Ponto de Ebulição | Zutara
10 Eᴄᴏs Eɴᴛʀᴇ Mᴜɴᴅᴏs
Notas iniciais

O clique enferrujado da fechadura soou como um estrondo no quarto minúsculo.
Katara encostou as costas na porta assim que a trancou, ela sequer se lembrava de como haviam feito o caminho da Biblioteca até a Cidade Baixa. Seus pés haviam se movido no piloto automático, guiados pela urgência de se esconderem. Sua mente havia ficado presa naquele corredor escuro, sufocada pela revelação que acabara de destroçar uma década de ódio e certezas.
Quando finalmente ergueu o olhar, Zuko permanecia no meio do cômodo. Lentamente, ele caminhou até o canto mais distante do quarto e apenas escorregou com as costas contra a parede até sentar-se no chão. O silêncio era denso, quase palpável; a granada invisível que havia explodido na biblioteca ainda ecoava no ar entre eles.
— Há quanto tempo... — Katara começou, com a voz trêmula. Ela pigarreou e tentou novamente, mais firme. — Há quanto tempo ele vinha chantageando você?
Zuko não ergueu a cabeça.
— Depois que o Aang desapareceu e a Resistência foi esmagada pela primeira vez, eu percebi que não havia como vencer a tecnologia dele com espadas e fogo. Fui pego tentando roubar os planos, Ozai me deu uma escolha: a vida dela, pela minha obediência.
Katara sentou-se, o rancor visceral que a movera por dez anos estava se dissolvendo rápido demais, dando lugar a um buraco escuro e frio em seu próprio peito, algo inexplicável a fazia acreditar nas palavras dele. Poderia ser a raiva ou a angústia crua que ela via estampada naqueles olhos dourados, mas havia algo mais ali — um sentimento profundo e sem nome, cuja origem ela sequer sabia explicar, mas que a impedia de duvidar dele.
— Quando curei seus ferimentos ontem — ela murmurou, com a voz quase inaudível —, vi cicatrizes no seu corpo que não foram feitas em combate. Marcas de agulhas grossas, queimaduras elétricas nos seus chakras. Exatamente as mesmas marcas que vi nos poucos dominadores que conseguiram escapar dos centros de reeducação.
Zuko enrijeceu.
— Esse era o verdadeiro projeto de Ozai — a voz dele saiu abafada. — Erradicar a dobra do mundo não era apenas uma questão de proibir ou matar. Ele queria extraí-la, para alimentar suas máquinas com energia espiritual. Mas as primeiras máquinas de extração de chi eram instáveis; elas fritavam o sistema nervoso de quem era colocado lá dentro. As pessoas morriam gritando, com os órgãos cozidos de dentro para fora pelas próprias energias corrompidas.
Katara prendeu a respiração; um calafrio violento desceu por sua espinha, congelando seu sangue.
— E o que isso tem a ver com você?
— A tecnologia precisava de testes em dominadores poderosos. Pessoas com conexões elementais puras e linhagem ancestral antes do uso em massa. Ozai chegou aos meus aposentos um dia, ele disse que as cobaias comuns do Reino da Terra e das Tribos da Água estavam morrendo rápido demais. Disse que precisava de sangue real para estabilizar o próximo teste.
O coração de Katara errou uma batida, e o terror tomou conta de suas feições.
— Zuko... não me diga que ele...
— Ele me disse que usaria a minha mãe. — Zuko soltou uma risada, sem qualquer humor. — Ele disse que a arrastaria das catacumbas e a amarraria na cadeira de extração, a menos que eu me voluntariasse para tomar o lugar dela.
— Pelos espíritos... — Katara sussurrou, levando as mãos à boca, com o estômago revirando.
— Eu aceitei, é claro. — O tom de Zuko soou monótono, a voz de alguém que há muito tempo havia se dissociado do próprio corpo para sobreviver. — Eu implorei para que fizessem em mim. Durante os três primeiros anos do regime, eu não era apenas o carrasco dele na superfície, Katara. Então, em vez de me chamar de cão adestrado, o correto é rato de laboratório do Ministério do Progresso — Zuko disse, sarcástico.
— Duas vezes por semana, eles me amarravam na cadeira. Inseriam condutores elétricos direto nos meus pontos de chi e ligavam a máquina. A dor... — Ele engoliu em seco, com os ombros tremendo sutilmente enquanto revivia o inferno.
— Parecia que meu sangue estava virando chumbo derretido, queimando meus nervos. O objetivo era arrancar o instinto do fogo da minha alma e transferi-lo para baterias. Eu lutei, Katara. Eu segurei a minha dobra dentro de mim com tudo o que tinha, mesmo quando a máquina me rasgava por dentro, porque se eu deixasse a minha dobra morrer, se eu me tornasse inútil para os testes, ele a colocaria na cadeira no meu lugar.
Lágrimas grossas transbordaram dos olhos de Katara; as peças finais se encaixaram de forma cruel e devastadora. A recusa dele em usar fogo, o motivo pelo qual o temido dominador andava apenas com espadas de aço em vez de incinerar seus inimigos.
Ele não rejeitava a dobra por orgulho ideológico do império; ele a reprimia porque acessar seu fogo ativava traumas mentais e físicos de torturas indescritíveis.
— Zuko... — Katara escorregou da beirada da cama, ajoelhando-se no chão. Engatinhou o curto espaço que os separava, ignorando o perigo e o passado, parando a centímetros de onde ele estava encolhido. — Por que não nos contou? Por que não procurou a mim ou ao Sokka antes que a Resistência inteira caísse? Nós teríamos ajudado você a resgatá-la! Nós nunca teríamos abandonado você!
— Porque Ozai sabia exatamente o que nós faríamos! — Zuko explodiu. Ele inclinou o corpo para a frente de supetão, com o rosto a centímetros do dela.
— No minuto em que eu tentasse pedir ajuda, quando qualquer um de vocês chegasse perto do palácio, ele a executaria! Eu não podia arriscar a vida dela apostando na esperança de um Avatar que tinha desaparecido! Vocês lutavam por ideais, Katara. Pela liberdade do mundo, pelo equilíbrio. Eu lutava apenas para que minha mãe não fosse eletrocutada até a morte!
A confissão pairou no ar, brutal, densa e pesada.
— Sabe qual é a pior parte? — a voz dele rasgou a escuridão. — Ela nunca esteve nas catacumbas aguardando um resgate. Antes mesmo de o Aang desaparecer... antes de o mundo virar esse inferno, ela foi a primeira cobaia. O paciente zero daquela maldita máquina.
Katara prendeu a respiração.
— E ele estava chantageando você... mesmo com ela morta?
— Eu matei o meu tio, e quando a loucura da Azula ameaçou os planos dele, eu fui mandado para eliminá-la. — Ele engoliu em seco. — E quando voltei para finalmente vê-la... foi quando encontrei os arquivos: ela já era cinzas há anos. Eu vendi a minha alma para o diabo por absolutamente nada.
Katara processou as palavras, sentindo o peito apertar de forma quase insuportável. No entanto, sua mente de sobrevivente a forçou a fazer a pergunta que ecoava no vazio do quarto.
— Mas se você descobriu que ela estava morta... — Katara murmurou, com a voz vacilando antes de ganhar força. — Por que continuou do lado dele? Por que não nos procurou?
Zuko soltou uma risada ríspida, amarga e totalmente destituída de humor. Ele ergueu os olhos para ela.
— Eu procurei vocês, Katara. Eu revirei os escombros, hackeei as antigas frequências da Resistência e deixei rastros nas rotas subterrâneas que costumávamos usar. Mas você e o Sokka estavam bem escondidos, vocês haviam afundado na terra para sobreviver, e eu não consegui achá-los.
Ele desviou o olhar para as próprias mãos, a raiva dando lugar à exaustão.
— E no fim... eu percebi que foi melhor assim. Mesmo que eu os tivesse encontrado, eu não tinha como ajudar a vencer; minhas espadas não podiam parar o império daquele miserável. Eu era apenas um traidor. Se eu me juntasse a vocês, apenas guiaria a fúria de Ozai direto para o esconderijo. Eu ia colocar a Resistência inteira em perigo. — Zuko hesitou, engolindo em seco antes de voltar a encará-la. — Eu ia colocar você em perigo.
Ele se deu conta de que nunca fora atrás dela. Tentara buscar a resistência, mas, de forma inconsciente, encontrava sempre maneiras de se manter distante — seria uma forma confusa de protegê-la? O dia da fenda marcara o primeiro encontro e combate real entre eles desde a adolescência.
Outro ponto, porém, tornava-se cada vez mais latente e preocupante: os flashes em sua mente não cessavam, ganhando nitidez a cada dia naquele novo mundo. Sorrindo amargamente diante do próprio caos mental, Zuko concluiu que havia enlouquecido. Afinal, eles dois juntos? Em nenhum universo ou linha do tempo aquilo jamais havia acontecido.
Katara agora compreendia que ele não continuara como carrasco por lealdade. Ele se isolara para não atrair a morte — nem para a Resistência, nem para ela.
— Então por que nos atacou no Templo do Ar? — ela perguntou, tentando desesperadamente conciliar o monstro impiedoso que enfrentou com o homem destruído à sua frente. — Por que lutou contra mim daquele jeito? Nós podíamos ter conversado.
Zuko soltou um suspiro pesado, passando as mãos pelo rosto com frustração.
— Eu tentei evitar o pior — ele respondeu, com sinceridade. — Eu até parei os soldados; ordenei que eles não atirassem em você e mandei que focassem no Sokka, porque eu sabia muito bem que o seu irmão sempre tem uma carta na manga ou um explosivo para escapar. Mas você veio para cima de mim com intenção de matar, Katara.
Ele desviou o olhar, com a vulnerabilidade transbordando.
— E quando fomos sugados e acordamos nesta nova dimensão... eu fiquei perdido. Como eu ia falar a verdade? Você me olhava com tanto ódio. Eu não sabia se você ia acreditar em mim, ou se sequer valia a pena tentar me explicar depois de todo o sangue que eu derramei
Eles se encararam no escuro.
Katara não via mais o monstro de Ozai ali; via apenas o menino assustado das catacumbas de Ba Sing Se, o guerreiro que foi quebrado e remontado como uma arma, tudo para proteger quem amava. Sem pensar, movida por um instinto que ultrapassava o ressentimento, Katara estendeu as mãos. Ela não invocou água, não estava ali para curar as feridas físicas dele. Suas mãos tocaram as laterais do rosto de Zuko.
Zuko paralisou.
O toque dela era macio e carregava algo que ele não recebia há anos: absoluta e irrestrita empatia.
Ele fechou os olhos e inclinou-se para a frente, encostando a testa no ombro de Katara. Foi um movimento exausto, a rendição final de um soldado que não tinha mais forças para lutar.
Katara envolveu os braços ao redor dos ombros largos dele, abraçando-o com firmeza. Ela afundou o rosto na curva do pescoço de Zuko. O corpo dele era rígido, coberto de músculos tensos e cicatrizes, mas, nos braços dela, ele tremia incontrolavelmente, deixando sair o choro abafado e rasgado que vinha sufocando desde que vira a pintura da mãe na biblioteca.
Aquele abraço apagou a linha divisória entre eles.
Katara perdera a Tribo da Água, perdera Aang, perdera a própria juventude. Zuko perdera a alma, o tio, a mãe e a própria humanidade. Ali, naquela dimensão que não lhes pertencia, eles não eram mais a insurgente e o primeiro Comandante. Eram apenas duas vítimas que sobreviveram a Ozai.
O choro de Zuko foi diminuindo aos poucos, mas ele não se afastou. A respiração dele estabilizou-se, quente contra a pele sensível do pescoço de Katara, o abraço, que começara como um ato de luto, mudou de textura lentamente.
A consciência da intimidade física atingiu ambos simultaneamente, como uma faísca caindo em pólvora.
A mão direita de Zuko, que estava apoiada no chão, moveu-se devagar até pousar na cintura de Katara. Os dedos dele apertaram o tecido da roupa dela, roçando a pele onde a blusa havia subido. Katara sentiu o aperto firme; o calor que emanava do corpo dele atravessava as roupas dela e parecia queimar sua pele, despertando um formigamento que desceu direto para o seu ventre.
Ela afastou o rosto do ombro dele devagar, mas não recuou. Os rostos estavam tão próximos que ela podia contar os cílios escuros de Zuko. Os olhos dele se abriram, encontrando os dela. O desespero havia evaporado, substituído por uma intensidade no olhar dele agora.
A respiração dela falhou.
O polegar de Zuko subiu pela lateral do corpo dela, parando perigosamente logo abaixo de suas costelas; um toque hesitante, reverente, mas abrasador.
— Você destruiu a si mesmo por uma mentira — ela sussurrou, com os lábios roçando quase imperceptivelmente ao falar.
— E agora eu não tenho mais nada — ele respondeu. A voz dele era grave e profunda, e o olhar caiu para a boca de Katara antes de subir e fixar-se novamente nos olhos dela.
Katara sentiu o coração despencar e bater freneticamente contra o estômago. Naquela época, nas Catacumbas de Cristal, uma afinidade nascera entre eles, algo que nunca precisou de nomes ou permissão. Havia uma gravidade absurda ali, uma conexão inexplicável que os puxava para o centro um do outro, uma fagulha que o mundo corrompido de Ozai nunca permitiu que virasse um incêndio.
Agora, despidos de seus mundos, de seus amores perdidos e de suas máscaras, o impacto daquela atração era inegável.
O rosto dele inclinou-se para a frente. Katara entreabriu os lábios, com o corpo inteiro paralisado e vibrando na órbita gravitacional dele. Ela queria que ele a beijasse, a constatação a aterrorizou tanto quanto enviou uma onda de calor pelo seu ventre.
Ela queria consumir e ser consumida por aquele fogo, sentir o gosto de todo aquele ressentimento se transformar em outra coisa.
Mas o peso das revelações era uma ferida aberta, jorrando sangue. Beijá-lo ali, seria usar a luxúria como morfina para a tristeza, o fogo entre eles precisava queimar, mas não como fuga. Com os dedos trêmulos e o coração esmurrando as costelas, Katara engoliu em seco, deslizou as mãos do pescoço dele até o peito firme, pousando as palmas sobre o peitoral tenso, não foi um empurrão; foi uma contenção gentil.
— Zuko... — ela murmurou, com a voz banhada de um desejo doloroso e carinho reprimido. — Nós não podemos nos perder agora.
Zuko exalou pesadamente, com a testa encostando na dela por um breve e torturante instante, e os olhos fechados com força. Ele entendeu: aquele fogo entre eles estava consumindo todo o oxigênio do quarto, mas precisavam de um propósito antes de cederem àquela atração.
A raiva era mais útil agora do que o desejo.
Ele concordou com a cabeça lentamente, afastando o rosto apenas o suficiente para que ambos pudessem respirar e raciocinar, embora sua mão quente continuasse firme na cintura dela, recusando-se a soltá-la completamente.
— Nós vamos voltar. Vamos encontrar o Sokka e vamos destruir aquele desgraçado juntos — Katara disse, quebrando o silêncio.
— Sim, e agora é diferente — Zuko disse, com a apatia desaparecendo e dando lugar a uma urgência letal. — Agora que fomos jogados neste mundo, e com as respostas que estamos encontrando... nós temos uma chance de verdade. Nós precisamos encontrar uma fenda espiritual neste mundo, Katara. Precisamos encontrar o Aang no Mundo Espiritual e descobrir como voltar ao nosso tempo.
Zuko apertou a cintura dela, com os olhos faiscando em um tom assustador de ouro líquido na escuridão do quarto, ela olhou para o homem diante dela.
Ele não era o menino traumatizado, nem o inimigo a ser abatido; era o seu parceiro na vingança.
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