Poltrona 19
6 Ressaca moral
Notas iniciais
– Isabelle. – Leticia chamou me olhando séria. – Ta na hora de ir embora.
– Eu te deixo em casa depois. – Gabriel sugeriu me olhando.
– Não, ela vai embora comigo. – Leticia disse fria, ainda me olhando como se quisesse que eu percebesse pelo seu olhar que ela estava muito, muito brava. E eu percebi.
– Acho que ela não ta afim de ir embora. – ele rebateu.
Comecei a me sentir irritada por ninguém me deixar falar.
– Fica na sua. – Leticia disse perdendo a paciência. Gabriel me abraçou pela cintura.
– Algum problema comigo, Leticia? – ele perguntou à ela e me deu um beijo no pescoço. – To começando a achar que está com ciúmes.
Leticia levou suas mãos até as têmporas do rosto e fez movimento circular com os dedos naquela região com os olhos fechados. Se eu bem a conhecia estava contando até dez e tentando se controlar para não socar a cara dele. Mas será que ela estava com ciúmes?
Eu achei melhor me intrometer, mas quando ia falar algo fui interrompida por Leticia.
– Não, mas você vai ter muitos com uma garota chamada Amanda. – Leticia disse fria olhando diretamente para ele. Senti as mãos de Gabriel se afrouxarem na minha cintura e ele endireitou o corpo, dessa vez ficou completamente mudo.
– Acho melhor eu ir embora. – disse percebendo que o clima ficou tenso. Eu não estava entendendo absolutamente nada.
Me virei para Gabriel e ele me deu um selinho, depois lançou um olhar significativo para Leticia e saiu andando sem falar nada. Mas que porra aconteceu?
Assim que Gabriel saiu andando, Leticia também se virou e começou a andar rumo a saída sem me esperar. Fui andando atrás dela e pedi que me esperasse ou andasse mais devagar umas três vezes, mas ela apenas ignorou. Quando chegamos do lado de fora ela continuou a andar e eu me estressei.
– Leticia, dá pra me explicar que porra ta acontecendo? – gritei nervosa.
– Que porra você tem na cabeça, Isabelle? – ela gritou se virando para trás e me encarando. – Por que você ficou com o Gabriel?
– Você ta mesmo com ciúmes? – perguntei desconfiada.
Ela passou a mão pelo rosto como faz quando está nervosa.
– Você me fez mesmo essa pergunta? – indagou incrédula.
– Você quer que eu pense o que?
– Isabelle, que parte sobre o quão cafajeste o Gabriel é, você não entendeu? – ela perguntou ignorando a minha pergunta anterior.
– Foi só uma ficada! – respondi indiferente.
– Só uma ficada... – ela repetiu sarcasticamente. – Vocês quase transaram em público e pelo que eu bem entendi, você estava indo pra um quarto com ele, né?
– Qual o problema, caralho?
– O problema é que ele ta com a Amanda, Isabelle! A Amanda. A nossa amiga Amanda. – ela praticamente cuspiu as palavras.
– Como assim, ele ta com a Amanda? – perguntei perplexa. – Eles nem se conhecem... – completei e minha voz falhou no final.
– Ele já queria ficar com ela faz tempo e ai na festa de quarta eles se pegaram e ainda estão se pegando. Eles saíram quinta depois da aula, hoje também e iam sair amanhã. Ele só ficou contigo porque Amanda disse que não viria pra festa, porque ela realmente não vinha, mas ela veio, ficou com outro cara e ele viu. – ela explicou tudo de uma vez. – E porque como eu avisei, ele não presta.
– Mas ele tava comigo hoje depois da aula e disse que iria pra casa...
– Ele não foi pra casa, ele foi almoçar com a Amanda.
– Ah. – foi tudo que consegui dizer.
– Mas é claro que ninguém me ouve, né. A linda tinha que ir la fazer a burrada e o pior é que pelo que conheço Amanda ela ainda vai continuar com ele. – Leticia disse mais para si mesma do que para mim.
– Eu não sabia de nada, ta. – disse alterada. – Ninguém me falou nada sobre Gabriel e Amanda ou o caralho a quatro.
– Mas sabia que não devia se envolver com ele.
– Mas eu quis! – gritei e comecei a chorar sem nem entender por que diabos eu estava chorando.
– Isabelle, você ta bêbada? – Leticia perguntou se aproximando.
– Não. – respondi.
– Você bebeu? – ela tornou a perguntar.
– Sim, o Gabriel me deu umas bebidas.
– Eu não acredito que o filho da puta te embebedou pra poder te pegar. – Leticia gritou com raiva. – Eu vou socar a cara dele. – pronunciou lentamente. – E eu não acredito que você deixou que ele te embebedasse. – ela disse ainda nervosa.
Aquilo fez com que eu chegasse ao nível máximo de raiva.
– Cade minhas coisas? – perguntei.
Ela retirou minhas coisas que estavam guardadas na bolsa pendurada em seu braço e me entregou. Olhei para ela uma última vez, virei as costas e sai andando.
– Onde você ta indo, Isabelle? – Leticia perguntou sem paciência.
A ignorei e continuei andando, me amaldiçoei por estar trocando passos, mas eu estava me sentindo tonta e minha visão estava embaçada.
– Isabelle, volta aqui! – Leticia gritou e ouvi passos em minha direção.
Me virei para ela e disse calmamente.
– Eu to indo embora e não me enche o saco porque sei muito bem me cuidar.
– Percebi... – ela rebateu irônica.
Sai andando com pressa e virei a esquina, Leticia não estava mais me seguindo e quando percebi já estava chorando de novo. Eu nunca na minha vida imaginei que algum dia choraria de bêbada.
Peguei meu celular, olhei a placa na rua para ver o endereço e chamei um táxi. Estava sozinha em uma rua deserta de madrugada, não pude deixar de sentir medo de ser assaltada ou qualquer coisa do tipo, mas continuei ali esperando e tentei focar meus pensamentos em outra coisa, o que não foi uma boa escolha. Era informação demais na minha cabeça e eu estava realmente confusa.
Não gostava ou sentia qualquer coisa por Gabriel, o que rolou foi simples atração, mas eu me senti extremamente mal com tudo que aconteceu. Primeiro minhas amigas haviam escondido de mim que Amanda estava ficando com Gabriel, depois eu fui usada por Gabriel pra dar o troco em Amanda e Leticia ainda me culpou por ter sido burra o suficiente pra cair na dele e ainda ter deixado que ele me embebedasse. Eu não deixei porra nenhuma, só achei que o filho da puta queria que eu me divertisse.
É, eu não estava chorando de bêbada, estava chorando por me sentir um lixo.
O táxi chegou e limpei meu rosto, entrei no carro, passei meu endereço e permaneci em silêncio até chegar em casa. Só consegui destrancar a porta na quinta tentativa e já estava irritada, quando entrei fui direto pro meu quarto, tranquei a porta e me joguei na cama onde dormi exatamente como estava.
Acordei incomodada com uma luz em meu rosto, pisquei algumas vezes até me acostumar com a luminosidade e percebi que havia deixado a janela do quarto aberta. Me levantei depressa disposta a fechá-la e voltar a dormir, mas me senti zonza e cai sentada de volta na cama. Acho que levantei depressa demais.
Minha cabeça doía e a segurei entre minhas mãos. Senti o cheiro de álcool e percebi que vinha de mim, que ainda estava com as roupas de ontem, inclusive os sapatos. Retirei os mesmos e me despi ficando apenas de roupa íntima, logo em seguida fui até o banheiro do meu quarto. Me olhei no espelho e meu rosto estava péssimo, meus olhos estavam inchados e minha maquiagem estava toda borrada.
Terminei de tirar a roupa e entrei debaixo do chuveiro, o ligando e sentindo a água quente cair sobre meu corpo o relaxando. Encostei minha cabeça na parede enquanto as lembranças da noite passada invadiam minha mente. Infelizmente tudo não foi uma alucinação, pesadelo ou sequer algo que o álcool fez que eu imaginasse. Respirei fundo tendo a certeza de que não sabia o que fazer.
Tomei um banho demorado e depois vesti um pijama qualquer. Era sábado, mas eu não sairia de casa nem se me obrigassem. Meus cabelos estavam envoltos em uma toalha e quando voltei ao banheiro para escovar os dentes, vi no espelho o que eu não queria ver. Meu pescoço estava com duas marcas roxas. Amaldiçoei o mundo por isso.
Escovei os dentes e logo em seguida meu cabelo, tentei passar maquiagem no meu pescoço pra tentar sumir com aquelas marcas, mas tudo que consegui foi disfarçar um pouco. O jeito era deixar meus cabelos soltos, ficar o mais longe possível da minha mãe até as marcas desaparecerem e rezar para que ela não as veja.
Minha cabeça ainda estava doendo e senti meu estômago roncar de fome, olhei as horas no relógio e já eram quase três da tarde. Resolvi sair do quarto atrás de remédio e comida e encontrei minha mãe deitada no sofá da sala.
– Olha quem acordou! – mamãe disse me olhando.
– Bom dia, mãe. – respondi me encaminhando até a cozinha.
– Como foi a festa? – ouvi ela perguntar da sala.
– Boa. – disse. Até a hora de ir embora, pensei. – Tem alguma coisa de comer?
– No forno.
Abri o forno e havia uma lasanha ali e uma travessa com arroz. Logicamente minha mãe teria feito apenas o arroz e a lasanha comprou pronta. Peguei um prato e coloquei comida para mim, mas antes de sentar para comer tomei um remédio para dor de cabeça.
Após comer e ter tomado o remédio me senti bem melhor, porém me sentia exausta tanto fisicamente quanto mentalmente. Eu não parava de pensar em tudo que tinha acontecido. Estava magoada com todo mundo, mas imaginei que o sentimento era recíproco.
Ao terminar de comer lavei tudo que tinha sujado evitando reclamações de minha mãe e consequentemente brigas, depois voltei para meu quarto e procurei meu celular, o encontrei caído no chão e haviam seis mensagens nele.
Três mensagens eram de Leticia, a primeira recebi às 4:35 da madrugada, dizia "Quando chegar em casa me avisa por favor". A segunda era de hoje de manhã, dizia "Precisamos conversar" e a terceira de um pouco mais tarde dizendo "Dá sinal de vida, Isa". A outra mensagem era de Amanda, dizia "Ei, preciso falar com você, te amo". Não pude deixar de sorrir aliviada por Amanda não estar com raiva de mim. A mensagem seguinte era de um número desconhecido: "Primeira festa de muitas Hahahaha te adoro ♥ /Carol" e a última mensagem era de Gabriel, também dizendo "Precisamos conversar".
Fiquei pensando na mensagem de Carol e cheguei a conclusão de que eu havia gostado muito da festa, de ter me divertido com ela e os meninos, ter conhecido os amigos deles, inclusive o irmão mais velho de Gabriel, Henrique. E Luiza com quem me simpatizei muito. Se não fosse por Gabriel a noite teria sido perfeita.
A pior parte era que mesmo estando morrendo de raiva de Gabriel, eu não conseguia me sentir arrependida de ter ficado com ele e me surpreendi com a mensagem, mesmo assim eu estava decidida de que não aconteceria de novo, então a primeira mensagem que respondi foi a dele e isso acabou gerando uma conversa tensa.
"Esquece o que aconteceu ontem, cara. Deixa esse assunto pra lá e pronto".
"Eu quero me explicar. Você já falou com alguma das meninas?".
"Explicar o que? Não".
"Eu não faço ideia do que a Leticia te falou, mas eu não fiquei contigo por causa da Amanda, fiquei porque eu quis"
Ouvi alguém batendo na porta e mandei entrar, era minha mãe.
– Isa, ontem depois que saiu peguei suas roupas pra colocar pra lavar e achei isso aqui. – disse me entregando uma carteirinha.
Peguei a carteirinha e olhei, era a carteirinha do colégio com a foto de Gabriel. "O que a carteirinha do Gabriel ta fazendo comigo?", me perguntei mentalmente. Então me lembrei de que quando fui ajudar ele a guardar os materiais na sexta, havia a colocado no bolso da minha calça.
– Ta de rolo, Isa? – minha mãe perguntou zombando.
– Ai mãe, sai daqui. – disse revirando os olhos e ela riu.
– Eu to indo na casa de sua tia, quer ir?
– Nem, to morrendo de preguiça.
– Ta bom, to indo, qualquer coisa me liga.
– Ok. – respondi e ela saiu do quarto.
Senti meu celular vibrar e Gabriel havia mandado outra mensagem, mesmo que eu não houvesse respondido a anterior. Dizia "Podemos nos ver? Queria conversar contigo pessoalmente antes que você falasse com as meninas"
Eu olhei para a carteirinha e depois olhei para o celular. Minha mãe estava saindo agora, eu queria saber o que ele tinha pra falar e teria que devolver a carteirinha mesmo...
"Tudo bem, pode vir até minha casa?", respondi por mensagem. "Sim, só me passa o endereço" ele pediu na mensagem seguinte e eu passei. Dali vinte minutos Gabriel estaria na minha casa e eu esperava sinceramente não me arrepender dessa decisão.
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