Poltrona 19

50 Reencontros


Notas iniciais
Eu gostaria de começar essa nota dizendo que pra esse post sair até em lan house eu fui. SIM, LAN HOUSE. Que fase. Quando eu digo que eu sou a pessoa mais azarada do mundo eu não to brincando. Vcs lembram que eu disse que tinha sido roubada, né? Pois é, como nosso prejuízo foi muito grande eu não tive como comprar outro notebook e estava usando um velho de um primo meu emprestado. Aí num belo dia o computador resolveu atualizar o Windows sozinho e depois que atualizou ele não estava mais reconhecendo o wireless. E pra resolver o problema eu precisava de internet, mas sem wifi eu não tinha internet e sem internet eu não resolvia o problema. Ou seja, fiquei sem computador de novo. Mas consegui levar num técnico e acabei de voltar de lá nesse exato minuto. Mas vamos lá, hoje eu quero agradecer três pessoas. Duas delas eu acho que até pensaram que eu tinha as esquecido: Patriciamelo e A sua mai. Eu não me esqueci de vocês lindonas, muito menos das recomendações lindas que fizeram a história um tempo atrás. Tanta coisa passou que não tive chance de dizer obrigada, mas estou aqui agora pra fazer isso. As duas já me acompanham há um tempo e sempre foram muito carinhosas comigo, por isso quero agradecer por terem se dedicado a escrevê-las, porque cada recomendação é muito importante pra mim, me deixa extremamente feliz. Então, obrigada MESMO de todo meu coração! A terceira pessoa... putz. Li sua recomendação hoje, Rose Carlin, e confesso que você me pegou despreparada. Eu realmente não estava esperando ler algo tão bonito. Senti algo especial em suas palavras, uma sinceridade que me tocou e me fez realmente chorar. Eu realmente me senti tão tocada que estou escrevendo uma mensagem de agradecimento que chegará pra você em alguns dias, apenas aguarde um pouquinho por favor. Mas por enquanto quero deixar aqui meu mais sincero obrigada. To sentindo algo bom dentro do peito e é por sua causa. Obrigada mesmo! Além disso tudo, quero agradecer as pessoas que comentaram no último capítulo mostrando que ainda estão aqui. É por vocês que estou continuando e sempre continuarei. Boa leitura!

Quando cheguei em casa após a aula, me deitei na cama e ali permaneci até que não pudesse mais. Não falei com ninguém e nem sequer comi. Apenas encarei meu teto branco por horas e horas. Gabriel não saia da minha mente. Eu fechava os olhos e era como se pudesse enxergar cada linha do seu rosto, mas me doía perceber que eu não conseguia mais me lembrar claramente do cheiro do seu perfume.

Eu percebi que precisava desesperadamente esquecê-lo, mas no fundo não queria. Mesmo apesar de tudo.

— Como foi vê-lo? – perguntou Lisa em nossa segunda sessão, naquele mesmo dia.

— Doído. – respondi simplesmente e suspirei. – Como pode ser possível amar tanto alguém?

Eu estava mais inquieta que o comum. Após a terapia tentei cozinhar, tentei desenhar, tentei escrever. Tentei de tudo, mas nada me distraia o suficiente. Acabei jogada no chão do meu quarto com meus diários ao meu redor. Me esforcei ao máximo para abrir qualquer um menos o deste ano, mas quanto mais eu folheava as folhas de todos aqueles cadernos antigos, mais minha vontade de abrir justamente aquele que me machucaria aumentava. Às vezes não entendo essa nossa obsessão por resgatar coisas que não nos fazem bem, é como ficar enfiando o dedo na ferida sem nunca deixar que ela cicatrize.

Acabei me rendendo e abri o caderno que queria, o folheei e parei em uma página qualquer. Inevitavelmente esbarrei em uma de nossas lembranças. Tudo ali era sobre ele, cada letra da minha caligrafia pequena e redonda. Fora um dia qualquer, deitados sobre meu tapete.

“— Tenho vontade de tatuar “what if? (e se?)” em alguma parte do meu corpo, mas não sei onde. – contei. Estava com as pernas em cima do peito de Gabriel enquanto ele desenhava algo em uma delas.

— What If? – ele perguntou sem entender. – Por que?

— Tenho pensado muito em quantas coisas costumava perder por medo demais de tentar e arriscar. É um lembrete pra mim mesma de que é sempre melhor se arrepender do que deitar a cabeça no travesseiro e não conseguir dormir pensando em como teria sido.

— E por que você tem pensado nisso?

— Porque desde que te conheci nunca mais senti medo. – respondi olhando em seus olhos e ele sorriu.

— Terminei. – disse em seguida me deixando ver o desenho. Ele havia desenhado uma mandala em minha perna.

— Até que não ficou ruim... – elogiei.

— Melhor do que essa coisa que você fez no meu braço com certeza está. – ele rebateu apontando pra minha tentativa falha de desenhar um barco nele.

— Nunca disse que desenhar era um de meus dons.

Ele puxou meu braço, escreveu algo na lateral dele, ao lado do meu punho e me mostrou. “What If?” estava escrito.

— Acho que é um bom lugar.”

Peguei uma caneta, escrevi aquelas duas palavras naquele mesmo lugar e dormi pensando se aquilo ainda se aplicava a mim. Não sei se nesse momento prefiro ter me arrependido ou se era melhor simplesmente não ter arriscado. Só sei que apagar Gabriel de mim vai me custar tempo e dor.

Na manhã seguinte acordei com meu despertador tocando e por um breve momento senti falta do meu celular e de poder ativar a soneca. Tenho usado um despertador antigo que minha avó me deu, desses que faz mais barulho que sirene de ambulância e que só desliga depois que você o acerta com uma paulada.

Decidi que naquele dia chegaria no colégio no horário mais tarde possível, porque isso significaria menos tempo de tortura. Lisa me convenceu a pensar bastante sobre se realmente quero me mudar pra outra escola assim tão de repente. E eu percebi que querer não quero, só queria dar um jeito de apagar as lembranças. Mas elas vão me acompanhar por onde quer que eu vá.

Me arrumei lentamente, peguei minhas coisas e quando cheguei na sala levei um puta susto. Leticia estava sentada no meu sofá, usando seu uniforme e segurando sua mochila sobre o próprio colo.

— Oi – ela disse um tanto quanto receosa e eu demorei um pouco pra assimilar sua presença ali. Talvez por isso ela tenha emendado outra frase achando que eu não responderia. – Sua mãe me deixou entrar.

— Tudo bem. – respondi.

— Posso te fazer companhia até o colégio? – ela pediu e eu apenas assenti, ainda sem conseguir assimilar toda aquela situação.

Nós saímos em silêncio e permanecemos em silêncio enquanto caminhávamos pela calçada. Era estranho Leticia estar ali depois de tudo. Eu sentia um misto de vontade de abraça-la e chorar até não sobrar mais água no meu corpo com vontade de gritar todos os xingamentos do mundo.

— Você ta brava comigo? – ela perguntou finalmente quebrando o silêncio.

— Não sei. – confessei. – Acho que decepcionada por você ter me abandonado quando mais precisei de você. Achei que a gente estaria aqui uma pela outra, mesmo que uma de nós não merecesse.

— Mas eu estava aqui, Isa. – ela defendeu-se.

— Você nem sequer me procurou, Leticia. – respondi um pouco alterada.

— Lógico que procurei, mas sua mãe disse que você não queria falar com ninguém.

— Como assim? – perguntei sem entender.

— Eu fiquei muito chateada com você naquela noite, Isa. Fiquei mesmo. Mas foi só eu botar a cabeça no travesseiro e organizar meus pensamentos que percebi que eu não podia te deixar. E eu te liguei muitas vezes, você não atendeu e depois simplesmente desligou o celular. Eu entendi aquilo como que você não quisesse falar comigo. Principalmente quando liguei na sua casa e sua mãe disse que você não queria falar com ninguém.

— Eu não vi essas ligações, desliguei o celular porque de fato não queria saber de nada. – expliquei. – Mas sério que não pensou em me procurar mais nenhuma vez? Talvez quando meu avô morreu? Quando eu precisei de um mísero abraço?

Naquele momento percebi que o que mais me magoou não foi seu sumiço ou o fato de ter virado as costas para mim, porque eu entendia e sabia que com todo meu orgulho, se estivéssemos nos papeis invertidos, eu faria exatamente o mesmo e talvez sem nem mesmo peso na consciência. Eu me senti verdadeiramente magoada foi pelo seu silêncio quando meu avô morreu. Ele sempre a considerou como uma neta. Eu esperava um mínimo de consideração por sua parte.

— Eu fui no velório, apenas não entrei. Falei com sua mãe e sua avó. Quis ir atrás de você, mas eu sei o quanto você sempre foi apegada a seus avós e se você não me queria por perto, era melhor que eu respeitasse seu momento. – ela se justificou. – Foi o que fiz.

— Tanto faz. – respondi dando de ombros. Eu não sabia que ela havia ido até lá, vi apenas seus pais no enterro.

— Me desculpa. – ela pediu de forma sincera.

Eu não respondi, mas não porque estava com raiva e sim porque era um pouco difícil pra mim simplesmente deixar tudo pra trás de uma vez. Eu precisaria de um tempo. Mas definitivamente estava feliz por ela estar ali. Foi como se o vazio dentro de mim diminuísse um pouco, não importa o quão pouco fosse.

— Você quer mesmo ir pro colégio? – ela perguntou de repente quando paramos em uma esquina para esperar o semáforo abrir pra nós.

— Por que?

Ela apontou para o quarteirão seguinte onde havia uma padaria onde costumávamos ir quando fugíamos da aula no primeiro ano e nos cagávamos de medo de nossos pais descobrirem.

— Pensei que podíamos matar aula e comer alguma coisa... – ela propôs.

— Pode ser. – aceitei dando de ombros e ao invés de virarmos para a direita e seguirmos rumo ao colégio, caminhamos até a panificadora.

Quando entramos me lembrei de uma vez em que eu e Arthur comemos ali, num dia após eu ter dormido em sua casa escondido de minha mãe. Estávamos nos sentindo os rebeldes sem causa quando na verdade tudo que fizemos em seu quarto fora trocar uns beijos e nem sequer dormir na mesma cama. Dei um sorriso de canto de boca. Nós éramos mesmo muito ingênuos.

Acabei pensando nele e em como ele estava, não havia o visto desde o ocorrido. Não sabia o que havia acontecido com ele nem ninguém.

— Como foram as coisas? – indaguei para Leticia após termos pedido nossas coisas e nos sentado. Não consegui conter minha curiosidade. – Depois de tudo...

— Estranhas. – confessou Leticia. – Você quer mesmo saber?

— Acho que sim.

— Eu não sei como as coisas se espalham tão fácil por aquele colégio, mas na segunda todo mundo já sabia de tudo. – ela começou a contar. – Acredite, nós até tentamos descobrir quem havia espalhado, mas era como tentar achar agulha em palheiro. Só sabemos que com certeza foi alguém que estava na festa e viu tudo.

“E na própria segunda Amanda estava lá, feito uma muralha, de nariz em pé e a postura mais superior que nunca. O primeiro comentário foi de Bianca, mas Amanda rebateu com tanta classe que ninguém ousou dizer mais nada, nem mesmo ela. Eu tenho certeza que Bianca tem medo da Amanda. Não por acreditar que ela apanharia dela, mas por ela sempre ter sido tão fútil e saber que a Amanda ainda é mais que ela lá dentro. Ela não tem coragem de mexer com Amanda. Mesmo depois disso.”

“Gabriel, bom, ele só apareceu na semana seguinte. Não falou com ninguém, nem com os amigos. Ele tava diferente. Quer dizer, ele sempre foi mais fechado quanto a quem ele realmente é, mas ainda era o Gabriel, um holograma projetado para atender suas devidas demandas. Ainda fazia a imagem dele. Mas quando apareceu, ele não tava nem aí pra ninguém. Literalmente empurrou um garoto pra que ele saísse da frente dele. Tentou fumar no pátio e foi parar na diretoria. Depois só apareceu pras provas. E o que se sabe é que ele saiu no meio do horário. Simplesmente jogou as provas em cima da mesa do professor e foi embora.”

“Os boatos que circulavam eram de que Carol, Gustavo e Bruno não estavam conversando com ele, nem entre si. Mas nós sabemos como é difícil acreditar nos boatos desse colégio, principalmente quando se trata de Gabriel, então eu não sabia se acreditava. Mas num certo dia Gustavo veio me perguntar de você, me perguntou se sabia como você estava. Ele tava preocupado com seu sumiço, mas disse que não sentia que deveria te procurar. E eu resolvi perguntar.”

“Ele disse apenas que era complicado. Que ele não conseguiria argumentar, principalmente comigo que sou sua melhor amiga e porque se for pra pensar ele mesmo duvida se ta fazendo certo, mas que ele não conseguiria simplesmente abandonar Gabriel. Ele só pediu pra que eu te dissesse que não abandoná-lo não significa em nenhum momento concordar ou aceitar qualquer coisa que ele tenha feito contigo. Ele deixou bem claro que não o perdoou nem nunca o perdoaria. E que tava dando um tempo pra tudo. Não tava mesmo falando com ele, mas não era o fim da amizade.”

“Quanto a Carol, disse que ela estava extremamente magoada com tudo. Ela sim preferiu se afastar. Começou a andar mais com umas outras amigas dela e nunca mais sequer olhou na cara de Gabriel. E Bruno... Ele contou que o Bruno são sabe lidar muito bem com essas coisas. Ele prefere fingir que nada aconteceu ou acaba se isolando. E acabou fazendo as duas coisas. Tava conversando com as pessoas como se nada tivesse acontecido, mas ta muito mais quieto na dele. Também disse que apesar de tudo continuaria com Gabriel, o problema foi apenas que aparentemente Gabriel não queria ninguém por perto.”

Eu virei meu rosto pro lado na tentativa de esconder as lágrimas que rolaram involuntariamente por meu rosto, mas foi em vão. Eu vi que Leticia percebeu, mas ela respeitou meu momento.

— Como era? – ela perguntou de repente. – Quem ele era com você?

— Era como se, depois de 17 anos deixando o tempo passar como o vento, eu finalmente tivesse começado a viver minha vida. E eu nunca saberei explicar quem ele era, mas aquele cara me fazia entender que amar alguém se trata de amá-lo por tudo e não apesar de tudo.

— Deve ser algo bom de se sentir. – disse Leticia sorrindo para mim.

— Era. – concordei mais uma vez sentindo meu rosto molhado. Já ta ficando chato esse negócio de chorar a todo segundo.

— Quer dizer... Eu me senti assim uma vez em que fui num restaurante em que eles colocavam tudo que você quisesse na sua batata frita, sabe? Tipo aqueles macarrões em que você tem o direito de escolher os ingredientes? – ela disse me fazendo rir ao mesmo tempo em que tentava limpar meu rosto, mas eu simplesmente não conseguia parar de chorar e percebi que já não se tratava mais exatamente de Gabriel, era de como a pessoa certa, se for realmente a pessoa certa, pode comprimir toda sua dor. – Você podia escolher uma quantidade x de coisas que eles jogariam nela. Queijo, bacon, calabresa, mais queijo, palmito, pimenta...

Quando finalmente consegui parar de rir, olhei para ela verdadeiramente grata por tê-la, porque nessa vida você vai aprender que é possível se apaixonar por alguém como se não houvesse mundo sem este aguém e quando te fizerem perceber a força que há sim, vai existir apenas uma única pessoa que irá te ajudar a reconstruir teu próprio mundo. Minha pessoa é Leticia. Por favor, dê valor na sua.

— Amo você. – disse sinceramente.

— Eu também.

— Você também o que? Também se ama? – rebati tacando um guardanapo nela.

— Exatamente. – ela afirmou me tacando o mesmo guardanapo de volta.

— Palhaça.

Nós passamos o resto da manhã juntas brincando de esquecer o passado. Andamos pelo bairro e rimos de futilidades até que desse o horário da saída do colégio, quando tivemos que ir lá pra porta pra que sua mãe a pegasse. Eu a abracei forte e segui meu próprio caminho. Estava me sentindo bem, um bem que me permitiu parar por um momento pra sentir o vento tocar meu rosto e observar o mesmo levar as folhas caídas no chão de um lado para o outro.

Quando percebi estava passando por perto de um shopping e decidi que gastaria meu precioso dinheiro enriquecendo a pior empresa de fast-food do planeta.

— Um Cheddar McMelt sem cebola pra viagem, por favor. – pedi parada em frente ao caixa do McDonalds. Podemos saber o quanto essa porcaria faz mal, mas eu tenho tido costume de amar muitas coisas que me fazem mal mesmo, um sanduíche vai ser o menor dos meus problemas.

— O combo, senhora?

— Isso.

— Gostaria de pagar mais um real e transformar a batata grande em extra grande? – perguntou a atendente e reprimi a vontade de dar um risinho. Acho incrível a habilidade desses fast-foods de irem arrancando dinheiro da gente de pouquinho em pouquinho. Gostaria de pagar mais um real e acrescentar um carro, senhora? E pagar mais dois reais e acrescentar dois filhos e um cachorro? Por mas cinco reais você também tem direito a um tiranossauro rex.

— Pode ser. – concordei.

— Qual o refrigerante?

— Fanta Laranja, por favor.

— 24 reais, senhora. Mais alguma coisa?

— Só isso mesmo, obrigada. – respondi entregando o dinheiro para a mulher que me devolveu o troco de imediato.

— Só aguardar ao lado por gentileza.

Me encaminhei até a fila ao lado que havia umas quatro pessoas em minha frente e me distrai observando o movimento do shopping, até que ouvi uma voz familiar. Olhei para o lado e a voz vinha de um rapaz fazendo seu pedido. Fiquei o encarando tentando reconhecê-lo, mas foi apenas ao virar-se para mim que consegui.

— Isabelle! – disse Lucas, o melhor amigo de Vinícius e quem divide apartamento com ele. Ele pareceu bastante surpreso ao me ver, mas mesmo assim veio em minha direção para me dar um abraço. O abracei um tanto quanto sem graça, me sentindo estranha por ele ser tão simpático mesmo que eu nunca mais tenha falado com o Vinícius. – Quanto tempo! Como você ta?

— To bem. – me senti mais estranha ainda ao responder isso. Essas respostas são de fato automáticas. – E você?

— Também. Fazendo o que aqui pelo shopping?

— Almoçando e você?

— Vim comprar um presente pra minha namorada.

— Namorada? Mentira! – exclamei. – Você ta namorando?

— Sim. – ele respondeu rindo. – Aquela mesma menina de quando nos conhecemos, com você e o Vine no sofá, lembra?

— Lembro sim. – respondi também rindo, tentando disfarçar meu constrangimento. Por sorte gritaram nossos pedidos e nos encaminhamos até o balcão para pegá-los. – Mas falando no Vine, como ele tá? – perguntei enquanto saíamos do meio da multidão.

— Ta bem. Deve estar lá em casa jogado no sofá, coçando o saco e assistindo Netflix.

Consegui imaginar a cena perfeitamente e dei um sorriso.

— Manda um beijo pra ele. – pedi.

— Mando sim, mas você podia aparecer por lá qualquer hora. Ele comentou de você esses dias mesmo...

E de repente me senti melancólica. Me lembrei de como Vinícius parecia a escolha certa naquela época e como de fato era. Foi como se ele tivesse entrado na minha vida apenas pra me dar uma chance de escapar de tudo no que eu havia me enfiado, de me livrar justamente de tudo isso pelo que estou passando agora. E eu fui burra demais pra não me agarrar a essa chance. Tudo seria diferente. Eu poderia estar bem e feliz, com um cara que gostaria de mim de verdade. Nossas escolhas, por mínimas que sejam, são capazes de mudanças catastróficas.

— Aparecerei sim! – respondi com um meio sorriso e nos despedimos.

E aquele seria mais um desses encontros casuais em que prometemos nos ver novamente mesmo sabendo que não vamos, o velho: “Vamos marcar de se ver”, “Vamos sim”, que acaba nisso aí. Mas eu senti uma sensação esquisita de que não era pra ser assim, como se não fosse pra eu ter encontrado Lucas naquela fila do McDonalds em um dia tão aleatório por puro acaso. E eu que nunca acreditei muito em destino, de repente saí correndo atrás de Lucas e o gritei assim que o enxerguei. Ele se assustou, mas parou no lugar onde estava.

— Você tem certeza de que o Vine está em casa? – perguntei assim que me aproximei dele.

— Tenho. – respondeu Lucas com um sorriso surgindo em seu rosto.

— Você acha que ele gostaria de me ver? Tipo, sei lá, agora?

— Claro que sim! Vai lá! Eu ligo pro porteiro e aviso que você vai subir!

Eu queria fazer isso, mas me senti nervosa ao me imaginar batendo em sua porta do nada, sem mais nem menos, depois de tanto tempo sem nem sequer um oi. O que eu diria? Isso seria completamente estranho e constrangedor.

— Ele gosta de BigMac e Coca-cola. – insistiu Lucas e em seu olhar vi incentivo. Ele não estaria me incentivando se isso fosse loucura minha.

Eu sorri e dei um abraço nele.

— Obrigada, Lucas! – agradeci.

Então voltei à fila do McDonalds, pedi exatamente o que Lucas havia me dito e minutos depois estava dentro de um taxi rumo ao prédio de Vinícius. Eu não conseguia me focar em nada, nem na história que o taxista contava numa tentativa falha – e até mesmo irritante – de puxar assunto, nem no rádio que anunciava uma promoção pra conhecer o Justin Bieber junto a uma blogueira que já tem a vida feita quando a gente precisa ficar lutando todos os dias pra conseguir dar um rumo qualquer pra nossa. Apenas estalava os dedos e intercalava meus olhar entre o dia cinza do lado de fora do veículo e o taxímetro rodando. Não sabia direito o que estava fazendo, mas sentia um frio bom dentro da barriga.

Quando cheguei ao prédio descobri que Lucas havia de fato ligado para o porteiro, o qual me permitiu subir de imediato. Entrei dentro do elevador, apartei o número 12 e enquanto aquela caixa de aço subia lentamente sendo puxada por um fio elétrico – por que confiamos tanto em algo assim? –, me peguei involuntariamente cantarolando Nando Reis.

“Aperto o 12 que é o seu andar, não vejo a hora de te encontrar e continuar aquela conversa que não terminamos ontem, que ficou pra hoje...”

Ao ver as portas se abrindo respirei fundo umas três vezes e me obriguei a sair dali antes que me arrependesse, desse meia volta e voltasse a me trancar no meu quarto por mais um mês inteiro. Parei em frente ao apartamento 1201, apertei a campainha e tapei o olho mágico com minha mão. Meu coração estava acelerado e eu estava convicta de que preciso parar de ser tão impulsiva, mas não saí correndo. E Vinícius abriu a porta. Usando uma camiseta de algum time que não reconheci, uma bermuda de malha, descalço, com os cabelos bagunçados e a cara amassada. Amassada mesmo, tinha até uma linha demarcada de quando ficamos tempo demais em uma mesma posição. Sorri instantaneamente.

Sua primeira reação foi me encarar surpreso, mas logo surgiu um sorriso em seus lábios e antes que ele pudesse dizer qualquer coisa ou perguntar algo que eu não teria resposta como “o que você ta fazendo aqui?”, ergui a sacola do McDonalds e disse:

— Ouvi dizer por aí que você gosta de BigMac, espero que esteja com fome.

— Se você for me acompanhar como até capim com mostarda. – respondeu Vinícius me arrancando uma risada. Ele me puxou para um abraço e me convidou para entrar. – Só não repara na bagunça, por favor, não estava esperando por visitas. Não que eu não esteja contente com a sua, eu to muito, mas eu teria juntado todo esse lixo e guardado algumas coisas... – ele disparou a dizer recolhendo caixas de comida e copos sujos na tentativa de deixar o lugar um pouco mais limpo.

— Ta tudo bem, Vinícius. – garanti, mas ele ainda levou toda a bagunça para a cozinha e quando retornou um tanto quanto sem graça, passou a mão pela roupa amarrotada parecendo querer disfarçadamente arrumá-las. – Acho melhor comermos antes que as batatas murchem e o refrigerante perca o gás.

— Claro! Senta aí. – ele disse apontando para a mesa.

Me acomodei enquanto ele foi buscar um vidro de catchup e logo se juntou a mim.

— Eu encontrei o Lucas no shopping. – disse numa tentativa de explicar o motivo de eu estar ali. – Ele me falou de você e resolvi fazer uma visita.

— Disse o que?

— Disse que você deveria estar coçando o saco e assistindo Netflix. – respondi usando suas exatas palavras.

— Babaca! – ele resmungou rindo.

— Então ele ta namorando?

— Pois é! Tem pouco tempo, vai fazer um mês agora e eu não aguento mais! Porque ele fica reclamando de bagunça o tempo todo sendo que ele é o mais bagunceiro e como a menina mora com os pais ainda, ela passa a maior parte do tempo aqui. Eu sinto que estou perdendo minha privacidade e não to gostando nada disso.

— Isso aí ta me parecendo recalque! – provoquei. – Mas e a Valentina?

Ele me olhou com cara de tédio e eu comecei a rir.

— Eu já tinha te dito que eu e ela não aconteceria mais, Isabelle.

— Ué, eu sumi por um tempo, vai que você mudou de ideia. – rebati.

— Não, eu não mudei. – afirmou Vinícius e deu uma boa mordida em seu sanduíche. Eu que fiz o mesmo, sem perceber acabei dando abertura pra que a próxima pergunta surgisse tão rápido. – Mas e você? Como ta a vida amorosa?

Eu travei. Não estava nem um pouco preparada para falar sobre aquilo.

— Que vida amorosa? – tentei me esquivar dando uma risada nervosa.

— Ah, fala sério, Isabelle! Você me deu um pé na bunda pra ficar com outro cara!

— As pessoas cometem erros, ok?

— Então não deu certo? – indagou Vinicius me olhando curioso.

— Não.

— Ahhh, agora eu entendi por que você ta aqui, vai me usar pra esquecer o cara. – ele disse brincando me arrancando uma risada. – Tudo bem, eu to acostumado. Existem dois tipos de cara no mundo: os que se dão bem e os trouxas, visivelmente eu faço parte da segunda categoria.

— Ei! Eu achei que tínhamos combinado de sermos amigos! – rebati em minha defesa entrando em seu joguinho.

— Mudei de ideia, não quero mais ser seu amigo, vai embora da minha casa... – ele respondeu apontando pra porta de entrada.

— Então devolve meu BigMac. – apontei pro lanche.

— Olha, senhora, se acalme e vamos manter a compostura.

Nós disparamos a rir e eu precisei de um tempo pra me recuperar.

— Mas agora falando sério, não posso prometer que não foi praga minha. – ele disse de repente, sorrindo para o próprio lanche, mas sua voz não estava em tom de brincadeira. E eu acabei sorrindo também.

— Tem cheddar na sua cara. – avisei fazendo com que acabássemos rindo de novo.

Nos embalamos em conversas distintas e me senti bem por poder esquecer do meu mundinho por mais um tempo. Ele me falou sobre como tem sido a faculdade, que enquanto nós acabamos de voltar das férias eles acabaram de entrar de férias e que a deles dura um mês inteirinho, que entrou pra atlética do curso – que por acaso, era dela a camiseta que ele estava usando a qual não reconheci – e que reprovou em Cálculo I, mas que 70% da turma também. Explicou sobre a semana de recepção que estão organizando para os bixos e como funcionaria.

Falou sobre os pais que viriam o visitar agora nas férias e sobre a irmã que eu não sabia que ele tinha. Que o cachorro que ele tinha desde a infância morreu, que eles tentaram cuidar de um hamster e ele também morreu e que por fim eles se contentaram com um peixe. Que eles estão pensando em se mudar porque estão achando o aluguel caro e que no último mês ele gastou tanto dinheiro que teve de ligar pra avó pedindo uma grana extra porque se não seu pai o mataria.

Falou sobre inúmeras coisas banais, mas que me distraíram e me permitiram estar em paz por algumas horas. Quando percebi já estávamos sentados no chão da sala bebendo cerveja e rindo sobre o quanto ele de fato detesta a namorada de Lucas.

— Ela é muito patricinha e muito mimada, sabe? Aí ela fica tentando mandar aqui em casa e eu já falei pro Lucas que uma hora eu juro que jogo ela da sacada. Pra você ter noção, ela fez o Lucas trocar o colchão e travesseiros dele, porque dormir na cama dele deixava ela com dor no corpo.

Eu não conseguia parar de rir e não sabia se era porque aquilo era realmente engraçado ou se porque aquela já era a sexta cerveja que estávamos dividindo. E tinha mais de mês que eu não engolia uma gota de álcool.

— Dá uma chance pra garota! – aconselhei.

— Eu dei, ela que estragou. – ele rebateu dando de ombros e percebi que aquela implicância não tinha mais como ser revertida.

O assunto acabou e acabamos ficando em silêncio por alguns segundos. Foi quando algo me veio a cabeça.

— Você ficou com raiva de mim quando simplesmente apareci aqui dizendo que a gente não rolaria? – perguntei receosa, brincando com o rótulo da garrafa de cerveja.

—– Não, claro que não. Fiquei só chateado. Eu tava te curtindo. Acho que tinha entrado de cabeça e você ainda tava molhando os pés.

— É uma boa metáfora. – afirmei sorrindo pra ele e ele sorriu de volta.

Ficamos nos olhando por um tempo, até que ele fez uma pergunta a qual pareceu também estar curioso quanto a resposta.

— Por que não deu certo? Você e o cara...

Eu respirei fundo e resolvi soltar de uma vez.

— Ele estava transando com minha melhor amiga durante todo o tempo em que "estivemos juntos". – expliquei fazendo aspas imaginárias com as mãos naquela última parte. Não posso dizer que algum dia estivemos de fato juntos.

Vinícius me olhou incrédulo, mas parecia ainda esperar que eu dissesse que era apenas brincadeira. Quando percebeu que eu não o faria, balançou a cabeça negativamente encarando o chão.

— Pra te ser bem sincero, eu to mais chocado por ela ter tido coragem de fazer isso com você do que ele. – confessou Vinícius.

— Ah não, essa é a melhor parte, ela não sabia. Porque fomos trouxa o suficiente para sermos manipuladas por ele a ponto de não contar uma pra outra e pra mais ninguém sobre o que tínhamos justamente porque nossos amigos não gostavam dele. Amigos os quais agora perdi todos e por isso passei o último mês trancada no meu quarto chorando o oceano atlântico inteiro.

Ele pareceu não saber o que dizer e não o culpei por isso, eu não saberia.

Mas ele tentou e foi a coisa mais sincera que ouvi durante todo esse tempo.

— Sabe, quando eu era criança o Lucas perdeu o pai e como nos conhecemos desde sempre eu também senti a perda. Mas eu acreditava que sabia o que ele sentia até minha psicóloga jogar uma verdade na minha cara, nós nunca sabemos o que o outro está sentindo, nós temos no máximo a empatia de tentar entender. É por isso que eu sei que você não quer ouvir nada do tipo “nossa, eu imagino como deve estar sendo difícil” e eu não vou dizer. Eu não sei. Mas eu realmente sinto muito e realmente espero que você dê a volta por cima e fique bem.

Sorri olhando em seus olhos. Talvez o sorriso mais sincero que dei nos últimos tempos.

Coincidentemente Lucas entrou em casa naquele exato momento, acompanhado da tão famosa namorada e eu não consegui conter o riso assim que olhei para ela. Vinícius percebeu do que eu estava rindo e me tacou uma almofada. Ele nos cumprimentou de longe e a garota fez o mesmo.

— Então ta rolando festinha por aqui? – perguntou Lucas ao perceber as cervejas no centro da sala.

— Não, na verdade eu preciso ir embora. – disse me levantando. – Não sei quantas horas são, mas imagino que esteja tarde.

— 19h. – respondeu a garota. Não lembrava seu nome, mas também não perguntaria porque isso seria falta de senso.

— É, realmente preciso ir. Minha mãe já deve estar louca com meu sumiço.

— Eu te levo. – ofereceu Vinícius e resolvi não negar a carona.

Ao entrar em seu carro imediatamente me lembrei da primeira vez em que estive ali, no dia em que nos conhecemos e ele me levou embora pra casa. Me lembrei de seu beijo e me perguntei se teria coragem de beijá-lo novamente algum dia. Não sei se conseguirei ficar com alguém novamente tão cedo.

Seguimos caminho em silêncio, ouvindo as músicas que tocavam na rádio e em alguns minutos ele já havia estacionado em frente ao meu portão.

– Eu vou te ver de novo? – ele perguntou assim que desligou o motor e assenti com a cabeça. – Em breve?

Dei um riso anasalado e assenti novamente.

— Posso te dizer uma coisa antes de você ir? – pediu Vinícius.

— Sim. – permiti.

— A única pessoa que pode fazer algo por você, é você mesma. Não esquece disso.

Eu sorri, me encurvei, dei um beijo em seu rosto e desci do carro. Enquanto caminhava em direção ao portão olhei para trás uma última vez e pude enxergá-lo através do vidro. Agradeci com meu coração pelo conselho.

Entrei em casa e como imaginava encontrei minha mãe preocupada. Como estou sem telefone não tem como ela falar comigo e consequentemente não fazia ideia de onde eu estava ou o que estava fazendo. Decidi que talvez fosse o momento de recuperar meu celular. Tanto pra eu poder sair tranquilamente, quanto pra ter meu despertador e minha soneca de volta, mas principalmente pra poder conversar com Vinícius.

Eu não me lembrava de onde havia o colocado, fazia tanto tempo e ao mesmo tempo parecia ter acontecido ainda ontem. Tive de revirar meu quarto até finalmente encontrá-lo jogado no fundo de uma das gavetas da minha escrivaninha. Foi estranho segurá-lo em minhas mãos, porque de certa forma, aquilo foi uma das formas mais eficazes de me isolar do mundo.

Havia tanto tempo que não o usava que tive de colocá-lo para carregar, então me deitei na cama e coloquei uma música para tocar que tenho ouvido incessantemente nos últimos dias: Black to Grey do Pagan John. Quando a música chegou ao meio vi a luz branca do aparelho acender e a maça da Apple surgir em sua tela. Senti um aperto tão grande no peito que quase desisti da ideia de recuperá-lo.

Era que estava tudo ali. Tudo. E eu sabia que não me conteria. Ao segurar o celular em minhas mãos a primeira coisa que vi foi a quantidade de chamadas perdidas. 14 apenas de Leticia. 5 de Arthur. E 3 de Nicolas. Por um momento me perguntei quando foi que Nicolas soube, mas aparentemente ele se importou em ligar.

No whatsapp encontrei 4 mensagens não lidas. A primeira era de Arthur.

“Arthur Morais (23/06/2013 – 6h26):

Queria pedir desculpa por mais uma vez ter sido o responsável por algo que te machucou. Quer dizer, não acho que eu poderia ter evitado que tudo acontecesse, mas eu podia ter tentado um pouco mais ou sei lá. Espero apenas que saiba que nunca fiz nada com intenção de te magoar. Eu lamento de todo meu coração qualquer cicatriz que tenham deixado em você, inclusive aquelas pelas quais sem querer fui o responsável. Queria poder concertar cada mínima coisa de errado que a vida já lhe causou. Me desculpa mesmo. Amo muito você, Isa.”

Eu tive de respirar fundo ao terminar de ler aquilo. Queria responder Arthur dizendo o quanto foi importante que ele me mandasse aquilo, mas naquele momento não conseguiria. Aliás, não conseguiria responder nada, porque eu sabia que tudo se trataria daquele mesmo dia, então resolvi que apenas leria tudo e parti para a próxima.

“Leticia Goulart (08/07/2013 – 16h04):

Eu queria começar me desculpando pela forma com que virei as costas pra você naquele dia. Não tiro razão de meus próprios motivos, mas hoje me arrependo. Acho que todos nós ficamos um pouco sem norte e não espero que aceite isso, mas que entenda. E queria apenas dizer que mesmo que não me queira por perto eu estou aqui e sempre estarei. Eu queria estar contigo agora, mas vou respeitar o seu momento e seu espaço. Sei que a vida não tem sido generosa contigo, mas não deixe que ela tire a essência que vive dentro de você. Tu enxerga a vida de um jeito tão seu que transforma tudo em belo, mesmo as coisas nem tão belas assim. E essa sim é a coisa mais bonita que já vi nessa vida. Eu sinto muito pelo seu avô, mas os arco-íris continuam por aí a espera do seu olhar encantado. Então deixe as lágrimas passarem e espere por eles. E saiba que meu coração está com você. Te amo mais que tudo nessa vida.”

“Gustavo Manzan (09/07/2013 – 3h12:

Tenho pensado bastante em você e no quanto queria me desculpar sem saber exatamente pelo que. Acho que só queria me desculpar em nome de tudo que tem te acontecido. Você não merece nada disso. Espero de coração que fique bem. Sou grato pelas coisas que me ensinou, principalmente pela forma com que fez com que eu olhasse para mim mesmo, como o único capaz de transformar minha vida em algo que eu realmente queira viver. Lembre-se disso você também.”

“Amanda Bonfim (11/07/2013 – 05h36):

Obrigada. É a primeira coisa que eu queria dizer. Por sempre ter sido uma amiga muito melhor do que eu jamais fui. Se eu tivesse um pingo de vergonha na cara te diria tudo que vou dizer agora pessoalmente, mas não conseguiria. Eu só decidi que talvez seja a hora de escancarar meu peito e te mostrar a completa covarde que sou.

Eu te amo muito, Isa, mas a verdade é que sempre senti que estava vivendo a sua sombra. Não por qualquer coisa que você já tenha feito. Afinal, você é tão inocente que nem sequer faz ideia de tudo isso. É por todos os meus mais profundos defeitos e pelo maior deles: minha própria insegurança. É sinceramente um saco ser eu e é sinceramente um saco sempre ter precisado de tanta aceitação social. Sempre precisei que as pessoas gostassem de mim, pra que eu também gostasse. Sempre precisei que me achassem bonita pra que eu também me achasse. Sempre precisei que se importassem comigo, que me amassem, que me dessem atenção ou eu me sentia invisível, basicamente uma ninguém. E não é algo que eu consiga explicar ou sequer entender.

E aí sempre estava lá você. Tão nem aí pro mundo. Você nunca se importou de ser você, não importa quem esse você fosse. Se era ridícula aos olhos dos outros, se era um poço de fragilidade, se era uma menina boba. Você realmente nunca se importou. E eu queria tanto ser você que senti ódio diversas vezes. Porque eu não sei quem sou. Passei tanto tempo me adaptando as pessoas e sendo alguéns diferentes apenas para agradar que me perdi pelo meio do caminho. É o que dizem por aí, se você passa tanto tempo fingindo ser alguém que não é, você acaba se tornando este alguém. E acontece que passei tanto tempo sendo tudo menos eu que nunca me construí, nunca moldei minha própria personalidade, nunca me transformei em alguém. É por isso que eu sei que sou tão vazia e superficial. E convenhamos, ninguém assim faz a diferença. Acabei me tornando aquela de quem todo mundo gosta, mas nunca aquela de quem precisam. Sempre fui amiga, mas nem sequer melhor amiga. Afinal, nós sabemos que você e a Leticia são a melhor amiga uma da outra e eu sou apenas uma parte desse trio. E sempre foi um pouco difícil pra mim te ver sendo tão imensamente amada sem nunca ter descoberto qual é essa sensação.

É por isso que toda essa história do Gabriel me atingiu bem no meio do peito. Eu me lembro lá do começo quando descobri sobre vocês. Eu sempre tive uma queda por ele e quando finalmente aconteceu, ele acabou também ficando justamente com você. Eu me lembro de nunca ter me sentido um lixo tão grande quanto naquele dia. Porque, Isa, naquele começo tudo pelo que passamos não estava nem perto de acontecer ainda, mas eu parei por um instante pra pensar e percebi que se você quisesse, você faria ele se apaixonar por você com a facilidade de quem nem sequer percebe o que está fazendo. O que eu não conseguiria nem com todo meu esforço. E não vou te mentir, naquele início, enquanto ainda sabíamos uma da outra, eu não queria perder ele pra você em hipótese alguma. Era uma forma de provar pra mim mesma que talvez eu não fosse tão insignificante assim. Não, não foi por isso que continuei com ele. Com o tempo de fato fui me apaixonando por ele. Mas naquele começo fora sim isso.

E a verdade é que me apaixonei por Gabriel unicamente por ele ter tapado esse buraco em mim. Tão de repente ele apareceu me fazendo sentir única. Chega a ser engraçado pensar nisso, se tem uma coisa que nunca fui foi única. Ele, justo ele, gostando de mim. Era tudo bom de mais pra ser verdade – e realmente não era. É por isso que preciso te contar que talvez eu tenha caído na realidade um pouco antes de você. Eu desconfiei. Comecei pela amizade súbita de vocês em que vocês passavam tempo demais um com o outro e tempo de menos com o resto do mundo. Fui ficando complexada até chegar a conclusão de que ele estava comigo, mas era apaixonado por você. Porque eu lembro de um dia tê-lo visto te olhando como nunca me olharam. Não era desejo, era como se ele realmente não conseguisse desviar os olhos de você enquanto você ria. E ta aí uma coisa que ainda não consegui acreditar: que esse garoto não seja apaixonado por ti. Foi você quem me ensinou que olhares não mentem e eu juro que foi como se eu pudesse te ver refletindo nos olhos dele.

Depois disso eu tentei desesperadamente prendê-lo a mim antes que o perdesse, mas eu nunca tinha o tido. Essa foi a teoria absurda que minha mente criou, que eu o tinha, mas que ia o perdendo aos poucos enquanto ele se apaixonava por você um pouquinho mais a cada dia que se passava. Isso me fez mais uma vez sentir raiva de você por muito tempo e esse é o verdadeiro motivo de ter me afastado de ti nesse tempo.

E tenho pensado muito em tudo isso. Tem me doído muito mais ser esse ninguém, porque eu percebi algo. Durante todo o tempo em que estive mais tempo nutrindo ódio dentro de mim, você estava se impedindo de amar e ser feliz com Gabriel por mim. Tudo. Tudo isso que você fez foi por medo de me machucar e me magoar. Você não faz ideia do quanto tudo isso tem me feito chorar. Não somente por ter me tocado do quão podre eu sou, mas principalmente ao perceber que durante todo esse tempo em que quis me sentir por um milésimo de segundo como se fosse de fato importante pra alguém, eu sempre fora pra você. Posso nunca ter sido a sua melhor amiga — até porque eu nunca mereci esse cargo -, mas eu era uma delas e você me amou com tudo que pode. Quando muitas vezes eu te deixei pra baixo, te diminui e te subestimei. Quando na realidade, eu fora um lixo de ser humano. Eu mereci passar por tudo que passei, você não.

Até o último segundo tudo que importara pra você fora apenas eu. Enquanto teu mundo desmoronava naquela sala você se importava com as lágrimas que eu derrubava e eu nunca vou merecer isso. Eu nunca mereci sua amizade e é por isso que tomei a decisão que tomei. Eu vou me afastar definitivamente de ti. Porque na vida precisamos afastar de nós pessoas que nos fazem mal, não importa o quanto a amamos. E tudo que tenho lhe feito fora mal.

Quero te agradecer com todo meu coração por tudo que fez por mim, desde o dia em que nos conhecemos e principalmente te pedir desculpa, por cada mínima coisa que lhe fiz também desde esse dia. E eu sei que você vai me perdoar, porque existe algo em você que sempre acredita em perdão, o que prova que você é boa demais pra esse mundo, Isabelle, então não deixe toda a maldade que lhe rodeia tirar isso de você.

Por último quero apenas dizer que eu soube do seu avô e que sinto muito, de verdade. Desejo que você encontre forças no amor que carrega dentro do próprio peito pra seguir em frente. E você vai.”

Dizer que consegui ler mais que algumas linhas sem chorar seria mentira. Eu desabei. Mas dizer que não doeu, isso sim seria a maior mentira que já contei na vida. Foi como se Amanda tivesse arrancado meu coração de mim.

Eu finalmente pude entender muitas coisas que aconteceram e nunca tinha sido capaz, porque não posso negar a quantidade de vezes em que Amanda realmente me colocara pra baixo. O engraçado é que não conseguia sentir um pingo sequer de raiva dela, porque pude ouvir sua voz enquanto lia cada mínima palavra e soube que cada uma delas, escrita as 5h da madrugada, foram um desabafo dolorido e desesperado. Sei que ela nunca fora tão sincera comigo durante toda nossa amizade.

Foi como se finalmente também pudesse entender toda dor que ela carrega dentro de si mesma e senti vontade de poder dizer a ela o quanto ela nunca fora vazia ou superficial, Amanda é uma garota tão guerreira e nem sequer percebe isso. Nas últimas semanas cheguei ao meu limite apenas por me sentir sozinha e ela tem vivido uma vida inteira exatamente assim. É por isso que não a culparia por nada que já tenha feito, porque a verdade é que ela nunca fizera nada por querer. A verdade é que tudo que Amanda tem feito é uma tentativa desesperada de se encontrar, e nem mesmo eu posso ajudá-la nisso.

E eu acabei chorando durante muito tempo. Mais uma vez por tudo. Mais uma vez por mim. E dessa vez, principalmente, por ela. Até acabar apenas com os olhos vazios e fixados em um ponto qualquer de minha parede branca.

Não sei quanto tempo se passou, mas me assustei quando alguém bateu na porta do meu quarto. Continuei deitada pensando apenas em ignorar até que bateram de novo. Ao me levantar e olhar no espelho vi o quanto meus olhos estavam vermelhos, mas não havia nada que eu pudesse fazer. Abri a porta e para minha surpresa foi Marcelo quem encontrei do outro lado da mesma. Ele percebeu a situação do meu rosto, mas não falou nada.

— Me desculpa te incomodar... – disse Marcelo. – Mas tem um amigo seu te chamando no portão. Ele disse que prefere não entrar e que é urgente.

— Amigo meu? – estranhei. – Não disse o nome?

— Não, ele parecia um pouco afobado.

— Então um cara qualquer bate na porta da minha casa mandando me chamar a essa hora da noite e você não pensa em perguntar seu nome? – indaguei sarcasticamente.

— Eu posso perguntar agora... – ele respondeu sem graça.

Apenas revirei os olhos, voltei para o meu quarto para vestir um casaco e fui ver quem era. A única pessoa que se passava pela minha cabeça era Vinícius, mas não havia motivo pra ele aparecer tão tarde e afobado. E pensar nisso começou a me deixar preocupada que pudesse ter lhe acontecido algo.

Assim que saí de casa senti um frio, mas não soube exatamente se era pela temperatura ou se ele veio da minha espinha. Meu corpo se contraiu com uma sensação ruim. Apenas ignorei, mas não devia. Ao abrir o portão e olhar para o lado procurando pela pessoa que estaria ali, entrei em estado de choque.

Gabriel estava parado bem ali, na minha frente.

— Eu preciso falar com você. – ele sibilou com a voz tão rouca que quase não consegui entendê-lo. Seus olhos estavam vermelhos. Muito vermelhos.

Eu estava realmente em choque. Era Gabriel ali. Na porta da minha casa. Gabriel. E foi quando repeti seu nome em minha mente que meu corpo finalmente reagiu e eu corri em direção ao portão ainda aberto. Foi tudo muito rápido. Eu tentei entrar, mas Gabriel me puxou para trás e conseguiu esticar seu braço o suficiente para alcançar o portão e batê-lo fazendo com que se trancasse.

Olhei para ele sentindo desespero percorrer meu corpo e percebi o quanto estávamos perto. Dei um passo pra trás automaticamente me chocando contra a parede.

— Se afasta de mim. – foi tudo que consegui dizer ao perceber que estava sem saídas. Felizmente ele de fato se afastou.

— Eu só preciso que você me escute por um segundo. – pediu Gabriel.

— Não quero. – respondi tentando manter a calma.

— Isabelle...

— Não quero! – gritei em uma reação automática. Passei minhas mãos trêmulas por meu rosto e respirei fundo para conseguir recuperar o controle. – Você não vai fazer seus joguinhos psicológicos comigo mais uma vez. – disse sem conseguir olhar para seu rosto. – Não vai.

— Eu não to aqui pra fazer nenhum jogo. – ele rebateu.

— Vai embora, por favor. – pedi.

— Isa...

— Não me chama de Isa. – ordenei. – Apenas vai embora ou eu vou gritar minha mãe.

— Pelo amor de deus, Isabelle! Eu não aguento mais minha própria mente! – ele gritou se exaltando e apontando para a própria cabeça. – Eu perdi todos os meus amigos. Eu perdi tudo, mano!

— Você perdeu tudo, Gabriel? – repeti incrédula gritando mais alto ainda. – Você acabou comigo! Eu não sei mais o que fazer da minha vida!

— Eu to tentando fazer alguma coisa se você não percebeu!

— Você pode fazer, ir se ferrar!

Gabriel segurou a cabeça entre as mãos e respirou fundo tentando se acalmar, então voltou a falar com calma.

— Isabelle...

— Gabriel, some da minha vida. Pra sempre. Eu não quero ouvir sua voz, não quero ver seu rosto, não quero lembrar que você existe. Só quero fingir que você foi um grande pesadelo do qual eu finalmente acordei.

— Eu vou sumir! Eu vou! Eu só preciso que você...

— O que você ainda ta fazendo aqui? Por que você ta aqui? Você já não estragou minha vida o suficiente? Por que ainda ta fazendo isso? Você já ganhou, Gabriel! Você já mostrou o grande e desgraçado filho da puta que você é! – disse completamente desnorteada. – Sabe o que é engraçado? No que tenho pensado bastante nos últimos dias? É que você dizia abominar seu pai, mas você é igualzinho a ele!

— Por que você não para de me dizer essas coisas? – ele perguntou com uma lágrima descendo por seu rosto.

— Porque eu não tenho mais dó de você! – respondi segurando minha própria vontade de chorar. Eu não fraquejaria naquele momento. – Não tenho mais dó dos seus probleminhas e da sua mente conturbada. Aliás, será que algum dia você já teve algum problema? Porque você mentiu o tempo todo, não é? Será que tudo não era parte do seu joguinho doentio? Eu acreditaria bastante, porque você é doente, garoto!

Ele me olhou com um olhar que não decifrei e essa talvez fosse a única coisa que eu conseguia decifrar em Gabriel durante todo esse tempo. Então começou a chorar de verdade e virou as costas na intenção de ir embora.

— Se você ainda tem um pouquinho de dignidade dentro de você, Gabriel, só te peço uma coisa... – disse fazendo com que ele parasse no lugar ainda de costas para mim. – Você vai concertar a merda que você fez com a Amanda. E no dia que ela te perdoar, eu te perdoo, mas apenas e exclusivamente por pena do bosta que você é.

Quando terminei de falar ele voltou a andar. O vi indo embora mais uma vez e disparei a chorar. Foi como se tudo voltasse de uma vez. Senti algo apertar meu peito e fechar minha garganta. E num impulso, soquei o muro atrás de mim. Tão forte que a dor veio instantaneamente, aguda e dilacerante. Eu gritei e comecei a bater no portão descontroladamente. Minha mãe apareceu em questão de segundos e se desesperou ao encontrar meus dedos sangrando e eu chorando de dor. Nunca quebrei nada em meu corpo, mas soube que aquela definitivamente era a sensação sentida. Não conseguia sequer movê-los. E é por isso que minutos depois estávamos dentro do carro de minha mãe correndo pro hospital.

Confesso que juntei tudo e chorei muito mais do que se era necessário. Chorei pela dor física e pela dor interna causada por Gabriel. Só parei quando chegamos ao hospital, onde através de uma radiografia descobri ter quebrado os dedos anelar e mindinho. O médico me medicou, aplicou uma tala temporária e me indicou os remédios que deveria tomar pelos próximos dias.

Naquela noite deitei em minha cama com a cabeça desgraçada e dois dedos quebrados. Mas por incrível que pareça, mesmo com todo o ódio e todo o rancor, senti medo. Senti medo lembrando de Gabriel dizendo que de fato sumiria. Eu não sabia o que aquilo significava vindo dele. Eu nem sei quem é o Gabriel, mas senti medo de verdade. Senti tanto medo de fechar os olhos. Tanto medo de me entregar ao sono causado pela medicação que havia tomado e ao acordar... Ele não estar mais aqui.