Poltrona 19

23 Tudo meio vazio


Notas iniciais
Oi pessoal! Se preparem que as notas vão ser longas... Primeiro quero desabafar. Estou postando esse capítulo as 6h da manhã, depois de já ter até chorado de raiva. Eu já tinha escrito algumas partes e eis que meia noite, resolvo terminá-lo. Quando deu 3h da madrugada, eu já havia terminado e estava relendo o capítulo, quando meu computador REINICIA e eu perco TUDO, porque estava escrevendo diretamente no nyah. Eu estava conversando com a leitora Dakota e ela está de prova sobre o quanto eu fiquei mal. Eu realmente chorei. Seis mil palavras escritas em vão. Vocês conseguem imaginar qual é a sensação? Pois eu digo que é horrível. Mas tudo bem, por uma questão de orgulho, de já ter perdido metade da minha madrugada e do meu comprometimento com vocês, comecei a escrever tudo de novo. E escrevi. Agora estou contando isso nas notas, ás 6h da manhã, com o dia clareando, com dor na coluna e no pescoço, dor na vista, porque passei a madrugada digitando no escuro, pois estou com o notebook no quarto escondido dos meus pais, e morrendo de sono. Por isso quero pedir perdão caso vocês encontrem algum erro ou achem alguma parte chatinha. Acreditem, tudo ficou meio chatinho para mim depois de escrever duas vezes. Agora vamos falar de coisa boa e não é a tekpix, a filmadora mais vendida do brasil... É MAIS UMA RECOMENDAÇÃO! VOCÊS ACREDITAM? Eu quero abrir meu coração para contar a vocês, que a Puzzle, responsável por essa sexta recomendação, me fez chorar de verdade. É muito importante quando alguém mostra que acredita em você, o que vocês já mostraram e me deixa EXTREMAMENTE grata, mas na recomendação ela diz o seguinte: "Eu aposto que isso aqui vai se tornar algo muito maior algum dia. E eu terei orgulho de dizer que acreditei desde o começo"... e isso, isso me mostrou que ela acredita em mim muito mais do que eu poderia imaginar ou pedir. Por isso, esse não é um obrigada qualquer, é um obrigada vindo de uma escritora entre outras mil nesse site, que só precisa que alguém acredite nela, para não desistir de seus próprios sonhos. Obrigada por isso, Puzzle, pela recomendação, por ler a história inteira em um dia e comentar em todos os capítulos! Nem preciso dizer que esse capítulo é dedicado a você, não é mesmo? Bom, agora sim, esse é o momento em que desejo uma boa leitura a todos!

Acordei com o som do despertador, mas ele cessou sem que eu o desligasse. Abri os olhos e demorei alguns segundos para me lembrar de onde estava e mais especificamente com quem. Virei para o lado com cuidado e Gabriel estava tentando se acostumar com a luz do seu celular, que estava segurando acima do rosto.

– Bom dia. – murmurei.

– Bom dia. – desejou Gabriel com a voz muito mais rouca que o normal. Ele desligou o celular e virou o rosto para mim. – Mudança de planos, vamos fingir que o despertador nunca tocou, continuar dormindo e matar aula.

– Era tudo que eu queria. — afirmei. Meus olhos estavam praticamente se fechando sozinhos. Nós dormimos muito pouco.

– Agora falando sério, vai pro seu quarto, faça o que faz sempre e quando seu pai acordar, você vem aqui e me chama. Pra ele achar que eu passei a noite aqui, mas que não dormimos juntos.

– Qual o problema nisso?

– Isabelle, seu pai é um cara legal, mas melhor não contrariar.

– Tudo bem. – concordei, mas continuei deitada reunindo coragem para me levantar. Após longos minutos, senti Gabriel me dar um beijo na testa e me sentei apenas para não contrariá-lo. – Mas meu pai sempre acorda antes, por que ele ainda não ta acordado? –perguntei confusa e mesmo no escuro, vi Gabriel abrir um sorriso forçado. Eu olhei na direção da janela e percebi que ainda não tinha claridade atravessando a mesma. – Quantas horas são, Gabriel Fornazier?

– Cinco e meia da manhã. – ele respondeu com visível receio em seu tom de voz.

– Eu quero te matar! – afirmei nervosa. Cinco e meia da manhã. Manhã não, madrugada. Eu acordaria daqui quarenta minutos e quarenta minutos é muita coisa, levando em consideração que realmente mal consigo parar com os olhos abertos. – Como eu não te vi ativando essa merda de despertador? Que inferno!

– Calma! — ele pediu. — É serio, vai que seu pai grilava, Isa. Não queria correr o risco.

– Tenha consciência de que vai continuar deitado nesse sofá por mais uma meia hora, só que agora sozinho. – avisei me levantando e sai andando rumo a porta, ouvi ele dar uma breve risada. – Babaca!

– Nervosinha! – ele rebateu e eu sai do escritório sorrindo.

Quando cheguei no meu quarto, senti um vento e percebi que minha sacada havia ficado aberta, foi quando senti o frio que esta fazendo. Acho que eu e Gabriel só não passamos frio essa noite porque esses pijamas são bem quentes e estávamos espremidos e abraçados num sofá. Abri meu guarda-roupa, peguei um edredom e voltei ao escritório. Olhei na direção de Gabriel e ele estava deitado de barriga para baixo, então apenas taquei o edredom em cima dele e voltei para o meu quarto. Fechei a porta, fechei a sacada, as cortinas e segui na direção da minha cama. Fazer o que faço sempre? Ta bom. Me joguei sobre a cama e voltei a dormir. É isso que eu faço, Gabriel. Durmo pelo máximo de tempo possível.

Voltar a dormir não foi uma boa escolha, porque parece que fechei os olhos por dez minutos e o meu despertador tocou. Foi até engraçado sentir meu celular vibrando no bolso do pijama, porque a primeira coisa que pensei foi: Como eu não quebrei ele, dormindo por cima do mesmo? O desliguei e sentei na minha cama frustrada. Eu vou dormir em todos os horários de aula.

Me levantei da cama e me vesti, depois segui até o banheiro e fiz minha higiene pessoal. Quando me olhei no espelho, vi meu cabelo bagunçado e minha maquiagem borrada, automaticamente pensei em Gabriel e me xinguei por procurar uma escova de cabelo. Você sabe que está fodida, quando começa a se preocupar com sua aparência perto de um cara. E é exatamente isso que está acontecendo comigo, porque depois de pentear meu cabelo, ainda arrumei minha maquiagem. Essa não sou eu e não estou gostando nada disso.

Quando sai do banheiro, fui direto para a cozinha executar o "plano" de Gabriel. Encontrei meu pai em frente ao fogão fazendo seu precioso café.

– Bom dia, pai.

– Bom dia, filha! — ele desejou olhando brevemente para mim e abrindo um sorriso.

– Espero que não se importe, mas o Gabriel passou a noite aqui. Eu achei que estava muito tarde pra ele ir embora, ai ele dormiu lá no sofá do escritório.

– Coitado do garoto, você deixou ele dormir naquele sofá? – ele perguntou indignado. – Vai acordar com as costas toda dolorida. Aliás, vá chamá-lo para tomar café da manhã com a gente. – ordenou e eu assenti.

Esse é meu pai. O cara que se preocupa com as costas do ficante da filha ao invés do fato de que ele dormiu debaixo do mesmo teto que ela. Não sei mesmo com o que o Gabriel estava preocupado. Quando cheguei no escritório, achei que Gabriel estaria acordado, mas ele também pegou no sono, enrolado no edredom e espalhado pelo sofá. É, acho que ele ta muito mais confortável assim do que deitado comigo.

Fiquei com dó de acordá-lo, mas ele não teve dó de me acordar ás cinco e meia da manhã, então o sacudi, até que ele abrisse os olhos preguiçosamente.

– Bom dia, de novo. – disse assim que ele me viu.

– Bom dia, de novo. – ele respondeu. – Aliás, algo me diz que essa não é a última vez que te darei bom dia hoje.

– Se isso fizer meu dia melhor de alguma forma, deseje quantas vezes quiser.

–É claro que faz, porque sou eu desejando.

– Há-há. – respondi ironicamente. – Vamos tomar café da manhã!

– Isso com certeza faz meu dia melhor! – afirmou Gabriel se levantando com pressa e dessa vez, eu ri de verdade.

Seguimos até a cozinha e todos já estavam lá. Nos desejaram bom dia enquanto nos sentávamos a mesa e não pude deixar de pensar que não quero mais ouvir isso hoje. Nicolas estava comendo um pão praticamente com os olhos fechados, me diverti assistindo a cena. Parece que não sou a unica morrendo de sono.

– Você toma café, Gabriel? – perguntou papai.

– Sim, senhor.

– O que eu disse sobre “senhor”? – meu pai rebateu servindo-o com uma xícara.

– Desculpe, Paulo.

– E então, como foi dormir naquele sofá? – meu pai tornou a perguntar, se sentando. — Isabelle foi muito malvada, suas costas devem estar horríveis.

– Na verdade, eu dormi muito bem! – respondeu Gabriel e foi impossível reprimir o sorriso que surgiu em meus lábios. Eu com certeza também dormi muito bem.

– Esqueci que você não é um velho que sente dor em todas as regiões do corpo. – rebateu papai e todos rimos. – Então, onde você mora, Gabriel? Teremos que passar na sua casa.

– Moro no Batel, próximo a casa da mãe de Isabelle, mas não se preocupe com isso, meu irmão vem me buscar. Não quero atrapalhá-los!

– Você é um babaca! – afirmei. – Se você mora perto da minha casa, você mora perto do colégio e de qualquer forma meu pai tem que me levar.

– Mas com certeza isso os atrasaria, por isso já falei com meu irmão, não precisam se preocupar mesmo.

– Gosto mais de você xingando enquanto joga videogame do que todo educadinho assim. – intrometeu Nicolas ainda parecendo estar dormindo sobre a mesa.

– Eu também. – concordei.

– Posso manter uma boa impressão ou isso é proibido? – argumentou Gabriel.

– Não ligue pra eles! – disse Lilian sorrindo gentilmente.

– Tudo bem. – respondeu Gabriel e continuamos comendo. Um tempo depois ele pegou seu celular e olhou algo na tela. – Desculpem, mas preciso ir, meu irmão chegou.

– Vou abrir a porta pra você. – avisei me levantando.

– Antes, preciso dizer que esse é o melhor café que já tomei na minha vida, Paulo. – elogiou Gabriel. — Muito obrigado por tudo e desculpe o incômodo. Sua família é linda!

– Eu sei disso. E to falando de todas as partes, inclusive a do café. – respondeu meu pai e nós rimos.

Todos se despediram de Gabriel e o levei até a porta de entrada, onde nos despedimos apenas com um beijo no rosto. Eu voltei para a mesa e continuei a comer. Ao terminar, peguei minhas coisas e esperei o pessoal, já que estava pronta.

Quando entramos no elevador, meu pai ficou me encarando com um sorriso divertido nos lábios, até que eu perguntasse o que estava acontecendo. Sua resposta foi: "Você se arrumou hoje, gostei de ver... E nem imagino o motivo". Eu fiquei tão constrangida, que juro que tive vontade de bater a cabeça na parede do elevador até desmaiar.

Ele e Lilian se despediram enquanto eu e Nicolas entramos no carro e então fizemos o de sempre, deixamos Nicolas em seu colégio e depois meu pai me deixou no meu. Desci do carro e segui até a entrada do colégio, mas vi Amanda sentada na calçada, encostada ao muro azul marinho, que é a coisa que mais gosto nesse lugar. Isso não é muito normal. Caminhei até ela e sentei ao seu lado.

– Oi! – cumprimentei.

– Oi, Isa. – ela respondeu sem nem me olhar, apenas deitou sua cabeça sobre meu ombro. É, alguma coisa aconteceu.

– E então, o que ta rolando? — perguntei sem rodeios.

– Tem um cara...

– Sempre tem um cara!

– E ele é tão lindo, popular, legal, incrível... Que faz com que eu me sinta insegura, com medo, inferior...

– Passa a ficha. – ordenei e ela pegou seu celular.

– Murilo, 17 anos, estuda em outro colégio. – contou me entregando o celular com a foto de um cara bem bonito no visor. Depois que olhei, o devolvi. – Nos conhecemos numa festa e desde então estamos ficando. Ele é o cara mais legal e incrível que já conheci, faz com que eu me sinta bem e feliz, faz com que eu queira estar com ele o tempo inteiro, sabe? Mas às vezes ele some, às vezes acho que ele só quer sexo, às vezes ele parece só ter me procurado porque está carente ou bêbado. E ele me faz ter essas crises de achar que não sou bonita o suficiente, ou estilosa o suficiente, ou popular o suficiente, ou boa de cama o suficiente...

– Para com isso, Amanda! Se você não é o suficiente pra um cara, ninguém mais é! — afirmei e não foi papo de amiga consolando outra, é a pura verdade.

– Eu sei. – ela respondeu e eu sorri. Essa é a Amanda Bonfim que eu conheço. – Isso não ta me fazendo bem.

– E se isso não te faz bem, é melhor você meter um pé na bunda desse cara, antes que eu esfole a cara dele.

– Mas ele me faz bem, apesar de todos os apesares...

– Que são muitos. – a cortei e ouvi o sinal indicando o início das aulas tocar. Mais uma vez chegarei no segundo horário, mas isso não é e nunca foi novidade para ninguém.

– Em geral, ele me deixa muito mais feliz do que mal. E abrir mão dele sim vai me deixar mal. — argumentou Amanda.

– Isso não tem nada a ver com o fato de você ser uma mimada que precisa conseguir tudo o que quer não, né? — perguntei zombando.

– Talvez. – respondeu Amanda e a repreendi com o olhar. – Brincadeira!

– Bom, se você acha que vale a pena insistir, insista. Mas veja até que ponto vale a pena, Amanda. Quando isso começar a te fazer mais mal do que bem, esse é o momento de cair fora.

– Obrigada pelos conselhos! – agradeceu Amanda. – Mas podemos mudar de assunto? Leticia não gosta nada desse cara.

Eu ia questionar o motivo de termos que mudar de assunto por causa da Leticia, sendo que ela não estava ali, mas então vi o carro da mãe dela na porta do colégio e logo em seguida, ela descer de dentro do mesmo. Quando nos viu, fez exatamente a mesma coisa que eu fiz ao ver Amanda, veio em nossa direção.

– Hoje é dia de matar aula e nem me avisaram? – perguntou Leticia se sentando com nós.

– Nossa, eu nunca na minha vida mataria aula na porta da escola, que coisa inútil, já sai de casa mesmo. — respondi. — Se for pra matar aula que seja na minha cama.

– É nesse momento que percebemos que crescemos... – disse Amanda. – Por que lembra quando matávamos aula dentro do banheiro da escola? Isso sim era inútil.

– Nossa, é verdade. — concordou Leticia.

– E ainda nos achávamos as rebeldes sem causa! – lembrei.

– A gente era um bando de retardadas, isso sim. — afirmou Amanda e nós rimos.

– O melhor é lembrar o quanto éramos fashion... — disse. Uma das coisas mais engraçadas da vida, é pegar fotos antigas e observar as roupas que você está usando nelas. Você sente tanta vergonha de si mesma, que tem vontade de tacar fogo em todas as fotografias. E o mais engraçado de tudo, é que você acha brega, mas se lembra que na época, achava que estava maravilhosa.

– Ah, para. Eu sempre fui fashion! — rebateu Amanda.

– Para você! Todas as suas peças de roupa eram rosas, eu tinha vontade de vomitar só de olhar pra você.

– Falou a Avril Lavigne, que ficou com mecha rosa no cabelo até no primeiro ano! — argumentou Amanda.- Eu não sei como o Arthur gostou de você daquele jeito.

– Para que eu tirei no primeiro mês de aula. — rebati.

– E quando ela tinha a mecha rosa e verde? — lembrou Leticia.

– Parem de me lembrar disso, pelo amor de deus! — implorei tampando o rosto com as mãos completamente constrangida.

– Pior que era bonitinho. — afirmou Leticia.

– Não, o pior é que ela era a cara da Avril mesmo! — completou Amanda. – Você devia largar tudo e ganhar a vida fazendo cosplay dela.

– Claro! Por que não? – perguntei e todas nós rimos. É claro que as risadas cessaram com meus típicos pensamentos nostálgicos: Sinto saudade delas e de tudo. Absolutamente tudo.

– Eu to morrendo de sono! — reclamou Leticia.

– Nem fala! — concordei. — Minha intenção é dormir do começo ao fim da aula. Se eu dormi duas horas essa noite, foi muita coisa.

– É verdade, Isa. Eu vi que o Gabriel postou uma foto de vocês ás 3h da madrugada...

– Sério? Eu não vi isso! – disse Amanda pegando o celular. Eu tive certeza de que ela iria procurar a tal foto.

– Ele jantou lá em casa. – expliquei e ao invés de esclarecer, parece que só as deixei ainda mais confusas. – Ta, vou contar do início...

– Obrigada. – agradeceu Leticia.

– Tudo começou quando contei pro meu pai que o Gabriel é fã de Oasis, aí ele pediu que eu o convidasse para jantar lá em casa, alegando que nos contaria umas histórias.

– Mas perai, seu pai convidou um cara qualquer pra jantar na casa dele, só porque esse cara é fã do Oasis? — indagou Amanda.

– É que meu pai já conhecia ele. — respondi e quase pude ver um ponto de interrogação surgir em sua testa, então prossegui. — No dia seguinte da festa que teve na casa do Pedro, eu passei mal pra caralho e liguei pra Leticia pedindo ajuda pra ela. O Gabriel também estava na sua casa e foram os dois me salvar, só que a Leticia teve de ir embora e ele ficou lá, nisso minha mãe apareceu dizendo que era aniversário da minha vó, que almoçaríamos na casa dela e convidou ele. E o Gabriel é tão folgado que foi. Minha família inteira estava lá e ele acabou conhecendo meu pai. Aí eles viraram bff e deu nisso!

– Bff foi engraçado! — disse Leticia e eu concordei.

– Gente, que foto mais fofa! – gritou Amanda encarando a tela de seu celular. Olhei no rumo do visor e ela estava com o instagram do Gabriel aberto, mais especificamente na foto dele comigo. – Ele tava definitivamente a coisa mais linda do universo! E nossa, já teve 247 curtidas. – Duzentos e quarenta e sete curtidas? Duzentos e quarenta e sete pessoas me viram vestida daquele jeito? Valeu, Gabriel. – Vocês combinaram de se vestir assim?

– Não, ele simplesmente apareceu lá assim e levou o pijama do Patrick de presente pra mim. — expliquei.

– Ai que invejinha, deve ter sido demais!

– E foi! Acreditam que as histórias que o meu pai contou é que ele era praticamente uma groupie na adolescência? Ele ia direto em shows, conhecia bandas e chegou a conhecer o Oasis.

– Puta que pariu. — disse Leticia. — E ele nunca tinha te contado isso?

– Não, fiquei revoltada! — confessei.

– Você não entendeu, é porque ele não queria você usando isso ao seu favor, quando tiver algum show que você queira ir. — supôs Amanda e eu parei pra pensar que fez todo sentido, porque eu realmente pretendia fazer isso na primeira oportunidade que aparecesse

Um carro parou em frente ao colégio, chamando a atenção de todas nós e o reconheci de algum lugar, mas não me lembrei, até vê-lo descer do mesmo. Gabriel estava devidamente vestido e segurando seu típico copo térmico de café. Ele seguiu na direção da entrada do colégio, mas quando nos viu, parou no meio da calçada.

– Mais café? Você não tem amor próprio? — perguntei me lembrando que ele já havia tomado café na minha casa. — Isso faz mal.

– Coca-cola faz mal, MC Donald's faz mal, cerveja faz mal... Eu não quero viver num mundo com coisas que não fazem mal. — rebateu Gabriel.

– Você vai morrer antes mesmo de conhecer os seus netos.

– Que netos? — ele perguntou sorrindo. — Pra ter netos é necessário ter filhos e isso não está na minha lista de objetivos.

– Só por isso você vai ter uns quatro! — afirmei.

– E um labrador também?

– Um pra cada filho.

– Que mimados! — ele reclamou fazendo careta e deu mais um gole em seu café.

– Iguaizinhos você. — rebati e ele não respondeu, apenas me encarou e balançou a cabeça negativamente, sorrindo.

– Bom dia, Leticia. Bom dia, Amanda. Bom dia, Isabelle... De novo. — desejou Gabriel.

– Bom dia! – responderam Leticia e Amanda em uníssono, então ele voltou a andar rumo à entrada.

– Não mate aula, você tem que entregar o trabalho de Química! – gritou Gabriel já entrando no colégio e eu fui obrigada a rir.

– Ele é inteligente? – perguntou Amanda curiosa.

– É meio estranho, mas tudo indica que sim. Tava me perguntando isso esses dias, quando ele me explicou uns exercícios de Matemática.

– Ele tem algum defeito? — ela tornou a perguntar, mas eu soube que a perguntar foi mais para si mesma, do que para mim.

– É um canalha! – respondeu Leticia e nós rimos. – Agora vamos que o sinal vai bater em cinco minutos.

Nos levantamos da calçada e seguimos em direção ao portão do colégio.

– Eu adoro um canalha. – afirmou Amanda enquanto andávamos e todas nós rimos novamente.

Eu adoro esse canalha.

Entramos no colégio e assinamos a lista de alunos atrasados, que já chamo intimamente de listinha do autógrafo e subimos para nossas respectivas salas. Encontrei Gabriel bebericando seu café na porta da nossa sala, enquanto aguardava a professora de Inglês sair, para poder entrar.

– Esse café ta uma merda depois que eu provei o do seu pai. – disse Gabriel.

– Então não bebe, você estará fazendo um favor a si mesmo.

– Você não vai me fazer parar de tomar café! — ele avisou e eu dei de ombros.

– Bom dia, meninos! – desejou Karine, a professora de Inglês, saindo da sala – Peguem a matéria com o pessoal, tem atividade pra próxima aula.

– Ok. – respondemos em uníssono e entramos na sala.

O segundo horário foi de Química e o professor recolheu os trabalhos logo no início da aula, isso me deixou feliz, porque em seguida deitei minha cabeça na mesa disposta a dormir. Meu rosto estava virado para a mesa de Gabriel e vi ele fazer o mesmo.

– Se me desejar bom dia de novo, eu te mando ir se foder. – afirmei e vi ele sorrir com os olhos fechados. Fechei meus olhos também e apaguei. Literalmente apaguei. Eu acordei e abri os olhos sonolenta, meio confusa, meio perdida no tempo. Levantei a cabeça e todos estavam na sala prestando a atenção na aula do professor de Biologia. Perai, professor de Biologia?

– Bom dia. – disse Gabriel. – Não, pera, boa tarde!

– Estamos no último horário? – perguntei assustada.

– A aula acaba em dez minutos.

Eu consegui mesmo dormir a aula inteira? Sem nem acordar com o barulho da galera saindo e voltando do intervalo? Puta que pariu. Fiquei uns bons minutos olhando pro povo tentando me adaptar ao tempo. É horrível quando você acorda meio perdida e assustada, ai seu cérebro fica lesado. O sinal que deveria estar indicando o fim da aula tocou e eu continuei parada, observando os alunos juntarem seus materiais e saírem da sala.

– Ela lembra o próprio nome? – perguntou Carol olhando pra mim.

– Acho que não. – respondeu Gabriel e todos riram. – Seu nome é Isabelle e agora é hora de ir pra casa comer. — completou.

– Casa! – gritei procurando por meu celular e ninguém entendeu nada.

– Essa ta mais animada que eu pra ir embora... – disse Bruno.

– Não, é que eu tinha que ter avisado pro meu pai que não vou pra casa. – respondi começando a digitar uma mensagem para ele.

– Ah sim.

– Falando nisso, eu vou pra sua casa, Gabriel. — avisou Gustavo. — Nós vamos fazer o trabalho de História.

– Mas não é pra sexta? — indagou Gabriel confuso.

– Sim, só que não vamos deixar pra fazer isso amanhã, vai que não dá pra fazer tudo. O professor quer a pesquisa feita em livros que deverão ser especificados na bibliografia, a fonte não pode ser internet.

– Cê ta me zuando? — perguntei me intrometendo. Ele tem que estar zuando.

– Quem me dera!

– É, então preciso dar um jeito de começar essa merda também. — afirmei.

Nem acreditei no que eu fiz, mas mandei uma mensagem pro meu pai avisando que não iria para casa almoçar, porque precisava ir na casa de minha mãe buscar algumas coisas e que depois voltaria pro colégio pra fazer um trabalho. Ta na hora de matar a saudade da nossa querida biblioteca, porque se preciso fazer um trabalho com base em livros, aquele é o melhor lugar pra isso. Só não entendi o motivo dessa patifaria ainda, se esse professor não sabe, inventaram uma coisa chamada internet. Facilita nossas vidas desde 1969.

– Bom, vou indo pessoal. — avisou Bruno.

– Nós também vamos. — emendou Carol. — Quero me despedir de Gustavo.

– Vocês dois me dão vontade de vomitar. — rebateu Bruno e todos rimos.

Me despedi do pessoal e apenas Gabriel permaneceu na sala enquanto eu juntava meus materiais.

– Preciso falar com você. – disse Gabriel assim que todo mundo saiu, então fiz sinal para que ele prosseguisse. – Sem ser nesse fim de semana, no próximo, é aniversário do Bruno. Vamos organizar uma festa surpresa numa chácara, porque dá mais liberdade pra galera ficar louca. Tu acha que seus pais te liberariam pra ir?

– Minha mãe deve implicar, mas posso tentar falar com meu pai.

– Então, perguntei porque se quiser, a mãe da Carol pode se passar pela mãe do Bruno e falar com a sua mãe numa boa. — ele explicou. — A mãe dela é foda.

– Pode ser também! Mas tento falar com meu pai antes, porque se ele liberar, nem precisa disso.

– Ta, mas avisa o mais rápido possível, porque tamo vendo com os amigos mais próximos dele. Se a maioria acabar não podendo ir na chácara, vamos fazer na casa do Gustavo mesmo.

– Uhum. — respondi fechando minha mochila e olhei para ele, disposta a me aproveitar do assunto. – Sobre esse negócio de festa, também preciso falar com você...

– Que foi?

– Sábado, eu pretendo levar o Nicolas comigo, logo...

– Você vai passar a noite com ele. — concluiu Gabriel revirando os olhos. — Anão Isa, justo sábado? A gente leva ele no parque de diversão domingo.

– Gabriel... — o repreendi e ele riu.

– É brincadeira, eu curti ele. Mas sério, sábado não, por favor.

– Eu quero levar ele e eu já prometi que levaria! Ele nunca sai, nunca faz nada, quero que seja uma noite divertida pra ele.

– Ta bom. — ele respondeu bufando. — Preciso ir! – complementou jogando a mochila nas costas e saiu andando, mas usei justamente sua mochila para puxá-lo para trás. Quando ele se virou para mim, o fuzilei com o olhar.

– Gabriel, eu vou te dar um murro.

– Não posso fazer cu doce? – ele perguntou começando a rir e se aproximou de mim. – Quem sabe assim não te convenço a mudar de ideia?

– Fora de cogitação. – respondi. Ele puxou meu rosto para perto do seu e me beijou.

Quando nos separamos, saímos da sala juntos e fomos andando até a porta do colégio, onde o vi entrar no carro de sua mãe com Gustavo. Segui rumo a casa de minha mãe e quando cheguei lá, encontrei Elisa que ficou bem brava por eu não tê-la avisado que apareceria, pois cozinhou apenas para minha mãe. Mesmo assim, ela conseguiu arrumar comida pra mim e eu almocei. Falando em minha mãe, eu já sabia que não a encontraria em casa essa hora, mas fiquei meio chateada ao não vê-la.

Quando terminei de almoçar fui direto para o meu quarto pegar o que vim buscar: meu diário. Não podia enrolar porque ainda tinha que fazer trabalho e ai voltaria muito tarde pra casa. Ao abrir a gaveta da minha escrivaninha, peguei apenas o atual diário que estou escrevendo, mas depois de passar um bom tempo encarando o resto, acabei colocando meus dois últimos diários dentro da mochila também. Escrevi um bilhetinho para minha mãe e após me despedir de Elisa, o preguei na porta da geladeira.

“Mamis,

Estive em casa, mas você não estava. Chorei. (Mentira, não te amo)

Estou com saudades! (Mentira, não estou)

Não morra de saudade também, volto em breve. E desconsidere os parênteses, você sabe que é tudo verdade.

Com amor,

A filha mais linda do mundo. (Não é a Natália)”

Sai de casa e voltei para o colégio. No trajeto cheguei à conclusão de que esse entrou para a lista dos piores dias do meu ano, porque sério, sair do colégio, almoçar e voltar para ele: é uma merda. Quando cheguei ao local de tortura, fui direto pra biblioteca, onde procurei por uma mesa mais afastada. Coloquei meus materiais sobre uma mesa encostada na parede e procurei pelo papel que o professor havia nos entregado com as instruções do trabalho, que por acaso, eram muitas.

Depois, fui procurar pelos livros que precisarei. Peguei uns três livros maiores que a bíblia e retornei à mesa, onde me sentei. Determinada a terminar tudo o mais rápido possível e ir para minha casa, sem ter que retornar naquele lugar, me foquei e consegui ler o primeiro livro, anotando tudo que eu precisava. Até senti orgulho de mim mesma, mas sou eu e é claro que esse foco e determinação não durou por muito tempo. No segundo livro eu já estava cansada, estressada, de saco cheio e querendo ir embora.

Li uma página e ao terminar percebi que não tinha prestado atenção em nada, apenas lido automaticamente, então li uma segunda vez e no fim, percebi que ainda não fazia ideia do que havia lido. Bufei de raiva e joguei o livro sobre a mesa, o que fez até um certo barulho e resolvi observar as pessoas que estavam ali. Haviam grupos de amigos, pessoas estudando sozinhas... E foi observando essas pessoas, que avistei alguém em especial sentado numa mesa distante. Arthur estava focado no papel em sua frente, onde ele parecia estar escrevendo algo.

Perdi um bom tempo o encarando. Seja lá o que ele estivesse fazendo, não parecia estar sendo bem sucedido, já que não estava com uma expressão muito legal, vez ou outra batia o punho ou a lapiseira contra a mesa, coçava a cabeça e passava a mão pelo cabelo. Me lembro que ele sempre ficava assim fazendo alguma prova e eu achava bonitinho, até me esquecia da minha própria prova, porque ficava o observando de canto de olho e sorrindo feito garota apaixonada.

Com essa lembrança, desviei o olhar dele por um momento e fechei os olhos para respirar fundo, quando os abri novamente, enxerguei meus diários dentro da minha mochila entreaberta sobre a mesa. Com receio puxei um deles, o da capa preta e comecei a folheá-lo, então parei numa página qualquer mais para o fim. Entrei em um conflito interno sobre ler ou não, porque sei que ficarei nostálgica pelo resto do dia. Tenho problema em lidar com o passado, mais especificamente, em aceitar que ele fica no passado. Mesmo assim, respirei fundo e comecei a ler:

“Hoje foi o último dia de aula do primeiro ano, finalmente chegaram as férias. Eu estou feliz em pensar que na próxima segunda-feira não terei que acordar ás 7h da manhã, que na terça poderei passar o dia de pijama, na quarta não saberei se almoço ou tomo café da manhã, na quinta posso passar o dia inteiro vendo serie, na sexta vou acordar sem saber que dia da semana é e no fim de semana não terei que me preocupar se ele vai passar rápido demais.

Mas a verdade, é que não posso negar que uma parte minha está triste por ter acabado. Esse ano eu conheci Arthur, Leandro, Pedro e Alexandre, e eles fizeram cada dia ser tão incrível, que sou extremamente grata pela coleção de lembranças felizes que eles me deram. Acredito que esse diário em especial, será relido muito mais que os outros. Por que? Porque aprontamos tanta coisa juntos, com Leticia, Amanda e Vitor também. Eles me fizeram sorrir tanto, que em algum dia quando a Isabelle do futuro estiver triste, pegarei alguns sorrisos emprestados em trechos dessas memórias. Aliás, olá, Isabelle do futuro.”

–Olá, Isabelle do passado. – respondi sorrindo e continuei a ler.

“Sinceramente, se eu não mudar, também sei que irei reler algumas coisas pelo simples prazer de chorar de saudade. Ás vezes penso que sou a personificação de saudade. E todas essas coisas são relacionadas a pessoa que mais me fez sorrir: Arthur. A verdade é que quando a pessoa responsável pela maior parte dos seus sorrisos, passa a te fazer chorar, você não consegue se lembrar desses sorrisos e sorrir, você chora porque sente falta deles, porque sente falta de quando eles eram o único sentimento relacionado a essa pessoa.

Desde que tudo acabou entre mim e Arthur, as coisas não voltaram a ser as mesmas. Ele continuou sendo o meu Arthur, causando sorrisos abobados, mas em outra garota. E eu ainda não superei. Ele tentou fazer nossa amizade continuar sendo a mesma e é claro que não deu certo, porque seu erro foi não entender, que nossa amizade nunca existiu como apenas amizade. Desde o primeiro ‘oi’, sempre houve algo a mais que apenas amizade. E não dá pra tentar manter algo, que nunca existiu.

Eu me esforcei para superar, aceitar e entender tudo isso, mas foi inevitável que nos afastássemos, foi inevitável que os sorrisos se transformassem em lágrimas. Eu juro que já estava há algum tempo sem pensar nisso, mas hoje o vi indo embora do colégio e não pude deixar de me perguntar, se nos veremos nesses dois meses de férias. E quando me toquei de que a resposta para essa pergunta não fazia diferença, porque nos vendo ou não, não somos mais os mesmos, me perguntei se daqui dois meses, quando voltarmos a frequentar a mesma sala todas as manhãs, o tempo já não terá se encarregado de nos tirar da vida um do outro de uma vez. Eu chorei. É triste quando você deixa de ser presente, para ser lembrança.

Independente de a vida ter colocado Arthur em meu caminho e ela própria ter o retirado, não consigo sentir um completo ressentimento sobre ele. E é por isso que já estou com saudade de tudo, porque não importa se ele me fez chorar, ele será pra sempre o cara que mais me fez sorrir. E se for pra se tornar lembrança, eu sei que será aquela que causa uma nostalgia boa, mesmo que nostalgia acompanhada de lágrimas de saudade, porque você só chora de saudade quando reviveria algo.

E sim, Arthur. Eu reviveria cada momento.”

Eu fechei o diário e pisquei, foi o suficiente para derrubar as lágrimas que se acumularam em meus olhos sem que eu percebesse. Abaixei a cabeça na intenção de limpá-las antes que alguém visse e percebi o nó que se formou em minha garganta. Eu estava prestes a chorar no meio da biblioteca. Levantei a cabeça de uma vez e encarei o teto branco, respirei fundo diversas vezes até me controlar e tomei a decisão de folhear o diário novamente, na esperança de encontrar algo que me fizesse sorrir. Então parei numa página mais no começo:

“São 3h da manhã. Essa noite fui em uma festa com todos os meus amigos e eu não consigo parar de pensar que eles são os melhores amigos que alguém poderia ter. Mas me sinto decepcionada ao pensar que quase todos os outros indivíduos que povoam o Planeta Terra, pensam a mesma coisa, porque eles estão errados, os meus amigo são os melhores, não os deles. Isso é uma pena, mas não posso culpá-los, eles não os conhecem, como poderiam notar o quãoerrados estão? Whatever.

São 3h da manhã. Essa noite fui em uma festa com o cara mais incrível do mundo e eu não consigo parar de pensar que não deveria estar pensando isso. Mas eu estou e ninguém pode me julgar... Porque ele me beijou hoje. Nós nos sentamos no gramado da casa de um cara que não conheço, encostados na parede da casa desse cara que eu não conheço e nos divertimos em perceber que éramos os únicos sóbrios na festa de um cara que não conheço. E em algum momento entre uma risada e outra, nossos olhos se encontraram e não desviamos o olhar, até que involuntariamente meus olhos se fechassem ao sentir seus lábios junto aos meus.

São 3h da manhã. Essa noite vai ser difícil me deitar e fechar os olhos para dormir, porque sinceramente, Arthur... Eu prefiro a sensação de fechar os olhos para que você possa me beijar.”

Taquei o diário sobre a mesa e encostei minha testa na lateral da mesma. Praguejei por não conseguir impedir as lágrimas de cair, teimei em tentar secá-las, mas ao perceber que era em vão, me permiti chorar baixinho por alguns minutos. Ouvi um barulho perto de mim e rapidamente limpei meu rosto, o levantando forjando indiferença. Não era nada, era apenas uma garota numa mesa próxima, mas eu aproveitei para olhar mais uma vez para o cara do outro lado da sala, que aparentemente ainda não havia me notado.

Puxei outro diário de dentro da minha mochila, dessa vez com a capa azul e o abri, repetindo minhas ações anteriores. Folheando, logo no início, vi de relance os dizeres “primeiro dia de aula” e eu sabia que não deveria ler, não deveria, mas não consegui me conter.

“Hoje foi o primeiro dia de aula do segundo ano.

O Arthur não estava na sala, mas eu o vi chegando ao colégio. Eu vi. Eu sempre o vejo.

Leandro também não apareceu e eu tive de perguntar. Agora eu penso que tudo teria sido melhor se eu não tivesse perguntado, mas eu perguntei. Eu perguntei e soube que os dois mudaram para a sala de Bianca.

Eu demorei um bom tempo para assimilar a informação e acreditar. Eu precisei ficar quietinha no meu canto e meus amigos perceberam. Eu me senti pequena naquela sala, me senti pequena naquele colégio, me senti um pouco pequena demais para o mundo. Senti que se eu abraçasse meus próprios joelhos e me encolhesse, talvez ninguém pudesse me notar, talvez ninguém notasse que eu não consegui seguir adiante, quando ele seguiu seu caminho como se eu não fosse nada para ele. Como se nunca tivesse sido.

Ele agora é oficialmente apenas uma lembrança. Aconteceu. Ele não é mais presente, ele é lembrança. E ele mudou de sala porque não quer que eu seja nem mesmo... lembrança.

Hoje foi o primeiro dia de aula do segundo ano. O lugar dele ficou vazio e a sala ficou vazia. Ficou tudo meio vazio.”

As lágrimas voltaram a escorrer e involuntariamente olhei para a frente, mas dessa vez os encontrei. Encontrei os olhos verdes de Arthur me olhando e ao contrário do que deveria acontecer, meu orgulho não me fez parar de chorar imediatamente. Eu apenas senti as lágrimas aumentarem e caírem silenciosamente, enquanto nossos olhares permaneceram presos um no outro.

Eu me forcei a guardar os diários em minha mochila, assim como todas as minhas coisas e ao olhar para Arthur, percebi que ele estava fazendo exatamente a mesma coisa, mas com mais urgência que eu. Ele jogava suas coisas dentro da mochila com pressa, sem desviar os olhos de mim. Ele sabia que eu ia fugir. Me levantei com pressa e comecei a caminhar para o rumo da porta, deixando os livros que havia pego para estudar para trás, provavelmente junto com meu orgulho, já que as pessoas estavam vendo meu rosto inchado, vermelho e com a maquiagem borrada. O problema é que ele estava muito mais próximo da saída e ele saiu antes de mim, mas o problema maior ainda foi que ao sair daquele lugar andando depressa e com os olhos embaçados, ao virar para a direita, trombei diretamente com ele que estava parado esperando por mim.

Eu não consegui desviar. Não consegui recuar. Eu apenas levei minhas duas mãos até meu rosto e voltei a chorar, paralisada, em frente a ele. Senti Arthur tentar me abraçar, mas foi praticamente o mesmo que levar um choque. Eu automaticamente o empurrei e encarei aqueles olhos novamente, então as palavras simplesmente saltaram de minha boca.

– Por um bom tempo eu tentei me convencer de que choro é de saudade, que é uma consequência da nostalgia boa que nos faz querer reviver certos momentos, mas não, hoje eu sei que choro pela sensação de história incompleta. Você me obrigou a te transformar em lembrança, quando você era presente. Você virou ausência, quando era cotidiano. Você preenchia tudo e então se foi, você se foi e ficou tudo meio vazio. E eu fui obrigada a acostumar com esse vazio porque não dá pra preencher a falta de uma pessoa com outra. Você cavou um buraco dentro de mim e hoje eu percebi, Arthur, que lembrar é deixá-lo mais fundo. Você colocou um ponto final, onde deveria ter uma reticência. – desabafei e quando percebi, ele também estava com os olhos cheios de lágrimas.

– Me desculpa. – ele pediu abaixando a cabeça.

– Você acha que pedir desculpa muda alguma coisa, Arthur? Você acha que pedir desculpa muda o fato de que eu voltei pra casa no dia em que você acabou com tudo, tentando entender qual o problema comigo? Você acha que muda o fato de que me olhei no espelho milhares de vezes, me perguntando o que Bianca tinha que eu não tinha? Você acha que muda o fato de que eu passei o primeiro dia de aula inteiro do segundo ano pensando que eu nunca signifiquei nada pra você?

– Eu sei que não, mas...

– Pois é, não muda! — afirmei sem deixá-lo falar. — Um pedido de desculpas não muda o fato de que eu vou chorar toda vez que ler essas merdas de diários, onde diz que você foi o cara que mais me fez sorrir na minha vida. Tenho vontade de rasgar essas páginas. — completei e sai andando.

– Eu juro que nunca quis causar isso tudo em você e na sua vida, Isa. — ouvi a voz de Arthur atrás de mim e me virei de uma vez.

– Mas causou! — gritei. — Você causou a porra da maior decepção da minha vida.

Dito isso sai andando e dessa vez ele não tentou dizer mais nada, ou me seguir ou fazer qualquer coisa. Sai andando chorando enquanto quase pude sentir a merda do buraco que ele deixou em meu peito, se aprofundar um pouco mais. E de repente, me senti de novo, como se tudo estivesse meio vazio.

Notas finais
Esse final mexeu com meus coraçãozinho e espero que tenha mexido com o de vocês também! Hahaha. Espero que tenham gostado e me contem o que acharam nos comentários! Aliás, falando nisso, quero pedir perdão e compreensão, porque deixarei para responder os comentários do capítulo anterior amanhã de manhã. Vocês devem imaginar o quanto estou com sono nesse exato momento! Bom dia, boa tarde ou no meu caso... Boa noite s2 Pijama!