho, encarando-a com preocupação. — Por favor, será que podemos apenas... agir como se nada houvesse acontecido, pelo menos por hoje? Será que não podemos- por favor?
E talvez ele tenha reconhecido o pânico em seus olhos, talvez tenha percebido que ela estava muito perto de surtar, porque, embora estivesse claro que não concordava inteiramente com aquilo, ele assentiu.
— Tudo bem. — Ele disse e então, com uma leve hesitação, se acercou lentamente, como se estivesse com medo de que, se se aproximasse rápido demais, ela fugiria. Mas Lily não iria correr dele, não é? Não, pois não havia uma única parte de Lily que queria tê-lo longe. Seu corpo praticamente gritava para que ele ficasse mais perto, mais perto, mais perto.
Sem pensar muito no que estava fazendo, Lily atirou-se contra o peito do garoto, sentindo-o envolvê-la quase imediatamente com seus braços, apertando-a contra si como se estivesse pensando em fazer aquilo a noite inteira.
E, oh, como ela esperava que estivesse.
Por alguns instantes não havia nada além dos dois. Não havia música, não havia pessoas à sua volta, não havia nada além do sentimento dos braços de James ao seu redor, tão seguros e reconfortantes que acalmaram sua respiração, acalmaram seus pensamentos. Só não acalmaram as batidas erráticas de seu coração.
— Moody e McGonagall estavam muito bravos com você, então? — Ele perguntou, ainda sem soltá-la, após o que pareceram ser longos minutos.
Sentindo um alívio gigantesco ao perceber que ele estava mudando de assunto, Lily soltou uma risadinha – que saiu entrecortada – antes de responder.
— Ah, eles ficaram bravos por não os ter avisado sobre meu plano de trocar de lugar com Dorcas, mas nem mesmo eles puderam achar um defeito na apresentação maravilhosa que ela fez. — E aquilo era a mais pura verdade. Lily podia ser muito boa em entreter pessoas em seus programas, mas Dorcas possuía um talento natural para aquilo. Suas piadas, suas falas, tudo sobre ela fora na medida certa. E as pessoas simplesmente a amaram.
— E porque você trocou de lugar com ela? — James indagou e uma de suas mãos começou a desenhar círculos sobre a capa de Lily, fazendo com que pequenos calafrios percorressem por toda extensão de sua espinha devido ao toque. — Não gosta de palcos?
— Não exatamente. — Ela respondeu vagamente, lembrando-se do tanto que amava cantar, mas do pavor quase paralisante que sempre a acometia toda vez que precisava subir no palco e dar início às suas apresentações. — E, também, queria evitar um pouco a exposição. Se é que me entende.
— Ah, sim. Imagino que todos aqueles stories e posts no Instagram não ajudariam muito com isso.
— Definitivamente não. — Lily concordou e então, suspirando quase dolorosamente, afastou-se do abraço do garoto, finalmente erguendo os olhos para encará-lo. — Obrigada, James. De verdade. — E ela esperava que ele compreendesse que estava agradecendo muito mais do que apenas o fato de ele ter aceitado deixar para lá.
Dando o que deveria ser o primeiro sorriso verdadeiro naquela noite, James tocou na ponta do nariz de Lily rapidamente, fazendo-a sorrir em resposta.
— Não precisa agradecer, ruiva. — O sorriso de James sumiu, então, dando lugar a uma expressão de falsa seriedade. — Mas, me diga, senhorita. Você me daria a honra de uma dança? — E moveu a mão com dramaticidade até que estivesse esticando-a para Lily que gargalhou. — Sei alguns passos de dança que fariam Elvis morrer de inveja.
— Ah, Popstar, você não devia ter me dito isso. Agora vou te obrigar a dançar até que eu veja todos esses passos. — E, depositando sua mão sobre a dele, deixou-se ser encaminhada para a pista de dança.
Nenhum de seus amigos era visível em meio aos corpos de celebridades bêbadas demais, eufóricas demais para saberem o que diabos estava acontecendo ou com quem estavam dançando.
Mas Lily não conseguia se importar com aquilo.
Não quando, à sua frente, James Potter tentava imitar um moonwalk e sua expressão de satisfação ao conseguir dar um passo para trás era tão hilariante que Lily não conseguiu evitar a risada que escapou de seus lábios.
Ele a girou algumas vezes, fazendo-a dar piruetas para combinar com suas sequencias extravagantes que Lily tinha certeza de que ele acabara de inventar. A batida da música era eletrizante e, apesar de não ter bebido quase nada, ela se sentia embriagada pela presença de James.
Pela forma como suas mãos eram firmes sobre as dela, como seus olhos eram quentes. Como seu sorriso era contagiante. Ele era melhor do que qualquer bebida que houvesse provado. Muito mais inebriante.
Os dois estavam tentando reencenar um dos passos de dança que Lily havia aprendido ao observar as gravações do clipe de Thinking Out Loud de Frank (e que treinara junto do amigo inúmeras vezes em casa), quando a música mudou.
James foi o primeiro a parar de dançar, fazendo com que Lily o encarasse confusa por alguns instantes até que o som finalmente fizesse sentido e ela compreendesse: era uma música de Emmeline. Ou, mais precisamente, uma música que ela compusera para Emmeline, anos atrás, quando tudo começara a desandar, mas Lily estava cega demais pensando estar apaixonada para prestar muita atenção.
Dancing With Our Hands Tied.
E não era realmente irônico que a letra da música que compusera anos atrás para um amor que sequer era real se encaixasse quase à perfeição ao que ela estava sentindo agora, ao olhar diretamente para James e perceber a batalha interna que o garoto parecia estar tendo?
— Nós podemos voltar para o bar, se quiser. — Lily disse, por fim, percebendo que ele parecia saber o que fazer. — Descansar um pouco. Todos esses passos de dança me deram sede. — Ela tentou brincar, mas o sorriso que recebeu em resposta era fraco e nem um pouco verdadeiro.
Assentindo para ela, embora sua expressão estivesse distante, James voltou a segurar sua mão. Eles estavam a meio caminho do bar quando algo pareceu ocorrer a James, que parou, franziu o cenho por alguns instantes e então voltou-se para Lily com uma determinação renovada no olhar
— O que houve? — Ela perguntou, confusa com a mudança súbita de comportamento.
— Não quero descansar. — Ele disse e, sem dar tempo para que Lily pudesse dizer algo a respeito do comentário, puxou-a para perto de si, abaixando o rosto de modo que sua boca estivesse próxima à orelha direita dela e então, como se aquela fosse a coisa mais normal do mundo (e talvez fosse para ele), começou a cantar, fazendo com que sua voz cobrisse a de Emmeline enquanto entoava a letra com perfeição. — But we were dancing, dancing with our hands tied, hands tied. Yeah, we were dancing like it was the first time, first time...
Lily sentiu como se seu corpo fosse atingido por uma bola de energia. Cada fibra de seu ser, cada terminação nervosa parecera se acender ao ouvir a voz de James cantar aquela música, sua música.
Seus braços subiram imediatamente para o pescoço dele, terminando com o pouco espaço que ainda havia entre os dois. Os lábios de James estavam encostando em sua orelha agora, quase uma carícia, enquanto sua voz continuava a soar.
E ele era a única coisa na qual ela conseguia prestar atenção.
“I, I loved you in spite of deep fears that the world would divide us. So, baby, can we dance through an avalanche? And say, say that we got it. I'm a mess, but I'm the mess that you wanted”
Era como estar vivendo em uma daquelas cenas de filmes, onde todas as reviravoltas, todas as cenas, culminavam em um daqueles ápices de tirar o fôlego. Um daqueles momentos eternizados, tão icônicos que faziam com que o espectador suspirasse, enamorado, e que, depois, retornasse de novo e de novo para rever aquele instante em que tudo era perfeito.
Mesmo que houvesse uma catástrofe em seguida.
Mesmo que ainda houvesse muita história a ser contada.
Pois, embora a história talvez estivesse inacabada, aquele era um daqueles momentos em que o aqui e o agora era tudo o que importava. Porque era perfeito.
“I could've spent forever with your hands in my pockets. Picture of your face in an invisible locket. You said there was nothing in the world that could stop it, I had a bad feeling”
Afastando-se o suficiente para que seus olhos estivessem fixos sobre os de James, Lily o observou por longos instantes, absorvendo seus traços como se o estivesse vendo pela primeira, ou talvez pela última vez; seus olhos castanho-esverdeados que haviam escurecido, observando-a tão atentamente quanto ela o estava fazendo; seus cachos rebeldes que insistiam em cair sobre seus olhos, dando-lhe um ar ao mesmo tempo angelical e provocante. Sua boca, que era tão bem desenhada e que estava tão próxima.
Tão próxima que Lily podia sentir o hálito de James batendo contra a própria boca.
Tão próxima que ela nem podia se culpar por ter se inclinado para a frente, terminando com os centímetros que impediam seus lábios de, finalmente, tocar.
As mãos de James praticamente se cravaram em sua cintura, puxando-a ainda mais perto, mesmo que já não houvesse espaço entre eles.
Seus lábios dançavam juntos, mordendo, lambendo, beijando, tocando. E uma música totalmente nova surgia entre eles, mesclando seus suspiros e gemidos, fazendo-os estremecer
Lily tocou os cabelos de James, sentindo o resquício de gel e suor contra seus dedos, sentindo as mechas macias envolverem-se em sua mão e seu coro cabeludo arrepiar quando ela as puxou não tão gentilmente. Aquilo fez com que James soltasse um forte suspiro antes de aprofundar o beijo, provando-a com sua língua, fazendo com que ela sentisse seu corpo esquentar ao ponto de fervura.
Suas costas foram empurradas contra o que deveria ser um dos pilares próximos ao bar – embora ela não tivesse feito qualquer esforço para abrir os olhos e confirmar – e, aproveitando-se daquilo, James deixou que suas mãos passeassem pelo corpo dela, afastando a capa para que pudesse tocá-la mais diretamente, subindo-as de sua cintura até a parte traseira de seu vestido, onde suas costas estavam nuas e se arrepiavam diante do toque.
Lily também aproveitou para tocá-lo, descobri-lo. Tirando as mãos dos cabelos do garoto e movendo-as até chegar a barra de sua camisa, enfiou-as lá, roçando suas unhas sobre a pele macia, sentindo-o estremecer contra ela.
Ao fundo, a música continuava tocando, quase como uma trilha sonora para o movimento que seus corpos faziam um contra o outro. Uma dança. E ele tinha razão, pois Lily tinha certeza de que qualquer um teria inveja de seus movimentos.
James afastou seus lábios dos de Lily, descendo-os entre beijos e mordidas por toda extensão de seu maxilar, até chegar em seu pescoço, onde mordeu-a sem muita piedade, fazendo-a gemer e cravar as unhas mais profundamente nas costas dele.
As mãos do garoto voltaram a puxá-la contra si, de modo que Lily pudesse sentir a extensão do seu desejo quando encostou sua cintura contra a dele. Ela gemeu novamente, sem conseguir se conter, afastando uma de suas pernas e a erguendo apenas o suficiente para que ele pudesse se encaixar melhor contra ela.
Ambos suspiraram quando ele o fez, voltando a beijarem-se, mais intensos, mais vorazes, mais profundamente do que antes.
Onde suas mãos encostavam, calafrios percorriam. Onde suas bocas beijavam, fogo parecia acender. Onde seus corpos se movimentavam juntos, suspiros eram ouvidos.
Lily tinha certeza de que nunca quisera tanto alguém em toda sua vida como queria James naquele momento.
E talvez seu desespero fosse aparente demais. Talvez ele tivesse sentido que o coração dela estava batendo muito forte, quase como se quisesse fugir de seu peito para juntar-se ao dele. Ou talvez o toque de Lily não fosse tão efetivo quanto o dele para fazer com que tudo em volta deles se apagasse.
Porque, no momento em que a música terminou, James se afastou dela quase como se houvesse despertado de um sonho.
Ou, pelo modo como sua expressão parecia chocada, mais provavelmente um pesadelo.
— James- — Sentindo algo muito semelhante à angústia começar a tomar conta de seus sentidos, efetivamente esfriando seu corpo, de modo que os arrepios que agora a tomavam eram de puro medo e não mais de excitação, Lily tentou começar, mas o garoto não lhe deu tempo de terminar.
— Eu não posso, Lily. — James disse, mas seus olhos não pareciam ser capazes de encararem os dela.
— O que está acontecendo, James? Do que tudo isso se trata? — Lily praticamente forçou as palavras a atravessarem a grande bola que parecia estar se formando em sua garganta. — O que Emmeline te disse?
— Aí estão vocês! — E foi Peter quem os interrompeu, jogando um braço sobre os ombros de James e o outro sobre os de Lily, os forçando a abraçar. Ele havia claramente ingerido muitos litros de álcool durante os minutos em que estivera dançando com Dorcas. — A minha querida parceira decidiu me abandonar para beijar a Miley Cirus, então fui obrigado a observar duas garotas muito lindas aos amassos, o que Mary disse que não deveria instigar minhas fantasias porque sexualizar mulheres é errado. Decidi, então, sair de perto quando meu cérebro começou a deixar a moral e os bons costumes de lado. E agora achei vocês! — Peter sorriu para eles, completamente alheio ao fato de que nenhum dos dois parecia estar feliz por ele tê-los encontrado.
— Isso é incrível, Pete. Mary ficaria orgulhosa. — James disse, seu tom de voz quase tão oco quanto soara durante a ligação com Lily.
Só de ouvi-lo – tão diferente da forma como soara minutos atrás enquanto cantava para ela – ela sentiu-se prestes a vomitar.
Afastando-se do abraço de Peter, Lily sorriu gentilmente para o garoto, erguendo-se para beijá-lo rapidamente na bochecha.
— Estou muito orgulhosa, Peter. — Ela disse. — Agora, se vocês me dão licença, preciso achar Marlene e Alice.
E, sem erguer os olhos para James, Lily começou a se afastar.
— Tchau, Sally! — Peter praticamente gritou, fazendo-a gelar e voltar-se para observar o garoto que tinha a expressão muito satisfeita.
— É Lily, Peter. Jesus, você está bêbado demais, cara. Vamos, vamos achar um lugar para você sentar. — James disse, puxando Peter que acenou adeus para Lily antes de ser praticamente arrastado em direção ao bar.
Preferindo não se preocupar muito com aquilo – afinal já tinha outras coisas em mente naquele momento – Lily voltou-se novamente para a pista, empurrando algumas pessoas não muito gentilmente, querendo afastar-se o mais rápido possível do que havia acabado de acontecer.
Ela queria suas amigas.
Queria poder contar a elas o que estava acontecendo e pedir por ajuda. Porque, sim, ela precisava de ajuda para entender o que diabos estava acontecendo com ela. E o que diabos estava acontecendo com James. E para tentar compreender o que diabos sua vida havia se transformado.
Lily sentiu-se aliviada ao reconhecer Alice ao longe e, ao se esticar, encontrar Marlene e Mary próximas a ela. Estava prestes a se aproximar quando parou mais uma vez, observando-as gargalhar juntas enquanto dançavam, tão felizes e leves.
Tão diferentes de como ela se sentia naquele momento.
Perceber aquilo fez com que ela não quisesse estragar aquele momento com seus problemas.
Marlene e Alice precisavam de uma folga de seus dramas, afinal de contas. E, bem, Mary- ela não precisava descobrir quão fodida da cabeça Lily realmente era.
Pelo menos não ainda, certo?
Sabendo que Sirius deveria estar muito ocupado com Remus para que tentasse encontrá-lo, Lily se resignou a chamar um dos carros da HRS para que a levasse embora. A festa estava encaminhando-se para o seu fim, de qualquer modo. As apresentações já haviam sido feitas e as pessoas já estavam em níveis estratosféricos de embriaguez.
Ninguém mais precisava dela por ali.
Ou em qualquer lugar, na verdade.
Lily quase não reparou no corredor pelo qual se embrenhara ou pelas pessoas que a cumprimentavam ao passarem por ela ou que se beijavam nos cantos escuros. Ela sentia como se estivesse em um daqueles sonhos onde sabia que estava dormindo, mas ao mesmo tempo não conseguia encontrar forças em si mesma para acordar.
Quando chegou ao estacionamento e entrou no carro que a esperava, seus sentimentos estavam quase completamente sob aquele efeito de sonolência, adormecidos o suficiente para que ela não se debulhasse em lágrimas. Adormecidos o suficiente para que ela conseguisse fingir, só mais um pouquinho, até descer do carro e agradecer ao motorista pela carona. Só mais um pouquinho até subir as escadas em direção ao próprio apartamento.
E mais um pouquinho até colocar a chave na maçaneta e abrir a porta, adentrando e fechando-a atrás de si.
E mais um pouquinho até caminhar pelo escuro em direção ao próprio quarto, tirando a capa e o vestido e entrando no meio de suas cobertas, puxando-as até que elas a cobrissem quase por completo.
Mais um pouquinho até pegar seu celular e descer pelos próprios contatos, parando sobre o nome de Frank e estacando, sem conseguir clicar.
Porque, de todas as pessoas, ela também não queria falar com ele naquele momento. E perceber aquilo fez com que todos os pouquinhos dela se acabassem.
Porque ela estava sozinha. E se sentia sozinha. E a solidão era tão assustadora, tão desoladora. Só houvera apenas um outro momento durante toda sua vida em que aquele sentimento tão genuinamente triste tomara conta dela.
E fora o pior dia de sua vida.
Sentindo os olhos marejarem e então começarem a transbordar, Lily chorou em silêncio, não querendo que alguém escutasse, mesmo que soubesse que não havia ninguém por perto que o pudesse fazer.
Dentro de seu peito, seu coração batia errático e dolorosamente contra suas costelas.
Quebrando.
Lily não conseguiu naquela noite.
E ela ouviu quando Marlene e Alice chegaram, derrubando coisas e dando risadinhas enquanto se encaminhavam para os próprios quartos. Felizes.
E ela também ouviu quando o movimento dos estudantes – mesmo que não tão agitado após os midterms— começou: vozes ressoando pelos corredores distantes e o som de pessoas caminhando e dando início às suas rotinas do lado de fora.
E, um pouco mais tarde, ouviu os passos de Marlene ecoarem pelo corredor, indicando que a amiga já estava acordada, o que era normal, afinal ela nunca conseguia dormir muito quando estava de ressaca.
Mas, embora estivesse plenamente acordada, Lily só conseguiu juntar forças para levantar quando, após horas de pensar no que deveria fazer a seguir, uma decisão finalmente pareceu ser a certa a ser tomada.
Sentindo-se congelada por dentro e por fora, encaminhou-se até o banheiro e tomou um longo banho quente, deixando que a água levasse o frio, que limpasse a maquiagem de seu rosto e o resto de suas lágrimas. Deixou que a água caísse em seu corpo até começar a esfriar e então, não querendo congelar novamente, fechou o chuveiro e começou a se preparar para o dia.
Vestiu-se, secou os cabelos, reaplicou sua maquiagem – o que não adiantou muito para esconder as grandes olheiras que se encontravam abaixo de seus olhos – e então, respirando fundo, saiu de seu quarto.
Marlene estava sentada no sofá, um edredom bem enrolado à sua volta e uma xícara de café em suas mãos enquanto folheava uma revista sem parecer muito interessa.
Um sorriso malicioso apareceu em seus lábios, porém, no momento em que Lily se aproximou e, como era de praxe, Marlene fechou a revista e a jogou em direção a ela, embora não tão forte como das outras vezes.
— Achei isso na padaria quando fui comprar algo para comer mais cedo. — Ela disse. — O Profeta Diário parece ter um amor especial por você ultimamente, hm?
Sabendo exatamente o que encontraria, Lily baixou os olhos para a revista, deparando-se com mais uma foto borrada sua e de James aos beijos e a manchete “JAMES POTTER E LILY EVANS ASSUMEM ROMANCE?” e, na descrição “Casal é visto aos beijos na festa de Halloween organizada pelas rádios Hogwarts Radio Studio e BBC”.
— Parece que meu plano com o Sirius deu certo, Lil’ — Marlene, que estava muito feliz consigo mesma para perceber a falta de reação de Lily, continuou se vangloriando. — Cara, foi a melhor noite da minha vida! Além de conhecer o The Marauders inteiro e de confirmar a verdade que eu já sabia de que eles eram todos uns anjos, eu ainda tive a oportunidade de armar para cima de você e de James Potter com o SIRIUS FUCKING BLACK! — E, fechando os olhos, completamente maravilhada, Marlene disse. — Nem precisa me agradecer, viu? Embora, se o fizer, não vou reclamar!
— Marley. — Lily finalmente a interrompeu. Jogando a revista para cima do sofá desocupado, ergueu os olhos para a amiga. O sorriso de Marlene morreu quase imediatamente ao perceber a expressão de Lily.
— O que-
— Eu preciso do seu carro emprestado. — Lily disse.
Soltando a xícara de café sobre a mesinha ao seu lado, Marlene se desenrolou do edredom e ergueu-se de modo a estar de pé em frente à Lily. Seu rosto estava pálido.
— O carro? — Repetiu, incrédula. — Lily? O que aconteceu? Por que-
— Marley, por favor. — Lily pediu, sentindo-se muito perto das lágrimas para ficar confortável em encarar a amiga por muito mais tempo.
— Mas você não dirige desde que-
— Eu sei.
— E você acha que consegue fazer isso agora? Depois de-
— Eu preciso.
Marlene ficou em silêncio por alguns instantes, mordendo os lábios enquanto a observava, insegura. Entretanto ela deve ter visto a determinação nos olhos de Lily, pois, após algum tempo, suspirou e disse:
— Tudo bem. — E então se encaminhou até o aparador, puxando a chave e a entregando cuidadosamente para Lily.
— Obrigada. — Foi tudo o que Lily disse antes de se afastar em direção à porta.
— Ei, Lil’ — A voz de Marlene era quase um sussurro. Lily não se virou para a encarar. — Tome cuidado, ok?
— Ok. — Ela disse e então estava fora do apartamento.
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