Ponto de Ebulição | Zutara

7 O Mᴜɴᴅᴏ ǫᴜᴇ Pᴏᴅᴇʀɪᴀ Sᴇʀ


Notas iniciais
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A descida até a cidade foi feita em um silêncio sufocante, cortado apenas pelo som abafado de botas pisando na terra úmida e pelo vento que trazia um aroma de flores e pão recém-assado.

Zuko mancava levemente; os cortes em sua perna pararam de sangrar, mas o sangue seco repuxava a pele, ele não reclamou, no entanto, a exaustão física cobrava seu preço.

Katara caminhava alguns passos à frente, atenta a qualquer som nas costas. Ela não confiava nele, não confiava naquele silêncio, na trégua. No fundo, sabia que ele era um traidor desgraçado e que qualquer descuido poderia significar sua morte.

À medida que se aproximavam, a ilusão de Ba Sing Se desmoronava; a arquitetura misturava estilos de forma caótica. Torres dos Nômades do Ar erguiam-se ao lado de pontes da Tribo da Água e, para o choque de ambos, pagodes de telhados vermelhos com dragões dourados da Nação do Fogo integravam-se ao cenário em uma harmonia absurda que desafiava toda a lógica imperial.

— Isso não é o Reino da Terra. — Katara murmurou, escondendo-se atrás de um arbusto espesso.

— É uma colônia? — Zuko perguntou, estreitando os olhos.

— Nenhuma colônia permitiria isso. No nosso mundo, o tirano a quem você chama de pai mandou demolir os templos e derreter os símbolos de outras nações — disse Katara, sem conseguir conter o veneno e o ressentimento.

Na varanda da casa mais próxima, um homem com roupas do Reino da Terra ria enquanto uma mulher com traços da Nação do Fogo acendia pequenas lanternas de papel. Duas crianças corriam pelo quintal, uma delas dobrando água de um chafariz para espirrar na outra.

Zuko sentiu o estômago revirar, aquela visão banal parecia uma blasfêmia contra tudo o que fez. As palavras do pai ecoavam em sua mente:

A mistura de elementos gera caos. A dobra é a raiz da guerra.

Ele sabia que era uma mentira deslavada, nunca se iludia, e que via era a prova real. Havia apenas paz, um contraste violento com o império que deixou para trás.

— Nossas roupas chamam atenção — disse Katara, cortando os pensamentos dele.

— Só as roupas? O resto, não? — disse Zuko, apontando entre os dois; estavam suados, sujos e exaustos.

Ela usava trajes da Resistência; Zuko parecia ter saído de um pesadelo militar. Ela furtou dois mantos em um varal e jogou o marrom no rosto dele, evitando ao máximo que suas peles se tocassem.

— Cubra-se. E esconda essa cicatriz. — disse Katara.

Zuko vestiu o manto, puxando o capuz para sombrear o lado esquerdo do rosto. Katara fez o mesmo, escondendo os cabelos trançados e os tons azuis da Tribo da Água.

Adentraram as ruas da cidade; o ar cheirava a especiarias, pão assado e flores. Não avistaram telas holográficas ou drones, mas a tecnologia existia: bondes elétricos deslizavam suavemente por cabos suspensos em uma demonstração pacífica de progresso.

A dobra estava em toda parte; o mundo perfeito existia.

— Ei, cuidado por onde anda! — gritou um comerciante, quando Zuko esbarrou em uma barraca.

— P-perdão — Zuko gaguejou. Foi a primeira vez em uma década que pediu desculpas a alguém, sentindo a própria voz soar estranha em seus ouvidos.

Katara o puxou pelo cotovelo, arrastando-o para uma rua mais movimentada. O aperto dela era áspero.

— Mantenha a cabeça baixa, idiota — sibilou, mas ela parou de repente, soltando o braço dele e congelando no lugar.

Zuko seguiu o olhar de Katara. No centro de uma baía azul, em uma ilha isolada, erguia-se uma estátua colossal de bronze de um monge careca com um cajado planador, sorrindo gentilmente.

Aang.

— Ele... ele conseguiu — Katara sussurrou, com a voz embargada e trêmula, o garoto que sumiu em seu mundo era, ali, um deus vigiando uma cidade em paz. Uma tempestade de emoções a engolfou, alívio por ele não ter falhado, misturado à amargura por seu próprio Aang continuar perdido, enquanto ela própria havia se manchado de sangue.

Zuko leu a placa: "Baía da Cidade República. Fundada pelo Avatar Aang e pelo Senhor do Fogo Zuko." A respiração dele travou. Zuko leu o próprio nome na placa, sentindo o chão sumir sob suas botas.

— Não — ele recuou, esbarrando em um poste.

Katara secou o rosto.

Viu o olhar de Zuko ir para um monumento menor no parque central: duas figuras em mármore e jade, Aang e um jovem de cabelos presos em coque, com uma cicatriz no rosto, sorrindo lado a lado na mais absoluta tranquilidade.

Zuko caiu de joelhos diante da própria estátua.

— Não, não, não... — murmurou, enquanto uma fumaça rala e quente começou a vazar por entre seus lábios. O fogo interno estava fora de controle, queimando sua garganta de dentro para fora.

— Zuko! — Katara se abaixou, segurando o manto dele, dividida entre o ódio e o choque.

— Não pode ser — Zuko ofegou, com os olhos arregalados, ele agarrou os braços de Katara, queimando levemente a pele dela. — Minha mãe... tudo que fiz, Azula... Tio... eu os matei... — Zuko sussurrava, enquanto o colapso mental era total, as fundações de sua vida inteira desabando diante dele.

Pessoas na praça começaram a notar o burburinho, e dois guardas com uniformes verde e dourado aproximavam-se, atentos ao tumulto.

— Cale a maldita boca e levante! — Katara rosnou, o pânico subindo. Sem pensar, ela puxou água de um bebedouro público e disparou um jato gelado direto no rosto dele. O choque térmico o fez engasgar e se acalmar, Katara o puxou com força pelo colarinho, colocando-o de pé, sua própria respiração desregulada.

— Meu amigo bebeu muito suco de cacto na viagem, desculpem! — ela gritou para os guardas, forçando um sorriso falso que quase não se sustentava.

Os guardas olharam entediados e passaram direto.

Katara o arrastou para um beco entre dois restaurantes, empurrando-o contra a parede de tijolos. Zuko escorregou até sentar-se na sujeira, abraçando os joelhos. O olhar estava morto, vazio de qualquer sentido.

O peso daquela revelação corroía suas entradas: se o outro ele tinha conquistado aquilo — uma paz intocada, o perdão, um lar —, talvez ele próprio ainda pudesse ser salvo e encontrar o que perdeu? Ele não sentiu culpa por tudo o que fez e faria tudo novamente, mas quem sabe o sangue em suas mãos não era a única coisa que o definia.

Ela ficou de pé diante dele, olhou para a estátua visível pelas frestas dos prédios, sem dizer nada, sentindo o peso daquela ironia cruel apertar seu peito. Katara jamais pensou que o veria quebrar daquela forma em sua frente; acreditou que seria ela a desabar primeiro. Contudo, ao contemplar a utopia erguida diante de seus olhos, sentiu uma onda de esperança tomar conta de seu espírito.

Ela sabia que precisava voltar, tinha de encontrar Aang no Mundo Espiritual e reencontrar Sokka a qualquer custo.

Diferente de Zuko, cujas alicerces foram completamente pulverizadas pela verdade, ela teve sua esperança renovada: ela tinha pelo que lutar, pelo que morrer. Ele, por outro lado, já não tinha nada, ou quase, pois um fio frágil de esperança começava a desabrochar.

Enquanto observava Zuko absorver o próprio colapso, uma dúvida egoísta e súbita invadiu a mente dela: se o Avatar estava ali, será que, naquele mundo, ela e Aang ficaram juntos, construíram uma família? Katara tentou imaginar este cenário e descobriu que não conseguia.

Então, seu pensamento desviou para o homem ao seu lado. Será que eram amigos ali? Amigos? A palavra soava patética. Mas, ao desviar o olhar e sentir um calor fantasma onde a pele dele a queimou, um calafrio a percorreu; em meio ao asco visceral que nutria por ele, uma corrente sutil vibrava, lembrando-a de que, naquele mundo vasto e desconhecido, ela podia contar apenas com ele, pelo menos até compreender onde estava.

O estômago de Katara roncou; precisavam comer, dormir.

— Recomponha-se, não temos tempo para você pirar — ela disse, estendendo a mão com relutância. Zuko olhou para a mão, a mesma mão que o fez sangrar. Hesitou, ela tinha razão; ele precisava entender aquele mundo, e quem sabe seria capaz de encontrar o que lhe foi tirado.

— Levante-se — ela repetiu, impaciente. — Precisamos de teto, comida e respostas. Você é um peso morto assim.

— Eu sei, caralho, e você não manda em mim — Zuko sibilou entre dentes.

Zuko engoliu em seco e aceitou a ajuda; o aperto foi frouxo, mas Katara o puxou com firmeza para cima, tão perto que ela pôde sentir o calor residual do corpo dele. O toque selou um acordo silencioso.

— Isso não vai acontecer novamente — disse Zuko.

— Acho bom mesmo, pois não tenho tempo a perder com suas crises — retrucou Katara, a voz afiada.

— Eu não pedi ajuda , então cala a porra da boca e vamos — ele devolveu no mesmo tom.

Katara o encarou com desdém, mas eles não eram mais inimigos no campo de batalha, e sim dois aliados perdidos no Mundo que Poderia Ser, presos um ao outro enquanto essa frágil trégua durasse.

Notas finais
Deixe aqui seu comentário sobre o que você achou e o que espera desse choque de realidade que mudou tudo na vida deles! E se você está completamente mal pode esperar pelo próximo capítulo, não se esqueça de favoritar, comentar e acompanhar a fanfic! São essas pequenas ações que ajudam a plataforma a recomendar a história para novos leitores. Nos vemos no próximo capítulo! ─── ❖ ── ✦ ── ❖ ─── Ainda não quer sair desse universo? Me acompanhe no TikTok para ver a estética dos personagens, spoilers e descobrir quando sai o próximo capítulo! Siga: https://www.tiktok.com/@ismrf_author