Poltrona 19

56 5 Minutos Antes da Ordem do Dia


Notas iniciais
Oi, meus anjos! Aqui estou com um capítulo novinho escrito com muitas lágrimas pois sou sentimental sim. Sério, muitas lágrimas. Eu não sei como vai ser pra vocês, mas estou ansiosa para descobrir. E se eu puder pedir algo pra vocês é: leiam ouvindo alguma música triste pra já preparar o coraçãozinho. Eu escrevi ele quase todo ouvindo Always do Gaven James e Already Gone do Sleeping At Last. Boa leitura a todos!!!!!!!

O beijar causou em mim sensações que há muito tempo eu não sentia. Exatamente tudo que eu só sentia quando beijava Gabriel. Talvez seja isso que ainda me doa, saber que talvez eu nunca mais vou sentir com alguém tudo que ele me fazia sentir. Talvez porque eu nunca mais vou sentir por alguém tudo que senti por ele. Não que eu acredite que nunca mais vou amar alguém de novo, mas porque tenho aprendido cada vez mais que amamos cada pessoa de uma única e diferente maneira.

Quando nós percebemos que não dava mais para prolongar o beijo e finalmente nos separamos, eu não consegui olhar em seus olhos e não desejar esquecer de tudo para puxá-lo de volta para mim. Ser racional é muito difícil às vezes. Mas apenas desviei meus olhos e procurei por qualquer coisa para dizer que pudesse cortar o clima constrangedor que ficou. Porém, não fui eu quem disse a primeira frase.

— Obrigada, Isabelle. — ele sussurrou. Tive a sensação de que não era pra ser um sussurro, mas sua voz não saiu tão clara. — Por tudo.

Minha resposta foi um sorriso sincero.

— Nós conseguimos guardar bastante coisa. — disse olhando as caixas ao nosso redor. — Acho melhor você continuar amanhã. Já foi muita sobrecarga emocional pra um dia só e eu preciso ir embora, minha mãe não sabe que estou aqui.

Ele concordou e se levantou ajudando com que eu também me levantasse. Foi quando vi no reflexo do espelho o quanto meu rosto estava vermelho. Nem percebi que havia chorado tanto, mas estar ali e toda aquela situação realmente mexeu comigo.

Apesar de eu ter achado que seria melhor chamar um taxi para ir pra casa, Gabriel insistiu em me levar e eu acabei cedendo. Nós seguimos o caminho todo em silêncio, nem mesmo o som ligamos. Tudo que se ouvia era o barulho do motor e do que acontecia nas ruas do lado de fora daquele automóvel. Vez ou outra me pegava olhando disfarçadamente para ele desejando mais que qualquer outra coisa saber o que estava se passando em sua cabeça, porque a minha estava uma confusão.

Assim que estacionamos na porta da minha casa, eu percebi que precisava tomar coragem para esclarecer as coisas. Afinal, fui eu quem havia o beijado.

— Gabriel, sobre o que aconteceu… — comecei a dizer, mas ele me cortou.

— Eu sei. — disse Gabriel. — Não vai acontecer de novo. Foi só… um acidente. Não se preocupe.

Eu apenas assenti. Queria dizer mais, mas não sabia o que dizer. Me inclinei e dei um beijo em sua bochecha.

— Boa noite. — desejei antes de sair do seu carro e atravessar o portão de entrada da minha casa. Quando deitei em minha cama, em uma ação involuntária toquei meus lábios. Senti um misto de emoções que não soube decifrar. Sabia que aquele seria nosso último beijo, mas desejei profundamente que não fosse. Adormeci relembrando as dezenas de vezes em que não precisei sentir culpa por ter seus lábios nos meus.

Apesar de ter recebido convites para sair, passei o fim de semana todo com minha família. Estava precisando de um tempo com eles. No sábado saí para almoçar com minha irmã no shopping, depois fomos ao cinema e fizemos compras. No domingo, a família toda foi almoçar na casa de minha avó. Minha mãe tem tentado convencê-la a se mudar para nossa casa, porque não gosta da ideia de ela ficar sozinha em casa, mesmo que a família a visite todos os dias e que a empregada que trabalhava pra ela anos atrás tenha voltado a trabalhar todos os dias. Eu também não gosto muito dessa ideia, mas ela se nega a sair da casa onde viveu com meu avô e a verdade é que eu também não consigo me imaginar tendo de dizer adeus a casa que frequento desde criança. Aquele sempre foi um lugar de refúgio para mim.

Na segunda eu me senti apreensiva ao me arrumar para ir ao colégio. Pensar em ver Gabriel depois do momento que tivemos a última vez que nos vimos me causava um certo embrulho no estômago. Não posso mentir para mim, mas beijá-lo foi como tirar a casquinha de uma ferida prestes a cicatrizar. E foi por isso que eu acabei enrolando um pouco mais que o normal para tomar meu café da manhã, apenas porque queria chegar no segundo horário e prolongar um pouco mais esse encontro.

Quando cheguei no colégio e me sentei no pátio para esperar o momento de ir pra sala, resolvi pegar um livro dentro de minha mochila para ler. Com o ENEM e vestibular chegando pra onde eu vou tenho levado algum livro acadêmico. Porém, quando ia começar a ler acabei notando uma presença conhecida entre os atrasados. Sentado em um banco distante estava Arthur ouvindo música em seus fones e parecendo bastante distraído olhando para seus próprios tênis. Eu já tenho enrolado tanto para conversar com ele que acabei num momento de coragem me levantando e indo até sua direção. Nem sequer pensei direito sobre o que estava fazendo, apenas fui.

Assim que cheguei perto e ele notou minha presença tirou seus fones.

— Posso me sentar? — pedi. Arthur assentiu e eu me acomodei ao seu lado no banco de madeira. — Tá ouvindo o que?

— Sua banda preferida, coldplay.

Sorri por ele se lembrar disso.

— Tem um tempo que venho querendo conversar com você. — contei indo direto ao ponto.

— Sobre? — indagou Arthur.

— Tudo. Nós e todos esses anos conturbados. E a verdade é que eu não sei bem o que eu quero te dizer, o que eu preciso dizer, mas eu vou tentar.

Ele manteve o olhar em mim, curioso e ansioso sobre o que eu diria. Eu respirei fundo tentando organizar as palavras em minha cabeça de forma que elas fizessem sentido para ele.

— A primeira coisa que quero fazer é te pedir desculpa pela forma com que agi depois de termos parado de ficar. — comecei a dizer. — Por sempre ter te culpado por tudo e ter guardado tanta mágoa comigo quando eu não tinha direito disso. É que foi muito difícil pra mim. Você foi o primeiro cara de quem gostei de verdade e foi meu primeiro coração partido, eu fiquei um pouco sem chão, entende?

“Eu demorei pra perceber que não podia te culpar por ter se apaixonado por outra pessoa e ter escolhido outra coisa pra sua vida que não fosse nós, que não fosse o que eu queria. Claro que Bianca piorou muito meu processo pra entender isso tudo já que nós nunca nos demos bem, mas agora eu entendo tudo. E eu sinto muito por ter sido estúpida com você em tantos momentos. Por ter te tratado mal quando você sempre foi tão sincero e aberto comigo.”

“Também quero te agradecer pela noite em que eu descobri sobre Gabriel e Amanda. Por ter tentado me proteger, por ter se preocupado comigo e pela mensagem que me mandou depois, que significou muito pra mim. Eu gosto muito de você, Arthur. De verdade. Daqui pra frente quero me lembrar apenas das coisas boas que passamos e deixar pra lá todos os desentendimentos e erros. Não dá pra negar que fomos importantes na vida um do outro e eu não quero te perder, quero que sejamos amigos. Será que podemos?”

Ele pareceu feliz em finalmente me ouvir dizer tudo isso, pois continha um sorriso no rosto que me pareceu muito sincero.

— É claro que podemos. — respondeu Arthur. — Eu também gosto muito de você, Isa. Talvez até mais do que você gosta de mim. E é muito importante pra mim estar bem contigo. Eu realmente nunca tive a intenção de te magoar e sinto muito por mesmo sem querer ter feito isso.

— Isso tudo não importa mais agora, vamos deixar pra lá, ok?

— Ok. Eu fico realmente feliz em podermos estar bem um com o outro. É tudo que eu sempre quis.

Aquilo foi como tirar um peso das costas. Me senti muito satisfeita e orgulhosa por ter resolvido mais uma pendência do meu passado. Tenho sentido que minha vida está entrando no eixo e isso tem me deixado muito feliz. Nós continuamos conversando até que o sinal batesse e eu tivesse que subir para a sala. Assim que entrei na mesma meus olhos procuraram automaticamente por Gabriel. Ele sorriu pra mim e eu sorri de volta. Sentei em meu lugar um pouco nervosa e peguei meus materiais disposta a prestar atenção na aula.

Talvez seja porque eu estivesse fugindo, mas acabei passando os dois intervalos com Leticia e Amanda. Só conversei diretamente com Gabriel já no último horário que foi Educação Física. Nenhum de nós estava afim de participar da aula, nem mesmo os meninos que sempre gostam de jogar, por isso nos sentamos na arquibancada e ficamos conversando.

— Como tá sendo de mudança, Gabe? — perguntou Carol.

— Um caos. — respondeu Gabriel. — Como minha mãe tinha inventado de fazer reforma tem pedreiro lá ainda, gente montando móvel, tá uma bagunça. Mas até quarta ou quinta deve estar tudo pronto.

— Se precisar de ajuda pode chamar a gente. — ofereceu Gustavo.

— Valeu. — agradeceu Gabriel. — Assim que estiver tudo pronto quero que vocês vão lá conhecer. Acredito que podemos marcar pro final de semana, aí compramos umas comidas e bebidas. Vocês podem?

— Óbvio que sim! — respondeu Bruno mais que depressa. — To precisando de umas festinhas em casa.

— Beleza, vamos fazer sábado então? Que aí aviso minha mãe.

— Por mim pode ser. — concordou Carol. Bruno também. E Gustavo também. Eu apenas permaneci quieta, porque não sabia se o convite se estendia a mim. E porque tinha um outro problema.

— Você pode, Isa? — perguntou Gabriel ao perceber que eu não havia respondido.

— Eu adoraria, mas… Quinta é meu aniversário. — contei bastante receosa. — E meus pais com certeza vão querer fazer alguma coisa comigo no fim de semana, as meninas também, por isso não posso marcar nada por enquanto.

— Como assim é seu aniversário e você não falou nada pra gente? — indagou Bruno me olhando como se eu tivesse o ofendido. — E como assim você não pretende comemorar com a gente?

— Até eu fiquei magoada. — brincou Carol.

— Não é isso, gente. Eu só acho que não estou no clima de aniversário esse ano.

— Problema seu, é seu aniversário de dezoito. — rebateu Bruno. — Não existe a opção de não comemorar. Nós vamos pra balada beber e dançar muito, tá decidido. Sábado à noite. Eu mesmo irei te buscar, de taxi porque eu não tenho carro, mas eu irei.

— Você é impossível, Bruno.

E foi assim que mesmo não tendo a intenção eu marquei de comemorar a chegada de mais um ano pra mim. A noite resolvi avisar mamãe sobre meus planos, porque ela e meu pai sempre fazem questão de sair comigo nem que seja pra um almoço.

— O que você e o papai estão planejando fazer no meu aniversário? — perguntei enquanto jantávamos. — Meus amigos estão querendo sair comigo no sábado

— Podemos fazer um almoço pra toda a família na casa da vovó domingo, pode ser? — ela sugeriu. — Aí você fica livre pra aproveitar do jeito que quiser no resto dos dias.

— Pode sim. — concordei.

— Convida as meninas.

— Tá bom, vou falar com elas.

Eu costumo ficar muito ansiosa nos dias anteriores ao meu aniversário e talvez tenha sido por isso que me senti muito inquieta na terça e quarta. Isso acontece porque as pessoas começam a falar disso e eu fico me lembrando que está chegando. Meu pai mesmo me ligou na quarta para dizer que me buscaria no colégio quinta para almoçarmos juntos. E Amanda também veio até mim completamente eufórica para me entregar um embrulho de presente. Não entendi por que ela já estava me entregando, porém ela explicou.

— Eu queria te dar amanhã, mas é que os planos são para amanhã. Então preciso que você venha preparada para o colégio.

Ela tinha um comprado um pacote num spa para mim, ela e Leticia. Disse que seria um dia de meninas pra que a gente relaxasse e se curtisse. Além de que sairíamos de lá já prontas para irmos pra um barzinho comemorar. Ela deixou claro que eu não tinha a opção de negar e eu acabei aceitando, porque se fosse pra comemorar que fosse com elas. No final das contas percebi que o dia do meu aniversário seria muito corrido pra mim. Iria pro colégio, de lá nós almoçaríamos com meu pais, eles nos deixariam no spa e depois sairíamos.

Assim que cheguei do colégio almoçei e decidi dar uma estudada ao invés de dormir. Não que eu não tenha tentado, mas foi justamente minha ansiedade que não deixou. Tentei entender por que esse ano eu parecia estar muito mais nervosa que o normal e acabei percebendo que eu queria saber se Gabriel se importaria o suficiente para comprar algo pra mim. Apenas no fim da tarde consegui descansar e aí só acordei por volta das 21h quando minha irmã apareceu eufórica revelando que dormiria em casa. Eu sabia que ela ia aparecer porque ela sempre passa todos os meus aniversários comigo. Acabou que eu, ela e mamãe nos jogamos no sofá da sala e ficamos assistindo filme enquanto comíamos pipoca e bebíamos vinho.

Estávamos focadas no fim de um filme quando todas nós nos assustamos ao ouvir a campainha tocar. Minha preguiça não me deixou levantar, por isso Nathália foi ver quem era. Enquanto isso peguei meu celular para ver que horas já era. 23h59.

— Isa. — chamou Nathália. — É pra você.

Assim que olhei para trás fiquei surpresa ao encontrá-la segurando um arranjo de flores enorme em uma mão e uma cesta também enorme na outra. Ela mal conseguia segurar as duas coisas sozinha.

— O que é isso? — indaguei assustada e sem entender nada.

— Presentes para você, um motoboy veio entregar.

Me levantei para ajudá-la e peguei o buquê para que ela conseguisse levar a cesta até a mesa de centro da sala. Observei atentamente as flores em minha mão e percebi que se tratava de um arranjo de margaridas coloridas absolutamente lindas. Eram tantas que ficava verdadeiramente difícil de segurar.

— Quem mandou? — perguntou mamãe parecendo bastante curiosa. Eu também estava. Não é a cara das minhas amigas me mandar esse tipo de presente e eu não estou ficando com ninguém no momento. Cheguei a cogitar que pudesse ser o papai, mas me surpreendi ao abrir o bilhete que encontrei no meio das margaridas.

“Se você está lendo isso então é porque já é meia noite. Feliz aniversário, Isa!

Eu desejo que teus dias sejam tão felizes quanto eu sou por saber que dentre todos os encontros e desencontros dessa vida nossos caminhos se cruzaram.

Com amor, Gabriel.

P.S.: Toma cuidado ao abrir o embrulho que está dentro da cesta, ele está quente.

P.S.2.: É uma lasanha e eu sei que é um presente bastante estranho, mas eu costumava almoçar lasanha com meus pais e meus irmãos em todos os meus aniversários. Era uma das partes preferidas do meu dia e era uma coisa especial pra mim.

P.S.3.: Era minha mãe que sempre cozinhava as lasanhas e foi ela quem cozinhou essa porque eu pedi. É a primeira lasanha que ela cozinha desde a morte de Alice. Eu tentei ajudar, então não posso garantir que esteja tão boa, mas espero que goste.

P.S.4.: Obrigado por ser a melhor coisa que já me aconteceu.”

Eu sorri. Um sorriso puro, verdadeiro e bastante emocionado. Saber que Gabriel havia pedido para sua mãe cozinhar pra mim, depois de tanto tempo sem fazer isso, significou tanto para mim que tudo que eu queria era que ele estivesse ali para poder abraçá-lo.

— Foi o Gabriel. — contei entregando o bilhete para que elas pudessem ler. Me agachei perto da mesa onde estava a cesta e coloquei as flores ao seu lado para que pudesse olhar o que mais havia ali.

A cesta estava toda forrada com bis e bombons. Dentro dela ainda encontrei caixas de Ferrero Rocher, uma garrafa de vinho e a enorme travessa de lasanha embrulhada em papel alumínio para que se mantivesse quente. Enquanto a desembrulhava senti um cheiro delicioso que fez meu estômago roncar.

— Quem é Alice? — perguntou mamãe.

— Irmã dele. Ela faleceu alguns atrás. — respondi. Ela pareceu verdadeiramente surpresa.

— Se você quiser convidá-lo para vir comer com a gente, eu não me importo.

Dessa vez quem ficou surpresa foi eu, mas não perdi a oportunidade. Fui até meu quarto e liguei para ele. Chamou apenas uma vez e ele atendeu. Parecia estar com o telefone na mão.

— Gostou do presente? — disse Gabriel assim que atendeu. Dei uma risada. Ele parecia animado e nervoso para ouvir minha resposta.

— Você não precisava ter feito isso.

— Claro que eu precisava, é o seu dia. E se é importante pra você, então também é importante pra mim.

Meu coração se apertou e eu senti meus olhos marejarem.

— Eu gostei muito, de verdade. — contei. — Talvez eu esteja com vontade de chorar nesse exato momento.

— Espero que de alegria.

— Com toda certeza. — confirmei. — Mas ein, eu tava pensando, você não quer vir comer com a gente?

— Não. — respondeu Gabriel me desapontando. Queria muito vê-lo. — Eu quero que seja um momento seu com sua família, como costumava ser pra mim.

Eu sorri.

— Obrigada, Gabriel. — agradeci.

— Feliz aniversário, Isa!

Com um sorriso largo eu desliguei o telefone pensando que não importava mais o que acontecesse no resto daquele dia, aquele já era o meu melhor aniversário. Voltei para sala onde junto com minha mãe e minha irmã de fato tive um momento maravilhoso em família. Tomamos o vinho que Gabriel havia mandado e comemos a lasanha que estava maravilhosa.

Até aquele momento eu não tinha a intenção de ir para o colégio na quinta de manhã. A maior lembrança que tenho dos meus aniversários é de sempre fazer muita bagunça com as meninas na sala e agora nós nem sequer somos mais da mesma sala. Lembrar dessas coisas estava me deixava muito nostálgica e chateada. Mas Gabriel me fez lembrar que eu tenho amigos que se importam comigo, que eu tenho ele, Carol, Gustavo, Bruno e mesmo que não na mesma sala, as meninas ainda estarão lá. Foi por isso que decidi ir.

Acordei animada e disposta de um jeito que não me sentia há muito tempo. Vesti uma roupa bonita e até mesmo me maquiei. Encontrei uma mesa de café da manhã linda preparada por Elisa que fez questão de chegar mais cedo apenas para isso. Tomamos o café e depois mamãe me levou para o colégio. Cheguei no exato momento em que o sinal indicando o começo das aulas tocou. Caminhei até a sala e ao atravessar a porta me surpreendi com a recepção que tive.

Desde que minha vida se desestruturou, uma das coisas mais difíceis que tive de lidar foi com me ressocializar no colégio. Voltar a estar de bem com as pessoas da minha sala sem entrar na paranoia de que estavam o tempo todo falando mal de mim pelas costas ou me julgando, voltar a me sentir bem com essas pessoas. Porque é claro, que muitas delas, realmente não devem gostar de mim. Outras apenas seguem o fluxo de ser adolescente e dizer ou fazer coisas sem pensar. E ainda algumas eu sei que realmente gostam de mim. Mas incrivelmente todas as pessoas da sala me receberam bem e me deram abraços de parabenização. De começo eu não entendi como eles ficaram sabendo, mas é claro que Bruno fez questão de contar pro colégio inteiro.

Das pessoas que me abraçaram, certamente algumas delas foram mais especiais. Como o próprio Bruno, que por acaso fez todo mundo cantar parabéns pra mim. E Carol. Gustavo. Bárbara. Até mesmo Renan e a própria Marise, nossa professora que estava na sala. Mas talvez eu tenha me demorado um pouco mais no momento em que meu sorriso encontrou o de Gabriel e ele me deu um abraço.

— Obrigada pelo presente. — sussurrei em seu ouvido.

— Eu sei que aniversários são especiais pra você. — respondeu Gabriel. — Prometo fazer com que esse seja.

Senti vontade de dizer que ele não precisava prometer porque já estava sendo, mas apenas sorri.

Quando me sentei em minha carteira e finalmente permitimos que a aula começasse, me senti boba e feliz ao mesmo tempo por não ter nem vinte minutos que eu estava ali e já ter me emocionado. E isso porque foi apenas o começo do meu dia. No intervalo encontrei Leticia e Amanda que fizeram o maior escândalo no pátio. Até mesmo os meninos fizeram questão de vir me abraçar. Fora que Bruno fez a sala cantar parabéns pra mim em absolutamente todos os horários, já que o professor mudava e ele não sabia que já tínhamos cantado. Foi a manhã mais rápida e divertida da minha vida.

Quando a aula acabou meu pai buscou a mim e as meninas no colégio e nos levou para almoçar com ele, Lilian, Nicolas, Nathália e mamãe. Fomos a um restaurante italiano, porque é o meu tipo de comida favorito. Ao sairmos de lá ele nos levou ao spa como combinado.

— Chegamos! — anunciou Amanda quando paramos em frente ao estabelecimento com paredes de uma madeira extremamente sofisticada e portas de vidro, além de muitas plantas. Me despedi do meu pai e descemos do carro.

Assim que entramos no lugar uma mulher negra de aparência muito bonita e elegante, que descobri posteriormente ser a própria dona do spa, nos recebeu com um sorriso aberto e nos guiou até uma sala onde, pasmem, recebemos um robe cor de rosa personalizado com nossos nomes. Depois de já estarmos devidamente vestidas começamos a participar de toda a programação que Amanda havia preparado para nós. Eu confesso que quando cheguei naquele ambiente todo sofisticado me senti um pouco receosa, mas foi um dos melhores presentes que eu já ganhei, porque foi extremamente divertido e relaxante. Foi literalmente um dia de princesa. Nós fizemos uma revitalização facial que incluía peeling, máscara e drenagem facial, recebemos uma massagem relaxante, tomamos um banho terapêutico de banheira com sais e espuma, tivemos manicure e pedicure, uma hidratação capilar com direito a escova e um penteado e por fim fomos maquiadas. Tudo isso sem contar os comes e bebes aos quais tivemos direito. O problema foi só que quando se tem direito a bebidas grátis em ambientes como esse, o que as pessoas esperam é que você beba um suquinho detox, mas nós tomamos foi muito espumante e cerveja mesmo, por isso quando ficamos prontas já estávamos todas bem felizes.

— Aposto que vocês estavam pensando “nossa, que coisa totalmente Amanda”​​ quando chegaram aqui, mas adoraram. — Amanda fez questão de jogar em nossa cara. Já estávamos vestindo as roupas que usaríamos pra sair e esperando minha mãe vir nos buscar.

— Sim, eu admito! — confessei rindo. — Obrigada por isso, porque eu nunca teria vindo sozinha.

Já era 20h quando minha mãe chegou. Deixaríamos nossas coisas em casa e como já estávamos prontas ela nos deixaria na porta do barzinho que havíamos combinado com o pessoal. Estava pegando uma bolsa para colocar meu celular, documentos e chave quando mamãe chegou na porta do quarto.

— A Elisa deixou um presente pra você na varanda, dá uma olhada que você vai gostar.

Fiquei animada ao ouvir a palavra presente. Fui curiosa até a varanda e quando abri a porta me assustei quando as luzes se acenderam revelando um monte de rostos conhecidos que começaram a cantar parabéns pra mim. Eu fiquei por uns dez segundos completamente sem reação com a surpresa. Minha mãe e as meninas surgiram logo atrás de mim rindo da minha cara.

Estavam todos ali, todas as pessoas que amo e com quem me importo. Meus pais, minha irmã, minha avó, Nicolas, Lilian, Elisa, Leticia, Amanda, Vitor, Gabriel, Carol, Gustavo, Bruno, Barbara, Arthur, Pedro, Leandro, Alexandre, Luiza, Rafaella, Gabriella, Caio, Henrique, Vinícius, Lucas, Paola. Eu mal consegui acreditar que aquilo estava acontecendo. Talvez seja um pouco óbvio, mas olhando para cada um daqueles rostinhos eu acabei chorando.

Leticia surgiu carregando um bolo com — o que descobri depois — dezoito velas e eu quase não consegui parar de chorar para apagá-las, o que fez com que todo mundo risse de mim. No segundo em que fechei meus olhos e as soprei, pensei no quanto a vida é algo raro. Passamos por inúmeros momentos, alguns bons, outros nem tanto assim. Dias de riso fácil e dias de choros abundantes. E no final das contas todos eles fazem parte desse processo curioso, confuso e imprevisível que é viver. Inegavelmente viver exige força e muita coragem, mas se não fosse pela vida eu não estaria ali naquele momento sentindo meu peito se encher de alegria, amor, paz e um orgulho danado de mesmo com todos os choros, erros, incertezas e medo, prosseguir dia após dia construindo uma história danada de bonita. Quando as velas se apagaram, pela primeira vez em toda minha vida eu não fiz um pedido. Eu agradeci.

Logo depois do parabéns fui bombardeada por abraços de felicitações seguidos de presentes que minha mãe me ajudou a recolher. Depois me sentei para beber com meus amigos e comemorar. Algumas pessoas que fiz questão de agradecer por estarem ali foi Vinícius, Lucas e Paola. Eles não conheciam quase ninguém e mesmo assim apareceram, eu fiquei muito feliz com isso. Até pedi para que Leticia os desse o máximo de atenção quando eu não estivesse por perto porque queria que eles se sentissem bem.

E obviamente eu agradeci muito meus pais. Eu tenho muita sorte de ter a família que tenho, de ser rodeada de pessoas que me amam e que se importam comigo, porque isso é um privilégio. A gente pensa que família é igual pra todo mundo, que todo mundo encontra amor e suporte dentro de casa, mas não é assim. Deveria ser, mas infelizmente não é. É por isso que às vezes me culpo por não ser uma filha mais presente, por não dar mais importância a tudo isso que tenho a sorte de ter. Me senti ainda mais depois da notícia que recebi.

— Cade meu carro de presente? — brinquei com papai. — Fiz dezoito, agora eu mereço um. Você tinha dito que me daria, lembra?

— A gente tá te dando uma festa e você ainda quer mais? — ele retrucou. — Mas foi bom você tocar no assunto, nós realmente precisamos conversar com você.

Eita.

— Nossa intenção sempre foi realmente te dar um carro de presente de dezoito anos, juntamos dinheiro há anos pra isso. — contou papai. — Mas recentemente você me pediu uma coisa e pediu que eu conversasse com sua mãe. Eu fiz isso.

— Apesar de eu não gostar muito da ideia… — completou mamãe. — Eu sei que preciso permitir que você tome suas próprias decisões e que decida o que quer pra sua vida agora. Por isso eu concordei com essa ideia de você se mudar pra fazer faculdade.

Eu juro que não consegui esconder minha cara de surpresa. Nunca imaginei que fosse ouvir isso sair da boca dela tão fácil assim. Imaginei que só conseguiria convencê-la depois de muita briga e insistência.

— Ao invés de te dar o carro vamos deixar o dinheiro guardado pra que a gente consiga te instalar bem na cidade pra onde você passar no vestibular e onde decidir morar. — revelou mamãe. — Porque você precisa morar num lugar bom e seguro, precisaremos pagar suas contas e tudo isso exige bastante dinheiro.

Não me contive. Me levantei de minha cadeira e fui até ela para abraçá-la.

— Obrigada, mãe. — agradeci. — Isso significa muito pra mim.

— Quem foi que deixou você crescer ein? — ela perguntou passando a mão por meu rosto com os olhos marejados. Ver eu e Nathália ficando mais velhas é algo que sempre a deixou sentimental.

— É assim que funciona a vida, sabe. — brinquei.

A primeira coisa que fiz quando saí dali foi correr até Leticia para contar. Eu estava eufórica por saber que realmente conseguiríamos realizar nosso sonho de infância. Agora só faltava a mãe dela concordar com tudo, mas ela estava confiante de que daria certo. Tivemos um motivo a mais para comemorar e beber aquela noite. E olha, nós bebemos bastante. Descobri que minha mãe havia comprado muita bebida para nós.

Por falar em minha mãe, ela também me surpreendeu em um segundo momento da noite. Ela simplesmente apareceu por volta da meia noite anunciando que iria embora.

— Como assim, embora? — perguntei completamente confusa. — Você mora aqui, mãe!

Ela riu da minha reação.

— É, eu me lembro disso. Mas eu vou dormir na sua avó. Quero que vocês se divirtam sem ficar se preocupando com adultos por perto, porque eu já tive a sua idade e sei que é desconfortável.

— Eu to começando a ficar assustada com você, Renatta!

— Só tenham juízo e não quebrem nada, por favor.

— Tá bom. Prometo deixar a casa inteira. E obrigada por tudo!

Fui com ela até o portão para me despedir. Ela deixaria Elisa em casa e depois iria para a vovó. Papai e Lilian também estavam indo, para minha felicidade eles deixaram Nicolas ficar. Quando voltei para dentro encontrei Leticia pegando mais uma cerveja. Ela já estava alterada. Na verdade, todos nós.

— De quem foi a ideia de tudo isso aqui, ein? — perguntei.

— Infelizmente não foi minha, foi do Gabriel. — respondeu Leticia. — Ele organizou tudo junto com seus pais. Só pediu pra que eu e Amanda te distraísse durante o dia pra que eles conseguissem arrumar a casa, por isso te levamos pro spa.

— Sério?

Ela confirmou. Eu me encostei na pia, respirei fundo e resolvi contar uma coisa que ainda não havia contado para ela. Não tinha contado para ninguém.

— A gente se beijou. — revelei. Ao contrário do que eu esperava ela não me olhou com cara de surpresa, espanto, julgamento ou nada disso. Na verdade eu poderia jurar que vi compreensão em seu olhar. — Foi só um momento de fraqueza, mas…

— Mexeu com você. — deduziu Leticia. Eu apenas assenti positivamente. Dessa vez foi ela quem respirou fundo. — Eu me odeio por dizer isso, mas eu acho que ele realmente se arrepende de tudo que fez e eu realmente acho que ele gosta de você. Ele tava tão empenhado em fazer essa festa dar certo, em conseguir com que todo mundo que você ama aparecesse, em fazer com que fosse especial pra você. Eu não vou dizer que consigo gostar dele, porque ele fez minhas duas melhores amigas sofrerem. Mas acho que não o odeio mais. Das coisas que aprendi com você é que se existe uma forma de ajudarmos alguém a ser melhor, nós devemos. E eu sinto que esse voto de confiança que você tem dado pra ele tem motivado ele a querer ser melhor. Talvez no fundo ele realmente seja uma boa pessoa.

Ouvi-la dizer aquilo era tudo que eu precisava. Eu não tinha conversado com ela ainda sobre o que aconteceu porque senti muito medo de que ela ficasse decepcionada comigo. E eu definitivamente não queria decepcioná-la de novo.

— A propósito, ele postou um textinho pra você. — ela contou antes de me dar um beijo na bochecha e me deixar sozinha na cozinha.

Meu dia tinha sido tão corrido que eu nem havia olhado minhas redes sociais pra ver quem me deu parabéns. Quando abri, vi que quase todos os meus amigos haviam postado foto comigo. Isso me deixou verdadeiramente emocionada, porque eu sempre gostei que escrevessem para mim. Eu acredito muito no poder das palavras quando escritas. Todos os textos, fossem eles grandes ou pequenos, foram importantes pra mim. Mas alguns me chamaram mais a atenção:

Leticia:

“Depois de tantos anos eu já sinto que tudo que eu escrevo tá repetido demais, original de menos. Sempre as mesmas declarações, os mesmos desejos. Porque é assim, eu estou sempre aqui desejando que você seja a pessoa mais feliz do mundo. Você sabe que eu não sou uma pessoa que pode ser tomada como exemplo quando o assunto é memória, mas ainda assim dá pra levar em consideração que eu basicamente não tenho memórias da minha vida que tenham acontecido antes de você aparecer. Isso é doido. E é assim que eu quero que tudo continue. Eu, você, nossas vidas paralelas e, principalmente, nossas vidas também se cruzando o tempo todo.

Tem uma oração que é mais ou menos assim: “Senhor, conceda-me a serenidade para aceitar as coisas que não posso modificar, a coragem para modificar aquelas que posso, e a sabedoria para conseguir diferenciá-las”. Sabemos que não existe um Deus lindinho que vai descer dos céus e te conceder essa maravilha. Mas é isso que te desejo. Que você continue crescendo, e que tenha a maturidade pra fazer o melhor da sua vida, seguindo as suas vontades e valores até alcançar esse super poder. Que sempre saiba aproveitar todos os momentos felizes, e que nunca pare de sonhar e lutar. Acho que duas pessoas que já passaram por tudo que passamos juntas, dificilmente podem ser separadas depois. Se prepare pra uma vida inteira comigo. Eu te amo.”

Amanda:

“Sou muito grata por poder dizer que compartilhamos histórias e principalmente por ter você como parte da minha vida. Nunca esqueça do seu valor, da pessoa maravilhosa que você é, e do quanto é incrível te ter por perto. Nos seus dias ruins, que eu torço para que não aconteçam, lembra sempre disso. Você é um ser humano de luz, e sei disso porque minha vida se iluminou desde que você chegou. Te desejo apenas coisas boas, saúde, sabedoria, paz de espírito e muito, muito amor. Obrigada por todos esses anos ao meu lado. Feliz aniversário, Isa. Te amo demais!”

Vitor:

“Você sempre foi muito observadora. E essa é a principal característica que te faz ser quem é. Você enxerga coisas que ninguém mais vê. Você olha a vida com olhos de deslumbre e com a mesma inocência de uma criança, que te levam a procurar por algo bonito em cada mínimo detalhe desse mundo, e é por isso que sem perceber você acaba tornando tudo ao seu redor tão bonito. É como se você plantasse uma sementinha de coisas boas por onde passa e pelos corações que toca. Eu nunca tive dúvida de que sua missão é muito mais especial do que imagina, porque você é mais especial do que pensa. Você é linda de dentro pra fora. Eu amo você, Isa. Feliz dia todos os dias!”

Carol:

“Você é muito mais maravilhosa do que pensa ser, e tão incrivelmente única que é impossível esquecer de quem você é, e do carinho persistente que você tem pelas pessoas ao seu redor. Quero te desejar o dia mais lindo de todos, e que esse novo ano seja de muito amor, crescimento, paz e saúde. Feliz aniversário, Isa! Obrigada por ter sido meu melhor presente desse ano. Eu espero que esse seja apenas o começo de uma amizade linda. Amo você!”

Gustavo:

“Eu te admiro de um jeito que talvez nunca tenha te dito. Admiro tua doçura, tua generosidade, tua capacidade de se colocar no lugar do outro em qualquer situação e de sempre querer apenas o bem. Admiro tua força e tua essência que nunca se perde mesmo atravessando tempestades. Admiro cada parte de quem você é, porque nunca nessa vida conheci uma pessoa com tanta luz. Feliz aniversário, Isa! Te amo!”

Bruno:

“Se tem uma coisa que eu sei com clareza é que não deve ser fácil me aguentar. Apesar de não parecer eu sei que sou meio errado das ideias e que quase sempre to enfiando meus amigos numas situações loucas. Mas você sempre abraçou todas as minhas ideias. Sempre topou todas as minhas loucuras. E sempre fechou comigo. Eu dou valor nisso, em quem tá do teu lado independente do momento ou da situação. Seja ele bom ou ruim. Eu dou muito valor na nossa amizade, loira. Eu nem me lembro mais como era quando você não fazia parte da minha vida. Você sabe que eu te amo! Feliz aniversário!”

Gabriel:

“Isabelle é uma dessas pessoas difíceis de se encontrar, rara e única de um jeito que a gente se pergunta se merece mesmo poder tê-la em nossas vidas. Eu mesmo me pergunto todos os dias. Eu nunca vi tanta luz, empatia e generosidade dentro de uma pessoa só, e é por isso que ela inspira todo mundo que a conhece a querer ser melhor, por ela eu tenho tentado ser. Se tivesse que descrevê-la, diria que ela é um misto de coisas e sentimentos bons. Eu não sei se ela tem noção do quão verdadeiramente incrível e especial é, mas queria que soubesse. Queria que percebesse a diferença que faz na vida de todos que a conhece, de como ela consegue fazer com que tudo seja mais leve e fácil. No meu aniversário ela fez um texto falando sobre o quanto eu mudei a vida dela, mas a verdade é que foi ela que me mudou. Ela mudou tudo pra mim e eu nunca vou conseguir agradecer como gostaria. Eu só desejo que você alcance tudo o que desejar e seja tudo o que sonhar, Isa. Espero que você saiba o quanto é importante pra mim e lembre-se sempre de uma coisa: We're gonna live forever. Feliz aniversário!”

Eu li e reli aquele texto três vezes. Encarei nossa foto na tela por vários minutos. Ele havia escolhido uma foto que tiramos em uma festa que fomos com Henrique. Me lembro que ficamos muito bêbados nesse dia, eu até mesmo me joguei no gramado de sua casa e tagarelei sobre as estrelas. Na foto ele estava com o braço por cima do meu ombro e beijando a lateral da minha cabeça enquanto eu ria. Quase consegui reviver o momento apenas de olhá-la. Nunca esqueci dessa festa porque estávamos tão bem que senti como se fossemos mesmo um casal. Ele não desgrudou de mim por nenhum momento. Nós terminamos a noite transando pela primeira vez na sua cama.

— Eu posso falar com você um minuto? — pediu Amanda me assustando. Eu nem percebi ela chegar.

— Claro!

— Eu acho que vai ser melhor se fizermos isso no seu quarto.

Eu assenti e bastante curiosa fomos até meu quarto onde ela se sentou na beirada da cama e pediu que eu fizesse o mesmo. Antes mesmo de começar a falar, percebi que seus olhos estavam marejados. Meu peito se apertou no mesmo momento e fui tomada por um medo imenso de que alguma coisa errada tivesse acontecido.

— Hoje eu refleti muito sobre o quanto nossa amizade foi colocada a prova esse ano e sobre como eu percebi que ela é uma das coisas mais importantes que eu tenho na vida. — disse Amanda. — Eu não sei se isso tá claro pra você, mas eu te amo muito, Isa. Nada nem ninguém pode mudar isso. Me perdoa se em algum momento eu te fiz duvidar disso, ok? E bem, eu também estava pensando em como desejo que você seja a pessoa mais feliz desse mundo e em como eu quero fazer o que for possível para contribuir pra isso. Foi aí que me lembrei de uma coisa.

Amanda levou sua mão até o bolso de sua calça de onde tirou um papel dobrado e amassado. Ela pegou minha mão, colocou o papel sobre ela e colocou sua mão por cima.

— Eu encontrei essa carta na mochila do Gabriel poucos dias antes do aniversário da Leticia, quando decidi terminar com ele. Foi totalmente sem querer. Ele tava dormindo, eu precisava de um livro pra fazer um trabalho do colégio, fui pegar o dele na mochila e isso estava lá. Quando eu comecei a ler não consegui parar e quando eu terminei, foi quando eu percebi que não podíamos ficar juntos e me dei conta da quantidade de decisões erradas que eu estava tomando. Eu coloquei ela de volta no lugar e nunca tive coragem de falar com ele sobre isso, mas vendo o quanto ele estava empenhado em fazer esse dia ser importante pra você, eu acabei me lembrando dela e tomei uma decisão. Eu entrei na sala de vocês durante o intervalo e revirei a mochila dele na esperança de que ainda estivesse lá, seja destino ou coincidência estava, e eu a roubei. Eu fiquei muito pensativa sobre se deveria fazer isso ou não, mas meu coração me disse pra fazer e aqui estou tentando fazer a coisa certa.

Ela se levantou, deu um beijo no topo de minha cabeça e fez um pedido:

— Leia, por favor. Depois você pode decidir o que fazer com ela, se devolve ao dono ou não.

Dito isso ela saiu do quarto e me deixou sozinha com um monte de perguntas na cabeça e um papel amassado em mãos. Eu estava tão nervosa que quase não consegui o abrir com as mãos trêmulas. E ao abrir descobri que não era apenas uma, mas sim várias folhas de caderno amassadas com a caligrafia torta de Gabriel. Precisei respirar fundo antes de começar a ler.

“Quatro anos atrás eu descobri a finidade da vida, mais especificamente no dia 10 de Maio de 2009. Eu fui acordado pela minha irmã, seu nome era Alice. Ela escancarou as janelas do meu quarto, ligou o som, colocou para tocar um dos nossos CDs preferidos e ficou pulando em minha cama até que eu desistisse de tentar tampar o rosto com o travesseiro. Quando finalmente me rendi e me sentei sobre a cama, ela me deu o último abraço que me daria, para me desejar feliz aniversário. Era meu aniversário de quatorze anos. Ela estendeu em minha frente um papel de embrulho em um formato horizontal, tão fino quanto uma folha de papel. E eu abri, me perguntando o que estaria ali dentro.

Era de fato um papel, que indicava que naquele dia passaríamos meu aniversário na Arena Expotrade, no show da mesma banda que tocava ao fundo em meu aparelho de som. Minha banda preferida que também era a sua banda preferida: Oasis. Eles se apresentariam em Curitiba naquela noite e quando implorei para que meus pais me deixassem ir, meu pedido foi negado, o que só então descobri ter sido tudo parte de uma armação da própria Alice para me fazer aquela surpresa.

Poucas vezes me senti tão eufórico quanto no momento em que percebi que realizaria provavelmente meu maior sonho. Tão eufórico que quase não consegui fazer mais nada antes de irmos, tamanha era minha ansiedade. Nem mesmo comer direito a lasanha que minha mãe havia preparado para almoçarmos, também minha comida preferida e uma tradição que tínhamos em todos os meus aniversários. Fora o almoço mais divertido de minha vida.

Iríamos eu, Alice, meu pai e minha mãe. Meu irmão mais velho ficaria em casa cuidando da minha irmã mais nova, na época ainda uma criança de colo. E então, quando saímos, empolgados, eu abri a porta do carro e dei espaço para que Alice entrasse primeiro.

Nós fazemos escolhas todos os dias. Pequenas. Grandes. Escolhemos colocar o despertador para tocar. Qual roupa vestir. Tomar um suco ou um café. Para onde iremos. Como iremos. O que faremos. Por qual lado da calçada seguir. Em qual quarteirão atravessar. Mandar uma mensagem. Ligar para alguém. Vivemos em uma constante sucessão de escolhas tão comuns que não pensamos de fato em como elas podem nos afetar, até você desejar mais do que qualquer outra coisa poder mudar uma delas.

Alice se sentou do lado esquerdo do carro, onde eu deveria ter me sentado. E você não imagina o quanto a simples decisão de um assento pode atormentar alguém para sempre. A música tocava na rádio. Nós conversávamos animados. O sinal abriu. Meu pai acelerou. O carro andou. E em um segundo quase imperceptível fomos atingidos por outro carro em alta velocidade. Nosso carro capotou e nós fomos arrastados por alguns metros até que finalmente parássemos e tentássemos digerir o que havia acontecido. Foram segundos em que ninguém se movia ou dizia algo. Tudo que se ouvia era o barulho de respirações pesadas. E quando eu olhei para o lado.... Ela já não estava mais lá.

Seu corpo estava, mas sua cabeça sangrava e seu pescoço estava tombado de um jeito que não deveria estar. Alguém mais já havia percebido que algo estava errado, porque quando tentei a tocar, alguém abraçou seu corpo abruptamente e eu não vi mais nada porque desmaiei. O carro atingiu exatamente onde ela estava e a pancada em sua cabeça fora tão forte que ela morreu instantaneamente. Um milésimo de segundo e ela estava morta. Morta. Bem ao meu lado. Hoje sei que o carro nunca esteve em silêncio e que tudo aconteceu muito mais rápido do que em minha memória.

O depoimento do motorista do outro carro para a polícia foi que quando o sinal fechou ele estava acelerado demais para que conseguisse frear e ele acreditou que daria tempo de passar. Eu queria ter tido tempo de dizer para Alice que ela foi a melhor irmã que alguém poderia ter. Eu queria ter tido tempo para me despedir. Eu queria ter dito que sonho nenhum era mais importante que sua vida. Queria ter dito tanta coisa. Eu quero dizer tanta coisa. Eu quero pedir desculpa. Eu quero pedir desculpa por ter sido eu o culpado disso. Eu quero dizer que eu trocaria tudo para nunca tê-la deixado entrar naquele carro, pra nunca ter aceitado aquele presente. Eu quero dizer que meu aniversário não importa, que banda nenhuma importa, que presente nenhum importa e que só ela importa. Eu só quero voltar no tempo e concertar aquele milésimo de segundo que a tirou de mim. Quero parar de pensar para sempre nos “se’s” que poderiam ter feito com que tudo fosse diferente. Eu tenho tentado. Eu juro que tenho. É tudo o que eu tenho feito nos últimos quatro anos, mas eu ainda tenho pesadelos e as lembranças ainda são vivas.

Você só entende o que realmente é impotência quando perde alguém. No começo eu não suportei. Quando eu deitava a cabeça em meu travesseiro a noite e fechava meus olhos, eu via teu corpo pálido, gelado, imóvel, sobre uma maca de hospital. Teu corpo que permaneceu imóvel dentro do caixão enquanto o enterravam, como se a partir dali fosse simplesmente seguir. Era isso. Cada um seguiria seu próprio caminho e aquele seria apenas mais um momento deixado para trás. Todos deveriam esquecer alguém que até momentos atrás estava ali. Uma pessoa, com uma história, uma vida. Era apenas para esquecer, fácil assim, como se fosse nada demais. Como uma pegada na beirada do mar que a água apaga e ninguém nunca saberá que ela esteve algum dia ali. Mas ela esteve. Eu não esquecerei Alice.

Passei quase um mês sem conseguir comer ou dormir. Quando a exaustão me fazia cochilar os pesadelos eram imediatos, mas chegou um momento em que eu não sabia mais se eram apenas pesadelos ou alucinações. Eu não sabia mais o que era real. Eu desejei tanto poder voltar no tempo ou poder acordar e perceber que tudo não havia passado de um pesadelo, pedi tanto a Deus que fosse mentira, clamei tanto por ajuda para que um milagre repentino acontecesse que comecei a delirar e imaginar que ela estava lá comigo.

Pra piorar, eu não reconhecia mais as pessoas que moravam comigo. Minha mãe que costumava ser bastante afetuosa e alegre se fechou em seu próprio mundo. Ela parecia seguir seus próprios dias roboticamente, trabalhava e cumpria suas obrigações sem falar com ninguém, sem querer saber de ninguém. Ela estava ali, mas não parecia mais existir vida dentro dela. Meu pai não ficava mais em casa, mas também não estava no trabalho. Não demorou muito para que eu descobrisse que ele virou alcoólatra e arrumou uma amante. Clichê até demais. Quando chegava em casa, sempre bêbado, descontava sua raiva em mim e eu não conseguia entender por quê. Com o tempo percebi que ele também me culpava por tudo. Isso porque no meio de uma das nossas milhares de brigas, físicas e principalmente verbais, num momento impensado, ele disse as únicas palavras que eu desejei jamais ter ouvido. “Você deveria ter morrido naquele carro ao invés de Alice”.

Tudo o que sobrara da minha vida e minha família desmoronou de vez. Foi por isso que tentei acabar com minha própria vida não só uma vez. Foi porque a culpa me consumiu de uma maneira que tudo que eu sentia era angústia e dor. E o tormento psicológico é algo que nos deixa cegos. Eu pensava em meus pais, irmãos e amigos, mas doía. Doía de uma forma que te faz apenas querer acabar com todo o sofrimento. Mas sabe o que é irônico? É que em momento algum após tentar por um fim em tudo eu senti paz ou alívio, porque eu não queria aquilo de verdade. A gente nunca quer, só não conseguimos enxergar isso.

Em um determinado momento eu fui internado. Internado dentro de um eterno pesadelo, onde me entupiam de remédios e tentavam conversar comigo sem de fato quererem me entender. Quer dizer, não é muito difícil de entender. Eu era um garoto traumatizado se culpando pela morte de alguém. Eles compreendiam minha dor, mas eu era só mais um. Só mais um atormentado pela vida. E eles não diziam nada que pudesse de fato me ajudar. Porém, eu percebi que se não melhorasse ia ficar ali por muito mais tempo e comecei a fingir. Fingi estar bem. E dizia exatamente o que eles queriam ouvir. Com o tempo fui liberado para ir pra casa contanto que fizesse terapia três vezes por semana. Foi quando conheci Lisa.

Lisa, inesperadamente, foi a primeira pessoa no meio de toda aquela bagunça que pareceu verdadeiramente preocupada em recuperar a vida que existia dentro de mim. Lembro que em nossa primeira consulta ela disse que eu deveria falar apenas se quisesse. Passamos 1 hora sem dizer nada e ela me respeitou, respeitou meu espaço e respeitou minha dor. De consulta em consulta ela foi ganhando minha confiança e conseguindo de fato a me ajudar, o mínimo que fosse. E quando digo mínimo, era mínimo mesmo. Eu cheguei num nível de trauma que por muitas vezes não conseguia sequer me lembrar. Toda vez que eu pensava demais em Alice, que minhas emoções se sobrecarregavam, eu acabava tendo um ataque de pânico que acabava comigo desmaiando. Foi difícil.

Foram longos anos sem um verdadeiro suporte familiar, em que tudo que eu tinha era a vontade de ser para minha irmã mais nova o que eu queria que ainda fossem por mim. Eu queria que ela tivesse a família que eu tive, antes do dia em que tudo desmoronou. Foi assim que eu segui. Por ela, por meu irmão, por meus amigos. Mas confesso, não por mim.

E então, no começo deste ano, eu conheci uma garota. Não estava nos meus planos e eu definitivamente não esperava que ela fosse revirar minha vida como fez. Eu não tenho direito de mais uma vez expô-la, então não direi seu nome. No começo ela foi apenas mais uma garota por quem me interessei, mas com o tempo ela mudou absolutamente tudo para mim. A forma com que eu enxergava o mundo, as pessoas, a vida e a mim mesmo.

Ela foi o maior erro e o maior acerto de toda minha vida. Erro porque por causa de todo o caos no qual estive imerso durante os últimos anos e da pessoa que acabei me tornando, eu cometi a imensa burrada de a machucar. Mas acerto, principalmente acerto, porque ela foi a melhor coisa que já me aconteceu.

Hoje quando paro pra pensar percebo que ao contrário do que eu imaginava eu não me apaixonei por ela da noite pro dia. Foram uma sucessão de momentos que construíram esse sentimento que hoje levo no peito. Momentos em que olhei para ela e a ouvi falar sobre coisas relacionadas a vida e o universo que jamais teria pensado sozinho. Momentos em que olhava em teus olhos e percebia que eles falavam sozinhos. Momentos em que enxerguei teu sorriso e vi nele todas as coisas boas que existem. Momentos difíceis em que ela nunca perdia sua essência. Momentos em que dei para ela todos os motivos e razões para que ela desistisse de mim e ela não desistiu.

Ela me fez perceber que existem pessoas que são diferentes das outras. Pessoas que olham pra você e enxergam além dos teus olhos. Pessoas que te amam mesmo com todos os seus defeitos, problemas, tormentos, erros, feridas e cicatrizes.

Ela mudou tudo pra mim. E entre inúmeras metáforas me fez dia após dia voltar a viver a vida que eu havia deixado para trás, sem que eu sequer percebesse. Despertou dentro de mim sentimentos bons. E foi por causa dela que eu cheguei até minha psicóloga e disse que eu queria viver. De verdade. Dessa vez por mim.

Talvez ela nunca saiba de nada disso, mas eu sei que, céus, meus ouvidos estão suplicando para que eu me canse de ouvir Live Forever e minha mente está suplicando para que eu pare de pensar nela. Ou em como eu queria voltar no tempo. Ou em todas as formas existentes de pedir perdão a alguém.

Me lembro de uma madrugada em que estávamos deitados em sua cama e ela me confessou aos sussurros que tinha medo da lei do karma ser verdadeira. Tudo que você semeia, colhe. Tudo que vai, volta. Tudo que você dá, recebe. Tudo que damos ao mundo retorna e ressoa, como se o mundo fosse um eco de nossas próprias atitudes, falas e desejos. E já diziam os tão estúpidos quanto eu: errar é humano, certo? Mas se todo acerto tem uma consequência, imagine então os erros. Eu apenas estou pagando pelo meu. Talvez isso não seja mais do que a lei do karma agindo. Mas se isso a assusta, me dá esperança. Ou pelo menos me motiva a não desistir. Porque talvez, só talvez, se eu continuar a amando, dia após dia, em algum momento, ela acabe me amando de volta.

Mas se não… Sei lá.

Só espero que algum dia ela acredite no que agora eu sei com toda clareza, que eu a amo de um jeito que nenhuma das vinte e seis letras do alfabeto me ajudariam a dizer.”

Existem sentimentos impossíveis de ser descritos ou explicados. O que eu senti naquele momento foi um deles. As lágrimas simplesmente escorriam pelo meu rosto e eu não entendia bem por qual motivo. Eu nunca tinha pensado que para entender de verdade a minha história com Gabriel, eu precisava entender primeiro a sua história. E eu finalmente a sabia por completo. Sabia tudo que aconteceu a ele e tudo que destroçou seus sentimentos e sua vontade de sentir coisas boas novamente.

Não era difícil entender por que Gabriel sempre fora tão traumatizado sobre a morte de Alice, mas agora eu realmente entendia tudo. Eu finalmente entendi seu ódio por seus aniversários, entendi sua relação com o Oasis e até mesmo sua relação difícil com seu pai, entendi porque é tudo tão absurdamente traumático para ele. Ele passou todos esses anos se culpando pela morte dela. Todos esses anos vivendo preso dentro de sua própria cabeça atordoada, imerso em culpa, dor e angústia. Levei os papéis até meu peito e os abracei sentindo o peso de suas palavras sobre mim. Cada uma delas. E então, me lembrei das que falavam sobre a tal garota. Senti meu peito se apertar.

Eu sabia que era eu. Me lembro com clareza da noite a qual ele se referiu. Mas por algum motivo eu senti que precisava ouvi-lo dizer, precisava que ele me dissesse que era eu, que sou eu. Que sou eu quem mudou tudo para ele.

Com as mãos tremendo procurei por meu celular, o encontrei jogado na cama. Em um misto de desespero com ansiedade, enviei a mensagem.

“Por favor, vem até meu quarto. Agora.”

Me levantei da cama, limpei meu rosto e me encostei em minha escrivaninha, segurando em mãos as confissões que havia acabado de ler com tamanha força que parecia temer que elas desaparecessem dali. Esperei pelos minutos mais longos da minha vida até que a porta se abrisse e Gabriel surgisse preocupado. Ao ver minha expressão ele se aproximou com cautela e eu apenas estendi os papéis em sua direção. De começo ele pareceu não entender o que estava acontecendo, até que ao virá-los para cima sua expressão mudou. Primeiro ele pareceu confuso, provavelmente se perguntando como aquilo havia chegado até mim, depois me olhou preocupado. Seus olhos se mantiveram nos meus por segundos o suficiente para que eu soubesse que seu coração devia estar tão acelerado quanto o meu.

— O que é isso? — forcei minha voz para conseguir dizer e mesmo assim as palavras saíram como num sussurro.

— Eu escrevi numa madrugada em que estava precisando desabafar. Foi pro professor de Literatura, aquela brincadeira que ele inventou no começo do ano: 5 minutos antes da ordem do dia.

Era a mesma brincadeira que havia me feito virar amiga da Barbara, onde poderíamos escrever o que quiséssemos, desabafar sobre coisas boas ou ruins, que o professor leria.

— A garota… — sussurrei. — Sou eu?

Gabriel parecia verdadeiramente desnorteado. Sua expressão mostrava que ele queria dizer algo, mas não conseguia. E eu entendia, minha voz também parecia ter desaparecido. Por fim ele passou a mão por seu cabelo, me olhou e disse:

— Você ainda tem dúvidas?

De repente eu senti como se o ar dentro daquele quarto não fosse suficiente para nós dois. Senti minha respiração ficar pesada e o clima ficar quente. Fechei meus olhos e tentei me acalmar. E então, senti uma mão segurar a minha. Quando abri os olhos novamente, encontrei os seus tão perto dos meus que não consegui desviar.

— Você realmente me ama? — perguntei.

Gabriel sorriu e respirou fundo.

— Na noite do meu aniversário, aquela noite que foi absolutamente aterrorizante pra nós dois, em um momento de raiva e desespero para te afastar, eu disse uma coisa que nunca me esqueci. — ele começou a dizer. — Que se eu pudesse fazer um pedido, desejaria jamais ter te conhecido.

“E sabe de uma coisa? Eu passei os últimos anos da minha vida sempre pensando que se eu pudesse fazer um pedido, um único que fosse, desejaria poder voltar no tempo e mudar o momento em que perdi Alice. Foi por isso que eu te contei sobre ela pela primeira vez, no começo de toda nossa história, quando estávamos deitados completamente bêbados no chão da casa do Gustavo, olhando o céu. Lembra? Dentre todas as coisas que você poderia ter dito naquele momento, você perguntou o que pediríamos se tivéssemos direito a um desejo. Sem pensar duas vezes eu respondi que pediria uma segunda chance para reviver o passado, pensando exatamente em Alice, porque eu sempre tive a resposta pra essa pergunta na ponta da minha língua.”

“Mas desde que eu te conheci, você me fez sentir coisas que eu jamais imaginei que sentiria novamente, coisas que eu nunca tinha sentido. E principalmente, me fez entender que perder Alice não foi culpa minha. Mas perder você foi. Desde então, eu tenho pensado que se eu tivesse direito a um único pedido, eu realmente pediria uma segunda chance para reviver o passado. Mas voltaria pro exato momento em que conheci você e dessa vez, eu faria tudo certo. Então me diz você, Isa. Você acha mesmo que eu não te amo?”

Suas palavras mexeram tanto comigo que senti como se meu corpo todo estivesse mole e minhas pernas não fossem mais capazes de me sustentar.

— Você lembra do que eu respondi? — indaguei me referindo ao pedido.

— Que iria a lua. — respondeu Gabriel.

— Eu menti. — revelei. — O que eu pensei naquele exato momento foi que eu pediria pra conhecer o amor verdadeiro. Foi por isso que eu te perguntei se você achava que o amor realmente existe ou se é apenas uma ilusão. E você me respondeu que dependia…

— Você pode fazer com que seja real ou com que seja apenas uma grande ilusão. — lembrou Gabriel. Fora exatamente o que ele respondeu.

Sem perceber eu levei minha mão livre até sua camiseta e o puxei para ainda mais perto e num sussurro clamei:

— Então, por favor, olha nos meus olhos e me diz. É real, Gabriel?

Ele segurou meu rosto com as duas mãos antes de dizer:

— É a coisa mais real que eu já senti na minha vida.

Eu não hesitei em beijá-lo. Dessa vez sem medo, sem culpa. Apenas um forte desejo e necessidade. Foi um beijo tão desesperado que não demorou para que nos faltasse ar. Quando nos separamos Gabriel me ergueu e me colocou sentada sobre minha escrivaninha. Abracei seu corpo com minhas pernas e seu pescoço com meus braços.

— Eu amo tanto você, Isabelle. — ele sussurrou contra os meus lábios. — Tanto.

Notas finais
EU TO MUITO ANSIOSA PROS COMENTÁRIOS DESSE CAPÍTULO ENTÃO POR FAVOR COMENTEM AAAAAAAAAAAAAAAAAAA AMO VOCÊS