Poltrona 19
41 Por que as rachaduras?
Notas iniciais
Assim que entrei no pátio, me peguei involuntariamente procurando por ela. Era óbvio que ela estaria ali, ela sempre chega ao segundo horário. E estava. Sentada em um dos bancos, concentrada em um livro que estava lendo: Cidades de Papel do John Green. Me sentei em um banco próximo a ela e comecei a observá-la. Ela tinha um marcador de texto em mãos e enquanto lia, vez ou outra riscava algo no livro, depois colava uns papelzinhos coloridos nas laterais da página. Eu fiquei muito curioso para saber o que ela estava fazendo, mas não poderia perguntar.
Em determinado momento ela finalmente levantou a cabeça e olhou ao seu redor. Foi quando me enxergou. Seus olhos não se mantiveram em mim por mais que cinco segundos. Ela rapidamente fez questão de voltar à atenção para seu livro e fingir que não tinha me visto. Juro que senti vontade de me levantar e ir até lá, mas esse jogo tem que acabar.
Continuei a encarando, mas percebi que agora ela não fazia mais as coisas com naturalidade. Ela estava nervosa, como quem sabe que está sendo observada. Parou de riscar seu livro e agora balançava a perna sem parar, como que impaciente, talvez por estar com pressa para sair dali. Sorri sozinho. Não sei do que ela esta tentando fugir, já que somos da mesma sala. Se tem uma coisa que não conseguiremos fazer, é ignorar a presença um do outro.
Começou uma movimentação no pátio e percebi que os alunos começaram a seguir para suas respectivas salas. Isabelle começou a guardar suas coisas e esperei que ela se levantasse, para que eu fizesse o mesmo. Subi as escadas logo atrás dela e quando chegamos em frente a sala, tivemos que esperar o professor sair. Isabelle se encostou na parede ao lado da porta e eu parei de frente para ela, mas ela enfiou as mãos no bolso do casaco e ficou encarando os próprios pés.
O clima tava nitidamente tenso, estranho e tudo mais. Não a via há exatamente uma semana, desde o domingo na casa de sua irmã. Não nos falamos e nem sequer tivemos notícia um do outro. Eu pensei em tentar puxar assunto, mas nesse momento o professor de Biologia saiu da sala e ela entrou correndo. Quando eu entrei só tive uma certeza: não senti nem um pouco de saudade.
Assim que bati o olho no fundo da sala, estranhei. Carol não estava sentada em seu devido lugar, ela estava sentada no meu lugar. Olhei para o Gustavo e ele fez uma cara de “pois é” que me fez entender tudo. Ainda não acostumei com esse término. Olhei para o lugar de Bruno e ele estava lá, mas dormindo debruçado na mesa. Foi a primeira vez que o vi desde o hospital. Eu tentei ir em sua casa umas três vezes na última semana e sua mãe sempre dizia que ele não estava, mas eu tenho certeza que ele estava. Principalmente porque ele não atendeu nenhuma de minhas ligações ou respondeu a qualquer mensagem que eu enviasse. Eu tava preocupado pra caralho.
Achei melhor não incomodar Carol e sentei em seu lugar, deixando ela quieta no meu. Mas assim que me sentei e olhei ao meu redor, percebi o quão tudo esta errado. Isabelle “terminou” comigo. Carol terminou com Gustavo. Minha mãe terminou com meu pai. Bruno não quer falar comigo. Eu não posso sequer sentar em meu lugar. As pessoas devem estar se perguntando por que eu sumi por uma semana e consequentemente falando da minha vida. Parece que tudo saiu do eixo. Nem Barbara está na sala, o que é muito estranho, já que ela nunca falta.
Foi difícil sobreviver ao horário de Química depois de ter desacostumado a acordar cedo. Mas fiquei acordado só pra saber o que aconteceria no intervalo e aconteceu o seguinte: Carol e Isabelle saíram juntas; Bruno saiu praticamente correndo; e sobrou eu e o Gustavo olhando um pra cara do outro.
– Parece que estamos sendo ignorados. – observou Gustavo se levantando.
– A gente supera! – respondi tentando brincar com a situação. – Você ainda não falou com a Carol?
– Ela nem olha pra minha cara. Você ainda não falou com o Bruno?
– Não, ele ta me evitando.
– Ta foda. – concluiu Gustavo enquanto descíamos as escadas rumo ao pátio.
– E a Isabelle, ela ta de boa contigo?
– Sim, ela tem me dado um super apoio. Eu conversei com ela antes de decidir terminar e nós saímos varias vezes esses dias, porque aqui no colégio ela fica com a Carol pra Carol não ficar sozinha e ficar bem, mas depois ela faz questão de me ver também pra conversar comigo e ter certeza que eu também to bem.
– A Isa é sensacional. – afirmei. E não pude deixar de pensar que ela tem sido uma amiga muito melhor que eu, para todos eles.
Eu não achei mais o Bruno no intervalo e tinha a intenção de encurralá-lo no segundo, mas falhei quando enquanto o professor de História falava, senti meus olhos pesarem, tentei me aconchegar na cadeira da melhor maneira possível – o que me deixou com muita saudade da minha amável parede – e encostei a cabeça na mesa atrás de mim, que no caso, era de Isabelle. Eu apaguei.
Acordei meio perdido e senti que alguém mexia no meu cabelo, tentei olhar e percebi que era Isabelle, que também estava deitada em sua mesa. Mas no momento em que me mexi ela parou. Puxei sua mão de volta, coloquei na minha cabeça, me aconcheguei de novo e fechei os olhos determinado a voltar a dormir.
– Melhor não dormir mais. – aconselhou Isabelle. – O horário de Matemática ta acabando e o próximo é de Educação Física.
– Que merda. – balbuciei no exato momento em que o sinal para troca de horários tocou.
Todo mundo começou a organizar seus materiais para irmos pras quadras, mas minha vontade era de continuar ali parado e quietinho, pensando que talvez assim eu pudesse me camuflar e ninguém me notaria, nem me mandaria levantar. Mas é claro que isso não aconteceu, em questão de minutos o professor surgiu aos berros na sala ordenando que todo mundo descesse, inclusive eu.
– Levanta essa bunda dessa cadeira e arrasta ela até a quadra, Fornazier! – ele gritou.
Me levantei praticamente me arrastando e foi quando vi Bruno saindo da sala as pressas. Agora não tinha mais como ele fugir. Saí correndo atrás dele e o segui até a quadra de futebol, onde ele parou de frente a arquibancada para deixar sua mochila e ir jogar.
– E aí, quando você vai parar de me ignorar? – perguntei jogando minha mochila ao lado da sua.
– Não to te ignorando. – ele respondeu enquanto guardava o celular e depois já se virou na intenção de sair dali, mas Gustavo surgiu em sua frente o impedindo de passar e o empurrou até que ele caísse sentado na arquibancada. Ele olhou pra mim e então saiu na direção de Isabelle, sentada alguns degraus pra cima.
Esperei que Bruno fosse se levantar e fugir, mas ele cruzou os braços na frente do peito, se apoiou na arquibancada e continuou sentado. Então me sentei ao seu lado, mas percebi que não sabia o que dizer. Eu não sabia nem o que tava acontecendo exatamente.
Decidi começar pelo óbvio.
– Desculpa, cara. – pedi. E ele não respondeu, parecia fingir que eu não estava ali. – Olha Bruno, eu não sei o que foi, mas eu sinto muito mesmo.
– Sente, Gabriel? Você sente mesmo? – perguntou Bruno se virando para mim bastante exaltado. – Sente muito por eu não conseguir dormir mais? Sente muito por eu ficar monitorando quando você olha o whatsapp ou o facebook, pra ter certeza de que você ta bem? Por eu ficar ligando na sua casa sem parar e pedindo pra empregada dar uma checada em você, só por precaução? Sente muito pelo medo que eu sinto constantemente? Será que você sente muito por todas as vezes que eu tive de me imaginar debruçado em cima do caixão do meu melhor amigo?
Tive vontade de dizer que sim, eu sinto, mas não consegui.
– Não foi a primeira vez... – ele prosseguiu. – E depois de tudo isso, eu acho que também não foi a última, Gabriel. Eu não sou igual o Gustavo, ta legal? Não consigo ser a pessoa que vai te dar todo apoio que você precisa, porque eu também preciso de algum! Eu não to preparado pra passar outra noite no hospital esperando você acordar ou não. Eu não quero mais isso!
– E então é isso? Melhor acabar com a nossa amizade agora e cada um seguir com sua vida? Fingir que a gente não se conhece há oito anos, porque aí se quem sabe, algum dia eu parar dentro de um caixão, você não vai dar a mínima? É essa a solução pra você? – perguntei o mais ironicamente possível. – Então beleza, Bruno. Se é isso que você quer, quem sou eu pra te impedir, não é mesmo? Mas pode ter certeza que eu nunca tive a intenção de foder com a vida de ninguém, muito menos dos meus melhores amigos! Eu não faço nada por zoação não! Não faço nada disso de propósito! E nunca esperei perder meu melhor amigo assim. Então sim, Bruno, eu sinto muito mesmo!
Eu disse tudo aquilo sem nem pensar e percebi que também estava exaltado só quando olhei ao redor e vi Gustavo em pé, nos encarando, se preparando para vir nos separar caso algo acontecesse. Peguei minha mochila e sai dali andando querendo chutar a primeira coisa que visse na minha frente, que por acaso foi uma lixeira. Pra piorar não achei minha carteirinha pra passar na catraca e sumir dali, então simplesmente a pulei e liguei o foda-se. Que se foda essa merda de escola.
Fui embora pra casa e depois disso, não senti mais vontade de voltar no colégio. E não voltei. O que resultou em quase duas semanas faltando e sinceramente eu não tava nem ligando pro quanto ia me foder por causa disso. Desliguei meu celular e não saí de casa ou falei com alguém que fosse meus irmãos ou minha mãe. Tudo em casa tinha melhorado muito desde que meu pai não pisou mais os pés aqui, mas não tava sendo fácil ver minha mãe tendo de superar isso e brigar pelo divórcio e suas coisas.
Chegou quinta-feira e eu já tava cansado de ficar morgado, tava jogado na minha cama quando fui surpreendido pela porta do meu quarto sendo escancarada abruptamente.
– Sabe quem vai estar no bar hoje? Minha ex. – gritou Bruno enquanto caminhava até meu frigobar. Ele pegou uma lata de coca e continuou a falar enquanto andava agora em direção a porta que dava acesso ao meu guarda-roupa. – E aquela vadia tem o dom de foder meu psicológico. Ela chega esfregando aquele decote na minha cara, depois fica cruzando as perninhas e rindo feito quem ta sendo muito bem comida, e minha vontade é de pegar uma cadeira e acertar ela até aquele rostinho ficar todo deformado.
Como se nada tivesse acontecido. Exatamente como o Bruno é.
– Eu acho que vou colocar esse casaco. – ele disse surgindo na porta do guarda-roupa, usando um casaco meu. – Fico parecendo aqueles capitães de time de futebol dos EUA, ta ligado? Pra quem as líderes de torcida pagam um boquete atrás da arquibancada. A gente seria os caras se isso daqui fosse os EUA, né! Os populares que mandam no colégio inteiro! Eu ia comer sua namorada no dia da formatura!
Eu não conseguia responder, só ficava observando ele falar e falar e falar, pensando em como Bruno é uma peça rara nesse mundo. Eu tenho certeza que ele deve ter passado os últimos dias pensando na nossa discussão tanto quanto eu e chegou a mesma conclusão que eu havia chegado: que se tudo isso tinha acontecido com medo de nos perder, a gente não deixaria um sair da vida do outro assim tão fácil. O orgulho só era demais pra alguém ir atrás pedir desculpa, por isso era a cara dele aparecer ali fingindo que estava tudo bem. E por mim estava.
– Aliás cara, ainda bem que você não trás mina pra comer aqui, porque se metade das minas que você come soubessem que seu guarda-roupa é um cômodo, elas desconfiariam seriamente da sua sexualidade e capacidade de fodê-las cinco vezes na mesma noite.
– Você não consegue foder uma mina cinco vezes na mesma noite nem na sua imaginação! – finalmente respondi.
– Consigo sim! – ele rebateu jogando um casaco em cima de mim. – E levanta dessa cama porque é exatamente isso que vamos fazer agora.
– Um ménage? – perguntei zombando.
– Não, você vai comer uma mina e eu vou comer outra mina.
– Ou eu posso te comer.
– Você tem um closet, cara. Não fala isso. – disse Bruno me puxando pelo pé ao perceber que eu não levantei.
– E você usa todas as minhas roupas. – rebati o chutando.
– É só um casaco, mano!
– Essa calça também é minha, Bruno. – lembrei me levantando e vestindo o casaco que ele tacou em mim. – Tu pegou emprestado e nunca mais devolveu.
– Ah, um casaco e uma calça, e daí? Amigo é pra essas coisas.
– A blusa também é minha.
Peguei minhas chaves, carteira, celular e o segui pra fora do quarto.
– Ta, um casaco, uma calça e uma blusa! Mas irmão é pra isso!
– E eu que te dei esse tênis.
– Você é milionário, eu não! – gritou Bruno revoltado. – Me chupa, porra!
– Falem baixo! – gritou minha mãe de algum cômodo, nos fazendo rir.
– Pode ficar com o casaco. Ficou massa, capitão do time fodedor! – avisei olhando para ele. Bruno sorriu, depois me socou o braço e eu soube que aquilo tinha sido um agradecimento. – E elas me chupariam melhor do que qualquer mina já te chupou na sua vida inteira.
– Ahn? – ele perguntou sem entender nada.
– Se eu trouxesse uma mina pra casa e elas descobrissem que tenho dinheiro o suficiente pra ter um cômodo como guarda-roupa. – expliquei, voltando ao assunto de antes.
– Um closet. – rebateu Bruno, abrindo a porta da frente pra sairmos.
– Guarda-roupa.
– Chupariam mesmo. – ele finalmente concordou, mudando o foco da conversa pela milésima vez. Às vezes nem eu sei como eu e o Bruno conseguimos nos entender, levando em consideração que falamos de pelo menos umas cinco coisas ao mesmo tempo.
– E você iria preso se batesse nela com uma cadeira. – disse voltando a primeira pauta da conversa.
– To ligado, mas ela gosta de apanhar na cama! Ah se gosta! – ele disse rindo e entrando no carro do pai dele, o qual tem dirigido desde que fez 18, sendo que ainda nem tirou carteira. Eu não sei como nenhum de nós nunca se fodeu dirigindo. – Quem tu vai comer hoje? Porque eu vou comer minha ex.
– Sai dessa, otário! Nós vamos buscar o Gustavo?
– Não, Gustavo tinha outros planos.
– Outros planos? – perguntei estranhando.
– Ah, nem perguntei. Devia ser ficar em casa chorando as pitangas, vendo foto da Carol e se masturbando, sei lá.
– Você é um filho da puta mesmo! – afirmei rindo e peguei meu celular para discar um número. – E eu vou ligar pra Amanda.
– Anão Gabriel, não acredito que com tanta mina você vai comer a Amanda de novo.
– Quero foda fácil, Bruno! Olha minha cara de quem ta com paciência pra ficar aturando cu doce de mina!
– É... então Amanda é a melhor opção.
– Sempre foi.
Eu liguei pra Amanda mesmo já sabendo que ela estaria no bar, só porque eu de fato tinha a intenção de transar com ela hoje. E se eu pretendia fazer isso, era melhor bancar o cara legal que ta querendo vê-la. Marcamos de nos encontrar lá.
Tava socado de gente da faculdade, como sempre está, e a nossa mesma turma de sempre: Henrique, Matheus, Hugo, Pedro e Mariana – amigos do Henrique da faculdade –, e Paola, que merece destaque especial por ser ex-namorada do Henrique e ele ainda sair com ela todas as semanas. O Henrique e o Bruno mereciam um prêmio de maiores trouxas do século por ainda serem manipulados por ex.
Além disso, estavam lá Amanda e Lorena, que parece ser a mais nova melhor amiga de Amanda. Mas eu me surpreendi no momento em que cheguei e vi que em uma das poucas mesas disponibilizadas pelo bar pros clientes, estavam sentados Gustavo e Isabelle. Se eles conseguiram mesa pra sentar, significa que estavam ali há muito tempo. E estavam tomando uma cerveja enquanto conversavam e riam... Sendo que a Isabelle nem gosta de cerveja! Eu fiquei tão incomodado que fingi não ter visto nenhum dos dois.
– Cara, hoje já é 23 de maio! As férias tão logo aí! – disse Matheus.
– A gente podia fazer alguma viagem, né? – sugeriu meu irmão.
– Curti a ideia! Meu tio tem casa de praia em Santa Catarina.
– Não, galera! Pelo amor de Deus né! – rebateu Bruno. – A gente já mora no Sul, vamo vazar desse estado pelo menos! Vamo subir um pouquinho nesse mapa aí!
– Rio de Janeiro? – disse Amanda.
– É disso que eu to falando! Bate aqui, Amandinha! Por isso que eu gosto de você! – respondeu Bruno levantando a mão para que eles fizessem um hi-five. – Partiu beijar umas cariocas do corpo esculpido e bronzeado, naqueles biquínis minúsculos, saindo do mar todo molhado...
– Visualizei o paraíso! – disse Henrique fazendo todo mundo rir.
– Mas isso é sério, não é pra ficar só na falação não! – intrometeu Hugo.
– A gente podia ir pra ficar uma semana. – sugeri.
– Que isso, Fornazier! A gente não é rico igual vocês não! – respondeu Matheus.
– É só a gente ficar todo mundo em hostel, que é barato pra caralho e mega divertido! – disse Paola.
– Fechou esse rolê aí!
– UFPR vai mostrar pra UFRJ como é que se pega mulher! – zombou Henrique.
– Hashtags oficiais: #ufprviaja #ufprtocandoterror #ufprdominaorio #paodeaçucaréocaralhoeuqueroverdisposição. – inventou Pedro.
– Eu to me sentindo excluído dessa bagaça! UFPR, mimimi. – reclamou Bruno.
– Ó os moleque do colégio ainda querendo ter moral! – rebateu Hugo. – Criança não viaja com a gente não!
– Falou o vovozão! Quer que eu compre a pílula azulzinha pra você? Pelo menos meu pau sobe, seu corno! – provocou Bruno e eles começaram uma discussão.
– É verdade! Que que a gente faz com essa Amanda menor de idade, ein? – perguntou Mariana. – Vai foder com o rolê de todo mundo!
– Existe uma coisa poderosa chamada peitos, que eu sei usar muito bem. – respondeu Amanda e a galera riu muito.
– Beleza! Então vamos nós, Gabe, Brubinho e Amandinha! Ta proibido mais pirralho nessa brincadeira! – disse Matheus.
– Não esqueçam do Gustavo. – gritou Bruno.
– Verdade! Cade o viado do Gustavim? – perguntou Pedro.
– Ta sentado com uma loira há horas! – contou Matheus. – O moleque mal ficou solteiro e já ta atacando!
– É minha melhor amiga, gente. Eles são só amigos. – explicou Amanda.
– É a Isa, da nossa turma. – completou Bruno. – Gente boa pra caralho!
– Boa mesmo! – disse Matheus de forma maliciosa. – Gostoooooosa!
– Eles são só amigos mesmo, né? – perguntou Amanda para mim. – Parei pra pensar que nem ando sabendo quem a Isa anda pegando ou não.
Tive vontade de responder que até duas semanas atrás, era eu mesmo. Caralho, tem exatamente duas semanas que a gente não ta junto, levando em consideração que a ultima vez que ficamos foi numa quinta.
– São sim. – respondi.
Olhei na direção da mesa dos dois e só então parei pra pensar no quanto eles são próximos. Gustavo gosta mesmo dela, sempre gostou. Mas eu não imaginava que quando ele disse que andam saindo pra conversar, essas idas eram pra barzinhos tomar cerveja.
– Você anda estranho. – observou Amanda.
– Não começa, Amanda. Por favor.
– Eu odeio quando você fala comigo desse jeito.
– Eu odeio quando você fica de mimimi. – rebati.
– Eu só disse que você anda estranho. Não aparece no colégio direito há duas semanas.
– Ta. Tanto faz.
E ela emburrou. Revirei os olhos. O intuito de sair de casa hoje foi fazer sexo, não ficar na mão. E foi exatamente por isso que liguei pra ela, então comecei a agir. A abracei por trás, beijei a curva do seu pescoço dela e esperei.
– Você vai pra casa hoje? – ela perguntou. Sorri satisfeito.
– Óbvio que não, vou pra sua. – respondi.
– Preciso ir pra aula amanhã.
– Ta me negando sexo?
– E eu tenho cara de quem nega sexo? – ela rebateu. Se tem uma coisa que eu gosto na Amanda é que com ela o papo é direto. Ela gosta de sexo e não nega pra ninguém. – Só to dizendo que a gente podia ir embora mais cedo pra aproveitar mais.
– Daqui a pouco a gente vai. – respondi.
Primeiro, eu tenho que vigiar uma loira.
Nós continuamos conversando, rindo e bebendo por muito tempo. Eu sempre gostei de vir pra cá nas quintas porque é diferente de ir pra uma festa ou balada. Nós simplesmente ficamos falando merda e curtindo.
– É legal isso, né? – disse Amanda e olhei pra ela sem entender. – Nós já termos tantos amigos na faculdade. Me faz sentir mais segura pra seguir em frente, ou pelo menos com menos medo de terminar o colégio e entrar em outro mundo, porque a gente já conhece esse novo mundo. E nossos amigos vão nos ajudar e já vai estar tudo meio caminho andado.
– Se nós conseguirmos passar no vestibular, não se esqueça.
Ou se eu ao menos prestar o vestibular.
Resolvi ir buscar uma cerveja e vi que Isabelle e Gustavo não estavam mais por ali. Na volta comecei a procurá-los, mas não encontrei. Eles deveriam já ter ido embora. De repente Bruno bateu a mão com tanta força no meu peito, que quase virei um soco na cara dele por reflexo. Em seguida ele agarrou minha camiseta e quando abri a boca para xingá-lo, vi que ele estava olhando fixamente para algum lugar, literalmente boquiaberto. Segui a direção de seu olhar e não tive reação.
– Agora ela pode matar nossa curiosidade sobre quem de nós tem a melhor pegada. – comentou Bruno se referindo a Isabelle, que estava beijando Gustavo do outro lado da rua. Eles estavam encostados no carro do meu irmão. – Ele vai ter que pagar os 50 reais né?
Bruno disparou a falar, mas eu não tava ouvindo nada. Eu fiquei tão perplexo que não sei nem explicar. O Gustavo estava beijando a Isabelle. Eu juro que por essa eu não esperava. Fiquei encarando os dois por muito tempo, tentando processar aquela informação. Tanto tempo que levei um tapa na cara.
– Terra chamando Gabriel! – disse Bruno logo depois de me bater. – Alô! Alguém aí?
– Vai bater na tua mãe, filho da puta! – xinguei.
– Ok, você voltou.
– Eu to muito perplexo!
– Sério que você não esperava por isso? – perguntou Bruno.
– Você esperava? – rebati.
– Não esperava porque ele tava namorando com a Carol. Mas no momento em que bati o olho nos dois depois do término, já sabia que ia rolar. Fala sério, Gabriel! Eles se deram bem desde o primeiro instante. Os dois tem essa áurea de paz e amor... Tipo, eles são tipo muito o tipo um do outro, sabe? – ele disparou a falar enquanto gesticulava e eu tive vontade de dizer que não, eu não sei, mas fiquei quieto.
– O que cê acha que a Carol vai achar disso? – perguntei. Ela tava muito mais mal com o fim do namoro do que o Gustavo, tanto é que não ta falando com ele.
– Não sei, mas a gente devia ir lá encher o saco dele. Vocês fizeram isso quando era eu! Eu poderia ter transado com ela! Morro de vontade de saber se ela é boa de cama.
É, é sim.
– Não, deixa quieto, depois a gente zoa. O Gustavo ficaria muito constrangido.
– Pois é! É pra isso que servem os amigos.
– Não, eu quero ver se ele vai nos contar. – expliquei.
– Booooooa!
– Na verdade to bem curioso pra saber como isso rolou.
– Foi assim: um enfiou a língua dentro da boca do outro. – ele começou a falar me fazendo revirar os olhos. Às vezes não sei se o Bruno faz graça ou se essas respostas retardadas surgem na cabeça dele espontaneamente mesmo.
– Cala a boca, Bruno!
– Vamo beber aí, que até o Gustavo já se deu bem e a gente ta aqui na merda. – ele disse e saiu andando, me deixando para trás. Vi que ele saiu secando a bunda da ex-namorada e revirei os olhos. Não importa quanto tempo passe, o Bruno não supera essa garota. E a Luiza não supera o Bruno. E alguém não supera a Luiza. E essa é a vida. Aquela coisa que faz seu melhor amigo beijar sua ex encostado no carro do teu irmão.
Olhei novamente pros dois sem saber o que pensar. Eu não fico mais com a Isabelle e o Gustavo nunca soube que a gente ficou por tanto tempo, então definitivamente eu não sentiria raiva dele. Mas eu fiquei incomodado e surpreso pra caralho. Sempre tive tanta convicção de que a Isabelle era louca por mim, que parece que fechei os olhos pro quanto ela e o Gustavo dariam certo. De repente tudo fez sentido pra mim.
– A gente vai virar tequila, você anima? – perguntou Henrique brotando ao meu lado. Eu assenti e o segui até o balcão do bar. Fizemos uma roda com umas quinze pessoas pra virarmos as doses e aí alguém gritou o “Arriba, abajo, al centro, adentro”, porque sempre tem um pra gritar isso como se fosse mega divertido.
Virei a dose de uma vez, coloquei o copo no balcão e sai procurando por Amanda. É a hora perfeita pra gente vazar daqui. Dei uma última olhada do outro lado da rua e vi Gustavo e Isabelle entrando em um taxi. Paralisei no lugar.
O Gustavo ta indo embora com a Isabelle.
O Gustavo vai comer a Isabelle.
O GUSTAVO VAI COMER A ISABELLE.
PUTA MERDAAAAA.
Eu entrei em desespero. Uma coisa é o Gustavo pegar a Isabelle, outra coisa é o Gustavo transar com a Isabelle. Porque aí depois eles vão começar a sair, vão começar a gostar um do outro, vão fazer juras de amor, namorar e aí eu nunca mais vou poder ter nada com ela? É isso mesmo? Fala sério, eu nem aceitei essa decisão dela de me dar um fora! A Isabelle não pode simplesmente me dar um fora e namorar meu melhor amigo!
Peguei meu celular e disquei o número de Gustavo no mesmo instante. Eu inventaria que tive uma recaída, diria que precisava dele e ele largaria a Isabelle, viria correndo e esse seria o fim da noite deles. É o plano perfeito.
A ligação chamou uma vez, duas, três e eu desliguei.
Que merda eu to fazendo? Usando meus problemas psicológicos pra atrapalhar a noite do cara que eu tenho certeza que de fato viria correndo porque é a melhor pessoa do universo? O cara que me chama de melhor amigo e me coloca em primeiro lugar sempre? Que faz qualquer porra que for preciso pra que eu fique bem?
Eu sou o cara mais escroto do universo.
Guardei meu celular no bolso e atravessei a rua. Sentei na calçada encostado no carro de Henrique e ali fiquei. Perdi a vontade de voltar pro bar, perdi a vontade de beber, perdi a vontade de comer a Amanda. Basicamente perdi a vontade de tudo. Fiquei sentado por muito tempo, simplesmente por pura preguiça de ter que explicar para o Henrique porque eu queria ir embora subitamente e ouvir o Bruno me enchendo por simplesmente não comer ninguém.
Até que de repente, meu celular tocou. Eu o peguei por pura curiosidade, mas atendi quando vi o nome de Isabelle no visor.
– Você pode me buscar? – ela pediu. Não sei porque, mas quando ela terminou a pergunta eu já estava me levantando disposto a buscá-la até mesmo no inferno.
– Claro. – respondi de imediato. – Onde você ta?
– Na casa do Gustavo.
– Eu chego em no máximo dez minutos.
***
Meu irmão não entendeu nada quando apareci dizendo que precisava do carro dele emprestado urgente, mas me entregou a chave. Assim como Bruno e Amanda também não entenderam quando saí correndo sem dar satisfações. Mas em menos de dez minutos eu estava de fato na porta da casa de Gustavo, onde Isabelle entrou no carro segurando uma bolsa e não disse absolutamente nada. Ao invés de perguntar algo, deduzi que ela iria pra casa e foi pra onde a levei. Não soube se estava respeitando seu momento ou se simplesmente tinha medo de abrir a boca e sair algo como “vocês transaram?”.
Estacionei o carro na porta de sua casa, mas simplesmente não o destranquei. Ela não disse nada, apenas continuou ali, sentada, encarando o horizonte.
– Você quer fazer algo? – perguntei, mesmo que já imaginasse a resposta.
– Não. – ela respondeu de imediato, como quem não podia pensar demais para responder.
– Ok. Então podemos ficar aqui fazendo nada. – disse pegando o controle do som e me aconchegando no banco. A olhei de canto de olho e pude ver que ela estava sorrindo. – E ouvir Oasis.
Quando eu disse isso, o sorriso desapareceu.
– Oasis não! – reclamou Isabelle. – Põe na rádio, por favor.
– Por que Oasis não?
– Acho melhor eu entrar. – disse Isabelle começando a juntar suas coisas.
– Eu não vou tentar nada, Isabelle. – garanti. – Só quero companhia...
Ela ficou pensativa, mas após longos segundos se aconchegou novamente no banco e colocou os pés sobre o painel. Liguei o som e coloquei na rádio, como ela havia pedido. Estava tocando alguma música que não conheço, essas típicas famosinhas que sempre tocam em rádio. Tocou uma música, duas, três e ficamos ali, completamente em silêncio.
A quarta era uma música do Ed Sheeran. Me lembrei do dia em que estávamos no apartamento de sua irmã e consequentemente do dia em que a levei para ver a apresentação de balé da Babi. Peguei minha carteira e procurei por um papel que estava guardado dentro dela. Assim que encontrei, o peguei e estendi na direção de Isabelle ainda dobrado.
Ela pegou o papel com receio e o abriu sem pressa. No exato momento em que viu o que era, virou o rosto para a direção da janela e encostou sua testa nela. Era a foto que tiramos no teatro, naquela quarta-feira desastrosa.
– Um dia cheguei em casa e Babi veio correndo em minha direção, segurando isso em mãos. – contei. – Ela gritou que havia achado o site do teatro, encontrado a foto, imprimido e recortado pra mim, tudo pra eu poder guardar a foto.
– Destranca o carro. – ordenou Isabelle, ainda sem me olhar.
– O pior é que eu guardei... – continuei, a ignorando completamente. – E nem sei porque guardei.
– Sabe o que eu escrevi em meu diário noite passada, Gabriel? – indagou Isabelle com fúria em suas palavras, finalmente virando o rosto para mim. Ela me encarou e pude ver que seus olhos estavam cheios de lágrimas. – “Hoje eu me olhei no espelho e não soube mais quem era”. Porque infelizmente...
– Você não sabe mais o que de você é uma parte de mim? – a interrompi com tanta raiva quanto ela. – Você acha que eu não sei? Acha que por acaso eu não me sinto da mesma forma? Aquela foto, aquele texto, aqueles discos, aquele bilhete. Essa foto, essa música, essas lágrimas. Você! Presta bem atenção, Isabelle. – gritei e me virei para ela, a encarando. – Tudo isso são lembretes de que você me roubou de mim e sinceramente, me queria muito de volta. Então não ache que você é a única que se sente perdida, porque eu também não sei de mais nada.
Ela não disse mais nada, apenas abaixou a cabeça e ficou quietinha por muito tempo.
– Eu fiquei com o Gustavo... – ela confessou num sussurro, repentinamente. – E nem sequer sei por que fiz isso.
– Eu sei, eu vi. – contei.
– E por que você não ta bravo comigo? Por que mesmo assim foi me buscar?
– Porque o Gustavo é o cara que você merecia.
– Não banque o altruísta agora, você não tem qualidades.
– Eu sei. – respondi sorrindo e ficamos em silêncio. Mas é o que eu realmente penso. – Não deu tempo de vocês transarem, deu?
Ela negou com a cabeça, antes de responder.
– Não tive coragem. Eu pensei na Carol e não acreditei que cheguei de fato a sequer cogitar a hipótese de fazer isso.
Dei uma breve risada, dessas que você nem sequer abre a boca, o ar somente sai pelo nariz.
– Que foi? – ela perguntou.
– Você pensou na Carol. – respondi. – E eu achei que tinha pensado em mim.
– A última coisa que eu esperaria de você seria ciúmes, Gabriel.
– Não é de ciúmes que to falando, é de consideração.
– Consideração?
– É o meu melhor amigo. – disse como se fosse óbvio. E pelo visto ela não gostou nada do meu tom de voz.
– Era a minha melhor amiga naquele bar. – ela rebateu.
– Fala sério, você e a Amanda nem sequer se falam mais. A Lorena é muito mais amiga dela do que ti.
– Talvez porque minha vida tenha passado muito tempo girando em torno de você.
– Nunca te pedi pra viver em minha função.
– Você é um idiota, Gabriel.
– Conta a novidade! – rebati. Eu sei que sou e sempre serei.
Mais uma vez ela ficou calada, mas dessa vez não parecia disposta a dizer qualquer coisa tão cedo. Eu não queria discutir com ela, mas isso tem parecido inevitável. Quando me acalmei resolvi puxar qualquer outro assunto aleatório que pudesse tirar a tensão do clima, mesmo sabendo que nada adiantaria, simplesmente porque não queria que ela pedisse pra eu destravar o carro pra ela ir embora. Não queria que ela fosse embora.
– O que você tava riscando naquele livro que estava lendo no colégio? – perguntei.
– Eu tenho a mania de marcar meus trechos preferidos sempre que estou relendo algo.
– Por que quando está relendo?
– Porque quando se está lendo um livro, ele merece toda sua atenção, parar para marcar algo seria como perder o fio da meada.
– Geralmente pessoas apaixonadas por livros nunca tem coragem de rabiscá-los nem que seja com lápis de escrever.
– É uma forma de torná-los meu. – explicou Isabelle. – Todos os livros possuem milhares de exemplares por todo o mundo, mas a partir do momento que grifo os meus trechos preferidos, é como se eu confidenciasse a ele a minha interpretação, o que me marcou mais, o que me cativou. Naquele momento aquele exemplar se torna único e meu, e não há mais nenhum como ele no mundo inteiro.
Ela pegou sua bolsa, abriu e me entregou o exemplar que eu havia a visto grifando. O abri e percebi que haviam vários trechos grifados por um marcador de texto amarelo. Os papeizinhos coloridos que ela colava na lateral, eram pra indicar as páginas que haviam esses trechos. Era uma boa lógica.
Abri o final do livro e percebi que os últimos parágrafos estavam praticamente todos grifados, resolvi ler.
“O que quero dizer é que as metáforas não são poucas. Mas você precisa ser cuidadoso ao escolher sua metáfora, porque ela faz diferença. Se escolher os fios, significa que está imaginando um mundo no qual você pode se arrebentar de forma irreparável. Se escolher a relva, então quer dizer que todos nós somos interligados e que usamos esse sistema radicular não apenas para compreendermos uns aos outros, mas também para nos tornarmos o outro. As metáforas tem consequências”.
“Talvez seja mais como [...] rachaduras. Como se cada um tivesse começado como um navio inteiramente à prova d´água. Mas as coisas vão acontecendo... as pessoas se vão, ou deixam de nos amar, ou não nos entendem, ou nós não as entendemos... e nós perdemos, erramos, magoamos uns aos outros. E o navio começa a rachar em determinados lugares. E então, quando o navio racha, o final é inevitável. [...] Mas ainda há um tempo entre o momento em que as rachaduras começam a se abrir e o momento em que nós nos rompemos por completo. E é nesse intervalo que conseguimos enxergar uns aos outros, porque vemos além de nós mesmos, através de nossas rachaduras, e vemos dentro dos outros através das rachaduras deles. [...] Uma vez que o navio se racha, a luz consegue entrar. E a luz consegue sair.”
– Isso explica seu amor por metáforas. – disse fechando o livro.
– Qual você prefere? Os fios, a relva ou as rachaduras?
– Qual você prefere?
– Definitivamente as rachaduras. – ela respondeu sorrindo. – Mas eu sou relva e você são os fios.
– Por que?
– Porque como os próprios trechos explicam, a relva significa que somos interligados e temos a capacidade de nos colocarmos no lugar do outro, nos tornarmos o outro e assim compreendermos o outro, algo que basicamente faço por todos o tempo todo. – explicou Isabelle. – Já os fios significa que você pode se arrebentar de uma forma irreparável, o que você acredita ter acontecido com você.
– Mas então por que você prefere as rachaduras?
– Porque gosto de acreditar que existirá um momento final, em que conseguiremos enxergar através de nossas rachaduras.
Eu abri o livro em minhas mãos novamente e ele caiu exatamente na página 78, onde só havia um trecho grifado:
“E durante aqueles dois minutos apenas nos encaramos, e eu fitei o azul dos olhos dela. Foi bom – no escuro e no silêncio, sem a possibilidade de eu dizer algo que estragasse o momento, os olhos dela me encarando de volta como se houvesse algo em mim que valesse a pena ser visto”
A fitei e naquele momento senti muita vontade de beijá-la. Tanta que era exatamente o que eu ia fazer, se ela não tivesse dito algo:
– É como se eu estivesse desmoronando. – confessou Isabelle.
– Então não tente me culpar por você estar desmoronando, porque você ao menos tem um chão para cair.
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