Poltrona 19

24 Completamente apaixonada


Notas iniciais
Oi pessoal! Pois é, estou viva! Hehe. Eu consigo imaginar o quanto vocês estão putos e bravos comigo (ou não) e sei que não tem justificativa para todo esse tempo que sumi, mas eu juro que tive motivos e posso explicar. Primeiro que como eu já tinha dito, acho que no twitter, minhas aulas na faculdade voltaram. Meu calendário é diferente do de vocês, porque eu faço universidade federal e alguns anos trás teve uma greve, que atrasou a vida de todos os alunos. Resumindo, temos aula quando vocês estão de férias, temos férias quando vocês estão tendo aula, é uma bagunça total! Aí eu já sou veterana e quando as aulas começaram, tive que organizar a semana de recepção dos calouros, que é uma das partes mais legais da entrada de qualquer pessoa na faculdade. Acredito que a maioria de vocês ainda estão no colégio, então recomendo estudarem bastante para conseguirem entrar numa federal, porque vale muito a pena. Essas semanas de recepção por exemplo, quase nunca acontecem em faculdades privadas. Retomando, fiquei muito ocupada organizando tudo e não tive tempo para escrever. Logo em seguida, eu fiz uma viagem onde realizei alguns sonhos. Fui para São Paulo com uma amiga e fiquei NOVE dias lá! Gente, preciso comentar que voltei falida Hahaha eu fui para assistir ao show da Avril Lavigne s2 Vocês não sabem, mas sou fã dela há NOVE anos e só agora tive a oportunidade de ir a um show! Foi extremamente incrível, principalmente porque tive a chance de conhecê-la e tirar foto! Aí aproveitando que já estava em São Paulo, fui a mais dois shows da mesma banda. A banda se chama The Maine e quase ninguém conhece, mas é o amor da minha vida. Estou falando aqui pra vocês, mas morro de ciúmes, então se alguém for ouvir, ouça com o coração, por favor. Eles fazem músicas incríveis e são mais incríveis ainda, juro. Eu já os conhecia (na verdade, sempre vou aos shows deles aqui), mas estava morrendo de saudade, porque fazia um tempinho que eles não vinham para o Brasil. Por isso fui a dois shows, participei de dois meet&greet, fui ao hotel, tirei foto, abracei, conversei s2 s2 s2 foi puro amor! Aí voltei para casa na terça a noite e na quarta, meu hamster faleceu :( Gente, eu sou tão sentimental que chorei horrores! Fiquei muito abalada! Aí como se não bastasse, peguei uma gripe fudida que me deixou toda lesada! Ainda estou gripada, mas dei um jeito de vir postar para vocês. Enfim, quero agradecer, porque mesmo com todo esse tempo desaparecida, eu não perdi nenhum leitor! Vocês são o máximo! Obrigada de coração e desculpa se fiz alguém achar que abandonei a fic, prometo que isso jamais aconteceria. Agora as coisas vão voltar ao normal, não tenho nenhuma longa viagem para fazer por enquanto. Por enquanto... Hahaha. E depois de todo esse tempo, aqui está um capítulo novinho para vocês! Espero que gostem e boa leitura!

Eu fui embora para casa a pé e acabei chorando o caminho inteiro. Vez ou outra eu parava, mas quando me lembrava novamente de qualquer coisa que envolvesse o Arthur, as lágrimas simplesmente caíam. Odeio ficar sentimental e odeio chorar. Quando cheguei ao prédio do meu pai, foi que me toquei de que se qualquer um visse o meu estado, me encheriam de perguntas que eu não estava afim de responder. Então, acabei indo para a piscina e me sentei na beirada da mesma, tirando meu tênis para colocar os pés dentro da água, sem me importar em molhar a barra da calça.

Abri minha mochila e peguei meu diário desse ano, junto com uma caneta qualquer e comecei a escrever, escrever tudo sobre meus últimos dias. Eu precisava escrever, porque escrever me relaxa. Me sentei ali no fim da tarde e permaneci até o dia virar noite. Eu fiquei mal pelo que aconteceu, me senti frustrada por não ter terminado meu trabalho, mas ali, escrevendo e observando o céu, eu consegui me acalmar. E foi só quando meu pai me ligou perguntando onde eu estava, que eu subi para o apartamento, com os pés molhados deixando pegadas pelo chão e carregando meus sapatos nas mãos.

Naquela noite eu jantei e dormi cedo, pela primeira vez em tempos, porque minha cabeça estava doendo e meus olhos ardendo. De manhã quando meu despertador tocou, pelo menos acordei disposta porque havia dormido bastante, mas não estava animada nem um pouquinho e o pessoal percebeu quando cheguei na sala, me deitei sobre a mesa e optei por dormir os quatro primeiro horários inteiro. Apenas no segundo intervalo que eu decidi ir para o pátio procurar por Leticia.

Quando me levantei de minha cadeira para sair da sala, todos já haviam saído, mas ao chegar à porta, vi Gabriel no corredor conversando com uma galera que nunca vi na vida. Ou melhor, com certeza devo ter visto, já que estudamos no mesmo colégio, mas não os conheço. Quando ele me viu, se despediu do pessoal e seguiu em minha direção.

– Bom dia! – disse Gabriel me dando um abraço, mas eu não respondi, apenas o abracei de volta e não soltei. – Ok, estava achando que ter dormido até agora era apenas por estar com sono, mas vejo que minhas suposições estavam erradas. Que aconteceu?

– Nada. – menti e eu sabia que ele ia rebater até descobrir, mas ouvimos uma voz familiar.

– Oi, Isa. – disse Leticia e me soltei de Gabriel. Ela estava parada próxima a nós, com Amanda e Vitor ao seu lado. Meu deus, como eu estava com saudade do Vitor! Parece que agora nos vemos uma vez por década.

– Oi, pessoal! – disse indo até eles e dando um abraço apertado em cada um, principalmente em Vitor. – Acreditem se quiser, estava indo atrás de vocês!

– Aconteceu alguma coisa? – perguntou Leticia.

– Não, só quero conversar.

– Ta bom. Podemos ir pro pátio? — ela sugeriu e eu concordei.

– Podem ir que já alcanço vocês, preciso falar com o Gabriel a respeito do aniversário do Bruno. – avisou Amanda e eu olhei dela para ele, depois para ela de novo.

– Você vai? – perguntei confusa. Até onde sei, Amanda e Bruno se conhecem, mas não são próximos ou qualquer coisa do tipo.

– Sim, nós não somos muito próximos, mas somos amigos. – explicou Amanda.

– Ah sim.

– E a Lê também vai! — completou e eu sorri olhando para Leticia.

– Que bom! — afirmei. – Vamos descer? – chamei Leticia e Vitor e eles assentiram. Saímos dali deixando Amanda e Gabriel para trás e fomos para o pátio, onde nos sentamos em um banco de madeira embaixo de uma árvore.

– E então, como vai a vida? – perguntou Vitor.

– Mais ou menos. – respondi.

– Mais pra menos que pra mais, pelo visto. – disse Leticia e eu assenti.

– Ontem eu vim pro colégio fazer um trabalho e encontrei com o Arthur na biblioteca... – contei. – Mas digamos que não foi um encontro muito legal. Eu estava chorando... Por ele.

– Como assim? – indagou Leticia assustada e em um resumo, eu contei toda a história. Quando terminei de contar, que estava esperando por um bom conselho ou qualquer coisa do tipo, eles ficaram em silêncio.

– Sério? Nem uma palavrinha de conforto? – perguntei frustrada.

– Eu vou ser a favor do Arthur... — respondeu Vitor.

– Eu também. — completou Leticia.

– Eu odeio vocês. – afirmei e eles riram.

– Não, Isa, é que pensa comigo... — Vitor começou a dizer. — O Arthur não está com a Bianca há um bom tempo! Depois que eles terminaram, ela ainda envolveu com o Leandro, fazendo ele pegar raiva dela e mesmo depois que o Leandro terminou com ela, porque ele fez isso depois da briga que rolou entre você e ela, ele continuou não querendo mais nada com ela. Resumindo: Ele não quer ela!

– Ta, e daí?

– E daí que nesse tempo todo, ele tem tentado se reaproximar de você e você nem percebe! Ele faz isso do jeito Arthur dele: morrendo de medo de você. — explicou Vitor.

– Vitor, diz logo o que você sabe!

– O Arthur nunca deixou de fato de sentir alguma coisa por você, mas disso todo mundo sabe. E ai, quando você ficou com o Gabriel, que ele descobriu, ele surtou.

– Literalmente. – completou Leticia.

– Como assim? — perguntei.

– Ele estava naquela festa em que você e o Gabriel ficaram pela primeira vez e logo depois que brigamos e tudo mais, eu encontrei com ele na rua. — contou Leticia. — Ele tinha visto você com o Gabriel e estava tão puto, mas tão puto que você não faz ideia. Ele estava do lado de fora da festa, porque os meninos estavam segurando ele lá, já que ele queria esmurrar o Gabriel de qualquer jeito.

– Ele insistiu em dizer que por causa do que o Gabriel já tinha feito com a Bianca, mas eu boto minha mão no fogo se o nome certo pra isso não for ciúmes. — completou Vitor. — E aí ta, festa na casa do Pedro: vocês ficam. Você tem ideia de que deixou ele desconcertado por no mínimo uma semana? Nessa semana inclusive eu falei com ele e ele disse: “Vou fazer o que? Ela com certeza deve estar afim de outro cara. E mesmo que não estivesse, sou eu, a Isabelle não costuma dar segundas chances. Eu nem mereceria.”.

Eu instantaneamente me lembrei do que Arthur havia dito na minha casa: “Se o que aconteceu aquela noite entre a gente não significou nada pra você, significou pra mim” e isso me deixou incomodada, porque ele sabe que eu estou afim de outro cara, ele é o único que sabe e isso faz com que tenha todo sentido, ele não fazer nada a respeito de nós dois.

– Eu tenho certeza que a intenção dele nunca foi te magoar, porque ele ainda se culpa por isso. — continuou Vitor. — E depois de ontem, bom, ele deve estar se odiando. Mas o que eu acho, Isabelle, é que você devia dar uma segunda chance pra ele.

– Uma segunda chance pra vocês... — concertou Leticia. — Pra se reaproximarem de verdade. Sem fugir. E aí ver o que acontece. Você não se sente frustrada pela sensação de história incompleta que existe entre vocês? Então Isabelle, acho que já passou da hora de descobrir qual é esse fim.

O sinal indicando o fim do intervalo tocou e me senti incapacitada de levantar. Permaneci sentada e em silêncio observando outros alunos, até que Leticia e Vitor se levantaram e me chamaram para ir pra sala. Tudo que eu disse antes de nos separamos foi: “Isso é manipulação psicológica” e eles apenas riram, porque é cômico, já que não é com eles.

Entrei na sala e o professor já estava na mesma, então me apressei em sentar. Quando todos já estavam em seus devidos lugares, ele deu início a sua aula.

– Bom dia, pessoal! Esse é o nosso primeiro encontro depois do meu desafio para vocês de escreverem e participarem dos 5 minutos antes da ordem do dia. Bom, se alguém escreveu algo, podem me entregar.

Por incrível que pareça, bastante gente escreveu. Acredito que não foi nem 50% da turma, mas mesmo assim, foi muita gente, porque eu esperava que quase ninguém fosse participar. Eu mesma não escrevi, mesmo que realmente achasse a ideia legal e que tivesse pensado em participar, mas porque ainda não me sentia confortável para dividir algo pessoal com toda a sala. Gustavo e Carol escreveram, mas Gabriel e Bruno também não entregaram nada.

– Agora que todos entregaram, quero saber se alguém quer se voluntariar para ler ou se posso escolher. – disse o professor e ninguém se pronunciou. – Nesse caso, vou escolher. — Ele misturou várias vezes os textos em suas mãos e puxou um do meio, a sala inteira ficou tensa antes dele anunciar o nome. – Bárbara Ferreira.

Ao anunciar o nome de Bárbara, todos olharam para a garota sentada no primeiro lugar da fileira do meio. A garota magrinha de cabelos longos com cachos perfeitamente definidos, em um tom de castanho quase loiro, usando óculos, que se levantou e foi para frente da sala. Bárbara pegou sua folha com o professor e respirou fundo, dando uma breve olhada para todos antes de começar a ler em voz alta:

“Eu fui uma boa aluna no jardim de infância. Eu fui uma boa aluna no ensino fundamental. Eu fui uma boa aluna no ensino médio. Não, não fui, eu sou. Até a oitava série, minha mãe olhava meus cadernos todos os dias e assinava no final de cada página. Por que? Porque ela queria ter certeza de que eu havia prestado atenção em todas as aulas, copiado toda a matéria e feito todos os deveres. Ela me controlava, porque eu tinha que ser a melhor da turma e a melhor do colégio.

Amigos? Eu tinha poucos. Sempre foi assim. Quem faria amizade com a garota estranha que senta no primeiro lugar e passa o dia inteiro com a cara enfiada nos livros? E eu não podia reclamar disso, porque ter amigos, seria o mesmo que perder o foco e perder o foco, seria o mesmo que não ser a melhor e não ser a melhor faria minha mãe me punir. Como se o bullying no colégio, não fosse punição o suficiente.

Ela parou com a mania de assinar meus cadernos, apenas porque um dia, eu me rebelei pela primeira vez. Eu disse a ela que se não parasse de ser tão paranoica, fugiria de casa. Ela não parou. Eu fugi. O bilhete que deixei em cima da minha cama, era tão curto quanto a minha autoestima naquela época. Na verdade, só haviam duas breves palavras: Eu avisei.

Com uma mochila nas costas, vaguei pelas ruas de Curitiba por dezessete horas, sem ter para onde ir. Até que resolvi ligar o celular e ao encontrar 142 chamadas não atendidas, eu atendi a centésima quadragésima terceira e em prantos, minha mãe me convenceu a voltar para casa. Naquela madrugada, nós tivemos uma longa conversa e por um certo tempo, pareceu que tudo mudaria, mas nunca de fato mudou.

A punição de minha mãe acabou, assim como o bullying, mas a pressão verbal que eu recebia se tornou implícita em olhares e ações, por isso ainda sento no primeiro lugar e ainda passo a maior parte do tempo com a cara enfiada nos livros. Com consciência de que em dezessete horas, a gente percebe que somos insignificantes em 12.756km. Sendo mais específica, o diâmetro da Terra. E a vida, amigos, momentos e histórias que perdi e continuo perdendo, apenas pelas atitudes de uma mãe, não são nada comparados a se perder. Isso, não é drama, meu caro.”

Quando Bárbara terminou de ler, entregou o papel de volta para o professor, enquanto a sala aplaudia. Ela se direcionou para seu lugar e foi como se eu enxergasse outra garota se sentando naquele lugar. Uma garota diferente da que eu vi se levantar. É engraçado como tudo muda, quando você conhece a história de alguém. De repente eu soube quem era a garota que senta na frente daquela sala, que se mantém focada em todas as aulas, interage com todos os professores e quase nunca com os colegas de classe. E de repente, eu me senti mal pela vida que ela nunca viveu.

– Excelente texto, Bárbara. Obrigado por ter compartilhado sua história conosco! — agradeceu o professor. — Acho que pra uma primeira vez, apenas uma pessoa basta. Obrigado a todos que escreveram.

O professor prosseguiu sua aula e não consegui mais prestar atenção em nada, passei um bom tempo pensando em Bárbara e em como eu queria fazer qualquer coisa por ela. Eu tenho a mania de acreditar que todo mundo merece ser feliz de verdade e de me entristecer pelas pessoas que não tem essa chance, talvez seja por isso que eu queira fazer psicologia.

Eu procurei por meus fones de ouvido na mochila e os conectei ao meu celular. Coloquei música para tocar e deitei minha cabeça sobre a mesa, fechando os olhos. Automaticamente me lembrei de Arthur e de tudo que Leticia e Vitor havia dito, principalmente sobre dar uma segunda chance para ele e para nós. Porém, por mais tentadora que me parecesse a ideia, abri os olhos e enxerguei a razão pela qual eu não teria coragem de fazer isso.

Enxerguei os cabelos castanhos bagunçados, sempre bagunçados. Sorri com esse pensamento. Se algum dia eu ver aquele cabelo penteado, tenho certeza que me assusto, a sensação será de que tem algo muito errado. Enxerguei seu sorriso, acompanhado de uma covinha perdida naquele rosto. Sorri novamente. Covinha é uma coisa fofa, é algo que definitivamente não combina com Gabriel e sua nada fofura, mas eu definitivamente gosto dessa covinha. Ele estava animado conversando baixo com Bruno, mas me olhou e eu tentei disfarçar que não estava o encarando, porém não consegui e ele riu.

Eu não me dei sequer ao trabalho de me sentir constrangida, apenas continuei o encarando. Gabriel começou a escrever algo em seu caderno e de repente o levantou, virado para mim. Na folha estava escrito “completamente apaixonada” com sua caligrafia e eu apontei o dedo do meio para ele. Então ele abaixou seu caderno novamente e voltou a escrever, ao levantá-lo, estava escrito “tem planos para hoje a tarde?”. Peguei meu celular e digitei uma mensagem para ele: “Terminar meu trabalho de História. P.S.: Sabia que inventaram uma coisa chamada tecnologia, que facilitou a vida das pessoas e fez com que alunos parassem de desperdiçar folhas e matar árvores, escrevendo bilhetinhos?”.

Assim que mandei a mensagem, ele pegou seu celular e a leu, me encarou fingindo estar ofendido e voltou a escrever em seu caderno. Depois de um longo tempo, Gabriel levantou a folha onde dessa vez havia um desenho de um garoto aparentemente cortando uma árvore ao meio, dizendo “foda-se”.

– Que horrível, Gabriel! – disse enquanto ria sem parar e ele me acompanhou.

– Posso te ajudar no trabalho, se almoçar comigo. – propôs Gabriel e eu concordei, então ele pegou o caderno de novo e voltou para a primeira página em que havia escrito, levantando-a para mim: “Completamente apaixonada”. Mais uma vez apontei dedo para ele, tentando reprimir minha vontade de rir.

Voltei a olhar para frente, tentando prestar atenção na aula, mas foi em vão, porque não conseguia me concentrar. Me lembrei de mandar uma mensagem para meu pai avisando que mais uma vez não almoçaria em casa e depois voltei a olhar para o professor. Em um determinado momento, meus olhos encontraram Bárbara focada na aula, anotando o máximo de coisas possíveis e tomei uma decisão. Acho que preciso parar de tentar achar a fórmula da felicidade para a vida de todas as pessoas, mas simplesmente não consigo me conter. Por isso esperei ansiosamente pelo fim da aula e quando o sinal tocou, me levantei com pressa, segurando minha mochila e segui até o primeiro lugar da fileira do meio.

– Olá! – disse chamando a atenção de Bárbara para mim, que estava arrumando seus materiais.

– Olá! – ela respondeu com receio e visivelmente desconfortável, arrumando seus óculos.

– Prazer, Isabelle. – me apresentei estendendo a mão para ela, que a apertou novamente com receio.

– Eu sei quem você é. – afirmou Bárbara e de repente balançou a cabeça, disparando a falar e gesticular. – Quer dizer, não quis ser mal educada, não foi pra te tirar, entende? É só que eu realmente sei quem você é, todo mundo sabe quem é a Isabelle Nemitz...

– Ei, calma! – pedi. — Tudo bem!

– Me desculpe.

– Tudo bem, Bárbara. — afirmei tentando a acalmar. Ela parecia estar muito nervosa, organizando seus materiais e tentando olhar para mim o menos possível. — Enfim, ta tudo bem?

– Sim e com você?

– Tudo ótimo.

– Precisa de algo? — ela perguntou colocando sua mochila nas costas. — É com o trabalho de História ou outra matéria?

– Não. — respondi confusa. É só pra isso que as pessoas conversam com ela? Por problemas no colégio? — Na verdade, queria saber o que você vai fazer sábado a noite.

– Estudar. — ela respondeu naturalmente e indiferente, mesmo que eu tenha demorado alguns segundos para processar a informação. Para mim, é bizarro pensar que alguém estuda num sábado a noite.

– Você ta sabendo da festa que o Renan vai dar? — perguntei pensando que talvez nem sequer houvessem comentado com ela.

– Sim, escuto o pessoal fofocando. Por que?

– Eu gostaria que você fosse a essa festa comigo. — expliquei e sua reação foi franzir a testa e me encarar com os olhos arregalados.

– Ir a uma festa com você? — ela repetiu incrédula e disparou a falar e gesticular, como já havia feito. — Oh não, eu não frequento festas, eu não vou a festas, muito menos ir a festas com pessoas populares. Eu nem sei porque você ta falando comigo, ou porque está fazendo esse convite, mas não, muito obrigada.

– Eu sei que não somos amigas, mas eu queria que você fosse, queria que se divertisse um pouco...

– Ah, eu entendi. — disse Bárbara abaixando a cabeça e arrumando seu óculos. -- Você está com pena de mim, pelo que eu desabafei hoje. Não precisa sentir pena de mim... — completou e virou as costas, saindo andando.

– Não é isso! É que nunca é tarde, sabe? Nunca é tarde pra viver. Nunca é tarde pra tentar, pra se arriscar, pra fazer valer a pena. Nós somos pequenos comparados ao diâmetro da Terra, mas nós somos alguém. E por mais insignificante que possa parecer, uma vida na verdade é muita coisa, muita coisa pra quem a vive. — disse tentando concertar e consegui fazê-la parar no lugar, ainda de costas para mim. -Nunca é tarde para se achar.

– Minha mãe jamais me deixaria sair e eu nunca fui a uma festa de verdade, eu nem saberia como me vestir ou o que fazer, eu me sentiria deslocada... — disse Bárbara se virando para mim e eu sorri animada, porque ela ao menos havia considerado a ideia.

– Se imponha, diga a ela que você quer ir, que você vai ir. Ela não tem direito de não deixar. É a sua vida, você tem direito de vivê-la. E quanto ao resto... Confia em mim. Eu te ajudo, mas você vai precisar ter coragem.

– Eu não sei... Você vai ficar de babá e... — ela começou a argumentar novamente, mas a interrompi.

– Por favor! — pedi. — Significaria muito para mim! E eu aposto que se nos conhecermos, podemos ser grandes amigas.

– Eu vou pensar e te dou uma resposta.

– Tudo bem, mas pensa bem. Se for necessário, por dezessete horas. – disse e ela assentiu sorrindo, logo em seguida se retirou da sala.

– O que foi isso? – ouvi a voz de Gabriel perguntar atrás de mim e me virei para ele com um sorriso de orelha a orelha. Não havia mais ninguém na sala, então sem pensar me joguei sobre ele, envolvendo seu pescoço num abraço e o beijei. Ele ficou tão surpreso que demorou alguns segundos para corresponder o beijo da mesma forma, enquanto minha felicidade aumentava um pouquinho mais a cada segundo que passava com seus lábios junto aos meus. Por fim, levei minhas mãos até as laterais de seu pescoço e continuei o segurando enquanto interrompi nosso beijo lentamente. – Completamente apaixonada.

– Cala a boca, Gabriel. – ordenei e ele deu de ombros, como se estivesse dizendo apenas a verdade. Revirei os olhos e sai da sala, com ele me acompanhando.

– O que você estava conversando com a Bárbara?

– Eu chamei ela pra ir na festa comigo. — contei já esperando por uma reação negativa.

– Que? — ele perguntou incrédulo.

– Isso mesmo que você ouviu.

– Qual o seu problema? Você quer mesmo ficar de babá nessa festa? Não tenho nada contra a Bárbara, muito pelo contrário, mas é o que vai acontecer.

– A vida dela é tão triste! — expliquei descendo as escadas. — Poxa, eu quis fazer algo por ela.

– A vida de todo mundo é triste. — rebateu Gabriel.

– A minha não é.

– Claro, eu faço parte dela. — ele respondeu e eu parei para encará-lo inacreditada.

– Você é estúpido, Fornazier. — afirmei voltando a andar e ele riu.

– Pensa que engraçado o Nicolas e a Bárbara se pegam...

– Meu deus! Cala a boca! — ordenei rindo dessa ideia absurda. O Nicolas é bem mais novo que a Bárbara, isso seria completamente estranho. Até porque não consigo imaginar a Bárbara ficando com ninguém.

– Para, seria engraçado sim. — insistiu Gabriel.

– Onde nós vamos comer? — perguntei disposta a mudar de assunto.

– Tem um restaurante na rua de cima.

– Então vamos logo, porque pelo menos comendo você fica calado.

Fomos ao tal restaurante do qual ele havia falado e estava cheio de pessoas do colégio. Me senti até desconfortável, porque até acharmos uma mesa para nos sentar, Gabriel cumprimentou quase o estabelecimento inteiro, enquanto eu apenas sorria e acenava. Depois de nos servirmos e sentarmos, algumas pessoas ainda ficaram nos observando e eu estava cada vez mais incomodada.

– Atenção demais em mim. – reclamei.

– Eles só estão fofocando sobre nossa vida, apenas o de sempre. — respondeu Gabriel sem nem me olhar, focado demais em seu prato que parecia uma montanha de comida.

– Odeio que falem de mim e da minha vida.

– Mas é o que pessoas da nossa idade fazem, então aceite.

– Acho que eu odeio pessoas da nossa idade. — afirmei.

– Acho que eu odeio pessoas. — ele rebateu.

– Se você pudesse ser um animal, qual seria? — perguntei e dessa vez consegui sua atenção. Ele me olhou com uma sobrancelha erguida e deu um gole em sua coca.

– Você é estranha. — afirmou Gabriel depois de um longo tempo me olhando e eu sorri. Eu realmente sou e mesmo assim, ele ainda não fugiu de mim.

– É que quando você falou que odeia pessoas, eu automaticamente pensei que animais são realmente mais adoráveis e ai automaticamente também pensei em qual animal eu gostaria de ser, mas não faço a mínima ideia.

– Acho que eu seria um bicho preguiça. — disse Gabriel e eu ri. Boa escolha.

– Quando criança meu sonho era ter um papagaio. – contei.

– Um papagaio? – indagou Gabriel me olhando com a testa franzida. – Por que não um cachorro ou um gato?

– Porque eu queria ensiná-lo a falar “socorro, me transformaram em um papagaio”.

Ele me encarou com a testa ainda franzida e permaneceu em silêncio, nesse exato momento percebi que havia perdido a oportunidade de ficar calada. Eu não sou estranha, eu sou a pessoa mais estranha do mundo.

– Sabe como é, só papagaios podem aprender a falar... E seria engraçado... – disparei a falar tentando fazer o que eu disse ter algum sentido. Gabriel disparou a rir e não pude deixar de suspirar aliviada.

– Você é demais! – ele afirmou ainda rindo descompassadamente. – Isso é genial! Você é realmente demais!

E você é lindo, não pude deixar de pensar. Você é realmente lindo.

Quando Gabriel conseguiu finalmente parar de rir, nós terminamos de comer e pagamos nossa conta. Saímos dali ainda sendo observados pelos olhos de muitos curiosos e fomos direto para a biblioteca do colégio, onde nos sentamos no chão, encostados na parede e peguei meus materiais para terminar o trabalho de História. Gabriel abriu sua mochila e tirou um estojo de lá.

– Você lê um livro, eu leio o outro e anoto o que é mais importante, depois você passa pro seu trabalho. – sugeriu Gabriel.

– Você não precisa me ajudar, sabe disso.

– Tudo bem... – disse Gabriel fingindo se levantar, mas se sentou de novo. Apenas dei um tapa em seu braço e ele sorriu. – Não se acostume, não estou fazendo isso porque sou generoso, estou fazendo isso porque gosto de ficar longe de casa. – completou brincando. Quando ele falou sobre se manter longe de casa, novamente me lembrei de Bárbara.

– Eu sei que pode parecer estranho o que eu fiz em relação a Bárbara, mas você prestou atenção na história dela? – perguntei.

– Sim.

– Todo mundo tem uma história triste? — tornei a perguntar olhando para um ponto qualquer.

– Qual é a sua? — perguntou Gabriel e olhei para ele, que também estava me olhando.

– Eu não tenho uma história triste.

– Não se preocupe com isso... – ele respondeu abrindo o livro. – A vida não esquece de ninguém. Todo mundo se torna sua vítima em algum momento.

Gabriel começou a ler o livro em suas mãos e resolvi fazer o mesmo. Já fui lendo e anotando, depois de um tempo olhei para ele e vi que estava sublinhando algumas coisas no próprio livro com uma lapiseira.

– Ficou maluco? – perguntei alterada fazendo ele me olhar confuso. – Não pode danificar os livros!

– Por favor, me diga que você está zoando. — ele respondeu lentamente.

– Claro que não! São livros! Eu gosto mais de livros do que de pessoas!

– Mesmo livros de História do terceiro ano? — perguntou Gabriel levantando o livro e o olhando com desdém.

– Sim! São fontes de estudo, não haveria evolução sem o conhecimento do passado. História é importante. — afirmei e ele me encarou. Ele ficou um bom tempo me encarando, até eu me sentir desconfortável e então, balançou a cabeça negativamente sorrindo.

– A Isabelle certinha voltou. – disse de forma provocativa e eu o fuzilei com o olhar. – Eu apago depois, calma!

– Acho bom.

Enquanto copiava, vi de relance que Gabriel estava me olhando, mas ignorei. Alguns minutos depois, vi que ele continuava olhando, então comecei a me sentir incomodada. Se eu já me sinto incomodada com pessoas me olhando, devo dizer que me sinto duplamente incomodada se essa pessoa for o Gabriel.

– Para. – ordenei sem parar de escrever.

– Você até que é bonitinha.

– Vai se foder, Gabriel. — respondi o olhando e ele deu uma breve risada.

– Por que você gosta de ser assim? A garota dos cabelos bagunçados e da maquiagem nos olhos permanentemente preta?

– Não gosta? — perguntei o encarando com a sobrancelha erguida.

– Muito pelo contrário, é isso que te faz bonitinha! — ele respondeu provocando e eu revirei os olhos, voltando a prestar atenção em meu trabalho. — Só quero entender.

– Estereótipos. Eu tenho o estereotipo de patricinha mimada, loirinha dos olhos azuis e eu estudei a vida inteira com esse tipo de garota, sabendo perfeitamente que a última coisa que quero ser, é como elas. – expliquei continuando a copiar. — Tudo começou quando eu ainda era criança e estava construindo minha personalidade. Todas as outras meninas eram tão cor-de-rosa... E eu me sentia tão diferente. Aí conheci a Avril Lavigne. Não ria... – avisei e ele já começou a segurar o riso. — E ela definitivamente era tudo que eu queria ser. Pronto, acabou, eu comecei a me vestir feito ela, mas minha mãe não me deixava usar essa maquiagem pesada. Aí cresci, entrei no ensino médio e um dia a Amanda fez essa maquiagem nos meus olhos... Eu nunca mais tirei. Me tirou aquela cara de patricinha, foi a coisa mais mágica que já me aconteceu! – afirmei e ele riu. – Sobre os cabelos... Bom, eu simplesmente tenho preguiça demais para me preocupar com eles e me ajuda no meu estilo, então é isso ai...

– Eu curto seu estilo. Eu curto seu cabelo. Eu curto sua maquiagem. E curto mais ainda o fato de você não ser uma patricinha mimada. Então, obrigado, Avril Lavigne.

– Controle seus sentimentos por mim, Fornazier. É difícil, mas você é capaz. — zombei sorrindo. Como é doce o sabor da vingança.

– Sonha menos, Nemitz. – ele rebateu e eu apenas sorri.

Depois de um bom tempo em silêncio, focados, Gabriel me entregou o livro que leu com todas as partes que julgava importantes sublinhadas. Como ele havia terminado sua parte, se deitou ao meu lado, com sua mochila servindo de travesseiro. Logo eu terminei a minha parte e comecei a parafrasear as coisas que ele havia sublinhado, já apagando os riscos da lapiseira do livro. Quando ele viu isso, sorriu.

– Qual sua cor preferida? – perguntei.

– Cor preferida? – ele repetiu estranhando a pergunta. – Sei lá, que tipo de pessoa tem uma cor preferida?

– Todas as pessoas! – respondi indignada.

– Qual sua cor preferida?

– Vermelho.

– E isso serve pra que? — perguntou Gabriel como se realmente não entendesse o porque de alguém ter uma cor preferida e eu fui obrigada a rir.

– Comida preferida? — indaguei. Gabriel gosta de comer, com certeza deve ter uma comida preferida.

– Que tipo de pessoa tem uma comida preferida? Comer é minha coisa preferida. — ele respondeu e o pior é que vindo do Gabriel, faz mesmo sentido, então nem argumentei.

– Hobbie?

– Sair? — ele respondeu parecendo estar em dúvida.

– Por que você faz isso? Por que não me responde nada direito? – perguntei irritada.

– Por que você faz tantas perguntas? – rebateu Gabriel rindo e se sentou. – Eu odeio perguntas.

– Eu odeio não ter respostas. – disse o encarando séria e ele continuou parecendo estar se divertindo com a situação, então deu um beijo no meu queixo. – Eu to falando sério.

– Se acalme, apressadinha. Você vai tê-las com o tempo, sem precisar perguntar. É muito mais divertido ir conhecendo alguém do que receber uma ficha completa engessada e chata. – afirmou Gabriel e me deu um selinho, segurando meu queixo com a mão. — Vermelho é mesmo sua cor preferida? E se sim, vai ser sua cor preferida pra sempre? – perguntou com o rosto ainda próximo ao meu. – Acho que não! Você pode se apaixonar pelo laranja vendo um por do sol, ou pelo azul visitando o mar. Essa necessidade do ser humano de se definir, me entedia.

– Isso foi tão gay. – afirmei e ele me fuzilou com o olhar. Eu sorri, devolvendo o olhar e ficamos nos encarando.

– Eu não vou ceder, não vou desviar o olhar. — ele avisou e eu resolvi irritá-lo um pouquinho, já que ele havia me irritado.

– Nem eu.

– Ceda. – ordenou Gabriel e mesmo que eu estivesse me sentindo cada vez mais intimada pelo seu olhar, continuei a encará-lo. Ele aproximou o rosto ainda mais do meu, sem desviar o olhar e pude sentir sua respiração contra minha pele. – Ceda. – ele repetiu e ter seu rosto a poucos centímetros do meu, me fez ficar tentada a olhar para sua boca, o que fez com que eu acabasse desviando o olhar. Vi um sorriso vitorioso surgir em seus lábios e ele me beijou.

Ouvimos alguém pigarrear perto de nós e nos separamos. Quando olhamos para o lado encontramos a bibliotecária nos olhando de cara feia, com os braços cruzados na frente do corpo.

– Isto aqui é um local de estudos, não de namoro. — ela disse séria. — Ou vocês param com isso, ou serei obrigada a convidá-los a se retirarem.

– Desculpa. – pedimos em uníssono.

– Não vai acontecer de novo. – completei e ela se retirou, ainda nos olhando desconfiada. Quando ela estava fora do nosso campo de visão, eu e Gabriel disparamos a rir.

Resolvi não correr o risco de ser expulsa da biblioteca antes de terminar meu trabalho, então Gabriel me deixou quieta para fazê-lo. Não muito tempo depois eu terminei, colocamos tudo de volta no lugar e saímos dali, comigo folheando as seis páginas que eu havia escrito.

– Esse trabalho me rendeu duas tardes na biblioteca e calos na mão. – reclamei. Sem contar uma briga feia com o Arthur, mas isso eu não diria em voz alta. — Odeio esse professor.

– O seu ainda ficou menor que o meu, pensa em como eu estava escrevendo a oitava folha.

– Você é estudioso? — perguntei afim de matar minha curiosidade, guardando meu trabalho na mochila.

– Não, apenas faço minhas obrigações e pronto. Não sou tipo o Gustavo que chega em casa e vai rever a matéria do dia.

– Ele faz isso? — perguntei incrédula. Não é tão bizarro quanto estudar num sábado a noite, mas é algo que eu definitivamente não faria.

– Acredite, ele faz.

– Você acha que ele vai conseguir passar pra medicina?

– É complicado, mas eu acredito nele. — respondeu Gabriel e ele pareceu estar sendo sincero. Eu também acredito que Gustavo consiga.

– E você? Acha que você vai conseguir entrar na universidade?

– Sério que você quer falar disso? — ele perguntou fazendo careta.

– Desculpe.

– Se eu não passar, meu pai me deserda. Acredite, estou falando sério. Mas eu não quero ir pra universidade.

– E o que você quer? — perguntei curiosa.

– Pois é, esse é o grande problema. — respondeu Gabriel. — Eu não sei o que eu quero da vida.

– Acho que na verdade nenhum de nós sabe.

Enquanto caminhávamos pela calçada, passamos por um Pet Shop com uma parede de vidro, expondo alguns cachorros filhotes a venda, separados em compartimentos, às vezes sozinhos, às vezes com outros da mesma raça. Alguns brincavam, outros dormiam e outros latiam sem parar. Parei em frente ao vidro, mais especificamente em frente a um filhote que estava deitado encarando a rua. Ele não era o tipo de cachorro considerado bonito e isso me fez perceber que era visivelmente o motivo pelo qual ele era o maior filhote ali, porque ninguém o queria comprar. Coloquei a mão no vidro e ele levantou a cabeça para me olhar.

– Não temos o direito de pagar por vidas. – comentei em voz alta, batendo o dedo no vidro, enquanto o filhote continuou me olhando com um olhar extremamente triste. – São animais, não objetos. Vidas, não mercadoria. Isso me entristece. Não há dinheiro no mundo que pague por uma vida.

Continuei encarando o filhote em minha frente, passando a mão pelo vidro, enquanto ele observava meus movimentos. Então eu aproximei meu rosto do vidro e sorri, batendo com o meu dedo indicador no vidro repetidas vezes e ele balançou o rabinho, mesmo que ainda não parecesse estar disposto a se levantar.

– Mas sabe o que me entristece mais? – perguntei sem de fato esperar por uma resposta. – É que sempre julgamos pela aparência. Pior do que achar que temos o direito de pagar por uma vida, é acharmos que temos o direito de determinar o valor dessa vida por sua aparência. Isso não só me entristece como me enoja.

– Sabe o que me enoja mais que tudo isso? – perguntou Gabriel e olhei para ele, que estava parado ao meu lado. – É alguém achar que pode ser dono de uma vida e fazer dela o que bem entender.

– Já passou pela sua cabeça que acreditar em Deus é basicamente o mesmo que acreditar nisso? Já que Deus seria responsável pelas nossas vidas. – perguntei voltando minha atenção para o cachorro.

– Não, porque existe o livre-arbítrio, Ele não faz da gente o que bem entender.

– Decidir quando uma vida deve acabar ou não, não é quase o mesmo que fazer dela o que bem entender?

– Você é extremamente irritante, sabia? – ele perguntou e eu sorri para ele, que também estava sorrindo.

– Tchau, garotão! – me despedi do filhote que deitou a cabeça novamente e me acompanhou com o olhar, andar para longe dele. Eu queria muito comprá-lo, mas não posso, porque nem minha mãe, nem meu pai, me deixariam ter um cachorro. – Meu coração esta doendo! – confessei enquanto eu e Gabriel continuamos nosso trajeto e ele riu.

– Você é muito sentimental!

– Devo concordar.

Nós seguimos o caminho conversando sobre banalidades e mais rápido do que eu queria, chegamos a porta do prédio do meu pai. Gabriel me deu um longo beijo de despedida e saiu andando enquanto eu continuei parada o observando. É sempre tão bom estar com ele, que chega a ser torturante vê-lo ir embora.

– Se eu olhar para trás e você ainda estiver me olhando, eu vou afirmar novamente que você está completamente apaixonada. — gritou Gabriel e sem me dar tempo para desviar o olhar, ele virou para trás e começou a rir.

– Você é um idiota! — afirmei e ele parou no lugar.

– Você quer o cachorro?

– Meus pais não me deixariam ter um cachorro. — respondi.

– E o que eles diriam se eu lhe desse um papagaio? — perguntou e eu ri, mas abaixei a cabeça constrangida, me lembrando da nossa conversa.

– Chega de presentes.

– Mas eu realmente gostei da ideia do papagaio. — ele rebateu.

– Você já da mais trabalho que qualquer animalzinho de estimação, Gabriel. — afirmei me virando para entrar no prédio. O porteiro destravou o portão e eu olhei para trás uma última vez antes de entrar. Gabriel ainda estava parado no lugar, me olhando e sorrindo.

– Completamente apaixonado. — disse alto o suficiente para que ele pudesse ouvir e entrei, ainda ouvindo o som de sua gargalhada, com um sorriso enorme nos lábios.

Notas finais
E então, gostaram? Estão felizes por eu finalmente ter aparecido e postado? Espero que sim! Porque estou com saudade de vocês e de seus comentários! Por favor, me bombardeiem com eles, nem que seja para me xingarem por ter sumido, que terei prazer em respondê-los s2