Ponto de Ebulição | Zutara
3 A Iʟᴜsãᴏ ᴅᴀ Pᴀᴢ
Notas iniciais

𝒦𝒶𝓉𝒶𝓇𝒶
O ruído metálico dos drones de patrulha era a nova trilha sonora do mundo.
Katara ajustou o capuz escuro sobre a cabeça, mantendo o rosto nas sombras enquanto caminhava pelas ruas úmidas do Setor 4.
Há mais de uma década, o lugar costumava ser a vibrante e caótica Ba Sing Se, agora, as antigas muralhas haviam sido cobertas com aço temperado. A magia da dobra deu lugar a cabos de fibra óptica, luzes de néon e uma ordem opressiva. O ar cheirava a ozônio e fumaça, sufocando qualquer traço da natureza.
Ela pisou em uma poça que refletia a imagem do Senhor do Fogo Ozai em um imenso telão holográfico. O rosto dele era sereno e paternal enquanto discursava para as massas.
— A verdadeira igualdade não nasce da força bruta — a voz de Ozai ecoava pelos alto-falantes da praça. — Nasce do intelecto. Por séculos, as dobras dividiram nosso mundo, criando falsos deuses e conflitos. A tecnologia nos nivelou e nos uniu. Hoje, não há Nação do Fogo, da Água ou da Terra. Há apenas uma única Nação rumo ao futuro.
Katara cerrou os punhos.
A água da poça sob suas botas vibrou de leve com sua raiva, ela respirou fundo para se acalmar. Usar a dobra era proibido; mais que isso, era suicídio. Sensores térmicos e de pressão nos postes detectariam qualquer variação elemental. Se ela movesse uma gota, um esquadrão estaria em cima dela em segundos.
A genialidade de Ozai foi entender que o terror constante gera rebelião, mas o conforto anestesia a alma.
Porém, sua "paz" precisou ser erguida sobre cinzas, ele não precisou destruir o mundo inteiro; bastou criar exemplos inesquecíveis. Vilarejos rebeldes foram sumariamente apagados, a Tribo da Água do Sul, lar de Katara e Sokka, foi desintegrada em uma única noite de bombardeios térmicos, a punição final por terem protegido Aang tantas vezes.
E então, houve a Toph.
A garota que inventou a dobra de metal recusou-se a se curvar ao Império, enfrentou esquadrões inteiros de mecas sozinha para que os insurgentes pudessem fugir. Sua execução foi transmitida ao vivo em todos os telões do planeta: um espetáculo macabro para provar que nem o metal mais forte resistia à nova era de Ozai.
Com os espíritos do mundo quebrados, o Senhor do Fogo mudou sua tática. Em vez de massacres em praça pública, ele tornou as outras culturas obsoletas. A Nação do Fogo distribuiu aquecedores, trens elétricos, remédios e energia infinita, em troca, cobrou um preço simples: o fim do primitivismo das dobras. Quem teimasse em usar os elementos era enviado para centros de reeducação, os poucos que voltavam, nunca mais sentiam sua magia.
No início, o mundo reagiu.
Células de insurgentes brotaram, movidas pelo luto, pela sede de vingança e pela esperança cega de que a chama da rebelião poderia derrubar o império.
Mas a resistência foi dizimada.
O golpe final veio quando o próprio príncipe Zuko executou seu tio, Iroh, acusado de traição e simpatia com os rebeldes, um ato brutal que provou que nenhuma figura histórica estava a salvo da lâmina do trono.
Com a morte daquele que um dia foi o símbolo de sabedoria e bondade, a espinha dorsal da rebelião estalou. A esperança virou pó, e os combatentes se reduziram a punhados de fantasmas isolados, sobrevivendo nas sombras de um mundo que aprendeu a abaixar a cabeça.
Para sobreviver, abandonaram os conflitos abertos e aprenderam a viver na penumbra: cavando túneis subterrâneos e abrigando-se nestes, hackeando redes de dados e agindo como sussurros anônimos em meio a uma sociedade que preferiu a anestesia do conforto.
— Você está chamando atenção, Katara.
A voz chiou no ponto de comunicação em sua orelha, e era Sokka.
— Eu nem sequer me movi — ela sussurrou, dobrando a esquina para entrar em um beco estreito, longe dos olhos digitais de Ozai.
— Sua frequência cardíaca subiu, os scanners da rua leem se você ficar parada com cara de quem quer matar um holograma com sua dobra. — Sokka digitava rápido no fundo. — Continue andando, o ponto de acesso fica a dois quarteirões.
Katara obedeceu, deslizando pelas sombras com agilidade. Aos vinte e quatro anos, ela não era mais a garota idealista, o tempo e as perdas a haviam transformado em uma pessoa pragmática.
Ela ainda pensava em Aang, constantemente, mas a imagem do garoto sorridente já não trazia calor, trazia apenas o frio do fracasso.
Quando Aang tentou enfrentar Ozai anos atrás, ele estava despreparado. O Senhor do Fogo antecipou o ataque, e num momento de desespero, Aang entrou no Estado Avatar e sumiu. O mundo achava que ele estava morto, mas ela sentia que ele fora preso, congelado de novo ou perdido no Mundo Espiritual.
Com os anos, o amor de infância virou uma necessidade desesperada de que ele fosse a arma de que precisavam, ela já não sentia falta do abraço dele; sentia falta da esperança que ele representava.
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𝒁𝒖𝒌𝒐
O silêncio da sala de comando era cortado apenas pelo bipe das telas de rastreamento.
Zuko estava de pé diante do painel, a luz dos monitores banhava a sua armadura negra de primeiro Comandante, destacando a cicatriz que cortava o lado esquerdo de seu rosto, um lembrete da crueldade que moldava seu mundo. Ele não piscava, seus olhos dourados acompanhavam a linha de um sinal clandestino que serpenteava pelos servidores do subsolo.
Para o mundo, ele era o executor, o monstro implacável que dizimou sua própria família em nome da ordem. Por dentro, ele não sentiu nada.
Após dez anos chafurdando no sangue e na tirania, ele havia perdido tudo: a esperança, a raiva, o ódio, não restou absolutamente nada para ele naquele mundo. Já não sabia por que se levantava todas as manhãs, mas seguia o fluxo, cumprindo ordens por pura exaustão. Alguém precisava fazer aquele trabalho sujo; e, se o império exigia um monstro, por que não ele, o melhor de todos?
— Sinal localizado, Comandante — informou um operador atrás dele. — Célula insurgente ativa no Setor 4; estão acessando o banco de dados de anomalias espirituais.
A mandíbula de Zuko tencionou, ele reconhecia aquela assinatura de código. Era a engenharia de Sokka, a marca registrada daquele que vinha desestabilizando a segurança da capital há meses.
Não era de hoje que eles se conheciam e se enfrentavam. Houve uma época em que eles haviam sido aliados, quase amigos; naquele passado distante, Zuko não lutava apenas ao lado de Sokka, mas mantinha laços de profunda amizade com todos eles.
No entanto, nada dura para sempre.
Com o sumiço do Avatar e o cerco se apertando, Zuko percebeu que precisava proteger o que lhe restava de mais precioso: descobrir onde sua mãe se encontrava. Ele precisava de esperança, não para o mundo, mas para ele.
Então veio a promessa sádica do pai: se ele voltasse para o lado da coroa e provasse sua lealdade absoluta, Ozai finalmente revelaria o que ele mais ansiava. Assim, Zuko passou a vestir a armadura de executor para cumprir o pacto sombrio com o monstro que o gerou, cortando os laços com os companheiros.
— Tranque as saídas — ordenou. — Acionem os Dragões Negros e preparem a injeção de ar térmico nos servidores.
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𝒦𝒶𝓉𝒶𝓇𝒶
O alvo da noite era o Ministério do Progresso, no subsolo ficavam os servidores centrais. Sokka, que trocara o bumerangue por decodificação, virara um dos engenheiros da Resistência, acreditava que o governo monitorava fendas espirituais ali.
— Estou nos dutos de ventilação. — a voz de Sokka soou um pouco ofegante no fone. — O caminho está limpo; desliguei os lasers térmicos, mas você tem exatamente quatro minutos antes do sistema reiniciar e os sensores ligarem de novo.
— Quatro minutos bastam. — respondeu ela.
Ela alcançou a grade de ventilação na parte de trás do prédio. Com um movimento sutil, puxou a umidade ao redor dos pinos de fixação e as congelou até ficarem quebradiças. Um empurrão leve e o metal cedeu sem som; precisava correr contra o tempo.
Ela rastejou pelos dutos escuros guiada por um mapa. Após descer dois andares, achou a sala dos servidores; o lugar brilhava em um tom azul gélido, as torres de processamento zumbiam como colmeias. Não havia guardas físicos, a Nação do Fogo confiava cegamente em seus algoritmos.
Katara foi até o terminal principal, tirou um pequeno pendrive do cinto e o conectou.
— Conectado. É com você.
— Baixando os relatórios de anomalias atmosféricas. — Sokka murmurou, com o som de teclas ao fundo. — Katara, se os picos de energia que vimos mês passado forem portais, podemos cruzar para o Mundo Espiritual. Podemos trazê-lo de volta.
Katara olhou para a barra de carregamento.
Trazer Aang de volta.
O pensamento não acelerou seu pulso, ela perguntou-se se Aang reconheceria a mulher que ela se tornou. Ela já matara para proteger sua célula e afogou soldados que tentaram matar Sokka tantas vezes que já havia perdido as contas. O pacifismo dos Nômades do Ar era um luxo que o mundo moderno não permitia.
— Achei! — Sokka exclamou em triunfo. — Achei as coordenadas de uma fenda gigante, fica nas ruínas do Templo do Ar do Oeste. A Nação do Fogo tentou esconder a área chamando de vazamento de gás, mas as leituras de energia estão absurdas.
— Copie os dados e apague os rastros. Precisamos...
De repente, a sala dos servidores mergulhou em breu, as luzes azuis morreram. O silêncio durou um segundo, quebrado por um som mecânico e pesado.
Clack. Clack. Clack.
As portas de aço da sala trancaram.
— Sokka? — Katara sussurrou, levando a mão ao cantil de água na cintura.
Apenas estática respondeu.
Luzes vermelhas de emergência piscaram, tingindo tudo de vermelho-sangue. Na tela principal, o programa de Sokka sumiu, substituído pelo emblema da família real, mas não era o rosto de Ozai, e a voz que saiu dos alto-falantes não era paternal, era rouca, profunda e carregada de um desprezo frio.
— Rastreamento de sinal concluído; célula insurgente no Setor 4. Cortem as comunicações.
Katara conhecia aquela voz.
O mundo inteiro conhecia. Era Zuko, o primeiro Comandante e príncipe herdeiro. O monstro que, para provar lealdade absoluta a Ozai, matou o próprio tio, Iroh, e executou a irmã, Azula. Ele era a espada, cortando quem ousasse sonhar com o passado.
— Katara! — A voz de Sokka chiou alta. — ...comum... os Dragões Negros estão aqui... fuja! ...armadilha... não é patrulha...
Os Dragões Negros. A guarda pessoal daquele bastardo.
As saídas de ar fecharam com um estrondo metálico, a temperatura na sala disparou em segundos. O ar virou fogo puro, projetado para fritar os circuitos e cozinhá-la viva.
Ele não quer me prender, pensou Katara, sentindo o instinto de sobrevivência gritar, ele quer apagar a gente como um vírus.
O calor era insuportável.
O suor evaporava na hora em sua pele, ela abriu o cantil com violência, chicoteando a água para fora e puxando a umidade do ar quente para formar um escudo líquido ao seu redor. Cerrou os dentes, lançou os braços para frente, convertendo o escudo de água em uma estaca de gelo maciça direto contra as portas trancadas.
O impacto foi brutal.
O gelo bateu no aço como um míssil, estilhaçando a tranca e abrindo a passagem em uma explosão de névoa e metal retorcido. Os alarmes do prédio inteiro dispararam, com luzes piscando nos corredores. Katara correu pela abertura, usando o gelo no chão para deslizar pelo mármore e ganhar velocidade. Soldados com armaduras pretas e máscaras de gás viraram a esquina apontando rifles de pulso.
— Alvo à vista! Sem fogo, ordem de neutralização elétrica! — gritou um guarda.
A ordem dele, pensou, Zuko a queria viva, mas imobilizada.
Katara não parou.
Movendo os braços em círculos, transformou o vapor do corredor em chicotes de água desarmando os dois primeiros soldados antes que atirassem. Ela se jogou contra a janela de vidro do saguão do segundo andar, no ar, dobrou a água para amortecer a queda, fazendo uma rampa de gelo na parede ao lado antes de cair em pé.
Ofegante e com o coração acelerado, ela correu e acionou o comunicador:
— Sokka! Consegui sair. Onde você está?
Silêncio.
— Sokka, responda!
Um chiado longo tomou o canal, seguido por uma respiração calma e calculada. Não era seu irmão.
— Você e seu irmão sempre fugindo, lutando uma guerra perdida. — a voz de Zuko destilava um veneno antigo, carregada do peso de uma década de caçada. — Dez anos se passaram e vocês ainda não entenderam que não há vitória. Seu namoradinho desapareceu, e o mundo de hoje não busca salvação.
A voz de Zuko estava direta em seu fone; ele havia hackeado o sinal de Sokka.
O sangue de Katara congelou.
— O que você fez com ele? — ela rosnou.
— Ele vive. Por enquanto — disse Zuko — O que procuravam nos arquivos não pertence a vocês. Se se renderem, em nome da nossa antiga irmandade prometo que a morte de vocês será rápida; não vou torturá-los para saber onde os outros ratos da Resistência se escondem.
— Eu vou matar você — prometeu ela, com a voz cheia de ódio.
Ela sabia o que ele se tornou, todos sabiam; ele não era humano; era um demônio. Eles já haviam cruzado caminhos incontáveis vezes, em um jogo implacável de gato e rato através de telas e sinais rastreados.
Ao longo dos anos, a Resistência havia minguado até restar apenas um punhado de sobreviventes desesperados. Sokka e Katara aprenderam a regra básica daquela era: esconder-se. O grande ideal de libertar o mundo já se perdera havia muito tempo; agora, a única missão da Resistência era apenas não deixar a dobra morrer, mantendo a última centelha de uma cultura viva.
Mas cruzar para o Mundo Espiritual, aquilo não era mais sobre salvar o mundo. Era a última chance. A última e desesperada esperança de trazer Aang de volta e restaurar a paz.
— Este discurso já me cansou — respondeu ele, frio. — As coordenadas que roubou não importam. Para onde quer que fugirem, eu estarei lá. Já adiamos muito nosso reencontro.
No sinal restou apenas estática.
Katara olhou para o horizonte, eles não podiam voltar para o esconderijo; Sokka devia estar indo para o Templo do Ar do Oeste, ou já fora pego. Ela tinha que apostar na primeira opção.
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