Popstar
7 VI - Nothing good starts in a getaway car.
Notas iniciais
[APARTAMENTO UNIVERSITÁRIO, 512 | QUINTA-FEIRA – 19 DE OUTUBRO, 2017]
— Você... queria me ver? — Lily repetiu, sem ter certeza de que estava, de fato, acordada. — Por quê?
James, que tinha as bochechas coradas e uma expressão bastante constrangida, apenas deu de ombros, como se não soubesse o que dizer. Não aceitando aquilo como resposta, Lily arqueou uma sobrancelha para ele até que ele suspirou e disse:
— Eu não sei, ok? Eu só queria. — E deu de ombros mais uma vez como se não houvesse acabado de fazer o chão de Lily tremer ao dizer aquelas palavras tão simplesmente.
E, pelo sangue de Jesus, por que diabos ele a afetava tanto? Honestamente!
— Certo... — Ela limpou a garganta, sem saber exatamente o que deveria fazer a seguir, afinal de contas não era como se houvesse um manual sobre como lidar com popstars que havia beijado e que apareciam repentinamente perto de sua casa apenas para vê-la.
Eles caíram em um silêncio estranho após a troca de palavras, James ainda dentro do carro e Lily inclinada levemente em direção à sua janela, ambos olhando para qualquer lugar exceto uns aos outros devido ao constrangimento da situação.
Lily estava prestes a dizer que iria entrar e que fora bom revê-lo quando James a interrompeu antes que o fizesse:
— Hey, você quer um cupcake? — Ele perguntou, seus olhos aumentando de tamanho quando pareceu se dar conta do que acabara de falar.
— Eu quero- quê? — Lily franziu o cenho, sentindo-se a cada instante mais perdida com toda aquela situação, sem compreender o que aquilo significava. Cupcakes? Quê? Do que diabos ele estava falando?
Mas, de dentro do carro, James esticou uma mão para o assento do carona, puxando de lá um pote com o que deviam ser cupcakes e mostrou-os para Lily, seu rosto ainda mais vermelho do que antes.
— Eu os fiz antes de sair de casa. Sirius diz que eu sou um “cozinheiro de estresse”, o que significa que toda vez que estou ansioso ou estressado acabo gastando vários quilos de farinha fazendo doces e coisas assim. Peter ama quando isso acontece. Ele é simplesmente viciado nos meus biscoitos de chocolate. — James disse tudo aquilo em um fôlego só, quase como se não fosse capaz de se controlar. Lily achara muito fofo e precisou de muita força de vontade para não soltar a risada que estava pairando em seus lábios diante do desconforto do garoto. — Então... você quer? Eles não são ruins...
— Potter, você vai descobrir que existem muitas coisas que eu recuso veementemente. Mas doces não são uma delas. — Ela disse, fazendo o garoto relaxar levemente contra o assento quando esticou a mão para pegar um dos bolinhos. — É isso o que você faz, então? — Lily arqueou uma sobrancelha em indagação, fazendo James franzir o cenho sem entender. Ela piscou antes de continuar: — Leva cupcakes para todas as garotas que você beija em pubs por aí.
Um sorriso divertido brotou nos lábios do garoto, fazendo com que a tensão em seu rosto diminuísse consideravelmente.
— Só para aquelas que são ruivas, trabalham em uma rádio e são extremamente sarcásticas. — James disse, fazendo Lily bufar antes de dar uma mordida no bolinho.
E então, ao sentir a doçura e maciez explodir em suas papilas gustativas, foi a vez de ela arregalar os olhos.
— Oh meu Deus, é você quem faz os bolinhos que a Mary leva para a faculdade? — Ela perguntou, levemente surpresa por tal obra de arte ser feita por um popstar, mas então, ao receber sua confirmação como resposta, sorriu para o garoto. — Você está perdendo a oportunidade de ganhar a vida fazendo doces, James Potter.
— Eu acho que ainda prefiro ganhar a vida sendo um popstar famoso. — Ele brincou, mas então seus olhos escureceram, como se houvesse lembrado de algo particularmente ruim. — Mesmo que nem sempre seja a escolha de vida mais saudável...
Lily podia imaginar sobre o que aquilo se tratava, pois era o mesmo olhar que Sirius tinha ao conversar com ela.
— Hey. — Ela o chamou, fazendo com que ele erguesse os olhos em sua direção. — Isso é sobre o que o Profeta Diário publicou?
Parecendo encolher levemente diante do nome, James suspirou e assentiu.
— Eles são uns merdas. — Disse.
Soltando um bufo, Lily concordou.
— Devido às minhas últimas experiências, não posso deixar de concordar. — Ela assentiu, fazendo com que um sorrisinho mínimo aparecesse nos lábios do garoto. Lily contou como uma vitória. — Rita Skeeter é a pior deles. Quero dizer, às vezes existem alguns artigos bem bacanas por lá, mas ela continua ganhando as matérias de capa, o que é um desperdício, afinal existem jornalistas muito melhores nas colunas da revista que são completamente ignorados devido a todo o sensacionalismo das matérias dela.
— Vou ter que acreditar nas suas palavras porque ultimamente eu não consigo passar da capa daquela revista. — James disse e seu tom de voz era tão amargo que, em um impulso, Lily fez a volta no carro, abrindo a porta do carona e sentando ao lado do garoto, onde esticou a mão livre de cupcake e colocou em seu ombro, apertando-o levemente.
— Eu entendo que é uma merda e que você provavelmente já ouviu isso antes, mas é melhor se você ignorar. — Ela suspirou. — Não conheço vocês o suficiente, mas eu tenho certeza de que você e o Sirius são melhores amigos e que toda essa porcaria nos tabloides é uma sabotagem estúpida com motivos maléficos e que, provavelmente, foi causada pela sua gerência.
James ficou pálido diante de suas palavras, o que fez com que Lily rolasse os olhos para sua reação.
— Vamos lá, James. Posso não ser uma popstar famosa, mas eu trabalho em uma rádio, lembra? Eu conheço famosos, conheço a indústria e sei como ela pode ser uma megera quando quer ferrar algumas vidas. Sem falar que, como eu disse anteriormente, minhas melhores amigas são superfãs do The Marauders e elas sabem das coisas. Ou, pelo menos, as teorias delas são bastante pertinentes.
Parecendo relaxar levemente com a explicação, James sorriu ao olhar para a mão de Lily que ainda estava em seu ombro, fazendo com que ela a afastasse rapidamente, sentindo o rosto esquentar.
Divertindo-se com sua reação, James sorriu ainda mais para ela.
— Oh, sim, você “conhece” alguns famosos. Certo. Tipo o seu melhor amigo de infância... Frank Fucking Longbottom. — E rolou os olhos para ela com ceticismo.
— Você andou me stalkeando, Potter? — Lily perguntou, os olhos estreitos enquanto percebia o garoto se remexer incomodamente contra o assento.
— Não! Nada disso! — James negou com veemência. — Mas eu sigo o Frank e ele postou fotos de vocês quando eram crianças e de agora, então eu fui obrigado a saber. — E deu de ombros numa clara tentativa de parecer despreocupado. Lily não acreditou nem um pouco.
— Oh, sim, é claro. — Ela assentiu, divertida. — Então isso quer dizer que você não vagou pelo meu Twitter? Meu Instagram? Oh, Potter, isso é bastante triste. Me sinto ofendida por saber que você nem se deu o trabalho de me pesquisar um pouquinho. — E balançou a cabeça, fingindo decepção.
James rolou os olhos para ela.
— Eu posso ter dado uma olhada por cima dos seus tweets.
— Hmmm. — Lily sorriu. — Por cima.
— Sim. Tipo até acabar o seu feed ou algo assim. — James sorriu em retorno, piscando para ela. — O seu Instagram, infelizmente, é bloqueado ao público, então não pude olhar por cima também.
Gargalhando, Lily meneou a cabeça para ele, fazendo-o sorrir ainda mais.
— Um bom fanboy, huh?
— Bem, acho que, depois de todos esses anos, acabei absorvendo um pouco das minhas fãs. — James assentiu, solene.
— Oh, então eu devo ficar preocupada? Porque suas fãs são realmente inventivas com as teorias e o stalk na internet.
— Nem me fale. Teve uma vez que estávamos de férias em Bali e ninguém deveria saber onde estávamos, mas o Sirius postou uma foto de um drink e uma menina no Twitter conseguiu descobrir o hotel onde estávamos por causa do formato do copo e da cor do drink. — James arregalou os olhos e estremeceu. — Eu não sei como elas fazem isso.
— Frank teve que mudar de hotel quatro vezes quando esteve em Barcelona no ano passado. Eu lembro que ele me ligou dizendo que se precisasse fazer aquilo mais uma vez, provavelmente dormiria no carro. — Lily sorriu para a lembrança da ligação que recebera em uma madrugada de quarta-feira, quando Frank estava extremamente chateado e impressionado com a capacidade de suas fãs.
— Frank... — James desviou os olhos dela, encarando suas mãos antes de prosseguir. — Então vocês são mesmo amigos de infância?
— Sim. Nós crescemos juntos em Godric’s Hollow. — Ela respondeu, sentindo-se nostálgica. — Eu conheço Frank praticamente desde que nasci. Ele é como um irmão mais velho e toda vez que eu vejo quão longe ele chegou eu quero morrer de tanto orgulho.
— Ele é realmente incrível, não é? Eu e os caras fomos num show dele ano passado e o cara é simplesmente um gênio.
— Ele é. — Lily concordou e então voltou-se para encarar o garoto que já a estava observando. — Vocês não são tão ruins também. As músicas que tocamos na rádio aquele dia eram bem legais.
— Oh, obrigada, Evans. É bom saber que você acha que não somos “tão ruins” e que nossas músicas são “legais”. — James colocou uma mão no peito, fingindo-se de ofendido.
Lily riu.
— Ah, Potter, eu não posso mentir, posso? Vocês são bons cantores, têm vozes incríveis e que se encaixam, vocês transmitem muita emoção com a voz, mas-
— Mas o estilo pop-chiclete é bastante clichê e feito para vender, certo? — James concluiu, fazendo com que Lily concordasse. O garoto passou uma mão pelos cabelos, num gesto que Lily já o vira repetir algumas vezes. — Eu sei. Nossa gerência era bastante incisiva com o nosso estilo, mas, depois de muita briga, é bom poder dizer que estamos tendo bastante liberdade para a produção do próximo álbum. Talvez você se surpreenda.
— Eu espero que sim. Vocês merecem ter a oportunidade de mostrar todo o talento de vocês.
— Obrigado. — James disse, sincero e então eles estavam em silêncio mais uma vez. Só que, desta vez, era como se o ar em volta deles estivesse cheio de eletricidade estática e, enquanto os olhos de James vagavam pelo rosto de Lily, os olhos dela estavam fixos sobre os lábios dele.
Lembranças das vezes em que se beijaram espocavam pela mente da ruiva como se fossem fogos de artifício e ela podia sentir sua respiração aumentando diante da possibilidade de repetir...
Lily se afastou, ofegante, ao perceber que, de forma inconsciente, acabara se inclinando para o garoto. James, por outro lado, ergueu a mão e começou a estica-la em direção à Lily, até que percebeu o que estava fazendo e recolheu-a, parecendo tão desconcertado quanto a garota.
— Huh- — Ele começou a falar ao mesmo tempo que ela dizia: — Então—
Ambos riram, desconcertados e corados.
— Certo, então, acho que seria bom se falássemos sobre isso — Lily disse e indicou o espaço entre eles.
— Sim. — James concordou e voltou a passar as mãos pelos cabelos, fazendo com que Lily acompanhasse o movimento. — Seja lá o que isso for.
— Eu- — Ela começou a dizer e mordeu os lábios, sem saber exatamente por onde começar. — Não podemos fazer isso, James.
James, que não parecia surpreso com as palavras dela, embora claramente decepcionado, assentiu.
— Eu entendo. Sair com um famoso não é uma coisa muito recomendável e-
— Não. Não é isso. — Lily suspirou e voltou os olhos para a janela, observando a rua vazia dos apartamentos universitários, imaginando o que diabos aconteceria se descobrissem que James Potter estava estacionado ali. — Minhas experiências com popstars não são as melhores, realmente, mas não é por isso que eu não acho que seja uma boa ideia. — Ela voltou a encará-lo, fixando seus olhos sobre os castanho-esverdeados dele, sentindo-se levemente sem fôlego com a beleza do garoto. — O problema é que eu tenho um passado bastante complicado, ok? E querendo ou não, isso poderia prejudicar nós dois, sim? E eu realmente não me sinto pronta para qualquer coisa com qualquer pessoa agora. Existem muitas coisas que eu preciso arrumar antes de estar com alguém novamente. E, James — Lily sorriu levemente para ele, os olhos tristes. — Você é incrível e eu realmente me divirto muito passando tempo com você, mas, se nos envolvêssemos romanticamente, seria apenas... fácil demais eu acabar gostando demais de você. E eu não acho que seria justo para qualquer um de nós eu deixar você investir em algo que está fadado a não dar certo porque eu simplesmente não estou bem agora.
James, que a ouvira atentamente sem demonstrar qualquer reação, finalmente sorriu levemente para ela, embora seus olhos continuassem sem qualquer emoção discernível.
— É basicamente um “não é você, sou eu” só que mais elaborado, heim? — Ele brincou e então limpou a garganta, baixando os olhos para suas mãos novamente. — Entendi. Tudo bem.
— Olha, James, me desculpe-
— Lily, não! — Ele arregalou os olhos para ela. — Você não precisa pedir desculpas porque não se sente confortável para estar com alguém-
— Eu me sinto confortável estando com você, James, mas é justamente esse o problema. — Lily bufou para si mesma, percebendo quão confusa estava soando. — O que eu vou te dizer agora não costumo admitir para mais ninguém, ok? Eu costumo sair muito e ficar com muitas pessoas e tudo está muito bem até a manhã seguinte quando eu simplesmente desapareço e esqueço que aconteceu. É só que, quando você era apenas um cara no pub era muito mais fácil para que eu deixasse acontecer, porque, na minha cabeça, nunca mais iria te ver novamente. — James soltou uma risada para a ironia de tudo, fazendo com que ela rolasse os olhos. — Só que, agora, não é mais assim. Eu conheço você, pelo menos um pouco. E eu gosto do que eu conheço de você.
— Então você não quer acabar se apaixonando por mim?
— Eu não posso. E eu não quero que você se apaixone por mim também. — Lily concordou e piscou para o garoto, fazendo-o sorrir.
— Você está citando Um Amor para Recordar para mim, Evans? Oh meu Deus, me diga que você não tem uma doença terminal, porque, honestamente, eu não posso lidar com isso! — Ele dramatizou, colocando ambas as mãos sobre o próprio peito, fazendo-a bufar.
— Não, nada terminal. — Apenas ansiedade e síndrome do pânico e vários terrores noturnos, mas ainda nada que me levasse a morte, ela acrescentou mentalmente.
— Oh, bem, fico mais calmo. — James brincou e então esticou uma mão, colocando-a sobre a de Lily. — Está tudo bem, ok? Obrigado por me explicar. Eu entendi e eu respeito isso.
— Obrigada. — Lily sorriu suavemente, sentindo alguns arrepios percorrerem toda a extensão de seu braço desde onde James a tocava.
— Isso significa que não podemos ser amigos também? — Ele perguntou após mais alguns instantes de silêncio, encarando-a com expectativa.
— Oh, não, Potter. — Lily disse, enfática. — Agora que descobri que é você quem faz esses bolinhos você não vai se livrar de mim tão cedo.
O sorriso de James era tão grande que parecia capaz de rasgar seu rosto.
Lily quis beijá-lo.
O que apenas... não!
— Bem, você vai ficar feliz em saber, então, que eu costumo fazer muitos bolinhos para os meus amigos. — Ele disse e Lily sorriu, mas então lembrou que ele havia dito que era um “cozinheiro de estresse” e sentiu seu coração descompassar levemente, girando sua mão sob a de James de modo que pudesse apertá-la.
— É tão ruim assim? — Ela perguntou, feliz ao perceber que James entendera ao que ela estava se referindo.
— Me faz questionar com bastante frequência se é isso que eu quero para a minha vida. Se vale a pena. É ruim a esse ponto. — James disse, o tom de voz melancólico fazendo com que Lily lembrasse de Sirius e do modo como ele dissera quase a mesma coisa. Ela nunca odiara tanto uma empresa quanto odiava a Riddle Management naquele momento.
— Eu sinto muito que vocês tenham que passar por tudo isso.
— Bem, faz parte do pacote, sim? — James deu de ombros numa tentativa de parecer desinteressado e falhando miseravelmente.
— Não, James, não faz. Vocês não deveriam ter de passar por tudo isso. — Lily disse, pensando em Frank e como ele tivera sorte de ter uma gerência incrivelmente boa e o tanto que era injusto que The Marauders não tivessem o mesmo. Ela apertou ainda mais a mão do garoto e ele acariciou levemente seus dedos. — Deus, eu odeio essa indústria.
— É o que é, certo? Agora é tarde demais para fazer qualquer coisa. Talvez quando o contrato encerrar nós possamos melhorar tudo isso.
Sabendo que estava agindo de forma estúpida, mas sem conseguir se importar muito, Lily esticou-se para a frente, passando os braços pelo pescoço de James e o abraçando com força. O garoto demorou apenas alguns segundos de surpresa antes de retribuir, apertando-a tão fortemente quanto ela o fazia.
— Sinto muito.
— Eu também. — James disse e então se afastou, encarando-a com os olhos brilhantes. — Obrigado por isso. Você é uma boa amiga.
Lily riu diante de suas palavras, pois acabara de lembrar do motivo pelo qual estava indo para os apartamentos em primeiro lugar.
— Oh, será que você pode repetir isso em um vídeo para mim? Talvez me ajude na inquisição de Marlene e Alice que eu terei de enfrentar daqui a pouco.
— Suas amigas? Está tudo bem? — Ele perguntou, o cenho franzido em preocupação.
— Não. Mas eu acho que vai ficar. — Ela disse e então suspirou. — Eu preciso ir, James. As garotas provavelmente estão pensando que eu não vou aparecer e eu realmente não preciso de mais outra briga agora.
Sem entender exatamente o que estava acontecendo, mas assentindo mesmo assim, James sorriu para Lily.
— Tudo bem, Lily. Foi bom ver você.
— Foi bom ver você também. — Lily respondeu e então abriu a porta do carona, começando a sair do carro só para parar logo em seguida e virar-se para ele. — Oh, já ia esquecendo: Mary está bem? Ela sumiu da faculdade e eu fiquei preocupada.
— Ela está doente. Pegou uma gripe realmente forte, então passa a maior parte do dia dopada e dormindo. Mas acho que semana que vem ela vai estar de volta.
— Certo. Mande meus desejos de melhoras para ela, sim? — Lily pediu e o garoto assentiu.
— Mando sim. E, ah, Lily, aqui. — Ele disse e esticou o pote com os dois cupcakes restantes para a garota que o encarou em confusão. James sorriu. — Não gravei o vídeo para você, mas talvez se você disser que são os cupcakes do James Potter elas possam te perdoar.
Gargalhando, Lily aceitou o pote.
— Oh meu Deus, você é um anjo. Obrigada, James! — Dizendo isso, ela saiu do carro, acenando adeus para James que a observou ir até que estivesse fora de vista.
Fechando os olhos, James deixou-se encostar a testa contra o volante, respirando fundo algumas vezes até perceber que, desde o momento em que Lily entrara no carro, o sentimento de ansiedade que o havia corroído por horas havia simplesmente desaparecido.
Sorrindo diante da constatação, James abriu o porta-luvas, pegando seu caderno e uma caneta e, abrindo-o em uma folha em branco, começou a escrever as palavras que surgiam com facilidade absurda em sua mente.
—--
Assim que Lily pôs os pés dentro do apartamento, foi recebida com dois pares de olhos perscrutadores que a encaravam com surpresa.
Rolando os olhos, largou sua mochila sobre uma poltrona vazia e atirou-se sobre a outra, o pote de cupcakes ainda na mão enquanto cruzava as pernas e encarava as duas garotas que ainda estavam em silêncio.
— Vocês acharam mesmo que eu não viria?
— Lily perguntou, arqueando uma sobrancelha enquanto observava as duas trocarem olhares ilegíveis.
— Você não pode nos culpar, pode? — Marlene disse no que Alice assentiu em concordância.
— Suponho que não, não posso. — Lily suspirou. — De qualquer forma, aqui estou eu e aqui estão vocês, portanto acho que podemos começar logo com isso, certo? — Antes, porém, que qualquer uma das duas começasse a falar, Lily prosseguiu. — Antes de mais nada, queria começar pedindo desculpas. Eu sei que não tenho sido a melhor amiga nos últimos dias e que eu literalmente fugi para não ter que falar com vocês e eu sei que não foi justo e que fiz com que ficassem preocupadas-
— Dizer que estávamos “preocupadas” é um eufemismo, Lily. — Marlene a interrompeu. — Você simplesmente desapareceu e não respondia nossas mensagens com nada além de monossílabos. Nunca mais faça uma coisa dessas, Lily ou eu juro por Deus-
— Entendi, entendi! Tudo bem, Marley, você fez o seu ponto! Não precisa ser violenta. — Lily brincou, sorrindo levemente e sentindo-se aliviada ao receber um sorriso em resposta que, embora fosse pequeno, ainda era um sorriso. Talvez ela fosse perdoada, afinal. — Como eu estava dizendo: eu sei que fugi e que não foi legal, mas eu não me arrependo porque eu realmente precisava de espaço para pensar e compreender algumas coisas.
— E você conseguiu? Pensar e compreender? — Alice indagou, encarando-a com expectativa.
— Um pouco, sim. — Lily assentiu e então respirou fundo, imaginando que a melhor forma de começar era ser direta. — Eu sofro de transtorno de ansiedade generalizada há algum tempo e isso me fez ser mais imprudente nos últimos dois anos.
— Oh, Lily... — Alice começou a falar, mas Lily ergueu uma mão, pedindo para que ela esperasse.
— Por favor, me deixem terminar. É difícil o suficiente sem interrupções. — Ela ergueu os olhos para as amigas que assentiram em concordância. — Eu sei que vocês pensam que a culpa disso tudo foi o rompimento com a... com a Emmeline, mas não foi. — Somente falar o nome em voz alta fazia com que ela sentisse o estômago embrulhar, mas Lily se obrigou a continuar, pois sabia que se não falasse naquele momento, talvez nunca mais conseguisse. — É óbvio que me afetou, pois não foi o término mais amigável de todos e é óbvio que eu fiquei muito triste, mas não foi a causa, não a principal e, embora eu aprecie muito a preocupação de vocês, eu não acho que seja justo vocês nutrirem tanto ódio contra ela. — Percebendo as expressões confusas de Alice e Marlene, Lily suspirou. — Ela era amiga de vocês também, meninas. E eu sei que vocês sentem falta dela. Eu sei que eu sinto. E está tudo bem, ok? Quando ela ainda estava por aqui as coisas eram mais fáceis e eu sei que todos sofreram quando ela saiu.
— Mas, Lily, se não foi ela, então o que foi? Porque eu lembro de como foi horrível quando ela saiu e de como você estava e, Lily, foi horrível. — Alice a interrompeu novamente, parecendo não conseguir se conter. — Quando você voltou de Godric’s Hollow e nos contou que vocês tinham terminado você nem parecia você mesma!
— Era como se você estivesse narrando seu próprio funeral. — Marlene disse em seguida, encarando-a com seus grandes olhos castanhos penetrantes.
Lily fechou os olhos para não ter de encará-la, mas as lembranças daquele dia invadiram sua mente, fazendo-a ofegar, estremecer e começar a suar frio.
— Eu- Deus, isso é tão difícil. — Lily tentou respirar fundo e afastou algumas mechas rebeldes de cabelo que estavam grudadas por conta do suor para longe do rosto antes de prosseguir. — Não foi ela. Eu sei o que parece, mas não foi. O término foi apenas um... complemento? — Saiu mais como uma pergunta do que uma resposta e sua respiração se tornou mais ofegante e então ela se ergueu da poltrona onde estivera sentada, suas mãos cerradas em punho enquanto andava de um lado para o outro tentando acalmar os batimentos de seu coração que estavam tremendamente acelerados. — Quando nós terminamos já tinha acontecido, eu já tinha passado por- Deus. — Ela parou de andar, sentindo um espasmo violento percorrer seu corpo e seus olhos encherem de lágrimas. — A verdade é que não foi Emmeline. A verdade é que foram- — Mas ela não conseguiu prosseguir, pois, naquele momento sua garganta fechou, as lágrimas em seus olhos não paravam de cair e ela simplesmente não conseguia respirar.
Era um ataque de pânico.
O mundo ao redor dela estava se tornando cada vez mais difícil de distinguir, as formas se misturavam e os sons sumiam, dando espaço apenas para um zumbido violento que parecia vir de seus próprios ossos tremendo dentro de seu corpo. Estava frio como nunca antes, mas ao mesmo tempo havia suor e lágrimas e, oh meu Deus, tanta, tanta dor, porque o que ela não conseguia falar estava encravado em sua garganta e era horrível demais, doloroso demais e Lily- Lily não conseguia respirar.
Ela ia morrer.
Ela tinha certeza daquilo.
Por um momento ela quis rir de como havia dito apenas alguns minutos atrás para James que ela não tinha uma doença terminal, pois, ali, enquanto seus pulmões pareciam não querer mais trabalhar, a doença que havia em seu cérebro parecia se espalhar por cada terminação nervosa de seu corpo fazendo-a tremer e tremer e tremer até que tudo o que ela sentia e via e ouvia era a dor da morte.
“Você não é boa o suficiente para isso, Lily” as vozes preenchiam sua mente como fantasmas de um passado que ainda sangrava. “Você nos envergonha”
“Você sempre esteve fadada a dar errado”
Mas então-
Então haviam mãos e toques e vozes que não eram fantasmagóricas e- aquela era Alice? Ou Marlene? Alguém a estava abraçando. E também havia alguém segurando sua mão contra alguma coisa que batia e- oh, era um coração? Tum, tum, tum. Sim, sim, era um coração. Tum, tum, tum. E ele estava batendo e batendo e batendo e Lily estava acompanhando e acompanhando e acompanhando e então as dores pareciam diminuir e havia alguém sussurrando que tudo iria ficar bem e que era para ela respirar e, oh meu Deus, ela estava respirando novamente.
Seus olhos, embora embaçados, voltaram a perceber seu redor e o zumbido em seu ouvido foi diminuindo até que tudo o que ela ouvia era o som dos soluços de Alice e da voz de Marlene repetindo “você está bem, você está bem, você está bem”.
Ela não ia morrer.
Piscando para afastar as lágrimas, Lily percebeu que estava ajoelhada no tapete da sala com duas garotas abraçadas fortemente contra si.
— Oh meu Deus, Lily! — Alice finalmente se afastou, erguendo os olhos cheios de lágrimas e observando seu rosto com atenção como se estivesse procurando por sinais de que tudo estava bem. Lily tentou sorrir, mas não tinha muita certeza de que parecia, de fato, um sorriso. — Você está melhor?
— Sim. — Lily disse e sua voz era rouca e quase inaudível. Ela limpou a garganta na tentativa de afastar o nó que parecia ter se instalado ali. — Sim, eu estou melhor. Obrigada por me ajudarem, eu-
— Oh, pelo amor de Deus, cale a boca! — Marlene, que a estivera observando com olhos largos e vítreos, finalmente deixou escapar, fazendo com que tanto Lily quanto Alice se assustassem. — Você não precisa agradecer por te ajudarmos! Nós somos suas amigas, é nossa obrigação! E- Oh meu Deus, Lily. Me desculpe! — A garota começou a soluçar, lágrimas grossas escorrendo por seu rosto e borrando seu rímel. — Se não fossemos tão estúpidas, se tivéssemos percebido antes do que se tratava- — Marlene meneou a cabeça, claramente brava consigo mesma. — Eu nunca teria falado com você como fiz naquele dia. Sempre pensei que você tivesse ansiedade, mas eu não imaginei que fosse assim. Lily, você não estava respirando! E eu fiquei tão assustada, porque eu pensei que- eu pensei que você fosse- — E então mais lágrimas vieram, impedindo-a de falar.
Sem um segundo pensamento, Lily e Alice se jogaram em sua direção, abraçando-a e transformando-se em uma bola de membros e lágrimas.
— Tudo está bem. — Lily murmurou contra os cabelos de Marlene que a agarrava com força. — Tudo está bem. Eu estou bem. Eu estou bem aqui. Eu estou bem.
E, honestamente, ela esperava que fosse verdade.
—--
Algumas horas mais tarde, depois que as três haviam se acalmado o suficiente para decidirem que não seria saudável continuar com aquela discussão naquele momento – não quando Lily não conseguia falar sobre seu passado sem sufocar quase até a morte – Marlene e Alice fizeram-na prometer que iria em um terapeuta e, infelizmente, apesar das diversas desculpas que dera, Lily sabia que era uma causa perdida.
Talvez, ela pensou, talvez ajudasse.
E, do jeito que Lily se sentia: crua, fria e instável, ela imaginou que seria bom falar com alguém que soubesse o que diabos estava acontecendo.
Mesmo que a assustasse fodidamente só de pensar em ser analisada.
Todas as três se encontravam deitadas e abraçadas em um ninho feito de cobertores e travesseiros na sala onde SKAM passava na TV e foi só então que Lily lembrou do pote de biscoitos que acabara caindo ao lado da poltrona em que estivera sentada no momento em que se erguera mais cedo. Levantando-se do meio dos cobertores e recebendo olhares confusos das garotas, Lily pegou o pote e voltou até elas, abrindo-o e inclinando-o em sua direção.
— Isso são cupcakes? — Alice perguntou, empolgada enquanto puxava um bolinho para si.
— Não são apenas cupcakes, Alice. São os melhores cupcakes que você vai provar. — Lily disse e, sorrindo de forma marota, ela adicionou após Marlene pegar o seu do pote: — E vocês sabem por quê?
— Foram feitos por seres mágicos? — Marlene brincou, mas então deu uma mordida no bolinho e gemeu de prazer. — Oh meu Deus, isso aqui é a perfeição em forma de doce.
— É o que eu estava dizendo. — Lily riu. — Foi James Potter quem fez e mandou para vocês.
De todas as reações que esperava, ter cupcake cuspido em seu rosto não era uma delas, especialmente porque era um desperdício sem tamanho. Mas Alice e Marlene estavam gritando e Lily estava começando a se preocupar que talvez elas morressem.
— James Potter? James Fucking Potter? Do The Marauders? — Alice gritou.
— OH MEU DEUS! — Marlene ergueu-se e começou a pular sobre os travesseiros. Até que, por fim, ela parou e estreitou os olhos para Lily. — E como diabos James Potter te deu esses cupcakes, Lily?
— OH MEU DEUS! — Alice gritou, erguendo-se também. — VOCÊS ESTÃO NAMORANDO! — E haviam estrelas em seus olhos.
— NÃO! Não, não, não! — Lily sentiu as orelhas esquentarem e recebeu dois arqueares de sobrancelha incrédulos ao negar. — Nós somos amigos, tudo bem?
— Amigos. Que se beijam. Certo. — Marlene bufou em incredulidade, fazendo com que Alice soltasse uma risadinha.
Lily rolou os olhos para elas, mas imaginou que merecia tal comportamento, afinal não fora capaz de explicar o que estava acontecendo entre os dois desde o começo para suas amigas (e evitara bastante o assunto também).
— Certo, sentem aqui. — Lily disse, no que ambas fizeram muito rapidamente, muito dispostas a ouvirem histórias envolvendo um de seus ídolos. — James e eu somos, de fato, amigos. Não vou negar e dizer que não rolou um clima entre nós, porque existem milhares de fotos dos nossos beijos por toda a internet. Mas foi só isso, tudo bem? No primeiro dia nós nos beijamos porque estávamos ambos bêbados e eu nem fazia ideia de quem ele era. Depois-
— TEVE OUTRA VEZ? — Marlene arregalou os olhos.
— EU SABIA! — Alice gritou novamente e, honestamente, Lily queria enfiar um travesseiro em suas bocas para obrigá-las a parar de gritar.
— Shiu! Sim, houve outra vez. — Lily suspirou, rolando os olhos para as expressões conhecedoras de suas amigas. — No dia da entrevista, quando as fãs invadiram a HRS nós fugimos juntos e acabamos em um pub lá perto. Começamos a beber e aconteceu de novo. Nós voltamos para cá, pois James disse que os paparazzi provavelmente estariam esperando por ele em seu apartamento, já que eles sabiam onde ele morava. Então nós apenas dormimos. E foi isso.
Tanto Alice quanto Marlene estreitaram os olhos para ela, mas Lily apenas deu de ombros, imaginando que não havia muito o que pudesse fazer para fazê-las acreditar.
— Certo... digamos que eu acredito nisso... E os cupcakes? — Marlene disse, inclinando-se para Lily e arqueando uma sobrancelha. — Quando ele te deu isso?
— Hoje. Na verdade, pouco antes de eu entrar no apartamento. Ele estava lá na frente e disse que queria me ver.
— Por quê? — Ambas perguntaram e Lily estremeceu, afinal de contas...
— Eu não sei. Ele disse que não sabia também... só apareceu aqui e disse que queria me ver. E foi isso.
— Oh... — Marlene tinha um sorrisinho irritante nos lábios. — Por que é isso que amigos fazem, certo?
— Ah, cale a boca, Marlene! — Lily bufou e jogou um travesseiro em sua direção. — Nós conversamos, tudo bem? Nós somos apenas amigos. É tudo. Eu realmente não me sinto preparada para estar em um relacionamento agora. Ainda mais se for com um popstar com problemas de gestão.
Parecendo entender seus motivos, tanto Alice quanto Marlene pararam de zombá-la, aproximando-se e abraçando-a novamente.
E então-
Então Marlene gritou.
— OH MEU DEUS, JAMES POTTER ME DEU UM CUPCAKE. — E desmaiou novamente, porque aparentemente, aquele era o efeito que James Potter tinha sobre ela.
Lily não podia dizer que era muito diferente com ela, afinal.
[HOGWARTS RADIO STUDIO | SEXTA-FEIRA – 20 DE OUTUBRO, 2017]
— MOODY! — Lily gritou assim que adentrou o estúdio do TAS e deparou-se com o seu colega de trabalho e, também, um de seus melhores amigos. — Seu filho da mãe! Nós trocamos inúmeras mensagens e você não disse nada! Por que não me disse que estava vindo?
— Qual seria a graça, Evans? A melhor parte de tudo isso é poder ver essa sua cara feia cheia de surpresa ao me ver aqui. — Moody, que estivera sentado em sua cadeira habitual (a mesma que Lily utilizara nos últimos dias enquanto apresentava o TAS), sorriu para ela e então se ergueu e-
— Oh meu Deus, Moody! Você está com a prótese! — Lily disse e então, como parecia muito comum nos últimos dias, sentiu seus olhos encherem de lágrimas, mas diferente de tudo, eram de alegria porque, oh meu Deus, Moody estava caminhando até ela para abraçá-la e Lily estava tão, tão orgulhosa. — Eu estou tão orgulhosa de você! — Ela externou seus pensamentos, recebendo mais um aperto no abraço antes de ele soltá-la e afastar-se para encará-la.
Os olhos dele brilhavam também, mas os dois fingiram que ninguém estava vendo.
— Dra. Pomfrey teria me matado se eu não usasse, não é? E você não iria parar de me encher o saco. Então eu fui meio obrigado a isso, hm? — Seu tom de voz era rabugento, mas a expressão em seus olhos indicava que ele não estava nada bravo.
— Bem, nós queremos o que é o melhor para você, seu velho chato. — Lily retrucou carinhosamente e então ambos se encaminharam para as cadeiras, sentando-se confortavelmente para que pudessem conversar.
— Mais respeito com os mais velhos, criança. — Moody bufou, mas sorriu. — Eu acompanhei o programa enquanto estive fora. Você não foi tão ruim quanto achei que fosse.
— Fico impressionada com sua fé em minhas capacidades. — Lily disse e recebeu um rolar de olhos como resposta.
— Na verdade, Evans, eu estava esperando para poder falar com você sobre as suas capacidades e, já que você está aqui agora, acho que podemos começar antes de eu começar a indagar sobre certas fotos que vi percorrendo a internet. — Oh, Deus, é claro que Moody, de todas as pessoas, saberia sobre aquilo. Afinal de contas, mesmo que ele negasse até a morte e dissesse que era apenas pesquisa para seu trabalho, Moody era um velho fofoqueiro que amava estar por dentro das “novidades” do mundo das celebridades.
Lily gemeu.
— Certo...
— Não pareça tão empolgada, Evans. — Moody rolou os olhos para ela, divertindo-se com sua reação. — Enfim, assuntos importantes primeiro: percebemos que o TAS teve as melhores audiências do ano nos últimos dias e recebemos muitos elogios sobre você e o seu carisma. Conversei com McGonagall e nós dois chegamos à conclusão de que seria muito mais producente se você fosse transferida para o TAS a partir de agora. — O tom de voz de Moody era sério, assim como seu rosto.
Lily sentiu seus olhos aumentarem cem vezes.
— Você não pode estar falando sério! — Foi o que ela conseguiu dizer, porque não podia ser verdade, podia?
— Não seja tão estúpida, Evans! — Moody bufou. — Vamos lá, todos sabem que eu pretendo me aposentar daqui a um ano ou pouco mais. Eu preciso de uma sucessora e eu quero que seja você. Sem falar que o público ama quando estamos juntos no programa e, apesar de você ser uma insuportável, a voz do povo é a voz de Deus, certo? — Ele estava sorrindo agora, fazendo com que ela sorrisse em resposta e praticamente pulasse em sua direção.
— Você é a pessoa mais estúpida do mundo! Vai ser uma honra trabalhar no TAS com você, Moody.
— Não sei se posso dizer o mesmo, mas-
— Oh, cale a boca, velhote! — Lily resmungou, mas recebeu uma gargalhada em resposta.
Tudo estava bem. Tudo ficaria bem.
—--
(21:30) Frank: Lily, eu vou sair com alguns amigos. Você quer vir? Posso passar na HRS para te buscar.
(21:31) Lily: Desculpe, Frank, mas estou muito ocupada. Você está falando com a mais nova apresentadora OFICIAL do The Aurores Show. Estou assinando contratos e tudo o mais!!!!!
(21:31) Frank: Você está brincando?
(21:31) Frank: OH MEU DEUS, LILY! ISSO É INCRÍVEL!
(21:32) Frank: Estou muito orgulhoso de você! Eu sempre soube que você conseguiria! YAY
(21:33) Frank: E o Show do Chá da Manhã? Você vai trabalhar nele também?
(21:34) Lily: Não :(
(21:34) Lily: Como assumir o TAS é muita responsabilidade, vou participar com o Moody das reuniões e tudo o mais, então não vou ter tempo para o SCM. Dorcas vai assumir e ela é incrível! Vai ser um sucesso!
(21:35) Lily: Sem falar que embora eu amasse o SCM eu ODIAVA acordar cedo. E EU VOU GANHAR UM AUMENTO!
(21:36) Frank: Como se você precisasse de dinheiro, certo *rola os olhos*
(21:36) Lily: Cale a boca!
(21:36) Lily: E boa festa! Não beba muito! Cuidado com quem você anda e todo aquele blablabla. Oh! Vou dormir no apartamento hoje, então fique livre para levar *amigas* para a casa. SÓ LIMPE DEPOIS!!!
(21:37) Frank: Foda-se! Você sabe que eu não vou levar ninguém e você sabe o porquê!!!!
(21:38) Lily: HAHAHAHA Amo você, Frankenstein! Se comporte, sim?
(21:39) Frank: Também te amo, Sally! Bom trabalho ♥
—--
[HOGSMEADE PLACE, 713 | SEXTA-FEIRA – 20 DE OUTUBRO, 2017]
— Vocês estão levando casaco? — Mary perguntou enquanto observava os dois garotos se encaminharem em direção à saída.
— Sim, mãe. — Peter respondeu com um rolar de olhos, mas sorriu carinhosamente para a garota antes de abrir a porta e sair.
— Amo você, Mary. Não deixe esses dois destruírem o apartamento, certo? — James, que seguia atrás de Peter, disse.
— Amo você também, Jay. Vou tentar o meu melhor para controlar esses dois. — Ela disse e recebeu dois “hey” provindos do quarto. Mary e James rolaram os olhos e então sorriram entre si.
— Tchau. Boa noite. Tome o seu medicamento! — James disse e então ele estava saindo também.
— Como eles ousam dizer que vamos destruir o apartamento? — Sirius, que tinha uma toalha enrolada em sua cintura e o torso molhado indicando que acabara de sair do banho, bufou ao caminhar até a sala.
— Talvez porque vocês já tenham feito estragos antes? — Mary arqueou uma sobrancelha ao perceber Remus, que também estava de toalha, caminhar até estar ao lado de Sirius.
— Nós nunca estragamos todo o apartamento. — Remus deu de ombros.
— Não, não. Só o quarto. — Mary riu ao perceber os dois garotos corarem.
— Cale a boca, MacDonald. — Sirius bufou e então caminhou até a cozinha, retornando com um copo com água e dois comprimidos em sua mão. — Vamos lá, tome isso aqui e depois cama!
— Oh, Deus, embora vocês realmente sejam muito gostosos e provocativos ao andarem por aí só de toalha e com os músculos de fora, eu não acho que estou bem o suficiente para um threesome hoje, garotos. Embora eu tenha certeza de que possa assisti-los, então... — Mary disse, fazendo com que Sirius gargalhasse e Remus corasse ainda mais.
— Cale a boca, MacDonald. — Remus resmungou, mas se aproximou de onde ela estava, esticando as mãos para tocar sua testa e avaliar sua temperatura. — Você está quente.
— Obrigada, Remie. Você também.
— Uma boa observação, Mary. — Sirius esticou a mão para que pudessem fazer high five e então ambos estavam gargalhando enquanto Remus apenas rolava os olhos.
— Vamos lá, vocês dois. É tarde e a Mary precisa dormir para melhorar. — Remus disse e a ajudou a levantar, segurando-a pela cintura e caminhando junto dela até o quarto (o que era totalmente desnecessário, mas, bem, ela não iria reclamar, certo? Ainda mais quando o garoto estava sem camisa e molhado).
Quando ela estava, por fim, na cama, Sirius e Remus beijaram sua testa e desejaram-na boa noite e Mary precisou morder a língua para não acabar dizendo o tanto que pareciam pais preocupados.
Esticando-se em direção ao abajur, Mary notou seu celular vibrar e, ao pegá-lo, sentiu um aperto no peito ao perceber que era mais uma mensagem de Lily.
Ela se sentia péssima por está-la ignorando, mas a verdade era que Mary se sentia culpada demais por ter mentido – ou melhor, ocultado a verdade— sobre o The Marauders para Lily. E se sentia ainda pior diante da possibilidade de ter de continuar mentindo para a garota sobre seu envolvimento com os garotos, afinal, apesar de tão pouco tempo, Mary já gostava muito de Lily e se havia algo que ela odiava mais do que a Riddle Management, isso era mentir para seus amigos.
Soltando um longo suspiro, Mary deixou o celular sobre a mesinha sem abrir a mensagem, apagou a luz e deitou-se contra os travesseiros, imaginando se a culpa a deixaria dormir, afinal.
Bem, se não deixasse, pelo menos os medicamentos a ajudariam com isso.
—--
— Hey. — Remus sussurrou no quarto semiescuro, chamando a atenção de Sirius que, embora estivesse com olhos fechados, ainda não estava dormindo.
— Hey. — Sirius respondeu, porém, sem abrir os olhos.
— Você tem estado quieto nos últimos dias. — Remus disse e esticou uma mão para afastar os cabelos de Sirius que caíam em seu rosto. — Isso é por causa do Profeta Diário? Ou tem algo mais?
Durante longos segundos, tudo ficou em silêncio e Remus imaginou que, talvez, Sirius não respondesse.
E tudo bem.
Ele estava acostumado o suficiente com os humores do garoto para saber que, assim que estivesse pronto, ele falaria.
— Também. — Sirius disse, por fim, soltando um longo suspiro de frustração e se aproximando um pouco mais de Remus. — É um pouco de tudo na verdade. São os contratos de James. Os DOIS contratos dele, como se um só não fosse ruim o suficiente. É o fato de que ficam inventando mentiras sobre o Peter, tratando-o como se ele não fosse importante e ignorando completamente o fato de que ele é uma pessoa incrível. É o fato de que eu sou punido por dizer uma verdade que nem deveria doer e que, por conta disso, agora preciso agir como se estivesse roubando a namorada do meu melhor amigo. — Sirius bufou e então colocou sua mão sobre a de Remus que ainda estava em seu rosto. — E porque, mesmo que a maioria dos fãs desconfiem e apoiem, mesmo com todas as teorias e tweets, mesmo assim... ainda temos que mentir. E então tem a Mary que fica no fogo cruzado e tem que aguentar tanta merda por causa disso.
Remus, que escutava tudo com o peito apertado, fechou o espaço entre eles e o apertou em um abraço, acariciando os longos cabelos de Sirius enquanto o sentia estremecer contra si.
Ele odiava que Sirius quase nunca chorasse por pensar que pareceria fraco, o que apenas fazia com que o garoto sofresse ainda mais ao tentar esconder tanta emoção.
E Remus odiava ainda mais que houvessem motivos para Sirius chorar.
— Eu odeio tudo isso também, Pads. — Remus murmurou contra seus cabelos, sentindo as respirações entrecortadas de Sirius contra o seu peito.
— É como se nunca ganhássemos. É como se, toda vez que fizéssemos uma jogada, percebêssemos que eles estão duas à frente. Eu fico imaginando se falta muito para o xeque mate.
Sem saber o que responder, afinal o que Sirius havia dito era exatamente o que ele pensava, Remus apenas se afastou o suficiente para poder segurar o rosto dele entre suas mãos e inclinar-se até que estivesse com sua testa junto da dele.
— Mesmo que tudo acabe, mesmo assim... eu estou aqui, ok? — Remus murmurou, fitando os olhos cinzentos que tanto adorava e que pareciam adorá-lo de volta.
— Eu sei. É o que me mantém são. — Sirius respondeu e sorriu levemente. — Eu amo você.
— Eu também te amo. — Remus disse e então, com a facilidade praticada de duas pessoas que se conheciam há anos, que estavam juntas há anos, eles uniram seus lábios, beijando-se e, como todas as vezes anteriores, sempre parecia melhor.
—--
[THREE BROOMSTICKS | SÁBADO – 21 DE OUTUBRO, 2017]
Havia música e haviam corpos dançando e havia muito álcool também e, ainda assim, James estava entediado.
— Oh meu Deus, eu quero ir embora, Pete! — James resmungou pelo que deveria ser a milésima vez nas últimas horas.
— Prongs, você está sendo idiota. — Peter respondeu, também pelo que parecia ser a milésima vez e rolou os olhos para James. — Você ainda nem está bêbado, cara! Vamos lá, vamos no bar!
— Eu não quero beber mais. — James gemeu, mas acompanhou o amigo mesmo assim, sabendo que Peter estava bêbado demais para conseguir caminhar sem acabar se estatelando no chão.
— OI! — Peter praticamente berrou para o barman, fazendo com que o homem quase virasse o drink que estava servindo e lançasse um olhar levemente irritado em sua direção. Isto é, até que ele pareceu reconhecer Peter (afinal ele ia lá pelo menos uma vez por semana quando estava em Londres) e sua expressão suavizou.
— Me desculpe, cara, ele está bêbado. — James disse para o homem que apenas balançou a cabeça em diversão. — Você pode me ver duas garrafas d’água?
— Não seja tolo, James. Ninguém quer água. Ninguém gosta de água. As pessoas querem beber, Potter. Porque as pessoas só são felizes quando bebem. — Peter disse tudo muito rápido e muito enrolado e James só queria abraça-lo e fazê-lo dormir, porque uma pessoa que era tão boa quanto Peter não deveria dizer que só é feliz quando bebe.
— Todos amam água, Peter. É vital, lembra?
— Álcool também, James.
Rindo, James apenas agradeceu o barman que depositara as duas garrafas logo à sua frente e então obrigou Peter a tomar uma inteira.
O Three Broomsticks não estava tão cheio, apesar de ser uma madrugada de sábado. Aparentemente havia um evento não muito longe dali, o que havia feito com que não houvessem tantas pessoas no pub, embora, é claro, ainda estivesse cheio.
James gostava dali porque o lugar lhe trazia boas recordações (se beijar Lily pela primeira vez era uma delas, então ninguém precisava saber, certo?) e geralmente as pessoas, apesar de o reconhecerem, o respeitavam o suficiente para deixá-lo em paz.
Ele estava rindo enquanto terminava de dar a segunda garrafa de água para Peter – vitória, irmãos! – quando uma voz que era muito conhecida soou bem atrás de onde ele estava.
— Hey, cara, uma dose de tequila, por favor. — A voz pediu e, sem conseguir se controlar, James voltou-se em sua direção apenas para dar de cara com-
— OH MEU DEUS, JAMES, É O FRANK LONGBOTTOM! — Peter praticamente se jogou sobre o ombro de James, apoiando-se levemente enquanto apontava para o homem de forma nada discreta.
James quis morrer.
— Eu quero morrer. — Ele externou seus pensamentos, recebendo um sorriso conhecido de Frank.
— Ora, ora, se não são dois quartos da maior boyband da atualidade? — O garoto se aproximou, mais baixo que James, cabelos e olhos escuros e um sorriso muito conhecedor. — James Potter e Peter Pettigrew. É bom ver vocês, caras!
— É incrível te ver também, Frank Longbottom! — Peter disse e então, afastando-se bamboleante de James, atirou-se sobre o outro garoto, praticamente esmagando-o em um abraço.
James realmente queria ser enterrado naquele momento.
— Me desculpe por isso, ele está muito bêbado. — James murmurou ao puxar Peter para o seu lado novamente, recebendo um beijo molhado em sua bochecha ao fazê-lo.
Peter era um bêbado muito carinhoso. James estaria rindo disso se Frank Longbottom, apenas o seu maior ídolo da atualidade e, também, o melhor amigo de infância da sua atual crush não estivesse bem na sua frente, encarando-o de um jeito muito divertido.
— Tudo bem, cara. Todos nós fazemos coisas estúpidas quando estamos bêbados, certo? — Frank comentou de forma sugestiva.
— Nem me fala cara. — James suspirou quando percebeu que, em seu descuido, Peter havia conseguido um novo drink com o barman. — Oh meu Deus, Peter, pare com isso!
— Não! Você precisa beber, James! Você não é divertido quando não está bêbado! Beba! — E então Peter estava praticamente jogando o copo contra a boca de James, virando metade do drink na camisa de James e a outra metade em sua boca. — Yay! — Peter bateu palmas, alegre como uma criança em dia de Natal.
— Eu te odeio. — James disse para Peter, embora um sorriso estivesse teimosamente escapando de seus lábios ao receber mais alguns beijos de seu amigo bêbado. — Ugh, chega!
— Você me ama! — Peter apontou diretamente para o rosto de James e então voltou-se para Frank que observava aquilo como se fosse a melhor coisa desde a invenção da Netflix. — Ele me ama, Frank Longbottom! — E, dizendo aquilo, desembaraçou-se de James e se jogou na multidão.
James apenas suspirou. Ele conhecia uma batalha perdida quando via uma.
— Ele parece feliz, heim? — Frank disse, rindo enquanto observava Peter dançar com duas garotas.
— Segundo ele, apenas bêbados são felizes. — James deu de ombros e então se recostou contra o balcão, sentindo-se muito esquisito por estar tão perto de Frank LONGBOTTOM.
— Então... — Frank começou a dizer, fazendo com que James se voltasse para encará-lo novamente. — Nós vamos fingir que você nunca beijou minha melhor amiga ou podemos falar sobre isso?
Oh. Meu. Deus.
James definitivamente teria seus pedidos atendidos e não sobreviveria àquela noite.
— Huh- bem, eu- não sei? — James arregalou os olhos, encarando o garoto e imaginando se aquelas cenas de Frank lutando boxe em um de seus clipes estavam lá porque ele realmente lutava ou se era apenas encenação. Ele realmente esperava que fosse a última. — Quero dizer, se você quiser falar sobre isso por mim tudo bem? — Não queira falar sobre isso, não queira falar sobre isso, não queira-
— Ótimo, então vamos falar sobre isso. — Frank se apoiou sobre o balcão do bar e fez sinal para que o barman trouxesse mais duas cervejas. O garoto deu um dos copos para James que, dada a situação, bebeu metade do líquido em um gole.
— Certo. Vamos falar sobre isso. — James concordou, rezando para que o álcool subisse para sua cabeça rapidamente.
— Quais são suas intenções com a Lily, Potter? — Frank perguntou sem rodeios.
— As melhores. — James respondeu e logo se arrependeu ao ver a sobrancelha arqueada do garoto. — Quero dizer, eu e ela não temos nada! Nós somos apenas amigos-
— Amigos? Que se beijam? Eu não sabia que amigos faziam isso. — O outro disse com o sorrisinho irônico transparecendo em seus lábios.
Uma parte estúpida de James ficou feliz pela confirmação de que para Frank amigos não se beijavam, pois aquilo significava que ele e Lily não faziam isso.
A outra parte dele estava apenas rezando para conseguir sobreviver até o final do interrogatório.
— Uh, bem, na verdade nós não tínhamos conversado nada até ontem, então... — Ele deu de ombros, tentando parecer desinteressado, embora a verdade é que estava suando frio. Onde diabos estava Peter-bêbado quando ele precisava?
— Oh, sim, ela me disse. — Frank assentiu, parecendo achar divertido o comportamento de James.
— Ela... disse? — James não sabia como se sentir sobre aquilo, mas imaginou que, como Frank era amigo de infância de Lily, eles deviam compartilhar tudo.
— Sim. E, na verdade, suas reações foram bem parecidas ao me contar. — Frank meneou a cabeça e então voltou-se para ele, sério. — Só vou dizer uma vez, Potter, portanto preste atenção, sim? Se você quebrar o coração da Lily ou fizer qualquer coisa de errado para ela, eu juro por Deus que eu acabo com você. — Seus olhos brilhavam com perigo e James não duvidou nem por um segundo de que Frank falava sério.
— Eu prometo que não vou magoá-la. — James disse de forma solene, sabendo que ele precisava ter a confiança de Frank se pretendesse ficar por perto da garota por mais tempo.
E ele pretendia.
Frank encarou-o por mais alguns instantes, parecendo avaliar sua alma através de seus olhos. E então, ele sorriu.
— Isso é ótimo, cara. Vamos beber! — Dizendo isso, chamou o barman novamente e pediu mais uma rodada de cerveja.
E, bem, quem era James para negar bebidas com o seu ídolo, certo?
—--
— OH MEU DEUS! — O grito ensurdecedor fez com que James se arrepiasse e gemesse devido a dor que pareceu atravessar sua cabeça.
— Quê? O quê? — Ele resmungou contra o travesseiro que estava diretamente contra o seu rosto.
— Oh meu Deus, esse é o Frank Longbottom? O QUE DIABOS FRANK LONGBOTTOM ESTÁ FAZENDO NO SOFÁ DA NOSSA SALA? — Mary indagou, fazendo com que ele finalmente abrisse os olhos e percebesse que já era dia e que ele estava, na verdade, deitado no sofá da sala e, ao seu lado, deitado sobre o tapete fofo que Sirius decidira gastar milhares de libras para ter, Frank Longbottom se encontrava acordando.
— Minha cabeça está me matando. — Frank gemeu e estremeceu ao sentar-se lentamente contra o sofá e erguer os olhos para Mary. — Hey.
Mary, que estava pálida, arregalou ainda mais os olhos e simplesmente ficou lá, a boca aberta enquanto encarava Frank como se não pudesse acreditar.
James gostaria de ter forças o suficiente para tirar fotos de sua reação, mas, infelizmente, ele não estava conseguindo sequer mover seus braços.
— Relaxa, Mary. — Peter, que saia da cozinha com duas canecas na mão e que parecia injustamente sem ressaca (o que era uma merda, porque ele fora o que mais bebera entre os três na noite anterior), caminhou até onde os dois garotos se encontravam e esticou-as para eles. — Bebam, é café.
— Graças a Deus. — Frank murmurou enquanto pegava sua caneca e bebia o líquido avidamente. — Obrigada, Peter, você é um anjo.
James, que finalmente conseguira sentar-se contra as almofadas e pegar a caneca, sorriu fracamente para Peter, sentindo como se todos os seus músculos faciais protestassem devido ao movimento. Ele tomou o café e agradeceu aos deuses ao sentir o líquido descer por sua traqueia fazendo com que parecesse um pouco mais vivo.
— Hey, gente- esse é o Frank Longbottom? — Sirius, que estava vindo de seu quarto usando uma camiseta rasgada e calças de moletom (e ainda assim parecendo injustamente um maldito modelo), parou em seus trilhos e arregalou os olhos ao perceber o cantor sentado no tapete da sala.
— Hey, Sirius! — Frank, que parecia muito melhor do que minutos atrás, sorriu largamente para o garoto. — Bom dia!
Agindo exatamente como Mary, Sirius ficou apenas lá, boquiaberto e encarando.
James começou a rir e Frank o encarou com estranheza.
— Eles estão bem?
— Eles são seus fãs, cara. Desculpe por isso. — James comentou e ouviu uma risada provinda do corredor. Ao erguer os olhos, Remus apareceu, parecendo divertido demais com toda a situação.
— Eles são fãs do Frank? E você, James? Eu lembro perfeitamente de ver algumas lágrimas quando fomos no show do Frank ano passado e-
— Cale a boca, Lupin! — James conseguiu reunir forças para jogar uma almofada em sua direção, fazendo-o bufar.
— Owun, isso é fofo, Potter. — Frank brincou, recebendo um dedo do meio como resposta.
Sirius, que parecia muito mais composto, sorriu para Remus com gratidão.
— Hey, Remus! — Frank cumprimentou-o também, muito simpático.
— Hey, Frank!
— Ok, tudo bem. Tudo está muito bem. Mas o que diabos está acontecendo? Não que eu não esteja feliz de ter o meu ídolo deitado no chão da sala, mas- que diabos? — Mary recuperou a voz e indagou, olhando de Peter para James e depois para Frank.
— Nos encontramos no pub. — James disse.
— E então nós bebemos juntos. — Peter complementou.
— E eu não lembro muito mais depois disso. — Frank concluiu.
Mary, Remus e Sirius apenas os encararam por alguns instantes, até que, por fim, começaram a rir.
— Certo. Eu vou fazer o café e, vocês três, por favor, tomem um banho. — Remus disse com as duas mãos na cintura e uma postura muito paternal antes de ir para a cozinha.
—--
Eram quase três da tarde quando aconteceu.
Frank, que tomara um banho e estava vestindo as roupas de Peter, acabara ficando o resto da manhã por lá e então para o almoço e, quando eles perceberam, estavam em uma competição acirrada de FIFA. O cara era legal, divertido e muito fácil de se gostar. Assim que a surpresa passou, tanto Sirius quanto Mary passaram muito tempo conversando com Frank e James poderia apostar um rim no fato de que Remus estivera com muito ciúmes do cara até que ele percebeu que, de três palavras que ele falava, pelo menos quatro eram sobre uma tal de Alice (que James assumiu ser uma das amigas de Lily).
Estava sendo um dia bom.
Na verdade, tranquilo como há muito tempo eles não tinham.
Ao olhar para o lado e ver seus amigos se divertindo juntos, James sentiu seu peito encher de calor.
Mary estava deitada no colo de Sirius enquanto este trançava seus cabelos. Do outro lado, Remus e Frank conversavam animadamente sobre percussão enquanto Peter estava jogado sobre o tapete, o celular com volume alto o suficiente para que James soubesse que ele estava ouvindo rádio.
Tudo estava bem.
Até que-
— Hey, James, a garota que roubou sua namorada vai dar uma entrevista agora! — Peter disse, atraindo a atenção de todos para si. — Vamos ver o que ela tem para dizer.
— Oh, é a Vance? — Sirius rapidamente empertigou-se, parando de fazer as tranças no cabelo de Mary. — Ela vai falar sobre a saída dela?
— Isso vai ser bom! — Remus concordou com entusiasmo.
Todos pareciam muito interessados na situação – até mesmo James, que queria ouvir o ponto de vista de alguém da indústria que conseguira se livrar das correntes de sua gerência e fora capaz de assumir sua sexualidade.
Todos estavam interessados, exceto, aparentemente, por Frank.
James notou que ele estava muito quieto. Seus olhos estavam estreitos e ele não parecia muito empolgado para ouvi-la. Franzindo o cenho, James estava prestes a perguntar o que estava acontecendo, mas então Peter aumentou o volume e a voz de Emmeline foi ouvida.
—... foi bastante difícil chegar a essa decisão, mas valeu a pena. — A garota dizia.
— Você acha que estar namorando com Gwen influenciou sua decisão? — O entrevistador perguntou, interessado.
— Sim. Quero dizer, eu decidi “sair do armário” por mim e não por ela, mas ter uma pessoa para segurar a minha mão quando as coisas se tornam mais difíceis, bem, isso definitivamente foi uma das coisas que mais ajudou a manter minha determinação.
— O relacionamento de vocês parece bastante estável. Você diria que vocês são algo que vai durar?
— Eu acho que todos nós entramos em relacionamentos esperando que durem, não é? Mas sim, sim. Gwen e eu somos algo que vai durar. Nós somos mais fortes juntas. Ela me faz mais forte.
— Oh, isso foi uma citação da música ‘Strong’ do The Marauders ou foi impressão minha? — O entrevistador parecia muito divertido com o rumo da conversa e James, por outro lado, rolou os olhos, pois sabia exatamente para onde aquilo estava indo.
Emmeline riu antes de responder.
— Oh, não foi intencional, mas acabei citando, sim? Honestamente, essa é uma das músicas que mais gosto deles.
— Você não nutriu nenhum mal pensamento sobre eles? Principalmente porque Gwen namorou James Potter?
— Eu não diria isso. Não conheço ele ou qualquer um dos outros o suficiente para poder julgar. Nós não tivemos oportunidade de nos encontrar nos últimos anos, apesar de trabalharmos no mesmo ramo. E, pelo que Gwen me contou, ele era um cara legal e o término foi ok. Eles não estão mais juntos agora, certo? Não tem por que ficar criando birra onde não existe nada.
— É uma atitude bastante madura. — O entrevistador concordou. — Mas, ainda sobre o The Marauders, você ouviu falar sobre a briga entre Black e Potter?
Tanto James quanto Sirius franziram o cenho, desgostosos com o comentário do entrevistador. Era extremamente cansativo ter sua amizade questionada basicamente todos os dias pela imprensa, desde a publicação do Profeta Diário.
— Oh? Sério? Eles pareciam ser tão bons amigos!
— Aparentemente eles saíram com a mesma garota.
— Oh...
— Sim. E James parece estar realmente se inspirando em Sirius ao decidir ser tão mulherengo quanto ele. No último mês ele foi fotografado com duas modelos e, em duas ocasiões foi fotografado junto de uma ruiva, também apresentadora de rádio. Numa das fotos eles estão se beijando-
— Apresentadora ruiva? Você está falando da Lily? Lily Evans? — A voz de Emmeline subiu alguns oitavos e James franziu o cenho, voltando seus olhos para Frank a fim de indagar se ela por acaso os conhecia, mas, ao olhar para o garoto, deparou-se com a sua expressão enfurecida e seu rosto extremamente pálido.
— Sim, sim! Você a conhece? Você falou como se a conhecesse e não lembro de ela ter te entrevistado...
— Ah, huh. Lily e eu, nós- ah, bem, nós somos da mesma cidade. Godric’s Hollow. Crescemos praticamente juntas, afinal a cidade é pequena-
— Então você deve conhecer Frank Longbottom também, já eles são melhores amigos de infância?
— Sim, sim. Frank estava sempre por perto também. — Emmeline parecia totalmente desconfortável agora, mas o entrevistador não parecia se importar muito com aquilo.
— Oh, isso é uma revelação e tanto! Nenhum de vocês dois mencionou essa amizade em todos os anos de carreira.
— Nós acabamos nos distanciando depois de um tempo. Com o tour e tudo o mais. Acabamos perdendo o contato. Foi isso.
— E quanto à Lily? Vocês também perderam o contato?
Houve um ofego, Emmeline limpou a garganta algumas vezes e estava claro como o dia que havia algo em tudo aquilo que ela não queria falar.
— Sim. Nós perdemos o contato.
— Oh, bem, mas voltando ao tópico anterior de conversa, James Potter e Lily foram fotografados se beijando há algumas semanas. Isso foi antes de ele ser visto com as modelos, na verdade. Ninguém sabia que era ela até que The Marauders participou do programa de rádio que ela estava apresentando. Fãs invadiram o local e eles acabaram fugindo juntos, no que foram fotografados novamente, fazendo com que os fãs ligassem a foto do beijo com as deles fugindo dos paparazzi. O que você acha dos dois como um casal?
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!— Bem, se o Potter está saindo com- você disse duas modelos, certo? Se ele está saindo com outras duas, eu não entendo o que diabos ele está fazendo com a Lily também. — O tom de voz de Emmeline era seco. Muito menos simpático do que o início da entrevista. James encolheu-se inconscientemente.
— Uma opinião bastante forte, hm? Parece que você não é muito simpática com o Potter, afinal de contas. — O entrevistador riu. — Mas talvez eles tenham apenas um affair. Ou então um relacionamento aberto. Não temos como saber, afinal não houve qualquer pronunciamento.
— Oh, bem, de qualquer forma, tenho certeza de que Lily merece melhor do que alguém que está com ela e mais outras ao mesmo tempo. Ainda mais se essa pessoa está sob os holofotes. Mas eles são adultos, certo? Sabem o que fazem.
— Sim, sim, você tem razão. Bem, pessoal, parece que falamos demais! Nós vamos ter um intervalo agora! Fiquem com o mais novo single de Emmeline Vance: Gateway Car.
E então a música começou a tocar, mas James não prestou atenção na letra, pois, naquele momento, Frank havia se erguido e estava colocando seus tênis.
— Ei, Frank, você já está indo? — Foi Peter quem perguntou, encarando o garoto com o cenho franzido.
Frank, que parecia lívido, sorriu forçadamente para Peter.
— Sim, caras, desculpem. Acabei de lembrar que tenho algo para fazer. — Ele disse e então seu celular tocou e, quando ele viu o que quer que estivesse lá, gemeu. — Merda, Marley! Ok, então, obrigada pela hospitalidade, caras, vocês foram incríveis. Foi um prazer conhecer vocês!
E, sem dizer mais nada, Frank Longbottom estava fora do apartamento.
— Que diabos? — Mary perguntou, olhando para a porta em confusão.
E, sim, era exatamente o que estava passando pela mente de James depois do modo como Emmeline falara sobre Lily em sua entrevista e da saída de Frank: que diabos?
[HOGWARTS RADIO STUDIO | SEGUNDA-FEIRA – 23 DE OUTUBRO, 2017]
Lily estava furiosa.
Seu corpo inteiro tremia de raiva e ela sabia que não estava conseguindo esconder, mas, bem, não era como se ela quisesse esconder de alguém o fato de que ela estava prestes a cometer um assassinato.
Era segunda-feira de manhã e ela acabara de sair de sua primeira reunião oficial com os organizadores do TAS quando Dorcas a parara, parecendo totalmente agitada ao encará-la com as sobrancelhas erguidas.
— Você não me disse!
Franzindo o cenho, Lily a encarara sem compreender.
— Eu não disse o quê?
— Que você conhecia Emmeline Vance! EMMELINE VANCE, LILY! Somente a minha cantora favorita! Vocês cresceram juntas e você nunca me falou! Que diabos, Lily? — Dorcas parecia chateada, seus olhos azuis brilhavam com lágrimas não derramadas.
Lily teria sentido pena se não estivesse muito perto de surtar.
— Exatamente, Dorcas! Que diabos é isso? De onde você tirou essas informações? — Lily perguntou muito rápido, sentindo sua respiração aumentar.
Não havia como as pessoas saberem sobre ela e Emmeline. Tudo havia sido apagado. Tudo. Não restara nada para que Lily pudesse recordar, exceto as próprias lembranças traiçoeiras.
Então como diabos Dorcas, de todas as pessoas, sabia sobre aquilo?
— Ontem à tarde ela deu uma entrevista para a BBC e, não conte para a McGonagall que eu estava ouvindo a concorrente, mas ela é minha cantora favorita, portanto eu acompanho tudo o que ela faz! E então eles estavam falando sobre ela e a Gwen e de repente o entrevistador começou a falar do The Marauders e depois de você e James... e ela disse que conhecia você! Eu não posso acreditar-
— Será que a entrevista já está online? — Lily indagou, começando a perceber que o comportamento completamente estranho de Frank no dia anterior, quando ele chegara depois de uma noite de bebedeira com James Potter e Peter Pettigrew (de todas as pessoas) e passara basicamente o dia inteiro a encarando como se ela estivesse prestes a desmoronar, NÃO ERA porque ele estava de ressaca, afinal. — Aquele bastardo!
— O que- quem? — Dorcas perguntou, confusa, mas Lily apenas balançou a cabeça enquanto a outra esticava o telefone onde estivera procurando o link para a entrevista. — Aqui, aqui está.
Sem pensar duas vezes, Lily deu play na entrevista, sentindo o estômago embrulhar ao ouvir a voz tão conhecida de Emmeline falando de um modo tão carinhoso sobre Gwen.
Era só que... ela costumava usar aquele tom de voz com a Lily. E era tão estúpido que ela estivesse prestando atenção em algo tão ridículo como aquilo, mas Lily... ela não conseguia controlar a própria mente.
Foi então que a entrevista mudou o foco, voltando-se para o The Marauders como Dorcas dissera e, depois, lá estava Emmeline, falando sobre Lily com tanta propriedade, de um modo tão protetor que-
Era demais, era muito. Era insuportável.
Lily devolveu o celular para Dorcas quando as palavras “perdemos o contato” ecoavam em sua mente.
— ... tenho certeza de que Lily merece melhor do que alguém que está com ela e mais outras ao mesmo tempo. Ainda mais se essa pessoa está sob os holofotes. Mas eles são adultos, certo? Sabem o que fazem.
— Sim, sim, você tem razão. Bem, pessoal, parece que falamos demais! Nós vamos ter um intervalo agora! Fiquem com o mais novo single de Emmeline Vance: Gateway Car.
Oh, sim, Emmeline tinha certeza de que Lily merecia alguém melhor? Que ela merecia alguém que não estivesse com outras ao mesmo tempo? E fora tão desprezível o modo como ela falara de James, assumindo algo sobre o garoto que ele definitivamente não era, agindo como se se importasse e-
Lily precisava sair dali.
Ela tinha certeza de que Dorcas estava falando com ela, mas não conseguia escutar porque sua mente estava a milhares de quilômetros por hora e ela estava com tanta raiva que seria capaz de matar qualquer pessoa que cruzasse em seu caminho naquele momento.
Correndo até sua sala, Lily pegou a bolsa e saiu da rádio sem se despedir de ninguém e sem se importar com isso. Puxando seu celular do bolso da calça, digitou o número conhecido sem sequer olhar, sentindo-se tremer por dentro.
— Hey, Lil’-
— Por que você não me contou, Frank? Que diabos! Por que ela falou na rádio sobre mim e você não me contou nada? Por que ninguém contou? — Lily bradou a plenos pulmões, sem se importar com quem quer que a ouvisse na rua.
— Calma, Lily, você-
— Foda-se você e a porra da sua calma! — Lily resmungou e desligou a ligação, sabendo que se continuasse poderia muito bem xingar ainda mais o garoto que, embora fosse estúpido por não contar a ela sobre a entrevista, continuava sendo seu melhor amigo.
Poucos segundos depois, seu celular vibrou novamente, mas Lily não queria saber. Ela esperou a ligação terminar e desligou o celular, atirando-o dentro da bolsa e fechando-a firmemente.
Ela caminhou a esmo pela cidade quase a manhã toda, xingando-se por praticamente não ter acessado a internet nos últimos dias devido ao monte de trabalho que precisava fazer para o TAS e o SCM, odiando o fato de ter ficado no escuro.
Era como se seu corpo inteiro estivesse cheio de energia e a única forma de gastá-la era batendo em alguma coisa. Ou, mais especificamente, alguém.
Mas como infelizmente era ilegal sair batendo em todo mundo por aí, Lily se contentou em caminhar até suas pernas doerem e, quando, por fim, aquilo aconteceu, ela sentou em um banco de uma praça qualquer, fechando os olhos com firmeza e focando em sua respiração na tentativa de diminuí-la.
Inspira, expira.
Inspira, expira.
Inspira, expira.
Seus batimentos diminuíram e sua mente pareceu acalmar também, fazendo com que ela soltasse um longo suspiro de alívio e gratidão por não ter cometido qualquer crime durante a manhã.
Quando, por fim, voltou a abrir os olhos, foi para se deparar com uma banca de revistas bastante pequena prostrada – ironicamente – bem à sua frente e que teria passado completamente batida para ela se não fosse a capa de uma delas.
E é claro, claro que era a do Profeta Diário.
Sentindo as pernas trêmulas ao se erguer, Lily se aproximou sem conseguir acreditar em seus olhos.
Ela pegou uma edição e agradeceu aos céus pela vendedora ser tão desatenta e não ter percebido que ela era a mesma da capa. Ela definitivamente não precisava daquilo também.
Numa demonstração gigantesca de autocontrole, Lily decidiu guardar a revista e ler somente quando chegasse em casa – afinal assim ela não correria o risco de desmaiar em algum lugar público ou qualquer coisa do tipo.
Lily esperou o Uber sem nem perceber o tempo passar. Ela sentia como se estivesse em outro plano, envolta em névoa ou qualquer coisa que não a deixasse prestar atenção em nada. Suas pernas haviam parado de tremer, mas Lily tinha a nítida impressão de que não estava sentindo qualquer parte de seu corpo naquele momento.
Ela subiu e desceu do carro sem trocar qualquer palavra com o motorista e, em qualquer outro dia, teria se odiado por ser tão mal-educada, mas ali, naquela segunda-feira maldita, Lily só conseguia se concentrar em respirar e manter-se viva o suficiente para colocar a chave na fechadura, girar a maçaneta, puxar a chave, entrar, fechar a porta atrás de si.
E então escorrer pela madeira até estar sentada no chão.
— Lily? — A voz de Frank a alcançou muito levemente e até aquilo parecia vir de um lugar muito distante.
Sem dar atenção para ele, Lily abriu a bolsa e puxou o exemplar da revista e, embora houvesse aquela parte esperançosa de sua mente que estivesse rezando para que tudo fosse uma peça pregada pela sua imaginação, ela sabia que aquela manchete era verdade.
Ela sabia que aquela manchete era o início do inferno em sua vida.
Mais uma vez.
Por causa da mesma pessoa.

“NOVA MÚSICA DE EMMELINE VANCE SERIA PARA LILY EVANS?” e, embaixo, a legenda “passado em comum e antiga amizade que acabou repentinamente sugere possível romance entre ambas”.
Foi como se tudo acalmasse ao seu redor. Os sons, sua respiração. Até mesmo seu corpo havia parado de tremer.
Ela estava lívida.
— Frank. — Ela conseguiu dizer com a voz rouca.
— Lily, você está-
— Frank. — Lily o interrompeu, finalmente erguendo os olhos que brilhavam com raiva contida para encarar o garoto que a observava preocupado. — Eu preciso que você peça para Kingsley conseguir o número de Emmeline. E eu preciso disso agora.
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