Poltrona 19
25 Desafio
Notas iniciais
A campainha tocou e eu corri para atender. No momento em que abri o portão e vi Bárbara parada ali na frente, foi que eu realmente acreditei que na sexta-feira ela havia me procurado no colégio e aceitado minha proposta de levá-la a uma festa. A garota que nunca sai e não tem amigos, confiou em mim para fazer dessa uma noite memorável em sua vida e eu pretendo não desapontá-la. Sua mãe estava dentro do carro estacionado em frente a minha casa, provavelmente esperando que ela entre. Acenei sorridente e a mulher acenou de volta.
– Ela me odeia, não é mesmo? – perguntei dando espaço para ela entrar.
– Com certeza! – respondeu Bárbara entrando. – Você está tirando o bebê dela de casa e a levando para uma festa onde estou sujeita a riscos. Eu não me assustaria se ela tivesse colocado um rastreador em mim e me seguisse até o local só para me vigiar.
– Eu realmente espero que ela não faça isso. – afirmei fechando o portão e Bárbara riu, mas eu realmente estava falando sério.
Bárbara me seguiu até dentro de casa e eu mostrei os cômodos para ela. Sempre faço isso com visitantes porque odeio perceber que eles estão desconfortáveis. É sempre desconfortável estar na casa de outra pessoa com quem você não tem intimidade, mas quando você já conhece tudo e a pessoa te dá liberdade, você se sente melhor. Mesmo assim, tinha certeza de que nada na vida faria Bárbara se sentir menos tímida, principalmente na minha presença. A levei para o meu quarto onde estavam Leticia e Amanda esperando ansiosamente por ela.
– Bárbara, essas são Amanda e Leticia. – disse afim de apresentá-las, mas quando olhei para trás, Bárbara estava paralisada na porta. – Ok, qual o problema?
– Amanda Bonfim e Leticia Almeida. – respondeu Bárbara e eu entendi tudo. O problema é o mesmo que aconteceu quando eu conversei com ela pela primeira vez, o fato de ela não saber socializar com pessoas que julga ser populares. Espero que ela não enfarte conhecendo o Gabriel.
– Eu... – disse Amanda confusa.
– Ela tem problemas com pessoas populares. – expliquei à Amanda e ela deu um gritinho se levantando correndo da cama.
– Então você me acha popular? – perguntou Amanda puxando Bárbara pelo braço e a sentando numa cadeira. – Você é minha nova melhor amiga!
– Eu tenho dó dela! – afirmou Leticia e eu concordei completamente.
As duas estavam ali pelo simples motivo de que eu garanti para Bárbara que a arrumaria para a festa, já que como ela nunca havia ido em uma, não fazia ideia de como se vestir e nem tinha roupa para isso. Eu automaticamente me lembrei da festa em que eu e Gabriel ficamos pela primeira vez. Eu senti a mesma coisa quando pensei em ir e me senti tão deslocada, quanto ela se sentirá ao chegar lá. Tudo mudou num período de tempo tão curto que é até estranho pensar.
Como eu ainda não me sinto segura para arrumar alguém, chamei a pessoa perfeita para isso: Amanda. E chamei Leticia por dois simples motivos: ela entende de moda, mas consegue não exagerar como a Amanda faz. Logo, ela não deixaria Amanda enfeitar Bárbara feito uma árvore de natal. E todo tempo que passo com Leticia, ainda me parece pouco.
– Hoje Bárbara não será a única vítima. – avisou Amanda. – Eu irei arrumar nós quatro e não aceito não como resposta.
– Não mesmo! – afirmei.
– Não mesmo, mesmo. – concordou Leticia.
– Por favor, gente. Por favor. – pediu Amanda. – Eu juro que tento deixar vocês o mais próximo possível da personalidade de vocês. É que adoro fazer isso e vamos ficar todas lindas. Por favorzinho!
– Eu só quero ficar o mais discreta possível e usar sapatilha. – disse Bárbara.
– Combinadíssimo! – respondeu Amanda e olhou para mim e Leticia praticamente suplicando com os olhos. É sempre uma tortura ser vítima da Amanda, mas acabei topando. Agora o que me surpreendeu mesmo, foi que ela conseguiu convencer Leticia a topar também.
Como sempre, Amanda nos fez experimentar um milhão de roupas e ela sempre demora a ficar satisfeita com algo. Sem contar que quando ficava satisfeita, a gente não gostava. Quando conseguimos entrar em um acordo a respeito das roupas e acessórios, já haviam se passado duas horas. Eu agradeci por ter pedido Bárbara para ir cedo. Depois Amanda fez questão de passar maquiagem em cada uma de nós e só deixou que tivéssemos autonomia para arrumar o cabelo, menos Bárbara.
Após mais de três horas, eu fui a primeira a ficar pronta. Parei em frente ao espelho e coloquei meu chapeuzinho preto pra completar meu look, que foi o mais simples que consegui convencer Amanda a me deixar usar. Esse foi o momento em que Amanda começou a surtar de novo.
– Esse chapeuzinho horroroso não, Isabelle. – ela reclamou.
– Eu gosto, então não enche o saco. – respondi e Leticia surgiu ao meu lado para se olhar no espelho também, aparentemente pronta. Eu gostei do look que Amanda havia escolhido para ela, porque realmente combinava bastante com a personalidade dela.
Nós nos sentamos na cama para esperar Amanda terminar ela e Bárbara e agradeci aos deuses por ela anunciar que estavam prontas, apenas alguns minutos depois. É chato o quanto Amanda é exigente, mas eu confesso que ela tem bom gosto e quando olhei para Bárbara, fiquei deslumbrada, porque nunca havia a visto arrumada. Eu já achava ela bonita, mas ela estava ainda mais, mesmo com um look discreto, como havia pedido. Bárbara tem uma beleza naturalmente angelical, essas garotas que parecem ser mais novas do que realmente são e por isso são uma fofura.
– Você está linda! – elogiei.
– Estou? – perguntou Bárbara e só então me toquei que ninguém havia deixado ela se ver no espelho ainda. Então fiz meu papel de fada madrinha e a coloquei na frente de um. Bárbara abriu um sorriso imenso e se virou repentinamente para trás, me surpreendendo com um abraço.
– Obrigada! – ela agradeceu. – Eu ainda nem fui para essa festa e posso dizer que esse é o melhor dia da minha vida. Eu nunca tive amigas, muito menos que me fizessem me sentir bonita.
– Não precisa agradecer. – respondi desfazendo o abraço e ela correu na direção das meninas, também as esmagando em um abraço. Eu me senti bem, ao ver que ela estava feliz. Quando a sessão abraço acabou, Leticia fez questão de quebrar o clima, para irritar Amanda.
– Amanda, qual é a dessa jaqueta mostarda horrível estragando seu look? – perguntou Leticia e Amanda nem sequer respondeu, apenas a olhou com cara feia enquanto ríamos.
– Peguem tudo que vão levar e me esperem na sala. – pedi. – Eu vou chamar Nicolas, meu pai e Lilian.
Dito isso sai do quarto e fui em direção ao de Nicolas. Bati na porta e logo em seguida ele a abriu, usando uma camiseta cinza, uma camisa preta por cima, uma calça também preta e um all star branco.
– Ta bom? – ele perguntou apontando para si mesmo.
– Ta lindo! – respondi sincera. – E eu? – perguntei dando uma voltinha.
– Só tenho uma coisa pra dizer: Uau! – respondeu Nicolas e eu ri.
– Está pronto?
– To sim!
– Me espera na sala então que vou chamar nossos pais. – pedi. – As meninas já estão lá!
– Ok.
Bati na porta do quarto do meu pai e ele ordenou que eu a abrisse. Ele estava sentado na cama assistindo algo na televisão, enquanto Lilian terminava de se arrumar. Quando conversei com Lilian sobre levar Nicolas a uma festa, ela pareceu animada com a ideia, mas quis saber onde era, como seria, quem estaria e fez mais uma série de perguntas. Acho que era novo para ela a ideia de o seu filho estar saindo, então respondi calmamente, a assegurando de que ele ficaria bem. Meu pai simplesmente adorou a ideia, porque aproveitou a oportunidade de que nós dois sairíamos e resolveu levá-la para jantar.
Ele aparentemente já estava pronto, apenas a esperando, mas quando avisei que já estávamos prontas, Lilian afirmou que também estava. Como apenas eu e meus amigos somos cinco, seria necessário mais de um carro para nos levar. Eu não queria incomodá-los tanto, mas Lilian afirmou que não seria incômodo. Ela estava tão tranquila que eu realmente achei que ela estava de boa quanto ao Nicolas saindo, mas descobri que não estava tão certa quando chegamos ao estacionamento do prédio e papai anunciou que levaria eu e as meninas e Lilian levaria Nicolas, pois queria conversar com ele. Nicolas entrou no carro revirando os olhos e eu fui obrigada a rir.
Durante o caminho papai brincou com Bárbara, perguntando quem é a novata da turma. No começo ela estava bem tímida, assim como ficou quando a apresentei para Nicolas na sala, mas depois de ele tanto fazer suas típicas piadinhas, até ela estava entrando na brincadeira. Não demorou muito para que chegássemos à casa de Renan, que parecia ser bem grande. A rua estava movimentada, com bastante carros estacionados, algumas pessoas do lado de fora conversando e outras chegando.
– Parece que a festa vai ser boa! – observou papai procurando um lugar para estacionar.
– Não precisa estacionar, pai. Nós descemos em qualquer lugar.
– Não, faço questão. – ele respondeu.
– Você deveria ficar e se divertir com a gente, Paulo. – brincou Amanda. – Você com certeza é mais divertido que muito idiota da nossa idade.
– Sua mãe me disse algo parecido quando nos conhecemos, Isabelle. Foi “você é mais idiota que todos os caras da sua idade”. – disse papai e nós gargalhamos. Ele encontrou uma vaga e começou a estacionar o carro. – Bom, vamos às recomendações... Se divirtam bastante, não caiam de bêbadas, porque é feio menina fazendo vexame, usem camisinha... – ele parou de falar, desligou o carro e desceu do mesmo. Eu desci logo em seguida, sem entender, então ele jogou as chaves em cima do carro. – E é melhor estar sóbria o suficiente para dirigir.
– O que? – perguntei perplexa. – Você está me dando um carro?
– Não, estou te testando para saber se posso te dar um carro no seu aniversário de 18 anos. – ele respondeu. – Eu já te ensinei a dirigir, se você fosse uma cidadã americana, já teria carteira de motorista, então não há problemas... Volte para casa com Nicolas e o carro e ganhará um.
– Você é inacreditável! – foi tudo que eu consegui dizer. Que tipo de pai deixa a filha de 17 anos responsável por um carro após uma festa? Isso deve ser tática dele para que eu não beba, só pode.
– Ah, eu e Lilian não dormiremos em casa. – avisou papai indo em direção ao carro dela.
– Agora eu entendi tudo! – disse alto o suficiente para que ele ouvisse. – Você só esta fingindo que confia em mim, porque havia prometido que nos buscaria, mas arrumou novos planos. Então se eu tiver como ir embora, não tem problemas.
– Te amo, querida. – gritou papai entrando no carro.
– Torça para que a gente volte vivos! – gritei de volta.
Quando olhei para o lado todo mundo estava rindo e dizendo coisas como “seu pai é o melhor” e “eu queria que ele fosse meu pai”. Nicolas era o único calado e com uma careta no rosto.
– Que foi? – perguntei achando que se tratava de algo que sua mãe havia dito.
– Eles vão pra um motel? – perguntou Nicolas com uma visível expressão de nojo e quase o bati por ter me feito pensar nisso.
– É melhor entrarmos nessa festa logo! – respondi.
– Tranque o carro. – lembrou Amanda e eu acionei o alarme olhando com cara de desprezo para o carro. Preciso pensar em algo para chegar com ele em casa, porque com certeza não deixarei de beber. E se eu beber, com certeza não terei condição para dirigi-lo. É, talvez eu não queira um carro de presente de 18 anos.
Seguimos rumo à entrada da festa e quando entramos, percebi que era idêntica a todas as outras que já fui esse ano, o pessoal está precisando inovar. No entanto, a julgar pelas expressões de Bárbara e Nicolas, tudo parecia muito novo para eles. Quero até ver o que dirão quando der umas 2h da manhã, todo mundo estiver dançando feito louco, casais estiverem praticamente transando em público, bêbados estiverem jogados no gramado e eu não estiver mais consciente dos meus atos. Apesar de que neste horário, eu espero que eles também não estejam conscientes dos seus.
– E ai, o que sua mãe queria conversar? – perguntei ao Nicolas enquanto Leticia nos guiava em direção ao bar. Por isso eu gosto dessa garota.
– Ela reproduziu um discurso sobre álcool, drogas e sexo. – respondeu Nicolas. – Foi insuportável.
– Imagino que sim. Até porque tudo que ela disse para não fazer, quero que você faça.
– O que? – ele perguntou perplexo.
– Hoje é a noite de você cometer loucuras sem pensar nas consequências! – expliquei. – Faça tudo que te der vontade e eu cuidarei de você. Eu disse que seria uma noite divertida, não disse? Então vai ser.
– Você é a melhor! – elogiou Nicolas me abraçando de lado.
– Eu sei. – respondi o fazendo rir.
Quando chegamos ao bar, eu e as meninas pedimos vodka com suco. Pedi para Bárbara e Nicolas também, mas para eles, pedi que o cara fizesse um pouco mais fraco. Quando o cara voltou com nossas bebidas, entreguei um copo para Bárbara, um para Nicolas e comecei um pequeno discurso. O segundo que Nicolas ouviria em questão de minutos.
– Isso é uma bebida alcoólica, assim como tudo que pretendo dar a vocês essa noite. Mas minha intenção não é embebedar ninguém sem consentimento, porque é claro que vocês ficarão suscetíveis a passar mal...
– Pagar vexame. – intrometeu Amanda.
– Dançar em cima de um palco. – completou Leticia.
– Pegar caras que suas amigas já estão pegando... – continuou Amanda e tudo perdeu a graça nesse exato momento, porque eu achei que ela não ligasse para isso, como deixou claro. Ela percebeu pela minha cara que eu não havia gostado do comentário, pois me abraçou e começou a se desculpar. – Me desculpa, juro que foi apenas uma brincadeira, porque não achei que isso fosse te incomodar, já que esclarecemos tudo na época.
– Tudo bem. – respondi desfazendo nosso abraço e voltei novamente a falar com os meninos. – Bom, é isso, me deem autorização e podem beber o que estão segurando, não deem e me devolvam o copo agora.
Assim que terminei de falar Nicolas deu um gole na bebida e fez sinal de que havia aprovado, logo em seguida Bárbara fez a mesma coisa. Involuntariamente abri um sorriso, porque confesso que fiquei com medo deles desistirem e estragarem minha perspectiva para a noite. Dá sim para se divertir sem beber, aliás, não gosto de estar incentivando ninguém a isso, mas existe um motivo para as pessoas gostarem tanto de tal hábito e esse motivo é que é o único momento em que você vive de verdade, sem ligar para as regras impostas pela sociedade. Você faz sem se preocupar com as consequências, se alguém vai te julgar ou até mesmo se esta fazendo algo fora da lei. Você simplesmente faz e eu gosto dessa sensação de liberdade.
– Nicolas, hoje você pode fingir que é meu namorado e passaremos ciúmes em vários idiotas por aí. – disse Amanda passando um braço por cima de seu ombro.
– Ninguém acreditaria... – respondeu Nicolas.
– Na verdade, isso seria tecnicamente improvável. – disse Bárbara.
– Por que? – perguntei.
– Eu diria que Amanda é a segunda garota mais comentada do colégio atualmente, logo, todo mundo sabe quase tudo sobre a vida dela. E uma coisa que sempre se sabe sobre pessoas populares, é seu status de relacionamento. Sendo assim, todos sabem que Amanda não está em um relacionamento sério e que Nicolas obviamente não é seu namorado. – respondeu Bárbara.
– Quem seria a garota mais comentada que eu? – perguntou Amanda.
– Por que eu tinha certeza de que se a Bárbara passasse três horas falando, essa ainda seria a pergunta dela? – perguntou Leticia olhando para mim e eu ri, porque também pensei a mesma coisa.
– Isabelle, claro. – respondeu Bárbara.
– E em que teoria você sustenta essa resposta? – Amanda tornou a perguntar.
– Na teoria de que eu sou parte integrante da massa geradora dos boatos e não da massa de quem são inventados ou reproduzidos esses boatos. Eu sou a que observa, não a que é observada. Quando existe um boato sobre um determinado alguém, as pessoas nunca vão comentar sobre tal coisa, perto deste alguém. Este alguém geralmente só descobre porque comentaram perto de conhecidos deste alguém...
– Isso foi confuso. – comentou Nicolas.
– Ou seja, vocês não fazem ideia de um terço das coisas que falam de vocês por aí, porque vocês são o fato gerador de interesse, é sobre vocês que estão falando e é perto de vocês que ninguém comentará. – prosseguiu Bárbara. – E sendo mais específica na resposta para sua pergunta, Isabelle é o centro dos comentários, porque tem sido especulado por todos os cantos, a aproximação dela e Gabriel Fornazier e o fato de que eles estão passando tempo demais juntos, seja no colégio ou fora dele.
Quando Bárbara terminou de falar, não houve nenhum comentário, a não ser olhares em minha direção. Acho que ela não percebeu que me colocou numa fria, mas ela colocou.
– É claro que houve também uma especulação a cerca da aproximação de Amanda e Gabriel... – Bárbara continuou a falar e dessa vez foi eu quem olhei para ela. – Principalmente depois que eles ficaram algumas vezes. Então surgiu o questionamento de se Gabriel estaria com alguma das duas, mas Gabriel passa muito mais tempo com Isabelle do que com Amanda, então a maioria das pessoas chegaram à conclusão de que Amanda e Gabriel são apenas do mesmo grupo social e se tornaram amigos. Agora a respeito de Isabelle, todo mundo ainda tem duvidas.
– Você disse que faz parte da massa geradora de boatos, correto? – perguntei e ela assentiu. – Então gere não só o boato, como a confirmação, de que eu e o Gabriel somos apenas bons amigos!
– Raciocine comigo, Isabelle... – pediu Bárbara como se estivesse explicando algo muito complicado para uma criança. – Gabriel é um cara muito popular, logo, ele tem muitos amigos. Ele sempre cumprimenta, conversa, passa um tempo com pessoas diferentes. A única garota com quem ele é visto frequentemente, é Carol, sua melhor amiga. Então de repente, ele começa a passar mais tempo com você do que com a própria Carol. Mesmo que vocês também sejam do mesmo grupo social e estejam no mesmo patamar de popularidade... Quer dizer, você chegou ao patamar dele quando se tornaram amigos. Voltando, mesmo com tudo isso, é difícil convencer as pessoas de que são apenas amigos, principalmente porque elas veem malícia em tudo. Eu acredito em você, mas a parcela de pessoas que também acredita, é muito pequena.
– Agora estamos falando de matemática? – perguntou Nicolas e todos rimos. Ele parecia estar mesmo perdido na conversa.
– Espero que não, porque agora que eu ia me integrar à conversa. – disse Gabriel simplesmente surgindo ao nosso lado.
– Na verdade, Bárbara sendo parte integrante da massa geradora dos boatos e não da massa de quem são inventados ou reproduzidos boatos, como ela mesma se descreveu, estava nos contando sobre as especulações que surgiram sobre um possível envolvimento de você com Amanda e depois de você com Isabelle. – disse Leticia de forma acusatória e eu percebi pelo seu tom de voz, que ela queria dizer que o mataria se fosse verdade.
– É mesmo? – perguntou Gabriel com um sorriso nos lábios. – Eu acho engraçado o fato de que aparentemente não posso fazer amizade com mulheres, sem inventarem que estou transando com elas.
– Pois é, Isabelle já se defendeu, afirmando que vocês são mesmo apenas amigos. Mas Bárbara também estava nos contando que mesmo que vocês façam parte do mesmo grupo social e estejam no mesmo patamar de popularidade, usando exatamente essas mesmas palavras, quase ninguém acredita nisso. – respondeu Leticia.
– Interessante. – afirmou Gabriel sem deixar de sorrir, então deu um gole no copo de cerveja que estava segurando e prosseguiu. – Pena que eu não ligo para o que as pessoas acreditam ou não. A propósito, Bárbara... – disse Gabriel se virando para ela e eu juro que acreditei que ela desmaiaria ali mesmo. – Você já parou para pensar que estando numa festa com nós, na mesma rodinha, conversando, você acaba de deixar de ser parte da massa geradora dos boatos e se tornou parte da massa de quem são inventados ou reproduzidos esses boatos?
– Vocês poderiam parar de repetir essa frase que tem a palavra massa? Porque não ta massa! – disse Nicolas e mais uma vez eu ri de seus comentários aleatórios.
Todos estavam olhando para Bárbara esperando pela resposta dela, porque foi interessante a observação de Gabriel, mas foi só quando parei de rir de Nicolas que me toquei que ela deveria estar querendo cavar um buraco e se esconder dentro dele. Gabriel acabou de fazer uma pergunta diretamente para ela. O Gabriel. Se ela teve problemas comigo e com as meninas, imagino que o fato de ela ter começado a encarar o chão, não seja nem metade do quanto ela estava constrangida.
– Respira e bebe um gole da bebida. – sugeri me aproximando dela e ela obedeceu, logo em seguida olhando para mim.
– Você poderia pedir para ele não dirigir a palavra a mim? – pediu Bárbara num sussurro.
– Ele é da mesma sala que você e você jura que não consegue falar com ele? – perguntei sem entender. É só o Gabriel.
– Da mesma sala há três anos, a propósito. – observou Bárbara. – Mas não, não consigo.
– Ta tudo bem? – perguntou Gabriel e ao olhar para o pessoal, vi que todos continuavam observando Bárbara.
– Ela não consegue falar com você. – respondi sincera e vi Bárbara ficar literalmente vermelha de vergonha. – Desculpe. – pedi no mesmo momento à ela.
– Por que? – Gabriel tornou a perguntar.
– Ela tem problemas com pessoas populares. – explicou Amanda.
Quando Amanda explicou, Gabriel veio até nossa direção e parou ao meu lado, porque era para mim que Bárbara estava olhando. Então ele conseguiu a atenção dela.
– Eu sou gente igual a você, só que menos inteligente. Bem menos. – disse Gabriel e ela sorriu. – Aliás, todo mundo é igual, seja lá qual for sua merda de status. Então não se sinta inferior a ninguém. Até porque nunca que ter sua vida comentada 24h por dia, te faz melhor que os outros.
– É uma reação involuntária do meu corpo. Eu sou muito tímida, quando pessoas como vocês falam comigo, eu realmente travo ou começo a agir feito idiota, falando rápido e sendo estabanada. – explicou Bárbara falando rápido e eu dei uma breve risada ao observar isso.
– Bom, te desafio a treinar isso. Começar a conversar com pessoas diferentes, sejam populares ou não. – propôs Gabriel. – Até porque você sabe que o que eu disse fez sentido, que vão comentar sobre você a partir de agora.
– Não seria tão difícil depois de ter conseguido falar com você. – respondeu Bárbara. – Mas tudo bem, eu topo.
– Foi um prazer finalmente conversar com você. – disse Gabriel estendendo a mão para ela e ela apertou sua mão. Que bom que ele não tentou um beijo no rosto, acho que uma conversa foi progresso o suficiente. – Agora e quanto a você, Nicolas? Ta achando que eu vou te deixar no meio desse tanto de garota? – perguntou Gabriel.
– Eu espero que sim. – respondeu Nicolas.
– Não mesmo! Hoje te apresentarei algumas garotas... que não sejam essas.
– Eu só tenho 15 anos, cara.
– Primeiro: com 15 anos eu já pegava mulher. – contou Gabriel. – Segundo: hoje você tem 17 anos, faz o terceiro ano em outro colégio, que você pode escolher, mas que você conheça minimamente, para caso te façam perguntas. O mundo é dos espertos.
– Você não presta. – afirmei e ele sorriu para mim.
Meu copo de bebida já havia acabado e observei que o de Nicolas e Bárbara também, fiquei feliz porque eles realmente estavam bebendo. Então anunciei que buscaria mais e Gabriel disse que iria comigo, mesmo que estivéssemos praticamente ao lado do bar. Quando chegamos lá foi ele quem pediu e assim que o garçom virou as costas, comentou o acontecimento.
– Me senti minimamente culpado, mas foi justo. – disse Gabriel e eu não entendi, mas nem deu tempo de perguntar, porque ele prosseguiu. – Estudo com ela há três anos, é claro que eu sei que ela tem esse ataque de pânico conversando com estranhos. Só mudei o foco da conversa de nós para ela, estrategicamente.
– Você realmente não presta! – afirmei e dessa vez ele não só sorriu, como riu.
– Ah como eu te odeio, Isabelle.
– Não, você não me odeia. Isso é amor enrustido. – respondi. – Mas qual o motivo da informação?
– Eu tinha planejado uma noite pra gente. Aí você não somente trouxe suas amigas, como seu irmão mais novo e uma menina que conheceu dias atrás. Você é impressionante!
– Ah, tem um carro também. – contei.
– Oi? – perguntou Gabriel sem entender.
– Meu pai foi pro motel.
– Oi? – ele tornou a perguntar ainda mais confuso e eu ri.
– É, agora te entendo, até meu pai tem a vida sexual mais ativa que a sua. – zombei e ele me fuzilou com olhar. Resolvi mudar de assunto antes que ele me xingasse e expliquei toda a história do carro.
– Relaxa, eu ou algum dos meninos te levamos embora. – disse Gabriel no exato momento em que o cara trouxe nossas bebidas. Ele pediu para as meninas também e fiquei impressionada com o fato de que ele sabia que Amanda também bebe cerveja, pois pediu isso para ela. Nós pegamos os copos e começamos a andar de volta até nossa rodinha.
– É o pessoal? – perguntei ao Gabriel tentando apontar para uma rodinha distante de nós, pois estava carregando três copos. Havia bastante gente na frente, então não estava conseguindo ver direito, mas achei ter reconhecido Gustavo.
– É sim. – respondeu Gabriel. – Ta todo mundo aí hoje.
– Então vamos lá, que estou com saudade de todos.
Quando chegamos até meus amigos, chamei todos para irmos até a rodinha do pessoal e eles concordaram. Bárbara pareceu receosa, foi quando pensei que talvez não fosse uma boa ideia. No lugar dela eu provavelmente iria querer cometer suicídio ali mesmo ou então estaria pensando no porque diabos topei fazer isso. Mesmo que ela tivesse aceitado o desafio do Gabriel de conversar com novas pessoas. Foi então que fiquei com peso na consciência, porque isso significa que ela não está se divertindo.
– Me desculpe. – pedi andando ao lado dela. – Você não deve estar gostando nada disso tudo.
– Em hipótese alguma me peça desculpas. – respondeu Bárbara. – É assustador, principalmente porque eu sou muito tímida e já conversei com quatro pessoas diferentes em uma única noite, sendo uma delas o Gabriel Fornazier. Agora estou caminhando para uma rodinha com outras mil pessoas, que são amigas do Gabriel Fornazier. É tipo colocar um ratinho no meio de um monte de elefantes, entende? Mas mesmo que isso faça com que eu não consiga parar de tremer e provavelmente tenha um ataque de pânico a qualquer momento, eu estou surpresa com o quanto vocês estão sendo incrivelmente compreensíveis e legais e eu realmente quero fazer isso. Eu realmente estou muito grata por estar aqui, ao invés de estar em casa.
Nós chegamos perto da rodinha do pessoal e havia muita gente ali, então a parei. As meninas começaram a cumprimentar todos e Gabriel começou a apresentar Nicolas para eles.
– Qualquer coisa, você pode me falar. Se quiser ir embora. Se não estiver curtindo. Se estiver incomodada. Qualquer coisa mesmo! – avisei e ela assentiu sorrindo. – São todos meus amigos e são todos muito legais, eu te garanto isso. Eles vão adorar te conhecer!
– Eu acredito em você. – respondeu Bárbara e eu sorri.
Me virei para a roda e estava realmente todo mundo ali. Os de sempre: Carol, Gustavo e Bruno, além de Rafaella, Luiza, Gabriela, Caio e até o irmão de Gabriel, Henrique. Cumprimentei um por um, já aproveitando para apresentar Bárbara à eles e fiquei extremamente feliz por todos terem sido educados com ela. Gustavo, que foi o último que cumprimentamos, fez questão de puxar assunto com ela e eu acho que ele foi capaz de entender o quanto fiquei grata, apenas com o tamanho do meu sorriso. Quando olhei para o lado, lá estava Gabriel fazendo Nicolas socializar com o resto dos meninos e como se fosse possível, abri um sorriso maior ainda.
Eu não tinha pensado que talvez eu não seria capaz de dar a mesma atenção para os dois, ou talvez eu nem sequer conseguisse fazê-los se divertir como eu gostaria, mas tenho certeza que isso vai acontecer, porque eles estão com os meus amigos e os meus amigos são os melhores. Talvez eu também devesse ficar com ciúmes porque a partir de hoje, meus amigos podem estar se tornando também os amigos dos dois, mas não senti, porque Nicolas não é mais apenas meu meio irmão e Bárbara não é mais apenas uma colega de classe, agora eles também são meus amigos.
– Refletindo sobre o que? – perguntou Leticia surgindo ao meu lado e quando olhei para ela, senti saudade. Senti a falta que ela está me fazendo agora que ficamos cada vez mais longe uma da outra, quando antigamente passávamos praticamente o dia todo juntas.
– Em tequila. – respondi a puxando pela mão e saindo da roda. – Estava pensando que confio nos meus amigos para distraírem Bárbara e Nicolas tempo o suficiente para que eu possa fazer algumas loucuras com minha melhor amiga.
– Prossiga... – ordenou Leticia. – Estou gostando da ideia.
– E nada melhor que começar tomando tequila.
– Eu realmente amei a ideia. – afirmou Leticia e nós chegamos de volta ao bar. Eu chamei um garçom e um cara loiro bem bonitinho foi quem veio nos atender. Leticia me deu uma encarada e eu comecei a rir.
– E aí meninas, o que mandam? – perguntou o garçom.
– Você tem tequila? – perguntou Leticia.
– Não! – ele respondeu fingindo estar chateado. – Mas vocês não querem outra coisa?
– Como assim não tem tequila numa festa? – rebati. – Que tipo de festa é essa?
– Você já me levou em festas melhores, Isabelle. – completou Leticia.
– Assim... – o loiro começou a dizer. – Na verdade tem. O problema é que o Renan vai liberar em um horário específico, porque ele não conseguiu comprar muita.
– E isso seria quando? – perguntei.
– Realmente não sei. – o cara respondeu.
– Mas eu tenho certeza que ninguém sentiria falta de duas doses na garrafa. – disse. – O que são duas doses, não é mesmo, Leticia?
– Três. Se o loiro quiser virar com a gente... – ela propôs e o cara riu, então olhou para nós duas parecendo estar sem saber o que fazer e tirou três copos de debaixo do balcão, colocando-os sobre o mesmo.
– Eu não tenho copo de dose. – explicou o cara e a gente começou a surtar. Ele nos daria tequila. – E nem sal e limão... Ainda topam?
– Com certeza! – respondi e o cara riu, tirando uma garrafa de tequila também de debaixo do balcão.
– Com quem irei virar tequila? – ele tornou a perguntar colocando uma quantidade da bebida referente a um copo de dose, nos copos que tínhamos.
–Leticia e Isabelle. – contou Leticia. – E qual o nome do loiro?
– Heitor. – ele respondeu guardando a garrafa de volta em seu lugar, depois pegou um dos copos e levantou como se quisesse fazer um brinde. Eu e Leticia fizemos o mesmo, batemos nossos copos e viramos a bebida com tudo. O líquido desceu ardendo pela minha garganta e sem sal, nem limão, optei por virar minha vodka por cima, para tirar o gosto horrível que ficou em minha boca.
– Essa noite vai ser louca! – disse Leticia ainda fazendo careta e eu tive que concordar.
– Heitor, você é um anjo! – afirmei. – Você poderia me arrumar mais três copos de vodka com suco?
– Quatro, por favor. – pediu Leticia e Heitor foi arrumar as bebidas pra gente. Assim que ele virou as costas, Leticia já começou a comentar. – Meu deus, que gracinha! Eu quero ele pra mim!
– Uma gracinha mesmo e me deu tequila, então ta aprovado.
– É, mas não vou chegar nele.
– Pelo menos não sóbria... – concertei.
– Exato. Então ou ele toma atitude, ou eu tomo até no fim da festa.
– Isso é que eu chamo de garota de atitude! E a Amanda com o tal Murilo?
– Ainda não conheci ele, mas eles vivem saindo. – respondeu Leticia. – Aí às vezes ela ta com o humor maravilhoso, em outras parece disposta a matar alguém. Agora o pior é quando ela não consegue parar de chorar por nada nesse mundo.
– É tão estranho ver a Amanda assim. Mas eles estão oficialmente ficando ou algo do tipo?
– Pelo que ela falou sim, mas o que é mais estranho nessa história pra mim, não é ela ficar assim, é esse “relacionamento” em que eles nunca saem juntos caso ela esteja com os amigos dela ou ele com os dele.
– Você acha que ele ta enrolando ela? – perguntei.
– Não sei, mas espero que não. – respondeu Leticia e eu concordei mentalmente. Eu acho que realmente espancaria um cara que fizesse alguma das minhas amigas de trouxa. – E você? Falou com o Arthur desde aquele dia?
– Não.
– E decidiu o que vai fazer?
– Também não. A propósito, você sabe se ele está aqui?
– Eu avisei que vinha com você e Amanda, pra ele e os meninos. Convidei e tal, eles disseram que talvez apareceriam, mas não faço ideia de se vieram mesmo ou não.
Heitor voltou trazendo os quatro copos e colocou em cima do balcão.
– Não acredito que sejam dois para cada, então as meninas estão acompanhadas? – perguntou Heitor e eu lancei um olhar significativo para Leticia antes de responder.
– Eu sim, Leticia não. – disse. Eu não menti, mas Leticia acha que sim e num passe de mágica, minha alegria se foi. Ela preocupada com Amanda, preocupada comigo e eu escondendo coisas dela. Não vou conseguir continuar com isso por muito tempo. Aliás, sei que já vou chateá-la o suficiente por ter escondido até agora. – E se me derem licença, eu preciso levar esses copos ali.
– A amiga tem que ir junto? – perguntou Heitor olhando para Leticia.
– Depende. – respondi. – Será que posso confiar em deixá-la aqui?
– Garanto que sim.
– Pro seu próprio bem, é bom estar falando a verdade. – afirmei, dei uma última olhada para Leticia que estava rindo e sai andando com três copos na mão. A galera deve achar que eu sou alcoólatra. Talvez eu realmente seja.
Voltei direto para onde o pessoal estava, mas agora Bárbara não estava mais conversando com Gustavo, estava conversando com Rafaella. Gustavo estava ocupado demais beijando Carol. Nicolas parecia estar tendo uma conversa muito engraçada com Bruno. Só não sei se isso é bom ou ruim, uma vez que Bruno não é o melhor tipo de exemplo pra um garoto de quinze anos. Procurei por Gabriel e ele também parecia estar tendo uma conversa muito divertida, só que com Amanda e Henrique.
Os copos que eu havia pegado eram para Nicolas e Bárbara, mas nenhum dos dois havia terminado o último. Porém, como minha intenção não é que eles saiam dessa festa sóbrios, tomei providências começando por Bárbara.
– Trouxe mais bebida pra você, Bárbara. – disse ao chegar até ela e Rafa. – Mas só te entrego se virar esse restinho de bebida aí.
– Meu deus, mas eu não sou acostumada a beber. Na verdade eu nem bebo. Acho que não consigo. – respondeu Bárbara.
– É só não pensar... – disse Rafaella. – Você vira com tudo e deixa pra sofrer depois.
– Basicamente isso. – concordei rindo.
– Ai meu deus. – ela disse encarando o copo e nós rimos mais, mas então ela me surpreendeu ao fazer exatamente o que Rafa falou, virou com tudo o copo e deixou para fazer careta depois.
– Gostei de ver! – elogiei enquanto ela ainda se recuperava e ria ao mesmo tempo. Eu não deveria ficar feliz em embebedar uma garota, mas fiquei muito ao vê-la virando aquela vodka. – Agora seu brinde. – completei entregando o copo cheio para ela.
– Obrigada! – agradeceu Bárbara pegando o copo.
– Se me derem licença, irei desafiar Nicolas a fazer o mesmo. – avisei e sai andando na direção de Nicolas e Bruno. Ao me aproximar deles ainda consegui ouvir o final da conversa.
– Sério mesmo cara, ela gemia pior que atriz pornô. – disse Bruno.
– Bruno sem falar de sexo não é Bruno. – disse intrometendo na conversa.
– Não mesmo. – ele concordou.
– Trouxe bebida pra você... – disse ao Nicolas. – Mas vai ter que virar esse copo aí!
– Virar tudo? – perguntou Nicolas.
– Exatamente! Sem rodeios. Sem cerimônia. Sem nada. – respondi. – Até porque já era pra essa bebida ter acabado e até Bárbara acabou de virar o copo dela.
– Vamos lá, Nick! Vira isso aí, porque agora é questão de dignidade. – ordenou Bruno e Nicolas obedeceu. Num impulso, ele virou o resto da bebida que tinha em seu copo. – Muito bem, garoto! – elogiou pegando o copo cheio da minha mão, sem pedir e entregou para ele. – Agora vira esse.
– Que? – eu e Nicolas perguntamos em uníssono.
– Vamos divertir, gente! – respondeu Bruno rindo da nossa reação. – Até porque é seu dever, Nicolas. Se a Bárbara vira um, você vira dois!
– Não precisa, Nicolas. A não ser que você queira... – disse e quando terminei de falar, ele olhou pro copo, olhou pra gente e novamente num impulso, começou a virar toda a bebida. Eu fiquei perplexa, porque um copo cheio é muita coisa pra quem não costuma beber. Quando ele terminou, Bruno começou a bater palmas.
– Agora quer o meu? – zombou Bruno e Nicolas mostrou o dedo do meio pra ele. Eu gargalhei. – Sabe que é isso que eu to querendo... Beber, ficar louco, fazer alguma coisa divertida, diferente...
– Seria uma boa! – concordei.
– Tive uma ideia... – disse Bruno, mas não contou qual foi, apenas começou a chamar a atenção de todo mundo para ele. Literalmente. Ele entrava no meio dos grupinhos de conversa e mandava olharem para ele. Quando todo mundo estava olhando, ele finalmente disse. – Que tal jogarmos “Desafio”?
– Desafio? – perguntou Caio.
– Sim, é tipo um “Verdade ou Desafio”, só quem sem a parte do “Verdade”. Nós fazemos apenas desafios uns aos outros. – respondeu Bruno e eu adorei a ideia. Seria muito divertido! Sem nem esperar pela resposta do pessoal, saí correndo da roda na intenção de ir até o bar, mas acabei esbarrando em alguém.
– Desculpa. – eu e o cara pedimos ao mesmo tempo, mas quando olhei para seu rosto, vi que era Renan, o dono da festa.
– Oi Renan! – o cumprimentei. – A festa ta ótima! É seu aniversário ou algo do tipo?
– Oi, Isa! Que bom que você veio! É meu aniversário sim!
– Bom... Feliz aniversário! – gritei e dei um abraço nele, que ficou surpreso. Quando o soltei, peguei sua mão e o sai puxando comigo, que ficou mais surpreso ainda. – Vamos comemorar jogando “Desafio?”
– O que é isso? – perguntou Renan no mesmo tom que Caio havia feito a pergunta.
– É tipo um “Verdade ou Desafio”, só quem sem a parte do “Verdade”. Nós fazemos apenas desafios uns aos outros. – expliquei da mesma forma que Bruno havia feito e nós chegamos até o bar. Tem pouco tempo que estou nessa festa e já vim até aqui umas mil vezes. – Pede uma garrafa vazia, você é o dono da festa. – ordenei. – Quer dizer, pede uma vazia e duas cheias.
Eu esperava encontrar Leticia ali, já que tinha muito pouco tempo que a deixei com o loirinho, mas ela não estava. Comecei a procurar ao redor e acabei vendo ela e Heitor conversando ali perto. Virei de volta para Renan no momento em que entregaram três garrafas de vodka para ele. Uma cheia e duas vazias.
– Obrigada! – agradeci pegando uma das cheias , virei meu copo de bebida e o deixei sobre o balcão. – Agora pega o resto e me siga. – ordenei novamente e comecei a andar na direção de Leticia.
Quando chegamos até Leticia e Heitor, não deixei eles dizerem nada, apenas ordenei que eles também me seguissem e andei de volta até a roda do pessoal. O que me impressionou foi que no meio do caminho olhei para trás e estavam todos me seguindo mesmo. Eu sou demais. Quando estávamos nos aproximando do pessoal, vi que estavam todos discutindo entre si.
– O que ta rolando? – perguntei parando ao lado de Gabriel.
– Bruno quer que valha tudo no jogo, inclusive que Gustavo e Carol, que estão namorando, peguem outras pessoas. – explicou Gabriel e eu ri. Bruno apenas sendo Bruno.
Abri a garrafa de vodka que estava em minha mão e dei um gole, depois virei para trás afim de explicar para Leticia e Heitor o que está acontecendo, já que apenas ordenei que eles me seguissem e sai andando. Eles estavam conversando com Renan e acabei descobrindo que Renan e Heitor são melhores amigos, por isso Heitor havia topado ajudar no bar. Quando terminei de explicar tudo, peguei a garrafa vazia que estava com Renan, mas não devolvi a cheia e entrei no meio da roda. No momento em que fiz isso, algumas pessoas já começaram a me observar, mas foi quando comecei a falar, que consegui a atenção de todos.
– As regras são as seguintes: Seguindo o sentido horário da roda, todos irão rodar a garrafa e para quem a ponta dela parar apontada, será a pessoa que te desafiará. Você não pode recusar um desafio, porque se não haverá uma consequência. Essa consequência é a mesma para todos. O que você pode fazer é tentar argumentar e convencer quem te desafiou a mudar o desafio ou desafiar a pessoa de volta a fazer a mesma coisa, mas se ela fizer, você também passará pela consequência. Vale propor qualquer desafio e não tem que estar ligado a esta festa, mas tem que ser algo possível e lembrem-se de não propor algo tão absurdo, porque você pode ser desafiado de volta. – expliquei.
– A consequência é a mesma para todos, seja homem ou mulher. – intrometeu Bruno e eu fiquei feliz por ele ter pensado em algo, porque eu ainda não havia escolhido. Mas vindo dele, fiquei com medo. – Você terá que subir no bar da festa e fazer um strip-tease até sobrar sem peça de roupa nenhuma.
Quando ele disse isso, todo mundo começou a falar ao mesmo tempo e o caos reinou. As meninas principalmente, foram as que mais se rebelaram contra a sugestão, porque isso realmente é um absurdo. Eu não toparia ficar nua na frente de uma festa inteira, mesmo que seja por um jogo, nem se eu estivesse drogada.
– Essa consequência acabaria com a nossa reputação. – reclamou Amanda. – Essa é a ultima coisa que eu faria na vida, Bruno!
– Mas é pra ser algo absurdo justamente pra ninguém recusar os desafios e fazermos todas as coisas loucas que nos propormos, mesmo que dê medo ou falta de coragem. Já que vamos jogar que seja algo no mínimo inesquecível. – argumentou Bruno.
– Vamos fazer o seguinte: Ao invés de ficarmos sem peça nenhuma de roupa, sobramos de roupa íntima. – sugeri. – Pra mim ainda parece constrangedor e absurdo o suficiente, para que eu não desista do meu desafio, mas não é tão absurdo quanto ficar nua.
– Acho justo. – disse Gabriel. – Mesmo que fosse ser muito mais divertido vê-la nua!
– Cala a boca, Gabriel. – ordenei.
– Pra mim dá na mesma... – disse Amanda. – E se alguém filmar isso e colocar na internet?
– Ah, não se preocupe. – respondeu Bruno. – Alguém vai filmar! Nós vamos filmar! Todos os desafios serão filmados e se alguém passar pela consequência, também.
– Será que você não entende que não é qualquer merda ter fotos e vídeos sua seminua dançando em cima de um bar de uma festa? – indagou Amanda irritada.
– Bruno meu amor, para homem não tem problema, porque vocês não são julgados como as mulheres são. – disse Carol. – Eu tenho que concordar com a Amanda que isso é foda.
– Minha mãe provavelmente me mataria! – disse Bárbara.
– A minha também. – concordou Leticia. – Porque isso aqui é a vida real, não um filme do American Pie.
– É só não recusarem o desafio. – intrometi. – Ninguém vai te obrigar a fazer nada se você cumpri-los. Estamos querendo fazer algo divertido, certo?
– Divertido, não idiota. – rebateu Amanda.
– Se for preciso ser idiota para ser divertido, que seja. – respondi. – Se formos para implicarmos antes mesmo do jogo começar porque alguma coisa parece um pouco maluca demais para vocês, me avisem que eu vou buscar alguma coisa pra beber e ir achar alguém afim de viver pra me fazer companhia. – completei e finalmente todo mundo calou a boca, inclusive Amanda.
– Quem estiver de acordo, levante a mão. – ordenou Bruno, puxando a fila. Eu fui a próxima a levantar, depois Gabriel, Gustavo e pouco a pouco, tivemos um consentimento geral.
– Então façam uma roda certinha, mas não precisam sentar no chão. – pediu Bruno e nos organizamos na roda. – To pedindo pra anotar a ordem no meu celular, porque iremos sair para realizar os desafios e aí vai virar uma bagunça... O jogo começa por mim.
Quando ele disse isso, automaticamente todo mundo começou a olhar para a roda e raciocinar quando seria sua vez. Dezesseis pessoas. Oito mulheres e oito homens. Eu seria a 11ª e tenho certeza que meu desafio será o pior. Bom, seja lá o que for, eu não pretendo ficar seminua para a festa inteira do Renan.
– A ordem é: eu (Bruno), Rafaella, Henrique, Luiza, Amanda, Bárbara, Nicolas, Gustavo, Carol, Gabriel, Isabelle, Caio, Gabriela, Leticia, Heitor e Renan. – anunciou Bruno. – E que comece essa insanidade!
Fale com o autor