Popstar

6 V - Real Friends.


Notas iniciais
~como uma fênix, ressurjo das cinzas sem qualquer resquício de vergonha na cara e venho att essa fanfic depois de MESES sem dar um oi~ olaaaaaaaaar, amores da minha vida, tudo bem com vocês? serase vocês podem me perdoar por ser uma autora tão ruim e que desaparece da face da terra? então, gente, mil desculpas pelo sumiço, sério. mas, como sempre, minha vida é uma montanha russa e, desde o final do ano passado muita coisa aconteceu e eu simplesmente não consegui sentar e escrever nada :( eu mudei de casa, tive crush que parecia história de fanfic, terminei com a crush, tive alguns problemas de saúde na família, FINALMENTE PASSEI PARA A FACULDADE DOS MEUS SONHOS, AKA LETRAS (yay, essa parte foi realmente maravilhosa), continuei com problemas de saúde na família (eles persistem, mas tudo vai ficar bem, amém), e mais n outras coisas que não vou citar aqui porque, honestamente, vai ficar maior que o capítulo (o que, convenhamos, é muito, rs). enfim, amoresssss, espero que vocês possam continuar me amando e que aproveitem o capítulo tanto quanto eu ao escrevê-lo ♥ ~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~ queria deixar aqui meu agradecimento às lindas Pandizzy e é a vida pelas recomendações! saibam que vocês me emocionaram muito com o carinho ♥ ~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~ PS: cada capítulo contém sua "playlist" e eu vou deixar as músicas linkadas no decorrer do texto, então para quem quiser ouvir enquanto lê, cliquem nos "•", ok? Músicas do capítulo: • Lorde - Tennis Court: https://goo.gl/Vfm78B • Lorde - Royals: https://goo.gl/3EK9jo • One Republic - Counting Stars: https://goo.gl/xNbiUv • Camila Cabello - Real Friends: https://goo.gl/EgQNMB • Shawn Mendes - Lost In Japan: https://goo.gl/1KeKQf Ah, e para quem quiser o link da playlist completa (com as músicas sendo adicionadas no decorrer da fanfic), aqui está o link do spotify: https://goo.gl/mDSCwE ~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~ AAAAAAAH, GENTE, fiz um thread de interações/posts fofinhos de redes sociais, assim como fotos do dreamcast no twitter. Para quem quiser ver, o link é esse aqui: • https://goo.gl/7wrnsu yay, boa leitura ♥

[GRIMMAULD PLACE, 12 | SEGUNDA FEIRA – 16 DE OUTUBRO, 2017]

— Então... — Frank comentou casualmente, apoiando-se na bancada com uma tranquilidade que Lily estava bastante longe de sentir. — Você está se escondendo. De novo. — Ele inclinou a cabeça avaliando-a antes de soltar um longo suspiro. — O que eu vou fazer com você, Lily?

— Eu pensei que você iria voltar somente na próxima semana? — Lily indagou, ignorando propositalmente a pergunta dele.

Frank rolou os olhos diante da obviedade, mas respondeu mesmo assim:

— Consegui folga de algumas entrevistas. — Disse e então arqueou uma sobrancelha ao acrescentar: — Marlene e Alice estavam realmente preocupadas, você sabe. — Seu olhar indicava o quanto ele não estava satisfeito com aquela informação.

— Bem, elas estão se preocupando à toa. Vocês estão. — Lily deu de ombros, fingindo despreocupação antes de voltar-se para o armário e abri-lo em busca de chá. Ela precisaria ocupar suas mãos e evitar os olhos de Frank se quisesse sobreviver àquela conversa. — Eu estou ótima.

— Certo. — O tom de voz de Frank indicava claramente o quanto ele não acreditava nela. Deus, em momentos como aquele ela realmente odiava o quanto ele a conhecia. Lily pegou uma chaleira e a encheu de água, desprezando a forma como suas mãos estavam tremendo. — Então se você realmente está ótima, talvez possa me responder o que está fazendo aqui e por que parece que está se escondendo?

— Eu não estou me escondendo. — A resposta escorreu de seus lábios rápida demais para parecer convincente.

Frank suspirou pesadamente.

Do que você está se escondendo, Lily? — Ele insistiu, seu tom de voz muito mais macio do que segundos atrás. Lily quis socá-lo, sabendo muito bem que ele estava usando seu charme para fazê-la falar e que aquilo geralmente funcionava.

Ela apertou os lábios ainda mais, recusando-se a dar o braço a torcer. Acendendo o fogão, Lily colocou a chaleira sobre ele e fixou seus olhos nela, resignada a observá-la até que a água atingisse o ponto de fervura.

— Oh, você realmente não vai cooperar? — Frank voltou a perguntar e desta vez seu tom de voz indicava o cansaço diante da teimosia dela. Lily quase se sentiu culpada. Quase. — Quer dizer então que eu deixo minha agenda para trás, sou obrigado a ouvir horas de xingamentos e repreensões de Kingsley por abandonar minha equipe em meio a promoção do tour, atravesso o oceano para estar aqui e te ver e você sequer vai falar comigo? — E, bem, lá estava: o jogo sujo.

Mais uma vez, Lily quis socá-lo.

— Eu não pedi para você vir, Frank, então não sei porque você está reclamando! — Ela respondeu de forma grosseira, arrependendo-se quase imediatamente de suas palavras. Virando-se para o garoto, percebendo a mágoa nos olhos dele, ela soltou um longo e trêmulo suspiro antes de murmurar: — Desculpe, eu não quis... eu- eu- — Lily se interrompeu ao sentir tremores começarem a percorrer por seu corpo e sua garganta inchar devido aos soluços que estava tentando a todo custo conter..., mas que não conseguiu.

E então, de forma totalmente descontrolada, Lily estava chorando.

Mais rápido que uma batida de coração, Frank envolveu-se à sua volta, apertando-a de encontro si e murmurando palavras calmantes contra seus cabelos que eram repetições de “tudo vai ficar bem” e “eu estou aqui” que, por mais simples que fossem, estavam fazendo seu trabalho para tranquilizá-la.

Frank sempre fora o único capaz de ter aquele efeito sobre ela.

Deus, Lily sentia tanta falta dele.

— Eu senti sua falta. — Ela externou seus pensamentos, murmurando com a voz rouca contra o pescoço dele, afundando o nariz em sua pele e inalando o cheiro familiar de Frank-Frank-Frank e que parecia muito com “casa”.

— Também senti sua falta, Lil’. Todos os dias. Muita. — Frank a apertou ainda mais, erguendo uma mão para acariciar os cabelos de Lily, enquanto balançava-os de um lado para o outro com tranquilidade.

Lily deixou-se chorar mais um pouco, encharcando o pescoço, gola e camiseta de Frank sem se preocupar em ser julgada. Ela nunca se sentia julgada quando estava com ele.

— Eu te amo muito. — Lily voltou a falar, sua voz soando um pouco mais forte, embora ainda crocante por conta do choro.

— Eu também te amo, amor. — Ela podia ouvir o sorriso em sua voz e isso fez com que sorrisse de volta. Suspirando tremulamente, Lily se afastou levemente do garoto, erguendo o rosto de modo que pudesse encará-lo em meio às lágrimas. — Melhor? — Ele perguntou, a voz macia e cheia de carinho.

— Sim. Obrigada. — Ela disse, voltando a abraçá-lo rapidamente antes de se afastar e retornar sua atenção para a chaleira que estava chiando.

Desligando o fogo, Lily pegou duas xícaras e as enxaguou – fazia muito tempo desde que qualquer pessoa havia usado aquela casa, portanto tudo estava meio empoeirado – colocando um saquinho de chá em cada uma delas e enchendo-as de água quente logo em seguida.

Enquanto fazia isso, Frank a observava de perto, seus olhos vagando pelo seu rosto, o cenho franzido em preocupação ao perceber as bolsas grandes e escuras abaixo dos olhos verdes que lhe eram tão familiares.

— Você parece cansada. — Não era uma pergunta. Não. Frank estava apenas constatando um fato.

Sabendo que ela não iria a lugar algum se continuasse negando coisas para ele, ainda mais quando eram tão óbvias, Lily suspirou e esticou uma xícara em sua direção, bebericando a sua própria antes de responder.

— Sim. Eu não tenho dormido muito bem nas últimas semanas. — Ela deu de ombros, um hábito estúpido adquirido para fingir que estava bem quando a verdade era o total oposto.

Semanas? — Frank arqueou uma sobrancelha antes de tomar um gole de seu chá, sorrindo ao perceber que era exatamente como ele gostava.

Meses... talvez anos? Eu não sei exatamente quando começou. Ultimamente está pior. — Lily evitou seus olhos, decidindo caminhar até a sala de estar e sentar-se em um dos grandes sofás ao invés disso. Um gemido de prazer escapou de seus lábios ao sentir a maciez abaixo de si. Talvez, ela pensou, talvez eu os leve para o apartamento das meninas quando eu voltar.

Se ela fosse voltar.

O que ela ainda não tinha certeza.

Frank, que a seguira, sentou-se ao seu lado e se virou de modo a ficar de frente para ela. Com um olhar conhecedor em seus olhos, ele a encarou até que Lily se viu na obrigação de quebrar o silêncio.

— Eu- eu venho tendo ataques de ansiedade. Está pior nos últimos meses, embora eu não saiba o porquê. — O que era uma mentira, afinal ela sabia o porquê mesmo que se recusasse a falar sobre até para si mesma. — Eu vivo cansada, mas não consigo dormir, porque toda vez que fecho os olhos eu sinto como se estivesse prestes a me afogar. — Uma respiração trêmula escapou de seus lábios, a enxurrada de palavras que ela normalmente evitava falar agora estava se derramando de sua boca e ela não podia e nem queria parar. Lily sabia que precisava falar com alguém, dizer pelo menos um pouco do que estava acontecendo na sua cabeça antes que acabasse explodindo. — Eu não tenho conseguido compor músicas sobre estar apaixonada há mais de dois anos. — Um sorriso sem humor apareceu em seus lábios ao perceber a surpresa nos olhos de Frank. Lily deu de ombros. Ela sempre dava de ombros.

— Mas você me ajudou com o CD! — Frank disse, seu cenho franzido indicando sua confusão. — Eu pensei que você-

— Eu não consigo compor músicas sobre eu estar apaixonada, sim? — Baixando os olhos para sua xícara, Lily ocupou-se em observar atentamente cada detalhe da porcelana. — Não me leve a mal, Frank, eu juro que tentei, sabe? Principalmente quando- quando tudo aconteceu. — Ela voltou a rir novamente, o humor negro se espalhando por suas veias enquanto lembrava-se de quão patética ela havia sido. — Eu iria pegar meus cadernos e canetas e gastar cada folha e cada gota de tinta neles e nunca, nunca, nunca conseguiria concluir qualquer uma das estúpidas letras ali. Eram apenas frases desconexas e sem sentimento. — Seu lábio inferior tremeu levemente diante da lembrança e ela o mordeu com força antes de continuar: — Eu pensei que havia perdido o meu dom de escrever, mas então eu percebi que, na verdade, eu estava compondo a mim mesma.

Finalmente erguendo os olhos para ele, Lily sentiu uma lágrima descer pelo rosto.

— Todas as frases desconexas, todas as letras inacabadas e vazias de emoção... todas elas eram eu, Frank. Porque eu não tinha mais nada para sentir, entende?

Os olhos castanhos de Frank encheram-se de lágrimas ao ouvi-la, mas Lily fez sinal para que ele parasse, sabendo que não seria capaz de suportar se ele caísse no choro também.

Voltando a analisar sua xícara, Lily continuou:

— Mas, embora eu não conseguisse escrever sobre mim, eu não podia simplesmente parar de escrever. Quero dizer, eu sempre fiz isso, certo? Desde que eu aprendi a formar palavras eu estava escrevendo. Isso é um pedaço muito grande de mim para que eu pudesse ignorar. Então, quando eu percebi que eu não podia mais escrever sobre as minhas histórias, eu decidi escrever sobre as histórias dos outros. Das suas histórias, principalmente.

— Das minhas? O quê-?

— Vamos lá, Frankie! — Lily voltou-se para ele, sorrindo de forma irônica enquanto rolava os olhos. — Você acha que “Dive” se encaixa tão bem na sua paixão pela Alice por quê? Você lembra o que me disse quando eu te dei a letra?

Frank ofegou.

— Que... que parecia que eu havia escrito. — O garoto murmurou, arregalando os olhos para Lily quase comicamente ao se dar conta do que significava.

Ela assentiu e então soltou uma risadinha.

— Eu tenho vivido vicariamente através de todos vocês. — Lily bufou. — Quero dizer, todas as histórias de amor sobre as quais escrevi, sobre os romances passageiros, sobre os problemas, bem, era tudo sobre vocês e nada sobre mim. Virei contadora de histórias que não vivi. — Outra lágrima escapou de seus olhos. Frank esticou-se para limpá-las. — Às vezes eu me odeio por isso. Sinto como se estivesse roubando memórias que não são minhas. Eu me sinto uma fraude.

— Não! Lily, o que- não! — Frank colocou as duas mãos em seus ombros, virando-a para que ela o encarasse. — Suas letras, sejam suas histórias ou as minhas, são incríveis. O fato de você conseguir se inserir tão bem na visão de outra pessoa só demonstra quão talentosa e empática você é, Lily. Isso é incrível! — Ele balançou a cabeça, olhando para ela com os olhos transbordando de carinho.

Ela deu de ombros pelo que deveria ser a milésima vez, mas Frank não a deixaria ignorá-lo. Ele nunca deixava.

— Você é incrível, Lily. E precisa parar de pensar que não é, porque, francamente, isso está ficando ridículo!

— Deus, pare com isso! — Ela resmungou e fungou antes de se afastar dos braços de Frank e voltar a erguer sua xícara para tomar um longo gole de chá fervente. Lily queimou a língua. Ela achou que merecia. — Eu não quero chorar novamente. Cristo!

— Você é muito dura consigo mesma. — Frank respondeu calmamente, tão tranquilo como se estivesse falando do tempo ao invés dos sentimentos de Lily, e então voltou a se apoiar contra as almofadas e soltou um longo suspiro. — O que nos traz de volta à questão principal do porquê eu estou aqui: do que você está se escondendo?

Oh, bem. Frank nunca fora conhecido por desistir facilmente.

Com um longo suspiro dolorido – que indicava o quanto ela estava feliz em dialogar sobre tudo aquilo: nenhum pouco – Lily deixou-se afundar ainda mais contra as almofadas, apertando a xícara em suas mãos e apreciando o calor se espalhar por seus dedos por longos segundos antes de falar:

— Não estou me escondendo. — Ela começou e bufou para o rolar de olhos que recebeu de Frank diante de suas palavras. — Ei, não seja idiota. — Lily cutucou-o com o pé, dando com a língua antes de prosseguir. — Quero dizer, eu sei que estou fugindo, mas não é porque eu quero me esconder... eu, argh! É como se todo mundo estivesse me olhando com pena, Frank. E eu não consigo- eu simplesmente... não posso aguentar esse tipo de coisa-

— Ninguém está te olhando com pena, Lily, o que-

— Estão sim, Frank! Marlene e Alice me falaram que pretendiam fazer intervenção em mim por conta dos meus hábitos. E enquanto elas me davam essa palestra toda sobre sentimentos, havia esse olhar nos olhos delas que- — Lily balançou a cabeça, sentindo os olhos encherem de lágrimas que ela se obrigou a não derramar ao lembrar da conversa em questão. — Não quero que as pessoas sintam pena de mim. Não quero que elas achem que só porque as coisas não estão perfeitas, que eu sou fraca. Quando saí da casa dos meus pais, jurei que nunca mais deixaria ninguém me fazer sentir como se eu merecesse piedade, Frank. Eu não sou uma mártir fodida!

— Isso é- você não- Lily... — Ele balançou a cabeça, pesando suas próximas palavras. — Você... hm, você já pensou em ir em um psicólogo, Lily?

— Quase todo dia. — Lily disse, soltando uma risada sem humor em resposta. — Mas então eu tenho cinco mil coisas para fazer e nunca sobra tempo para isso.

— Talvez você não queira que sobre tempo para isso? Quero dizer, você- bem- — Frank começou a falar, mas interrompeu-se, balançando a cabeça como se não achasse que valia a pena continuar. — Eu não sei.

Bem, ela também não sabia.

Soltando outro suspiro – o que parecia recorrente para os dois na última hora – Frank se esticou e depositou sua xícara sobre a mesinha de centro, pegando a xícara de Lily e fazendo o mesmo antes de se aproximar, apertando-a em um abraço lateral e beijando sua testa.

Eles continuaram assim por vários minutos: entrelaçados como nós humanos e perdidos em pensamentos. Lily se sentiu milhões de vezes melhor só de tê-lo ali.

— Na maior parte do tempo, eu sinto como se eu fosse uma decepção. — Lily deixou as palavras escaparem em um murmúrio trêmulo, tão baixas que só foi possível para Frank ouvi-las porque estavam extremamente próximos. — E, tudo bem, você sabe? Quero dizer, eu estou acostumada a me decepcionar, só que perceber que fiz isso com minhas melhores amigas também... eu fiquei tão envergonhada, Frank. Porque parece que, mesmo que eu me esforce ao máximo, mesmo que eu dê o meu máximo para ser a antiga Lily, nunca é suficiente para ninguém e eu sempre acabo decepcionando todo mundo!

— Oh, Lily! — Frank murmurou contra os cabelos dela, apertando-a ainda mais forte perto de si. — Isso não é verdade, amor. Você sabe disso, Lily! Nós somos seus amigos, nós nos preocupamos com você. O que dói é saber que você está atuando todo o tempo, entende? — A voz de Frank estava embargada, indicando que ele também lutava contra as lágrimas. — Nenhum de nós quer essa versão recortada de você. Nenhum de nós quer te ver fingindo ser algo que não é apenas para nos fazer sentir melhor. Nós amamos você, Lily. Independentemente do quão quebrada ou triste você está. É isso que você precisa entender, Sally.

— Eu… entendi. — Lily bufou em resposta, mas foi fraca devido as lágrimas que voltaram a toldar seus olhos. — Eu só... estou cansada.

— Eu sei, Lil. Eu sei, amor. — Frank bagunçou seus cabelos carinhosamente. — Amo você.

— Também te amo, Frankenstein. — Ela retrucou, sorrindo levemente e ergueu as mãos para limpar o rosto antes de se afastar para que pudesse encará-lo. — Deus, você fica ridículo quando chora. — Lily provocou, recebendo um dar de língua lacrimoso de Frank como resposta.

— Oh, sim, porque você certamente parece uma deusa agora. — Ele rolou os olhos, sarcástico.

“Serei a rainha de beleza em lágrimas”. — Lily recitou, cantando levemente e recebendo um bufo como resposta.

— Você acabou de citar Tennis Court da Lorde para mim? — Frank balançou a cabeça, rindo.

— Essa música é o hino do meu coração. — Lily apontou. — Oh, essa e The Sound of Silence de Simon e Garfunkel, é claro.

“Olá, escuridão, minha velha amiga” — Frank gargalhou para Lily, balançando a cabeça para ela como se tivesse ouvido a maior besteira de todas. — Sim, sim, eu entendo totalmente o que você quer dizer. — E então Frank esticou-se e apertou o lado de Lily, fazendo-a contorcer-se de cócegas.

Eles continuaram assim por um tempo, com Lily decidindo contra-atacar e fazendo-os caírem no chão onde uma verdadeira guerra de cócegas começou. Somente quando eles bateram na mesa de centro e quase quebraram ambas as xícaras é que decidiram parar, rolando pelo chão e deitando-se sobre o tapete felpudo e empoeirado onde ficaram observando o teto até que suas respirações normalizassem.

Ou, bem, até que Frank normalizasse a respiração e Lily começasse a espirrar por conta do pó.

— Essa casa precisa de uma limpeza. — O garoto disse após o que certamente foi a sessão mais longa de espirros já vista pelo homem, a qual Lily protagonizou, precisando levantar-se e caminhar até uma das janelas e abri-la para respirar ar puro. — Quero dizer, qual foi a última vez que alguém entrou aqui?

— Bem, você saberia melhor do que eu, afinal foi você quem ficou aqui por último. — Lily conseguiu exprimir sua resposta através de sua garganta inchada.

— Isso faz tipo... mais de um ano e meio, Lily?! — Frank ergueu-se do tapete também, franzindo o cenho diante da nova informação. — Você simplesmente nunca mais pisou aqui depois que a-

Não. — Lily resmungou, interrompendo-o de forma final.

Parecendo compreender que aquele era um dos tópicos que Lily não estava disposta a conversar – o que era bastante recorrente, aparentemente – Frank meneou a cabeça e então, como se houvesse lembrado de algo importante, arregalou os olhos e praticamente pulou em direção à porta, saindo da casa com urgência.

Lily estava começando a se perguntar se Frank finalmente percebera que ela era louca demais para que ele perdesse seu precioso tempo e decidiu ir embora, quando ele retornou, uma mochila de viagem na mão esquerda e o que parecia ser um bolo de revistas na mão direita.

Ao ver aquilo, Lily gemeu.

Frank— — Ela começou a falar, mas ele simplesmente ergueu um dedo para pedir silêncio, largando a mochila sobre um dos sofás antes de caminhar até estar em frente a ela.

— Como eu disse: cancelei entrevistas, ouvi xingamentos de Kingsley e atravessei o oceano para estar aqui com você, mesmo que você tenha salientado que não pediu por isso, o que é ridículo se quer saber, porque você sempre fala que quer me ver quando conversamos... e nós ligamos um para o outro praticamente todos os dias! — Frank estreitou os olhos para ela. — Mesmo assim, acho que o mínimo que você pode fazer é responder alguns questionamentos totalmente inocentes e despretensiosos que eu tenho...

— Inocente e despretensioso é algo que você não é desde que nasceu, Longbottom.

Fingindo mágoa, Frank colocou a mão livre sobre o peito e ofegou.

— Oh meu Deus, Lily Evans, como você pode dizer algo tão cruel sobre mim? Logo eu que sempre fui o seu melhor, mais bonito e incrível amigo de todos? Logo eu que nunca, jamais, em toda minha vida, sai em imagens quase proibidas para menores de idade em uma manchete beijando pessoas famosas? — Um sorriso maldoso se espalhou pelo rosto de Frank. Lily quis morrer. — Logo eu que nunca, jamais, apareci fugindo por meio mundo de mãos dadas com um integrante da maior boyband do mundo? O mesmo integrante dos beijos da manchete anterior? — Ele gargalhou, divertindo-se ao perceber as bochechas extremamente coradas de Lily. — Ora, ora, minha querida amiga, acho que a única pessoa que não é inocente aqui é você. — E então ele fez uma grande cena de jogar exemplares de revistas (mais de cinco) sobre Lily, fazendo com que cada uma delas caísse diretamente sobre sua cabeça.

— Eu poderia te processar por violência doméstica, você sabe. — Lily resmungou enquanto afastava as revistas de seu colo. — Você e a Marlene. Ainda não me recuperei totalmente das chinelas voadoras. — Ela estremeceu só de lembrar. — E, por favor, Frank! Você já teve sua parcela de fotos humilhantes de beijos espalhadas em várias revistas, não finja que não!

— Shh, o assunto é você, meu anjo. Não vamos entrar em tópicos que não nos levarão a lugar algum. — Frank disse e piscou marotamente para ela, fazendo-a rolar os olhos.

— O que você quer?

— Bem, eu quero muitas coisas, Lily Evans. A paz mundial, o fim das doenças e da fome no mundo, etc, etc. Infelizmente, essas coisas eu não posso resolver, embora faça minha parte... agora, o que eu posso e tenho total direito de saber, é o que diabos está acontecendo entre você e James Potter. Em detalhes. Mínimos detalhes. Extrema e totalmente específicos. Como em segundos, minutos, horas, dia, turno, expressões faciais, falas e tudo o mais. — Dizendo isso, Frank voltou a se atirar sobre as almofadas ao lado de Lily, jogando suas pernas sobre o colo dela e a encarando cheio de expectativa.

Lily gemeu, mas aceitou seu destino, sabendo que não conseguiria fugir de Frank. Sabendo que não queria fugir de Frank.

Ele estava em casa e, por muito tempo, era tudo o que ela podia pedir. O mundo sempre parecia voltar a entrar nos eixos quando Frank estava por perto.

— Ei! — Frank a arrancou de seus devaneios, puxando uma mexa de cabelo ruivo com leveza enquanto arqueava uma sobrancelha para ela. — Você não deveria estar na HRS?

— Eles me deram alguns dias de folga do Show do Chá da Manhã. Só preciso ir lá à noite para apresentar o TAS.

— Oh, sim, o The Aurores Show! Eu preciso dizer: você arrasou apresentando esse programa. — Frank sorriu. — E o Moody, quando ele volta?

— Bem, não sabemos com certeza. Mandei mensagens para a Pomfrey e ela disse que ele está indo bem na adaptação, embora continue sendo mais teimoso que uma mula.

Frank riu e balançou a cabeça, conhecendo Moody o suficiente para saber que aquilo era a mais pura verdade.

— E a Universidade? Você não tem aula hoje?

— Nah. Tenho dois períodos livres porque a Umbridge, graças a Deus, está viajando para uma convenção e então só tenho o último período com o Flitwick, mas ele me ama, então está tudo bem se eu faltar algumas aulas. — Lily disse, agradecendo aos deuses pela sorte de ter uma segunda-feira tão tranquila.

— Bem, isso é realmente ótimo! Quero dizer, nós vamos ter o dia inteiro para conversar e colocar todo o assunto em dia. — E sorrindo como se o Natal houvesse chegado mais cedo, Frank acrescentou: — James Potter. Vamos. Comece a falar.

Bem.

Seria um longo dia.

—--

Somente horas depois, quando Lily estava prestes a se preparar para ir para a rádio, é que ela lembrou das mensagens que havia mandado durante a manhã, pois, como ela havia jurado que não contaria para ninguém — o que ela cumpriu fielmente — evitara o tópico firmemente até que simplesmente escapou de sua mente.

Caminhando rapidamente para a cozinha e direcionando-se para a bancada onde lembrava de ter visto seu telefone pela última vez, Lily puxou o aparelho para si, ligando-o e deparando-se com seis mensagens não lidas.

Lily ergueu os olhos na direção da sala, confirmando que Frank não estava por perto para tentar ver o que ela estava fazendo – ela definitivamente não precisava de MAIS UM interrogatório – e então abriu o aplicativo de mensagens.

(08:36): Calma, ruiva, tá tudo ok

(08:36): Ou tão “ok” quanto possa ser uma situação assim, haha

(08:45): Não, você não vai ser processada

(08:46): E isso não foi uma péssima ideia. Honestamente? Foi uma das melhores que tive até hoje :)

(08:46): Você não seria a primeira e nem a última pessoa a me odiar, mas, honestamente, não precisa tanto, amor. Eu nem me esforcei para isso haha

(13:27): Ok, eu sei que eu disse que você não vai ser processada, mas talvez tenhamos que conversar pessoalmente sobre algumas coisas para que não tenhamos qualquer imprevisto mais para a frente. Você pode me encontrar hoje à noite?

Sentindo suor frio escorrer de suas têmporas, Lily estremeceu.

— Merda. — Ela disse e então apressou-se a responder.

(18:47): Eu saio do trabalho às 22:30, você pode me encontrar lá?

X—X

[HOGWARTS RADIO STUDIO | SEGUNDA-FEIRA – 16 DE OUTUBRO, 2017]

Sirius baixou os óculos na tentativa de ofuscar os flashes que espocavam de segundo em segundo enquanto ele saia da entrada do hotel e caminhava por entre o mar de paparazzi para chegar até o seu carro.

— Black, aqui!

— Sorria para a câmera, Sirius!

— Ei! Black! Como foi o encontro, heim?

— Cadê a Hestia? Não te deixou dormir com ela essa noite, eh? Vai ver ela tem um encontro marcado com o Potter!

— Como é essa relação, Black? Vocês estão em um relacionamento aberto, fazem threesome ou o quê?

— Ei, será que se eu perguntar para a Hestia quem fode melhor ela vai me responder? Ou será que ela está saindo com alguém mais além dos dois? Não seria novidade, afinal parece que ela gosta de ser vadia-

Ao ouvir a última frase, Sirius estacou.

Sentindo a raiva fluir pelo seu corpo como o sangue que bombeava suas veias, ele cerrou os punhos e estava prestes a voltar-se em direção ao imbecil que berrara aquele absurdo extremamente misógino e desrespeitoso quando seu celular vibrou em sua mão, indicando a entrada de uma nova mensagem.

Sentindo-se desinflar, sabendo que precisava correr, pois já estava atrasado, Sirius respirou fundo e forçou-se a retornar a caminhada, destrancando a porta de seu carro e pulando para dentro.

Conhecendo-se o suficiente para saber que não conseguiria dormir se não falasse pelo menos uma coisa, Sirius desceu o vidro de sua janela, sendo recebido por uma nova enxurrada de flashes enquanto tentava se orientar.

Piscando com força, ele respirou fundo, deixando a irritação fluir por sua mente.

— Vocês são um bando de abutres! Vivem esperando para ver os podres das pessoas porque querem lucrar em cima disso! Vocês falam um monte de merda achando que podem, pensando que são melhores do que os outros porque estão tirando vantagem ao divulgarem a intimidade das pessoas para poder sobreviver. Mas vocês querem saber o quê? Vocês são uns merdas! Vivendo de migalhas, rezando para que alguma celebridade faça algo errado para poderem tirar uma foto, gravar um vídeo, como se a existência de alguém se resumisse apenas a isso! Tenho nojo de vocês! — As palavras saíram mais fortes do que pretendia, quase raivosas. Gritos desconexos foram ouvidos em resposta, mas nenhum se registrou na mente de Sirius. Erguendo uma mão em direção a eles, Sirius fez um gesto obsceno e gritou: — Espero que vocês todos vão se foder! Boa noite! — E então fechou a janela, dando partida no carro e respirando fundo antes de começar a dirigir.

Seu corpo inteiro tremia, mas ele não sabia dizer se era de raiva ou do choro que ele estava impedindo firmemente de cair. Deus, ele não precisava daquilo. Definitivamente NÃO PRECISAVA, principalmente porque ele tinha algo muito importante para resolver em poucos minutos.

Afastando os pensamentos perturbadores de sua mente, Sirius concentrou-se em sua respiração, inspirando e expirando, focando apenas na entrada e saída de oxigênio de seus pulmões sem deixar mais nada vagar por sua mente.

Quando ele finalmente estacionou, vinte minutos depois, sentia-se quase completamente controlado. Se não fosse pelos olhos avermelhados das lágrimas que ele se recusara a derramar, ele tinha certeza de que ninguém perceberia qualquer coisa sobre seu comportamento.

Porque, afinal de contas, Sirius se tornara um ótimo ator nos últimos anos.

Soltando um riso sarcástico diante de tal pensamento, Sirius voltou a colocar os óculos escuros antes de pegar seu celular para ler as mensagens que havia recebido.

A primeira, que terminou de acalmá-lo e fez com que ele sorrisse feito um idiota para a tela do telefone, era de Remus:

(22:24) Moony: Hey, Pads, sei que o que você tem que fazer é uma merda, mas seja forte, ok? James fez cupcakes para te esperar e Peter alugou aquela comédia romântica estúpida que você ama para assistirmos depois! Me avisa quando estiver saindo, ok? Te amo.

E, a segunda, era a do seu próximo compromisso:

(22:32): Terminei meu expediente. Me avise quando estiver aqui para eu sair, certo?

(22:41) Sirius: Estou aqui na frente. Range Rover preto, vidros escuros.

Ele não precisou esperar muito até ouvir uma batida no vidro do carona. Esticando-se para abrir a porta, Sirius sorriu levemente para a garota que acabara de sentar ao seu lado.

— Hey, ruiva. — Ele a cumprimentou, aumentando ainda mais o sorriso ao receber um rolar de olhos não impressionado como resposta. — Está bonita hoje.

— Oi. Obrigada. — Ela respondeu, o tom apático indicando seu tédio diante do comentário dele. Ele não podia negar que sua reação era refrescante de uma forma estranha. — Tudo bem, Black? Como você está? Devo apertar sua mão agora? Iniciar uma conversa estúpida para fingir que não estou surtando porque, aparentemente, eu vou ser processada?

— Woah, desacelera, ruiva-

— Meu nome é Lily, Black.

— Oh, você vai me chamar pelo sobrenome então? Achei que tínhamos superado isso. — Ele acrescentou, observando-a enrubescer do que provavelmente era raiva.

Sirius. Que seja. — Lily rolou os olhos. — Ok, certo, vamos para o que interessa, um: eu estou com problemas com a sua administração? Porque assim, depois de tudo o que vi e ouvi falar sobre isso, não posso dizer que ficaria feliz ao ter que lidar com eles. Dois: eu vou ou não ser processada? Eu gostaria de ser avisada com antecedência, principalmente porque preciso te matar primeiro e arranjar um habeas corpus para a ocasião. E três: que merda você estava pensando ao fazer isso? Quero dizer, você não tem apreço pela sua carreira, não? — Suas palavras saíram em um jato, rápidas demais para que ele pudesse compreendê-las na mesma velocidade.

Piscando algumas vezes, atordoado diante do vômito de palavras, Sirius balançou a cabeça, sentindo o primeiro sorriso verdadeiro da noite se espalhar por seu rosto.

— Quando eu disse “desacelera, ruiva” eu estava falando sério, sabe? — Uma risada divertida escapou de seus lábios, mas ele se interrompeu ao ver o olhar fulminante brilhar nos olhos verdes da garota. — Ok, certo, respondendo às suas perguntas: — ele ergueu um dedo para iniciar a contagem. — Um: não, você não está com problemas com a minha administração. Pelo menos não ainda. Mas nós vamos corrigir esse “ainda” hoje. É por isso que estou aqui, na verdade. — Sirius ergueu mais um dedo. — Dois: você não vai ser processada, pois, como disse, estou aqui para resolver tudo. E três: — ele ergueu os três dedos no ar. — Eu estava pensando muito mais na minha carreira do que você poderia imaginar, mas como isso não é da sua conta, vou fazer o favor de ignorar a sua pergunta.

— Você é gay e está no armário. E isso com a entrevista foi a sua tentativa de burlar as regras da sua gestão que provavelmente são uma merda. — O tom de voz de Lily era cadenciado, como se ela tivesse certeza do que estava falando.

Sirius sentiu todo o sangue fugir de seu rosto.

— O que- como você-

Lily rolou os olhos pelo que deveria ser a milésima vez naquela noite.

— Não sei se você lembra que eu disse que tinha duas amigas que eram fãs do The Marauders? Pois então, elas têm essas contas no Tumblr (que, honestamente, é como um buraco negro que suga a alma das pessoas, é sério) e vivem postando coisas sobre... huh, bem, sobre a sua sexualidade. E a do Remus. O que é, hm, bem, huh, fodido, mas faz muito sentido, sabe? — Ela afastou uma mexa teimosa de cabelo para longe do rosto. — Quero dizer, você querer burlar o que a sua Assistente Pessoal falou de forma veemente para o pessoal da produção da rádio, fazendo com que eu retirasse a folha em que ela pedia para cortar a parte da entrevista em que você era bastante dúbio com relação à sua sexualidade... isso simplesmente não faria o menor sentido, a menos que você fosse um gay ou bi preso em um armário e desesperado para sair.

Os olhos verdes da garota ergueram-se até ele, encarando-o sem um pingo de julgamento, quase como se ela pudesse compreender a situação.

Sirius sentiu o peito descompassar ao mesmo tempo em que olhos voltaram a encher de lágrimas e ele agradeceu aos céus por estar usando óculos escuros.

Eles ficaram assim, apenas observando um ao outro pelo que pareceu uma eternidade – mas que provavelmente eram poucos segundos – até que Lily desviou os olhos, parecendo encolher-se em si mesma enquanto encarava as próprias unhas, as quais, Sirius percebeu, estavam extremamente roídas.

— Desculpe. — Ela disse, ainda sem encará-lo. — Quero dizer, isso realmente não é da minha conta e eu não deveria estar falando sobre o que eu não sei, eu só- — Mas Lily balançou a cabeça, interrompendo-se no meio da frase. — Desculpe.

Sentindo-se culpado por vê-la tão desconfortável, Sirius obrigou-se a sair de seu estupor e esticou uma mão em direção à garota, apertando seu ombro com gentileza enquanto esperava que ela voltasse a encará-lo.

Quando Lily o fez, Sirius suspirou ante de puxar os óculos do rosto, sem saber se o sentimento predominante em seu peito era o de vulnerabilidade ou o de medo. Talvez um misto dos dois.

— Tudo bem, Lily. — Ele disse suavemente. — É óbvio que se fosse qualquer outra pessoa falando todas essas coisas assim, eu provavelmente não gostaria, mas- — Ele mordeu os lábios, sentindo seus olhos transbordarem e odiando-se por isso. De forma apressada, Sirius ergueu a mão do ombro de Lily e limpou o rosto, odiando parecer tão fraco em frente à uma pessoa que era praticamente uma estranha para ele. — É a verdade. Tudo o que você disse... é verdade.

— Oh. — Embora Lily tivesse parecido certa sobre o que dissera, diante da confirmação de Sirius ela parecia completamente chocada. Isso, porém, não durou muito tempo, pois, ao ver que as lágrimas continuavam a descer pelo rosto de Sirius, ela rapidamente esticou-se para ele e o puxou para um abraço desajeitado devido ao espaço no carro, mas que era reconfortante de uma forma que ele não esperava. — Ei, ei, Sirius. Vai ficar tudo bem, ok? — Ela murmurou para ele, apertando-o mais contra si e acariciando seu cabelo com leveza.

Sirius preferiu não pensar muito sobre o fato de que ele odiava que qualquer pessoa – exceto Remus – tocasse seus cabelos, mas que, naquele momento, o toque de Lily era bom demais para que ele se importasse em afastá-la.

— Sabe o que é engraçado nisso tudo? — Lily perguntou suavemente após alguns minutos em que Sirius apenas chorou no ombro dela e ela o abraçou. — É que essa é a primeira vez nos últimos tempos que eu sou a pessoa que conforta alguém e não aquela que está sendo confortada. — E então ela riu baixinho, voltando a passar a mão pelos cabelos de Sirius, desembaraçando alguns fios com habilidade praticada. — Hoje mesmo, mais cedo, quando eu te mandei aquelas mensagens, sabe? Bem, eu estava desesperada, mas quando eu voltei para casa, Fr- meu melhor amigo me surpreendeu, chegando do nada e me assustando. Ele veio de longe só para puxar as minhas orelhas, acredita?

— O que você fez para ele ter de vir pessoalmente fazer isso? — Sirius finalmente falou, ainda sem se afastar. Sua voz, que normalmente era grossa, estava em um novo nível de rouquidão devido ao choro, soando abafada por estar com a cabeça enterrada no vinco do pescoço da garota. Lily não pareceu se importar.

— Bem, digamos que eu estava sendo um pouco... fujona? Hm, não sei. Eu estive evitando meus amigos por um tempo, porque, você vê, eu tenho um passado um pouco merda, então... bem, aparentemente eu não tenho sido eu mesma por um tempo? E não estava querendo ver? — As últimas frases saíram como perguntas, mas ela prosseguiu, dando de ombros e fazendo com que o movimento reverberasse por Sirius. — Minhas amigas, sabe, essas que são suas fãs? Elas queriam fazer intervenção em mim, sabia?

— Como em How I Met Your Mother? — Sirius finalmente se afastou de Lily, limpando o rosto e evitando encará-la.

— Sim, exatamente como em How I Met Your Mother. — Lily riu. — Quero dizer, quem elas pensam que são, honestamente? Mas, enfim, quando elas me disseram isso, eu surtei. E fugi. Porque é isso que eu faço, sabe? Quando as coisas viram merda? Bem, eu fujo. — Sirius finalmente encarou-a, percebendo que ela havia voltado a encarar as próprias unhas como se estivesse envergonhada das próprias palavras. — Mas dessa vez ele não deixou eu fazer isso por muito tempo e, como eu disse, hoje de manhã ele me encurralou e praticamente me obrigou a colocar meus sentimentos para fora. E, Deus, eu realmente odeio fazer esse tipo de coisa, sabe? — Os olhos verdes piscaram rapidamente para ele, divertidos. — Acho que você me entende.

— Oh, perfeitamente. — Sirius bufou, sentindo um dos cantos de sua boca erguerem em diversão.

— Pois é, foi bem ruim... ou bom, não sei. Acho que eu me senti mais aliviada, sabe? Pelo menos um pouco. — Lily meneou a cabeça, suspirando logo em seguida. — O que estou querendo dizer com tudo isso é que, hm — suas bochechas coraram enquanto ela o encarava com firmeza. — Obrigada. Por me contar sobre você. Eu sei que não é fácil “sair” para as pessoas, principalmente para estranhos. E nós nem nos conhecemos há muito tempo, mas você confiou em mim o suficiente para ser honesto comigo, então... obrigada, Sirius. Isso significa muito. — Ela sorriu docemente. — E eu espero de coração que nada do que eu tenha feito possa ter estragado alguma coisa para você. Essa situação em que você se encontra, bem, eu entendo. Ficar no armário é uma merda. Sendo famoso, então? Bem, aí é muito mais difícil.

— Você diz isso como se soubesse do que está falando. — Sirius disse, não como um julgamento, apenas afirmando um fato.

Lily assentiu.

— Sim, bem- eu tenho um passado merda, lembra? Então, eu meio que conheci alguém em uma situação parecida. — Ela mordeu os lábios, quase como se estivesse pesando o que iria dizer a seguir. — Era minha ex.

— Sua- oh! Oh? — Foi a vez de Sirius parecer chocado. Seus olhos arregalaram enormemente enquanto ele a observava. — Você é-?

Bissexual. Sim. — Lily concordou e então desviou o olhar. — Então, hm, como eu estava dizendo, eu sei que não é fácil, mas vai dar tudo certo. Quero dizer, o mundo hoje em dia é muito mais compreensivo do que era quando vocês iniciaram a banda. Sei que ainda tem muita merda por aí, mas existem vários artistas que saíram do armário e continuam fazendo sucesso, não é? Então porque seria diferente com você?

Seria mais fácil se fosse só eu, ele quase disse, mas mordeu a língua antes que deixasse escapar.

Ele já havia divulgado mais informação do que planejava para Lily naqueles poucos minutos de conversa.

— É. Sim. Bem, nossa gestão... eles são muito conservadores. E nosso contrato é bastante restrito. Então decidimos esperar até a rescisão e ver o que faremos depois-

— Falta quanto tempo para a rescisão? — Lily o interrompeu, arqueando uma sobrancelha em interesse.

— Um ano e meio. — Sirius disse, um gosto amargo perpassando por sua boca enquanto pensava no assunto.

Um ano e meio? — Lily ofegou, horrorizada. — Mas isso é tempo demais para aturar essa situação, Sirius!

— Bem, nós já aguentamos vários anos. Um e meio a mais não vai fazer tanta diferença-

— Certo, porque é assim que as coisas funcionam. — Lily rolou os olhos, irônica. — Você realmente quer passar mais um ano tendo que fingir ser uma coisa que você não é?

— Não é como se eu tivesse muita escolha, Lily. — Ele meneou a cabeça. — Não sou artista solo, eu tenho uma banda. Somos quatro caras e dependemos uns dos outros para continuarmos nisso. Eu odeio essa situação, mas eu amo fazer música. Principalmente fazer música com os meus melhores amigos. Eu posso aguentar a merda que for para não prejudicá-los.

Lily parecia como se quisesse falar alguma coisa, mas então ela simplesmente assentiu, soltando um longo suspiro.

— Não vou fingir que acho justo, mas é bastante heroico da sua parte. — Ela sorriu para ele. — De qualquer forma, eu aprecio muito esse diálogo emotivo que estamos tendo, mas eu acho que é emoção demais para um único dia da minha vida e eu não estou acostumada com esse tipo de coisa. Sem falar que eu realmente gostaria de saber se eu devo ou não me preocupar com a sua gestão. Principalmente agora que eu sei que eles são uns embustes.

Rindo diante do uso de palavras, Sirius esticou-se até o banco traseiro, puxando uma pasta que havia deixado ali e esticando-a para ela.

— Aqui. Isso é um contrato de não-divulgação. Por causa do meu contrato, eu não posso conseguir um advogado por fora da Riddle Management, mas meu amigo tem um primo que fez para mim, como se fosse para ele. Isso é mais para a sua proteção do que para a minha. No momento em que você assinar, você está proibida de divulgar qualquer coisa sobre o que eu pedi para você fazer na entrevista, a menos que eu já tenha divulgado algo sobre isso antes. Vai evitar muitos problemas caso a Riddle tente algo contra você. O que eles não vão fazer — ele a acalmou, percebendo a súbita agitação de Lily ao ouvir tais palavras — mas, caso façam, eles não vão ter qualquer autoridade sobre você por conta desse contrato, certo?

Lily, que olhava a pasta quase com desconfiança, assentiu para ele.

— Ok. Você quer que eu assine isso agora, ou-?

— Não, você pode levar para algum advogado ler e te explicar se quiser. Eu só vou precisar disso no sábado, então você tem quase uma semana para se inteirar de tudo.

— Certo. — Lily assentiu e então guardou a pasta dentro de sua bolsa antes de voltar a encará-lo. — Era só isso então?

Sirius sorriu para quão direta Lily era. Ele estava começando a adorar aquilo sobre ela.

— Sim, era só. Quando você assinar, me avise, assim nós marcamos para que você me entregue os papéis, sim?

— Ok. Tudo bem. — Ela concordou e então suspirou. — Bem, se era só isso, eu vou indo. Foi estranhamente prazeroso falar com você, Black. — Sorriu, divertida. — Mas eu honestamente espero que esses encontros estranhos parem de acontecer. Vocês dessa banda são todos loucos e sempre me colocam em problemas cada vez que aparecem!

— Você nunca esteve tão certa, querida. — Sirius respondeu, rindo ao vê-la rolar os olhos. — Hey, você quer uma carona? Você está morando nos apartamentos universitários da Durmstrang, né?

— Oh, hm- eu, huh. — Lily mordeu os lábios, as bochechas voltando a corar ao encará-lo. — Lembra que eu disse que estava fugindo? Bem, eu não estou dormindo lá por uns dias.

— Eu devo dizer para o James ter ciúmes dessa informação? — Sirius brincou, puxando o cinto antes de dar partida no carro.

Corando ainda mais, Lily bufou.

— Cale a boca, idiota. James não tem motivo nenhum para ter ciúmes porque nós não somos nada!

— Não é o que os tabloides estão dizendo-

— Bem, os tabloides dizem que você é hétero, então...

— Touché. — Sirius gargalhou. — Certo, senhorita sabe-tudo, diga-me seu endereço secreto para que eu possa te deixar antes que a carruagem se transforme em abóbora e tudo isso.

Rindo da comparação, Lily deu o endereço, recebendo um arquear de sobrancelhas interessado de Sirius quando ele percebeu que a casa estava localizada em Kensington, apenas um dos bairros mais caros de Londres.

Passado misterioso, Sirius lembrou, imaginando se haveria um dia em que ele descobriria mais sobre a garota ruiva que parecia capaz de cativá-lo rápido demais para seu gosto.

Quando ele finalmente estacionou em frente ao número indicado, Sirius precisou coletar sua expressão para não demonstrar o quanto estava surpreso com a casa chique com que se deparara.

Parecendo compreender o que ele não estava falando, Lily sorriu beatificamente para ele, piscando exageradamente.

— Um dos meus segredos, Black, é que sou uma vampira e, como vivi milhares de anos, juntei riquezas o suficiente para comprar uma casa em Kensington.

— Bem, agora tudo está explicado. — Sirius respondeu sem perder uma batida, recebendo outro sorriso, desta vez um verdadeiro, em resposta.

— Obrigada pela carona. — Ela disse enquanto desafivelava o cinto e então, dando de ombros como se não pudesse se importar, voltou a atirar os braços em volta dele, abraçando-o rapidamente. — E obrigada por... você sabe... compartilhar.

— Digo o mesmo. — Sirius murmurou de encontro ao ombro dela, retornando o abraço com força e esmagando-a levemente apenas por diversão. — E obrigado por confiar em mim também. Sobre sua sexualidade e todo o resto. — Ele disse e seu tom soava a honestidade que estava sentindo.

Lily assentiu.

— Acho que estamos quites agora.

— Acho que sim.

— Boa noite, Sirius. — Lily piscou para ele e então abriu a porta, saindo e fechando-a levemente em seguida.

Acenando para ele, Lily apressou-se em direção à entrada, mas, a meio caminho de destrancar a porta, esta foi aberta e, por ela, um garoto que parecia estranhamente familiar a recebeu com um abraço.

Franzindo o cenho, Sirius estreitou os olhos e se aproximou um pouco mais da janela, tentando descobrir de onde o conhecia até que-

— Você tem que estar brincando comigo! — Ele bufou, puxando o celular do bolso e digitando freneticamente.

(00:05) Sirius: Você acabou de dar um abraço no Frank Longbottom?

Ele voltou a erguer os olhos para a entrada, gemendo ao perceber que ambos haviam entrado.

O celular vibrou em sua mão quando a resposta chegou.

(00:07) Lily: Não.

(00:07) Sirius: ?????

(00:07) Sirius: ata

(00:08) Lily: Lembra o amigo que me surpreendeu hoje de manhã?

(00:09) Sirius: Você está brincando que esse amigo é O Frank Longbottom?????? O MAIOR ARTISTA DOS ÚLTIMOS ANOS???

(00:10) Lily: Sim. Ele mesmo. Boa noite, Sirius.

(00:10) Sirius: QUE???????

(00:11) Lily: :)

X—X

[SEDE DO PROFETA DIÁRIO, MANCHESTER | QUARTA-FEIRA – 18 DE OUTUBRO, 2017]

James sabia que estava sendo irritante, mas não havia muito o que pudesse fazer sobre isso, exceto ir embora daquele lugar o mais rápido possível.

Infelizmente aquilo não estava dentro de suas opções, portanto James se contentara em ser o mais insuportável possível, irritando maquiadores, balançando-se na cadeira, movendo coisas, brincando com canetas e papéis e fazendo batidas aleatórias com os dedos em cada superfície perto de onde estava sentado.

Remus, que fora designado a vir junto dele para Manchester para fazer a entrevista, o observava silenciosamente, embora o vinco em sua testa indicasse sua crescente preocupação com o comportamento de James.

— Certo, cara, que merda você está fazendo? — Remus finalmente falou, erguendo-se e segurando a mão de James que estava prestes a começar mais uma batida de we can’t stop da Miley Cirus contra a penteadeira de maquiagem.

— Estou entediado. — James resmungou, sabendo que estava parecendo com uma criança birrenta, embora não pudesse se importar. — Quero ir embora daqui, Remus. Eu odeio essa revista.

— Eu também quero ir embora, juro. Mary está gripada e, embora Sirius esteja cuidando dela, eu sei que ele deve estar reclamando de segundo em segundo enquanto não estamos lá. Peter deve estar indo à loucura com os dois e a casa provavelmente vai estar uma bagunça quando voltarmos. Uma bagunça que nós vamos ter de arrumar. Mas, ainda assim, nós temos de fazer essa entrevista, James. Você sabe disso. — Remus respondeu, seu tom de voz era compassivo e calmo, o mesmo que sempre usava quando tentava acalmar os ataques de histeria de Sirius. Ou os de Peter. Ou os de James.

Bem, eles tinham seus motivos para surtarem vez ou outra, tudo bem?

— Eu sei, Moony, mas é que- — James passou uma mão pelos cabelos, bagunçando o penteado que a cabelereira demorara quase uma hora para fazer (o que era totalmente ridículo, porque os cabelos dele eram perfeitos naturalmente). — São eles que espalham essas notícias ridículas sobre a gente. Eles que disseminam essas merdas sobre o Sirius e escrevem matérias ridículas chamando Peter de “figurante” da banda. São eles que fazem a nossa vida um inferno, Remus. Você, de todas as pessoas, deveria entender isso!

— Eu entendo, James. Realmente. — A voz de Remus soava apertada, como se ele estivesse controlando-a para não demonstrar suas reais emoções. — Mas não são só eles. Cada jornal e revista do Reino Unido e do mundo tem sua parcela de culpa. Eu entendo que você tenha raiva do Profeta Diário especificamente, mas eles apenas estão fazendo o que toda revista de fofoca faz-

— Falar merda sobre todo mundo e transformar nossas vidas em inferno. — James completou.

— Na verdade, Sr. Potter, nós fazemos bem mais do que isso. — A voz irritante de Rita Skeeter foi ouvida enquanto ela adentrava o camarim. Seus olhos brilhavam em direção aos dois como se ela fosse um gato diante de uma ninhada de ratinhos indefesos. O ódio que James nutria por ela pareceu reverberar por sua corrente sanguínea. — Você percebe, Sr. Potter, que sem as nossas matérias de merda, muita coisa poderia ter dado errado para o seu amigo Sirius. Ou para você e Gwenog Jones. Ou para o querido Lupin e sua namorada, Mary. Peter... bem, ele não produz nada interessante, exceto um barraco ou outro no Twitter, o que, convenhamos, é totalmente irrelevante em comparação ao prato cheio que vocês oferecem para nós, certo? — Afastando um cacho loiro do rosto, ela sorriu. — De qualquer forma, senhores, vim aqui avisá-los que estamos prontos para começar a entrevista. Sigam-me, sim? — E, dizendo isso, voltou a se afastar pela porta com seus saltos tiquetaqueando contra o linóleo como um cronometro mortal.

Certo.

James precisava parar de usar tantas metáforas dramáticas.

Peter cairia em cima dele se ouvisse seus pensamentos e percebesse o quanto de um drama queen literal ele era por dentro.

Erguendo-se de onde estava sentado, rezando para morrer no meio do caminho e, desta forma, ser impedido de fazer a maldita entrevista (ele não teve essa sorte), James começou a caminhar junto de Remus para a sala onde Rita os esperava, sabendo que as próximas horas seriam um inferno, principalmente agora que a história de Sirius e James estarem compartilhando a mesma “namorada” era de conhecimento geral e a internet estava em polvorosa com a informação.

Às vezes ele realmente odiava aquela vida.

—--

— Certo, garotos, estamos quase acabando. — Rita finalmente disse, depois do que deveria ser a entrevista mais demorada do último milênio (James tinha certeza absoluta que batera um recorde de “rolar olhos” durante aquele tempo), voltando-se com um sorriso maroto em direção a ele, Rita arqueou uma sobrancelha e perguntou: — Bem, James, temos ouvido bastante sobre seu suposto affair com a apresentadora da Hogwarts Radio Studio, Lily Evans. O que você tem a dizer sobre isso? Ela é realmente a mesma garota com quem você foi fotografado aos beijos há algumas semanas?

E, bem, lá estava a pergunta que ele sabia que ela aguardara todo o dia para fazer. Deus, James odiava aquela mulher. Tanto que era quase como se estivesse vendo vermelho.

Sentindo a mão de Remus repousar de forma calmante contra seu ombro, James respirou fundo, educando sua expressão de modo a não parecer tão assassino quanto se sentia.

— Eu realmente não tenho muito a dizer sobre isso. Lily e eu estávamos apenas nos divertindo quando nos beijamos, foi algo totalmente casual e sem compromisso. Não houveram sentimentos envolvidos ou qualquer coisa assim, quero dizer, todo mundo já saiu e beijou alguém um dia, certo? — Ele riu sarcasticamente para a câmera, sabendo que haveriam cinco mil memes daquele momento assim que o vídeo fosse ao ar. — Não entendo porque todo mundo está falando tanto sobre isso. — James odiava cada palavra que saia de sua boca, sabendo que as informações eram verdadeiras, embora o sentimento em seu peito discordasse piamente de cada uma delas.

— Mas vocês foram vistos juntos novamente, fugindo após a invasão das groupies na HRS. E pareciam bem confortáveis um com o outro, correndo de mãos dadas e rindo. — A sobrancelha perfeitamente desenhada de Rita arqueou-se para James. — Não parecia algo casual... embora, é claro, você tenha sido visto saindo com a modelo Hestia Jones logo em seguida, o que é um pouco confuso, então...

— O que as pessoas precisam entender é que existe a possibilidade de amizade entre um homem e uma mulher. É ridícula a forma como James ou até mesmo Sirius não podem sequer respirar perto de alguém que já tem dez manchetes dizendo que eles estão namorando e planejando ter cinco filhos. — Remus intrometeu-se, sua postura composta finalmente se desmanchando, deixando óbvio todo o seu descontentamento com a situação. — Lily é uma garota incrível, que fez uma apresentação absolutamente impecável na nossa entrevista. Ela deveria receber reconhecimento pelo trabalho que ela faz e não por se divertir e beijar alguém, assim como Hestia. Enquanto continuarmos disseminando esse pensamento machista de que mulheres só são importantes quando estão envolvidas com um cara, não iremos a lugar algum.

Rita pareceu momentaneamente aturdida com as palavras de Remus. James, por outro lado, tinha um sorriso orgulhoso brilhando em seu rosto enquanto piscava para o bandmate.

— Certo... bem, agora que você tocou no assunto da entrevista no The Aurores Show — Rita recomeçou, finalmente parecendo se recompor. — Eu queria saber o que vocês têm a dizer sobre o comentário de Sirius Black sobre não se importar se o seu encontro perfeito não fosse com uma mulher. — O sorriso maldoso de Rita voltou a aparecer enquanto ela endireitava os óculos para observá-los com atenção.

— Por que você não comenta o que achou sobre isso? — James a indagou, cortando Remus antes que ele falasse algo de que se arrependeria depois.

— Bem, não sou eu quem tem que falar algo sobre isso, certo? — Ela rolou os olhos para ele, mas James assentiu.

Exatamente. Quem tem que falar algo sobre isso é o Sirius. Não eu ou Remus ou qualquer outra pessoa no mundo inteiro. Apenas ele, porque isso só diz respeito a ele e ninguém mais. — E então ele sorriu beatificamente para comprovar o seu ponto.

Depois disso, Rita pareceu perceber que não conseguiria muito mais deles e encerrou a entrevista, trocando sorriso falsos e abraços desconfortáveis como despedida.

Assim que estavam dentro do carro, após saírem do prédio e serem recebidos por um aglomerado de fãs que os estavam esperando – ele ainda ficava assustado com a facilidade com a qual elas pareciam se materializar do nada em todos os lugares em que eles iam – James soltou um longo suspiro, sendo acompanhado por um bocejo igualmente longo de Remus.

— Longo dia, rapazes? — Hagrid, que estava dirigindo, encarou-os pelo retrovisor, sorrindo levemente ao perceber as expressões cansadas dos garotos.

— Sim. — James gemeu e então acomodou-se de forma a estar com a cabeça deitada no ombro de Remus. — Odeio aquela mulher. Odeio aquela revista. Odeio essa parte da nossa vida.

O olhar de Hagrid mudou para um mais compreensivo e ele piscou para James através do espelho. Remus não falou nada e apenas descansou a própria cabeça sobre a de James e então eles ficaram em silêncio enquanto observavam as ruas de Manchester passarem pelas janelas.

— Hey, Moony. — James murmurou após vários minutos de um silêncio sonolento.

— Hm?

— Você sabia que a Lily é amiga do Frank Longbottom? Não apenas amiga, mas melhor amiga de infância? — Ele perguntou, fazendo com que Remus se afastasse para poder encará-lo fixamente.

— O quê? Lily do TAS? A que você beijou? — As perguntas escorriam rapidamente da boca de Remus. — Frank Longbottom, o cantor mundialmente famoso para o qual fomos no show e que você e Sirius quase morreram do coração ao terem ataques de fanboy?

James assentiu em concordância, identificando-se totalmente com a expressão surpresa de Remus, afinal ele estava certo de que era a mesma que ele tinha quando Sirius contou a novidade para ele.

— O que- como você sabe disso? — Remus indagou, confuso.

— Sirius me mandou o print de um tweet recente do Longbottom. Eram duas fotos dele e da Lily. Uma de quando eram crianças e outra que parece ter sido tirada pouco tempo atrás. Ele falou algo tipo “o tempo passa, mas o amor continua o mesmo”. — James mordeu o lábio, sentindo as bochechas esquentarem antes de prosseguir. — Algumas pessoas shippam os dois.

— Oh, sim? — Os cantos da boca de Remus tremeram ao indagar, mas James o ignorou, assentindo enquanto sentia o rosto esquentar ainda mais.

— Huh... no Tumblr eles tem um ship e tudo. Franly. As pessoas escrevem fanfics, fazem fanarts e todas essas coisas esquisitas-

— Oh meu Deus, James! — Os olhos de Remus arregalaram como se ele não pudesse acreditar e então ele começou a gargalhar como se as palavras de James fossem a coisa mais engraçada que ouvira em toda a sua vida.

— Hey! Pare com isso! — James reclamou, mas isso só fez com que Remus risse com mais força. Voltando-se para a frente, sentindo o rosto esquentar ainda mais, ele percebeu que os ombros de Hagrid estavam tremendo e, ao olhar pelo espelho, percebeu que o seu guarda-costas estava mordendo os lábios para não rir. — Eu odeio vocês dois. — Bufou, cruzando os braços firmemente contra o peito enquanto tentava ignorar a hiena, vulgo Remus, que estava praticamente deitado no banco ao seu lado, segurando o estômago enquanto lágrimas escapavam de seus olhos.

— Meu Deus, você está tão na dela. — Remus finalmente disse com sua voz soando trêmula devido as risadas. — Você foi no Tumblr, pelo amor de Deus!

— Fiquei curioso, Lupin. Não é nada demais!

— Certo, certo. Você fez isso com a Hestia Jones também ou você só faz isso com as garotas por quem você tem crush?

— Você está sendo ridículo! — James rolou os olhos, ignorando o fato de que suas entranhas estavam se contorcendo de vergonha. — Frank não tinha tantas fotos dos dois juntos no Instagram já que ele apagou a maior parte delas para fazer a divulgação do novo CD e do tour e como o Instagram da Lily é privado eu não-

— Oh, Deus, isso não para de melhorar! — O tom de voz de Remus estava recheado de diversão enquanto ele voltava a se atirar no banco. Hagrid, que parecia não estar mais se importando em magoar os sentimentos de James, estava gargalhando a todo pulmão no banco do motorista.

— Fodam-se vocês dois! — James bufou, recebendo mais risadas como resposta.

Ele definitivamente precisava de amigos novos.

X—X

[UNIVERSIDADE DE DURMSTRANG | QUINTA-FEIRA – 19 DE OUTUBRO, 2017]

(18:10) Lily: Hey, Mary, você está bem? Não te vi essa semana nas aulas... fiquei preocupada.

(18:10) Lily: Se você precisar de alguma coisa me avisa, ok? Posso te emprestar minhas anotações ou te enviar por e-mail se quiser.

(18:10) Lily: Espero que tudo esteja bem, xx

Após enviar as mensagens, Lily atirou o celular dentro da bolsa antes de pendurá-la no ombro e se encaminhar para a saída.

Mary não havia comparecido nenhum dia daquela semana para as palestras e, embora agora Lily soubesse que Mary era a suposta namorada de um popstar famoso e que provavelmente estava muito bem assessorada, ainda assim não conseguiu deixar de se preocupar com seu paradeiro, principalmente porque elas não haviam trocado mensagens desde o TAS em que Lily entrevistara os meninos.

Lily não queria que Mary achasse que estava brava porque ela não contara que era namorada de um dos integrantes. Na verdade, Lily conseguia compreender muito bem o sentimento de medo de contar algo assim para alguém levando em conta que seu melhor amigo era Frank e que, toda vez que falava isso para alguém, as pessoas começavam a tratá-la diferente, como se esperassem receber algo em troca.

Envolvida em seus devaneios, Lily deixou-se guiar automaticamente pelos corredores da universidade, respondendo um cumprimento ou outro de pessoas que gritavam coisas como “oh meu deus, você entrevistou o The Marauders” e “eles são tão lindos quanto nas fotos?” e suas variações, embora não perdesse muito tempo conversando, principalmente porque várias pessoas a encaravam com raiva desde que as fotos dela e de James fugindo da HRS haviam sido divulgadas, o que era apenas estúpido, mas Lily não podia negar que ficava assustada ao imaginar ser atacada por alguma fã louca da boyband.

Ela estava quase no meio do jardim quando sentiu alguém puxá-la pelo braço e, ao se virar, deparou-se com Marlene e Alice encarando-a com olhos estreitos e expressões sombrias.

— Oh. Hey. — Lily sorriu estranhamente para elas, sentindo as bochechas esquentarem.

— Oi, Lily! — Marlene disse e então estendeu a mão em um falso cumprimento, a voz transbordando de ironia ao prosseguir: — Meu nome é Marlene McKinnon e eu não sei se você lembra, mas nós costumávamos dividir um apartamento?

— Oh sim, éramos melhores amigas e tudo. — O tom de voz de Alice era cortante.

Lily gemeu, sentindo um calafrio percorrer sua espinha.

— Ok, tudo bem, eu sei que mereço isso e-

— Sim, você merece. — Marlene a interrompeu e então cruzou os braços sobre o peito, a expressão em seu rosto era completamente ilegível.

— E nós merecemos uma boa explicação de tudo o que está acontecendo. — Alice adicionou, uma sobrancelha arqueada para dar ênfase.

— Sim, sim, vocês merecem. Eu... — Lily suspirou e então desviou o olhar das expressões decepcionadas das duas garotas, odiando o fato de que ela era o motivo por trás daquilo. — Depois do TAS eu vou ir lá falar com vocês, tudo bem? Sinto que precisamos conversar.

Bastante. — Alice concordou. — Você tem muito o que dizer, na verdade.

— Ok. — Lily sorriu levemente para elas, achando engraçada a forma como elas pareciam tão prontas para confrontá-la, embora pudesse ver claramente que estavam a avaliando para ver se estava tudo bem. Ela estava prestes a comentar sobre isso quando seu olhar encontrou com o relógio de pulso de Marlene e ela percebeu que precisava se apressar se quisesse chegar a tempo para o trabalho. — Deus, eu preciso mesmo ir agora! Eu entro no ar em poucos minutos, mas nos falamos mais tarde, está bem? — Lily disse, soando o mais honesta que podia, não querendo que elas pensassem que estava fugindo novamente.

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Marlene e Alice ficaram em silêncio pelo que pareceu ser uma eternidade enquanto trocavam olhares cheios de subentendidos, fazendo com que Lily se remexesse, inquieta, esperando por alguma reação.

Por fim, Marlene quebrou o silêncio, atirando-se para a frente e cortando o espaço entre elas, jogando os braços sobre os ombros de Lily e puxando-a para um abraço.

— Argh, eu odeio ficar brava com você. — Ela bufou, fazendo com que Lily sentisse como se um peso houvesse saído de suas costas. — Isso me cansa, sabe? E eu não quero ter rugas tão cedo. Principalmente agora que eu estou tão perto de conhecer meus ídolos, já que, supostamente, minha melhor amiga está tendo um affair com James Potter.

— Foda-se. — Lily resmungou, recebendo uma risada de Alice em resposta antes dela se juntar ao abraço e apertá-las no que deveria parecer uma interação muito esquisita para qualquer pessoa que passasse perto delas.

— Sentimos sua falta, Evans. — Alice disse. — Saber de você através de mensagens do Frank não é a mesma coisa. É bom ver a sua cara ridícula de vez em quando.

— Senti falta de vocês também. — Lily murmurou, sentindo os olhos encherem de lágrimas e- não, apenas não. Ela não iria chorar no meio do jardim de Durmstrang. Ela já tinha humilhações o suficiente no seu currículo sem adicionar mais isso. — Ok, ok. Eu realmente preciso ir, garotas. Minerva vai me matar se eu chegar atrasada de novo. Frank já fez com que eu me atrasasse ontem e ela só não brigou comigo porque ele usou seu charme sobre ela. O que, honestamente, é ridículo. Eu trabalho lá há quase dois anos e ela quase não sorri para mim, agora é só o Frank piscar perto dela que ela acha tudo lindo. — Ela bufou, revirando os olhos ao lembrar da interação entre sua chefe e seu melhor amigo no dia anterior.

— Bem, você não pode culpá-la, pode? Quero dizer, o Frank é realmente adorável. — Alice disse, dando de ombros logo em seguida como se não houvesse dito nada demais.

Sabendo que não possuía tempo suficiente para aprofundar-se sobre aquele assunto, embora ela certamente fosse perguntar o que Alice quisera dizer sobre Frank mais tarde, Lily despediu-se das garotas com mais uma rodada de abraços e então correu, rezando para que conseguisse chegar a tempo para o TAS.

(18:50) Lily: Ela está tão na sua!

(18:51) Frank: QUÊ??? QUEM?

X—X

[HOGSMEADE PLACE, 713 | QUINTA-FEIRA – 19 DE OUTUBRO, 2017]

James observava a revista em sua mão com desprezo.

Ele sabia que não era verdade, da mesma forma que sabia que aquilo aconteceria uma hora ou outra, mas ainda assim, ele se sentia... violado. Era como se todas essas matérias estúpidas houvessem pegado uma das partes mais lindas da vida de James, distorcido e desprezado como se não fosse nada – o que era exatamente o que elas haviam feito, afinal de contas.

E era doloroso pensar que algo tão verdadeiro, algo que significava tanto para ele, pudesse significar tão pouco para as pessoas por trás daquela manchete sensacionalista.

A razão pela qual James hoje fazia parte de uma das maiores boybands do mundo sempre fora muitíssimo clara para todos: a sua amizade inabalável com Sirius, a vontade que ambos tinham de fazer algo grande com o talento que possuíam, o sonho de saírem da cidade estúpida e extremamente preconceituosa onde nasceram e mudar o mundo. A consciência de que, independente de como fosse ou onde fosse, eles sempre estariam juntos e nunca nada poderia mudar esse fato. Entrar no X-Factor juntos e sair de lá juntos (e com mais dois melhores amigos na bagagem) era a prova disso.

E, claro, isso ainda era verdade.

James sabia que nada seria capaz de mudar o que eles sentiam um pelo outro: Sirius era seu irmão, sua família. O melhor amigo que ele tivera por toda a sua vida. James o amava incondicionalmente e daria a vida por ele sem questionar.

Portanto era injusto que algo tão bonito e verdadeiro fosse completamente desvirtuado por um estúpido monte de lixo em forma de revista com uma manchete sensacionalista ainda mais estúpida: “OS MELHORES AMIGOS DO POP E DONOS DO MAIOR BROMANCE DA INTERNET, JAMES POTTER E SIRIUS BLACK, ESTÃO BRIGADOS?”. E embaixo uma foto recortada, metade do rosto de James e a outra metade do rosto de Sirius com uma rachadura no meio indicando sua “quebra” na amizade.

— James, cara, ignore isso. — Peter (que o observava atentamente desde o momento em que Remus chegara com o exemplar em questão e James o arrancara de suas mãos) disse, erguendo-se da poltrona onde estivera sentado e caminhando até James para poder alcançá-lo.

James desviou do toque, sentindo-se estremecer. Se de raiva ou de tristeza, ele não poderia dizer.

Percebendo o olhar magoado de Peter, entretanto, James se aproximou e o abraçou fortemente, afastando-se logo em seguida e direcionando-se para a cozinha onde abriu o forno e pegou três dos cupcakes que acabara de assar para colocá-los dentro de um pote.

— Hey, o que você está fazendo? Vai sair? — Remus perguntou, seguindo-o até a cozinha e apoiando-se na bancada para encará-lo.

— Não sei, só... preciso de ar puro, eu acho. — James disse, recebendo um assentimento em resposta.

— Se cuide, sim? — Peter, que também os acompanhara até ali, disse, encarando-o cheio de preocupação.

— Vou sim e, ah, quando Sirius e Mary voltarem, digam a eles que tem biscoitos no forno. — James lembrou de informar, voltando-se para encarar Peter de olhos estreitos. — E, por favor, Peter, não coma todos. Eu já separei os seus e os deixei no pote dentro do armário, sim?

— É por isso que você é o melhor! — Peter sorriu para ele, fazendo o sinal de positivo antes de correr até o armário citado.

Rolando os olhos para a alegria infantil do amigo, James se encaminhou para a saída, pegando seu casaco, carteira e chaves da bancada antes de sair.

Sua mente estava cheia, portanto ele nem pensou muito para onde estava indo quando destrancou o carro, deu partida e tirou-o do estacionamento do prédio. Tudo o que ele sabia é que precisava de ar, precisava tirar um pouco do estresse que parecia habitar seu corpo nos últimos dias.

James se sentia tão esgotado, tão exausto.

De noite, quando se revirava na cama para dormir, ele devaneava com a noite em que dormira com Lily, saudoso sobre quão bem dormira naquele dia e como aquelas boas horas de sono haviam feito com que ele se sentisse milhares de vezes mais disposto no dia seguinte.

James constantemente se perguntava se ele conseguiria dormir bem daquele jeito novamente, ou se aquilo era apenas resultado de dividir a cama com Lily. Ele não sabia responder e, honestamente, tinha medo das respostas que poderia achar.

Ele sabia que as coisas com Lily haviam-no afetado muito mais do que deveriam, mas ele simplesmente não conseguia controlar o fio de seus pensamentos, portanto, embora ele tentasse não parecer tão desesperado, nada poderia apagar todo o tempo que passara stalkeando as redes sociais de Lily – desde seu Twitter que continha vários dos tweets mais engraçados que ele já lera (o humor de Lily era extremamente cativante) até seu Instagram que, por mais que ele quisesse, não parava de ser privado magicamente para que ele pudesse olhar seu feed.

Talvez fosse por conta desse fio de pensamento que, quando James finalmente estacionou o carro, após quase uma hora de dirigir sem rumo pelas ruas de Londres, ele se encontrava em um lugar estranhamente familiar (embora certamente não devesse ser).

X—X

[APARTAMENTO UNIVERSITÁRIO, 512 | QUINTA-FEIRA – 19 DE OUTUBRO, 2017]

— Hey, Doe, obrigada pela carona. — Lily sorriu para Dorcas, entregando o capacete extra para a garota.

— Tudo bem, Lily. Você sabe que não precisa agradecer. — Dorcas rolou os olhos para ela, sorrindo de forma divertida antes de adicionar: — Mas se quiser, você poderia ser meu encontro na festa de formatura da minha irmã esse final de semana. Minha mãe continua me perguntando porque eu não te levo lá em casa e eu gostaria de, pelo menos uma vez na vida, poder esfregar na cara das minhas tias que, embora eu seja lésbica, não estou encalhada.

— Mesmo que, na verdade, você esteja? — Lily riu, sempre divertida ao ouvir as histórias de Dorcas sobre a sua família, principalmente porque, embora Dorcas fosse lésbica, todos continuavam tratando-a igual, até mesmo suas tias mais velhas que insistiam em fazer perguntas sobre namoradinhas e tudo o mais.

— Foda-se, Evans, não precisa jogar a verdade na minha cara! — Dorcas reclamou, batendo levemente em Lily com o capacete. — Isso dói.

Lily sorriu ainda mais.

— Desculpe, desculpe! Mas, se você estiver falando sério, eu posso totalmente te acompanhar. Quero dizer, eu sei que sua mãe me ama. E eu sinto saudade de ouvir as histórias vergonhosas da sua infância. — Ela brincou, dando com a língua para Dorcas quando ela tentou acertá-la novamente, mas não conseguiu.

— Agora eu não sei se quero você lá. — Dorcas bufou, mas então sua expressão quebrou em um sorriso e ela piscou. — Não, mas falando sério, seria realmente ótimo se você fosse, Lil’.

— Então pode contar comigo, Doe! — Lily disse e esticou-se para beijá-la rapidamente na bochecha, recebendo uma piscadela em retribuição. — Boa noite!

— Boa! Até amanhã, Lil’. Mande beijo para a Alie e a Marley.

— Mando sim. — Lily acenou em adeus, observando enquanto a garota dava partida na moto e se afastava pela rua.

Soltando um longo suspiro, Lily voltou-se para o conjunto de prédios que lhe era muito familiar, embora, naquele momento, não parecesse muito convidativo: ela sabia que uma longa e cansativa conversa a esperava no momento em que adentrasse, mas, como ela prometera a si mesma, não fugiria mais.

Ou, pelo menos, tentaria não fugir.

Endireitando a postura, Lily se preparou para atravessar a rua, tendo a estranha sensação de estar sendo observada.

Ao espreitar para os lados, tentando perceber se alguém a seguira ou qualquer coisa assim, seu olhar recaiu no grande carro preto de aparência cara estacionado há alguns metros de distância.

Ela não o reconheceu, mas sabia que ele não pertencia a ninguém ali, afinal aquela era uma vila universitária, portanto carros daquele porte não eram muito comuns por ali, exceto no início do semestre letivo ou finais de semana, quando as famílias ricas vinham visitar os filhos e ver se eles continuavam vivos ou se já haviam morrido por conta da faculdade (ou bebidas).

Estreitando os olhos para tentar enxergar algo através dos vidros escuros, Lily soltou um grito nada lisonjeiro quando os faróis piscaram em sua direção.

— Que merda é essa? — Ela resmungou consigo mesma, sabendo que estava sendo estúpida ao se aproximar, mas sem conseguir parar a si mesma, uma estranha sensação de reconhecimento espalhando-se por seu corpo.

Quando ela chegou ao lado do grande conversível, o medo de ser morta, estuprada ou sequestrada finalmente a atingiu, entretanto, antes que ela pudesse correr e se afastar, a janela do motorista foi aberta e, por ela, um rosto muito conhecido apareceu.

— James?

— Hey, Lily. — O garoto sorriu para ela. Seus cabelos ainda estavam meio úmidos (provavelmente recém-saído do banho, o que- bem, ela não iria pensar sobre isso) e, por conta disso, caíam em ondas muito fofas em sua testa. Lily precisou repreender a si mesma por prestar atenção em algo tão estúpido e então se recompôs.

— O que você está fazendo aqui? — Ela tentou não parecer tão desconfiada, mas não pôde evitar. Várias possibilidades envolvendo ela sendo esmurrada pela gestão da The Marauders espocaram em sua mente, fazendo-a estremecer.

— Bem... — O garoto deu de ombros e mordeu os lábios (movimento que Lily definitivamente não acompanhou com os olhos). — Eu meio que... huh... queria te ver?

E, bem, isso não era o que ela estava esperando.

Definitivamente não era o que ela estava esperando.

Deus.

Notas finais
e aí, gente, o que acharam? aos pouquinhos o passado da lily vai se tornando mais claro... e, bem, várias coisas serão explicadas ♥ não esqueçam de me contar o que estão achando, sim? é sempre incrível vê-los por aqui ♥ dúvidas, sugestões, para falar com a autora... estou sempre no twitter @wolfistar ♥ beijos e até breve (se merlin permitir, amém) ♥