Poltrona 19
55 Tentando conviver
Notas iniciais
Foi difícil para mim assimilar tudo que Gabriel havia dito. Me lembrar de tudo que vivemos em busca de tentar entender se existia sentido em suas palavras, se as coisas batiam e principalmente, se eu deveria acreditar.
— Se você gostava de mim, então por que você resolveu ficar com a Amanda? — indaguei.
— Eu estava tentando de alguma forma fazer a coisa certa. — respondeu Gabriel. — Se tem uma coisa que aprendi durante todo o tempo que estivemos juntos é que seus amigos são a coisa mais importante pra você. Amanda é importante pra você. Então tentei fazer ela feliz como você queria. Pensei que talvez assim pudesse me redimir por tudo que fiz com ela e também conseguir me redimir com você. Você mesma deixou claro que só me perdoaria quando ela me perdoasse.
Era exatamente o que Amanda me disse na casa de Leticia, antes de decidir terminar com ele.
— Então você não gosta dela? — questionei procurando por seus olhos que estavam tão vermelhos quanto os meus deveriam estar.
— Gosto. A Amanda apesar de difícil só é incompreendida. Ela só precisa de atenção, de carinho, de alguém que realmente a ouça e que se importe. Mas se você tá perguntando se eu sou apaixonado por ela, não.
— Então você não acha que acabou foi enganando ela de novo?
— Não, Isabelle. A partir do momento em que eu e ela resolvemos ficar juntos eu sempre deixei as coisas claras. Eu nunca disse para Amanda que era apaixonado por ela, eu disse que gostava dela e estava disposto a fazer a coisa certa dessa vez, o que é verdade. Ela aceitou que fosse assim. E eu sei que é porque ela esperava que com o tempo o que eu sentia pudesse evoluir para algo maior, o que eu também esperei acontecer, mas não aconteceu. Eu sinto carinho por ela, mas não é por ela que eu sou apaixonado.
Durante toda essa conversa, o que Gabriel mais queria me mostrar era que seus sentimentos por mim não haviam sido mentira. Porém, falamos o tempo todo no passado e quando ele disse apaixonado no presente, senti uma imensa vontade de perguntar se é por mim. Queria muito ouvir o que ele diria, mas eu não sabia se estava preparada para a resposta, por isso me contive.
— Eu só quero deixar claro que com tudo que disse não estou tentando me justificar ou parecer certo. — esclareceu Gabriel. — Eu estou te contando tudo que aconteceu e te confessando tudo que se passava pela minha cabeça. Estou te dando as respostas que você sempre quis. E estou, de coração, pedindo desculpa. Não to aqui tentando me fazer de vítima, porque eu não sou a vítima. Eu estou apenas pedindo perdão.
Eu assenti com a cabeça e respirei fundo.
— Eu preciso pensar, Gabriel. Sobre tudo. — foi o que consegui dizer. — Eu resolvi te ouvir porque precisava saber de tudo, mas isso é muita coisa pra minha cabeça.
Dessa vez foi ele quem assentiu.
— Eu preciso digerir tudo isso e organizar meus pensamentos.
— Tudo bem. — concordou Gabriel. — Só saiba que do fundo do meu coração, eu realmente sinto muito, Isabelle.
***
Eu acordei na segunda com absoluta e total vontade de morrer, isso porque naquela semana teríamos as provas finais do terceiro bimestre. Tentei focar no lado positivo de que justamente por causa das provas estou livre das aulas a tarde e que se eu recuperar minhas notas nesse bimestre estarei livre para sempre, mas chegar na sala segunda e ver a nítida tensão de todos os alunos não foi nada motivador. Tudo que se falou naquele dia foi sobre provas e claro, o trote que aconteceria na sexta.
Foi só quando falaram desse trote que percebi que nem sequer participei dos últimos e me arrependi um pouco, por isso estava determinada a pensar em algo legal para sexta, mas infelizmente eu não sou a pessoa mais criativa do mundo. O tema era personagens e eu não queria ter que gastar dinheiro alugando alguma fantasia para usá-la apenas durante uma manhã, então tinha até quinta a noite para botar minha cabeça pra funcionar.
Quanto a Amanda, ela não apareceu no colégio na segunda. E Gabriel, nos limitamos a dar um singelo sorriso quando passamos um pelo outro. Depois da conversa que tivemos eu simplesmente agradeci por ele ter sido sincero comigo e fui embora para casa caminhando. Passei a noite toda relembrando cada palavra dita por ele e relembrando cada parte da nossa história tentando decidir o que pensar ou o que fazer, mas precisaria de tempo.
Mesmo que eu tenha voltado a conversar com os meninos, eu passei os dois intervalos com Leticia. Queria contar para ela tudo que aconteceu e principalmente que havia encontrado com Gabriel e havíamos conversado, mas ela estava uma pilha de nervos e preferi deixar a semana acabar antes de envolvê-la ainda mais nos meus problemas. Até porque eu tinha decidido marcar uma consulta com a psicóloga que Lisa me indicou e a encontraria naquela tarde. Estava na esperança dessa consulta me render algo positivo que pudesse me ajudar a organizar melhor meus pensamentos.
Porém, eu me senti muito nervosa no momento em que cheguei na clínica e percebi que seria uma pessoa completamente nova a me ouvir desabafar. Tentei controlar minha ansiedade e me mantive de cabeça aberta para conhecê-la. A mulher que me recebeu era alta e tinha os cabelos pretos até na altura do busto. Ela estava vestida de forma casual, com uma blusa branca de mangas, calça jeans e um sapato fechado com um pequeno salto. Ela era muito bonita e aparentava ser um pouco mais nova que Lisa. Talvez fosse o amplo sorriso que ela manteve no rosto, mas me simpatizei com ela.
— Você deve ser a Isa. — disse a mulher apertando minha mão. — Seja bem-vinda, eu sou a Carina!
— Prazer, Carina! — respondi com um sorriso no rosto que esperava não ter demonstrado o quão apreensiva eu estava, mesmo que isso fosse impossível. Odeio quando minha ansiedade toma conta de mim.
— Fique a vontade.
Sua sala não era muito diferente da de Lisa. Com paredes brancas e decoração simples, a única coisa que me chamou a atenção é que havia um relógio pendurado na parede atrás de si. Isso de alguma forma me agradou. Quando estava com Lisa e eu disparava a falar, sempre ficava angustiada por não saber quanto tempo da sessão havia se passado.
Me sentei em uma poltrona bastante confortável que ficava de frente para o seu assento e esperei que ela começasse a falar.
— Bom, Isabelle, eu sei que você era paciente da Lisa e que provavelmente já deve ter respondido tudo isso para ela, mas eu quero te fazer algumas perguntas sobre você para que a gente possa se conhecer melhor, tudo bem? Eu também vou falar um pouco de mim pra você e você pode ficar a vontade para me perguntar o que quiser.
Eu assenti e ela começou se apresentando, falando um pouco dela, de sua formação, carreira e tudo mais. Depois surgiram as perguntas básicas de qualquer primeira consulta. Meu nome, idade, o que faço da vida, coisas semelhantes a isso. E então, ela me pegou de surpresa ao perguntar diretamente quais motivos tinham me levado até lá. É difícil chegar numa primeira consulta e ser sincera em uma resposta como essa, até porque muitas vezes nem mesmo nós sabemos quais são esses motivos, e geralmente esse costuma ser apenas um momento de você e seu psicólogo se conhecerem, verem se dão certo um com o outro e introduzirem assuntos básicos. Mas apesar de no começo eu ter me sentindo um pouco receosa de contar tudo que eu tinha ido até ali para contar, porque é a primeira vez que estamos nos vendo, eu estava sentindo uma extrema necessidade de desabafar. E bem, se eu já estava ali, por que não me abrir de uma vez? Por que simplesmente não ser sincera e adiantar esse processo? Assim eu facilito minha vida e até mesmo a dela.
— Como você sabe, eu era paciente da Lisa e infelizmente tive de parar as consultas com ela porque ela atende o principal problema da minha vida. Ele se chama Gabriel Fornazier. — foi assim que comecei o monólogo sobre os últimos sete meses da minha vida. Cheguei a me surpreender com minha coragem de dizer tudo de uma só vez, mas ela não pareceu surpresa ou incomodada, muito pelo contrário, me incentivou o tempo todo a continuar dizendo tudo que eu queria. E eu disse, sem deixar nada de lado. Quem era Gabriel, todos os problemas que ele tem, como nos conhecemos, como tudo se desenrolou, como tudo acabou. Contei sobre nossos amigos, sobre Amanda, sobre Vinícius. Contei sobre os últimos acontecimentos e terminei por fim na conversa que tivemos no dia anterior.
Eu falei tanto que no final me senti até um pouco constrangida. Acho que ela deve ter pensado que sou a paciente mais tagarela que já conheceu em todos os seus anos de trabalho.
— Desculpa, achei que eu falei um pouquinho demais. — desculpei-me.
— Não precisa se desculpar. Hoje eu reservei o resto do meu dia para conversar contigo. E você estar disposta a falar e se abrir, facilita para que eu consiga entender quais são seus problemas e consequentemente a te ajudar com eles. — respondeu Carina parecendo verdadeiramente satisfeita com o tanto que falei. — Quanto ao Gabriel, você me disse que está se sentindo perdida depois dessa conversa que teve com ele. Perdida quanto ao que?
— A acreditar ou não nele.
— Por que? — ela insistiu.
— Porque ele me fez viver a maior mentira da minha vida.
— Mas pelo que você me contou, ele disse que realmente se apaixonou por você, então não teria sido de fato tudo uma mentira. — ponderou Carina.
— Sim, mas isso não muda o fato de que ele me enganou, mesmo que não tenha sido intencional ou arquitetado. — respondi. — Sem contar que eu nem mesmo sei se ele está sendo sincero.
Carina largou a caneta que estava utilizando para fazer anotações em uma agenda no seu colo e cruzou as mãos.
— Seja sincera comigo e consigo mesma. — ela pediu. — Você acha que ele está? Acha que ele está sendo sincero?
Eu demorei para responder, mas disse o que meu coração sentia.
— Sim.
— Então por que não o perdoa?
— Porque eu não sei o que acontece depois do perdão. — confessei me sentindo um pouco inquieta com o rumo daquela conversa. — A gente vira amigos e segue a vida? Isso não soa ridículo?
— Não, isso me soa maduro. — afirmou Carina. — Isso mostra que você teve coragem e força o suficiente para passar por cima de tudo que viveu e maturidade para enfim perdoá-lo para poder seguir sua própria vida em paz com seu passado e consigo mesma.
— Mas e se eu não conseguir ser amiga dele?
— Perdoá-lo não significa que vocês precisam ser amigos. Não significa forçar a barra para manter uma relação normal novamente com alguém, porque cada um tem seu próprio jeito de ligar com isso. Significa apenas que você está pronta para deixar o passado para trás. Quanto a sua relação com ele você pode fazer o que quiser, decidir se afastar definitivamente, conviver na presença dele tranquilamente ou até mesmo sim, tentar ser amigos. Você só precisa decidir o que for te deixar bem consigo mesma.
— Mas… — eu tentei dizer, porém era muito difícil colocar em palavras o que eu realmente estava pensando e que estava me perturbando. Ela não disse mais nada, indicando que esperava que eu reunisse coragem para dizer. — Eu tenho medo de ficar bem com ele de novo e não querer ser só colega ou amiga dele.
— Você tem medo de querer se envolver com ele de novo? — ela perguntou naturalmente, mas eu estava extremamente constrangida.
— Sim. — admiti. — Porque se tudo estiver bem… Por que não?
— Se você acredita que ele está sendo sincero, você acredita nos sentimentos que ele disse sentir por você, então isso seria um problema?
— Claro que seria! Isso não pode sequer ser uma opção! — rebati um pouco alterada. — Ele me dizer que foi apaixonado por mim, o que ainda me parece uma ideia absurda, não muda o passado. É essa a questão pra mim. Eu posso aceitar que ele errou e realmente acredito que posso perdoá-lo, mas não posso esquecer. E mesmo que ele tenha sentido algo, isso não significa que ainda sinta. O tempo passou.
— Ok. Vamos pensar assim então, você pode tentar apenas conviver na presença dele e ver o que isso te causa, o que isso te faz sentir de verdade e ser sincera consigo mesma quanto a esses sentimentos. Dependendo do que acontecer você se afasta. Por enquanto, vocês ainda terão de estar na mesma sala, mas o ano letivo está acabando e em breve, se for sua intenção, você não precisará vê-lo mais.
Eu não sei dizer por quê, mas ouvi-la dizer isso fez com que minha garganta se fechasse. Em uma questão de três meses Gabriel pode ser de fato apenas passado na minha vida. Nós não teremos mais que ir para o mesmo lugar, nem se sentar na mesma sala ou se trombar pelos corredores. A gente pode simplesmente seguir caminhos diferentes, como se nunca tivéssemos sido tanto na vida um do outro.
— Tudo bem. — concordei.
— Então vamos combinar de tratar disso na semana que vem, de como foi tentar se reaproximar dele e de como se sentiu?
— Ok. — mais uma vez concordei, mesmo que a ideia me parecesse assustadora.
Eu saí daquela consulta extremamente pensativa e um pouco ansiosa, mas com certeza me sentindo bem mais leve por ter tido a oportunidade de falar de Gabriel para alguém sem ser julgada ou reprimida, alguém que queria realmente entender tudo que havia se passado por nós e me ajudar com esse fardo. Naquele dia eu até mesmo interagi com minha mãe, a ajudei a fazer a janta enquanto tomávamos um vinho e conversávamos sobre sua vida. Ela me contou sobre alguns casos que tem pegado no trabalho, me atualizou sobre a vida de suas amigas e claro, sobre Marcelo. Eles estavam planejando sair no sábado e ela me avisou que chegaria tarde, o que me fez perceber que apesar de Marcelo ir com frequência a nossa casa, ele nunca havia dormido ali, provavelmente pela consideração que mamãe tem comigo. E apesar de eu estar tentando ser legal quanto ao relacionamento dos dois, prefiro realmente não ter que dormir sabendo que minha mãe está transando a alguns metros de mim.
No dia seguinte cheguei no colégio mais cedo para tentar me preparar psicologicamente pras provas. Se é que isso seria possível. Logo na entrada encontrei Carol e Gustavo conversando. Nós nos cumprimentamos e seguimos para a sala juntos.
— Tá nervosa? — indagou Gustavo.
— Um pouco, preciso realmente me sair bem nessas provas.
— Você tem estudado bastante, Isa. Tenho certeza que vai dar tudo certo. — disse Carol numa tentativa de me acalmar.
Assim que entramos na sala tudo aconteceu em questão de segundos. Ao ver Carol e Gustavo seguindo para seus lugares, avistei Gabriel já sentado em seu lugar e o lugar ao seu lado que costumava ser meu, ainda vazio desde que o abandonei. Ninguém teve coragem de se sentar ali ou talvez tenha sido apenas culpa de Gabriel, que colocava sua mochila sobre a mesa todos os dias. Me lembrei automaticamente de Carina pedindo para que eu tentasse conviver com ele. E então, olhei para o meu atual lugar do outro lado da sala, para onde havia me mudado quando pensei que nunca mais conseguiria olhar na cara dele de novo. Sem me permitir pensar demais, andei e me sentei naquele que costumava ser o meu lugar, logo atrás de Carol e claro, ao lado de Gabriel.
Eu percebi que Carol e Gustavo se entreolharam e Gustavo até mesmo olhou para mim por um momento. Mas ele não foi o único, boa parte da sala também olhou. Como sempre Isabelle Nemitz sendo o centro das atenções. Ignorei porque sabia que aquilo aconteceria, era inevitável. Eu me ajeitei em meu lugar e peguei os materiais que precisaria para fazer as provas evitando ao máximo olhar para o lado, mas não resisti e acabei traindo meu orgulho e força de vontade para dar uma espiada. Foi quando vi Gabriel encostado na parede ao seu lado, rabiscando alguma coisa na mesa e sorrindo sozinho como se houvesse algo de muito bom em estar sentado prestes a fazer cinco provas importantes.
Bruno chegou logo depois de o professor que aplicaria nossas provas ter entrado na sala. Ele estava ofegante, com os cabelos bagunçados e a cara amassada. Provavelmente tinha perdido a hora. Assim que me viu sentada ali, sua expressão foi uma mistura de estranhamento e alegria, mas ele não disse nada, apenas se sentou porque o professor começou a falar. Poucos minutos depois as provas foram entregues e eu tive de me focar em fazer aquela merda direito para conseguir finalmente terminar o inferno do Ensino Médio.
Eu fui uma das últimas a terminar. Li e reli as questões um milhão de vezes para ter certeza de que não tinha entendido nada errado ou caído em alguma pegadinha. Eu sinceramente tenho vontade de mandar tomar no cu os professores que aprontam essas pegadinhas, tenho dúvida se eles querem que a gente mostre que sabe a matéria ou que sabemos brincar de detetive. Felizmente as provas daquele dia não tinham sido muito complicadas, mas ainda não podia me sentir aliviada por causa das provas de quinta. Quando saí da sala fui direto para a lanchonete comprar qualquer coisa que pudesse melhorar meu humor, que no caso foi um bolo de cenoura acompanhado de um suco de laranja. Assim que peguei as duas coisas me virei para procurar por uma mesa para sentar e avistei Gabriel sentado sozinho em uma delas. Ele também me viu e sorriu para mim, foi quando resolvi ir até ele.
— Posso me sentar? — pedi ao me aproximar.
— Claro! — ele respondeu tirando a mochila de cima da mesa. — Fica a vontade!
Obviamente eu fui parar ali por impulso e me arrependi no momento em que me sentei. Era muito estranho tentar conversar normalmente com Gabriel, principalmente estando só nós dois, por isso o clima ficou automaticamente constrangedor. Quando eu tentei puxar um assunto, ele fez a mesma coisa e nós acabamos falando um por cima do outro. Pelo menos isso nos fez rir.
— O pessoal já foi embora? — repeti a pergunta após ele ter indicado que eu poderia falar.
— Sim. A Carol e o Gustavo estavam com sono e o Bruno aproveitou pra ir pra auto escola, ele tá tirando a habilitação.
— Que legal! Você tirou a sua?
— Felizmente sim e passei de primeira. — ele se vangloriou. Eu poderia dizer que isso não era algo muito difícil porque o Gabriel já sabia dirigir, mas tenho certeza que não vou conseguir passar de primeira. Do jeito que sou, capaz de não conseguir passar sequer no exame psicológico.
— Esse é o orgulho da mamãe! — brinquei e nós rimos.
Infelizmente o assunto acabou e eu me foquei em voltar a comer.
— Como foi nas provas? — indagou Gabriel tentando impedir o clima de ficar constrangedor novamente.
— Acho que bem, o que pegou mais foi Matemática. Mas na real tô preocupada é com as provas de Química e Física.
— Nem fala. Tava pensando no quanto tô ansioso pra toda essa coisa de provas acabar, mas aí lembrei que ano que vem tudo vai é piorar. Quando é que as coisas melhoram?
— Também queria saber. — confessei.
Não havia muitas pessoas no refeitório porque a grande maioria saía das provas e ia embora para casa, sem contar que já estava quase na hora do almoço. Mas as poucas pessoas que estavam por ali, é claro que estavam nos encarando. Principalmente quatro meninas na mesa ao lado. Mais uma vez ignorei, mesmo me sentindo desconfortável, porque se for pra eu tentar fazer essa convivência com Gabriel dar certo eu vou ter que aprender a lidar com isso. É óbvio que depois de tudo que aconteceu nós dois conversando causaria estranhamento e curiosidade nas pessoas.
— Eu nunca entendi essa sua mania de comer coisa doce tomando suco. — disse Gabriel de repente. — O suco perde totalmente o gosto. Isso não tem sentido.
Eu o encarei com as sobrancelhas arqueadas e uma expressão surpresa bem nítida no rosto. Queria não ter demonstrado, mas não consegui. Ninguém repara no que eu como no colégio ou no quê misturo com o quê.
— Nem tudo nessa vida precisa fazer sentido. — respondi e Gabriel deu um sorriso genuíno.
Eu estava feliz por até então estarmos conseguindo conversar tranquilamente, mas infelizmente as coisas não costumam dar muito certo para mim. Bastou fazermos silêncio, para que eu ouvisse as meninas ao lado rindo e então uma frase ser dita.
— Ela é muito trouxa, certeza que vai cair na dele de novo.
Eu não sei se ela falou alto propositalmente ou se era para ser apenas um comentário entre amigas, mas deu para ouvir. E não fui a única, Gabriel também ouviu. No mesmo instante ele fechou os olhos, cerrou os punhos e respirou forte. Se ele estava tentando se acalmar não deu muito certo, porque ele virou bruscamente para as meninas e literalmente começou a gritar.
— Por que vocês não cuidam da porra da vida de vocês, ein? — esbravejou Gabriel deixando tanto eu quanto as meninas bastante surpresas. — Não tem mais o que fazer não, caralho? Tão achando que é quem pra ficar cuidando da vida dos outros?
Eu definitivamente não esperava essa reação dele e elas também não, pois ficaram visivelmente sem graça. Uma delas pediu desculpa e rapidamente elas se levantaram para sair dali. Eu só continuei de cabeça baixa encarando meu prato e desejando desaparecer do planeta.
Nós permanecemos por um tempo em silêncio, até que Gabriel já calmo disse com a voz baixa:
— Me desculpa por isso.
— Tudo bem. — respondi soltando um suspiro.
— Não, desculpa mesmo. — insistiu Gabriel. Quando levantei minha cabeça encontrei seu olhar preocupado me encarando, como se tivesse medo de que eu desistisse dessa possível reaproximação, fosse embora e voltasse a ignorar sua existência.
— Essas coisas vão acontecer, Gabriel. Não tem como evitar. — dei de ombros. Não era algo que me agradava, mas também não tinha o que fazer a respeito. — Só ignora, é o que eu vou fazer.
Ele não disse mais nada, até porque não deixei. Apenas me levantei da mesa, peguei minhas coisas e fui embora para casa. Fiquei bastante aborrecida. Não com ele, mas sim com a situação. Ás vezes não consigo entender por que as pessoas são assim. Por que elas estão sempre tão dispostas a falar mal do outro, a apontar o dedo, a jogar pedras. Todo mundo espera por empatia, sem querer ter empatia.
Na quarta eu preferi faltar no colégio para revisar as matérias das provas do dia seguinte. Ter de fazer uma prova de Química e Física no mesmo dia, tendo que me sair muito bem nas duas, estava me deixando apavorada. Felizmente isso deu certo, porque na quinta apesar de eu ter quebrado a cabeça horrores para solucionar as questões, me senti confiante de que tudo daria certo. E bem, se não desse, pelo menos quando cheguei em casa encontrei uma lasanha deliciosa para almoçar. E claro, minha cama aconchegante e quentinha, onde apaguei pelo resto do dia.
Acordei por volta das 18h e me arrastei até a sala onde me joguei no sofá para assistir televisão. Minha mãe ainda não havia chegado em casa. Estava distraída assistindo um desses programas completamente inúteis da MTV, que não acrescentam em absolutamente nada na vida das pessoas, mas que servem exatamente pra isso, apenas para nos fazer esquecer da vida, quando me surpreendi ao receber uma mensagem em um grupo que há muito tempo não era mais usado. O meu, de Leticia e Amanda. E a mensagem era justamente de Amanda.
Amanda — 18h37: Vocês tem fantasia pra amanhã?
O trote. Eu tinha me esquecido completamente da fantasia do trote.
Leticia — 18h38: To tentando arrumar uma, mas aceito ajuda.
Isabelle — 18h38: Não tenho NADA em mente.
Amanda — 18h40: Eu tenho um plano, vocês topam?
Ela contou a ideia e eu achei a fantasia até divertida, mas fiquei um pouco receosa porque não queria vestir a que Amanda queria que eu vestisse e porque nós precisávamos de uma quarta garota, que obviamente ela sugeriu ser a Novata. E não é segredo pra ninguém que eu não suporto a Novata. Mesmo assim acabei cedendo e topei. Fiz isso por Amanda, porque fiquei feliz com sua mensagem, feliz pela sua iniciativa de mostrar que por ela estava tudo bem na nossa amizade mesmo depois de toda nossa bagunça com Gabriel e principalmente feliz com fazermos algo juntas. Foi assim que combinamos nossa fantasia. Porém, Amanda insistiu para nos encontrarmos em uma padaria perto do colégio antes da aula, porque ela queria que chegássemos juntas e porque ela tinha uma novidade para mostrar para nós. Claro que eu fiquei extremamente ansiosa e curiosa para saber o que era.
No dia seguinte acordei mais cedo, me arrumei e fui andando até a padaria que combinamos. Quando entrei no local fiquei absolutamente chocada ao ver Amanda e ver que seus longos fios castanhos estavam agora tingidos de ruivo. Amanda estava ruiva e estava absolutamente linda! Isso porque eu não imaginava que ela pudesse ficar mais bonita do que já era, mas ela estava. Estava completamente e absurdamente maravilhosa.
— Quando você fez isso? — perguntei completamente eufórica. As outras meninas já estavam ali, mas já estavam mais calmas que eu. Eu tava surtando passando a mão por seu cabelo maravilhada e ainda um pouco chocada.
— Ontem depois do colégio. — respondeu Amanda. — Passei a tarde inteira no salão.
— Ficou muito lindo, Amanda. De verdade! Combinou completamente com você!
— Eu queria fazer isso desde o começo do ano, mas tava sem coragem. Só que eu fui no salão fazer uma hidratação, me deu uma vontade súbita de mudar e fiz no impulso. Gostei bastante do resultado.
— Quando você falou eu já sabia que ia ficar bom, mas não imaginei que fosse ficar tão esplêndido. — disse a Novata nitidamente tentando puxar seu saco, a olhei tentando reprimir minha cara de nojo e voltei a atenção para Amanda.
— Ficou parecendo que você sempre foi assim. Tá lindo de verdade! — elogiou Leticia e eu concordei.
Amanda estava visivelmente feliz com sua nova aparência e fiquei bastante feliz por ela. Me deu até vontade de mudar alguma coisa no meu cabelo também. Pelo menos cortar ele tá precisando, porque tem tanto tempo que não mexo no comprimento dele que deve estar há um palmo de alcançar minha bunda.
Depois de já termos surtado, tomado café da manhã e eu ter ignorado completamente a presença da Novata, fomos para o colégio. E se você está curioso para saber do que estávamos fantasiadas, chegamos todas vestidas de Meninas Malvadas. Não era a fantasia mais criativa do dia, mas claramente chamou muita atenção, que era justamente o que Amanda queria. Eu e ela vestidas de Regina George e Cady Heron, depois de termos passado por tanta confusão por causa do mesmo cara, era no mínimo irônico. Nos divertimos bastante com a reação das pessoas.
A primeira pessoa do meu grupo de amigos que vi fantasiada foi Bárbara, ela estava vestida de Hermione Granger, fantasia que eu não poderia ter achado mais ideal para ela. Na sala encontrei Gustavo vestido de Darth Vader e Carol vestida de Lilo carregando um Stitch de pelúcia. E fiquei completamente surpresa, mas extremamente encantada, quando Bruno e Gabriel chegaram vestidos de Woody e Buzz Lightyear, respectivamente. Eles estavam muito fofos.
Aquela sexta serviu para aliviar a tensão de todo mundo com o fim de mais um bimestre. Nos divertimos, rimos, tiramos fotos, cantamos, dançamos e até nos esquecemos de como o colégio pode ser um lugar difícil de se estar ás vezes. Em um determinado momento, quando estávamos sentados na arquibancada assistindo ao show da banda convidada pela diretoria, me flagrei perdida em meus próprios pensamentos lembrando de tudo que vivi esse ano e que agora chegamos realmente na reta final de tudo. Chegou o momento de começarmos a viver incessantemente uma serie de últimas coisas.
— A gente tá pensando em sair amanhã, anima? — convidou Carol trazendo minha atenção de volta para o meu entorno. — Vamos naquele pub em que por acaso você já subiu no palco e causou.
Eu ri numa mistura de constrangimento com saudade de fazer esse tipo de coisa maluca sem pensar muito nas consequências.
— Animo sim. — aceitei.
— Te mando mensagem então pra gente combinar horário direitinho.
***
Era a primeira vez que eu estava saindo com Carol e os meninos desde que nos afastamos e claro, também com Gabriel. Não posso mentir, eu queria estar bonita. Passei 1 hora em frente ao espelho arrumando meu cabelo e fazendo uma maquiagem que destacasse meus olhos. Estava fazendo bastante frio aquela noite, por isso coloquei uma calça e uma blusa preta, joguei uma jaqueta de couro por cima e por fim calcei uma botinha preta de salto.
Minha mãe que também iria sair acabou aceitando me dar carona até o local. Ela e o namorado iam pra um barzinho com uns amigos. É estranho pra mim acostumar com minha mãe saindo tanto, porque graças ao Marcelo agora ela tem uma vida social bem mais agitada. Eles sempre vão a barzinhos e restaurantes. Ela até mesmo fez novos amigos. Mas apesar de estranho eu fico feliz com isso. Fico feliz de ver ela vivendo a vida dela e sendo feliz. Minha mãe é uma mulher bonita, inteligente, independente, empoderada e merece ser e fazer tudo que quiser nessa vida.
Ao me deixar na porta do pub e ver a quantidade de jovens bebendo ou já alcoolizados, obviamente ela me deu um sermão do tipo “se cuida, não beba muito, não deixe seu copo de bebida fora do seu campo de visão, não pegue carona com gente bêbada, não fume, não faça sexo”. Eu só ri e prometi ter juízo. Quando desci do carro encontrei todos já me esperando para entrarmos. Estavam ali Carol, Gustavo, Bruno, Gabriel e até mesmo o pessoal que não via há algum tempo, Luiza, Rafaella, Gabriela e Caio.
Cumprimentei todos e me senti um pouco constrangida sabendo que eles com certeza sabiam sobre o que tinha acontecido comigo e Gabriel, mas felizmente ninguém me tratou diferente ou comentou algo, como por exemplo, sobre eu e Gabriel termos nos tratado numa boa. Muito pelo contrário, foi como se não tivessem se passado meses — e muita confusão.
Assim que entramos fomos direto para o bar. Apesar de quase todo mundo ter optado por beber cerveja, eu resolvi pedir uma caipirinha. Estava me sentindo um pouco tensa e queria me soltar logo. Como chegamos cedo conseguimos pegar uma mesinha alta no meio da pista para colocar nossas bebidas e ficamos por ali conversando e esperando o lugar encher. Não demorou muito para que isso acontecesse.
Estava conversando com Bruno quando uma garota surgiu por trás dele e o deu um beijo no rosto. Ele virou para trás assustado, mas sorriu abertamente ao ver quem era. Uma garota de longos cabelos cacheados, olhos castanhos bem claros e um dos sorrisos mais bonitos que já vi na minha vida. Ela tinha uma beleza diferente que realmente chamava atenção.
— É a garota que ele tá afim. — disse Carol surgindo ao meu lado.
— Ela é muito bonita. — elogiei.
— Sim. E é divertida também. Mas… Apesar da gente zoar ele, acho que ele só tá tão interessado porque ela ainda não transou com ele. Bruno gosta desse negócio de guria difícil.
Faz sentido.
— E a Luiza? — questionei, justamente porque vi ela olhando para os dois e pelo que bem me lembrava eles tem um romance que nunca se resolve.
— Eles não ficam mais. — esclareceu Carol. — Ela finalmente cansou de todo aquele caso indefinido que eles tinham e deu um basta em tudo, tem uns dois meses já. Ela até conheceu um boyzinho novo com quem as coisas estão dando certo.
— Fico feliz por ela.
— Sim. Eu gosto dela e o Bruno juntos, mas não acho que algum dia realmente daria em alguma coisa, eles já passaram por tanta coisa que fica difícil sequer eles mesmos se levarem a sério.
— É foda. — disse antes de dar o último gole em minha caipirinha. Coloquei meu copo já vazio sobre a mesinha em nossa frente e olhei para Carol afim de fazer uma pergunta. — Aproveitando o assunto e sendo um pouco indelicada, e você e o Gustavo, ein? Nunca mais rolou nada?
— Não. — ela respondeu.
— Mas você sente vontade?
— Ah, não vou mentir, ás vezes quando estamos bêbados e tudo mais, bate uma vontade, mas uma recaída não seria bom pra nossa amizade. Acho melhor assim.
Apenas concordei e preferi não falar mais sobre. Não sei até que ponto estou tocando num assunto em que não devo. Da mesma forma que prefiro que não fiquem me perguntando sobre o Gabriel, talvez ela também não goste de falar do Gustavo. Até porque mesmo depois de tanto tempo, ainda é um pouco estranho pra mim estar num rolê com eles separados.
Avisei Carol que iria novamente no bar e dessa vez pedi uma cerveja. Tinha muito tempo que eu não ficava bêbada com destilados e preferi não arriscar justo nessa noite. Assim que o garçom me entregou a garrafinha de Budweiser, agradeci e sorri olhando para ela. Eu parei de beber destilados porque com Vinícius eu acabava sempre bebendo cerveja. Ele me fez aprender a gostar de cerveja e eu jamais imaginei que conseguiria. Peguei meu celular na bolsa, me encostei no balcão e enviei uma mensagem.
Isabelle — 00h34: Eu não te dei permissão pra sumir de mim pra sempre, ok? Esteja avisado.
Não demorou muito para que eu recebesse uma resposta.
Vinícius — 00h36: E quem disse que eu pretendia?
Isabelle — 00h36: Almoço semana que vem?
Vinícius — 00h37: Só me mandar mensagem que te busco.
Guardei meu celular de volta na bolsa, dei um gole em minha cerveja e avistei meu grupo de amigos ao longe, no meio da multidão. Meu olhar parou em Gabriel, rindo de alguma coisa que Gustavo havia dito. Ele estava usando uma calça jeans e uma blusa preta de manga que agora já estava dobrada até na altura de seus cotovelos. Seus cabelos estavam arrumados, coisa que poucas vezes vi nessa vida, mas ele continuava surpreendentemente lindo. Quando percebi já estava rindo sozinha. Uma coisa não dá pra negar, pelo menos eu tenho bom gosto.
Voltei para a roda e a noite seguiu o mais normal possível. A banda começou a tocar e eu passei grande parte do tempo conversando mais com as meninas. Nós conversamos, bebemos, dançamos e nos divertimos bastante. Em um determinado momento Bruno que já estava alcoolizado insistiu em arrastar Gabriel e Gustavo para beijar alguém. Nenhum dos dois queria, mas Bruno não aceitou não como resposta e eles sumiram no meio do aglomerado de pessoas bêbadas. Aquilo devia ser o paraíso para o Bruno, ter seus dois melhores amigos solteiros para meter o louco com ele. Mesmo que nenhum dos dois parecesse realmente dispostos a meter o louco.
Confesso que acabei torcendo para que Gabriel pegasse quantas gurias quisesse, mas que não voltasse para a roda com alguma delas. Apesar de eu estar levantando a bandeira da paz e da amizade, isso me incomodaria um pouco. Quando ele estava com Amanda, eu felizmente não os via se agarrando pelos cantos e não estava preparada para ver ele agarrando alguém agora. Não dá pra ser tão evoluída assim em tão pouco tempo.
Caio, Gabi e Rafa acabaram sumindo também. Sobramos apenas eu, Carol e Luiza. Foi quando as coisas ficaram um pouco desconfortável. Digamos que Luiza encontrou o tal carinha que Carol me contou que ela está ficando e um outro carinha chegou em Carol. Ele era muito bonito e ela ficou bastante tempo conversando com ele, mas percebi que ela acabaria não ficando com ele para não me deixar sozinha. Por isso disse que iria no bar, não queria atrapalhar o role de ninguém. Eu de fato fui e peguei mais uma cerveja, mas não voltei até elas, desviei meu caminho e fui até o fumódromo tomar um ar. Não é muito fácil de fato respirar num pequeno lugar onde todas as pessoas estão fumando, mas do lado de dentro já estava muito quente.
Pra minha sorte o lugar não estava muito cheio e eu encontrei um banco para sentar. Estava rolando o feed do meu instagram e tentando não parecer a pessoa mais solitária do rolê, quando alguém se sentou ao meu lado.
— Não tá se divertindo? — indagou Gabriel.
— To sim. — respondi guardando o celular de volta na bolsa. — Só vim dar uma volta pra Carol poder beijar.
— Ela tá com alguém?
— Sim.
— Que bom, porque o Gustavo também tá. — contou Gabriel. — Tá beijando uma guria que é amiga da bonitinha que o Bruno tá pegando.
— Isso também é estranho pra você? Carol e Gustavo vivendo vidas independentes e tal...
— Com certeza. Mas fico feliz que eles estejam sabendo lidar bem com tudo. Ia ser uma merda se nosso grupo se desfizesse por causa disso.
Apenas concordei e dei um gole em minha cerveja.
— E Gabriel Fornazier tá fazendo o que aqui fora se tá todo mundo beijando? As coisas costumam ser o contrário. — brinquei. — Veio fumar?
— Não to afim de beijar. E não, eu não fumo mais.
O olhei sem conseguir conter minha curiosidade.
— Por que?
— Uma garota me disse que o cigarro tem mais de 4.700 substâncias tóxicas. — respondeu Gabriel e eu gargalhei. Me lembro de ter dito isso para ele na porta da minha casa, a primeira vez que o vi colocar um cigarro na boca.
— Ela me parece ser uma garota bastante sensata.
— E é. — ele concordou me lançando um sorriso que fez com que eu me perdesse por alguns segundos. Fiquei até sem graça quando percebi que o estava encarando. Desviei meus olhos e só então reparei que ele estava segurando uma garrafinha de água em mãos.
— Você não tá nem bebendo? — questionei.
— Não, eu vim dirigindo, então já parei por hoje. — esclareceu Gabriel.
— Não sei se começo a ficar preocupada ou orgulhosa desse novo Gabriel todo mudado e responsável.
— Uma hora a gente tem que amadurecer né.
Eu não acreditaria se alguém me dissesse semanas atrás que hoje estaria com Gabriel em um rolê, como se fossemos velhos amigos e nada nunca tivesse acontecido entre a gente. Nós voltamos para dentro e como as meninas arrumaram coisa melhor para fazer, vulgo beijar, e Bruno e Gustavo desapareceram, foi ele que acabou me fazendo companhia pelo resto da noite. Quando passou das 4h decidimos ir embora e ele ofereceu carona para mim e Carol, já que aparentemente o céu de Curitiba estava desabando em água.
— Você vai pra casa da sua mãe ou do seu pai? — indagou Gabriel dando partida no carro assim que deixamos Carol e nos certificamos que ela já havia entrado em casa em segurança.
— Infelizmente da minha mãe, porque to morrendo de fome e lá não vai ter nada pra comer.
— Quer comer alguma coisa? Eu também to com fome. A gente pode passar no drive thru do Mc Donald’s.
Eu pensei em negar porque não queria incomodar, mas se ele também estava com fome não tinha motivo pra eu perder essa oportunidade.
— Minha boca chegou a salivar só de imaginar um Cheddar McMelt. — admiti fazendo ele rir.
Gabriel dirigiu até o Mc Donald’s do Batel que para nossa alegria é 24 horas, mas que para nossa tristeza costuma estar sempre lotado nas madrugadas de sábado. Enquanto aguardávamos na fila tomei a liberdade de conectar meu celular no som e colocar uma playlist qualquer para tocar que preencheu o ambiente e acabou com o silêncio entre nós.
— Você vai comer o de sempre? — perguntou Gabriel de repente.
O olhei com curiosidade.
— O que seria o meu de sempre?
— Um Cheddar McMelt sem cebola, com batata e Fanta Laranja. — respondeu Gabriel prontamente e me deixando perplexa por ter acertado. O que ele percebeu pela minha cara, mas deu de ombros. — Eu prestava atenção em você, Isabelle.
Eu fiquei um pouco constrangida ao ouvi-lo dizer isso, porque era a segunda vez essa semana que ele mostrava que reparava nas minhas manias e eu não imaginava que Gabriel prestasse atenção em coisas como o que eu gosto de comer. Na verdade, eu não imaginava que Gabriel prestasse atenção em qualquer coisa relacionada a mim. Ao chegar nossa vez ele pediu nossos lanches, no caso meu Cheddar e um Big Mac, com batata e coca-cola para ele. E apesar de eu ter insistido muito para pagar o meu, foi ele quem pagou tudo.
— Sabia que o Big Mac é o lanche mais pedido do Mc Donald’s? — comentei assim que ele entregou as sacolas com os lanches para que eu segurasse e ele pudesse dirigir. — O que eu nunca vou entender já que ele tem picles e cebola, as duas piores coisas do planeta.
— Picles e cebola não é ruim, você que é chata pra comer. — rebateu Gabriel.
— Mesmo que eu seja, por que as pessoas preferem pedir um Big Mac se podem pedir um Triplo Burger Bacon?
— Ele também tem cebola.
— Mas tem três hambúrgueres e bacon. — argumentei.
E assim nós fomos o caminho todo até minha casa, que na verdade não dava nem dez minutos, discutindo sobre quais são os melhores sanduíches do Mc Donald’s e comendo nossas batatinhas. Quando chegamos ele estacionou o carro em frente ao meu portão e nós pegamos os sanduíches para comer. Estava na esperança de que em algum momento a chuva diminuísse e eu não tivesse que me encharcar para entrar em casa.
— Que playlist é essa que só tocou hinos clichês da bad? — perguntou Gabriel.
Era uma sequência só com essas músicas de rock que todo mundo conhece e em algum momento da vida já cantou embriagado num rolê: The Reason, Here Without You, I Don't Want To Miss A Thing, She Will Be Loved e outras.
— É minha playlist pra chorar em posição fetal. — brinquei. — E eu tenho muito orgulho dela.
Gabriel riu e então ficamos em silêncio por um bom tempo, até que ele mesmo o quebrou.
— Obrigado por hoje. Eu me diverti muito. — ele agradeceu. — Senti muita saudade de sair com você pra beber. Na verdade pra fazer qualquer coisa.
Eu apenas sorri, porque nem deu tempo de responder. De repente começou a tocar a próxima música da playlist que era Always do Bon Jovi e o Gabriel se empolgou cantando. Quando percebi, eu também estava cantando.
Ali naquele carro, com a chuva caindo do lado de fora, cantarolando as músicas mais clichês possíveis, me esqueci por um instante do resto do mundo e me permiti me divertir sem receios. Não muito tempo depois decidi entrar antes que ficasse tarde demais. Me despedi de Gabriel com um beijo na bochecha e corri para dentro de casa tentando fugir dos pingos gelados da chuva, o que não adiantou já que me molhei de qualquer forma. Tomei um banho quente antes de me deitar e por fim dormi me sentindo incrivelmente leve.
***
Segunda-feira, dia 30 de setembro, último dia do mês, tive uma ótima conversa com minha nova psicóloga. Contei sobre minha reaproximação de Gabriel que até então estava sendo uma boa experiência, apesar de casos como o da lanchonete do colégio. Desabafei sobre como percebi que se eu ignorar tudo o que as pessoas pensam e toda a maldade que elas colocam nas coisas, eu e Gabriel talvez conseguiríamos ser maduros o suficiente para sermos amigos e simplesmente deixar o passado pra lá. Nós aprendemos muito um com o outro, talvez seguirmos em paz não seja uma coisa ruim. Carina ficou muito satisfeita com tudo que relatei e me incentivou a continuar assim. Acabei saindo da terapia pensando que apesar de sentir falta de Lisa eu gostei muito dela, acho que vamos nos dar bem.
Até quarta-feira já havíamos recebido o resultado de todas as provas e eu fui incrivelmente bem em todas elas, inclusive nas de exatas. Fiquei extremamente feliz pelo meu esforço ter valido a pena e principalmente por não ter mais que ficar no colégio o dia inteiro. Apesar de que essas aulas extras me ajudaram tanto que comecei a pensar que não seria uma má ideia continuar indo nelas até os vestibulares passarem.
Estava tão empolgada que até mandei mensagem para Vinícius, a pessoa que mais me incentivou e teve paciência comigo durante esse bimestre.
Isabelle — 11h36: Adivinha quem conseguiu recuperar todas as suas notas :D
Vinícius — 11h38: Parabéns!!!! Eu sabia que você conseguiria!
Isabelle — 11h39: Obrigada!! Anima aquele almoço hoje?
Vinícius — 11h42: Claro! Te busco aí no fim da tua aula, pode ser?
Isabelle — 11h42: Pode sim.
O restante da aula passou rápido e eu fui para a porta do colégio com os meninos esperar por Vinícius. Eu e Gabriel andando juntos continua causando extremo estranhamento. Avistei até Bianca nos encarando com sua maior cara de nojenta, mas isso é tudo que ela tem feito. Desde que Amanda a ameaçou ela nunca mais sequer chegou perto de mim.
Vinícius, como sempre, não demorou a chegar. Assim que entrei em seu carro ele me recebeu com o mesmo sorriso largo de sempre. Estava com o cabelo molhado como se tivesse acabado de tomar banho, usando uma camiseta e bermuda, além do seu perfume que eu já tinha até me acostumado com o cheiro. Nós fomos almoçar no mesmo restaurante de massas que fomos pouco antes de pararmos de ficar. Eu tinha realmente gostado de lá.
— Não teve aula hoje? — perguntei após fazermos nossos pedidos.
— Não e nem terei, meu professor tá em um congresso em outra cidade. — explicou Vinícius.
— Que vida boa, ein!
Me senti feliz em saber que ele tinha topado sair de casa pra me ver, mesmo podendo tirar o dia pra descansar. No começo conversamos sobre coisas banais como meu colégio, sua faculdade, como estão nossas vidas, o que temos feito. Mas claramente, acabamos chegando no assunto: vida amorosa.
— Eu conheci uma bixete massa. — ele contou.
— Então é isso, a gente mal termina e você se joga nos braços de alguma bixete que provavelmente já tava flertando contigo desde a semana de recepção quando ainda estávamos juntos? — brinquei me fingindo de magoada. — Achei que você fosse diferente, Vinícius!
— Vai se foder! — respondeu Vinícius dando uma gargalhada. — Você me dispensou e eu tinha que curar minha dor de cotovelo!
— Tá, eu te perdoo. Agora conte-me mais sobre isso.
— A gente ficou numa festa, começamos a conversar por rede social e toda vez que nos vemos acaba rolando uns beijos. Até pensei em chamar ela pra sair porque ela é bem de boa e tudo mais, mas eu to achando que preciso dar um tempo de me envolver com outras pessoas.
— Eu vou ser obrigada a concordar. — admiti. — Você precisa curtir mais sua faculdade, ir em festas, beijar pessoas, fazer umas loucuras, ter umas histórias pra contar. Desde que chegou aqui ou você tava envolvido com a Valentina ou comigo.
— Pois é. E mesmo quando cheguei ainda vim com toda a história da Maryna na cabeça.
Quando o nome de Maryna foi mencionado senti uma imensa vontade de perguntar se ele tinha pensado sobre o que eu tinha falado, mas não queria deixar o clima tenso ou constrangedor. Porém, nem precisei perguntar, porque ele mesmo resolveu falar do assunto.
— E falando em Maryna… — ele começou a dizer, fazendo um leve suspense. — Eu conversei com ela.
— E aí? — perguntei bastante curiosa.
— Obviamente eu fiquei com tudo aquilo que você me disse na cabeça e quando nos encontramos em uma festa acabei puxando ela pra conversar. Falamos abertamente sobre tudo que tinha acontecido naquela época, o que sentimos, o que pensávamos. Eu finalmente desabafei que me senti extremamente magoado, que amava ela, tinha planos pra nós dois e uma caralhada de coisas, ela também me falou o lado dela e enfim conseguimos nos entender. Foi muito bom pra nós. Mas aí eu que claramente já tava bêbado, confessei que ainda sentia vontade de ficar com ela de novo e que se passou muitas vezes pela minha cabeça se agora já mais maduros, com cabeças diferentes, bagagens diferentes, não daríamos certo de novo.
Ele parou de falar e eu quase tive um treco querendo saber o resto da história.
— O que aconteceu? O que ela disse? Conta, Vinícius! — insisti.
— Nós ficamos. Não só ficamos, nós transamos.
Morta.
— Ela dormiu na minha casa e passamos uma semana nos vendo todo dia. Convivendo, conversando sobre nossa vida de agora, nossos planos, sonhos, objetivos… — ele prosseguiu. — E foi assim que descobrimos que somos só passado mesmo. Nos tornamos pessoas muito diferentes. Sério. Eu não consegui sentir de novo tudo aquilo que sentia, sabe? Não rolou aquela conexão que tínhamos. Foi como estar com qualquer outra pessoa e não com a Maryna. Porque de fato não é mais ela, não aquela Maryna. E eu também não sou mais aquele Vinícius. Porém, eu queria te agradecer, de verdade, por ter me ajudado a encerrar essa história. Foi como tirar um peso das minhas costas que eu nem percebi que estava carregando.
— Depois de tudo que você já fez por mim, fico feliz de ter te ajudado pelo menos uma vez.
Eu sinto uma paz interior imensurável quando consigo ajudar as pessoas que amo, mas conseguir ajudar Vinícius fez com que eu me sentisse incrivelmente bem. Eu realmente só tenho a agradecer por tudo que ele foi e é pra mim desde o dia em que nos conhecemos. Queria conseguir retribuir.
— Mas e você? — indagou Vinícius mudando de assunto. Na verdade nem tanto. — Como tá lidando com o Gabriel?
Eu me senti um pouco constrangida por falar disso, mas se ele tinha sido tão sincero comigo, o mínimo que eu devia fazer era ser sincera também.
— Eu voltei a conversar com ele — contei fazendo uma leve careta. Não sabia qual seria sua reação. — Como eu te disse, eu tinha muita pendência pra resolver e logicamente ele era uma delas. Eu voltei a conversar com meus amigos, tenho voltado lentamente a viver minha antiga vida, a me sentir bem no colégio e tudo mais, aí conversando com minha psicóloga, ela me incentivou a tentar conviver com ele normalmente. É o que eu tenho tentado fazer.
— E tem dado certo?
— Incrivelmente sim.
— Mas como você tá em relação a isso? Vai ser só amizade?
Eu não tava esperando por essa pergunta.
— Com certeza. — respondi meio sem graça. — Só quero conseguir não ficar carregando mágoa dele pro resto da minha vida.
— Acho justo. Tem todo meu apoio.
Conversar com o Vinícius foi tão bom que acabamos enrolando o máximo possível no restaurante. E toda essa história de encerrar ciclos ainda abertos do passado, me fez lembrar de uma pessoa com quem não falo há tempos. Arthur. Eu tenho sentido que preciso conversar com ele, mas não sei como, nem quando seria o melhor momento. Não acho que no colégio seja o melhor lugar, mas também não posso resolver isso por mensagem e não tenho coragem de simplesmente aparecer na porta da casa dele. No dia seguinte o vi no colégio durante o intervalo, até pensei em ir até ele e chamá-lo pra sair pra tomar um suco ou qualquer coisa desse tipo, mas me pareceu ridículo. Ou talvez, eu só esteja com medo de ele me mandar tomar no cu. Digo, o cara foi incrivelmente legal comigo e eu nunca mais olhei na cara dele. Fora todos os surtos que já tive quando o assunto era nós dois.
Estava sentada na arquibancada da quadra durante o horário de Educação Física, pensando em tudo isso, quando Gabriel se aproximou.
— O que está te afligindo? — ele perguntou se sentando ao meu lado. — Problemas com o namorado?
— Namorado? — estranhei.
— Ué, o Vinícius.
De primeira eu não entendi do que ele estava falando, fiquei o olhando com cara de confusa por uns bons segundos até conseguir ligar os pontos. Eu me lembrei que Vinícius havia me buscado na porta do colégio e levando em consideração que Gabriel não sabe nada da minha vida pessoal atualmente, muito menos da minha vida amorosa, ele deve ter interpretado tudo errado e achado que estou com o Vine até hoje. Até dei uma risadinha pela situação.
— Não, Gabriel, ele não é meu namorado. — esclareci. — Nós somos amigos agora. Preferimos que fosse assim.
Ele arqueou as sobrancelhas meio surpreso, mas assentiu como quem entendia. Gabriel voltou sua atenção para a quadra e eu abri minha mochila procurando pelo livro que tem me acompanhado nos últimos dias.
— Que livro é esse que você tá lendo? — questionou Gabriel tentando olhar a capa.
— Felicidade Clandestina da Clarice Lispector, é um dos livros exigidos pro vestibular. — respondi deixando que ele o visse.
— Eu por enquanto só li os que o professor de Literatura trabalhou com a gente, preciso urgentemente começar a ler o resto.
— Pois é, to fazendo isso antes que fique muito em cima da hora.
Só de pensar nas zilhões de provas que terei pela frente e na quantidade de conteúdo que preciso decorar já me bate desespero.
— Qual o seu livro favorito? — indagou Gabriel parecendo bastante curioso.
— Acho que não consigo escolher um favorito. — respondi sendo sincera. — Mas tem um que me marcou bastante, é o livro mais antigo que tenho a memória de ter lido. Quando minha mãe engravidou de Natália ela resolveu deixar toda sua vida de lado e se dedicar a ser mãe, porque ela não queria ser uma mãe ausente. E como ela também não queria que Natália fosse filha única, nem que seus filhos tivessem uma diferença grande de idade, logo em seguida ela engravidou de mim. Foi só quando eu já estava com dez anos que ela decidiu que queria ser mais na vida, voltar a trabalhar e ter sua independência, foi então que ela voltou para a faculdade pra fazer uma pós-graduação. Eu que nunca fui muito normal, gostava de ir com ela pras aulas pra ficar na biblioteca lendo. E um dia, eu encontrei um que se chamava “Não se esqueçam da Rosa”.
“Ele conta a história de uma menina chamada Hanako que tem treze anos, sonha em ser escritora e é fã da Anne Frank. Poderia ser uma história normal, mas não é. É uma história sobre a destruição causada pela explosão da bomba atômica em Hiroshima. Hanako sofre de osteopatia, uma degeneração progressiva dos ossos e que é uma doença de origem genética. Ela a tem porque as células reprodutoras de seu pai foram afetadas pela radioatividade a que estiveram expostas durante a explosão da bomba. E aí sem saber ao certo quanto tempo ela ainda tinha de vida, Hanako começa a escrever em seu diário as reflexões que faz sobre as guerras e suas vítimas. Quando eu li fiquei extremamente tocada pela história e chorei por horas. Foi exatamente por causa desse livro que comecei a escrever meus próprios diários.”
— Por causa de um livro relacionado a segunda guerra mundial. — admirou Gabriel. — Enquanto eu fui aprender direito sobre ela só no fim do ensino fundamental.
— Eu tenho muita sorte de ter me encontrado na literatura desde cedo. Posso afirmar com toda certeza que os livros que eu lia moldaram totalmente quem eu sou hoje.
— E você definitivamente é a pessoa mais incrível que já conheci. — disse Gabriel como se não tivesse dito nada demais. Eu sorri. — Eu não fui uma criança tão interessante quanto você. Apesar de eu gostar de ler, meu lance era a música. Desde muito novo eu queria aprender a tocar todos os tipos de instrumentos possíveis. Fiz aula de violão, guitarra, teclado, bateria. Meus pais tinham muita paciência com a barulheira que eu aprontava pela casa.
— E você ainda gosta de tocar?
— Eu nunca mais toquei nenhum instrumento depois que Alice morreu. Música não era só o meu lance, era o nosso lance. Ela também gostava de violão e nós fazíamos aula juntos. No meu aniversário desse ano, logo depois de tudo que você sabe que aconteceu, Lisa me deu um vale presente de uma loja de instrumentos. Era um violão. Eu resolvi buscá-lo na loja depois de uma noite em que você dormiu comigo pela primeira vez na minha casa e quando viu minhas guitarras na parede pediu pra eu tocar pra você. Eu senti vontade, mas assim que segurei ele nas mãos em casa desisti.
Uma coisa que sempre me doeu é ouvir Gabriel falar sobre tudo que ele gostava de fazer e nunca mais fez depois da morte de Alice. É como se existissem dois Gabrieis, um de antes desse acontecimento e um de depois.
— Eu queria ter conhecido ela. Pelo que você fala, ela devia ser uma garota incrível.
— E era. Tenho certeza que vocês teriam se tornado melhores amigas.
Ás vezes fico imaginando como as coisas seriam se Alice ainda estivesse aqui. Quem seria Gabriel, se as coisas teriam sido mais fáceis, se teríamos dado certo, se poderíamos ter sido um casal normal e eu seria a melhor amiga da minha cunhada.
— Eu ainda quero que você toque pra mim algum dia. — contei.
— Eu toco.
— Promete? — pedi. E me surpreendi quando ele sorriu e respondeu.
— Prometo.
***
Era sexta à noite e eu estava jogada na minha cama com meu notebook no colo, procurando por um filme bom há aproximadamente meia hora sem obter sucesso em minha procura, quando recebi uma mensagem. Me estiquei preguiçosamente pela cama para alcançar meu celular e avistei o nome de Gabriel na tela.
Gabriel — 21h42: O que você tá fazendo?
Isabelle — 21h42: Nada, por que?
Gabriel — 21h43: Se eu resolvesse passar na porta da sua casa agora, você sairia pra conversar comigo um pouco?
Isabelle — 21h44: Acho que sim.
Gabriel — 21h45: Bom, então pode sair, porque eu to aqui fora.
Me surpreendi com sua resposta. Não entendi o que Gabriel estava fazendo ali, mas eu só descobriria se fosse até lá. Me levantei da cama morrendo de preguiça, coloquei um casaco mais pesado porque estava ventando muito do lado de fora e saí para encontrá-lo. Ele estava sentado na calçada, próximo a um carro estacionado que reconheci ser de sua mãe. Caminhei até ele.
— O que te traz até aqui? — perguntei me sentando ao seu lado.
— Eu tava precisando me distrair um pouco. — respondeu Gabriel sorrindo para mim. Sorri de volta. — Foi mal por te atrapalhar.
— Relaxa. Você me salvou de continuar rodando o catálogo da Netflix por mais meia hora. — brinquei e ele riu. — E está precisando se distrair do que exatamente?
— O divórcio dos meus pais deu certo. — ele contou. — Eu, minha mãe e Babi vamos nos mudar de casa domingo. Como você sabe, meus pais tem muita grana e nesse caso os divórcios costumam ser um pouco mais complicados. Meu pai tem três imóveis, a casa que a gente mora e mais dois apartamentos. Um no nome do Henrique, que é o que ele mora atualmente, e um no meu nome. Eu não sabia sequer da existência desse apartamento, muito menos dessa questão de ser meu, mas minha mãe me contou que eles haviam comprado há um tempo e que seria meu presente de 18 anos. Eu confesso que fiquei um pouco abalado porque meu pai nunca mais demonstrou carinho por mim desde a morte da Alice e mesmo assim me comprou um apartamento, mas enfim, não é a questão.
“Surpreendentemente, meu pai concordou com minha mãe que eles não mexeriam no que tá no nome dos filhos e então começou a briga pela casa. Minha mãe queria ficar com ela, até porque foi ela que projetou, mas ela custa uma fortuna e meu pai não abriria mão nem a pau. Depois de muita briga eles finalmente fizeram um acordo de que ele compraria uma casa nova para ela e ficaria com nossa atual.”
“Nós começamos a procurar por algum lugar que nos agradasse, o que acabou virando o passatempo preferido de Babi. Ela tava amando ir visitar os imóveis e ficar planejando como será seu quarto novo. Por fim minha mãe resolveu que seria melhor nos mudarmos para um apartamento, por ela achar mais seguro e porque ela não queria nada muito grande, ela queria algo mais simples e confortável, que parecesse um lar de verdade. Aí depois de visitarmos um milhão de lugares, encontramos um apartamento aqui no Batel e vamos nos mudar.”
— Isso tá te incomodando? Ter que sair de casa? — perguntei.
— Não. Quer dizer, no começo incomodou um pouco. Teve um dia em que eu sentei na varanda de casa e fiquei chateado porque eu e meus irmãos crescemos ali. Pra todo lugar que eu olhava me vinha uma lembrança diferente. Eu senti medo de perder todas essas memórias, mas percebi que elas estarão sempre comigo. E aquele lugar deixou de ser um lar há muito tempo, eu acho que tá na hora da gente se mudar pra um de verdade. Um lugar onde a gente se sinta bem e feliz.
— Eu acho que vai fazer muito bem pra todos vocês, de verdade. — falei. — Recomeçar é sempre uma oportunidade de construir coisas novas, inclusive memórias, ainda mais lindas e melhores.
Ele concordou.
— Mas… Tem algo te incomodando. Você quer me contar o que é? — insisti.
Gabriel ficou pensativo por um tempo e eu até pensei que não me responderia, mas ele soltou um suspiro e me olhou.
— Você pode vir comigo até um lugar? — ele pediu. — Eu não conseguiria te explicar, só mostrar.
Eu fiquei um pouco relutante, mas assenti. Resolvi nem avisar minha mãe que estava saindo, porque ela estava há horas trancada no quarto tentando resolver questões do trabalho. Nós entramos no carro e Gabriel começou a dirigir rumo a algum lugar que eu só descobriria em breve. Ele parecia um pouco nervoso, sua mandíbula estava travada e seus dedos batiam impacientemente sobre o volante.
Fiquei um pouco confusa quando entramos em seu condomínio e percebi que estávamos indo até sua casa. Ele não disse nada enquanto descemos do carro, nem quando entramos. Gabriel me guiou por entre os corredores daquela enorme mansão e de repente paramos em frente a uma porta fechada. Ele pareceu receoso em abri-la e eu entendi o motivo no instante em que entramos. Eu demorei um pouco para entender onde estava, mas entendi. A princípio me pareceu um quarto normal. Com uma cama no centro, um guarda-roupa com portas espelhadas, uma estante cheia de livros, uma escrivaninha e muitos pôsteres de bandas e fotos coladas na parede. Foi quando me aproximei das fotos que vi um rosto angelical em todas elas.
Olhei para Gabriel tentando formular a pergunta para qual já havia descoberto a resposta, mas a frase custou a sair da minha boca.
— É o quarto dela? — indaguei. Ele apenas assentiu.
Eu estava dentro do quarto de Alice. Intacto. Como se ela nunca tivesse morrido. Como se estivesse ali por todos esses anos. Senti um arrepio percorrer meu corpo e uma espécie de angústia ao percorrer cada canto daquele lugar com meus olhos.
— No começo eu entendi que fazia parte do luto, apesar de eu ter demorado muito pra conseguir pisar aqui dentro de novo. — Gabriel começou a dizer. — Depois começou a me parecer doentio, porque minha mãe fazia as empregadas limpá-lo todos os dias e ainda acender um incenso, porque era uma mania que Alice tinha. Aí com o tempo eu me acostumei com a ideia, mesmo ainda me parecendo estranho. Até peguei o hábito de vir aqui quando a saudade batia e parecia que ia me sufocar.
“Mas agora que nós vamos nos mudar, ela finalmente decidiu que é hora de sumir com tudo isso. Ela pegou todas as lembranças que queria e até Babi e Henrique pegaram algumas coisas, mas ela me deixou a missão de decidir o que levaremos ou não para a casa nova. Os livros nós vamos levar todos, as roupas e sapatos que sobraram ela vai doar, os móveis também devem ser doados ou deixados pro meu pai reaproveitar, mas os objetos é pra eu decidir. Só que…”
A frase morreu em sua garganta e sinceramente, não precisei que ele terminasse. Eu entendi o que ele estava sentindo.
— Eu sei. — foi tudo que eu disse. Ele sorriu para mim.
— É muito difícil fazer isso. — admitiu Gabriel se sentando na beirada da cama. — Tem as fotos, fichários do colégio, bilhetes, pôsteres de bandas que ela amava…
— Você não precisa se desapegar de tudo agora, Gabriel. — aconselhei me sentando ao seu lado. — Até porque o simples fato de você estar fazendo isso já é um grande passo. Eu estou muito orgulhosa de você. Você pode levar tudo que quiser e num futuro se desfazer do que não tiver sentido mais. Não precisa ser algo tão radical.
— Pior que eu não sei nem por onde começar.
— Eu posso te ajudar, que tal? — ofereci. Ele deu um sorriso de canto de boca, mas não parecia convencido de que fosse uma boa ideia.
— Você não precisa fazer isso por mim.
— Não preciso, mas eu quero. — afirmei. Se eu podia de alguma forma tornar aquele processo menos doloroso para ele, eu com certeza ajudaria.
Nós nos sentamos no chão, pegamos algumas caixas e começamos a guardar uma por uma das coisas que Gabriel decidiu que levaria. Ali naquele momento foi como se eu tivesse conhecido Alice. A cada foto e objeto que guardávamos, Gabriel me contava uma história diferente. Ele me contou sobre sua personalidade, do que ela gostava, o que ela fazia, quem eram seus amigos, os caras por quem ela se apaixonou, os momentos que viveram em família. Ele foi me contando toda sua história e claramente, não conseguiu segurar o choro. Algumas lágrimas desciam involuntariamente por seu rosto e ele limpava depressa tentando disfarçar. Aquilo doeu em mim, porque só então eu realmente entendi a dor de Gabriel.
Foi lendo cartas de suas melhores amigas, vendo anotações de trechos de músicas, bilhetinhos de amor trocados, pensamentos anotados em folhas soltas, que percebi que para mim Alice é apenas uma imagem distante, mas ela era uma garota real. Com sonhos, planos, sentimentos. Com amigos, família e a promessa de uma vida inteira pela frente. Ela era uma simples garota, que assim como qualquer outra pessoa, não esperava que sua vida fosse terminar tão cedo, tão de repente. Alguém que deixou para trás dezenas de histórias inacabadas.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Me lembrei de meu avô e de como era a sensação de visitar minha vó e ver pedaços dele deixados pela casa, em um disco, um cinzeiro, uma caneca de café, uma poltrona. Coisas simples, mas que faziam parte do que ele era. Me lembrei de como é difícil ver essas coisas e perceber que tudo ainda está ali, menos ele. E então eu olhei para Gabriel. Ela estava com ele todos os dias, todos os momentos. E agora haviam marcas e pedaços de Alice por toda parte, mas principalmente, em Gabriel. E ele precisava lidar com elas, sabendo que ela nunca mais estaria ali.
Aquele foi definitivamente um dos momentos mais fortes que já vivi em toda minha vida. Tudo ali era como um quebra-cabeça, que somadas as partes, se transformava em Alice. E por um breve momento foi como se eu pudesse vê-la ali. Para Gabriel, aquela devia ser a dor mais difícil de se enfrentar.
— É tão injusto, sabe? — disse Gabriel quase num sussurro. — Eu perdi tudo.
Eu não sei quando foi que aconteceu, mas quando percebi as lágrimas estavam descendo pelo meu rosto. Eu não queria que ele me visse chorando, mas eu simplesmente não conseguia parar. Enquanto eu tentava desesperadamente limpar meu rosto e me recompor, ele acabou rindo, mas sua risada morreu no meio de um choro.
— Eu sinto muito, Gabriel. Sinto muito de verdade. — disse, porque eu sentia mesmo, sentia de verdade, porque eu finalmente entendi que eu jamais chegaria perto de saber quão grande realmente é a dor que ele foi obrigado a sentir. Principalmente por tudo ter sido tão difícil para ele. Gabriel não perdeu só Alice. Gabriel perdeu o pai e momentaneamente perdeu a mãe. Gabriel perdeu toda a estrutura de sua vida e teve de ser forte o suficiente por Babi, por Henrique. Gabriel perdeu tanto ao mesmo tempo em que teve de ser tanto, que eu não sei se no seu lugar teria suportado. Ele tinha uma família linda, unida, feliz e que o amava, quando literalmente do dia pra noite viu seu mundo desabar e perdeu tudo.
Eu ter começado a chorar foi a gota d’água para que ele também desabasse. Num impulso fui até ele e o abracei. Apenas o abracei forte e permiti que ele chorasse baixinho com a cabeça escondida na volta do meu pescoço. Era o mínimo que eu podia fazer depois de ele me permitir estar ali, num dos momentos mais íntimos de sua vida. Num momento tão importante para ele. E quanto mais eu pensava sobre isso, mais meu coração se apertava. Gabriel estava ali, completamente vulnerável, e eu estava ali porque ele precisava que alguém estivesse. E dentre todas as pessoas que ele poderia ter procurado, ele quis que eu estivesse com ele nesse momento. Eu.
Ultimamente tenho tentado agir em grande parte do tempo com a razão, na esperança de agir de forma correta e tomar as decisões certas. Mas parte da essência de ser quem eu sou é que meu coração sempre falou mais alto que a razão. Naquele momento, eu resolvi só por um momento me permitir fazer o que meu coração queria. Por isso eu me afastei o suficiente apenas para que pudesse enxergar seu rosto e olhar nos seus olhos vermelhos, inchados e tão expressivos. Eu limpei cada uma de suas lágrimas enquanto ele me observava e então olhei no fundo dos seus olhos antes de passar minha mão sobre eles fazendo com que ele os fechasse. Foi então que lentamente eu me aproximei e encostei meus lábios nos seus. Eu confesso que não sabia muito bem o que estava fazendo e ele nitidamente se surpreendeu com minha atitude, por isso acabamos dando apenas um selinho. Mas eu não me afastei, muito menos ele.
Eu abracei seu pescoço e por um tempo permanecemos com as testas coladas, apenas sentindo a respiração descompassada um do outro. Mas quando ele apertou os braços ainda mais ao redor do meu corpo, como se suplicasse para que eu não saísse dali, sem hesitar eu procurei novamente por sua boca e dessa vez o beijei de verdade. Eu não achava que me arrependeria daquele beijo, mas sabia que ele não podia e nem deveria acontecer de novo, por isso foi um dos beijos mais longos e carregado de emoção que já demos. Porque ele também sabia disso.
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