Poltrona 19

42 Cara ou coroa


Notas iniciais
Oi lindos! Como vocês estão? Nossa, vocês desistiram mesmo de mim! Ninguém nem me manda mensagem mais pra me cobrar os capítulos ou contar da vida ou qualquer outra coisa. Chateada :( Pra quem não sabe o que aconteceu dessa vez, aqui está a justificativa: https://www.facebook.com/permalink.php?story_fbid=450777208426805&id=100004835897725&pnref=story (Ainda estou sem notebook e ainda aceito doações HAUHAU) Cara, quando eu fui olhar as recomendações pra agradecer, vi que a próxima fará com que Poltrona 19 complete 30 recomendações. T R I N T A. E FIQUEI DE CARA. CA-RA-LHO! VOCÊS SÃO TÃO INCRÍVEIS! Eu queria um dia filmar minhas reações enquanto leio tudo que vocês escrevem, seria o vídeo mais engraçado do mundo! Eu fico chorando com um sorriso bobo no rosto, tipo mãe quando vai na escola assistir apresentação do filho! HUAHUAUA Quem ajudou isso acontecer dessa vez foi a MissQueen666, Paula e Andressa Evaristo. MUITO OBRIGADA, SUAS MARAVILHOSAS! Fala sério, ler que "Poltrona 19 é como o que tem no final do arco-íris, como o recheio incrível do baú, aquele que você não quer dividir com ninguém", é alegria demais pra um coraçãozinho só. VOCÊS ME FAZEM FELIZ DEMAIS, PUTA MERDA! Af, tchau. To chorando. Boa leitura!

Assim que eu desci do carro e caminhei em direção ao portão da minha casa, consegui ter um leve vislumbre do que aconteceria a seguir: Eu entraria em casa, iria pro meu quarto, deitaria na minha cama e choraria. Eu não queria ficar sozinha, não queria entrar em casa e não queria chorar.

Encostei a testa no portão e respirei fundo. Me virei em direção a rua e deslizei pelo portão até acabar sentada no chão. O carro de Henrique continuava parado em frente a minha casa com Gabriel dentro, ele estava esperando que eu entrasse em casa, mas abriu a porta do carro quando percebeu que eu não o faria.

– Pode ir embora. – disse assim que ele apareceu em meu campo de visão, mas ele apenas me ignorou e continuou vindo em minha direção, até que se sentou ao meu lado. Ficamos em silêncio por longos minutos, mas chegou um momento em que precisei fazer a pergunta que não saia da minha cabeça. – Você acha que a Carol vai me perdoar?

– Não sei nem se eu vou te perdoar. – respondeu Gabriel, enfatizando o “eu”.

– Você é confuso demais pra minha cabeça. Você disse dentro do carro que não estava bravo comigo porque supostamente o Gustavo é o cara que eu merecia, e agora solta essa.

– É, eu não estava bravo, mas isso não significa que eu não esteja outras coisas...

– Tipo o que? – perguntei o olhando.

– Tipo irritado, porque como você também deixou claro, você só não ta na cama do Gustavo agora por causa da Carol.

– Você vai insistir com isso?

– Pra quem diz gostar de mim, não transar com meu melhor amigo por causa da Carol e não por minha causa, não faz muito sentido.

– Gabriel, eu to começando a achar que você ta com ciúmes e ta usando essa desculpinha pra encobrir isso.

– Fala sério! – disse Gabriel quase gritando, tão incrédulo que teve de gesticular as mãos. – Se não fosse a Carol você teria mesmo transado com ele? Eu to insistindo nessa merda esperando você dizer “não Gabriel, eu não ia transar com ele de qualquer forma, porque nós estávamos apenas ficando no sofá da casa dele, como duas pessoas decentes que somos”...

– Nós fomos direto pro quarto. – contei, insistindo mais ainda na ideia do ciúme. Ele me olhou e revirou os olhos.

– Eu não quero ouvir isso. – rebateu Gabriel

– Você ta com ciúmes. – voltei a afirmar.

– Cala a boca, Isabelle.

– Ele beija muito bem e tem uma pegada extraordinária! – persisti esperando o momento em que ele explodiria de raiva e confirmaria minha teoria, mas Gabriel me olhou e percebi que ele estava reprimindo um sorriso. Naquele momento também senti vontade de sorrir. E de repente, nós começamos a rir. Eu nem sabia exatamente o porquê, mas rir fez com que me sentisse melhor.

– Você já ficou com meus dois melhores amigos, mano! – disse Gabriel rindo. – O que eu faço com você?

– Você também já ficou com minhas duas melhores amigas! – o lembrei.

– Foi o Bruno quem me mostrou vocês ficando e sabe qual foi a primeira coisa que ele disse? “Agora ela pode dizer qual de nós três tem a melhor pegada”.

Comecei a rir mais ainda. Eu amo tanto o Bruno!

– Sou eu, né? – perguntou Gabriel ficando imediatamente sério.

Olhei para ele com um sorriso travesso antes de responder:

– Você nunca vai saber!

– Você não precisa responder, eu sei a resposta. – disse Gabriel se vangloriando.

– Sei não viu...

– Vai se foder, Isabelle.

– O Gustavo nem ta aqui. – zoei e ele me olhou com tanta cara de bosta, que encostei minha testa no seu ombro e disparei a rir.

– Quando a gente vai poder ficar de novo? – indagou Gabriel repentinamente e minha risada foi acabando pouco a pouco, até que ficamos quietos, ouvindo o barulho do vento e carros ao longe.

– Acho que... Nunca. – respondi e senti meu coração doer. De repente, nada tinha graça novamente. E talvez seja por isso que a gente tenha ficado em silêncio por um longo tempo. Me perguntei o que ele estaria pensando e se estaria com tanta vontade de me beijar quanto eu estava de beijá-lo. Mas isso não aconteceria. – Você acha que a Carol vai me perdoar? – perguntei retornando a questão inicial.

– Você perdoaria?

– Eu sempre perdoo a Amanda. – respondi me lembrando da cena que vi, dos dois se beijando. Mais uma vez.

– Você me perdoaria? – ele perguntou e não entendi muito bem, mas respondi mesmo assim.

– Eu sempre te perdoo.

– Se eu tivesse ido longe demais...

– Depende do quão longe.

– Muito longe.

– Não sei. – respondi sendo sincera e encostada nele, pude sentir seus pulmões se encherem com o máximo de ar e depois o soltar de uma vez só. Levantei minha cabeça de seu ombro e o olhei confusa, não entendi o que ele quis dizer com aquilo, mas tive medo de perguntar.

Peguei meu celular e mandei uma mensagem no meu grupo do whatsapp com Leticia e Amanda, que há muito tempo estava parado. A mensagem era bem clara: “Preciso de vocês”. E a resposta não demorou a vir:

Leticia: Minha casa está de portas abertas pra você.

Eu: Tipo agora?

Leticia: Com certeza!

Amanda: Como nos velhos tempos?

Leticia: Como nos velhos tempos!

Amanda: Eu to chegando!

Eu: Eu também!

Já era tarde, nós tínhamos aula amanhã cedo e eu nem sequer havia avisado minha mãe, mas tava pouco me fodendo.

– Você pode me fazer um favor? – pedi ao Gabriel. – Pode me levar até a casa de Leticia?

***

Toquei o interfone da casa de Leticia e assim que ela abriu o portão, acompanhada de Amanda, acenei para Gabriel que ligou o carro e foi embora. Eu tenho um sério problema em sentir que o mundo perde a graça quando o Gabriel se vai. Isso precisa mudar urgentemente.

Abracei fortemente as duas e assim que pisamos dentro da casa, Amanda disse o que eu já esperava que ela diria:

– Esse é o carro do Henrique.

– Sim. – respondi me sentando sobre a pia da cozinha. Aquele era meu lugar preferido da casa inteirinha da Leticia. Nós já passamos muitas noites em claro conversando e comendo besteiras naquele cômodo.

– Então foi o Gabriel quem te trouxe. – afirmou Amanda.

– Como você sabe? – perguntou Leticia à Amanda.

– Porque ela estava no bar com ele. – respondi.

– Pelo visto, vai ser uma looonga noite. – constatou Leticia indo até o armário, de onde tirou uma panela. Mas não era qualquer panela, ela minha panela preferida no mundo inteirinho. Era a panela em que ela fazia brigadeiro pra gente, que por sinal, é o melhor brigadeiro que já comi em toda minha vida. – Situações difíceis exigem medidas desesperadas.

Nós três temos um lema de que uma panela de brigadeiro deve ser comida por algum motivo. Não pode ser por qualquer coisa. Você não resolve comer brigadeiro simplesmente porque ta com fome, você faz isso porque está triste, porque está feliz, porque é a única coisa boa a se fazer numa noite de domingo. E é por isso que sempre que tínhamos um problema, nos reuníamos aqui e comíamos brigadeiro com bis de chocolate branco, enquanto desabafávamos até termos tirado todo o peso das costas. Era como se eu fosse embora de alma lavada e mil vezes mais leve.

Leticia fez o brigadeiro e assim que ele estava pronto, quebramos o bis de chocolate branco sobre ele, para então misturar e nos servir.

– Quem vai começar? – perguntou Leticia enquanto nos aconchegávamos no chão da cozinha.

– Eu, por favor! – implorei e comi uma colher da melhor invenção do ser humano, antes de começar a contar que... – Eu fiquei com o Gustavo.

– O Gustavo da Carol? – indagou Leticia perplexa.

– Sim! Mas eles terminaram.

– Ah, agora ta explicado o porque de eu não ver eles mais juntos. Só que puta que pariu, Isabelle! É a Carol!

– Eu sei!

– Eu to muito confusa... – disse Amanda. – Eu perguntei hoje pro Gabriel de vocês e ele afirmou que vocês são só amigos.

– E somos! – respondi. – O que aconteceu é que quando o relacionamento do Gustavo e da Carol começou a dar problema, o Gustavo me procurou pra conversar porque ele não queria encher a cabeça dos meninos e eu dei muito apoio pra ele. Aí quando eles terminaram, eu fui a primeira pessoa pra quem ele contou. E eu fiquei preocupada com ele, sabe? Porque foi ele quem terminou, mas ele amava muito a Carol e eles passaram muito tempo juntos! Então nesses últimos dias a gente vivia saindo pra fazer qualquer coisa, nem que fosse dar uma voltinha, pra ocupar a mente dele. E acho que acabamos nos aproximando mais do que já éramos próximos.

“Quando eu e o Gustavo nos conhecemos, eu achei ele uma gracinha, tanto é que comentei com a Leticia. E sim, eu ainda acho, mas mesmo que a gente sempre tenha se dado muito bem, não se passava pela minha cabeça ficar com ele de verdade algum dia. Só que ele me ligou hoje me chamando pra ir pro bar que ele e os meninos sempre vão toda quinta-feira e eu fui de boa. Nós conversamos, tomamos umas cervejas — sendo que eu nem gosto de cerveja, mas era a melhor opção lá – e tava muito legal, sabe? Aí quando tava quase dando meia noite, resolvemos ir pra algum lugar comer alguma coisa pra depois ir embora, já que temos aula amanhã.”

“O Gustavo disse que sempre anda com um taxista amigo dele e dos meninos, aí nós pagamos a conta e atravessamos a rua pra ele poder ligar pro cara, porque no bar tava muito barulho. Só que o cara tava fazendo uma corrida e ia demorar um pouco, então começamos a conversar e de repente... Aconteceu!”

– Conta esse “aconteceu” direito! – ordenou Leticia, fazendo aspas com as mãos ao dizer aconteceu.

– Com detalhes! – completou Amanda e eu me lembrei de como tudo havia começado, que foi por culpa dela.

“Nós atravessamos a rua e ficamos perto do carro que reconheci ser de Henrique. Dei uma última olhada de volta para a frente do bar e novamente vi Gabriel abraçado com Amanda, rindo de alguma coisa junto com toda sua turma de amigos. Nem parecia o mesmo cara que me fez passar noites e noites em claro, me lembrando de quando o vi deitado em uma maca de hospital, há duas semanas.

Ali ele parecia apenas o Gabriel Fornazier de quem tanto falam. O cara popular, com alguma garota bem bonita e tão popular quanto – que no caso é Amanda –, tomando uma cerveja sem se importar se acordaria as 6h no dia seguinte, com a galera da faculdade que é muito mais legal que qualquer pirralhozinho do colégio que tenta entrosar com ele. Aliás, ali ele parecia muito mais que também alguém do colégio, ele parecia de fato o cara inatingível, que deve comer muita mina. Parecia um cara muito diferente daquele que eu conheço e senti um mal estar ao me dar conta disso.

Ele virou o resto de bebida que havia em seu copo e estendeu para um cara mais velho que apareceu trazendo dois litrões de Brahma e servia todo mundo da roda. O cara serviu o copo dele e serviu o de Amanda, que virou para Gabriel e disse algo que o fez rir. Senti uma ardência no fundo dos olhos e precisei piscar algumas vezes para consegui controlar a vontade que me dá de chorar ao ver Amanda com o Gabriel, porque eu não tenho direito de falar nada. Eu mesma acabei com tudo que existia entre a gente e mesmo que Amanda tenha jurado que nunca mais ficaria com ele, eu também havia prometido e não cumpri. Eu não tenho moral alguma pra falar dela. Só que dói.

Amanda colocou o copo sobre uma mesa ao seu lado e abraçou o pescoço de Gabriel, para então o beijar. Gabriel chegou a derrubar um pouco de sua cerveja, parecendo focado demais no que estava fazendo. E foi só quando vi sua mão deslizar para dentro do bolso da calça de Amanda e apertar sua bunda, que resolvi que não queria mais assistir aquilo. Olhei de volta para Gustavo que desligou o telefone a seguir e avisou que o taxista demoraria um pouco.”

Decidi que era melhor não contar essa parte por todos os motivos óbvios e comecei a história da parte em que realmente importava:

“Eu encostei no carro de Henrique e Gustavo fez o mesmo ao meu lado.

– Você já teve a sensação de que não conhece alguém de verdade? Ou que existem duas pessoas da mesma. Uma que ela é com você e uma que é com o restante do mundo? – perguntei.

– Acho que na real todo mundo é assim. Somos uma pessoa com aqueles que não conhecemos e outra com quem são próximos de nós de verdade. É basicamente que não somos os mesmos com a visita de casa e com os nossos melhores amigos, entende?

– Sim, mas não é bem disso que estou falando. – disse olhando rapidamente para Gabriel que agora dava um gole em sua cerveja. – É como se essa pessoa fosse uma exclusivamente com você, que se difere totalmente do que dizem pra você que essa pessoa é.

– Estamos falando de um cara em especifico. – deduziu Gustavo.

– Estamos. – concordei sorrindo sem graça.

– Bom, ele pode ser um tipo de pessoa exclusivamente com você, porque se sente a vontade pra ser totalmente ele mesmo contigo, de um jeito que não consegue ser com o restante das pessoas. Ou... Ele pode estar apenas fingindo ser alguém que não é.

– O meu medo é e sempre foi descobrir que é a segunda opção. – admiti.

– Quem é esse cara? – indagou Gustavo.

– Apenas um cara com quem eu ficava, mas já acabou. Acho que é melhor assim.

– To me sentindo meio mal agora. – confessou Gustavo. – Fico enchendo sua cabeça com meus problemas e me esqueço de que você também tem os seus.

– Não, Guga, tudo bem. Tudo isso me distrai. E como eu disse, já acabou, eu não teria sequer o que conversar sobre isso.

Ele assentiu e ficamos em silêncio por um tempo, pensando, até que ele soltou uma pergunta que estranhei:

– Qual é o seu tipo de cara?

– Como assim? – perguntei sem entender.

– Eu sei que você ficou com o Arthur por um longo tempo e ele é o tipo de cara que parece ser bem romântico, atencioso e preocupado contigo. Mas depois disso só sei que você ficou com o Gabriel e o Bruno, por exemplo, que são completamente o oposto do Arthur.

Eu fiquei sem saber o que responder. Nunca tinham me feito essa pergunta. Eu tenho um tipo de cara? Porque ele ta certo, o Arthur e o Gabriel são tão opostos e eu me apaixonei pelos dois.

– Não sei. – respondi com sinceridade. – Acho que não tenho exatamente um tipo de cara. Não posso dizer que gosto de caras românticos ou que não sejam nada melosos, desse jeito ou daquele. Acho que no final das contas meu tipo de cara é aquele com quem eu me sinta bem. Com quem eu seja eu mesma, ele seja ele mesmo, sem que eu fique com neuras como não me achar boa o suficiente pro cara ou que a gente não vai dar certo em certas coisas.

– Isso me parece muito idealização e não realidade. – contestou Gustavo. – Fala sério, você nunca gostou de um cara de verdade, a ponto de ficar preocupada com sua própria aparência ou de parecer legal perto dos amigos dele?

– Sim. – confessei, me lembrando das inúmeras vezes que me senti assim com o Gabriel.

– E você não gostava dele de verdade?

– Gostava.

– Então esse não é o seu tipo de cara. Esse é o cara perfeito com quem você gostaria de ter um relacionamento. – disse Gustavo. – Pense melhor, qual é o seu tipo de cara?

Eu parei pra pensar e de repente, me vi pensando em todas as coisas em comum que eu gostava em Arthur e Gabriel. Aqueles caras tão diferentes, que me conquistaram da mesma forma. Haviam coisas em comum, muitas coisas, todas as coisas que eram a exata resposta para aquela pergunta.

– O tipo de cara que me faça rir. – comecei a dizer e Gustavo sorriu, como quem concordava que agora eu estava respondendo certo. – O cara que seja divertido espontaneamente, que faça piadas que podem ser consideradas idiotas pra qualquer outra pessoa, mas que consiga fazer com que eu ria e que faça meus dias mais divertidos de alguma forma. Eu definitivamente gosto de caras engraçados! E precisa ter um equilíbrio entre o romantismo e a safadeza, porque sim, toda garota ama um cara que demonstre que goste dela de verdade e que se importa, mas eu adoro um joguinho de sedução e adoro fazer sexo... – disse me sentindo meio constrangida, mas Gustavo riu.

– Quem não gosta? – ele perguntou retoricamente e eu concordei.

– Adoro sentir que o cara me quer, sabe? Me quer de verdade. Gosto de corpo pressionado na parede, gosto de pegada firme, de baixaria sussurrada no ouvido, quando o cara sabe o que diz e o que faz. Só que pra tudo isso tem momento e detesto quando eles não entendem isso.

“E preciso que o cara entenda meu jeito. Que eu vivo com a cabeça no mundo da lua e que me importo demais com as pessoas e as coisas, que tudo pra mim é filosofia e literatura, e que não ache isso ridículo. Porque sim, eu sempre vou ter perguntas para as quais nem sequer sei se existem respostas, mas essa sou eu. Alguém que entenda que estou sempre refletindo sobre o mundo ao meu redor e principalmente, principalmente mesmo, alguém que não ache estranho minhas metáforas”.

– Elas são seu charme! – exclamou Gustavo.

– Que charme? – perguntei sorrindo sem graça. – Quem me dera ter charme.

– Você não tem ideia do quão bonita é, né? E do quanto todas essas coisas que você precisa que um cara aceite em você, não devem ser aceitadas, devem ser justamente aquilo que eles acham de mais encantador em você, porque é isso que te torna incrível. Você é tão doce, tão carinhosa e amorosa, tão... Única, sabe? Um cara capaz de te fazer rir é o mínimo que você merecia.

Eu sorri constrangida e ao mesmo tempo tão encantada, que olhei pra ele e de repente, eu senti vontade de beijar Gustavo. Mas quando ele me olhou de volta, eu me senti muito mais constrangida que antes. Só que alguma coisa na forma com que ele me olhou, me fez saber que ele estava pensando na mesma coisa. Principalmente quando nós começamos a rir e ele chutou uma pedrinha no chão, parecendo sem graça. E eu senti minhas bochechas queimarem de tanta vergonha, como se de repente, ali com ele, eu me tornasse de novo uma garotinha de 14 anos.

Olhei para ele disposta a dizer alguma coisa que acabasse com aquele silêncio e clima constrangedor antes que eu saísse correndo, mas no momento em que virei minha cabeça, Gustavo puxou meu rosto pro seu e me beijou. Ele me pegou tão de surpresa, que eu fiquei meio estática por alguns segundos. Acho que ele deve ter tirado coragem do fundo da alma e eu agradeci mentalmente, porque céus, no instante em que correspondi, eu não queria mais parar.

Gustavo puxou meu corpo para frente do seu e se encostou melhor no carro atrás de si. Ele me segurou com uma firmeza, que não se parecia muito com a imagem que temos dele de cara tímido e de repente, enquanto enroscava minha mão em seu cabelo e descobria que seus cachos são muito mais macios do que já parecem, me peguei pensando que talvez Gustavo tivesse esse lado que não conheço. O equilíbrio perfeito da balança.

Eu estava tão envolvida, que me assustei ao ouvir uma buzina do nosso lado. Nos soltamos e percebi que era um taxi. Com certeza devia ser o taxista que Gustavo chamou e eu desesperei, porque não queria ir embora. Não mais. Mesmo que ainda fossemos comer em algum lugar antes que eu fosse para casa, seria difícil para que a gente ficasse de novo. Restaurantes e lanchonetes não são os locais mais apropriados pra ficar se agarrando com alguém. E então, não sei o que diabos se passou pela minha cabeça, mas quando percebi já havia lançado a proposta:

– A gente pode ir lá pra casa, se você quiser. Podemos pedir uma pizza pra comer, é mais fácil, não sei.

No instante em que calei quis me dar um soco na cara. Mais fácil? Mais fácil pedir uma pizza que vai demorar quase 1 hora pra chegar do que ir em algum lugar e comer na hora? Queria enfiar minha cabeça num buraco.

– Sua mãe não vai achar ruim? – perguntou Gustavo. – Porque já ta tarde e ela nem me conhece!

Eu não tinha pensado nisso. Não tinha pensado em nada pra falar a verdade. E acho que Gustavo percebeu pela minha cara, mas me surpreendi com o que ele disse.

– Podemos ir pra minha, porque aí não atrapalhamos sua mãe e ela não fica brava contigo. Minha casa é grande, meus pais nem vão notar a gente lá. – sugeriu Gustavo. – Isso se você puder e quiser também, claro.

– Eu adoraria! – respondi sorrindo.

Quando nós entramos no taxi, Gustavo cumprimentou o motorista pelo nome e me apresentou pra ele. O cara me olhou meio confuso, como quem se perguntava “por que ele ta indo embora com uma garota que não é a namorada dele” e foi nesse momento que tive um choque de realidade. A Carol! Caralho, eu to indo embora com o Gustavo, que é o Gustavo, mas também é o ex da Carol, que é minha amiga! Comecei a ter um surto interno e minha cara não devia estar muito boa, porque Gustavo perguntou se estava tudo bem. Eu assenti e tentei sorrir, então ele me beijou de novo ali dentro do carro mesmo e eu esqueci tudo no que estava pensando.

Ao chegarmos na casa de Gustavo, ele fez questão de pagar o taxi. Eu senti meu estomago se revirar ao passarmos pelo portão e eu estar de volta àquela casa de dois andares, onde estive com Gabriel pela primeira vez depois de termos ficado na festa de Samuel, pela primeira vez. A primeira vez em que ficamos bêbados juntos, jogando Sueca. A primeira vez em que confessamos coisas, em que ele me contou sobre Alice. A primeira vez em que ele me levou embora para casa e assistimos ao nascer do sol. A primeira vez que demos um beijo de verdade, sem ser um beijo entre dois estranhos em uma festa qualquer. Lá estava eu no início de tudo.

Entramos na casa e assim como na primeira vez que estivera ali com Gabriel, fiquei embasbacada. Me lembro de Gabriel contar que a mãe de Gustavo é arquiteta e me lembro de pensar que ela era uma excelente profissional e de fato é.

– Foi sua mãe que projetou tudo? – perguntei enquanto passávamos pela sala de estar.

– Foi sim. – respondeu Gustavo. – Gostou?

– Muito! É tudo muito lindo!

– Ela projetou a casa do Gabriel também. A nossa não é tão grande quanto a dele, então acho que dava pra pensar em mais coisas. Acho a casa dele incrível!

– Sua mãe é definitivamente ótima no que faz! – elogiei enquanto o seguia.

Nós começamos a subir uma escada que nos levaria ao segundo andar e me perguntei onde estávamos indo. Gustavo pareceu ter lido meus pensamentos, porque explicou logo em seguida.

– Nós vamos no meu quarto pra eu colocar meu celular pra carregar e ligarmos na pizzaria. – ele disse enquanto passávamos por um corredor cheio de portas e quadros e uns móveis que deixavam tudo esplêndido demais. – Tem uma pizzaria muito boa aqui perto, que no site deles tem o cardápio.

Gustavo abriu uma porta e chegamos ao seu quarto, que era totalmente a cara dele. As paredes eram claras e havia algo tampado por uma enorme cortina cinza, que eu deduzi ser uma janela muito grande ou uma sacada. Havia um guarda-roupa embutido na parede com muitas e muitas portas. A escrivaninha que ocupava uma das paredes era realmente enorme, com seus materiais dispostos sobre a mesa, indicando que ele deveria ter estudado antes de sair. Haviam prateleiras logo acima, guardando inúmeros livros, perfeitamente organizados. Notei inclusive os livros e apostilas do colégio em ordem alfabética.

Ele tinha uma coleção muito grande de coisas do Star Wars e percebi que também gostava muito de videogame, visto a quantidade de jogos que avistei e que havia mais de um aparelho abaixo da televisão. Senti vontade de visitar o quarto de Bruno, pra voltar a ter a imagem certa dos meninos. No quarto de Gabriel e Gustavo não tem roupas espalhadas pelo chão, ou pratos e copos de comida em cima dos móveis, nem nada bagunçado. Essa não é a imagem de quarto de adolescentes que tenho na cabeça.

– Você gosta mesmo de Star Wars, né? – perguntei olhando a coleção de bonecos que ele tinha numa prateleira.

– É um vicio meio ridículo, mas gosto sim. – ele respondeu coçando a cabeça.

– Não é ridículo, é legal. Eu escrevo em diários e você acha algo assim ridículo?

Nós dois rimos e percebi que a porta do quarto estava fechada. Senti um misto de nervosismo com ansiedade.

– Fica a vontade, ta? – ele disse enquanto colocava seu celular para carregar. Eu vou abrir o site da pizzaria pra você ver o cardápio, porque aí você escolhe a pizza que preferir.

– Pode escolher qualquer uma, Gustavo. – respondi sem querer dar trabalho. Mesmo assim ele se direcionou até a escrivaninha e apertou o botão de ligar o notebook, sem sequer sentar.

– Não, eu como qualquer coisa e eu não sei do que você gosta. – ele insistiu se encostando na escrivaninha, de frente para mim. Ele parecia nervoso, provavelmente pensando no mesmo que eu: O que faríamos nessa quase 1 hora em que esperaríamos essa pizza chegar, dentro desse quarto?

A resposta é tão óbvia que não sei porque ainda estamos insistindo em usar essa pizza como desculpa. Respirei fundo e decidi que era minha hora de tirar coragem do fundo da alma. Me aproximei dele devagar e parei bem em frente ao mesmo, com apenas centímetros de distância. Olho no olho e nem precisei tomar atitude, nós dois nos beijamos.

Enquanto nos beijávamos pude ouvir o barulho do Windows se iniciando, mas o que aconteceu foi que Gustavo trocou nossas posições e empurrou o notebook com a mão para trás, para que pudesse me colocar sobre a escrivaninha. Abracei seu quadril com as pernas e ele apertou minha coxa, fazendo com que eu amaldiçoasse minha ideia de sair de calça. Ele parou de me beijar para começar uma trilha de beijos que começou no meu queixo e parou no meu pescoço, e sem atrapalhá-lo, comecei a desabotoar um por um dos botões de sua camisa xadrez.

Joguei a camisa dele no chão e quando o ajudei a tirar minha blusa, jogamos ela pro lado e ela caiu em cima de algo de vidro que estava na escrivaninha, fazendo muito barulho. Levantei a blusa depressa para ver o que era, com medo de ter quebrado qualquer coisa do quarto de Gustavo e me deparei com um porta-retratos de vidro, com uma foto de Gustavo e Carol. Senti a pior sensação do mundo naquele momento: remorso.

Imaginei quantas inúmeras vezes os dois devem ter feito sexo nesse quarto e como Carol deveria conhecer cada detalhe não somente desse cômodo inteiro, como da casa. Como ela deveria conhecer cada peça da coleção de Gustavo e quantas vezes não pegou um de seus lightsaber para brincar. Imaginei quantas pizzas eles não comeram em dias de tédio e de quantas piadinhas internas não riram. Imaginei quantas coisas não viveram juntos e só não chorei, por pura vergonha.

– Me desculpa. – foi tudo que precisei dizer para que Gustavo entendesse que eu não conseguiria continuar. Ele me entregou minha blusa de volta e me ajudou a vesti-la novamente, sorrindo de modo a querer me tranquilizar.

– Eu quem peço desculpa por ter ido tão rápido com tudo isso. – ele pediu assim que eu já estava vestida novamente.

– Fui eu quem sugeri irmos pra casa de alguém e fui eu quem te beijei agora, você não tem que se desculpar, Gustavo. Nós não fomos rápido demais, porque não é como se fossemos dois estranhos que acabaram de se conhecer, é apenas como se...

– Fossemos dois amigos que só agora teve coragem de fazer isso. – continuou Gustavo e eu assenti em concordância.

– Nós só fomos muito rápido em relação ao seu término. Eu não sei sequer como vou contar pra Carol que isso aconteceu, imagina então contar que nós ficamos e transamos na mesma noite.

– Não se preocupa com isso, eu vou conversar com ela.

– Não, eu mesma falo! – contestei. – Ela precisa ouvir isso da minha boca! Ela é minha amiga!

– Fui eu quem te beijei primeiro, Isa.

– E eu correspondi!

– Ela não vai ficar com raiva de você, acredite em mim. – garantiu Gustavo. – Mas ela ficaria de mim, por ter estado com ela por tanto tempo e não ter a capacidade de conversar sobre isso, porque vai parecer que eu já tinha sentimentos por você quando ainda estava com ela. Então eu falo com ela e depois você fala, pode ser?

– Ta bom. – concordei.

– Você ainda quer comer aquela pizza?

– Acho melhor eu ir pra casa.”

Contei tudo, deixando de lado apenas a parte em que o convenci de que minha mãe me buscaria e ao invés disso liguei para Gabriel me buscar.

– To de cara, Isabelle. – disse Leticia parecendo bastante perplexa.

– Então você teria transado com ele se não fosse pela Carol? – indagou Amanda.

– Teria. – confessei. – Eu não queria ter parado, tipo não mesmo.

– O que você vai fazer se ele falar com a Carol e “ficar tudo bem pra ela?” – perguntou Leticia fazendo aspas com a mão. – Porque né, não da pra ficar totalmente bem com uma situação assim. Mas e se ele te procurar querendo ficar contigo de novo?

– Eu não tinha pensado nisso. – respondi. – Puta merda! Quer dizer, eu não importaria de ficar com ele de novo, mas...

Tem o Gabriel, pensei. Só que não poderia dizer isso em voz alta.

Acho que aí sim ele não me perdoaria, mas não sei até que ponto devo me preocupar com isso, uma vez que estou decidida a nunca mais ficar com ele de novo. Eu não posso me privar de fazer qualquer coisa, principalmente seguir com a minha vida, só porque isso comprovaria o ponto final que to colocando nessa história. Porque se for assim, talvez eu não tenha colocado ponto final algum. Só esteja fingindo pra mim mesma que coloquei.

– Mas? – perguntou Amanda despertando-me de meus pensamentos e me trazendo de volta pra conversa.

– Eu vou ficar paranoica achando que a Carol me odeia internamente e não assume porque ela é a pessoa mais legal do universo. – disse. Não era mentira, mas não era o fator principal.

– É, isso é bem possível. – concordou Leticia.

– Mas me responde aqui rapidinho, por que você ligou justo pro Gabriel te buscar? – indagou Amanda. É, pelo visto deixar isso de fora da história não adiantou em nada. Elas haviam me visto chegando com ele.

– Porque ele é possivelmente meu melhor amigo nos últimos tempos. – respondi.

Foi tão simples pensar nessa resposta que de repente comecei a pensar no quanto isso é verdade. Nos últimos tempos me afastei de todos os meus amigos e Gabriel tem sido tudo pra mim. A pessoa com quem passo todos os meus dias e todos os meus finais de semana, com quem rio e quem me ouve reclamar sobre a vida. Quem me escuta e me aconselha. Quem enche meu copo de álcool, mas se certifica de que eu vou chegar bem em casa e que eu vou ficar bem. Quem se preocupa comigo.

Puta merda, eu sou tão apaixonada por esse cara!

– Você sabia que empatou uma foda? – perguntou Amanda parecendo frustrada e essa pergunta, nesse exato momento, me deixou muito irritada. Esqueci completamente o que havia pensado no bar sobre não ter moral para julgá-la.

– Você ia transar com ele? Você por acaso se lembra do acordo de “nunca mais ficar com ele” que fizemos? – provoquei.

– Ia ser só uma transa, não é nenhum casamento não. – ironizou Amanda. – Eu aposto que você tem curiosidade pra saber como ele é de cama.

Eu juro que por muito pouco, muito pouco mesmo, eu não respondi: “Não tenho curiosidade nenhuma, porque eu transo com ele toda semana”. Só não o fiz porque graças a deus, Leticia se intrometeu e nos chamou a atenção.

– Lá vai vocês agir feito duas crianças brigando pelo mesmo brinquedo. – disse Leticia. – Aliás, eu tenho uma pergunta muito séria pra fazer e quero uma resposta sincera. Vocês gostam do Gabriel?

Eu prendi minha respiração involuntariamente ao ouvir aquela pergunta. Primeiro porque eu não sabia o que responder, depois porque tinha medo da resposta de Amanda. Eu diria que sim e tiraria um pouco do peso que venho carregando nas costas de tantas mentiras e segredos acumulados, mesmo que isso me custasse uma bronca? Mas e se Amanda também dissesse que sim? Eu impediria milha melhor amiga de tentar ficar com o cara que ela gosta! Mas aí que ta, se eu disser que não e Amanda dizer que sim, eu vou estar dando carta branca pra ela ir atrás dele e... Meu. Deus. Do. Céu. Eu não to preparada pra isso!

– Sim. – respondeu Amanda fazendo com que eu soltasse a respiração de tão surpresa que fiquei com sua sinceridade. Eu não esperava que ela fosse admitir. E de repente percebi que as duas estavam olhando para mim, esperando que eu dissesse qualquer coisa. Mas eu estava com as palavras entaladas na garganta, nada saía.

Abrir mão de vez do Gabriel ou não? Era essa a questão com a qual eu havia me esbarrado. Não era uma simples pergunta.

– Sim. – respondi, surpresa comigo mesma.

Tudo que se ouvia a seguir era um silêncio que deixava o clima nitidamente tenso. Nós três olhávamos uma pra cara da outra sem saber ao certo o que dizer. Quem acabou tomando a iniciativa foi Leticia, que não conseguiu disfarçar sua frustração.

– Eu juro que não acredito que as duas estejam afim do mesmo fucking cara. E o pior de tudo: que esse cara seja o Gabriel. O Gabriel Fornazier.

– Ele é um cara legal, Leticia. – contestou Amanda.

– Ele pode ser um cara legal, mas ele não presta! – rebateu Leticia. – Não adianta ele ser a melhor pessoa do universo, se for pra fazer alguma de vocês duas sofrerem. Aliás, o que vocês pretendem fazer em relação a isso?

– Isso o que?

– Se você não percebeu, Amanda, você ficar com o Gabriel vai machucar a Isabelle e vice-versa.

– Nós conversamos com ele e ele decide com quem das duas ele quer ficar. – sugeriu Amanda.

– Eu juro que tem hora que minha vontade é enfiar um soco no meio desse teu nariz arrebitado. respondeu Leticia.

– Tudo bem. – disse finalmente me pronunciando. As duas olharam pra mim sem entender. – Tudo bem, Amanda. Você pode ficar com ele de boa, eu não me importo, sério mesmo. Na verdade o que eu sinto por ele não é nada demais, sabe? É só que nos tornamos muito amigos e eu acabei confundindo as coisas. Eu tenho certeza que é so algo com o que eu cismei e que vou esquecer rapidinho. – menti.

– Isabelle... – Leticia tentou me interromper, mas prossegui.

– Vocês tem tudo a ver um com o outro... Vocês dois são populares e tem os mesmos amigos e gostam de fazer as mesmas coisas. Vocês dois são lindos e fala sério, vocês iam parar aquele colégio! – disse sorrindo, mas eu nunca tive que fazer tanta força pra não desabar em um choro. – Imagina como seriam as fofocas pelos corredores sobre Gabriel Fornazier e Amanda Bonfim juntos... Ia ser... Épico!

Amanda sorriu para mim e pude ver seus olhos se encherem de lágrimas. Acreditei que era por tudo que eu estava dizendo e fazendo por ela, mas depois de sete anos, você percebe quando sua melhor amiga não ta bem. E ela não estava. Ficou evidente no que ela disse a seguir.

– Ele não gosta de mim. – disse Amanda baixinho, olhando para o chão.

– Como você sabe disso se nunca se arriscou? – perguntei e não acreditei que eu estivesse mesmo prestes a dizer o que eu diria. – Você precisa tentar. Ele não te procurou hoje pra ir no bar com ele? E vocês já não ficaram outras vezes? Isso significa pelo menos que ele gosta de ficar contigo. Vocês podem muito bem começar a ficar e acabarem namorando.

Eu quase não consegui terminar aquela ultima frase. Minha voz foi diminuindo a medida que minha vontade de chorar aumentava. Mas quando Amanda se deitou no meu colo e em silêncio, chorou baixinho, eu me lembrei de alguns valores que carrego comigo. Uma amizade vem sempre antes de um cara. Não importa o quanto eu gostasse de Gabriel, sempre existirá um próximo cara e uma próxima vez em que terei meu coração partido. Mas não existirá uma outra amiga, pra fazer por mim tudo que Amanda já fez.

Definitivamente não seria fácil sacrificar minha própria felicidade pela dela, mas eu precisava fazer isso. Só eu sei quantas vezes já deitei a cabeça no travesseiro e chorei por Gabriel Fornazier. E só eu sei o quanto dói. Eu não quero ser feliz se isso for fazer com que Amanda passe por essas coisas.

– Ele não olha pra mim daquele jeito... – disse Amanda de repente.

– De que jeito? – perguntei.

– Do jeito que ele olha pra você.

Um nó se formou na minha garganta naquele momento e meu coração acelerou de uma forma que eu conseguia sentir meus batimentos cardíacos, sem precisar pressionar meus dedos em meu pulso ou em qualquer artéria. Nesse momento, eu não aguentei mais. As lágrimas se acumularam em meus olhos e caíram sobre o cabelo de Amanda, no qual eu mexia carinhosamente. Agradeci mentalmente por ela não conseguir ver meu rosto, mas Leticia podia, e eu conhecia o olhar direcionado a mim. Olhar de quem consegue me decifrar sem que eu precise dizer nada. Olhar de quem sabia que eu mentia ao diminuir meus sentimentos por ele. De quem sabia que eu estava abrindo mão da minha própria felicidade pela de outras pessoas, mais uma vez.

– Às vezes eu acho que ele gosta de você. – concluiu Amanda.

– O Gabriel não gosta de ninguém. – disse Leticia finalmente, com raiva nas palavras. Leticia sempre foi igual a mim, prefere que mecham com si mesma do que com seus melhores amigos. E Gabriel não mexeu com um de seus pontos fracos, mexeu com dois. – Nenhuma de vocês duas vai ficar com eles, estão me entendendo?

Amanda se levantou abruptamente pronta pra contestar, mas Leticia não permitiu. Prosseguiu como mãe que dá bronca no filho, dizendo pra ele não encostar no ferro de passar roupa porque sabe que ele vai se queimar. A criança não entende e se emburra, mas a mãe não faz por mal.

– Vocês duas são melhores amigas e não importa se o que você sente por ele é uma queda de um abismo... – ela disse apontando o dedo para Amanda e depois o direcionando para mim. – E a Isabelle uma quedinha mínima de um andar. Enquanto essa mínima quedinha existir, nenhuma das duas vai se envolver com ele. Estamos entendidas?

Eu assenti com a cabeça e Amanda fez o mesmo. Mas precisei limpar as lágrimas que escorriam pelo meu rosto enquanto eu finalmente entendia que acabou mesmo. Acabou de vez.

– Eu amo vocês. – disse Leticia desfazendo a pose ao perceber que tanto eu quanto Amanda chorávamos em silêncio. – Não existe só um cara no mundo e ainda temos tanto pra viver. Não vale a pena arriscar essa amizade por causa disso.

– Tudo bem. – disse Amanda limpando o rosto e abrindo um sorriso. – Amanhã é sexta-feira e nós vamos sair. Vamos pro centro e vamos conhecer vários gatinhos da faculdade. Amanhã eu vou transar com um cara da Medicina.

Sorri ao ouvi-la dizer aquilo. Era Amanda sendo Amanda, todo o otimismo que sempre foi fundamental pra minha vida. E de repente, lá estávamos nós em um abraço em grupo, me lembrando de como é a sensação de se sentir protegida e acolhida. Podia ser difícil o que viria a seguir, mas envolta nos braços das duas, de repente eu sentia que era capaz de encarar o mundo de frente. Apenas porque eu sabia que não faria isso sozinha. Eu nunca estarei sozinha.

Aquela noite eu pedi os fones de ouvido da Leticia emprestados e enquanto elas dormiam, passei a noite chorando ouvindo Oasis. Eu precisava chorar e colocar tudo que estava acumulado no meu peito pra fora, ou então não conseguiria sobreviver a manhã seguinte. Me lembro de que quando finalmente adormeci, os trechos de Stop Crying Your Heart Out ecoavam pela minha cabeça.

“Cause all of the stars have faded away, just try not to worry, you'll see them some day. Just take what you need and be on your way, and stop crying your heart out”.

***

Na sexta antes da aula, a mãe de Leticia me deixou em casa para que eu pudesse pegar meus materiais e trocar de roupa para ir à aula, mas acabei não indo. Quando entrei no meu quarto, me joguei sobre a cama e não senti mais vontade de levantar. Eu estava me sentindo exausta, tanto fisicamente quanto mentalmente. Eram apenas 6h da manhã e a noite quando eu finalmente consegui dormir, já havia passado das 4h. Eu precisava descansar.

E sinceramente, eu não estava preparada pra encarar tudo que me esperava. Não estava preparada para ver o Gabriel sem desabar em choro. Não estava preparada para ver Gustavo e encarar Carol. Então eu simplesmente me escondi do mundo embaixo de minhas cobertas, como se ali todos os meus problemas não pudessem me encontrar e eu estivesse protegida dentro do meu próprio casulo.

Quando encontrei minha mãe no almoço ela nem sequer comentou algo sobre eu não ter ido pro colégio. Na noite anterior quando fui pra Leticia, havia mandado uma mensagem pra ela dizendo que iria porque briguei com o Gabriel e não estava me sentindo bem. Não era verdade, mas era um motivo que ela entenderia. E eu agradeci por ela ter respeitado meu momento, porque nós não havíamos brigado, mas eu estava me sentindo muito pior que após qualquer briguinha, eu estava processando o término do relacionamento que nunca tivemos, mas que foi o envolvimento mais intenso que já tive com alguém.

Eu recebi muitas mensagens ao longo do dia. De Gustavo dizendo que havia conversado com Carol e garantindo que estava tudo bem, que ela não estava brava comigo. Mesmo assim, eu ainda me sentia mal e queria conversar com ela, só não sabia quando. Também recebi mensagem das meninas querendo saber se sairíamos mesmo a noite. Eu não estava nada animada, mas mesmo assim confirmei.

E de repente lá estava eu, com um cropped preto, um short jeans clarinho de cintura alta, botinha preta nos pés e apenas um kimono preto para me proteger do frio. Na porta da minha casa esperando o taxi em que Amanda e Leticia estavam indo me buscar, pensando no frio que eu passaria ao longo da noite e buscando animação em algum lugar dentro do meu ser, o qual eu ainda não havia encontrado.

Quando o taxi estacionou em frente minha casa, entrei dentro do mesmo e encontrei uma Amanda eufórica, como se a noite de ontem jamais tivesse acontecido. Já vestida em sua armadura de garota independente que não sofre por ninguém. Leticia apenas me recebeu com um sorriso cúmplice.

Nós fomos pro Centro Cívico e como sempre, as ruas estavam lotadas, mesmo que ainda estivesse cedo. Nós compramos bebida em um barzinho qualquer e ficamos conversando enquanto andávamos, porque de acordo com Amanda, ficar sentada dentro de algum lugar não nos faria conhecer ninguém. Vez ou outra ela topava com algum conhecido ou até começava a conversar com pessoas que nem conhecia, enquanto eu ficava quieta na minha. Acho que ela não entende que nem todo mundo é tão sociável e apta a fazer novas amizades quanto ela.

– Miga, minha mãe veio me encher o saco esses dias por causa da formatura. – disse Amanda enquanto saíamos de um barzinho onde havíamos comprado mais bebida. – Quando vocês vão nos dar uma resposta a respeito disso?

– A gente correu atrás de vários lugares pra ter várias opções e ver o que compensava mais em questão de orçamento, mas não conseguimos chegar em um consenso entre nós, então fica difícil. – expliquei guardando meu troco na pequena bolsa que carregava pendurada no ombro. – Tem gente que quer só a formatura, tem gente querendo pacote de viagem junto e tem coisas que a diretora não permite. Então chegamos a conclusão de que vamos pegar as melhores propostas que temos e apresentar para todas as turmas do terceiro ano, colocar em votação e será o que a maioria preferir. Apresentaremos tudo pra vocês antes das férias.

– Ta ficando caro? – indagou Leticia.

– A formatura por si só não, mas se formos viajar também aí o orçamento aumenta bastante.

– Eu queria viagem! – disse Amanda. – Viajar com o colégio é sempre a coisa mais divertida do universo e é nossa última chance pra fazer isso!

– Também queria. – admiti. – Mas to meio desanimada com tudo. Eu não to gostando de como as coisas estão sendo planejadas. Queria que fosse diferente.

– Lá vem as ideias de Isabelle Nemitz. – brincou Leticia. – Conte mais sobre isso.

– Queria que fosse uma mistura de formatura brasileira com formatura americana. – expliquei e elas ficaram me olhando com cara de quem não estava entendendo nada. – Eu queria que fizéssemos uma viagem, que tivéssemos a colação de grau e a festa, mas não queria que essas últimas duas coisas fossem na mesma noite, como costuma acontecer. Nos EUA, a colação é um momento de família, em que os pais vão lá prestigiar seus filhos e etc, depois acontece o PROM, que é o momento dos formandos. Queria que fosse assim, pra termos nosso próprio momento, sem adultos ou preocupação com os convidados e consequentemente, mais liberdade.

– Meu deus, eu adorei a ideia! – disse Amanda animada batendo palminhas.

– Mas teríamos um problema. – a interrompi. – Nem a diretora e nem os pais concordariam com a venda de bebidas alcoólicas. Nas formaturas tradicionais só é permitido porque os pais estão no local para vigiarem seus próprios filhos.

– A gente leva bebida escondido. Batizamos os ponches igualzinho os americanos fazem. – disse Leticia nos fazendo rir. – Mas sério, propõe essa ideia, mesmo que leve um não. Seria muito legal.

– Irei fazer isso. – prometi.

Amanda avistou uma amiga sua do outro lado da rua e pediu para que atravessássemos. Peguei meu celular para olhar as horas enquanto esperávamos o fluxo de carros acabar e quando o fiz, ele praticamente se jogou da minha mão no chão. E o pior de tudo, direto para uma poça de água. Eu juro, foi praticamente suicídio. E eu fiquei tão incrédula que apenas encarei o aparelho submerso em água, pensando que a vida só pode estar zoando com a minha cara.

Alguém se agachou na minha frente, pegou meu celular encharcado e se levantou, o estendendo em minha direção.

– Acho que isso é seu. – disse o rapaz que havia resgatado o Sr. Suicida. Dou todo amor e carinho pra ele desistir da vida assim. Foram mais de mil conto nessa coisa, nem minha mãe investe tudo isso em mim.

– Obrigada. – agradeci pegando o celular sem ao menos olhar direito para o garoto e tentei secar o aparelho em meu kimono.

– A técnica do pote de arroz já funcionou muito comigo. – ele disse me fazendo sorrir e então olhei para seu rosto. O cara era surpreendentemente lindo. Alguns fios dos cabelos castanhos escapavam por debaixo do boné virado para trás e eu fiquei encantada com os olhos azuis que me encaravam, tão bonitos quanto o sorriso dele.

– Geralmente não tenho muita sorte.

– Vamos ver... – disse o garoto procurando por algo nos bolsos. Ele tirou uma moeda de dentro do mesmo. – Se der cara, eu te pago uma cerveja e se der coroa, eu te pago duas.

Dei uma risada e ele jogou a moeda pra cima, a pegando em seguida e exibindo o resultado no dorso de sua mão. Deu cara.

– Olha só, deu cara! – ele disse animado. – Três cervejas!

Dei uma risada tão gostosa, que fez com que eu me sentisse bem perto dele.

– Você parece ser um cara legal, mas sabe o que é, minha mãe me ensinou a não aceitar bebidas de estranhos. – brinquei.

– Estranho? – ele perguntou apontando para si mesmo. – Eu não sou um estranho, sou o Vinícius, o cara que resgatou seu celular!

Vinícius estendeu a mão em minha direção enquanto sorria e eu a apertei, convencida a conhecê-lo de verdade.

– Eu sou Isabelle. – me apresentei.

– Então Isabelle, você prefere se sentar em um barzinho ou compramos bebida em algum lugar e ficamos por aqui mesmo?

– Acho que prefiro me manter no campo de visão das minhas amigas, que estão me vigiando do outro lado da rua. – respondi apontando para as duas, que acenaram. Tenho certeza de que elas nem perceberam que eu havia ficado para trás e quando perceberam, eu já estava conversando com ele, então não quiseram atrapalhar.

– Tudo bem, podemos pegar nesse bar aqui mesmo. – concordou Vinícius.

Nós entramos no bar e ele comprou duas cervejas, uma pra mim e uma pra ele. Depois voltamos pra calçada e procuramos por um lugar menos lotado para que pudéssemos conversar melhor.

– E então, o que você faz da vida? – perguntou Vinícius.

– Estudo, to terminando o Ensino Médio. E você?

– Faço faculdade de Engenharia.

– Olha só, um universitário! – exclamei. – Isso meio que faz com que eu me sinta ridícula.

– Fala sério, eu sou bixo. Isso sim é ser ridículo! Tenho que pagar cerveja pros meus veteranos e fazer tudo que eles mandam, sobrevivo a base de miojo e pizza e sinto que meu dinheiro não vai dar pra pagar as contas do fim do mês, que por acaso, ta logo aí.

– E mesmo assim ta me pagando uma cerveja. – observei.

– Antes pra você do que pra um monte de barbudo. – ele respondeu me fazendo rir. – Já sabe o que quer fazer na faculdade?

– Psicologia.

– E já tem alguma noção de qual área quer seguir dentro da psicologia? Hospitalar, escolar, organizacional, social?

Olhei para ele meio surpresa. Primeiro pela pergunta, depois porque ele parecia entender um pouco sobre o assunto.

– Sabe que é a primeira vez que me fazem essa pergunta? – contei.

– Deixa eu adivinhar, geralmente perguntam se você gosta de dar conselhos ou ler as pessoas? – deduziu Vinícius.

– Exatamente, os típicos estereótipos. – afirmei sorrindo. – Mas sempre me interessei pela psicologia social. Só que de uns tempos pra cá, tenho pesquisado bastante sobre a hospitalar.

– Por algum motivo específico?

– Uma pessoa que conheci. – respondi e automaticamente a imagem de Gabriel no hospital me veio à cabeça. – É uma área que não trata só de doenças psicológicas, sabe? Trata também do psicológico das pessoas durante o processo de alguma doença. Mas não sei se eu seria tão apta pra isso.

– Por que?

– Sou um pouco sensível demais. Trabalhar com pessoas com doenças como o câncer, por exemplo, é saber que posso perder qualquer um dos meus pacientes a qualquer momento e eu me sentiria muito abatida com isso.

– Mas em qualquer área da psicologia você corre esse risco, não? – contestou Vinícius. – Penso eu, que todas as pessoas que procuram por algum acompanhamento psicológico, estão sujeitas a piorarem de forma a chegarem numa situação mais grave, como a de um suicídio.

– Com certeza. – concordei. – Mas entende que trabalhando com psicologia social eu correria bem menos risco? Porque eu estaria trabalhando mais com problemas interpessoais, basicamente os problemas que todos os indivíduos enfrentam no cotidiano.

– Entendo.

– Mas eu quero deixar pra descobrir na faculdade, quando eu estiver realmente estudando sobre isso e ter um conhecimento maior sobre as áreas.

– Acho que qualquer que seja a área que você escolha, será uma área nobre. Se dedicar ao próximo, é algo muito bonito. – disse Vinícius me fazendo sorrir.

– Eu sempre disse pra mim mesma que não seria capaz de cursar Medicina, porque isso exige do profissional que ele viva em prol de sua carreira. Ele precisa passar toda sua vida estudando, porque a Medicina se reinventa a todo momento e afinal de contas, estamos falando de vidas. Além de ser necessário trabalhar muito e virar noites em plantões. É basicamente o mesmo que desistir da própria vida pela dos outros. Mas tenho pensado que talvez minha vida não seja muito diferente disso. Desde pequena sempre me preocupei muito com os outros e sempre tive a mania de colocar os outros em primeiro lugar. Foram inúmeras as vezes que sacrifiquei minha alegria pra ver alguém feliz.

– Existe um equilíbrio, sabe? Pra tudo. – disse Vinícius. – Penso que não seja necessário dedicar todo o seu ser, todo o seu tempo e toda sua vida a Medicina. Há a opção de você abrir um consultório, por exemplo, e trabalhar por conta própria.

– Mas quantas pessoas tem condições de abrir um consultório assim que sai da faculdade? Suponhamos que você entre na faculdade com 18 anos. Estipulo que você a termine com uns 26. E aí você começa a trabalhar até que consiga montar um consultório com uns 30, mas vai precisar se dedicar pra que ele seja bom e aí você só vai ter uma vida definitivamente estável com uns 32. E então é isso? Você começa a viver aos 32 anos? – indaguei. – Sem contar que não são todas as áreas que te permite trabalhar por conta própria. E se você ama o que faz, você se dedica de fato àquilo, talvez mais do que precise. Tenho dois amigos que os pais são ricos pra caralho e passam a noite fazendo plantão em hospital.

– Mas isso é uma escolha, sabe? É isso que to tentando dizer. – explicou Vinícius. – A pessoa pode passar por todo esse processo aí que você disse, mas se é o que ela quer. Se o que ela deseja é ter uma vida com muita grana e luxo. Se não, ninguém precisa começar a viver aos 32 anos. Dá pra passar uns perrengues aqui e ali, se for pra ainda ter a noite pra tomar uma cerveja com os amigos ou um vinho com a mulher. E vamos combinar que se o coitado de um médico passa perrengue, imagina um professor que ganha seus mil e pouco! Tudo na vida é escolha, nada é obrigação. E é a partir daí que também digo que você precisa pensar em até que ponto se colocar sempre em segundo lugar, é uma escolha saudável pra você ou algo que te faça bem.

– É aí que ta, eu não sei a resposta pra isso. – confessei. – Me colocar em segundo lugar pode ser algo que me faça mal, mas não o fazer, também pode fazer.

– Dê um exemplo.

– Tem um cara... – comecei a dizer e ele sorriu.

– Sempre tem um cara.

– Sempre. – concordei também sorrindo e prossegui. – Ele passou por muita coisa durante a vida dele e tem muitos problemas. Eu gosto muito dele, mas pra gente ficar junto, ele tem que ser prioridade na minha vida. Porque eu preciso estar o tempo todo pisando em ovos e posso perdê-lo a qualquer momento. E não no sentido de ele me deixar, no sentido de ele desistir da própria vida mesmo. Só que tudo isso me desgasta e foi justamente por isso que eu terminei com ele, porque não tava dando pra mim mais. Mas ficar sem ele é muito pior, me enlouquece! Tudo que eu faço é pensando nele e eu preciso me lembrar o tempo todo de que não posso voltar atrás, mas eu não acredito que sou capaz. E é então que eu percebo que colocar ele em primeiro lugar não tava me fazendo bem, mas o esquecer pra cuidar de mim também não ta!

– Mas essa é uma situação particular, Isabelle. É a exceção da regra.

– Por que? – perguntei.

– Porque nesse caso não se trata de escolha. O nome disso é amor e sobre o amor, não temos controle nenhum.

Notas finais
Vou começar a responder tudo que preciso responder agora. E é MUITA coisa! Paciência, meu povo de deus! HUAHAUAHA Ai gente, amo vocês, de coração. Obrigada por tudo!