Ponto de Ebulição | Zutara
4 Hᴇʀᴅᴇɪʀᴏ Sᴀɴɢᴜɪɴáʀɪᴏ
Notas iniciais

A sala de comando do cruzador aéreo Leviatã era fria, não havia tapeçarias vermelhas ou incensos acesos para honrar os ancestrais, como nos velhos dias do antigo império. O metal polido, as telas holográficas e o silêncio absoluto ditavam as regras do novo mundo.
Zuko desconectou o cabo de interface de sua braçadeira, cortando abruptamente a ligação com Katara.
Ele permaneceu imóvel diante do painel principal, seu reflexo exibia um homem de vinte e seis anos, com o rosto cortado ao meio pela cicatriz em relevo, um lembrete físico e permanente da vez em que ousou desafiar o pai.
Não usava a coroa tradicional de príncipe herdeiro; não havia mais espaço na nova Nação para enfeites do passado ou vaidades. Em seu peito, gravado, brilhava apenas o símbolo do Sol Negro: o emblema oficial do Ministério do Progresso.
— Comandante. — A voz de seu tenente soou logo atrás dele. Zuko nem se virou, reconhecendo imediatamente os passos; era o tenente Jee, um dos poucos veteranos da antiga marinha imperial que conseguiu se curvar e se adaptar a tempo para sobreviver. — A garota conseguiu escapar do cerco no Ministério. Três drones de patrulha foram destruídos e seis guardas de elite terminaram congelados até a medula. Os nossos sistemas de contenção simplesmente falharam contra a dobra agressiva dela.
— Ela é experiente — disse Zuko. — Uma dominadora de água que conseguiu sobreviver por tantos anos na mais profunda clandestinidade não seria capturada por cordões de isolamento comuns. E quanto ao cúmplice?
— O sinal que o senhor ordenou hackear foi triangulado com sucesso. Nossas forças especiais invadiram o esconderijo, mas encontraram apenas servidores centrais completamente derretidos por ácido industrial. O rapaz ativou um protocolo de autodestruição de dados e bateu em retirada. Ele não estava mais lá quando invadimos.
Zuko apertou levemente a mandíbula, sentindo os músculos faciais retesarem. O blefe executado através do rádio minutos antes não durou o suficiente, mas cumpriu com perfeição o objetivo estratégico: desestabilizar Katara. A emoção descontrolada, como o pai fazia questão de repetir desde a sua infância, era sempre a fraqueza fatal dos seres humanos.
— Eles estão fugindo para o Templo do Ar do Oeste — declarou Zuko, virando-se lentamente para encarar o subordinado. — As coordenadas exatas que eles tentaram roubar dos nossos servidores apontam diretamente para lá. É a zona de contenção espiritual número três.
Jee engoliu em seco, hesitando.
— Senhor, as ruínas isoladas do Templo do Ar do Oeste encontram-se abandonadas e em quarentena rígida há mais de dois anos. Os níveis de radiação e ionização espiritual naquela cordilheira são absolutamente letais para qualquer sistema mecânico. Nenhuma das nossas naves de patrulha suportou aquela pressão magnética sem sofrer pane total. Aquele lugar maldito consome toda a tecnologia.
— Eles estão convencidos de que a fenda energética que se abriu naquele pico isolado é um portal ativo — ponderou Zuko. — Acreditam que podem cruzar para o outro lado e encontrar o Avatar.
Ouvir a palavra proibida fez com que a atmosfera na sala parecesse despencar de temperatura instantaneamente. O termo "Avatar" havia sido banido de qualquer registro oficial, transformado em um mero fantasma de uma era bárbara e morta. Na cartilha ideológica da nova Nação, o Avatar não passava de um símbolo arcaico do atraso, um ser patético que dependia de magia.
— Prepare imediatamente a tropa dos Dragões Negros — ordenou Zuko. — Quero o Leviatã totalmente destravado e no ar em menos de dez minutos. Rota de interceptação direta para a cordilheira oeste.
— Sim, Comandante! — Jee bateu o punho fechado contra o peito em continência militar e disparou pelo corredor.
Zuko em passos firmes caminhou pelos corredores estreitos até alcançar seus aposentos privativos. Lá dentro, na solidão de seu quarto, ele finalmente permitiu-se ceder ao cansaço, que era seu companheiro mais fiel.
Ele sentia o ímpeto queimar em suas veias, mas conteve o impulso. Controle absoluto; ele enterrou a própria dobra bem fundo no canto mais escuro da sua alma, no mesmo cofre emocional onde trancava todos os seus monstros.
A dobra é o instinto irracional. O controle e a racionalidade são as marcas do homem superior.
O mantra implacável de seu pai ecoava em seu crânio, fruto de uma lavagem cerebral administrada desde a infância, mas a imagem de Ozai evaporou. Em seu lugar, erguia-se o fantasma sorridente e pacífico de Iroh.
Contudo, nenhum dos dois representava algo para ele agora; os dois eram feitos da mesma essência, cometeram o mesmo crime imperdoável, mas o espírito de Iroh habitava os escombros de sua alma partida de forma definitiva.
Tudo aconteceu há sete anos.
O mundo começava a dar os primeiros passos rumo à submissão às reformas tecnológicas, mas Iroh, conhecido e temido no passado como o Grande Dragão do Oeste, escondeu-se quando o Avatar sumiu, desta vez sozinho, para depois liderar uma facção de resistência silenciosa.
Ozai jamais tolerara qualquer forma de traição; essa traição feria o orgulho do tirano. Contudo, Ozai não sujaria as mãos, ele queria ser idolatrado, pois percebeu que o medo afugenta, mas o amor aprisiona.
Assim, Zuko foi encarregado da tarefa de suprimir o tio, e Zuko foi, pois tinha muitas perguntas, perguntas que definiriam a sua vida, e definiram. Para Ozai, o sucesso daquela tarefa foi o teste definitivo de lealdade, o rito de passagem macabro para garantir o seu lugar como a espada cega da nova Ordem, mas para Zuko representou o fim da esperança.
Zuko ainda conseguia sentir, com uma clareza insuportável, o cheiro de chá de jasmim. Lembrava-se perfeitamente de chutar a porta e encontrar o tio. Este não esboçou nenhuma reação de defesa, após as perguntas do sobrinho, o velho general apenas mantivera a serenidade, sentado calmamente à mesa, e o fitava não com ódio, mas com uma compaixão e um pedido de desculpa.
Zuko não hesitou; matou o tio de forma rápida e limpa.
Iroh não soltou um único grito de dor; em vez disso, levantou uma mão para acariciar o rosto desfigurado do sobrinho, sussurrando um pedido de perdão. Naquele exato instante, a alma do garoto que buscava honra morreu, substituída por uma casca.
E então, anos mais tarde, veio Azula.
O triunfo político da irmã durou pouco tempo. Quando o plano de Ozai para erradicar a dobra de todo o mundo começou a ameaçar o próprio poder de fogo da princesa, Azula entrou em parafuso, acabou por se rebelar de forma errática e destrutiva, incinerando laboratórios inteiros e exigindo ser tratada como uma divindade.
Zuko foi despachado para eliminá-la também.
A batalha destruiu boa parte do palácio imperial. Quando a encurralou, Azula ria histericamente enquanto chorava, com as veias do corpo brilhando em descargas descontroladas de fogo azul. Ele quebrou o pescoço da própria irmã não por devoção cega ao pai, mas para poupá-la, para conter, com as próprias mãos, mais um monstro que Ozai gerou.
Ele banhara as mãos no sangue de seus próprios familiares para erguer os pilares da suposta paz, não por lealdade, mas porque não restava mais nada para ele. E, de certa forma, acreditava ou se iludia que, ao se tornar o executor, conseguiria atenuar a violência do regime a partir de dentro. Acreditava que, se ele fosse a lâmina, teria o poder de decidir onde o corte doeria menos.
Mas a realidade nua, crua e amarga era que ele nunca tivera o menor controle; era apenas um animal de raça preso a uma coleira, pronto para atacar ao primeiro comando do Senhor do Fogo.
Então, parou de lutar.
Zuko secou o rosto, encarando o próprio reflexo no espelho. Ele caminhou até um painel, lá dentro, repousavam as suas antigas espadas, forjadas com ligas ancestrais de meteorito e titânio reforçado, sendo armas capazes de fatiar até mesmo a blindagem reforçada de um drone de combate, ele nutria uma preferência pelo aço frio em detrimento da tecnologia.
Zuko prendeu as bainhas firmemente nas costas, por cima do colete de proteção. Em seguida, apanhou uma meia-máscara — um eco modernizado do lendário e temido Espírito Azul, uma identidade secreta de seu passado que ele readaptou estrategicamente como seu próprio brasão de terror — e a fixou na lateral do cinto.
Um bipe sonoro ecoou, indicando que a preparação de voo da nave estava concluída.
Ele ajeitou a postura e saiu dos aposentos; o passado estava definitivamente sepultado sob toneladas de cinzas. Iroh, Azula, o fantasma do Avatar, eram todos lixos do tempo antigo.
A única anomalia viva que restava no tabuleiro era a garota acompanhada por seu irmão engenhoso, eles representavam os últimos vestígios de um mundo que ele mesmo ajudou a carbonizar.
Zuko cruzou a passarela até a ponte de comando principal do cruzador, enquanto os motores do Leviatã soltavam as amarras mecânicas e rugiam gravemente, elevando a colossal estrutura rumo à imensidão do céu.
— Potência máxima nos propulsores — ordenou ele.
A caçada implacável o empurrava para a borda exata do mundo conhecido. E, sem que sua mente pudesse prever, aquela perseguição estava prestes a implodir a sua própria escuridão interior.
Fale com o autor