Poltrona 19

4 Tenho medo do futuro


Notas iniciais
Olá caro leitor, algumas informações básicas: — A história se passa em Curitiba; — Batel é um bairro de Curitiba, o citarei bastante. Boa leitura!

Mais uma vez chegara atrasada na escola, dessa vez a inspetora me deixou subir para assistir ao primeiro horário. Já havia quinze minutos que a aula começou, subi correndo pelas escadas quase caindo umas quatro vezes, mas quando cheguei na porta da sala não avistei ninguém. Os materiais dos alunos estavam ali, mas os alunos não.

Entrei na sala sem entender nada e avistei um aluno dormindo no fundo da sala, tentei encontrar um lugar para sentar sem fazer barulho e o acordar, mas sou o desastre em pessoa e tropecei em uma mochila, me apoiei em uma mesa para não cair e derrubei os materiais que estavam em cima dela.

— Ta tudo bem? – ouvi uma voz perguntar, a qual vinha do garoto que estava dormindo. O olhei e percebi que era Gabriel.

— Sim. – respondi me abaixando para pegar os materiais, ao tentar pegar o estojo que caiu em baixo de uma cadeira bati a cabeça na mesa. Pude ouvir uma risada.

— Certeza? – ele tornou a perguntar.

— Sim. – respondi nervosa e envergonhada com a situação. O olhei novamente e ele estava se segurando para não rir. Fechei a cara e caminhei até o fundo da sala procurando um lugar.

— Foi engraçado. – ele disse e o ignorei. – E você me acordou... então estamos quites.

— Desculpa te acordar. – balbuciei sem humor.

Não encontrei um lugar no fundo, apenas no meio da sala, então sentei ali, mesmo que sentar no centro da sala seria chamar atenção demais e eu não queria ninguém me observando.

— Onde está todo mundo? – me virei para o perguntar.

— Não sei, dormi antes de a aula começar e pelo visto ninguém me acordou para ir seja lá onde eles foram.

— Ah.

— Não tem ninguém aqui. – ele disse apontando para a mesa ao seu lado e retirando de cima da mesma uma mochila que estava li. – A mochila é minha. – ele explicou.

Me encaminhei até o lugar e sentei lá, me perguntando se ele percebera que eu estava procurando por um lugar atrás ou se na verdade me convidara para sentar ao seu lado.

— Gostei da camiseta. – ele disse se referindo a camiseta do The Rolling Stones que eu estava usando.

— Valeu.

— Você é a Isabelle, né? – ele perguntou.

— Sim.

— Já te vi por ai com a Leticia.

Então ele se lembra dela, informação anotada com sucesso.

— E você é o Gabriel, certo?

— Eu mesmo. – ele respondeu e deu um sorriso torto, provavelmente pensara a mesma coisa que eu, que também nos lembramos dele. – Te mudaram de sala?

— Sim, tive umas complicações ano passado e a diretora me separou dos meus amigos para evitar que eu me meta em mais alguma confusão e seja expulsa do colégio.

— Expulsa de um colégio particular... Caralho! – ele falou lentamente, mais para si mesmo do que para mim. Sua expressão deixava visível a indignação com a situação, levando em consideração que é quase impossível ser expulso de um colégio particular, pois o que importa pra eles é apenas que você pague a mensalidade em dia.

— Pois é...

— Mas você vai gostar da sala, o povo até que é legal, tem uns pau no cu, mas isso sempre tem.

— Ah, só quero ficar quieta na minha.

Percebi que o assunto acabou naquele momento e que ficaria um silêncio constrangedor, então peguei meu celular e fingi que estava mexendo, tentando pensar em algo para dizer, mas nada veio em mente. Vi que ele tirou a blusa de frio que estava vestindo e colocou sobre a mesa, deixando a mostra a camiseta do Nirvana que usava.

— The Killers, Green Day, Nirvana… vocês tem bom gosto. — disse me referindo as camisetas que vi ele e seus amigos usando.

— Digo o mesmo de você, se estiver usando a camiseta pela banda e não pela estampa.

— Juro que é pela música. – respondi e ele apenas riu.

Começaram a entrar alguns alunos na sala e percebi que o pessoal estava voltando, o primeiro horário estava acabando. Carol, Bruno e Gustavo entraram na sala conversando e rindo. O Gustavo definitivamente era a coisa mais fofa que eu já vi no universo, seria cômico se não fosse trágico o fato de ele ter namorada. Bruno se sentou na frente do Gabriel, Carol ao seu lado em minha frente e Gustavo na frente dela. Eu dividiria minha cadeira com ele se ele quisesse.

— Onde vocês estavam? – perguntou Gabriel.

— Sala de vídeo com o professor de Literatura. – respondeu Carol.

— Ainda bem que não me acordaram.

— O cara é de boa, é que ninguém entende as viagens dele. Ele deve fumar maconha antes de vir dar aula, sei lá. – Gustavo disse intrometendo no assunto.

— Vou passar a fumar maconha antes de vir pra aula também, quem sabe entro na brisa dele. – Bruno quem disse dessa vez, arrancando risada de todos.

— Você precisa é tomar jeito, Bruno.

— Quem sabe um dia.

— Falando em tomar jeito, vocês acreditam que ela foi mudada de sala por quase ser expulsa do colégio? – Gabriel falou apontando para mim fazendo com que todos direcionassem o olhar para mim.

— O que você fez? – Bruno indagou atônito.

— Na verdade um monte de coisas, aí deu nisso. – respondi sem graça.

— Nossa. Tu tem a maior cara de menina quietinha que nunca aprontou nada na vida.

— Exatamente! – exclamou Gabriel quase que gritando. – Exatamente por isso que fiquei tão perplexo quando ela me falou.

— Na verdade eu só sou meio estressada, a maioria dos problemas foram brigas com outros alunos ou professores, nunca aprontei nada mesmo não.

— Tu já brigou com professor? – perguntou Gustavo e surtei internamente por ele ter falado comigo.

— Sim, com a Débora de Biologia.

— Foi você? – Gabriel perguntou abismado. – Caralho! Geral ficou sabendo dessa história.

— Que história? – indagou Bruno.

— Ah, a mulher implicou comigo porque eu não tava prestando atenção na aula dela e começou a gritar falando que eu não ia ser ninguém na vida e um monte de coisas. Me estressei tanto que mandei ela calar a boca, me levantei pra sair da sala e antes de sair falei pra ela parar de descontar o fato de ser uma encalhada nos outros. – expliquei.

— Eu lembro! – disse Bruno. – Até hoje chamam ela de encalhada pelos corredores. – complementou rindo.

— Isso me rendeu uma suspensão.

— E eu virei seu fã.

— Pessoal, olhem pra mim – uma garota gritou da frente da sala interrompendo nossa conversa e chamando a atenção de todos. Por acaso era a garota da voz irritante. – Precisamos conversar sério. Nós precisamos fazer alguma coisa pra mudar nosso professor de Literatura.

— Por que? – a professora de Matemática que só então notei já estar na sala perguntou. Era a mesma professora que me deu aula no ano anterior, gostava dela, mas da matéria dela nem tanto.

— Aquele cara é maluco! – ela respondeu para a professora. –Mais um ano com ele não dá.

— Eu penso o mesmo de você, Tatiane. – Gustavo falou em voz alta e todos da sala gargalharam. Confesso que não imaginava ele fazendo algo assim, mas pelo visto ou estava mesmo disposto a defender o tal professor ou não suportava a tal Tatiane.

— Cala a boca, idiota. – ela rebateu e ele fingiu que nem ouviu.

— Então, qual seu nome? – Carol se virou para mim e perguntou.

— Isabelle.

— Prazer Isabelle, eu sou a Carol.– ela se apresentou com um sorriso sincero no rosto. – Esse aqui é o Gustavo – disse apontando para ele – e este é o Bruno – terminou apontando para o loiro. – O Gabriel parece que você já conhece.

— Sim.

— Bom, o quão estressada mesmo você é?

— Por que?

— Se prepare para conviver com a Tatiane, a hiena lá na frente. Ela faz qualquer um perder a paciência. – não pude deixar de rir quando ela chamou Tatiane de hiena, pois fora a mesma coisa que pensei da garota a primeira vez que ela abriu a boca perto de mim.

— A voz dela é tão irritante que ecoa na minha cabeça. – Gabriel intrometeu no assunto.

— Olha quem ta cuspindo no prato que comeu. – Carol rebateu divertida.

— Ela é insuportável.

— Mas você comeu.

— Porque com a boca ocupada ela pode ser bem útil.

— Não começa, por favor. – ela disse revirando os olhos e ele riu, logo em seguida deitou sobre a mesa aparentemente disposto a voltar a dormir e Carol se virou para frente.

Tatiane havia desistido do assunto e foi se sentar. A professora de Matemática começou sua aula e eu tentei prestar atenção, mesmo que vez ou outra me perdesse no meio da explicação observando o ventilador, a janela, o teto ou qualquer outra coisa que estivesse por perto. Quando voltava a prestar atenção já tinha perdido o raciocínio e me irritava, como sempre acontece.

Fiquei feliz quando o sinal do intervalo finalmente tocou e encontrei Leticia na porta da sala me esperando. O resto do pessoal não estava lá, de acordo com ela Amanda tinha descido com Lorena e o resto estavam todos mortos na sala. Descemos para o pátio e sentamos em um banco qualquer.

— Eu to com fome – reclamou Leticia olhando uma garota passar com um bolo em nossa frente.

— Eu também.

— Não trouxe dinheiro.

— Nem eu.

— Imprestável. – ela bufou. – Não tomei café da manhã.

— Eu tomei.

— Vadia. – ela me xingou e deitou sua cabeça em meu ombro.

Ficamos em silêncio por um tempo, enquanto pensava em mil coisas. Leticia era minha melhor amiga desde criança e não importa quanto tempo passamos uma com a outra, nunca me canso dela. As vezes simplesmente fazemos companhia uma à outra sem falar absolutamente nada, como naquele instante e a situação não ficava constrangedora, como aconteceu quando eu conversara com Gabriel, por exemplo. Amizades assim são verdadeiras.

— O Gabriel ainda lembra de você. – disse me lembrando do que ele havia dito.

— Ta, e daí? – ela perguntou indiferente.

— Nossa, você sempre fala dele com entusiasmo, achei que ia gostar de saber.

— Isa, entenda uma coisa, o Gabriel é galinha, cafajeste e vagabundo. Eu até pegaria de novo porque ele é gostoso, mas ele definitivamente não é o tipo de cara com quem se deve entusiasmar ou se envolver. — explicou. – E foi mal, só to de mal humor.

— Entendi.

— Mas como é que você sabe disso?

— Ah, conversei com ele hoje e ele falou. – disse indiferente. – Com os amigos dele também. Eles são legais.

— Não me troca, vadia. – ela falou me olhando com a melhor cara de brava que sabia fazer.

— Se eu ganhasse um real a cada vez que você me chamasse de vadia, eu seria uma vadia de luxo. – pensei em voz alta.

— Vadia. – ela me xingou novamente em meio a uma crise de riso pelo que eu havia dito.

— Oi, lindas! – cumprimentou Amanda, se aproximando da gente. Ela se sentou ao meu lado no banco e me deu um abraço apertado. – Estou com saudades de você na sala, Isa.

— Também estou com saudades. – respondi sincera.

— Ta sabendo da festa de amanhã? – ela perguntou desfazendo o abraço.

— Festa em uma plena quarta-feira?

— Sim, vai ser na casa de um menino do Terceiro B. Na verdade o irmão dele que ta dando a festa, é da faculdade e tal, só que qualquer um pode ir desde que pague pra entrar.

— E quanto ta pra entrar?

— 10 reais feminino e 20 masculino – respondeu Leticia.

— Vocês vão?

— Eu perco alguma festa? – Amanda respondeu fazendo uma pergunta de resposta óbvia.

— Claro que não. – respondi rindo. Amanda nunca perdia uma festa. – E você, Lê?

— Acho que não, quero sair no fim de semana e preciso economizar dinheiro.

— Entendi. Amanhã decido o que vou fazer. – disse para deixar Amanda feliz, mas a verdade é que não estava disposta a ir numa festa no meio da semana, sem contar que duvido que minha mãe deixaria, porque tenho aula no dia seguinte.

O intervalo passou muito rápido e voltei para a sala. Acabei dormindo nos dois próximo horários e só acordei com o sinal do segundo intervalo tocando. Peguei meu celular e havia uma mensagem da minha mãe dizendo “Você não ligou pro seu pai”. Eu havia esquecido completamente, apenas respondi dizendo que ia ligar e disquei o número dele ainda com a cabeça deitada sobre a mesma.

— Alô – ouvi a voz do meu pai dizer do outro lado da linha.

— Oi, pai.

— Oi, filha! Ta bem?

— Sim e o senhor?

— Bem.

— Mamãe falou pra eu te ligar ontem, mas esqueci.

— Ia te chamar pra almoçar no Shopping Curitiba, quer? Preciso comprar o presente de aniversário da Lilian e aproveitamos pra comprar as coisas que você me pediu.

— Pode ser, vou sair da escola e ir direto pra lá.

— Ta bom, quando chegar lá me avisa.

— Ok. Até mais tarde. – me despedi e desliguei a ligação, depois mandei uma mensagem para minha mãe avisando que não iria pra casa.

O próximo horário foi Geografia e logo em seguida me animei por ver a professora de Língua Portuguesa entrando na sala. Marise era a melhor professora daquele colégio. Foi por causa dela que me tornei obcecada por livros. Ela colocou suas coisas sobre a mesa do professor e cumprimentou os alunos, em seguida se apresentou, mesmo que eu tenha certeza de que quase todos a conhecem. Então começou sua aula de uma forma diferente, como sempre gostava de fazer.

— Eu sei que todo mundo aqui já se conhece e que talvez vocês achem isso chato, mas eu quero conhecer um pouco de cada um de vocês. — ela afirmou. Na verdade eu não conheço ninguém. – Por isso vamos fazer uma coisa típica de ensino fundamental, mas que vai descontrair um pouco e é melhor que eu encher o quadro de matéria, certo? – ela perguntou e os alunos concordaram. – Quero que cada aluno se apresente, dizendo seu nome, o que quer cursar na faculdade e contando algum medo que tenha.

— Por que um medo? – uma garota sentada na frente perguntou, a qual mais tarde descobri se chamar Bárbara.

— Essa é a parte descontraída, vamos rir do coleguinha. — a professora respondeu e o pessoal se animou com a ideia. – Meu nome é Marise, eu cursei Pedagogia há muitos anos e tenho medo de tubarões. – ela mesmo deu início a brincadeira que já rendeu boas risadas sobre o medo de tubarões.

Todos os alunos foram se apresentando e com isso fui descobrindo o nome de todas da sala. A variedade de cursos que os alunos queriam era imensa, haviam os que queriam cursos mais comuns como Medicina, Direito, Agronomia, entre outros, e os que queriam cursos que nunca ouvi falar, como Oceanografia, o que descobri ser algo que estuda mares, rios, lagos e oceanos. Quando contavam seus medos a sala acabava em gargalhadas simultâneas. Revelaram ter medo do escuro, de altura, insetos, relacionamentos, trovões, cavalos, bexigas, multidões, casar, morrer, entre muitos outros.

Quando foi a vez do pessoal que conhecia falar, prestei mais atenção do que no resto. O que acabou acontecendo em ordem, já que estávamos sentados perto e a ordem começou por Gustavo.

— Meu nome é Gustavo, quero cursar Medicina e tenho medo de só conseguir passar no vestibular na vigésima tentativa. — ele disse fazendo careta no final, o que me fez rir.

— O importante é não desistir, Gustavo. — incentivou Marise. Logo em seguida foi a vez de Carol.

— Meu nome é Carol, quero cursar Arquitetura e tenho medo de perder as pessoas que amo. — ela disse sincera.

— Acho que todos temos. – a professora afirmou e concordei mentalmente. Em seguida foi a minha vez de falar.

— Meu nome é Isabelle, quero cursar Psicologia e tenho medo do futuro.

— Interessante, Isa. — disse Marise. – E por que quer cursar psicologia?

— Porque a mente humana é algo extraordinário. — afirmei. – Somos os únicos seres racionais e conseguimos a proeza de agir feito irracionais.

— Muito bom seu raciocínio. — ela disse após uma breve risada e fez sinal para que Gabriel continuasse a brincadeira.

— Meu nome é Gabriel, quero cursar Publicidade e tenho medo de morrer sem ir em um show de todas as minhas bandas preferidas. — ele afirmou e quase me levantei e fui até ele abraçá-lo por compartilhar do mesmo medo que eu.

— Espero que Nirvana não esteja nessa lista de shows. – ela disse se referindo a camiseta que ele estava usando. – Sabe como é, Kurt Cobain não pode mais cantar. – completou fazendo com que ele risse.

— Meu nome é Bruno, quero cursar Engenharia Aeronáutica e tenho medo de não presenciar o apocalipse zumbi. — disse Bruno conseguindo as risadas mais altas até então.

— Engenharia Aeronáutica? — a professora o indagou.

— Minha mãe não me deixou ser astronauta. — ele explicou forjando uma cara de decepcionado.

— Que triste! — lamentou Marise – Mas não perca as esperanças sobre o apocalipse.

— Pode deixar. – ele respondeu divertido e Gabriel deu um tapa em sua cabeça.

Quando a brincadeira terminou faltava menos que dez minutos para a aula acabar e a professora nos liberou. Saí do colégio e coloquei meus fones para ir almoçar com meu pai, o lugar era perto dali então iria andando mesmo. Após alguns minutos caminhando senti um de meus fones ser retirado por alguém, olhei e avistei Gabriel parado ao meu lado.

— Te gritei umas dez vezes. – ele disse ofegante, aparentemente por ter corrido até mim.

— Foi mal!

— Ta indo pra onde? — perguntou.

— Shopping Curitiba e você?

— Casa, moro lá perto. Quer companhia?

— Claro. — respondi. – Então você também mora no Batel?

— Sim, mora por aqui?

— Mais ou menos, meus pais são separados e aí minha guarda é dividida. Mas minha mãe mora aqui e passo a maior parte do tempo com ela. – expliquei.

— Entendi. E ta indo fazer o que no shopping?

— Almoçar com meu pai.

— Tenho uma sugestão muito boa de lugar pra vocês comerem.

— Onde?

— Burger King, já ouviu falar? É revolucionário. – ele disse fazendo graça e também com que eu risse. – Desculpa, mas não almoço em restaurantes chiques do shopping, não nasci pra ter classe. – complementou imitando alguém tomando café com o dedo mindinho levantado, o que me fez rir ainda mais.

— E você acha mesmo que troco hambúrgueres gordurosos por alguma comida de restaurantes chatos? Não mesmo! Qual a graça de comer sem engordar vinte quilos? – dessa vez ele quem riu e quando as risadas cessaram, mudou de assunto.

— Então... Por que exatamente medo do futuro? — perguntou se referindo ao que eu havia dito na sala.

— Tenho medo de não realizar todos os meus sonhos ou de que as coisas não sejam como quero, não sei como vai ser minha vida e tenho medo de não viver tudo que quero. Afinal, só se vive uma vez.

— Na verdade dizer isso é errado, porque se vive todos os dias, se morre apenas uma vez. – ele falou e o olhei com uma sobrancelha arqueada.

— Reflexivo. – afirmei e ele sorriu mostrando uma covinha no lado direito de seu rosto que até então não tinha reparado, a qual não combinava com seu rosto nada angelical, mas que o deixava extremamente lindo.

— Achei engraçado o que falou sobre porque quer ser psicóloga. – ele continuou o assunto.

— O ser humano pode ser bem irracional em muitas situações.

— Por exemplo?

— Quando ama alguém. Essa é a principal desculpa pra agir estupidamente.

— Experiência própria? – ele perguntou e me olhou com curiosidade.

— Não, nunca amei ninguém. – respondi e ele não disse mais nada, apenas ficou pensativo. Quando percebi já estávamos de frente o shopping.

— É aqui que você fica. – afirmou parando de frente para mim.

— Sim. Mora ainda mais pra frente?

— Não, na verdade pra trás. Só vim até o shopping pra te fazer companhia.

— Ah, valeu! – agradeci perplexa. – Não quer comer comigo e meu pai?

— Não, isso seria bem... estranho. – ele disse fazendo uma careta e rindo. – Mas valeu pelo convite.

— Por nada.

— Vou indo. Até amanhã! – ele disse e me deu um beijo no rosto, logo em seguida se virou para ir embora.

— Até! – respondi e me virei para adentrar o shopping.

— Ei! – ouvi a voz de Gabriel dizer e olhei para trás, ele estava me encarando – Ta sabendo da festa de amanhã? – perguntou.

— Sim.

— Você vai?

— Festa em uma quarta-feira, acho que minha mãe me deserda.

— Se mudar de ideia me avisa, eu vou. – Gabriel disse sorrindo.

— Tudo bem. – respondi e ele colocou seus fones voltando a andar. De repente não seria uma má ideia aparecer nessa festa.

Assim que entrei no shopping, liguei para o meu pai avisando que já chegara e nos encontramos em frente ao Burger King. Como eu já imaginava ele tentou me convencer a almoçar em um restaurante qualquer, o que me fez rir lembrando de Gabriel, mas por fim acabei vencendo a briga.

Depois de comermos andamos o shopping inteiro atrás de um presente pra Lilian, sua namorada. Eles já estavam juntos a bastante tempo e eu gostava dela. No início foi meio estranho meu pai aparecer com alguém, mas me acostumei. A questão é que nenhum de nós dois fazíamos ideia do que comprar, eu porque não conhecia os gostos dela e meu pai por ser homem e nunca ter reparado nos gostos dela. Acabou que ele comprou uma jóia, concordamos que todas as mulheres amam jóias.

Durante esse passeio acabei lucrando, consegui que ele comprasse algumas camisetas pra mim, as quais ele julgou ser nada femininas e eu apenas ignorei, e também ganhei alguns CD's. Quando ele me deixou em casa no fim da tarde, estava com sacolas de presentes novos e um bom humor incontestável. Bom, era o que eu achava.

Coloquei as sacolas em meu quarto e fui até o quarto de minha mãe, ela estava deitada assistindo televisão.

— Mãe, posso ir em uma festa amanhã? – pedi assim que adentrei o quarto.

— Lógico que não, você tem aula quinta-feira. – ela respondeu óbvia sem nem ao menos tirar os olhos do programa que estava assistindo.

— O que é que tem? Todo mundo vai! – insisti.

— Todo mundo, menos você.

— Que saco! – gritei e sai estressada.

— E nem ouse pedir pro seu pai. – ela gritou do quarto. Voltei lá só pra pegar a porta que havia deixado aberta e a bater com toda força que tinha. Ela disse algo, mas não ouvi.

Segui direto pro meu quarto, onde me tranquei e passei o resto do dia disposta a ignorá-la.

Notas finais
Olá Leticia, obrigada por não desistir de dar asas a minha imaginação. Te amo.