Ponto de Ebulição | Zutara
9 Fᴏɢᴏ ǫᴜᴇ Aǫᴜᴇᴄᴇ
Notas iniciais
Katara acordou com a luz invadindo a fresta da janela. Não havia sons dos drones de patrulha, nem as paredes do esconderijo da Resistência. Então, o peso da realidade — a fenda dimensional, a Cidade República e o homem no chão — despencou sobre seus ombros.
Ela estava deitada na cama estreita, no chão de madeira, encolhido sobre o manto cinza no canto do quarto, estava Zuko. Ele dormia de forma inquieta, as sobrancelhas franzidas e a respiração curta. Sem a armadura de carrasco do Império, sem as lâminas nas costas e a aura de puro terror, ele parecia vulnerável. Parecia o garoto que ela conheceu anos atrás, antes de o mundo ser engolido pela loucura de Ozai.
A mente de Katara viajou para o passado, para um tempo antes de tudo desmoronar de vez.
Eles estavam presos nas Catacumbas de Cristal, nas profundezas sombrias da antiga Ba Sing Se. Naquela época, Zuko não era o carrasco temido; era apenas um garoto exilado, marcado, confuso e cheio de raiva.
Katara lembrava-se de ter gritado com ele, despejando todo o ódio pela guerra, mas, em vez de atacá-la, ele simplesmente abaixou a cabeça e revelou que também havia perdido a mãe para a Nação do Fogo. Naquele dia escuro, cercados pelos cristais cintilantes, a fúria dela vacilou. Ela segurou o pequeno frasco com a água do Oásis Espiritual, aproximou-se dele com o coração aberto e tocou o rosto marcado do príncipe. Zuko não recuou. Ele fechou os olhos ao toque dela, e a expressão em seu rosto não era a de um monstro, mas a de alguém que ansiava desesperadamente por compaixão e redenção.
Aquele momento frágil foi o início de tudo.
Nos meses seguintes, Zuko virou as costas para a Nação do Fogo e juntou-se a eles. Eles lutaram lado a lado, dividiram fogueiras em noites frias, treinaram em equipe e planejaram a queda do império. Katara havia baixado suas defesas, eles eram aliados. Quase uma família.
Mas então, o dia do confronto final chegou cedo demais, Aang desapareceu; simplesmente sumiu. Com a perda de Aang, o grupo se estilhaçou e a esperança virou pó. O cerco de Ozai se fechou, e foi ali, no momento em que eles mais precisavam uns dos outros, que a verdadeira traição aconteceu.
Zuko escolheu o próprio sangue em vez da lealdade.
Ele assumiu o manto negro de Primeiro Comandante, selando a queda definitiva do mundo e dando início à era cibernética de terror que destruiu suas vidas.
A lembrança a atingiu como uma faca torcendo no estômago. Aquela conexão foi uma mentira, e a esperança se tornou cinzas. Zuko gemeu no chão, despertando e tirando-a de seus devaneios, ele levou a mão aos machucados, sibilando de dor ao tentar se mover.
— Bom dia — disse ela. Sua voz saiu fria, afiada, cortando o ar pesado do quarto.
Ele piscou, os olhos se ajustando à claridade.
— Maravilhoso — resmungou, levantando-se com dificuldade. A túnica repousava na cadeira, e ele ainda estava com o torso nu. As cicatrizes pareciam ainda mais brutais e profundas sob a luz da manhã.
— Sente-se — Katara disse, levantando-se e caminhando até a pia. — Suas feridas estão fechadas, mas os músculos ainda estão rígidos e danificados.
Zuko hesitou.
A proximidade da noite anterior o havia deixado em alerta máximo, mas a dor latejante o lembrou de que, sem ela, ele seria um alvo fácil naquele mundo. Além de precisarem um do outro para sobreviver, a convivência forçada trazia uma sensação estranha de nostalgia e algo mais — um vínculo silencioso e inexplicável.
Ele se sentou na beirada da cama, com as costas tensas. Katara aproximou-se, e, quando suas mãos tocaram a pele do ombro dele, Zuko trincou o maxilar.
— Você costumava ser mais leve — ele murmurou, com a voz escapando antes que pudesse se conter. Ele também se lembrava do passado, das raras vezes em que lutaram lado a lado.
Katara parou o movimento, e a água ao redor de seus dedos tremeluziu.
— Eu costumava achar que havia salvação para você. Eu achei que estava ajudando um aliado ferido, exatamente como nos encontramos agora por uma ironia fodida do destino — ela retrucou, com o tom carregado de ressentimento.
Zuko baixou os olhos para os próprios joelhos.
— Vamos focar no trato — ele respondeu rispidamente, bloqueando as emoções. — Onde podemos começar a procurar os arquivos sobre este mundo? Onde será que posso procurar sobre... o que lhe falei ontem?
Katara suspirou, voltando a focar na cura, com seus movimentos um pouco menos agressivos.
— Pelo que vi nos mapas da rua, existe uma Biblioteca Pública perto daquele parque monumental. É enorme, a história do seu "outro eu" com certeza está arquivada lá.
— Ótimo. Vamos? — Ele se levantou de supetão assim que a água sumiu das mãos dela, pegando a túnica e vestindo-a rapidamente.
As ruas da Cidade República estavam efervescentes, o contraste entre a liberdade caótica daquele lugar e o silêncio mortal da metrópole dominada por Ozai mantinha ambos com os nervos à flor da pele. Eles caminharam lado a lado, com os capuzes puxados sobre os rostos. Katara precisou segurar o pulso de Zuko com força duas vezes, quando ele instintivamente levou a mão às costas procurando as espadas, assustado com os guardas de dobra de metal patrulhando as calçadas. O toque dela era firme, um aviso não dito para que ele mantivesse o controle.
Ao chegarem à Biblioteca Central, depararam-se com um edifício colossal de mármore e vidro. Andaram pelos corredores até chegarem à imensa seção de História da Nação do Fogo.
— Vamos procurar nas fileiras da Era da Restauração — sussurrou Katara, empurrando-o levemente para um corredor.
Eles trabalharam em silêncio por quase uma hora.
Zuko folheava os grandes tomos com urgência; ele precisava saber o que havia acontecido com Ursa neste mundo em que a paz e o Avatar triunfaram. Katara, folheava um grosso volume encadernado em couro na estante oposta, parou abruptamente. Ela leu a página três vezes antes de erguer o olhar para ele.
— Zuko. — A voz dela soou suave, apreensiva.
Ele caminhou rápido até ela, Katara virou o livro, apontando para um parágrafo ao lado de uma pintura que exibia um jovem Zuko sorrindo ao lado de uma mulher mais velha de traços nobres. Zuko inclinou-se sobre o livro. O cheiro de jasmim do cabelo de Katara preencheu seus sentidos, mas ele forçou os olhos para o texto.
"No segundo ano de seu reinado, o Senhor do Fogo Zuko, com a ajuda do Avatar Aang, empreendeu uma jornada para descobrir o paradeiro de sua mãe, Ursa. Descobriu-se que ela sobreviveu aos anos de exílio, vivendo na vila de Hira'a. Suas memórias foram restauradas, e ela retornou à Nação do Fogo, vivendo seus últimos anos no Palácio Real em paz ao lado de seu filho..."
O ar fugiu dos pulmões de Zuko, ele se apoiou pesadamente na prateleira, com as mãos tremendo violentamente. Ela realmente foi exilada, estava viva; havia sido encontrada. Havia sido salva.
Katara observou o homem desmoronar.
— Ela não precisava ter... — sussurrou Zuko, com a voz embargada, os olhos fixos na imagem da mãe. — Ele mentiu. O tempo todo, aquele desgraçado mentiu, aquele fodido de merda.
— Do que diabos você está falando? — Katara perguntou baixinho, com a testa franzida.
Zuko olhou para ela, com os olhos brilhando devido a lágrimas não derramadas de ódio e culpa. O peso de uma década de sangue finalmente transbordou.
— Aquele filho da puta do caralho... — a voz de Zuko falhou, engasgada com um ódio cru e enraizado. — Ozai não apenas baniu a minha mãe. Quando o Aang sumiu e a guerra começou a se transformar naquele massacre absoluto, eu deixei vocês para trás porque fui cegamente atrás dela. Mas eu não a encontrei em lugar nenhum.
Ele fechou os olhos com força, revivendo o pesadelo que o assombrava todas as noites, com as mãos tremendo sobre a prateleira.
— Quando vi o que o Império estava fazendo com o mundo, meu primeiro instinto foi consertar meu erro. Eu pensei em procurar o meu tio, pensei em voltar, em encontrar você, o Sokka, e ajudar a erguer a rebelião para derrubar a loucura de Ozai de uma vez por todas. Eu juro que tentei. Tentei fugir da capital para me juntar a vocês, mas ele me encontrou antes mesmo que eu conseguisse cruzar os portões.
Zuko abriu os olhos, encarando Katara com uma dor insuportável perceptível nos olhos.
— Ele antecipou cada passo meu. E, para me quebrar de vez, ele me disse que a mantinha prisioneira nas catacumbas mais escuras e imundas do palácio, no escuro como um animal. Sofrendo, sendo torturada de forma desumana durante todos aqueles anos. E ela estava lá apenas para garantir que eu não saísse da linha.
Katara congelou, e o ar pareceu ficar rarefeito.
— Ele propôs um acordo — Zuko continuou, com as palavras saindo como veneno de seus lábios. — Se eu assumisse a posição de executor; se eu eliminasse os inimigos do Estado, sem misericórdia, ele a pouparia. Ele prometeu que me entregaria a localização exata dela e a libertaria no dia em que eu provasse que a fraqueza em mim estava morta.
— Zuko... — Katara levou a mão aos lábios, horrorizada, o quebra-cabeça medonho estava finalmente se formando.
— O meu tio foi o teste final — ele confessou, com uma lágrima quente escorrendo. — Ozai mandou que eu matasse Iroh para provar minha lealdade. Eu não queria... Pelos espíritos, eu não queria! Mas se eu falhasse, ele mataria a minha mãe na minha frente. E então veio Azula... e cada rebelde que eu executei. Fiz tudo isso porque precisava salvá-la. Me tornei um monstro para mantê-la viva! E no fim, nem isso consegui.
Katara deu um passo para trás.
A repulsa que sentia por ele batalhava agora com uma profunda e perturbadora onda de pena. Ele não era apenas um traidor sádico; era um refém, acorrentado pelo amor a uma mãe que, pelo que ele acabara de deduzir, Ozai possivelmente já havia matado há muito tempo.
Antes que ela pudesse dizer qualquer coisa para confortá-lo, o som pesado de botas metálicas ecoou no corredor principal.
— Fechamento da ala para inspeção de segurança! Todos os civis, identifiquem-se! — gritou uma voz autoritária, eram os oficiais da polícia local.
O pânico disparou nos nervos de ambos; eles não tinham documentos, suas moedas eram escassas e teriam explicações rasas demais para um interrogatório.
Sem pensar, Katara agarrou a gola da túnica de Zuko e o puxou com força, arrastando-o para uma fenda estreita entre duas estantes duplas, onde baús empoeirados criavam um ponto cego. O espaço era opressivamente pequeno, Zuko foi forçado a prensar as costas contra a madeira, e Katara precisou se espremer completamente contra ele para sumir da vista do corredor.
Eles ficaram frente a frente na penumbra, Katara tinha as duas mãos espalmadas contra o peito de Zuko. O corpo dele estava colado ao dela; ela podia sentir o coração dele martelando contra as costelas, o ritmo acelerado tanto pela adrenalina quanto pela recente confissão.
Passos metálicos aproximaram-se lentamente.
Clank. Clank.
Zuko prendeu a respiração, por puro instinto, seus braços contornaram a cintura de Katara, puxando-a para mais perto, para escondê-la nas sombras de seu próprio manto.
O aperto dele era firme e quente.
Katara arregalou os olhos; o calor corporal dele era intenso. Ela olhou para cima e encontrou o rosto de Zuko a meros centímetros do seu, os olhos dourados que ela tanto odiara a encaravam, despidos de qualquer mentira. Ele havia entregado a ela seu segredo mais sombrio.
O guarda parou bem em frente à entrada do corredor, o silêncio era tão tenso que o menor movimento os entregaria. Zuko apertou levemente a cintura de Katara, com o polegar roçando a lateral de sua blusa. A respiração ofegante dele batia suavemente contra o pescoço dela. Uma corrente elétrica irracional desceu pela espinha de Katara. Por anos ela imaginou como o mataria, mas ali, no escuro, ouvindo as batidas frenéticas do coração dele, tudo o que ela sentia era uma atração perigosa. Ela olhou para os lábios dele, entreabertos, sentindo uma confusão tomar conta de sua mente.
Flashes invadia a mente de Zuko: cenas confusas deles dois em outro tempo, onde a distância e o ódio não existiam. Contudo, ele sabia perfeitamente que nunca tinha vivido aquilo; afinal, eles tinham sido apenas aliados na adolescência e, depois, inimigos por anos — nunca nada mais do que isso.
— A ala oeste está limpa. Vamos avançar — o guarda finalmente gritou para o parceiro, e os passos começaram a se distanciar.
Mesmo com o som desaparecendo, nenhum dos dois se afastou imediatamente. O silêncio continuou pesado, quase palpável, a inimizade de uma década parecia ter rachado, e a revelação por detrás das ações dele lhe deu muito em que pensar. Katara foi a primeira a quebrar o feitiço, ela soltou o ar bruscamente e recuou meio passo, quebrando o contato visual.
— Eles se foram. Temos que sair daqui — sussurrou, ajeitando as próprias roupas com pressa, sem olhá-lo.
Zuko deixou os braços caírem lentamente ao lado do corpo, sentindo um vazio repentino onde Katara estava encostada.
— Certo — respondeu ele, com a voz num fio grave. — Vamos.
Eles deixaram a biblioteca e mergulharam de volta nas ruas agitadas em um silêncio absoluto, cheios de perguntas e agora com algumas respostas.
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