Poltrona 19
40 Trovões
Notas iniciais
Provavelmente devo ter esquecido minha vontade de viver dentro daquele hospital, quando sai correndo aos prantos e deixei Gabriel para trás. Naquele sábado de manhã eu fui para casa e me deitei na cama, de onde não me levantei sequer para comer. Me entupi de remédios para dormir e foi isso que fiz durante o fim de semana inteiro. Até chegar o fim de tarde do Domingo, quando meio grogue atendi uma ligação de um número desconhecido em meu celular. Me arrependi no instante em que disse alô.
– Eu preciso de você, Isa. – reconheci a voz de Gabriel do outro lado da linha. – Eu preciso de você.
Eu não esperava que fosse ele. Fiquei tão em choque que minha reação instintiva, foi desligar. Não pretendia falar tão cedo com Gabriel, não pretendia sequer vê-lo tão cedo. Estava pensando em fingir estar doente só para faltar alguns dias no colégio. Eu precisava de uma desintoxicação, porque não seria nada fácil tirá-lo da minha vida de um dia pro outro.
Mas o som desesperado de sua voz não saia da minha cabeça e de tanto repetir aquela frase de repente tive a sensação de que ele estava chorando. Meu coração ficou apertado. O que será que ele quis dizer com aquilo? Comecei a me perguntar o motivo de ele ter me ligado de um número desconhecido e não do seu celular. Era um telefone fixo, será que seria o telefone na casa dele? Ele já foi liberado do hospital? Fiquei tão aflita que peguei meu celular disposta a ligar de volta no número e foi então que recebi uma mensagem de Gustavo em que dizia: “Eu sei que você não quer ser incomodada, mas Gabriel fugiu do hospital. Ele ta sem celular e sem nada. Se tiver notícia me avisa, por favor :/”
Levei minha mão até a cabeça e comecei a chorar. Eu não aguento mais isso. Quando esse pesadelo vai acabar? Quando ele vai parar de fazer essas coisas? Disquei de volta pro número que ele havia me ligado e chamou até cair a ligação umas três vezes. Agora eu estava era desesperada. Ele provavelmente teria me ligado de um orelhão e não estaria mais próximo a ele. Como eu acharia Gabriel?
E então eu tive uma ideia genial. Me lembro de um site da Anatel em que dá pra você localizar um telefone público através de seu número. Se eu soubesse pelo menos de onde ele havia me ligado, eu teria uma noção de onde ele poderia estar. Abri o site, selecionei a opção de pesquisar por DDD e número, digitei o telefone e apertei em localizar. No segundo seguinte o mapa indicou um orelhão localizado dentro do Parque General Iberê de Mattos.
– ELE TA NO PARQUE BACACHERI! – gritei em êxtase. Pensei em contar pro Gustavo, mas me lembrei de que ele havia ligado pra mim e senti que era minha obrigação encontrá-lo. Ou pelo menos foi essa a desculpa que inventei para mim mesma, para encobrir o que eu sabia que na verdade era uma vontade súbita de vê-lo.
Chamei um taxi pelo aplicativo que tenho no celular enquanto pegava minhas coisas correndo e felizmente ele chegou em dez minutos. Abençoado seja o inventor desse aplicativo! Paguei mais caro só pro motorista andar o mais depressa que ele conseguisse e foi só quando desci do taxi que cai na real. Como eu pretendia achar o Gabriel ali dentro? Aquele parque tem 152 mil m²! Eu andaria por uma eternidade, correndo o risco de ele nem sequer estar mais ali.
Adentrei o lugar completamente desanimada, já havia se passado mais de meia hora da ligação, ele poderia estar longe. Mas eu já estava ali, então era melhor pensar rápido. Eu poderia começar procurando próximo ao orelhão do qual ele havia me ligado, pois se tivesse sorte, ele ainda estaria ali. O problema é que me lembrava da localização do orelhão no mapa, mas estando ali dentro não conseguiria encontrá-lo só com a imagem na cabeça. E na correria esqueci de olhar quantos orelhões haviam ali dentro, porque com certeza haveriam muito mais e qualquer um, poderia ser o certo.
Comecei a andar tentando bolar algum plano e finalmente consegui pensar em algo. Não era nada extraordinário, mas já era alguma coisa. Fui até uma lanchonete que sabia que existia dentro do parque, falei com o dono e ele me disse que sabia de apenas três orelhões. Ao me indicar os caminhos, comecei a procurar torcendo internamente para que conseguisse o encontrá-lo. Eu não dormiria essa noite se não o fizesse.
Não demorou muito para que encontrasse o primeiro orelhão, mas não havia nem sinal de Gabriel por perto. O pôr do sol já havia começado e mesmo assim havia uma quantidade considerável de pessoas por ali. Era um domingo, todo mundo quer fazer algo tranquilo em um domingo. Ninguém merece! Peguei meu celular e disquei o número do qual Gabriel havia me ligado, mas o orelhão não tocou, então não era aquele.
Parti em direção ao segundo que era um pouco mais longe, porém mais fácil de encontrar, pois era bem em uma das entradas. Faria sentido que Gabriel tivesse ligado dele, pois ele poderia ter feito isso assim que chegou e percebeu onde estava. Mas se fosse aquele, ele também poderia ou ter saído e ido embora, ou ter entrado e ido pra qualquer outro lugar. Disquei o número enquanto verificava o arredor e o orelhão não tocou. Não havia sido aquele. Comecei a ficar nervosa e aflita, eu tinha apenas mais uma chance ou teria que vagar pelo parque até ele fechar, na tentativa de encontrar alguém que estaria ou não ali. Meu deus! Isso é como procurar uma agulha dentro de um palheiro!
Caminhei a procura do último enquanto pensava que aquele poderia ser um dia muito melhor se eu pudesse estar ali apenas apreciando o ambiente, curtindo o silêncio e vendo o pôr do sol, que por acaso estava lindo. Poderia, mas nada na minha vida tem sido simples ou fácil. Nada. E foi por isso que depois de tanto andar, eu finalmente encontrei o orelhão. Disquei o número e ele tocou. O que fez meu coração alegre por não mais que alguns minutos, pois não encontrei Gabriel por perto. Ele não estava mais ali.
– Por favor, Gabriel! Por favor, aparece! – supliquei rodando igual uma barata tonta e isso não poderia ter resultado em outra coisa que não eu tropeçando e caindo de bunda no chão.
Estava tão nervosa que nem me levantei mais, apenas abracei minhas próprias pernas e comecei a chorar. Por que de repente eu queria tanto encontrá-lo? Talvez porque ele não teria pra onde ir? Provavelmente não teria o que comer? Não teria onde dormir? Não teria sequer dinheiro? Talvez porque eu estivesse preocupada com qualquer coisa que pudesse acontecer a ele? Porque ele disse que precisava de mim? Talvez porque infelizmente eu amo aquele desgraçado?
– Ta tudo bem? – ouvi alguém perguntar e apenas balancei a cabeça positivamente, sem sequer olhar para a pessoa e mesmo que aquilo fosse uma baita mentira. Até que depois de alguns longos segundos, reconheci a voz que precisava ouvir mais que qualquer outra coisa nessa vida. Levantei a cabeça e olhei para ele inacreditada. Eu havia encontrado Gabriel. Eu não acredito que consegui. – Certeza? – ele tornou a perguntar e dessa vez não respondi, apenas continuei a encará-lo com um misto de sentimentos que eu não consigo explicar.
Gabriel se sentou ao meu lado e reparei no quanto ele estava mal. Sua expressão era de alguém tão triste e tão perdido. Quase a mesma que vira dias atrás, antes de tudo acontecer. A diferença é que agora seus olhos estavam mais fundos, sem vida.
– Sabe que foi exatamente isso que aconteceu quando nos conhecemos? E que foi exatamente essa a primeira coisa que te disse? – ele disse usando a manga da blusa de frio pra limpar meu rosto. – Você caiu toda estabanada no chão da sala, me acordou e eu perguntei “ta tudo bem?”.
Dei um sorriso de canto de boca, mas no mesmo instante mais uma lágrima caiu dos meus olhos. Senti uma fincada no peito. Aquilo havia sido há apenas quatro meses atrás, mas parecia que já havia se passado uma eternidade. Parecia que eu o conhecia há vidas.
– Como você me encontrou? – indagou Gabriel. – Quer dizer, você simplesmente desligou o telefone na minha cara, não tinha como você sequer imaginar onde eu estaria. Como, como você fez isso?
– Eu rastreei o orelhão na internet. – expliquei um pouco constrangida. Dizer aquilo em voz alta fazia soar um tanto quanto psicopata. – O Gustavo me mandou uma mensagem contando que você fugiu e eu meio que surtei.
– Então já ta todo mundo sabendo?
– O que você esperava, Gabriel? Que seus pais iriam sentar e esperar você aparecer, em algum momento, algum dia? – indaguei de um jeito quase rude, sem perceber. – Me desculpa, eu só... To te procurando por muito tempo.
Ele não respondeu, apenas ficou encarando o céu a nossa frente. Olhei para ele e percebi o quanto suas mãos tremiam, tive a sensação de que não era de frio.
– Eles querem me internar em uma clínica psiquiátrica. – contou Gabriel. – E você já esteve em um lugar daqueles? É um pesadelo, Isabelle. São tantas pessoas e tantos problemas e tanto sofrimento num lugar só. Eles vão me obrigar a conversar com alguém que não quero, a participar de terapia em grupo, a ficar longe dos meus amigos, da minha família, do colégio, da minha vida. Eu não consigo passar por isso. Se eu entrar... Eu não vou sair de lá.
– Isso é ideia do seu pai?
– Tenho quase certeza que sim. Apesar de que de qualquer forma, o hospital tentaria interceptar no meu tratamento agora.
Eu queria poder fazer qualquer coisa por ele, mas há muito tempo não tenho tido a mínima ideia do que fazer com a minha própria vida, quem dirá como ajudar os outros. Principalmente se os outros no caso é Gabriel.
– Por que não funcionou? – ele sussurrou antes de apoiar a testa nos joelhos. Demorei um pouco para entender sobre o que ele estava falando, o que não havia funcionado, até que percebi se tratar do suicídio.
Foi a minha vez de esconder o rosto e me encolher dentro de meus próprios braços. Precisei me abraçar, me segurar, pra me impedir de desmoronar. Dava pra sentir a dor em suas palavras, o quanto realmente doía nele que não tivesse funcionado. E não me senti brava em ouvi-lo dizer aquilo, como quem não se importava se doía em mim saber que ele realmente preferia estar morto. Porque se tem uma coisa que eu finalmente entendi, é que eu não tenho nem um pouquinho de noção do quão grande é a depressão do Gabriel. Ninguém tem.
Me peguei pensando se talvez seus pais não estivessem certos em querê-lo interná-lo. Eu imagino como deve ser assustador a sensação de ser obrigado a tal coisa, mas no fundo, eles só queriam salvá-lo. Eles só querem tudo que eu e todas as pessoas que amam o Gabriel querem. Seria assim tão ruim apoiá-los? Eu não quero perder o Gabriel, mas a grande questão é: Eu já o tive algum dia? Eu acho que não.
– Você também acha, né? – perguntou Gabriel, me fazendo levantar a cabeça e olhar para ele confusa.
– O que?
– Que seria o melhor pra mim.
Eu não sabia o que responder. Eu só...
– Eu só não tenho mais estruturas emocionais pra lidar com isso, Gabriel. Eu to...
– Exausta. – ele concluiu e eu assenti.
– Quanto mais eu me envolvo nos seus problemas, mais eles se tornam meus e quanto mais eles se tornam meus, mais eu me machuco.
– Eu sei. Me desculpa. Eu não deveria sequer ter te ligado, mas eu simplesmente saí andando sem destino e nem sequer percebi que entrei dentro desse parque, eu nem sequer percebi onde estava, porque eu tava tão desesperado. E nesse momento, se passou pela minha cabeça que talvez você fosse a única pessoa que tentaria de fato me entender.
– Eu só não sei mais o que fazer. – desculpei-me.
– Não se preocupe com isso, é melhor você ir pra casa. Só te peço pra não contar pra ninguém que me viu.
– Como assim?
– Eu não quero que ninguém...
– Não. – interrompi. – Como assim, melhor eu ir pra casa? E você vai pra onde? Vai fazer o que?
– Eu não sei, mas eu vou dar um jeito.
– Gabriel, o fato de eu não saber mais o que fazer ou me sentir exausta, não significa que eu vou te deixar sozinho. – afirmei.
– Eu acho que não te quero mais envolvida nessa bagunça.
– Você sempre tentou me empurrar pra longe dessa bagunça e fui eu quem me envolvi mais e mais. Eu não vou virar as costas pra você agora. Não se abandona quem se ama. Eu só não sei o que fazer, porque não posso te levar pra casa, meus pais não aceitariam te manter lá escondido. Seus pais poderiam dar queixa contra eles, ou sei lá. E além do mais, não dá pra você fugir pra sempre, Gabriel.
– Eu sei. Só preciso de um tempo pra pensar numa solução.
– Você diz que é seu pai que não te entende, certo? E se você conversasse com sua mãe? – sugeri, mas pela sua expressão ele não gostou muito da ideia.
– Não sei, meu pai já entrou na mente dela e já a convenceu de que essa é a melhor saída, que ela precisa confiar nos médicos e eles cuidarão de mim.
– Exato! Ela ainda é a sua mãe, a única coisa que ela não quer nessa vida, é perder você. E quando não se tem mais opções, qualquer uma que apareça deve ser aceitável.
– Eu realmente não sei como fazer isso. – confessou Gabriel se jogando de costas na grama.
– Seja sincero e diga o que você pensa.
– E se não funcionar?
– Bom, aí diga que você vai sair de casa, começar a trabalhar e ir... Morar com seu irmão. Aliás, esse seria um bom plano, não seria?
– Já pensei nisso, mas não quero virar meu irmão contra meu pai também.
– Entendi.
– Mas vou fazer isso que você falou, é realmente minha única opção.
– Eu tenho um plano. – contei me virando para ele, animada por finalmente conseguir pensar em algo que pudesse ajudar de alguma forma. – Eu acho que consigo arrumar um lugar pra passarmos a noite, você esvazia a cabeça, pensa melhor, se prepara e amanhã vai pra casa conversar com ela. Pode ser?
– Seria perfeito. – respondeu Gabriel. – Mas que lugar?
Eu peguei meu celular, disquei o número que já sei de cor e esperei até que meu anjo da guarda atendesse. E quando ela atendeu, fui direto ao ponto:
– Nath, preciso da sua ajuda.
Eu não sabia como explicar toda a situação pra ela, mas sabia que precisava. Disse que Gabriel estava com uns problemas com os pais e que precisava passar a noite em algum lugar. Expliquei que era arriscado porque ele havia fugido e os pais com certeza estariam procurando por ele, mas garanti que não era por coisa à toa e ela como a melhor irmã que eu poderia ter, confiou em mim. Ela topou me ajudar e disse que poderíamos ir pro seu apartamento.
Gabriel não ficou muito feliz com a ideia, porque dizia não querer envolver minha irmã nisso e a incomodar, mas no final das contas consegui o convencer. E então ficamos os dois ali, deitados na grama, vendo o dia virar noite, submersos em seus próprios pensamentos.
Imaginei como estariam os pais de Gabriel, ou todos os seus amigos. Me perguntei se estariam procurando por ele e me senti um pouco mal por não contar ao menos para Gustavo que havia o encontrado, mas então olhei pra Gabriel de olhos fechados ao meu lado e me dei conta de que se ele precisava de um tempo, eu daria todo tempo do mundo pra ele.
– Você ta com fome? – perguntei e logo em seguida me corrigi. – Quer dizer, você sempre ta com fome. Quer comer algo?
– Eu não tenho dinheiro. – respondeu Gabriel, se virando para mim.
– Não me faça te mandar ir se foder. – rebati me levantando e estendi a mão pra ele. – Vem, nós vamos a um lugar.
O levei até a lanchonete em que o dono havia me ajudado, pedi um lanche pra nós e nos sentamos em uma mesinha para comer. Já estava de noite, mas o lugar estava bem iluminado e bem calmo também, mas acima de tudo muito frio. Provavelmente iria chover em breve, precisávamos ir embora antes. Mas eu me sentia tão bem com Gabriel que não queria ir, como se de alguma forma mesmo com toda essa bagunça, as coisas se encaixassem e ficassem em seu devido lugar. É quando eu me lembro do porque mesmo não aguentando mais, eu insisto.
Mais uma vez me perguntei como as coisas seriam se fosse tudo diferente, como seria ter uma outra vida.
– Vamos jogar um jogo, que se chama “Quem é você?” – disse.
– Que merda é isso? – perguntou Gabriel de boca cheia. As vezes acho que ele ama comida tanto quanto eu o amo. – Nunca ouvi falar.
– Claro que não, eu acabei de inventar. – respondi divertida e consegui arrancar um sorriso dele. – Você tem que me dizer quem você é.
– Eu sou o Gabriel que aos 18 anos é um foragido na cidade.
– Não, você não entendeu como se brinca. – disse e comecei a brincadeira, pra ele entender. – Eu sou Manuella Collins, uma garota de longos cabelos ruivos que aos 23 anos tem uma carreira de jornalista muito bem sucedida.
– Ta, eu tenho que inventar quem eu sou?
– Usa a imaginação. Quem você seria se pudesse escolher?
– Hum... Sei lá. – disse Gabriel pensativo. – O Jay-Z? Ele é rico pra caralho, famoso, come a Beyonce. É, acho que parece bom pra mim.
– Para de ser sem graça!
– Eu sou João e aos 24 anos, porque eu tenho de ser mais velho que você, sou muito feliz vivendo das coisas que a natureza me dá e vendendo minha arte na praia.
– Fumando uns baseados, com um filtro dos sonhos tatuado nas costas? – disse entrando na brincadeira e rimos.
– Eu sou Guilherme e aos 24 anos eu não tenho uma carreira bem sucedida, porque eu sou publicitário. Mas tudo bem, porque eu ainda tenho um apartamento pequeno e aconchegante no Leblon.
– Rio de Janeiro é um ótimo lugar para se morar, Guilherme! – disse entrando no personagem. – Mas eu gosto de viver na caótica São Paulo, porque trabalho pra Folha de SP onde assino uma coluna de opinião e outra de crônicas, gerencio meu próprio blog e escrevo um livro.
– Você trabalha demais, Manuella! Nunca se diverte?
– Meu trabalho é minha diversão. – respondi pensando que ninguém lúcido diria essa frase algum dia. – Tem algo na adrenalina de dar minha opinião publicamente sabendo que eu posso ser tanto aplaudida quanto apedrejada, que me seduz, sabe? Além de que, para sua informação, meu blog é justamente sobre minha maior paixão.
– Que seria?
– O estar no ir e vir.
– Agora eu to falando com a Isabelle ou com a Manuella? – perguntou Gabriel zombando o fato de que apenas eu costumo falar essas coisas complexas e profundas que ninguém entende.
– Eu amo viajar e dizem por aí que esse ir e vir nunca é estar. Mas para mim, é sim. Eu ESTOU sempre indo e vindo. Ir é estar indo. Vir é estar vindo. E eu gosto desse estar. Eu gosto de estar sempre voando e não no sentido de pegar um avião e ir para algum lugar. No sentido de liberdade. Eu gosto dessa ilusão de liberdade. – expliquei. – Mas e você, como se diverte?
– Tiro uma grana extra tocando em barzinhos. E ainda me sobra tempo pra correr no calçadão e surfar. Sabe que eu adoro surfar?
– É por isso que você tem essas sardinhas? As minhas são de nascença.
– E o cabelo todo queimado pelo sol.
– Acho sexy! – disse piscando para ele. Tentei imaginar Gabriel como um surfista e parecia uma imagem muito distante do Gabriel que vive no Sul. Acho que nós temos o triplo de dificuldade pra nos acostumarmos com praia, sol e calor infinito.
– Acho sexy escritoras. Sobre o que é esse livro aí?
– Sobre a vida.
– E você dá alguma resposta sobre ela? – perguntou Gabriel com o olhar distante, fixo em algum lugar no horizonte.
– Alguém sabe alguma resposta sobre ela? – rebati.
–Algum dia saberemos?
– Entenderemos?
– Aceitaremos? – questionou Gabriel e por algum motivo aquilo me doeu.
– Sabe de uma coisa? – disse e ele virou o rosto em minha direção para escutar. – No final das contas prefiro minha vida imperfeita, se isso envolve ter você.
Gabriel sorriu e se inclinou para me dar um beijo na testa. Naquele momento senti tanta vontade de beijá-lo, mas tanta vontade, que cheguei a prender o ar para conseguir me controlar.
O chamei para ir embora antes que ficasse tarde demais e fomos. Entramos em um taxi e passamos na minha casa, para que eu pudesse pegar algumas coisas. Gabriel nem sequer entrou, ficou dentro do carro esperando para que minha mãe não fizesse perguntas. Eu disse para ela que passaria a noite na Nathália e peguei meus materiais para fingir que iria na aula no dia seguinte, mesmo que na verdade não tivesse intenção nenhuma de ir.
Quando voltei para o taxi estava chovendo e Gabriel permaneceu o trajeto inteiro distraído com as gotas que escorriam pelo vidro da janela. Ao chegarmos, Nath estava preparando um jantar para nós, achei muito fofo da parte dela. Mas mais fofo ainda foi que Marcos, seu namorado, já havia até mesmo separado uma roupa para que Gabriel tomasse um banho e vestisse. Ele ficou sem graça, mas dava para perceber que estava nitidamente feliz por finalmente ter a chance de tirar as roupas do hospital.
Enquanto ele tomava banho, resolvi ajudar Nathália na cozinha e aproveitar a situação para contar toda a verdade. Eu tinha que contar. E contei. Tudo, desde o início. Sobre Alice, os problemas com os pais, Babi, a depressão que ele tem, a tentativa de suicídio e a fuga do hospital, não deixando de lado toda nossa história e o fato de que eu havia chegado no meu limite.
– E o que exatamente seria ter chegado no seu limite? – indagou Nathália.
– Eu simplesmente não consigo mais lidar com tudo isso.
– Certo, é uma justificativa super aceitável. Mas será que é isso mesmo?
– Como assim? – perguntei confusa, terminando de temperar a salada.
– Você não estaria usando essa desculpa para simplesmente acobertar o fato de que esta machucada, por saber que ele não te ama o suficiente, para que você fosse motivo pra ele desistir da loucura que cometeu? Eu tenho certeza que você não chegou ao seu limite Isabelle, você ultrapassou. Mas você nunca desiste de alguém! E não desistiu dele, porque se tivesse desistido, não teria feito o que fez hoje. Você simplesmente esta ferida e decidiu por um ponto final em vocês dois, pensando que não pode amar por dois. Mas eu vou te contar uma coisa: não dá pra esperar que uma história acabe, colocando um ponto final num capítulo, se ainda vai existir um próximo. A história continua.
– O que você ta querendo dizer?
– Você ainda ama ele, Isa! E uma hora vai perceber que está sendo egoísta por esperar que um amor que está no início supere uma depressão de anos. – afirmou Nathália. – O que ele fez não significa que não te ame, às vezes só significa que ele não se ame.
– Eu vou arrumar a mesa. – disse apenas na intenção de fugir daquele assunto. De repente me senti sufocada, como se no fundo, eu soubesse que ela estava coberta de razão.
Enquanto arrumava a mesa vi Marco e Gabriel, que por acaso já havia saído do banho, conversando sentados no sofá. Percebi que meus olhos se encheram de lágrimas, simplesmente porque desejei estar em uma situação diferente, que tudo pudesse ser diferente. Desejei poder apenas estar jantando com o cara que eu gosto, minha irmã e seu namorado, com nenhum problema perturbador rondando nossas cabeças. Desejei não uma vida perfeita, mas por um instante, que as coisas fossem simplesmente mais fáceis.
Minha irmã anunciou que o jantar estava pronto e nos chamou para comer. Foi um jantar normal na casa de Nathália... Exatamente como se estivessem apenas ela e Marco ali. Os dois conversavam animadamente afim de não deixar o clima pesado e Gabriel até conversava normalmente com eles quando era envolvido no assunto, mas era como se sua mente estivesse em outro lugar. Era nítido em sua expressão que ele não estava bem. E a cada vez que eu engolia um pouco de comida, sentia que ela não descia corretamente até meu estômago. Aliás, meu estômago me indicava a sensação de que nada parecia certo. Porque não está.
Após o jantar tomei um banho, um dos mais demorados da minha vida. Deixei o banheiro se encher de vapor e embaçar todos os vidros e espelhos. Desenhei coisas aleatórias no box, enquanto pensava um pouco sobre a vida e tentava organizar meus pensamentos, mas nem mesmo o barulho do chuveiro era capaz de abafar os trovões do lado de fora do prédio, que pareciam refletir meu estado de espírito.
Ao sair do banheiro enxugando meus cabelos, segui até o quarto de hóspedes onde eu e Gabriel dormiríamos. Me aproximando da porta ouvi as vozes de Gabriel e Nathália. Eles estavam conversando.
– Eu costumava gostar do barulho da chuva porque teve uma época, pouco antes dos nossos pais se separarem, que eles brigavam muito e o barulho abafava os gritos dos dois. – contou Nathália. Eu parei um pouco antes da porta para que pudesse ouvir. – Eles achavam que não dava pra gente ouvir, mas dava. E eu ficava me perguntando o que Isabelle estaria pensando. Sempre me preocupei demais com ela, porque Isabelle sempre sentiu ao extremo.
– Eu nunca liguei muito pro barulho da chuva. – disse Gabriel. – Mas depois que perdi minha irmã, aprendi a gostar dele, porque abafavam meu próprio choro. O choro dos meus irmãos. O choro dos meus pais. Era como se tristeza ecoasse pelos corredores e eu me sentia bem com algum outro som preenchendo o ambiente.
Fechei os olhos e me encostei na parede atrás de mim. Ouve um tempo de silêncio e então Nathália finalmente disse algo.
– Quando nós éramos crianças, Isabelle morria de medo de trovões. Ela se encolhia todinha na cama e às vezes chegava a chorar. Então, um dia, meu pai a sentou em seu colo, a envolveu em um abraço e disse “Não há porquê ter medo, querida. O céu esta apenas triste. Todos nós temos nossos momentos ruins, em que choramos, gritamos, esperneamos, fazemos birra. Uma hora todos nós precisamos colocar isso pra fora ou explodimos por dentro. O céu esta apenas tendo um momento ruim, chorando um pouquinho, gritando também, quem sabe. Não devemos ter medo, devemos ter compaixão”.
Senti meus olhos se encherem de lágrimas ao me lembrar daquilo e apareci no rumo da porta. Gabriel estava sentado na parte debaixo da bicama, onde ele dormiria, e minha irmã encostada no guarda-roupa. Eu me lembrava perfeitamente daquela noite, porque foi a primeira vez que não senti mais medo da chuva, mas desde então sempre senti meu coração apertado. Gabriel me viu e permaneceu me encarando enquanto Nathália continuava a contar.
– Então no meio da noite a encontramos na sala, olhando pela janela. Ela cantarolava uma música baixinho e passava a mão pelo vidro gentilmente. Meu pai se aproximou e perguntou o que ela estava fazendo. Ela respondeu “Eu to cantando pro céu parar de chorar, pra ele saber que estou aqui com ele, pra ele saber que vai ficar tudo bem. Eu disse pra ele que mamãe sempre canta pra mim quando eu estou triste” e então, todos nós sentamos na sala pra cantar pro céu até a chuva parar. Eu nunca me esqueci desse dia, porque foi quando percebi que ela tinha o coração mais puro que já conheci.
Limpei uma lágrima que escorreu pelo meu rosto e Gabriel sorriu pra mim.
– Ela é definitivamente a garota mais incrível que já conheci. – ele disse ainda me olhando e não sei exatamente quando foi que Nathália notou minha presença, porque não consegui desviar o olhar do dele, mas de repente senti ela dar um beijo na minha testa, pegar a toalha que estava em minhas mãos e sair fechando a porta atrás de mim.
– Posso apagar a luz? – perguntei e ele assentiu, então a apaguei e caminhei a passos cegos até a cama. Me deitei e me enrolei nas cobertas, para então observar a chuva pela janela de vidro. – Ainda me sinto angustiada sempre que chove, como se algo estivesse muito errado. – confessei repentinamente, sem sequer saber se ele ainda estaria acordado. E não soube, por longos minutos, até que ele disse algo. Uma pergunta que me pegou de surpresa.
– O que exatamente te fez desistir de tudo? – indagou Gabriel.
– De tudo ou da gente?
– Não seria a mesma coisa? – ele rebateu e dei um sorriso fraco.
– Me lembrei de algo que li em um livro uma vez: “O único ferido que posso ser sou eu mesmo.” – contei. – Quando eu tinha 14 anos, meu avô sofreu um infarto e eu tive de passar horas no hospital sem notícia. Foi o dia em que mais senti medo em toda minha vida, porque pela primeira vez percebi que poderia facilmente perder alguém que eu amava muito. Foi... Até sexta.
Ao dizer isso me virei na cama e mesmo que com dificuldade, consegui enxergar seu rosto. Ele me observava em silêncio. Sorri para ele e me virei para a parede, me encolhi e de repente chorei pela vida, por tudo, por nada. Por Gabriel e até mesmo os trovões.
***
Acordei e senti falta do meu celular, não fazia a mínima ideia de onde ele estaria, provavelmente jogado em algum canto do meu quarto, ou não, porque a empregada já devia ter arrumado toda a bagunça que deixei. Mas eu só queria olhar as horas, não havia dormido nada essa noite.
Me levantei tentando fazer o mínimo de barulho possível e juntei minhas coisas. Abri a porta do quarto e olhei para Isabelle dormindo uma última vez antes de sair. Não havia mais ninguém no apartamento, pois Nathália havia avisado que ela e Marco iriam pra faculdade cedo, mas ela também avisou que deixaria uma chave para nós e que depois entraria com uma chave reserva que deixa escondida em um vaso de flor no corredor, perto da porta.
Abri a porta com a chave que ela havia deixado e a coloquei de volta no lugar, então procurei pela chave dentro do vaso e a tranquei, depois também a colocando de volta em seu devido lugar. Eu não queria ir embora sem avisar Isabelle, mas também não queria acordá-la, assim como não queria a envolver mais nisso ou a preocupar ainda mais. Foi um erro ter ligado para ela e a verdade é que eu devia ter encarado meus próprios problemas sozinho desde o início.
Fui embora a pé, andando a passos curtos e lentos, sem querer de fato chegar ao meu destino. Parei uma mulher na rua para perguntar as horas e descobri ser apenas 9h25 da manhã. 9h25 de uma segunda-feira e tudo parecia perdido. Quando passei pela entrada do condomínio, o porteiro pareceu ter visto um fantasma. Ele com certeza deve ter sido avisado do meu desaparecimento. Apenas ignorei e continuei a andar até chegar na porta da minha casa. Respirei fundo. Quando ia entrar me lembrei que não estava com minhas chaves, mas então percebi algo estranho, a porta estava entreaberta. A empurrei com receio e quando entrei, avistei minha mãe dormindo em uma poltrona no hall, virada para a porta.
– Ela ordenou que a porta da frente permanecesse destrancada, para que você soubesse que as portas do seu lar estariam sempre abertas pra você. – disse Ana, nossa empregada mais antiga, parada próxima a escada. Ela chegou a me assustar, mas imaginei que o porteiro deveria ter ligado e avisado. – E ainda disse que daqui não sairia, para que você soubesse que ela estaria sempre esperando por você.
Olhei novamente para a mulher adormecida naquela poltrona desconfortável e a imaginei encarando a enorme porta de madeira, esperando que algum dia eu voltasse. Corri até ela, taquei minha mochila no chão e me joguei no chão aos seus pés deitando minha cabeça em seu colo. Ela acordou naquele instante e quando me avistou em seu colo exclamou meu nome com muita dor. Ela se curvou para me abraçar e chorou sem medo enquanto mexia em meus cabelos. Tudo que consegui dizer foi:
– Desculpa, mãe.
Ela segurou meu rosto e obrigou que eu olhasse para ela.
– Não me deixa, meu menino. Eu amo você mais que tudo nessa vida.
– Eu só não sabia o que fazer. – confessei. – E é por isso que preciso que me escute, por favor. Eu preciso de você.
– Eu sei, querido. Eu sei. Sou eu quem te devo desculpa, por tudo. Eu tive uma longa conversa com a Lisa ontem, logo depois que você foi embora e ela me fez abrir os olhos pra muita coisa.
– Eu só não quero ser internado, mãe.
– Eu sei. Eu não vou deixar isso acontecer.
– Mas meu pai... – comecei a falar e ela me interrompeu.
– Seu pai não decide mais nada dentro dessa casa. Eu mandei seu pai embora. Nós nos separamos.
Eu fiquei tão perplexo que não soube o que dizer. Fiquei apenas a encarando, tentando digerir a informação. Minha mãe terminou o casamento por minha causa.
– É claro que ele não aceitou simplesmente ir embora daqui... – ela prosseguiu contando. – Mas eu vou entrar com o pedido de divórcio e aí resolveremos tudo na justiça. Até lá, nós permanecemos aqui, porque ele não vai tirar meus filhos do próprio lar. E se nós tivermos que ir embora, nós iremos! Eu irei achar uma nova casa linda pra gente, afinal não sou a melhor corretora de imóveis dessa cidade a toa não! – ela disse tentando me fazendo sorrir e eu de fato sorri. – Vai dar tudo certo, meu amor.
– Mãe... Como é que você ta? – perguntei agora muito mais preocupado com ela do que comigo. Eu sei que minha mãe ama meu pai e eu não quero que ela sofra.
– Eu to bem. – ela respondeu e quando eu ia contestar sua resposta, ela a complementou. – Enquanto eu tiver consciência de que estou fazendo tudo pra que meus filhos fiquem bem, eu ficarei realmente bem. Eu juro.
– Me desculpa. – pedi. – Por ser tão problemático, por arruinar nossa família, por te causar tanto problema. Por tudo.
– Acho que ta na hora de termos uma conversa que devíamos ter tido há muito tempo. – disse minha mãe e respirou fundo antes de prosseguir. – Quando você e seus irmãos eram crianças, levei vocês a um parque e só permiti que você e Alice fossem a um brinquedo se ela te vigiasse. Ela se distraiu, você caiu e se machucou. Então eu fiquei brava com ela e ela também ficou brava comigo, enquanto discutíamos ela disse que você era muito frágil. E foi nesse momento que concordei com ela e disse que você realmente era. Porque você era o mais novo, era o mais pequeno, era o caçula e que por isso você precisava dela. Disse que ela precisava cuidar de você, assim como Henrique cuidava dela.
“E ela levou isso realmente muito a sério. Você era o protegido dela, Gabe. Era como se ela fosse seu anjo da guarda. E é por isso que vocês eram tão próximos, principalmente naquela época. O Henrique era mais velho e já estava com outra cabeça, mas vocês estavam na mesma sintonia. Eram inseparáveis. E quando tudo aconteceu, eu não tive dúvidas de que você seria o mais afetado. Assim como ficou nítido em pouco tempo, quando a depressão te atingiu.”
“Mas quando sua irmã morreu... Todos nós ficamos muito abalados, Gabe. E a grande verdade é que eu não sabia como lidar. Nós éramos uma família feliz e de repente, tão de repente, eu perdi minha menininha. Minha menina tão cheia de vida! Ninguém prepara uma mãe pra perder a própria filha e eu estava completamente sem estruturas. Tão sem estruturas que eu não tinha o suporte necessário para dar a você, para que você melhorasse. Eu estava completamente perdida e praticamente te entreguei nas mãos de psicólogos e psiquiatras, achando que estava te ajudando.”
“E assim como você precisava de suporte, eu também precisava de um, mas não tinha, porque seu pai se tornou outra pessoa. Seu pai nunca aceitou a morte de Alice e se culpa até hoje por não tê-la salvo. Na noite em que ela morreu, ele chorou por horas e horas enquanto repetia que havia estudado por seis anos, para conseguir salvar vidas e não foi capaz de salvar a própria filha. E foi só ontem que eu percebi, que seu pai também tem depressão, Gabriel. E de alguma forma, o luto de vocês dois se chocou. Foi quando vocês começaram essa briga sem fim.”
“Seu pai mergulhou na carreira mais do que tudo, porque acredito ter sido a única forma que ele encontrou de ocupar a cabeça e então, eu resolvi fazer o mesmo. Eu tentei de alguma forma me ajudar, acreditando que especialistas te ajudariam da forma que eu não podia. Porque se eu não estava lúcida, como poderia te ajudar a recuperar sua própria lucidade? Nesse momento, todos nós nos fechamos e construímos uma bolha em torno de nós. Deixamos de ser uma família, Gabe. E eu sinto muito por isso.”
“Tudo que eu tinha de ter feito naquela época, era ter te dado um pouco mais de amor, carinho, amparo. Devia ter te dado o suporte que você precisava e ter encontrado em você o meu próprio suporte. Mas o que eu fiz foi te virar as costas e eu juro que não fiz por querer, eu nem sequer havia percebido isso. E durante todos esses anos fiz tudo que seu pai mandava, porque ele é médico e dizia entender o que você estava passando. Eu achava que ele estava te ajudando. Mas nunca ajudamos. Nós nunca fizemos isso. Lisa foi a única pessoa que salvou sua vida durante todos esses anos. Ontem eu fui capaz de perceber isso.”
“E é por isso, filho, que eu preciso te dizer que você não tem culpa por nada. Eu e seu pai somos os únicos responsáveis por ter feito tudo desmoronar. E a pior parte de tudo, é que você era apenas uma criança sendo atingida por tudo isso. Então sou eu quem te peço desculpas. Por tudo.”
Por muito tempo eu sonhei em ouvir isso. Sonhei em ouvir minha mãe pedir desculpa por não ter estado comigo quando eu mais precisei dela. Mas naquele momento, a vendo chorar em minha frente, aquilo não me satisfez como eu pensei que satisfaria, porque durante todo esse tempo em que a puni pela dor que me causou, nunca pensei em sua própria dor.
– Eu amo você, mãe. – disse com toda sinceridade que podia. – Sempre amei e sempre vou amar.
– Eu te amo muito, Gabe. – ela respondeu sorrindo.
Ela estava tão acabada que nem parecia minha própria mãe, sem seu cabelo perfeitamente arrumado, sua maquiagem e toda sua postura elegante de quem tem total controle sobre o mundo. É engraçado como temos a sensação de que os adultos possuem controle sobre tudo, quando na verdade se sentem tão perdidos quanto nós.
– Por onde você esteve? – ela perguntou tentando acabar com a tensão.
– Isabelle me acolheu.
– Eu sinto muito por aquele dia, Gabe. Aquele jantar em que fui totalmente bruta com ela.
– Acho bom sentir mesmo. – disse brincando. – Ela é a melhor pessoa que você poderia conhecer.
– É sua namorada?
– Não, mas é alguém muito especial. Muito.
– Então eu definitivamente gosto dela. – ela respondeu me fazendo sorrir. – Você ta com fome? Cansado? Quer alguma coisa?
– To cansado, acho que vou subir e dormir um pouco. Você deveria fazer o mesmo. – disse me levantando e pegando minhas coisas no chão.
– Eu irei.
– Onde esta Babi? – perguntei antes de ir.
– Na aula. Achei melhor a mandar pra escola, pra mantê-la um pouco longe dessa confusão e ela se distrair, porque não parava de perguntar por você e eu não sabia quando você voltaria.
Ela havia feito a coisa certa.
Entrar no meu quarto não foi uma das melhores sensações do mundo. Pelo menos não naquele momento. A última vez que estivera ali foi na sexta-feira, quando tudo aconteceu, mas agora ele estava completamente limpo e organizado, como se nada tivesse acontecido. Sem nenhum rastro do ocorrido.
A única coisa de diferente que notei, além das coisas que quebrei e foram jogadas fora, foi um embrulho colocado sobre minha escrivaninha, provavelmente pela empregada. Reconheci como o objeto que Isabelle havia arremessado contra mim, durante nossa discussão na praça. Peguei o embrulho e fiquei o encarando por um longo tempo. Era um presente de aniversário, mas não sabia se queria abri-lo.
O coloquei de volta no lugar em que estava e decidi que veria em um outro momento. Joguei minha mochila no chão e segui rumo ao banheiro a fim de tomar um banho, mas dei meia volta na metade do caminho e voltei em direção ao embrulho. Eu precisava abrir.
Rasguei o papel sem piedade e me deparei com a coleção completa de discos vinis do The Rolling Stones. Fiquei perplexo. Aquilo devia ter custado caro pra caralho! Tipo, pra caralho mesmo! Me sentei na beirada da cama segurando todos os discos em mãos e percebi que um papel havia caído no chão. O peguei e reconheci a letra de Isabelle no que estava escrito:
“But Gabe, Gabe, ain't it good to be alive? Gabe, Gabe, they can't say we never tried.”
Reconheci o trecho de “Angie”, uma música da banda. Sorri sozinho por ela ter trocado Angie por Gabe, mas o sorriso morreu enquanto me jogava de costas na cama e encarei o teto do quarto pensando que poderia jamais ter chegado a ler aquele bilhete. Aliás, era irônico ler aquilo depois de tudo. A vida é estranhamente assustadora. Minha intenção não era dormir, mas só percebi o quanto senti falta da minha cama no momento em que cai sobre ela. Então me aconcheguei e apaguei, pensando em Isabelle.
Acordei com o som de um videogame e percebi que era o meu. Gustavo estava deitado sobre um pufe enquanto jogava, provavelmente esperando que eu acordasse.
– Que barulho irritante! – resmunguei, tampando a cabeça com um travesseiro.
– Tem mais de meia hora que eu to jogando e você nem se moveu nessa cama, cala a boca aí. – respondeu Gustavo.
– Mas agora que eu acordei, estou achando irritante.
– Você é irritante!
– Sai da minha casa, mano. Quem te convidou? – rebati brincando.
– Tu ta precisando reabastecer o frigobar. – observou Gustavo e eu olhei para o mesmo, com uma vontade súbita de beber uma coca-cola bem gelada. Meu frigobar é minha coisa preferida desse quarto, mas de fato, não devia ter nada lá. Pensei em gritar qualquer empregada, mas a preguiça foi maior.
– Desculpa aí, tava passando férias no hospital.
– Não aguenta nem tomar uns remedinhos sem precisar de ajuda.
– Babaca! – xinguei, mas com um sorriso no rosto. Eu amo tanto o Gustavo que isso chega a ser gay. Sou muito grato por tudo que ele faz por mim. Por não chegar ali me dando sermão, bronca, puto ou me xingando. Por não me cobrar satisfação ou explicação por tudo que eu tinha feito. Por apenas amenizar a situação fazendo dela algo engraçado, como se tudo não passasse de um pesadelo que você conta pros amigos pensando no quão bizarro é.
– Comprou mais discos pra coleção? – indagou Gustavo parando de jogar e se virando para mim.
– Na verdade ganhei. – contei.
– De quem?
– Da Isabelle, tu acredita? Ela me deu a coleção completa do Rolling Stones!
– Puta que pariu! – ele exclamou parecendo muito indignado. E era pra ficar mesmo. – Ta me zoando?
– To não. – respondi me sentando na cama. Peguei os discos mais uma vez pra ver e de repente me passou pela cabeça o que eu deveria fazer. – Mas eu vou devolver.
– Por que?
– Isso deve ter custado uma fortuna.
– Ta, mas ela te deu e se ela fez isso foi porque quis. Eu nem sabia que ela sabia da sua coleção.
– Digamos que eu não ando merecendo presentes da Isabelle. – confessei. – É melhor devolver.
– Eu juro que não pretendia tocar no assunto, até que você resolvesse falar, mas... – ele nem terminou de falar e eu já tava com o cu trancado. – O que ta rolando entre vocês dois?
– Não entendi a pergunta. Nós somos amigos, como todos vocês são. – respondi tentando parecer indiferente.
– E essa foto aqui mostra todo esse vínculo de exclusiva amizade, não é mesmo? – ele rebateu me entregando seu celular.
O facebook dele tava aberto em uma foto que Isabelle postou, na data do meu aniversário. Reconheci a foto, assim como me lembrei daquele dia. Não precisei nem abrir os comentários pra saber que aquilo havia causado burburinho. Eu ia ter que me explicar pra muita gente, mas por incrível que pareça, não fiquei bravo com ela. Aliás, eu sabia muito bem como me esquivar desse tipo de pergunta.
Joguei no search “Amanda Bonfim” e cliquei no perfil dela. É óbvio que ela havia postado uma foto e chequei que quase tão polêmica quanto. Virei o celular para Gustavo com a foto aberta e disse:
– E aí? A Amanda também postou foto polêmica e dela você não comenta.
– Ta, mas que vocês já se pegaram todo mundo sabe. Agora você e a Isabelle...
– Me poupe, Gustavo. A gente se tornou tão amigos quanto eu e a Carol, por exemplo. Normal esse tipo de coisa. – rebati, enquanto voltava na foto de Isabelle. Resolvi ler o que ela havia escrito.
“Somos rodeados por inúmeras pessoas todos os dias. Familiares, amigos, conhecidos e desconhecidos. Refletindo, me perguntei quantas dessas pessoas são capazes de nos mudar de alguma forma. Minha irmã mais velha sempre é capaz de mudar meu ponto de vista sobre as coisas. Meus amigos sempre são capazes de me fazer enxergar um lado positivo, onde parece não existir um. Conhecidos são capazes de me fazer aprender com seus erros. Desconhecidos me levam a reflexões que talvez jamais teria, se não parasse alguns segundos para observar alguém tão aleatório. Parece que não importa como ou por quem seja, estamos constantemente sendo modificados por aqueles que cruzam nossos caminhos. Mas quantas dessas pessoas são realmente capazes de mudar por completo sua vida? Penso que uma entre 7 bilhões. E ao pensar nisso, chego a conclusão de como sou absurdamente sortuda por nossos caminhos terem se cruzado, Gabriel. Não sou capaz de explicar como você mudou minha vida por completo e sim, estou ciente de que uma vida é muita coisa, mas você o fez e desde então, tudo parece mais leve. Tudo que eu gostaria era de agradecer por tudo que tem me ensinado. Eu que sempre problematizei o universo e procurei pelos significados complexos e profundos da vida, aprendi com você que minhas respostas se encontravam nas entrelinhas, nos detalhes, nas pequenas coisas e nos pequenos momentos. Você me ensinou que a vida não precisa ser poética, mágica ou deslumbrante, ela precisa ser apenas vivida, com todos os seus pontos altos e baixos. E é isso que você tem me lembrado todos os dias. Obrigada, Gabriel, por ser quem é — e isso inclui todo o seu caos, complicações e enigmas. Obrigada por ter me ensinado a viver. Eu realmente amo você.”
– O quão irônico é esse texto da Isabelle? – perguntei entregando o celular de volta para ele. O quão irônico tudo tem sido?
– Você tem a mínima ideia de como tudo aconteceu pra nós, Gabriel? Alguém te contou o que aconteceu com ela?
– Não.
– Ela tava na porta da sua casa quando a ambulância chegou. – Gustavo começou a contar. – Ela desmaiou quando viu teu pai e o Henrique te carregarem até a ambulância. O Henrique teve que levar ela pro hospital junto com ele e ela desmaiou de novo quando ele contou o que tinha te acontecido. Tentaram atender ela e ela não deixou, porque parecia estar em estado de negação. Parecia não, ela estava. Aquela garota tava tão desesperada e chorou tanto, que não sabíamos o que fazer. Ninguém tinha condição de fazer qualquer coisa, mas me lembro de olhar pra ela e pensar que eu gostaria de verdade de poder fazer, qualquer coisa que fosse. Ela ficou muito abalada. Nós sabemos o quanto ela é intensa. Não se entra na vida de Isabelle Nemitz e sai sem deixar marcas. E essas com certeza não seriam marcas que ela queria carregar.
– Qual é o intuito dessa conversa, Gustavo? – perguntei me levantando, me sentindo extremamente desconfortável. Peguei os discos e fui guardá-los. – Manda logo a real, porque você sabe que eu nunca tive a intenção de machucar ninguém.
– É aí que ta, Gabriel. Será que nunca teve mesmo?
Parei exatamente onde estava e o encarei.
– Eu só espero de verdade que você não esteja brincando com a cara de ninguém, Gabriel. Só isso. Principalmente se for a Isabelle.
– Não to. – respondi seco e o silêncio se instaurou no quarto. Um silêncio que me incomodou, por isso sai de lá e desci até a cozinha, procurando por algo que felizmente encontrei na geladeira: minha coca gelada. Peguei dois copos e subi de volta com ela. Assim que entrei no quarto, Gustavo soltou uma bomba.
– Eu terminei com a Carol. – ele contou, assim, na lata. Sem cerimônia, nem rodeios. Fiquei estático encarando ele por um bom tempo, até que comecei a rir e o deixei sem entender nada. – Ta rindo do que, filho da puta?
– Foi instaurado o caos no mundo, é isso? – perguntei me sentando ao seu lado e entreguei um copo pra ele. – Tudo de ruim que tinha pra acontecer resolveu acontecer de uma vez só?
– Isso é sua culpa. Você fica aqui aí desconfigurando a ordem natural das coisas.
Fui obrigado a rir.
– Mas... Você ta bem? – perguntei servindo coca pra nós.
– Não. Sim. Não sei. – respondeu Gustavo. – É aquela coisa típica de fim de namoro, demora pra acostumar a levar a vida sem a pessoa, ta ligado? E só porque você sabe que não tem mais, é que da aquela puta saudade. Parece que tu só consegue lembrar dos momentos bons e nada mais. Se o cérebro funcionasse assim durante os relacionamentos, todos eles durariam pra sempre.
– É real isso ai! – concordei.
– Mas eu sei que tava uma merda e sei que tomei essa decisão porque era a melhor coisa a se fazer, então não vou voltar atrás.
– E ela ta de boa contigo?
– Não, não estamos conversando. Mas vou respeitar o momento dela e quando o tempo passar, as coisas acalmarem, a gente volta a ser amigos, numa boa. A Carol não é o tipo de garota que acabaria com nossa amizade por causa disso.
– Ela é diferente do resto. – afirmei. – É especial.
– Com certeza!
– O Bruno já sabe? – perguntei sentindo falta dele ali com a gente.
– Sim.
– Ta felizão, né? Aposto! Planejando mil rolês pra nós três.
Conseguia imaginar perfeitamente ele extremamente animado por todos nós estarmos solteiros e podermos fazer um rolê só de caras, pra apostarmos quem pega mais guria numa noite e coisas desse tipo. Isso é a cara do Bruno.
– Na verdade não... Por incrível que pareça!
– Como assim? Esse não é o Bruno que eu conheço! – disse e Gustavo deu um sorriso fraco, mas ficou quieto. O conheço, ele ficou desconfortável com a situação. Significa que ele quer falar algo que vai me deixar desconfortável. – Que foi? Fala aí!
– Esse é o Bruno que pensou ter perdido o melhor amigo, Gabriel. Só isso. Nem eu imaginei que ele fosse ficar tão abalado, mas ele ficou. Ele ta quieto desde aquele dia. Nem parece ele. Fica pensando e pensando e pensando. Ele tem medo, sabe? De acordar algum dia e descobrir que as piadinhas dele não foram o suficiente pra te fazer rir de verdade e descobrir que dá pra rir de tudo nessa vida, até mesmo da desgraça que ela é. Ele tem muito medo de acordar algum dia e descobrir que enquanto dormia ou comia alguma mina, perdeu o melhor amigo. E não culpo ele. Eu também tenho, pra caralho.
Eu me senti tão mal naquele momento, que pedir desculpa não me pareceu o suficiente. Eles eram meus melhores amigos, as duas pessoas mais importantes da minha vida.
– É claro que sim, você me ama pra caralho. – respondi em tom de brincadeira, porque foi a única coisa que fui capaz de fazer.
– Não dá pra ter uma conversa séria com você, né? – rebateu Gustavo me dando um soco no ombro.
– Desculpa, cara. – pedi agora falando realmente sério. – Por tudo!
– Tudo bem. Só me faz um favor. Conversa com o Bruno depois. Eu chamei ele pra vir aqui hoje e ele não quis. Inventou que tava se sentindo mal e umas coisas assim.
– Beleza. – concordei.
– Você sabe quando vai voltar pro colégio?
– Acho que não. Ainda preciso ver com a minha mãe o que vai ser da minha vida. Preciso de um tempo, sei lá. Esses últimos dias foram tão turbulentos que eu to meio perdido. Preciso me situar.
– To ligado.
Depois daquela conversa Gustavo me obrigou a almoçar, o que só então eu percebi que não tinha feito e me senti verdadeiramente feliz por comer comida de verdade depois de tanto tempo. Passamos o resto do dia jogando vídeo game e ele só foi embora quando Babi chegou e enlouquecida por minha atenção, não me soltou mais. A única pessoinha nesse mundo inteiro capaz de me fazer feliz de verdade em meio a tanto caos.
Aquela noite quando me deitei na cama, decidi ir visitar Bruno no dia seguinte e Carol também. Mas acima de tudo, me peguei pensando que queria concertar algo que não acredito ter concerto. Peguei um disco em meio aos que Isabelle me deu e coloquei uma música pra tocar: Angie. E o rosto dela não saiu da minha cabeça.
“I hate that sadness in your eyes”.
Fale com o autor