Poltrona 19
43 Primeiro encontro
Notas iniciais
— Amor é uma palavra muito forte. – foi tudo que consegui responder.
— Todas as palavras são. – rebateu Vinícius. – Não é a toa que minha mãe sempre me disse pra tomar muito cuidado com o que digo.
— Acho que eu gosto da sua mãe.
— É, eu descobri que também gosto no dia em que percebi que a louça não se lava sozinha.
— Você tem sempre esse senso de humor?
— Se a gente não achar graça da vida, ela vai achar das nossas desgraças. – ele respondeu me fazendo sorrir. – Vamos pegar mais uma cerveja?
— Quer saber de uma coisa? Podíamos nos sentar em algum barzinho.
— Mas e suas amigas?
— Elas devem se preocupar comigo? – perguntei andando de costas, sorrindo divertida para ele.
— Não. – respondeu Vinícius retribuindo o sorriso.
— Então vamos.
Eu passei o resto da minha noite toda conversando com Vinícius, o que me fez agradecer ao universo por ter topado sair aquela noite com as meninas. Eu não imaginava que conheceria alguém tão legal quanto ele, numa noite qualquer, andando sem pretensões por uma avenida do Centro. Mas ainda bem que conheci.
Perdi totalmente a noção da hora, o que só percebi ao ser encontrada por Leticia e Amanda. Apresentei as duas para Vinícius, antes delas explicarem que só foram me avisar que iriam embora e queriam saber se eu iria com elas. Já havia passado das 3h da manhã e eu e Vinícius já havíamos tomado sete garrafas de cerveja juntos, mas eu não me sentia alcoolizada, me sentia apenas alegre. Por isso não queria ir embora e tinha certeza de que tinha o consentimento delas para ficar, levando em consideração o sorriso óbvio com o qual Amanda me encarava. Por isso acho que ela se sentiu meio decepcionada quando respondi:
— Eu vou com vocês. To sem celular, o meu estragou. – contei.
— Vocês vão de taxi? – indagou Vinícius. – Porque eu tenho carro, posso deixar vocês em casa.
As duas me olharam esperando que eu respondesse a pergunta.
— Não precisa ir embora só pra ter de levar a gente. – respondi. – E não quero incomodar.
— Eu vou embora de qualquer jeito depois que você for, não faço a mínima ideia de onde estão meus amigos. E não será incômodo, eu garanto.
Sendo assim, eu aceitei. Nós pagamos a conta e fomos até o carro dele, que estava estacionado ali perto. Assim que entramos no carro, ele ligou o som e deixou uma música tocando baixo, que reconheci ser Beatles. Sorri sozinha pensando que minha irmã gostaria muito dele.
Leticia iria dormir na casa de Amanda, então deixamos elas primeiro. Desci do carro para me despedir das duas e a primeira coisa que ouvi foi:
— Pega ele, pelo amor de deus. – suplicou Amanda.
— Ele é muito gato! – afirmou Leticia. – Investe nesse cara!
Tudo disfarçadamente, sussurrado entre abraços de despedida. Mulher é um bicho do capeta mesmo.
Após entrar no carro e passar meu endereço pra ele, me senti meio tensa. Eu queria beijá-lo, mas já sabia que isso seria constrangedor. Se ele tentasse algo, isso aconteceria na porta da minha casa, quando nos despediríamos. E aí seria aquele momento em que você olha pra pessoa e não sabe o que fazer. Meu estomago já tava se revirando só de imaginar. Eu odeio essa minha mania de sofrer for antecedência.
— Sabe o que eu tava pensando? – disse Vinícius quebrando o silêncio. – Que eu não vou ter como falar com você, já que seu celular estragou. Não sei se fico frustrado ou agradecido, porque foi graças a isso que te conheci.
— Podemos voltar aos tempos antigos. – brinquei. – Te passo o telefone da minha casa e você liga caso queira mesmo falar comigo.
— Eu juro que nem me lembro quando foi a última vez que liguei na casa de alguém.
— Nem eu. – confessei. – Mas não se preocupe, eu devo comprar um celular novo lovo. Não dá pra ficar sem.
— Não, isso vai ser divertido. To imaginando você ao lado do telefone, equilibrando o gancho entre a orelha e o ombro, brincando com aquele fiozinho enrolado, enquanto ri de alguma coisa idiota que eu disse pra tentar parecer legal e engraçado.
— Você sabia que esse tipo de telefone foi esquecido lá no século XX, porque já inventaram coisas mais modernas? – zombei e nós dois rimos.
— Me deixa! Imaginar assim deixa tudo mais engraçado, ta?
— Pior que eu fazia muito isso. – contei. – Ficava horas pendurada no telefone, conversando com minhas amigas. Hoje em dia esse é meu maior pavor.
— Por que agora conversar por telefone é tão assustador?
— Acho que porque perdemos esse hábito. Nos acostumamos tanto a conversar digitando que ouvir a voz de alguém parece exposição demais. Somos a geração da tendinite.
— Geração da tendinite. – repetiu Vinícius rindo. – Essa foi engraçada.
Nós entramos na rua da minha casa e ficamos em silêncio enquanto nos aproximávamos do meu destino.
— É aqui. – avisei apontando para meu portão.
Ele estacionou o carro e meu coração acelerou no mesmo instante. Abri minha bolsa com pressa e procurei por uma caneta que encontrei com facilidade. Puxei o braço de Vinícius sem nem falar nada e nele escrevi o número do telefone da minha casa, além do meu nome e sobrenome.
— Você poderia ter anotado no meu celular, sabe. – zombou Vinícius.
— Estou te dando opções. – expliquei.
— Opções?
— Se você estiver apenas bancando o cara legal comigo e na verdade não estiver afim de ver minha cara novamente depois de ir embora daqui, se nos esbarrarmos por aí algum dia você pode simplesmente fingir que esqueceu de anotar o número em algum lugar, dormiu e quando acordou tava borrado e ilegível, ou até mesmo que se esqueceu e tomou banho. Sei lá.
— Ok, minha vez. E se eu quiser, eu devo mesmo ligar? – questionou Vinícius.
— Por que está me perguntando isso?
— Porque eu realmente quero, mas eu não sei se vou estar simplesmente incomodando. Uma mensagem você visualiza e se não quiser, você não responde. Mas se um cara liga na sua casa, você não vai simplesmente desligar na cara dele.
— Por que não? Sério, eu faria isso numa boa. – brinquei e nós rimos.
Nós rimos enquanto olhávamos um pro outro e então aconteceu. Ele aproximou seu rosto do meu e me beijou. Não foi constrangedor como eu imaginei que seria, foi natural. E foi bom. Muito bom. Mesmo que eu sempre tenha achado desconfortável beijar dentro de carros, parecia que estávamos em sincronia.
Nós terminamos o beijo com um selinho. Peguei o boné de sua cabeça, coloquei na minha e desci do carro.
— Um dia você pega isso de volta. – disse apontando para o boné, sorri e fechei a porta do carro.
Assim que entrei em casa, me escorei na porta da sala e sorri feito uma idiota. É sempre tão boa essa sensação de conhecer alguém novo, aquele friozinho na barriga e todas as expectativas com as quais você se enche. Meus pensamentos foram interrompidos pelo telefone tocando. Achei muito estranho, porque ninguém liga na casa dos outros as quase 4h da manhã. Corri para atender meio preocupada.
— Alô?
— Talvez amanhã. – disse a voz do outro lado da linha e eu cheguei a encostar a cabeça na parede para rir. Era Vinícius.
— Você é maluco? – perguntei. – Olha as horas! Eu fiquei preocupada com essa merda de telefone tocando!
— E eu fiquei preocupado demais em você já ter perdido o interesse em mim amanhã de manhã. – ele rebateu.
— Me liga amanhã e aí você descobre.
— Não vou precisar te ligar, porque vamos sair.
— Ta me convidando pra um encontro, Vinícius?
— Talvez, Isabelle.
— Te vejo amanhã. – disse e desliguei o telefone.
Dessa vez eu sorri de verdade e foi nesse instante que ouvi o barulho do motor ligando e ele indo embora. Ele estava lá até agora. Andei até meu quarto e joguei minha bolsa em um canto qualquer. Por um breve momento parei em frente ao espelho e fiquei me encarando com aquele boné na cabeça, sem evitar pensar que pelo menos dessa vez, poderia dar certo.
Quando acordei na manhã seguinte, a primeira coisa que fiz foi tentar por um milagre fazer meu celular funcionar, mas não consegui. Dei graças a deus por ter como recuperar todos os meus arquivos que estavam nele, porque não queria perder minhas coisas. E sendo assim, tive de encarar a fera.
Bati na porta do quarto de minha mãe para avisar que estava entrando e a mesma estava deitada na cama mexendo no notebook. Me sentei ao seu lado e a olhei com minha melhor cara de anjinho. Ela me olhou de volta com a sobrancelha arqueada, voltou a atenção para a tela e disse:
— Não.
— Como assim? – rebati. – Você nem sabe o que eu vou dizer!
— Você vai pedir algo e a resposta é não.
— Ta, mas é uma coisa importante. Acontece que meu celular se suicidiou.
— Não acredito que você estragou seu telefone, Isabelle!
— Eu não fiz nada! Ele que pulou em direção a uma poça d'água. – expliquei forçando um sorriso de inocente e ela me olhou com cara de reprovação. – Mãe, você sabe que não dá pra ficar sem celular. Como é que você vai fazer pra falar comigo ou saber onde estou? Ou o que estou fazendo? Ou se estou bem? Eu ficarei inacessível!
— Você vai pegar meu cartão e não vai comprar nada além do celular, ta me ouvindo? – disse mamãe bastante séria. – Nada! Se comprar qualquer outra coisa eu te espanco! E acabou essa história de ficar saindo mais de uma vez por semana, porque dinheiro não ta caindo do céu.
— Anão, mãe!
— Quer ficar sem celular?
— Ta... – me rendi revirando os olhos e levantei da cama. Fui até a bolsa dela, peguei seu cartão e antes de sair do quarto, avisei: – Eu tenho um encontro hoje.
— Mas e o Gabriel? – ouvi ela gritar.
Eu e o Gabriel nunca mais vai acontecer, pensei. E a pior parte é que preciso aprender a conviver com ele como se fossemos os bons amigos que sempre fingimos para todos que somos. Como agora, por exemplo, em que tomei a decisão de ligar para a Carol e a chamar pra ir ao shopping comigo comprar o celular. Ainda preciso conversar com ela sobre o que aconteceu entre mim e Gustavo. O único problema é que sem celular, não tenho o número dela ou de qualquer pessoa que possa me passar. Apenas uma que sei o número de cor.
Peguei o telefone e disquei o número. Chamou algumas vezes até que a pessoa atendesse.
— Alô. – disse Gabriel.
— É a Isa. Você pode me passar o número da Carol?
— Por que você ta me ligando de um telefone fixo pra pedir o número da Carol?
— Porque eu estraguei meu celular. – expliquei.
Ouvi ele rindo do outro lado da linha e pensei que se tratava de eu ser tão estabanada, como ele sabe que sou. Mas estava errada.
— Você sabe meu número de cor. – observou Gabriel e eu senti minhas bochechas queimarem.
***
— Não é absurdo o preço que pagamos em um simples aparelho de celular? – comentei segurando em mãos o ultimo iPhone lançado pela Apple. – É só um celular, mas eles conseguiram desenvolver a ilusão de que nós precisamos desses aparelhos e não somente isso, mas que precisamos sempre do último a ser lançado. Como se eles melhorassem alguma bosta! É a obsessão mais fútil da nossa geração.
— Ela vai levar! – avisou Carol sorrindo para o atendente que me olhava como se eu fosse muito estranha.
Assim que ele se virou nós começamos a rir.
— Eu acho que ele estava prestes a te mandar tomar no cu por essa aula anti-capitalismo. – sussurrou Carol enquanto o seguíamos.
— Fala sério, com 2 mil reais eu bebo até morrer de cirrose, faço uma puta viagem, vou de boa a uns quatro shows, dá pra fazer muita coisa!
— Mas você precisa de um telefone, então para de reclamar.
Nós compramos meu celular e fomos para a praça de alimentação comer. Carol me ajudou a mudar meu chip do antigo celular para o novo e a configurá-lo, tão prestativa como sempre foi. A mesma Carol de sempre, sorridente e carinhosa, como se nada houvesse acontecido. Mas por algum motivo eu preferia que ela tivesse me xingado e me depreciado no instante em que me viu, assim eu me sentiria uma pessoa um pouco menos pior.
Olhei para ela pensando em uma forma de começar o assunto, mas não conseguia e nem tinha coragem. Só que ela parece ter lido meus pensamentos.
— Para com essa cara de sofrimento, pelo amor de deus. – pediu Carol. – Eu sei que nós estamos aqui pra conversar sobre o Gustavo.
Eu assenti sem graça e respirei fundo.
— Eu queria te esclarecer algumas coisas. – expliquei.
— Isa, você sabe que não tem obrigação nenhuma de vir prestar satisfação pra mim, né?
— É claro que tenho! Independente de vocês terem terminado, pra mim você sempre foi a "Carol do Gustavo" e eu sei o quanto vocês se gostam. Você foi uma das melhores coisas que me aconteceu esse ano e eu sou tão grata por tudo isso, pela nossa amizade, por todas as coisas que passamos juntas, todas as bebedeiras e todas as gargalhadas. Não quero estragar isso por uma coisa boba, sabe? Então eu precisava te pedir desculpa.
— Sabe que eu acho que é exatamente isso em você que faz com que o Gustavo goste tanto de ti?
— O que?
— O quanto você tem um coração realmente puro! Chega a ser inacreditável! — disse Carol. – Isa, eu sei que você não fez isso por má fé. Você jamais faria algo de propósito que pudesse machucar alguém, ao contrário do resto do mundo inteiro. Você e o Gustavo se dão bem, os dois estavam passando por um momento de carência em que se sentiram mais próximos do que nunca e rolou um clima, simples assim. Vamos imaginar que fosse o contrário, você sentiria raiva de mim?
— Não. – respondi como se fosse óbvio, porque era. Imaginemos que ela ficasse com o Gabriel, mesmo sabendo que eu sou apaixonada por ele, o que ela não sabe. Eu amo a Carol e ela é minha amiga, eu não conseguiria sentir raiva dela em hipótese alguma.
— Exato. Eu não tenho motivos pra isso. Se eu e ele estivéssemos namorando ainda ou tivessemos apenas dado um tempo, aí sim eu provavelmente ficaria chateada, mas acabou. E quando uma história tem um ponto final, significa que outras começarão. Se quer saber, eu me sentiria muito melhor se o Gustavo se interessasse por alguém como você do que por uma garota qualquer por aí.
Eu ainda não me sentia convencida, mas ela estava sendo sincera, eu sabia disso.
— E quer saber de uma coisa? – prosseguiu Carol. – Eu tenho a teoria de que todo casal de amigos vai se pegar algum dia. Qual é, eu ficava com o Gabriel, não lembra? E ele é o melhor amigo do Gustavo. Eu só nunca fiquei com o Bruno porque ele sempre teve aquele rolo interminável com a Luiza.
— Você jura que está tudo bem, então? – perguntei.
— Juro! – garantiu Carol. – E vai continuar bem caso isso aconteça de novo, ok? Põe isso na sua cabeça.
— Não vai acontecer! – respondi depressa, mas por algum motivo não tive certeza.
— Não tente prever o futuro.
— To te falando! Não vai porque se a vida não resolver zoar com a minha cara, hoje vou sair com um cara mega gato que conheci ontem! – contei resolvendo sair daquele assunto embaraçoso.
— Hmmmm, me conte mais sobre isso. – pediu Carol com um sorriso malicioso no rosto que me fez sorrir. – E como assim, zoar com a sua cara?
— Ele chama Vinícius, é mais velho e faz Engenharia. Ele ficou de ligar lá em casa para marcarmos, já que estou sem telefone, maaaaas como não estou em casa, não dá pra saber nem sequer se ele ligou. E já são mais de 18h, se ele tivesse que ligar já teria ligado, né? Estou aflita.
— Manda mensagem pra sua mãe perguntando, se ele não tiver ligado já desencana e vamos beber comigo.
A obedeci, mandei mensagem para minha mãe avisando que já estou com o celular novo e funcionando e perguntei se alguém havia ligado procurando por mim. Ela demorou longos e tortuosos 17 minutos para responder:
"Um tal de Vinícius, disse que é seu amigo. Perguntei se queria deixar recado e disse pra você ligar no número XXXX-XXXX se pudesse."
— Ele ligou! – gritei sem querer e tapei a boca constrangida. – Desculpa.
— Então liga de volta!
— Vou mandar mensagem.
— Não, você vai ligar! – ordenou Carol. – Ele ligou na sua casa, faz esse esforço. E se ele deixar uma brecha pra você escolher o que vão fazer, chama ele pra ir na balada com a gente. Vamos eu e a Luiza, hoje! É o lugar perfeito! Se o assunto acabar vocês dançam ou bebem e se algo der errado eu estarei lá.
— Ta bom. – concordei.
Disquei o número e esperei roendo minhas cutículas. Eu. Odeio. Conversar. No. Telefone. Mas conversar com um cara que eu havia conhecido no dia anterior e com quem conversei descontraidamente apenas porque tinha bebido, além de ser um cara no qual estou interessada, fazia tudo ficar mil vezes pior.
— Alô. – atendeu Vinícius e algo deu uma pirueta dentro do meu estômago.
— Oi, é a Isabelle. – respondi. – Minha mãe disse que você me ligou, mas eu não estava em casa.
— Achei que era só uma desculpa pra não falar comigo. – ele confessou.
— Lógico que não, eu só tava comprando meu celular novo.
— Então esse é seu número? Vou salvar aqui.
— Ta bom. E posso saber o motivo de ter ligado?
— Queria saber se vou mesmo poder te ver hoje. – disse Vinícius e eu fiz uma dancinha ridícula de comemoração que arrancou uma risada de Carol.
— Eu adoraria. – respondi.
— O que você curte fazer? Eu não tenho a mínima ideia do que escolher, porque me lembro de você me contar que gosta bastante de festas, mas não sei que tipo de festas.
— Então, eu tenho uma amiga que vai pra uma balada no Centro, você anima? Se não quiser podemos fazer outra coisa de boa.
— Eu animo qualquer coisa! Juro! Perfeito! – ele disparou a falar e foi minha vez de rir. – Posso te buscar na sua casa?
— Pode sim! Umas 21h?
— Marcado! Te vejo mais tarde!
— Até! – me despedi.
Assim que desliguei comecei a surtar e Carol ria de mim. Mas em questão de minutos passei de surto de felicidade para surto de desespero.
— Socorro. – disse me levantando da mesa e arrastando Carol pela mão. – Eu não tenho roupa pra usar. Precisamos achar algo pra mim vestir.
— Algo que te deixe sexy a ponto dele pensar no quanto você é gostosa assim que bater os olhos em você, mas não que faça ele perceber que você ta querendo ser gostosa. É tipo "oi, sou gostosa naturalmente em qualquer roupa".— disse Carol e comecei a gargalhar.
Nós procuramos pelo shopping inteiro e eu não gostava de nada. Ou achava exagerado demais ou simples demais. Até que quando já havia desistido, passamos pela vitrine de uma loja e eu parei imediatamente. Havia um vestido no manequim, branco com uns detalhes pratas. Era simples, mas lindo.
— É esse! – disse Carol.
— Eu to apaixonada, mas ele é muito decotado.
— Exatamente! É branquinho e simplesinho, o que dá um ar de menininha, mas teus peitos estão ali dizendo "Olá!". — explicou Carol me arrastando para dentro da loja e eu ri. Só tenho amiga impossível.
— Mas meus peitos não vão ficar bons nesse mega decote!
— Lógico que vão! Seus peitos são aquilo que o Bruno chamaria de feito fera!
Foi assim que ela me convenceu a pelo menos experimentar o vestido. E assim que saí do aprovador, Carol começou um mega discurso sobre o quanto eu estava linda. Eu de fato me senti bonita, mas aquele decote tava me incomodando muito.
Não vai dar. A primeira coisa que vão observar em mim são meus peitos. – reclamei.
— E dai? Eu tenho tanta inveja do seu corpo. – confessou Carol. – Você tem esses peitos que não são grandes demais, mas são grandes, ainda mais porque você é magrinha e tem essa cintura fininha. E aí você fica super sexy e ainda reclama! Af, para, Isabelle! Vou socar sua cara. Você ta perfeita.
— Eu não sei...
— Vou te provar. – disse Carol pegando seu celular, ela tirou uma foto minha e minutos depois me mostrou nosso grupo no whatsapp. Ela havia mandado a foto e perguntado o que os meninos acharam.
Bruno: Peitos! Só vejo peitos! Belos peitos!
Eu gargalhei do comentário do Bruno. Amo demais esse menino, meu deus.
Gabriel: Como pode ser tão gostosa e ter essa carinha de quem veio de um convento? Hahahaha Ta linda, mano.
E foi assim que ela me convenceu. Ou melhor, que Gabriel me convenceu.
Entreguei o vestido a vendedora e perguntei o preço, mas ao invés de uma resposta levei um tiro. Não, não literalmente. Mas você precisa entender que se alguma peça de roupa custa três dígitos antes da vírgula, você precisa pensar no mínimo três vezes sobre a necessidade de tê-la. Eu não ia conseguir pagar aquilo com minha grana nunca. Já tava chorando internamente quando um diabinho surgiu no meu ombro para me lembrar de que eu estava com o cartão de crédito da minha mãe.
Não, Isabelle. Não faça isso. Ela vai te matar. Me lembrei instantaneamente do que ela disse:
“— Você vai pegar meu cartão e não vai comprar nada além do celular, ta me ouvindo? — disse mamãe bastante séria. – Nada! Se comprar qualquer outra coisa eu te espanco!”
Eu olhei pro vestido, olhei pra vendedora e disse:
— Vou levar. – confirmei sorrindo, sabendo que ela acabara de me fazer vender a alma pro capeta.
***
Me olhei no espelho uma última vez enquanto esperava Vinícius chegar e cada vez que eu fazia isso me sentia mais nervosa. Meus cabelos estavam levemente ondulados e eu usava o vestido que comprara, um sapato de salto da mesma cor que o vestido – que por acaso peguei emprestado com minha mãe – e levaria uma bolsa pequena para guardar minhas coisas, além de um casaquinho por precaução. Na hora de passar minha maquiagem fiquei em dúvida entre batom escuro ou claro e perguntei para Amanda, a resposta foi:
— Lógico que claro, Isabelle. Se você estiver com um batom vermelho ele vai esperar seu batom sair pra poder te beijar, porque cara nenhum quer ficar com uma marca vermelha na cara.
Meu deus, eu não entendo nada da vida mesmo. Jamais teria pensado nisso.
Meu celular vibrou na minha mão e era Vinícius avisando que chegara. Andei até o portão inspirando e expirando fundo. Eu tava nervosa pra caralho! Ao abrir o portão, avistei Vinícius escorado em seu carro usando uma camisa branca, uma calça preta e sapatos também pretos. Ele estava lindo! E seu olhar medindo cada centímetro de mim, fez valer cada centavo que eu havia gastado com aquele vestido.
— É festa de ano novo? – brinquei com o fato de nós dois termos escolhido branco.
— Eu não tenho palavras para tentar dizer o quanto você ta linda. – elogiou Vinícius e eu sorri.
— Você também está, eu juro.
Ao me aproximar dele não soube se deveria o cumprimentar com um beijo no rosto, um selinho ou sei lá o que. Por isso agradeci por ele ter tomado a atitude de me dar um selinho. Que bom, vamos ser diretos. Em seguida, ele abriu a porta do carro para mim.
— Nossa, quanto cavalheirismo! A última vez que um cara abriu a porta de um carro pra mim deve ter sido pra mandar eu sair de dentro dele. – brinquei.
— Preciso ganhar todos os pontos possíveis. – ele disse antes de fechar a porta, piscar para mim e dar a volta no carro para entrar no mesmo. – Achei que você fosse devolver meu boné...
— Eu não, depois vou ter que desculpa pra te ver?
Ele me olhou e voltando sua atenção para o volante, sorriu. Dessa vez eu fiquei sem graça, mas não me arrependi do que disse.
— Você precisa me prometer uma coisa. – pedi.
— O que?
— Que ainda me achará linda quando já tiverem derrubado sete tipos de bebidas diferentes nesse vestido e ele estiver da cor do arco-íris.
É impossível você sair de uma balada com a roupa ilesa.
— Posso derrubar algumas coisas de propósito na minha camiseta também se isso te reconfortar. – ele respondeu.
— Eu realmente adoro seu senso de humor. – elogiei sendo sincera.
***
Ao chegamos na balada, a fila já estava enorme e se tem uma coisa que eu odeio, são filas. Principalmente porque isso faz piorar meu nervosismo pré tentar entrar com identidade falsa. Ou melhor, com identidade emprestada. Sempre uso a 1ª via da identidade da minha irmã, já que parecemos. Nunca fui barrada ou tive problemas, mas não queria que isso acontecesse justo com o Vinícius ali. Seria muito mico, principalmente porque ele parecia nem se lembrar que sou menor de idade. Por isso quando chegamos no segurança e entreguei o documento, mesmo tentando transparecer o máximo de confiança e indiferença, eu estava morrendo de medo internamente. Felizmente, deu tudo certo. O cara mal olhou a identidade.
Assim que entramos fomos até o bar e esperei enquanto Vinícius pedia nossa bebida. O lugar já estava bem cheio e aproveitei para dar uma olhada no povo. Foi nessa vistoria que enxerguei Gabriel ao lado de Bruno e meu coração acelerou involuntariamente. O que diabos eles estavam fazendo ali? Carol disse que iria apenas ela e Luiza.
Poucos segundos depois o olhar de Gabriel me alcançou e percorreu meu corpo inteiro, dando nitidamente mais atenção para o decote. Ele arqueou as sobrancelhas e deu um sorriso de canto de boca. Foi nesse momento que Vinícius apareceu com nossas bebidas e segurou minha mão pra gente sair dali. Pude ver Gabriel encarando nossas mãos com uma expressão nada boa antes de perdê-lo no meu campo de vista e de alguma forma soube, que aquilo não resultaria em algo bom.
Eu e Vinícius encontramos uma dessas mesinhas altas de balada num canto, colocamos nossas bebidas em cima da mesma e começamos a conversar. Tentei não perder o foco ou me deixar abalar, Gabriel não estragaria aquela noite. Ele nem sequer deveria estar ali.
— Você costuma sair muito? – perguntou Vinícius.
— Muito! – respondi com bastante ênfase. – Eu detesto ficar em casa. Não sei, tenho um medo frequente de não estar aproveitando a vida o máximo que posso, sabe?
— Mas você não acha que dá pra aproveitar de outras formas?
— Com certeza. Mas esse é o meu jeito de aproveitar. É saindo com meus amigos, enchendo a cara, cometendo algumas loucuras e depois sobrevivendo a algumas ressacas. As vezes penso que sou muito nova pra fazer metade das coisas que faço, mas quem disse que sou? Minha idade? A sociedade? O infeliz que inventou que menor de 18 anos não pode fazer nada? Acho que isso são coisas que no fim, não importam. Cada um vive a vida como achar que deve viver e é assim que eu acho que devo viver a minha. Cada um leva pro caixão a história que escolher.
— Cada um leva pro caixão a história que escolher. – repetiu Vinícius sorrindo. – Cara, você é intensa!
— Até demais.
Olhei para os lados nervosa e Vinícius percebeu tudo. Me amaldiçoei por isso.
— Ele ta aqui, né. O cara de quem me contou. – disse Vinícius e eu fiquei tão sem graça que não soube o que responder. – Dá pra perceber pelo tanto que você ta tensa.
— Me desculpa, eu só... – comecei a me desculpar, mas ele não permitiu.
— Não se preocupa, sério. Eu entendo como é isso.
— Não, eu não quero que você ache que não quero estar com você aqui agora, que não estou me sentindo bem com sua presença ou que estou com a cabeça em qualquer outro lugar que não aqui. Não quero que pense que estou te usando pra fazer ciuminhos em alguém ou pra esquecer alguém, porque eu não sou assim. Eu só estou tão feliz de estar aqui, que eu não quero que ele faça alguma coisa pra estragar nossa noite. Me desculpa.
Ele se aproximou de mim, segurou meu rosto e sorrindo disse:
— Eu sei que você não é esse tipo de garota. De alguma forma eu sei.
Vinícius me beijou e eu decidi que Gabriel definitivamente não estragaria minha noite, nem minha chance de ter um encontro realmente legal com um cara que realmente valia a pena. Eu faria aquela noite valer a pena.
Nós nos separamos e o puxei em direção a pista de dança. Ele pareceu meio confuso quanto a onde eu estava o levando, mas quando percebeu que estávamos nos infiltrando no meio das pessoas, começou a dizer:
— Não, não, não! Eu definitivamente não sei dançar!
— Todo mundo sabe dançar! – argumentei. – Cada um de seu próprio jeito.
Nós paramos no meio da pista e eu lancei meu melhor sorriso para ele.
— Acredite em mim, o mundo não quer conhecer o meu jeito de dançar. – argumentou Vinícius.
Abracei seu pescoço, o beijei e pouco a pouco fui balançando meu corpo fazendo com que ele movesse o seu junto ao meu. Ele sorriu contra minha boca ao perceber o que eu estava fazendo.
— Você é impossível!
E de repente lá estávamos nós dançando.
Ele definitivamente não dançava mal como alegou, só era de um jeito meio travado que o deixava extremamente fofo. Sempre que ele tentava fazer algo novo de brincadeira, eu disparava a gargalhar e sentia vontade de agarrá-lo. Em determinado momento quando tocou um desses funks que está na moda, provavelmente alguma música da Anitta, ele viu uma garota fazendo uns movimentos com as mãos e começou a fazer igual. A garota percebeu, achou engraçado e começou a nos ensinar as coreografias. De repente já tínhamos uma nova amiga chamada Samantha.
Percebi que eu nem estava bêbada, mas ria como se estivesse, porque eu estava realmente me divertindo. Devo ter dançado eletrônico, pop, funk, pagode e até sertanejo. Tudo isso enquanto também beijei Vinícius o máximo que pude. E ainda não era nem metade da noite.
Inclusive, eu e Vinícius nos despedimos dos nossos novos amigos para buscarmos bebida e acontece que não conseguimos chegar ao bar. Ele me abraçou por trás em determinado momento, deu um leve beijo em meu pescoço e eu me virei para trás para poder beijá-lo. Quando percebi já estávamos em um canto qualquer nos agarrando. Ele encostado numa parede, me segurando com força entre seus braços.
Reparem que existem alguns estágios quando você está ficando com alguém em uma festa. Não importa se vocês acabaram de se conhecer nessa festa, se já se pegaram e estão num encontro se conhecendo melhor — como no meu caso, ou se são peguetes de balada. Serve para as três situações. O primeiro estágio é quando vocês dão os primeiros beijos no local. É uma coisa mais comportada, mas com um sentimento de "até que enfim começamos a fazer isso"; O segundo estágio é quando vocês começam a se beijar e não param mais. Vocês meio que se esquecem que tem uma festa rolando por ali, grudam a boca um no outro e não desgrudam por nada nesse mundo. A essa altura do campeonato vocês não estão mais se preocupando se estão sendo exatamente comportados; E o terceiro e último estágio é aquele momento em que vocês já ligaram o foda-se pra tudo e pra todos, simplesmente desaparecem a procura de privacidade, se atracam em um canto e deixam que os hormônios lhes guiem.
Digamos que nós chegamos ao terceiro estágio. Vinícius me beijava com um desejo que era recíproco. Ele me virou para que eu ficasse entre ele e a parede e quando direcionou sua boca até meu pescoço, meus olhos foram atraídos direto para uma direção. Lá estava o Gabriel com a boca colada na de uma menina. A primeira da noite. Ou pelo menos a primeira que eu tenha visto.
Não vou dizer que não doeu ou que fiquei indiferente quanto aquela cena, porque não seria verdade. Doeu e por alguns segundos foi difícil sustentar a pose. Não dava para ver aquilo e não lembrar instantaneamente de que costumava ser ele ali comigo e não um outro cara qualquer. Era impossível não lembrar que não importava onde estivéssemos, sempre que saíamos ele encontrava um canto para me levar, onde o mundo desaparecia ao nosso redor e existia apenas as mãos dele envolta do meu corpo e sua boca colada em minha orelha dizendo alguma baixaria que me fazia rir, sem graça, excitada, tudo ao mesmo tempo.
Meu coração se apertou e precisei me lembrar de não deixar algo que acabou, acabar comigo. Vinícius voltou sua boca para a minha e percebi que não tinha sequer prestado atenção nos beijos que ele dedicou ao meu pescoço. O beijei e me esforcei ao máximo para me focar no que estava fazendo, mas decidi que agora eu precisava mesmo beber.
— Acho melhor nós pegarmos alguma coisa pra beber e respirarmos um pouco. – disse ao separarmos nossas bocas e tentei sorrir para ele. Ele sorriu de volta e assentiu.
Nós fomos até o bar e fiz questão de nem sequer olhar para a direção em que Gabriel estava. Vinícius pediu uma cerveja e eu resolvi pedir uma caipirinha de cachaça bem forte. Enquanto esperávamos fui surpreendida por um abraço.
— Olha quem veio mesmo! – disse Carol animada.
Junto a ela estava Luiza e um Bruno que parecia estar bem bêbado. Cumprimentei os dois e a primeira coisa que Bruno disse foi:
— Eu nunca te vi tão gostosa em toda minha vida, loira!
Fiquei com medo da reação de Vinícius, mas ele apenas riu. Foi quando lembrei de o apresentar para todos.
— Gente, esse é o Vinícius e Vinícius esses são meus amigos Carol, Luiza e Bruno. – apresentei e voltei minha atenção para Carol na intenção de fazer a pergunta que estava entalada em minha garganta. – Não iam vir só você e a Luiza?
— Sim, mas o Bruno meio que ta perseguindo a Luiza. – contou Carol revirando os olhos e eu ri. – Aí de brinde ainda trouxe o Gabriel, mas já o perdemos por aí.
— Gustavo não quis vir? – perguntei estranhando.
— Ele tinha alguma coisa pra fazer com os pais, sei lá. – respondeu Bruno.
— É aniversário da mãe dele. – explicou Carol.
— Ah sim.
— Bom, nós vamos voltar para a pista de dança. Vocês querem ir?
Olhei para Vinícius esperando consentimento e ele assentiu. Fomos todos para a pista e de repente me peguei rezando para que Gabriel continuasse ocupado o suficiente com aquela menina, para não aparecer na roda. Eu não saberia onde enfiar minha cabeça. Mas me arrependi de ter achado que essa seria a melhor saída, porque eu queria dizer que consegui aproveitar o resto da noite em paz, mas não foi o que aconteceu.
Quanto mais eu tentava ignorar a presença de Gabriel, mais ele fazia questão de aparecer na minha frente. E a garota com quem eu havia o visto foi de fato apenas a primeira da noite. Depois vi ele se agarrando com mais duas. Chegou um ponto em que eu não aguentava mais e consegui convencer Vinícius a esperar junto com o pessoal para que eu pudesse ir ao banheiro tomar um ar. Na volta tive a péssima ideia de aproveitar para pegar mais bebida. Péssima porque apenas ganhei a chance de ver Gabriel beijando a quarta encostado no balcão.
Parei no bar bem ao lado dos dois e pedi uma dose de vodka com gelo para um dos barmen, respirando fundo e tentando manter o controle. Gabriel parou de beijar a garota no instante em que ouviu minha voz e pude ver que ele me olhou de canto de olho e sorriu.
— Pra onde você vai depois daqui? – ele perguntou pra vadia. Minha vontade foi de virar um murro na cara dele. Ele tava fazendo de propósito porque sabia que eu conseguia ouvir.
— Pra casa. – respondeu a garota, com uma voz escrotíssima. Voz de piranha que merecia levar uns socos bem dados também.
O barmen entregou minha bebida e eu estava prestes a sair dali, antes de ouvir o resto daquela conversa, mas não deu tempo. Ainda consegui ouvir o que o filho da puta disse.
— Posso te deixar em casa, se você quiser. – ofereceu Gabriel. – Ou te levar pra qualquer outro lugar.
— Você tem carro? – ela perguntou.
Eu estava com tanta raiva e com tanta vontade de socar a cara dele, que o álcool falou mais alto que minha razão. Eu não me controlei.
— Nem carro, nem carteira de motorista, nem vergonha na cara. – respondi olhando pro Gabriel.
— Quem é ela? – perguntou a garota, me olhando com cara de quem não estava entendendo nada. Apenas ignorei pra não deformar sua cara.
— Vai comer as quatro? – perguntei ao Gabriel, me referindo a todas as garotas com quem ele havia ficado aquela noite. – Cuidado pra não pegar AIDS.
Dito isso, peguei meu copo e saí de perto dele. Comecei a andar procurando por qualquer rosto conhecido, rezando para que encontrasse logo, porque eu sabia o que aconteceria. Eu não devia ter aberto a merda da boca. E aconteceu. Senti alguém puxar meu braço e no instante seguinte eu estava sendo arrastada por Gabriel para um canto no qual ele me pressionou contra a parede.
— Ta com ciuminhos? – ele sussurrou em meu ouvido e me olhou com um sorriso de canto de boca.
Eu me desesperei naquele momento. Se Vinícius nos visse eu estava ferrada, teria acabado com qualquer chance que tínhamos. Tentei empurrar Gabriel, mas apenas piorei a situação, porque ele usou seu próprio corpo para me manter presa ali. Então fiquei parada, quieta e calada, olhando para qualquer outro lugar que não fosse seu rosto, com a maior cara de bosta que consegui. Ele deu uma risada provando que estava se divertindo, tomou meu copo de minha mão e deu um gole na bebida. Em seguida voltou a me provocar.
— Também posso te deixar em casa, ou em qualquer outro lugar que você quiser. – ele tornou a sussurrar em meu ouvido.
— Por que você não vai se foder, ein? – respondi irritada. Eu só não sabia se isso se devia ao ciúme que eu de fato estava sentindo, ou ao meu desespero pra sair dali antes que fizesse alguma burrada.
— Foder você é mais divertido. – retrucou Gabriel com um sorriso malicioso. Tentei o empurrar novamente e nada consegui. – Ta querendo fugir por quê?
— Porque você sabe que eu estou acompanhada e muito bem acompanhada.
— Tanto que ta morrendo de medo de fazer alguma coisa que não deve, né? – ele rebateu conseguindo que eu calasse a boca.
Fechei meus olhos e comecei a contar até dez mentalmente, enquanto respirava fundo. Mas quando cheguei no seis, senti Gabriel afastar meu cabelo de meu pescoço, para beijá-lo. Quer dizer, foi o que eu pensei que ele faria. Na verdade ele havia pegado um dos gelos da minha bebida, colocado entre os dentes e o deslizou em minha pele desde atrás da minha orelha até o começo do meu seio e ainda fez o caminho de volta. Eu arrepiei até minha alma.
— Para com isso. – ordenei ainda de olhos fechados, sentindo ele roçar os lábios em minha orelha antes de responder.
— Você ta gostando. – afirmou Gabriel. – O que, por acaso, é nítido pela força com que está apertando meu braço.
Eu abri meus olhos e olhei para seu braço depressa, percebendo que eu estava de fato o apertando involuntariamente. Minhas unhas estavam quase cravadas em sua pele. Gabriel segurou meu queixo e obrigou que eu olhasse para ele, encostou sua boca na minha e puxou meu queixo para baixo de modo que meus lábios ficaram entreabertos. Senti ele beijar meu lábio inferior e soube que era uma questão de eu abrir a boca para que acabássemos nos beijando. E cada mínima parte do meu corpo estava pedindo por isso, mas minha mente gritava desesperadamente para que eu fosse embora imediatamente.
— Me deixa ir, por favor. – implorei. E apenas ao ter que dizer isso nossos lábios já se roçaram, fazendo com que eu quase começasse a chorar de desespero. Eu não ia conseguir resistir. Eu sou um lixo de pessoa.
— Por que? – perguntou Gabriel. – Me dá apenas um bom motivo.
— Porque eu não posso fazer isso.
— Mas você quer! – retrucou Gabriel segurando meu rosto com as duas mãos. Agora quem parecia desesperado era ele. – Você quer tanto quanto eu quero!
Levei minhas mãos até as suas na intenção de tirá-las do meu rosto e sair dali, mas ele não deixou.
— Só um beijo, por favor. – pediu Gabriel.
“Nem um beijo, nem meio beijo, Isabelle!”, foi o que pensei. Mas a essa altura, eu não conseguia mais ouvir minha própria mente. Cheguei a levar minha mão até sua nuca, até que me lembrei que não se tratava apenas de Vinícius ou da noite incrível que tivemos e do quanto ele me fez bem, não se tratava apenas do respeito que eu devia a ele, ao cara que estava junto com meus amigos me esperando voltar. Se tratava também de Amanda, a pessoa para qual garanti que abriria mão de Gabriel, porque ela faria o mesmo por mim.
Nesse momento, usei toda minha força para empurrar Gabriel e saí literalmente correndo dali. Corri sem destino, mas quando percebi estava na porta do banheiro. Entrei no mesmo e joguei água em meu rosto, em minha nuca e me debrucei sobre a pia tentando em vão controlar minha respiração que estava descompassada. Eu não conseguia respirar direito. Eu não conseguia respirar.
Uma garota perguntou se estava tudo bem, mas a ignorei. Eu precisava sair dali, precisava de ar. Saí do banheiro meio desnorteada, desesperada e segurando meu próprio pescoço, tendo cada vez mais a sensação de que eu não conseguia respirar. Andei rumo à saída, mas alguém me segurou. Era Carol, parecendo muito preocupada.
— Isabelle, ta tudo bem? – ela perguntou, mas eu não conseguia responder. – O que ta acontecendo?
— Eu preciso de ar. Eu preciso de ar. De ar. – comecei a repetir.
— Você precisa respirar! Olha pra mim! – ela pediu segurando meus dois punhos e eu olhei. – Se acalma e respira! Você ta tendo um ataque, Isabelle. Precisa se acalmar pra voltar a respirar direito!
Eu fechei os olhos e tentei me acalmar. Pouco a pouco senti minha respiração voltar ao normal, mas com lágrimas nos olhos, disparei a falar:
— Por que o mundo não pode conspirar ao meu favor por um milésimo de segundo? Por que tudo tem que ser tão difícil pra mim? Por que eu não posso simplesmente ser feliz? Por que eu tenho que ser apaixonada pelo Gabriel? Eu sou apaixonada pelo Gabriel! Eu sou e não é pouco! Eu sou!
— Eu sei. – respondeu Carol.
Eu não esperava por essa resposta e talvez tenha sido por isso que fiquei estática a encarando.
— Co-Como você sabe? – indaguei entre um gaguejo.
— Ta estampado na sua cara. – afirmou Carol.
Essa também não era uma resposta que eu esperava ouvir. É tão óbvio assim?
— Mas nós não vamos falar sobre isso agora. – disse Carol. – Você vai respirar fundo e se recompor, para voltar onde estávamos, onde tem um cara incrível e preocupado porque você sumiu. Ta me entendendo?
Eu assenti, mesmo que não conseguisse pensar direito naquele momento. Tinha um turbilhão de coisas se passando pela minha cabeça. Mas eu sabia que precisava voltar, precisava fazer isso por Vinícius.
— Eu preciso de uma desculpa.
— Inventa que você ajudou uma menina que tava passando mal no banheiro. – disse Carol. – Isso sempre acontece.
Eu assenti e ela perguntou se eu estava bem mais uma vez antes de sairmos dali. Eu não estava, mas não tinha o que fazer. Nós voltamos e eu sorri abertamente assim que vi Vinícius. O sorriso mais forçado que já dei.
— Me desculpa pela demora. – pedi e olhei para Carol, ela assentiu como quem indicava que eu deveria prosseguir. – Tinha uma garota passando mal no banheiro e eu fiquei preocupada porque ela tava sozinha. Tentei ajudar ela, mas a levamos até a saída. Ela tava muito mal!
— Tudo bem. – respondeu Vinícius mostrando que ele havia acreditado na história.
— Mas acho que essa noite meio que já deu. Você se importa se formos embora?
— Não, relaxa. Já ta tarde de qualquer forma.
— Se você quiser podemos comprar umas cervejas e beber em algum lugar, só to me sentindo meio afobada aqui dentro mesmo.
— Podemos ir pro meu apartamento. – ele sugeriu com receio. – Já tenho até cerveja lá.
Eu sabia o que significava ir pro apartamento dele. Mesmo que não fosse a intenção dele, acabaria acontecendo. Mas eu gostei da ideia.
— Pode ser. – concordei.
Nos despedimos do pessoal, pagamos a conta e fomos embora. No caminho Vinícius dizia algo sobre ter gostado dos meus amigos e de que ele conversou bastante com o Bruno e que ele é hilário, apenas confirmando minha teoria de que ele é um cara incrível. E é por isso que eu me sentia cada vez mais mal pelo que havia acontecido com Gabriel.
Ali, dentro daquele carro, olhando para Vinícius me peguei pensando que eu poderia facilmente me acostumar àquilo. Meus pais se orgulhariam de mim namorando com um cara responsável, engraçado, inteligente, fazendo faculdade, tendo seu próprio carro e seu apartamento. Ele seria uma boa pessoa pra mim. Olhando pra ele eu consegui enxergar um futuro, o que nunca consegui com Gabriel. Vinícius estaria lá por mim quando eu precisasse, resolveria meus problemas ao invés de ser o problema, ele diria tudo que preciso ouvir, faria tudo que eu preciso que façam por mim.
Nós entramos em seu prédio e ele estacionou o carro. Quando entramos no elevador ele sorriu para mim, um sorriso sincero, de quem estava verdadeiramente feliz por eu estar ali. E eu também estava. Ele sorriu e eu pensei que também poderia me acostumar com aquele sorriso. Era apenas nosso primeiro encontro e eu me sentia bem como se nos conhecêssemos por anos.
Eu não estava nervosa por saber que seríamos só nos dois dentro daquele apartamento. Na verdade, estranhamente, eu só conseguia pensar que eu queria mais. Muito mais. E só reforcei esses pensamentos enquanto o observava de costas, abrindo a porta de seu apartamento. Os cabelos agora bagunçados e as costas largas. E então, ao entrar e ceder espaço para que eu fizesse o mesmo, nossos olhares se encontraram.
Meu santo deus, ele é lindo pra caralho.
O que queríamos ficou meio obvio naquele olhar e talvez tenha sido por isso que avançamos na direção um do outro ao mesmo tempo e nos beijamos. Eu nem sei como ele fechou a porta, só sei que de repente já estávamos andando aos tropeços rumo a algo que eu não sabia o que, porque não conhecia o apartamento dele. Só descobri quando caímos sofre o sofá da sala. Ok, nem no quarto chegaríamos.
Vinícius se colocou sobre mim e arranquei sua camiseta com pressa. Voltamos a nos beijar e senti sua mão subir pela minha perna subindo meu vestido junto. Ele desceu o beijo para meu pescoço e continuou descendo por meu busto. Bastava que ele descesse as alças de meu vestido para que tivesse acesso aos meus seios e era exatamente o que ele pretendia fazer, mas de repente, a porta se abriu fazendo com que nós dois ficássemos paralisados. Quase tão rápido quanto se abriu, ela se fechou, mas com uma força brutal. E inclinando meu corpo um pouco para cima, pude constatar que era porque um casal agora se agarrava contra ela.
Olhei para Vinícius que olhava meio sem reação pros dois e em seguida fez um barulho com a garganta, chamando a atenção do casal para nós que assustados, ficaram tão sem graça quanto eu estava.
— Você não ia dormir fora, Lucas? – indagou Vinícius o fuzilando com o olhar.
— É que surgiram alguns imprevistos. – respondeu o tal Lucas apontando disfarçadamente com a cabeça para a garota que sorria constrangida.
— Esse é o meu melhor amigo, Lucas. É ele quem divide o apartamento comigo. – explicou Vinícius para mim.
E então o garoto veio em nossa direção e me estendeu a mão. Eu fiquei completamente envergonhada, tentando arrumar meu vestido ao mesmo tempo que estendia minha outra mão de volta para ele.
— Eu sou a Isabelle.
— Ah, você é a Isabelle! Eu ouvi falar de você! – contou Lucas. – Essa daqui é a Paola! Paola, esses são o Vinícius e a Isabelle.
E assim também conhecemos a garota dele. Depois de todos termos nos cumprimentado, olhamos um pra cara do outro constrangidos em silêncio.
— Bom, acho que a gente vai pro meu quarto. – disse Lucas puxando Paola pela mão. – Fiquem a vontade aí! Foi um prazer te conhecer, Isabelle!
Quando ele saiu do cômodo, Vinícius começou a se desculpar imediatamente, mas parou quando eu comecei a gargalhar e me acompanhou.
— Essa foi a situação mais constrangedora e engraçada pela qual eu já passei. – disse tentando conter o riso.
— Quando eu tava saindo ele me disse que passaria a noite fora, então eu não achei que teria problema, você sabe, a gente aqui no sofá. Me desculpa por isso.
— Tudo bem. – o tranquilizei e o puxei de volta para mais perto. – Mas acho que nós podemos ir pro seu quarto, porque eu quero continuar o que estávamos fazendo.
Ele passou o braço por debaixo do meu corpo, me ergueu e me segurou no colo, entrelaçando minhas pernas em seu quadril. Enquanto seguíamos em direção ao quarto eu ria da situação, mas nossos olhos se cruzaram e percebi o sorriso em seu rosto enquanto ele me admirava rindo. Minha risada sumiu e agora era eu quem pensava novamente no quanto ele é lindo. Tive que o beijar. Isso dificultou que chegássemos ao seu quarto, mas quando chegamos fiquei bem feliz.
Nós transamos e eu peguei no sono, espremida naquela cama de solteiro que ironicamente parecia um bom lugar para um casal. Mas havia algo estranho e eu demorei para perceber o que era.
Não é assim que eu e Gabriel dormimos. Ele sempre afunda o rosto em meu pescoço.
Fale com o autor