Notas iniciais
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O tempo deixou de existir.

Quando a luz engoliu Katara e Zuko, o som ensurdecedor da batalha sumiu, dando lugar a um silêncio pesado que esmagava seus ouvidos. Não havia gravidade, nem cima ou baixo; havia apenas uma torrente caótica de cores — azuis elétricos, roxos profundos e flashes dourados — rasgando o tecido da realidade.

Katara tentou abrir os olhos, mas a pressão dimensional era insuportável. Parecia estar presa no fundo do oceano, com a água espremendo o ar de seus pulmões. Tentou mover os braços para puxar a umidade e erguer um escudo defensivo, mas sua dobra simplesmente não respondeu. A energia ali era antiga, pura e infinitamente superior a qualquer coisa que ela conhecesse.

De repente, uma força brutal a jogou para a frente; ela colidiu com violência contra algo sólido, quente e rígido.

Era Zuko.

No caos absoluto da fenda, a atração gerada pelo choque de seus elementos os puxou como ímãs. Katara agarrou-se instintivamente à primeira coisa que encontrou para não ser estilhaçada, cravando os dedos nos braços dele.

Ecos de mundos paralelos colidiam contra sua consciência; ela viu a si mesma sorrindo, vestida de seda azul, de mãos dadas com um homem de rosto completamente borrado, ouviu risadas de crianças e o badalar distante de sinos.

Então, o silêncio se estalou como mil espelhos quebrando de uma só vez; o chão se abriu sob eles, a luz sumiu bruscamente, dando lugar ao azul profundo de um céu limpo, e a gravidade os puxou de volta com força total.

Eles caíram.

O impacto foi brutal, minimizado parcialmente pela copa densa de uma árvore. Katara bateu nos galhos e despencou direto sobre o musgo fofo com um gemido abafado, perdendo todo o ar dos pulmões e apagando na escuridão.

Minutos ou talvez horas se passaram em absoluto silêncio; a floresta ao redor seguia serena. Katara foi a primeira a despertar, um zumbido chato estalava em seus ouvidos, e seu ombro esquerdo latejava com uma dor. Ela abriu os olhos lentamente, piscando contra a claridade.

Claridade?

Sentou-se de supetão, ignorando a dor. Olhou para cima; o céu era de um azul impecável, adornado por nuvens brancas e felpudas, e o sol banhava o chão da floresta. Katara congelou, pois não havia sons de drones imperiais, nem o cheiro sufocante de fumaça de motor ou metal industrial. O ar era puro, doce e leve, cheirava a pinheiro fresco e pura vida. E, em seus vinte e quatro anos de existência sob a Nação do Fogo, ela jamais havia respirado algo sequer parecido.

Onde a fenda os jogara?

A lembrança a atingiu como um soco no estômago. O portal. Sokka!

— SOKKA! — ela gritou, rasgando o silêncio da floresta, enquanto os pássaros voavam assustados.

Levou a mão apressada ao ponto de comunicação em sua orelha, mas o aparelho soltou uma faísca solitária e virou pó cinza em seus dedos. A energia bruta da fenda fritou toda a tecnologia, e ela estava incomunicável. O desespero apertou sua garganta com força, pois ela deixara o irmão para trás, cercado pelos Dragões Negros nas ruínas. Se Zuko não estivesse lá na torre para impedi-los...

Zuko.

O som de metal pesado arrastando-se na pedra chamou sua atenção, e Katara virou a cabeça bruscamente, com os olhos faiscando. No fundo do barranco lamacento, aquele desgraçado tentava se erguer com dificuldade, e a armadura estava completamente amassada e coberta de lama. A capa escura rasgada e o coque desfeito deixavam cair mechas de cabelo preto sobre seu rosto marcado pela cicatriz.

Ao ver o assassino de seu povo cambaleando à sua frente, todo o luto reprimido e o pânico de Katara transformaram-se em fúria pura, visto que a culpa asfixiante por ter deixado Sokka precisava de um alvo imediato. E ele estava bem ali.

Katara não hesitou.

O cantil de água tinha sumido durante a queda no portal, mas ela percebeu rapidamente que não precisava dele. Naquele mundo vivo, a umidade estava em absolutamente tudo: no orvalho brilhante da grama, na seiva das árvores, na umidade do ar. Quando ela estendeu as mãos, a conexão elemental foi imediata, infinitamente mais fluida e poderosa do que nos domínios secos de Ozai.

Ela puxou água de uma poça próxima e da própria vegetação, moldando duas lâminas de gelo afiadas como navalhas. Com um grito estrangulado de ódio, avançou contra Zuko.


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Zuko abriu os olhos dentro da fenda dimensional, e, a centímetros de distância, o rosto de Katara exibia puro esforço, dor e desespero. O ódio mortal foi engolido momentaneamente pelo choque da sobrevivência. Então, o chão desabou, e ele caiu em um barranco de lama, rolando até chocar as costas contra as raízes grossas de uma árvore.

Quando despertou do torpor, o corpo doía em dezenas de lugares, e o som de passos cortando a grama e a umidade subindo ao seu redor o alertaram tarde demais. O aviso do perigo veio pelo som agudo do vento cortado, e Zuko se jogou para o lado antes de as lâminas de gelo deceparem o tronco grosso da árvore logo atrás dele.

— Você não vai fugir! — rosnou Katara, movendo as mãos para transformar a água em uma saraivada mortal de agulhas congeladas.

Zuko ergueu os braços por puro reflexo, esperando que os escudos de energia da braçadeira absorvessem o impacto. Mas não havia escudo, e o gelo perfurou as frestas da armadura em seus ombros e coxas com força, ele grunhiu entre os dentes, sentindo o sangue quente escorrer pela pele.

— Pare com isso, caralho! — ordenou Zuko, tentando se levantar enquanto tateava as costas em busca das espadas. Mas as bainhas estavam vazias, e ele estava totalmente desarmado.

— Onde estão suas espadas agora, comandante? — zombou Katara. Ela moldou um disco giratório de água, apontando-o direto para a garganta dele. — Onde está sua tecnologia? Você destruiu a minha família, meu lar, meus amigos. Eu vou acabar com o monstro da Nação do Fogo aqui e agora!

Ela lançou o disco com força letal.

A doutrina de Ozai ensinara a seus soldados a aceitar a morte com frieza, mas Zuko descobriu, no fundo de seu peito, que não queria morrer ali. O instinto primitivo de sobrevivência explodiu com violência. Com um giro rápido de tronco e um chute em arco, ele respirou fundo e atacou.

O fogo que irrompeu de sua perna não era uma rajada comum, mas uma lâmina de fogo vermelho-vivo, perfeitamente afiada, que evaporou o disco de água de Katara em uma explosão de vapor quente.

A onda de choque o jogou para trás.

Ela rolou na grama, ofegante, olhando horrorizada enquanto Zuko se punha de pé em posição de combate, ao passo que seus punhos nus brilhavam, com chamas puras contornando seus pulsos como braceletes incandescentes.

O homem que possibilitou quase a extinção das dobras do mundo estava dobrando. E com uma força aterrorizante.

— Puta merda, eu disse para parar! — Zuko rosnou baixo, com os ombros subindo e descendo de forma acelerada, pois ele mesmo estava assustado com a intensidade do próprio poder, sentindo a energia fluir por seus chakras destravados após tanto tempo de inércia.

— Se quisesse me matar, deveria ter feito isso nas ruínas! Olhe ao seu redor, garota estúpida!

Katara manteve a guarda alta, a água orbitando perigosamente ao redor de seus braços, mas finalmente cedeu ao impulso de olhar em volta.

As árvores gigantescas. O ar puro. A luz dourada.

— Nós não estamos mais no Templo do Ar do Oeste... — sussurrou ela.

— Fomos sugados pela anomalia — respondeu Zuko, apagando com esforço as chamas de suas mãos, embora seu corpo ainda estivesse fervendo de adrenalina. Ele olhou para as próprias palmas e fechou os punhos com força, e começou a arrancar os pedaços inúteis, pesados e eletrônicos da armadura de peito, ficando apenas com a túnica preta, que exibia seus músculos e as cicatrizes antigas.

— Meus sensores fritaram completamente, mas o último registro de GPS apontou para o vácuo dimensional, e não estamos mais nos territórios controlados pela Nação do Fogo.

— As coordenadas eram para o Mundo Espiritual — disse Katara, recuando um passo cauteloso, mantendo a água firme. — Era para o Aang estar lá. Mas isso, isso é o mundo físico. O sol, a terra viva.

Zuko franziu o cenho intensamente, ignorando a menção ao Avatar diante daquele cenário absurdo. Ele subiu mancando até o topo do barranco íngreme, enquanto Katara foi logo atrás, desconfiada, pronta para matá-lo ao menor sinal de traição. Quando chegaram ao topo, a vegetação densa se abriu bruscamente, revelando um vale imenso que tirou o fôlego de ambos.

Eles emudeceram.

Lá embaixo, aninhada entre colinas e cortada por rios de água cristalina, estendia-se uma cidade vasta. Não havia torres de metal negro, nem cabos de fibra ótica ou luzes de neon, mas casas com telhados verdes e dourados, ruas de pedra perfeitamente limpas e mercados movimentados cheios de gente vestindo roupas coloridas compunham a paisagem.

No centro da praça principal, uma imponente estátua de bronze erguia-se para o céu, mas o que mais chocou os dois foi o movimento nas ruas. Pessoas de nações diferentes andavam lado a lado, sem medo. Ele notou de longe um homem do Reino da Terra erguer um bloco de pedra pesada com as mãos livres, enquanto uma mulher da Nação do Fogo aquecia uma forja pública usando apenas o sopro de suas chamas. Crianças corriam e riam, empurradas por correntes de vento suaves, sendo dominadores de ar livres.

Dobra aberta. Misturada. Harmônica. Sem opressão.

— Isso é impossível... — Zuko murmurou, com os olhos completamente arregalados de choque. Toda a convicção que sustentava seu mundo, a pregação de que a mistura elemental traz apenas o caos, desmoronava diante de seus olhos.

O mundo ali não parecia corrompido; parecia perfeitamente vivo.

— Essa é Ba Sing Se... — ouviu Katara murmurar.

Eles permaneceram ali lado a lado no alto do penhasco, inimigos mortais congelados em um transe coletivo, testemunhando a utopia exata que zombava de suas vidas destruídas pela guerra.

Katara olhou de soslaio para Zuko, sem a armadura pesada do Ministério, ele parecia menos o monstro implacável e mais um homem profundamente ferido, exausto e humano. Enxergou o sangue e a vulnerabilidade crua impressos no rosto dele. Zuko sustentou o olhar de Katara, ele não tinha exército, não tinha transmissores, não tinha ordens a cumprir, estava tão perdido e preso ali quanto ela.

— Se você tentar me matar agora — Zuko falou, quebrando o silêncio —, nenhum de nós vai sobreviver o suficiente para entender como este lugar funciona.

Zuko percebeu os dentes dela apertados com força, ele sabia que parte daquela garota queria empurrá-lo do penhasco naquele exato segundo.

— E eu sei que você quer encontrar seu namoradinho, salvar o mundo bla, bla. Podemos nos matar quando entendermos onde nós estamos e quando voltarmos.

Com um suspiro trêmulo de pura revolta, Katara desfez a dobra de água, fazendo com que o líquido acumulado caísse no chão como uma chuva.

— Uma trégua — ela disse. — Até descobrirmos como voltar, mas escute bem, príncipe, se você tentar qualquer gracinha, eu não vou hesitar em terminar o que comecei. Sem armadura e sem sua tecnologia, você é só um dominador de fogo descontrolado. E eu sou uma Mestra da Água, e eu vou destruir você.

Zuko não sorriu, tampouco rebateu, apenas assentiu devagar, voltando a fixar os olhos na cidade utópica lá embaixo.

— Apenas não fique no meu caminho — foi tudo o que ele respondeu.

E assim, banhados pela luz dourada de um mundo que nenhum dos dois jamais pediu para conhecer, começaram a descer a encosta da colina juntos.

Zuko sentiu o ombro latejar com o corte, ao pisar em falso, precisou esticar o braço e apoiar-se de raspão no antebraço de Katara. Ela tencionou os músculos instantaneamente, pronta para afastá-lo, mas ele já havia se recuperado, mantendo a distância prudente.

Nenhum dos dois comentou.

As regras do jogo haviam mudado, e água e fogo marchavam, agora, lado a lado.

Notas finais
Dobra aberta, misturada e sem opressão. Deixe aqui seu comentário sobre o choque do Zuko e da Katara ao verem a utopia perfeita de Ba Sing Se! Não se esqueça de favoritar, comentar e acompanhar a fanfic! São essas pequenas ações que ajudam a plataforma a recomendar a história para novos leitores. Nos vemos no próximo capítulo! ─── ❖ ── ✦ ── ❖ ─── Ainda não quer sair desse universo? Me acompanhe no TikTok para ver a estética dos personagens, spoilers e descobrir quando sai o próximo capítulo! Siga: https://www.tiktok.com/@ismrf_author