Poltrona 19

51 Primeiro passo


Notas iniciais
OI MEUS ANJOS! Nossa, eu nunca demorei tanto pra postar um capítulo que já tava praticamente finalizado, tinha até respondido uns comentários dizendo que ia sair e num foi (to com vergoinha). E SABEM POR QUE? Uma caralhada de coisa aconteceu, gente. Primeiro: EU FORMEI!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! (mentira) Não, sério, eu tive minha festa de formatura e tava tudo uma correria do caralho, porque minha formatura era um dos momentos pelo qual mais esperei minha vida toda. E aí, tava eu pra lá e pra cá correndo atrás de roupa, de vestido, ingresso pros convidados, cabeleireiro, maquiador e mais umas mil coisas. Sem contar que eu formei, mas ainda tem as famosas DP (matéria pra pagar), então to tendo aula. E aí não bastasse isso, EU TO TRABALHANDO!!!!!!! Aí juntou tudo e bem, não tive tempo sequer pra ligar o pc. Mas eu to numa fase muito boa, to feliz. Muito grata por todas as minhas conquistas e por ver minha vida finalmente tomando um rumo. Trabalhar me deu motivação pra não desistir de diversas coisas. Além de tudo isso, eu também viajei no carnaval pra pular bloquinho de rua e fui pro lollapalooza. DUAS EXPERIÊNCIAS ÓTIMAS, RECOMENDO! AHH, também tentei postar agendando post, mas não sei que merda eu fiz que deu tudo errado. ENFIM, TÁ AQUI O POST! E O PRÓXIMO TÁ FICANDO ÓTIMO! Amo vocês! Boa leitura!

Tive pesadelos horríveis naquela noite. Toda vez que fechava os olhos acabava sonhando com Gabriel me dizendo coisas que não queria ouvir, coisas tão ruins quanto na noite em que descobri toda verdade, e assim, acabava acordando com o travesseiro molhado de lágrimas e suando frio. Por fim decidi que seria melhor não tentar dormir mais.

Acabei pensando naquela noite, em antes de tudo desmoronar especificamente. Acredito que o que mais me aflige até hoje é a forma com que tudo pareceu tão perto de dar certo. Quando Patrícia me pediu desculpa por todo seu comportamento comigo e me disse coisas que jamais esperaria ouvir dela. Coisas boas. Quando tudo estava bem entre mim e meus amigos e parecia estar como deveria ser. Quando Gabriel me segurou em seus braços, me beijou com intensidade e me fez acreditar por um breve momento que nós dois poderíamos ser felizes juntos. Foi alguma coisa em seu olhar e não em suas palavras. Eu não consigo esquecer aquele olhar.

Permaneci acordada até que a claridade invadisse meu quarto pouco a pouco e começasse a ouvir barulhos pela casa indicando que minha mãe já havia acordado. Ouvi tudo até que seu carro saísse da garagem e um silêncio absoluto se formasse novamente. Na noite anterior havíamos combinado de que como eu ficaria com a tala nos dedos por pelo menos umas três semanas, mesmo que tivesse machucado justamente minha mão direita, seria melhor continuar indo ao colégio para não perder tanta aula. Mas pelo menos pelo resto da semana ficaria em casa de repouso, porque nesses primeiros dias preciso ficar com os dedos o mais imobilizado possível.

Pena que meu peito ainda estava apertado e tudo que eu queria era saber se Gabriel estava bem, por isso levantei da cama e me arrumei para ir ao colégio. Porque mesmo depois de tudo, ainda sou burra o suficiente para me preocupar com ele. E assim que entrei na sala e me sentei em meu novo lugar, olhei em sua direção. Ele estava lá, com uma expressão tão cansada quanto a minha, olhando para mim, diretamente para meus dedos quebrados. Me peguei pensando que ele nem sequer imaginaria que havia sido o motivo daquela fratura.

Tentei de todas as formas não me importar e pra minha sorte, quase logo depois do início da aula Rosângela convocou todos os representantes dos terceiros anos para uma reunião com as empresas da formatura. Antes das férias havíamos decidido a maior parte das coisas, mas as empresas ainda conversariam com o conselho estudantil quanto às datas. Eles nos apresentaram todos os tipos de pacote, com poucos e muitos dias de viagem, para destinos nacionais e internacionais. Por questão de preço a grande maioria preferiu uma viagem nacional de 7 dias e acabamos conseguindo com que a formatura em si fosse separada em dois dias: um para a colação e outro para o baile, como eu sempre quis. E assim eles planejaram o que proporiam a seguir.

— Como nos foi passado, o calendário escolar se encerra no dia 18 de dezembro, mas a diretora Rosângela nos garantiu que no dia 13 todos os alunos já saberão de seus resultados finais, e respeitando que antes disso todos estarão preocupados em concluir o ensino médio, todas as atividades só poderão ser marcadas posteriores a essa data. Então pensamos nas seguintes possibilidades: A viagem será de sete dias, podemos embarcar no dia 16 e retornar no dia 22, dando tempo para que os alunos retornem e passem o recesso com seus familiares. Passado o recesso, realizamos a formatura na segunda semana de janeiro, sendo a colação no dia 10 e o baile no dia 11.

“Mas como alguns alunos viajam durante esse período, também pensamos na possibilidade de viajarmos do dia 7 ao dia 13 de janeiro e realizarmos a colação e baile na mesma semana nos dias 17 e 18 respectivamente. Claro que alguns alunos não irão concordar com nenhuma das datas, mas acreditamos que mais pra frente já fica muito longe do término do ano letivo de vocês e muito próximo do início do próximo. O que acham?”

Ainda tentamos argumentar, mas essas eram de fato as melhores opções que tínhamos, então concordamos em passá-las aos alunos para votação e assim chegarmos a uma decisão. O único problema é que eu teria de ir na frente da sala falar tudo isso e não estava nem um pouco preparada para tal tarefa. Desde que voltei ao colégio nunca mais falei com ninguém, nem que fosse pra pedir uma caneta emprestada. Agora sou a coitadinha ou trouxa – dependendo do ponto de vista – isolada no fundo da sala, que nem sequer tem amigos mais. Eu não queria ter de parar na frente de todas aquelas pessoas, encará-las e falar. Só queria fugir. Talvez tenha sido por isso que acabei me trancando em um dos box do banheiro, me sentado no chão e chorado por cerca de quarenta minutos. Eu não consigo lidar com toda a pressão social que tenho sentido.

Caminhei até a sala tentando em vão fazer com que minhas mãos parassem de tremer tanto e ao chegar na porta respirei fundo antes de entrar. As pessoas estranharam quando pedi licença para o professor para que pudesse falar, a essa altura não deveriam nem se lembrar que votaram em mim para representante, ou o porquê. Por isso olhando apenas nos olhos de Bárbara, que sorria gentilmente para mim, tentei ao máximo não pensar que Gabriel também estava ali com o olhar fixo em mim e disse para a turma exatamente o que nos foi passado.

Assim que terminei de falar um alvoroço começou e todos começaram a falar ao mesmo tempo, discutindo entre si. Alguns estavam empolgados, mas a grande maioria não parecia feliz com o que lhes foi ofertado. Quanto a mim, tudo no que conseguia pensar era em como é estranho isso estar acontecendo agora. Quando acabei nesse papel de representante foi porque Gabriel me convencera de que essa era uma forma de fazer com que tudo saísse como eu planejava. Que essa formatura fosse como eu sonhava. Mas agora nada mais faz sentido como antes, eu não sei mais se quero participar, não sei sequer se devo. A única pessoa que tenho nesse momento é Leticia e não quero atrapalhar esse momento para ela deixando que se preocupe comigo.

Mas mesmo assim fui obrigada a pensar no que aquela antiga Isabelle, aquela que começara a planejar tudo que gostaria para ela, para que pudesse fazer isso dar certo pros que ainda sonham com esse momento e contam comigo para tal dever.

— Pessoal, é o seguinte... – disse alto chamando a atenção de todos. Pouco a pouco eles foram se calando e virando em minha direção. Foi assustador, mas tive de me manter firme. – As datas não são boas, mas são de fato nossa melhor opção respeitando o término do ano letivo e o recesso de final de ano. Na primeira opção é claro que vai ficar muito em cima pra quem vai viajar no natal, mas não existe a possibilidade de irmos antes, porque nossas provas finais serão na semana do dia 25 a 29 de novembro e nós sabemos que nem todo mundo vai conseguir passar direto. E aí esses alunos terão o intervalo de 1 semana pra estudarem pro provão final de recuperação, na semana seguinte farão a prova e pegarão os resultados. Ou seja, só na semana do dia 16 estaremos todos de fato liberados.

"O máximo que podemos fazer e que foi conversado com a diretora, é ao invés dos resultados serem entregues em mãos e vocês terem a oportunidade de ainda conversar caso tenha dado merda, é os resultados serem lançados direto no sistema, mas aí não tem chororô e eu sei que isso não vai ser legal, então não acho nem que seja uma opção considerável. ”

“E eu realmente acho que essa data seja melhor do que viajar em janeiro. Tentem relevar essa proximidade com o natal, porque vocês podem viajar pelo resto da vida, agora formar no ensino médio só acontece uma vez. Vai ser legal porque vamos acabar tudo e ir comemorar todos juntos, então voltamos, passamos as datas festivas e colamos grau efetivamente depois. Porque imagina deixar pra fazer tudo ano que vem, já vai ter passado tanta coisa que já vai parecer quase um reencontro do terceirão.”

“Mas são vocês que decidem! Eu vou entregar um papel com as duas opções para todos os alunos, contendo as datas, valores e roteiros especificados, para que apresentem aos seus pais e discutam com os mesmos. Eles deverão assinalar a opção escolhida e assinar no final, vocês me trarão os papéis de volta até sexta e os votos serão contabilizados. Apenas os papeis com assinatura dos pais serão considerados, para que assim apenas os alunos que realmente participarão das atividades possam opinar, sem intromissão dos demais. Na segunda eu passarei o resultado para vocês e entregaremos os contratos para que devolvam assinados até no final da semana e no final do mês já paguem a primeira parcela.”

A sala voltou ao seu alvoroço com todos os alunos discutindo um com o outro, mas pareciam mais calmos. Agora discutiam sobre qual data preferiam e não sobre como odiaram tudo, então entreguei uma quantidade x dos papéis para o primeiro aluno de cada fileira e pedi para que fossem os passando para trás. Isso apenas para não ter de eu mesma o entregar para Gabriel, o que me fez questionar se ele iria participar de tudo isso.

Eu também tinha de conversar com minha mãe ao chegar em casa, pois não sabia se iríamos fazer algo no final do ano e precisava saber o que ela acharia melhor, mesmo sabendo que ela me deixaria escolher, ela sempre soube como essa formatura era importante pra mim. Mas eu realmente não sabia mais o que queria fazer e acabei não dizendo nada para ela, nem mesmo para Leticia que me mandara uma mensagem na quinta perguntando em qual opção eu votaria. Eu apenas ignorei sua mensagem.

Mas a que chegou depois da meia noite, não teve como ignorar.

“Nós precisamos conversar, urgente. Tente chegar mais cedo no colégio amanhã por favor e quando chegar me mande mensagem.”

Eu estranhei muito aquela mensagem e tudo no que consegui pensar foi: não é possível que ainda exista algo pra dar errado na minha vida. Aquela foi possivelmente a vez em que me arrumei mais rápido em todo o ano, eu praticamente caí dentro de uma roupa qualquer e fui devorando uma fruta pelo caminho. Assim que cheguei na porta do colégio mandei uma mensagem para Leticia como ela havia me pedido e me encostei no muro para esperá-la. Mesmo uma semana depois as pessoas continuam me encarando, mas eu resolvi apenas ignorar, ou tentar. Me foquei nos meus dedos recém-quebrados que ainda me davam agonia ao movimentá-los, mas eu estava visivelmente nervosa, minha perna balançava involuntariamente.

Ao levantar a cabeça avistei Leticia do outro lado da rua esperando os carros passarem para que pudesse atravessar. Sua expressão me fez ter certeza de que eu estava prestes a receber alguma notícia que me faria chorar e minha cabeça começou a trabalhar a mil tentando desesperadamente descobrir o que poderia ser e assim se preparar. Só conseguia pensar no nome Gabriel. Gabriel, Gabriel, Gabriel. Mas não conseguia imaginar o que de ruim ele ainda poderia ter feito.

Ela atravessou e ao se aproximar de mim tentou dar um sorriso que não deu muito certo. A abracei e enquanto isso acontecia reconheci o carro preto parando no meio da rua para que alguém pudesse descer. Esse alguém no caso era Gabriel, e ele desceu. Desceu, pegou sua mochila e continuou a segurar a porta aberta. Logo em seguida vi outra perna sair de dentro do carro, fina e usando jeans claros. Segundos depois pude ver o corpo inteiro de Amanda, agora parada ao seu lado com a mochila nas costas. Gabriel fechou a porta, eles entrelaçaram os dedos e juntos caminharam até a entrada do colégio.

Tudo aconteceu em ritmo normal, mas para mim foi como se aquela cena toda tivesse se passado em câmera lenta. Os dois descendo do mesmo carro, o carro da mãe de Gabriel. Os dois de mãos dadas, caminhando juntos em frente a todas aquelas pessoas. Pessoas que assim como eu olharam fixamente para a mesma direção.

Quando eles adentraram o colégio e sumiram do campo de visão dos curiosos ali fora, as pessoas que já haviam me avistado olharam imediatamente para mim. Gostaria de dizer que eu estava com uma expressão de indiferença, que demonstrasse algum tipo de superioridade, mas eu não estava. Eu estava perplexa e principalmente confusa. Talvez um pouco desesperada.

– Isa? – ouvi Leticia chamar e olhei em sua direção finalmente me lembrando que ela estava ali. Era nítido a pena em seu olhar.

– O que ta acontecendo? – indaguei. Era a única coisa que eu queria saber naquele momento.

– Vamos entrar e sentar. – ela pediu. – Eu te explico direitinho.

– Eu não quero entrar muito menos sentar. – respondi um pouco mais exaltada do que pretendia.

Ela respirou fundo e olhou para os lados antes de começar a falar, estava evitando meu olhar.

– Amanda foi até minha casa ontem e disse que precisava me falar algumas coisas. Em um resumo contou que Gabriel foi atrás dela pedindo para conversar e ela resolveu ouvir. Ele confessou tudo que fez com vocês e contou seu próprio lado da história. Chorou, mostrou arrependimento e pediu perdão. Disse querer o perdão tanto dela quanto seu, mas que sabe que da sua parte isso não vai ser possível e então disse saber que não dá pra voltar no tempo e simplesmente concertar as merdas que fez, mas que pode pelo menos tentar concertar as coisas agora.

Ela deu uma pausa antes de continuar. Parecia ter medo de que eu começasse a chorar a qualquer momento ou que surtasse repentinamente.

– Ele pediu uma chance pra ela de mostrar quem ele realmente é e que gosta dela de verdade. – prosseguiu, mas era nítido o quanto estava incomodada em dizer aquilo em voz alta. Como se seu próprio corpo rejeitasse aquelas palavras. – Uma chance pra fazer tudo diferente e calar a boca de todo mundo. De passar por cima de tudo e poder... Fazer ela feliz de verdade agora. Ele basicamente pediu uma chance pra que eles pudessem ficar juntos e bem... – houve uma longa pausa. – Ela aceitou.

Ouvir aquilo fez com que meu estômago se embrulhasse. Eu não estava acreditando no que estava ouvindo.

– Eu nem sequer pude opinar ou dizer qualquer coisa. Ela terminou dizendo que não queria ouvir nada, que sabia o que eu diria, que sabia que eu seria contra e sabia principalmente que eu falaria sobre você. Então explicou que está apenas tentando concertar a bagunça de sua própria vida e que se o destino deu essa chance a ela, ela vai aceitar. Que ela não quer mais ninguém dizendo o que ela deve ou não fazer porque agora ela vai caminhar com os próprios pés e que em hipótese alguma está fazendo isso pra te magoar, mas que desde o começo vocês sempre souberam que alguém ia ter de sair ferida nessa história e que se ele escolheu ela, ela não pode simplesmente ignorar que ama ele e que pode finalmente ser feliz, então saber que você pode odiá-la é uma consequência com a qual vai ter de lidar.

Ao terminar de falar ela esperou uma reação vinda de mim, mas eu estava perplexa. Tudo que consegui dizer foi:

– Você precisa chamar a Amanda pra mim. Urgente.

– Isa, por favor, eu não quero ver vocês brigando. Eu não aguento mais tudo isso.

– Eu não quero brigar, Leticia. Eu não vou brigar. Você não ta entendendo. Eu só preciso que chame ela, por favor, porque eu não consigo entrar lá dentro agora. Por favor. Confia em mim.

– Tudo bem. – ela aceitou com relutância.

Ela de fato não estava entendendo. Eu não estava com raiva, magoada, chateada, arrasada ou qualquer outra coisa parecida. Pelo menos não com Amanda. Eu estava perplexa que Gabriel pudesse estar fazendo aquilo de novo. Eu não consegui acreditar que ele é muito pior do que eu imaginei que pudesse ser.

Quando Leticia retornou minutos depois com Amanda a acompanhando, eu não soube como exatamente iria começar a dizer aquilo. Elas pararam em minha frente e Amanda me olhou esperando que eu dissesse qualquer coisa, mas eu estava travada e acabei começando da pior forma.

– Amanda, você não pode ficar com o Gabriel. – disse de forma autoritária.

– Isa... – ela começou a dizer, mas a interrompi e prossegui de forma desesperada.

– Ele ta fazendo a mesma coisa, Amanda! Tudo de novo! O mesmo jogo! Ele também foi até minha casa. Ele também disse precisar conversar comigo. Ele também fez a mesma cara de cachorro abandonado. Também chorou. Também parecia arrependido. A questão é que eu não dei moral pra ele.

– Você que não tá entendendo, Isa. – rebateu Amanda me olhando com preocupação, mas a ignorei e continuei falando incessantemente.

– Ele ta fazendo exatamente a mesma coisa que fez com Bianca. Quando ela descobriu, quando Arthur contou tudo pra ela, Gabriel ainda conseguiu a convencer de voltar com ele. E como? Eu tenho certeza que foi exatamente com o mesmo discurso que fez pra você. É o que ele quer. Ele quer que a gente baixe a guarda pra cair na dele de novo e você tá caindo. Eu não acredito que ele seja tão desgraçado assim! A gente não pode deixar ele continuar manipulando a gente! Você não pode deixar!

– Isabelle! – gritou Amanda fazendo com que eu me calasse e olhasse para ela assustada. Então ela respirou fundo e com a voz serena me explicou o que ela queria ter dito desde o começo, como quem explicava pra uma criança que seu brinquedo favorito quebrou.

– Eu sei que ele foi até sua casa... Nós conversamos sobre isso. – ela contou. – Ele foi até você apenas pra te contar sobre nós. Era tudo que ele queria dizer. Ele queria apenas te preparar pra isso, pra que você pudesse reagir melhor. Era apenas pra te contar que nós estamos juntos.

Eu fiquei a encarando enquanto ela dizia aquilo, mas não fazia sentido pra mim. Ou pelo menos era o que eu queria, que nada fizesse sentido. Quando não respondi nada tanto Amanda quanto Leticia permaneceram caladas me olhando com pena, aquele olhar de pena que não aguento mais sentir sobre mim, e finalmente percebi o quanto eu havia sido ridícula. Como preferi acreditar que Gabriel pudesse ser escroto o suficiente para fazer tudo de novo, do que acreditar que ele havia ido até mim apenas para dizer que gosta dela.

Ele gosta de Amanda.

Meu coração pareceu ter sido socado até que sumisse dentro do peito. Nunca me senti tão arrasada e tão humilhada. Apenas segurei a alça de minha mochila, pedi desculpa sem graça e de cabeça baixa saí dali.

Ainda pude ouvir Leticia me chamando, mas ignorei e continuei a andar. De repente senti uma mão em meu ombro e olhei para trás.

– Onde você vai? – questionou Leticia visivelmente preocupada.

– Pra casa. – respondi.

— Você não precisa mais passar por isso sozinha, você sabe né?

— Mas eu preciso. – afirmei antes de mais uma vez dar as costas.

Segui por todo o trajeto segurando o choro, com a garganta travada, tudo porque sabia que quando a primeira lágrima caísse, eu ia desabar junto. Mas assim que entrei em meu quarto fiquei paralisada. Um sentimento crescia dentro de mim gradativamente, porém rápido. Eu estava sentindo raiva. Raiva por ter cavado o próprio buraco no qual me enfiei e ter chegado tão fundo. Me senti cansada de sentir tudo que venho sentindo. Dor, vergonha, tristeza. E sem perceber foi exatamente nisso que minha mágoa se transformou, em uma vontade súbita de gritar e destruir todos os meus sentimentos.

Involuntariamente avancei sobre minha escrivaninha e num movimento rápido comecei a arremessar tudo que via pela frente no chão. Todos os objetos que estavam sobre a mesma, todos os livros, todos os CDs, todas os porta-retratos. Quando não encontrei mais nada para derrubar, procurei por qualquer objeto com ponta pelo chão e encontrei minha chave. A peguei e me virei em direção a parede de minha cama, a parede com trechos de músicas, músicas que agora me lembram o desgraçado. Comecei a esfregar a chave por cima de um trecho em específico, de uma música do Coldplay que me fazia lembrar o maldito dia em que ele me deu um presente de dia dos namorados, estragando a parede, arrancando sua tinta e machucando minha própria mão com a força que fazia. Quanto mais tentava apagar aquilo e percebia que não conseguiria, mais e mais raiva sentia.

Acabei desistindo e num movimento impensado de bater com as duas mãos na parede, machuquei novamente meus dedos já fraturados. Doeram instantaneamente e eu apenas me permiti cair no chão chorando. Chorei pela milionésima vez e chutei meu criado-mudo por estar fazendo isso, por perceber que tudo que tenho feito é chorar e chorar e chorar. Mas eu não consigo mudar tudo que tem acontecido. É a coisa mais estranha de se sentir e eu tenho plena consciência de que sou nova e sei tão pouco sobre o amor, mas sinto verdadeiramente como se nunca mais fosse ser capaz de amar alguém da mesma forma, como se nunca mais fosse sentir o turbilhão de coisas que ele me fez sentir. E eu não sei dizer se existe algo de bonito nisso ou se é apenas trágico.

Se passaram minutos até que eu conseguisse me acalmar, e ainda chorando, ao olhar ao meu redor, percebi o estrago que havia feito. Minha sorte é que Elisa não estava trabalhando nesses dias ou ela se assustaria muito com esse meu surto repentino. Passado algum tempo até eu me assustei. Minha mãe me mataria quando visse aquilo e é por isso que precisava limpar tudo antes que ela voltasse, mas ao invés disso apenas tranquei meu quarto e saí de casa novamente na tentativa de que tomando ar fresco talvez conseguisse pensar melhor.

Andei até acabar sentada em uma praça não muito longe de casa. Nunca estive ali antes. Havia pouca gente naquela parte da manhã, grande parte das pessoas apenas a atravessavam de passagem aos seus destinos. Nem mesmo eu parecia estar ali, minha cabeça estava muito, muito longe.

Eu não vou conseguir simplesmente aceitar Amanda e Gabriel juntos, não vou conseguir encará-los todos os dias e fingir que está tudo bem, não vou conseguir não odiá-la por mais que eu tente e por mais que eu não queira. É que nada disso faz sentido e eu simplesmente não consigo digerir. São muitas reviravoltas pra minha cabeça conseguir acompanhar e entender, ou pelo menos tentar. Em um dia eu acredito estar feliz com Gabriel, no outro ele grita, me xinga, me humilha, me magoa e me destroça e de repente aparece e confessa que gosta de Amanda?

Eu queria tanto que houvesse alguma forma de simplesmente apagar tudo isso ou pelo menos alguém que pudesse simplesmente me dizer o que fazer pra esquecer e superar.

— Pensar demais só desgraça mais nossa mente. – disse uma mulher repentinamente chegando a me assustar. Ela estava sentada ao meu lado no banco, mas não havia a visto chegar. – Se eu fosse você evitaria fazer isso.

Ela aparentava ser mais velha. Cabelos curtos e roupas sociais que não combinavam muito com as diversas tatuagens espalhadas pelo corpo. Ela tirou um maço de cigarros da bolsa, pegou um de dentro da caixinha já quase vazia e o acendeu. A observei acendê-lo e traga-lo com a normalidade de quem faz isso cotidianamente.

— Dia ruim? – ela questionou sem me olhar, percebendo meu olhar de curiosidade sobre si mesma.

— Vida ruim. – respondi sem humor, mas ela sorriu e então apontou para seus cigarros como quem me oferecia um. Me peguei pensando que ela não deveria oferecer cigarros a adolescentes por aí, principalmente adolescentes usando o uniforme do colégio, mas ela não parecia nem um pouco preocupada com isso. E eu não faço ideia do porquê, mas aceitei.

— Tem fogo aí? – indagou após me entregar uma unidade.

— Não.

Ela me entregou seu próprio isqueiro e acendi o primeiro cigarro que fumei em toda minha vida. O coloquei entre os lábios, queimei sua ponta com as chamas do isqueiro puxando a fumaça para dentro do pulmão, me lembrando de como Gabriel costumava fazer aquilo. Devolvi o isqueiro para a mulher e traguei, sem saber se estava fazendo aquilo direito. Senti um gosto de menta que queimou minha garganta. Me lembrava perfeitamente de como o cigarro parecia se encaixar nos lábios de Gabriel, de como ele tragava e soltava a fumaça de uma forma que fazia meus olhos se sentirem presos nele. Era quase poético, ou talvez fosse apenas eu que insistia em ver poesia nele.

— Sabia que o tabaco contém mais de 4.700 substâncias tóxicas e cancerígenas? – disse em voz alta com um sorriso melancólico. Fora exatamente o que eu disse para Gabriel na primeira vez que o vi fumar.

A mulher mais uma vez sorriu para mim.

— E qual o motivo de você estar levando-as para seu pulmão? – questionou-me.

— Olhos e cabelos castanhos, 1.80 de altura, um sorriso perfeitamente alinhado e vocação pra dizer qualquer coisa que você queira ouvir.

— Acho que você não queria ouvir seja lá o que foi que ele disse que te deixou assim. – ela supôs.

— Definitivamente não. – concordei.

Nós voltamos a ficar em silêncio, cada qual perdida dentro de sua própria mente. Se passara tanto tempo que achei que ela não falaria nada, mas de repente, ela me fez uma pergunta.

— Ele fez algo muito ruim? – indagou a mulher sem sequer me olhar.

— Ruim é pouco demais pra definir o que ele fez. – confessei.

— E então, aposto que você está arrependida e pensando nas inúmeras hipóteses de simplesmente esquecer o dia em que o conheceu.

— Eu não deveria? – rebati a encarando.

Ela continuou olhando para frente, observando a paisagem e fumando seu cigarro tranquilamente.

— Ele te fez feliz por algum momento? – ela perguntou após um longo trago.

— Fez, mas não era real. – respondi.

— Sua felicidade não era real?

— Era, mas... – tentei responder, porém ela me interrompeu com mais perguntas que passei apenas a responder diretamente tentando entender onde ela queria chegar.

— Seu amor era real?

— Era.

— Se não fossem os finais, você se arrependeria de tê-lo vivido?

— Não.

— Então por que querer apagá-lo?

Eu não respondi, estava extremamente confusa. Apenas olhei para a ponta do cigarro que segurava entre os dedos e que pouco a pouco se transformava em cinzas.

— Todas as minhas amigas se apaixonaram antes de mim. Aos 20 anos todas elas já tinham tido seus primeiros e segundos amores, enquanto eu não havia passado nem perto desse sentimento. – ela pausou sua história e deu uma risada anasalada. – Bom, era o que elas diziam, mas eu não acreditei nisso por nenhum segundo sequer. Acontece que algumas pessoas são muito mais intensas que outras e talvez eu fosse uma dessas pessoas, porque aquilo, pra mim, não podia ser amor.

“A questão é que eu acreditava num tipo diferente de amor. Era um amor que existia apenas dentro de mim e eu sabia que quando ele fosse desperto eu saberia. Era o tipo de amor que me faria contradizer todo o discurso que os adultos parecem saber de cor. Aquele que diz mais ou menos que o tempo vai passar e que vai chegar um dia em que você conseguirá esquecer e seguir em frente sem que isso doa dentro de você. E é verdade, você consegue. Essa é uma das melhores partes da finidade das coisas da vida, é que nem mesmo a dor é eterna.”

“Mas sabe como descobri isso? Quando num dia 27 de junho conheci meu primeiro amor e inevitavelmente num dia distante do futuro ele partiu meu coração. Minha mãe me deitou em seu colo e me disse que o amor é tão complicado e imprevisível quanto a vida, em grande parte do tempo costuma deixar um rastro pelo caminho que quase sempre leva a uma mesma pergunta: “E se?”. Então nós começamos a nos questionar cada mísero momento, cada mísera decisão, cada mísero sentimento, cada mísera parte do amor que sentimos, quando o que deveríamos era sabermos ser gratos pelos “se’s” que escolhemos. Porque eles existiriam mesmo assim. Eles sempre vão existir. Devíamos parar de pensar “E se eu não tivesse me entregado?”, “E se eu tivesse feito tudo diferente?”, “Se não tivesse o amado?” e ser mais gratos por aquilo que fazemos existir do que aquilo que nunca existiu, principalmente quando se trata do amor, porque o amor é a chama que nos mantém vivos.”

“Foi assim que descobri qual era o tipo de amor no qual eu acreditava. O amor que independente das circunstâncias, duração, começo ou final, não fosse aquele que me deixaria esperando pelo momento em que seria capaz de seguir em frente com minha vida e deixa-lo para trás, seria aquele que eu seria grata por carrega-lo comigo durante todo o restante de meu trajeto. A vida já é finita demais para deixarmos que o amor também seja.”

Foi como se ela tivesse me dado um tapa na cara. Eu olhei bem para seu rosto, mas ela estava com o olhar longe, como se não dissesse aquelas palavras exatamente para mim e sim as jogasse no vento.

— A vida não é feito poesia, em que tudo é milimetricamente pensado para ser bonito. As partes feias também fazer parte dela. – acrescentou. – Ele te fez viva, é disso que você deve se lembrar e é assim que você vai ser capaz de seguir com a alma leve.

Dito isso, ela jogou a bituca de seu cigarro já acabado no chão e saiu andando sem nem ao menos dizer tchau.

Eu não soube quem era aquela mulher e nunca saberei. Seu nome, idade, o que estava fazendo ali e por que me disse todas essas coisas, mas soube que jamais esqueceria de nenhuma das palavras que me disse. Desejei ter dito obrigada antes que ela se fosse.

Permaneci sentada por mais algum tempo apenas refletindo, mas de alguma forma foi como se tivessem tirado um peso das minhas costas. Mais difícil do que perdoar Gabriel, tem sido me perdoar, e tudo aquilo me fez entender que tudo bem. Tudo bem eu tê-lo amado, tudo bem eu ter acreditado, tudo bem eu ter vivido tudo com tanta intensidade. Perdoá-lo não sei quando conseguirei, mas decidi que a mim mesma, eu perdoaria. E me senti muito mais leve por isso.

Já era quase uma da tarde quando me levantei para ir embora, ainda com as palavras daquela estranha rondando minha mente. Resolvi ir ao médico verificar meus dedos, pois eles estavam um pouco doloridos. Descobri que estava tudo bem, a dor era normal por eu tê-los batidos “sem querer” em um objeto, como eu inventei ao doutor. Agradeci mentalmente pois se minha mãe descobrisse que prejudiquei ainda mais a fratura me mataria. Saindo de lá, comprei um sorvete para tomar enquanto caminhava de volta para casa, não queria voltar, mas sabia que precisava arrumar tudo que estraguei antes que minha mãe chegasse. E eu demoraria nessa tarefa. Porém, no meio do caminho, resolvi fazer uma ligação.

— Alô. – atendeu exatamente a voz que esperava ouvir. Vinícius.

— Quer sair comigo hoje? – convidei sem rodeios.

— Nossa, acho que é a primeira vez que uma garota me convida para sair.

— Pois saiba que pra sua infelicidade não é um encontro... – esclareci. – Seremos apenas dois amigos saindo para se divertir um pouco.

— Claro, eu não esperaria o contrário. – ele respondeu e deu uma risada. – Mas por que esse convite repentino?

— Depois de uma manhã horrível em que tive um breve surto psicótico e quebrei meu quarto inteiro, eu encontrei um anjo de tatuagens na rua que me disse algumas coisas que me lembraram de algo que você me disse dia desses, sobre somente eu mesma poder fazer algo por mim. E eu resolvi que to parada há tempo demais esperando que a vida siga em frente, sendo que sou eu quem devo dar o primeiro passo.

— Acho que eu gostei de saber disso. – afirmou Vinícius e de alguma forma soube que ele estava sorrindo do outro lado da linha. – Que horas seria esse não-encontro?

— A noite, porque agora eu preciso mesmo ir pra casa arrumar meu quarto antes que minha mãe chegue, eu não brinquei quando disse que tive um surto.

— Você não quer ajuda pra limpar esse quarto? – ele ofereceu. – Eu não to fazendo nada.

— Acho melhor não, prefiro que você não ache que sou louca.

— Eu não acho que você é louca, Isabelle.

— Pois deveria. – alertei.

— Anda, vamos. Onde você ta? Eu te pego aí. – insistiu Vinícius.

Eu pensei muito antes de responder, mas acabei cedendo e passei minha localização para ele. Incrivelmente não demorou mais que alguns minutos para que ele chegasse.

Assim que entrei em seu carro e o avistei, um sorriso abriu em meus lábios.

— Obrigada por ter vindo. – agradeci, após o cumprimentá-lo com um beijo no rosto.

— Não precisa agradecer, eu realmente estava fazendo nada. – admitiu ligando o carro para que seguíssemos nosso caminho. Ao olhar para mim novamente, a primeira coisa que percebeu foi minha mão. – O que você aprontou? – indagou curioso.

— É uma longa história. – respondi.

– Eu tenho tempo.

E então eu contei tudo. Gabriel aparecendo repentinamente em minha casa. A forma com que quebrei os dedos. Leticia querendo falar comigo. Amanda e Gabriel aparecendo juntos. O momento em que falei com ela. A grande revelação e como me senti. O engraçado foi que ao contrário do que eu imaginava, poder conversar com alguém sobre isso foi extremamente desestressante. Eu tenho a Leticia, mas Vinícius não estava envolvido em tudo isso, foi bom ouvir o que uma pessoa de fora tinha a dizer.

— Vocês já tinham se afastado de qualquer forma, certo? – ele questionou se referindo a mim e Amanda. Concordei. – Então não força a barra, cara, dá tempo pro tempo. Uma coisa de cada vez. Agora que você tá conseguindo processar tudo que aconteceu, a lidar com isso. A primeira coisa que você tem que fazer é seguir em frente e então conseguir estabilizar sua vida de novo. Só depois você pensa nisso. Nela, nele, sei lá.

— Eu só não sei como vou conseguir lidar com isso diariamente. A gente estuda no mesmo colégio. – resmunguei. – Desde que eu voltei já tem sido impossível não lembrar que ele tá sentado lá a algumas fileiras de distância de mim. Agora ainda tem isso.

— Isa, se você conseguiu passar por tudo que já passou até agora, você consegue qualquer coisa! – encorajou Vinícius. – Só ele é da sua sala, então o que você vai fazer é o que já está fazendo. Ignorar. Ignora a presença dele e nos intervalos, que é quando você corre o risco de vê-los, se esquivar dos lugares em que eles estiverem. Pronto.

— Eu nem tenho saído pros intervalos. – confessei.

— Ah não, Isabelle! – ele resmungou dando um tapa no volante. – Eu tenho tanto ódio desse cara!

— Eu também! – concordei reprimindo um sorriso ao vê-lo estacionando o carro em frente minha casa, com a cara fechada, visivelmente irritado por causa dos meus problemas. Meus.

— Sua vida parece uma novela mexicana. – resmungou por fim, desligando o carro.

— Eu sei. – respondi rindo. – Por isso nunca reclame da sua.

— Não reclamar? Tinha pelo menos umas mil garotas por quem eu podia me interessar e olha quem eu escolhi!

Ele disse isso me olhando, como se não fosse nada demais a se dizer, mas era estranho vê-lo dizendo na minha frente que é interessado em mim. Ainda mais tendo plena consciência de que não estou em condições de me interessar por alguém. Por isso apenas sorri.

Nós descemos do carro e entramos. Fiz isso de forma tão automática que não me toquei de uma coisa.

– Licença. – pediu Vinícius limpando os pés no tapete de entrada da sala, me fazendo cair na real.

— Você nunca veio na minha casa, Vinícius! – exclamei.

— Não. – ele respondeu rindo.

— Eu não tinha percebido isso, meu deus, fica a vontade!

— Obrigado.

— Você aceita um copo de água ou qualquer outra coisa? – ofereci tentando ser educada.

— Não, sem formalidades, por favor. Vamos direto ao que viemos fazer.

— Não, Vinícius, sem chances. É a primeira vez que você vem aqui. Nós vamos fazer outra coisa.

— Imagino que seu quarto seja por aqui... – ele disse apontando para o corredor e seguindo pelo mesmo.

— Vinícius! – gritei correndo atrás dele. Ele apenas me segurou e continuou me empurrando pelo corredor.

— Não acredito que é a primeira vez que você vem aqui e você vai ver meu quarto assim. Vamos fazer outra coisa, por favor. Não vou te deixar entrar lá.

— Para de frescura.

Nós paramos em frente a porta do meu quarto e o olhei uma última vez, mas ele parecia decidido em não ceder, então a destranquei e abri extremamente constrangida. Dei espaço para que ele entrasse, mas com a cara emburrada.

— Ah, mano! Era disso que você tava falando? – disse Vinícius. – Nem ta tão ruim assim!

— Não precisa ser bonzinho.

— Não to sendo... – ele respondeu. – Bom, vamos começar. Você tem uma caixa grande ou algo assim?

— Não. – neguei. – Por que?

— Uma mala?

— Mala eu tenho. – respondi abrindo meu guarda-roupa e apontando para o alto do mesmo onde ela se encontrava guardada.

Ele a pegou, colocou no chão e a analisou.

— Isso vai servir! – disse por fim, colocou as mãos na cintura e me olhou. – Vamos lá, você tem uma missão: Colocar absolutamente tudo que seja dele ou que te lembre ele aqui dentro. Chega de memórias.

— Meu quarto não cabe aí dentro, Vinícius. – resmunguei em tom de brincadeira, mas no fundo, era a mais pura verdade.

— Af Isabelle, para com isso.

— Ok, vamos lá.

A primeira coisa que fiz foi tirar todas as fotos que tinham ele dos meus porta-retratos, ou o que sobrara deles. Enquanto eu fazia isso, Vinícius juntava as coisas que haviam quebrado numa sacola para jogarmos fora. O segundo passo foi me livrar de todas as coisas do Oasis que acabei comprando e inclusive das coisas que ele me deu. Depois fomos revirar meu guarda-roupa. Encontramos moletom, camisetas, uniforme e tocas dele ali.

Não pude deixar de pensar em um turbilhão de coisas. Eram tantas as coisas dele ali e tantas as lembranças entrelaçadas a essas coisas. Eram tantas as coisas e lembranças para quem passou todo esse tempo fingindo que me parece bizarro acreditar que alguém tenha essa capacidade. É bizarro pensar que ele passava a tarde deitado comigo fazendo absolutamente nada quando não tinha interesse nenhum por mim. Ele podia estar em qualquer outro lugar, fazendo qualquer outra coisa, com qualquer outra pessoa. É esse tipo de pensamento que me enlouquece.

Quando não sobrou mais nenhum rastro de Gabriel, terminamos de colocar as coisas em seu devido lugar.

— Acabamos? – indagou Vinícius.

— Acho que sim. – afirmei olhando para cada canto do quarto agora limpo novamente. Felizmente não perdi muita coisa, apenas os objetos de vidro. A única coisa que de fato não teria concerto, era minha parede agora descascada.

— Então vamos fechar a mala e guardá-la. – disse Vinícius voltando minha atenção para ele. – Um dia quando você já estiver de bem com tudo, resolve o que faz com todas essas coisas.

— Vou querer minhas coisas do Oasis de volta. – confessei a fechando.

Nós guardamos a mala no alto do meu guarda-roupa, em um lugar onde eu nem mesmo alcançava e o fechamos, depois tratei de colocar a sacola de lixo na caçamba na rua para que minha mãe não visse.

Quando voltei achando que a tortura já havia acabado, descobri que ela tinha só começado.

— Agora só falta uma coisa. – disse Vinícius com as mãos na cintura.

— O que? – perguntei em dúvida.

— O depósito de memórias mais acessível que carregamos com nós... O tal do celular. Precisaremos do cabo do seu celular e do seu notebook.

— Pra que?

— Pra colocarmos tudo em uma pasta e escondê-la. – ele explicou.

— Por que não simplesmente apagamos?

— Porque sou contra isso. Você pode arrepender depois e aí não tem volta.

— Não é como se algum dia eu fosse querer me lembrar dele de novo. – rebati revirando os olhos.

— A gente nunca sabe do dia de amanhã. – argumentou Vinícius.

Bufei, mas peguei tudo que ele pediu. Nos sentamos em minha cama encostados na cabeceira e deixei que Vinícius fizesse o que queria fazer. Ele passou todas as fotos do meu celular para o computador e me deu duas opções:

— Você prefere apenas deletar tudo do celular, porque você não vai perder suas coisas, elas estão no notebook. Ou nós olhamos foto por foto e vamos apagando as dele? Por mais dolorosa e demorada que seja a segunda opção, eu acho que seja melhor. Assim se você precisar de foto com algum amigo ou se inventar pra si mesma que precisa, não acaba esbarrando com a cara dele de novo procurando pela foto na pasta do pc.

— Pode ser. – concordei dando de ombros, mas no fundo eu estava apavorada.

E com razão.

Pra minha sorte não tinha muita foto, pois eu havia trocado de celular justamente quando eu e Vinícius nos conhecemos, quando meu aparelho estragou, mas quando ele abriu minha primeira foto com Gabriel senti um aperto gigantesco no peito. Vinícius percebeu na hora.

— É ele? – questionou.

— Sim. – respondi num sussurro quase inaudível.

E assim, olhando foto por foto, deletei Gabriel completamente do meu celular. Deletamos inclusive as fotos em grupo que ele estava. No momento em que a primeira lágrima escorreu pelo meu rosto, as demais vieram sem relutância. Apesar de tudo, senti que havia finalmente dado o verdadeiro primeiro passo para esquecê-lo e seguir em frente. Quando Vinicius fechou a pasta e fechou meu notebook, deitei minha cabeça sobre seu ombro, e percebi que a presença dele ali tornou esse momento muito mais fácil.

— Obrigada. – disse de repente e ele me olhou curioso. – Por fazer isso comigo e principalmente por mim.

Ele apenas sorriu. Um sorriso sincero.

Permanecemos em silêncio por um tempo. Eu respeitando minhas lágrimas que aceitei que deveria apenas deixar cair e Vinícius respeitando meu momento. Por fim deixei que o cansaço daquele dia me vencesse e me deitei na cama. Ele fez o mesmo. De olhos fechados ainda antes de adormecer, pensei em quantas coisas aconteceram num intervalo de tempo tão pequeno. Mas decidi: eu vou me reencontrar.

Acordei e estava tudo escuro, exceto pela luz do corredor que iluminava uma pequena parte do quarto. Se a luz estava acesa, significava que minha mãe já havia chegado e ela não conhece Vinícius, não deve estar entendendo ou gostando nada do que está acontecendo. Mas levando em consideração meu comportamento nos últimos meses, deve ter ficado feliz por eu ter finalmente aparecido na companhia de outro ser humano.

Falando em Vinícius, olhei para o lado e ele estava dormindo com a expressão tranquila. Tateei minha cama a procura do meu celular para verificar a hora e já havia passado das 20h, então resolvi acordá-lo. Ainda permanecemos conversando por algum tempo, tentando decidir se iríamos mesmo sair como havíamos combinado, até que quando consegui reconhecer uma voz masculina vindo da sala, que com certeza era do namoradinho de minha mãe, decidi que ali não ficaria. Não quis falar a respeito para Vinícius, mas ele sugeriu de irmos pra sua casa fazer pizza. Eu aceitei.

Nunca fiz uma pizza em minha vida e não fazia ideia nem de por onde começar, mas imaginei que aquilo poderia me distrair e que realmente poderia acabar sendo divertido. Tomei um banho rápido, juntei algumas coisas para levar e fomos. Ao passar pela sala apresentei Vinícius a minha mãe brevemente, apenas por respeito a ele. Mas foi algo realmente breve, exatamente assim:

— Mãe, esse é o Vinícius. Vinícius essa é minha mãe, Renatta. Estamos saindo, não me espere acordada.

Ignorando completamente a presença do cara ao seu lado.

Estranhei porque normalmente ela diria qualquer coisa, mas não disse, apenas respondeu educadamente o “é um prazer conhecê-la” de Vinícius. Então saímos e fomos direto para o supermercado.

— Você sabe fazer pizza? – indaguei enquanto seguíamos pelo corredor de entrada.

— Óbvio que não. – respondeu Vinícius me fazendo encará-lo incrédula.

— Como vamos fazer isso então?

Ele tirou o celular do bolso e o chacoalhou na minha frente.

— Como fazer pizza em casa... – disse em voz alta pausadamente enquanto parecia digitar a frase no aparelho. Dei uma risada anasalada. – Hm... Pepperoni na massa pan! Me parece ótima!

Dito isso saiu andando ainda olhando para o celular e eu apenas o segui.

— Vamos precisar de água morna... – anunciou Vinícius segundos antes de quase trombar com uma senhora, o que não aconteceu apenas porque o puxei pelo braço para outra direção.

— Acho que isso tem na sua casa. – caçoei.

— Certo! – ele concordou e seguiu com a lista. – Fermento biológico seco. Farinha e sal. Uma batedeira. Azeite e frigideira. Molho de tomate, muçarela ralada e pepperoni a gosto. Um pouco de orégano e até parmesão por cima!

Pegamos todos os ingredientes necessários e alguns complementares que não haviam na listinha: duas garrafas de vinho.

— Você tem a batedeira e frigideira em casa, né? – indaguei enquanto seguíamos para a fila do caixa.

— Graças a maravilhosa mãe que tenho que acredita profundamente que eu consigo manusear aquele tanto de panela que tem no meu armário, sim. Diga amém Rosana.

— Esse é o nome da sua mãe? – perguntei curiosa.

— Sim.

Nunca vi uma foto sequer dos pais de Vinícius, me peguei pensando se ele é igual a eles ou não, como é sua convivência com a família, se sente saudade deles. E foi assim que acabei pensando em outra coisa...

— Por que você e o Lucas não foram pra casa agora nas férias? – indaguei. Minha irmã sempre reclamava que em todas as férias seus amigos voltavam para a casa dos pais e ela não tinha com quem sair.

— O Lucas é porque tá naquela fase começo de namoro que não quer desgrudar da pessoa, aí falou pra mãe que não podia ir porque precisa resolver umas coisas da faculdade. – explicou Vinícius.

— E você? Seus pais é que vem te visitar, né? – foi o que ele havia me dito no dia em que apareci em sua casa.

Ele fingiu não ouvir minha pergunta e começou a colocar nossos produtos sobre o caixa.

— Vinícius... – insisti. Não houve resposta. – Vinícius!

— Eu ia pra casa esse final de semana. – ele confessou finalmente me olhando.

— Como assim? Você me disse que seus pais viriam te visitar!

— No dia que você apareceu repentinamente na minha casa e eu pensei que se você quisesse me ver de novo depois daquilo, se eu dissesse que iria viajar dias depois você simplesmente desistiria e voltaríamos pra estaca zero de não nos falarmos mais. – ele admitiu. – E aí, veja só, aqui estamos!

Eu fiquei sem palavras o encarando. Vinícius tinha deixado de ir para casa matar a saudade dos pais, da família e dos amigos por minha causa.

— Para de me olhar com essa cara. – ele pediu revirando os olhos. – Eu posso ir pra casa quando eu quiser.

— E pode me ver quando quiser! – rebati.

— Eu não tenho tanta certeza disso.

— Próximo! – a mulher do caixa anunciou e Vinícius automaticamente se focou em passar nossas compras. Percebi que o assunto se encerraria ali e mesmo ainda muito chocada decidi deixar pra lá. Não havia mais o que eu pudesse fazer.

Agora fazer a pizza foi um processo nada fácil e bastante demorado. Se tivéssemos apenas que seguir o que era instruído na receita tudo bem, mas no meio dela descobrimos que não sabíamos do que se tratava metade das coisas, como por exemplo, como se deixa uma massa crescer. Também buscamos pela resposta no google, mas não deu muito certo. Seguimos em frente mesmo assim. A única parte verdadeiramente divertida foi quando após jogar todos os ingredientes sobre a mesma, finalmente a colocamos para assar.

No final das contas tínhamos sujado metade da cozinha e do meu cabelo com farinha, derrubado molho de tomate no chão, terminado uma das garrafas de vinho que compramos e a pizza ainda estava no forno.

— Por que nós simplesmente não compramos uma massa pronta? – indaguei.

— Por que nós simplesmente não pedimos uma pizza pronta? – completou Vinícius.

Nós dois rimos, sentados no chão da cozinha, olhando para o forno como aqueles cachorros que ficam olhando fixamente para máquinas de frango assado.

— Qual é a sua com sua mãe? – indagou Vinícius repentinamente. Tão repentinamente que não entendi do que ele estava falando.

— Como assim?

— Você não queria ficar em casa, depois percebi o climão entre vocês quando fomos embora e também percebi que seja lá quem fosse o cara na sua sala, você não gosta dele...

Ás vezes eu esqueço o quanto Vinícius é observador. Suspirei e resolvi abrir o jogo.

— É o namorado dela. E não, realmente não gosto. – confessei.

— Por que?

— Nem sei direito. Eu sempre fui muito de boa com a separação dos meus pais, sempre torci muito pra que minha mãe arrumasse um novo alguém que fizesse ela bem, até incentivava, mas não gostei nada quando aconteceu. Acho que foi pela forma com que tudo aconteceu. Eu tava desconfiada de que ela tava conhecendo alguém, mas então ela simplesmente apareceu apresentando ele como namorado, não me disse nada, não me contou nada e disse que foi porque eu tava num momento difícil. Ela convocou um jantar com a família inteira, em que todos sabiam menos eu e foi quase como um “estamos aqui pra anunciar que somos felizes, mas por favor não fique triste com isso”. Eu não vou mentir, eu fiquei com inveja, quando olhei pra mesa e vi que todos ali estavam bem e eu não, mas isso jamais me impediria de ficar feliz por ela. E aí acabou, nunca mais consegui dar uma chance pro cara.

— Eu entendo seu lado, mas tenho certeza que ela não fez por mal. – Vinícius a defendeu.

— Mas fez. – retruquei.

— Então por que você não conversa com ela? Não diz tudo ao invés de só agir assim? Eu tenho certeza que ela pediria desculpa e que tudo ficaria melhor. Ela fez um jantar pra apresentar vocês, Isa, mesmo que da forma errada, mas fez, significa que era importante pra ela esse momento. Tenho certeza que é importante pra ela receber seu apoio.

— Af, detesto você, Vinícius. – brinquei, porque na verdade, ele disse tudo que eu já sabia. O problema é fazer tudo isso, eu não consigo conter a raiva que sinto. – Seus pais são casado? – questionei desviando o assunto.

— São!

— Eles tem um bom relacionamento?

— Se um bom relacionamento for conseguir superar todos os dias ruins por todos os bons dias, acredito que sim. – ele respondeu e sorrimos.

Seu celular despertou avisando que a pizza havia finalmente ficado pronta e nos levantamos empolgados. Estávamos com tanta fome que já tínhamos até arrumado a mesa. Comemos quase toda a pizza, deixando apenas alguns pedaços para Lucas que descobri que não dormiria em casa. Assim que terminamos nos sentamos no sofá da sala para conversar. Quando percebemos já havíamos acabado com a segunda garrafa de vinho e partimos para uma garrafa de vodka que estava na geladeira de Vinícius. A misturamos com suco de saquinho e jogamos a noite na mão de deus.

— Vamos jogar um jogo! – propus me jogando de volta no sofá já visivelmente alterada e com um calor que não sei de onde surgiu. Vinícius me olhou com atenção enquanto colocava nossa bebida em cima da mesinha de centro que puxamos para perto de nós. – Você lembra daqueles cadernos de perguntas que as pessoas faziam no ensino fundamental? Que em cada página o dono colocava uma pergunta e aí dava pras pessoas irem respondendo?

— Meu deus! As meninas da minha sala adoravam aquilo! – exclamou Vinícius se sentando ao meu lado. Eu também adorava, devo ter tido um por ano. Hoje em dia duvido que os adolescentes sequer saibam do que se trata ou que achem divertido, mas era como um desses sites em que as pessoas te mandam perguntas, só que em papel.

— Pois é, vamos jogar algo parecido com aquilo. Eu faço uma pergunta, nós dois respondemos e depois você faz outra pergunta.

— Que tipo de perguntas? – questionou Vinícius.

— Qualquer tipo, mas o menos clichês possíveis. – exigi. – Eu não quero saber o que seus pais fazem da vida e coisas desse tipo, quero saber coisas... interessantes.

— Ta bom, eu topo, pode começar.

Parei para pensar por um instante e perguntei a primeira coisa que me veio à cabeça.

— O que você gostaria de estar fazendo daqui a cinco anos?

— Porra, já começou com pergunta reflexiva! – ele reclamou me fazendo rir. – Quero ter terminado minha faculdade, estar começando uma carreira bem-sucedida, quem sabe namorando uma garota legal, morando num apartamento comprado e não alugado, com um carro melhor...

— Me parece bom. – observei.

— E você?

— Eu diria exatamente as mesmas coisas. Gostaria de estar com meu diploma, de estar amando alguém e ter uma vida legal, mas como a vida nem sempre é esse mar de rosas, acho que quero apenas ter orgulho de mim, independente de qualquer coisa. Quero apenas não ter perdido minha essência.

— Você é inacreditável, sabia?

— É só que eu vejo minha irmã agora e ela basicamente está naquela fase que serão o meu “daqui 5 anos”, e ela já desistiu de tanta coisa e tantos sonhos. Parece que a vida vai te roubando tudo pouco a pouco e você nem percebe.

— Ás vezes penso muito nisso. – confessou Vinícius. – Daqui cinco anos já vou estar com uns 26 e quando eu era criança imaginava que com essa idade já seria um adulto igual meu pai, responsável por uma casa e uma família, mas eu sou só um moleque que não sabe nem administrar o dinheiro que recebe pra sobreviver.

— É assustador, né? – murmurei. – Pensar que o futuro está logo... ali.

— É aí que tá, pra você ele ainda está há alguns passos de distância, pra mim ele já chegou. Eu preciso correr atrás das minhas responsabilidades da faculdade se não quiser me ferrar e quando o semestre começar já preciso começar a procurar por um estágio, tanto pela experiência quanto porque preciso de dinheiro pra pagar minhas contas. Vejo muito cara que conheci que já estão nos últimos anos, que adiaram tanto tudo que agora ficam louco pra correr atrás do tempo que perderam, pra conseguirem terminar as matérias, conseguirem cumprir todos os requisitos, conseguirem experiência profissional, pra formarem e não dependerem mais dos pais com quase 30 anos nas costas. Mas só de pensar eu já fico louco, parece que da noite pro dia me transformaram em adulto e me disseram: é isso aí, sem chororô, agora tu ta sozinho, se vira.

Eu não imaginava que tudo isso se passava pela cabeça de Vinícius, nem que tudo o afligia tanto. Eu nem sequer havia parado algum dia para pensar em todas essas coisas. Sempre tive plena consciência de que tudo na minha vida vai mudar quando esse ano acabar, mas nunca pensei em como decidir um curso da faculdade é o primeiro passo que terei de dar completamente sozinha, o primeiro passo para começar a construir minha própria vida e seguir meu próprio caminho.

— Como nossos pais conseguem ser adultos? Isso é tão terrivelmente assustador. – pensei em voz alta e acabamos rindo juntos.

— Eu espero descobrir algum dia. – confessou Vinícius.

— Você vai e não se cobre muito por isso. – respondi. – Cada um tem seu próprio tempo, devemos respeitá-lo.

Ele concordou com a cabeça, com um sorriso grato nos lábios.

— Ok, isso foi pra um lado totalmente errado. – observei quebrando o clima sentimental que se formou. – Vamos voltar pro jogo. Sua vez!

— Vamos lá! – disse Vinícius se endireitando e olhando para mim. – Qual a coisa mais embaraçosa que já te aconteceu?

Não precisei nem pensar para responder.

— Quando tive minha primeira vez cheguei histérica em casa querendo contar pra minha melhor amiga e mandei a mensagem que era pra ela errado pro boy. Tava escrito algo do tipo: “Adivinha quem transou? Eu mesma! Vem aqui pra casa agora pra eu te contar, to tão dolorida que não consigo nem sentar. Ainda não sei como o pau dele entrou”.

— Mentira! – gargalhou Vinícius.

— Eu queria que fosse.

— Quase ganhou da minha história, mas não ganhou. Acho impossível alguém ganhar.

— Conte! – ordenei.

Ele ficou bastante relutante, mas respirou fundo e disse de uma vez.

— Quando eu tinha uns quinze anos fui pego no flagra me masturbando, mas não foi por qualquer pessoa, foi pelo meu pai.

Ele disse aquilo no exato momento em que fui dar um gole em minha bebida. E eu não estava esperando por aquilo. Não mesmo. Por isso cuspi tudo que estava em minha boca porque não consegui segurar a risada. Ele gargalhou da minha reação.

— Eu to chocada, Vinícius! – gritei enquanto tentava parar de rir e me limpar ao mesmo tempo. – Como foi isso? Como você teve coragem de olhar pra cara dele depois?

— Eu costumava ficar sozinho em casa depois do colégio, mas ele chegou do trabalho e abriu a porta do meu quarto pra saber se eu estava lá e bem... Lá estava eu. Minha sorte é que pais entendem muito mais essas situações. Ele fechou a porta na hora e depois de uns dias quando já tinha passado o clima estranho ainda me zoou. Mas se fosse minha mãe, eu nem sei o que faria.

— Juro que eu pegava minhas coisas, saía de casa e nunca mais voltava de tanta vergonha. – admiti.

— Justo. – ele concordou.

— Você já foi pego transando?

— Já e mais de uma vez – ele confessou. – Também é uma situação extremamente embaraçosa. Na primeira foi com minha namoradinha do colégio, nós estávamos no sofá da casa dela quando a mãe dela chegou e a mãe dela não sabia que ela não era mais virgem. Foi desesperador, nós ficamos sem se ver por dias. Na segunda eu tava muito bêbado, resolvi levar uma menina com quem tava ficando pra casa, esqueci de trancar a porta do meu quarto, minha mãe ouviu uns barulhos e resolveu ir checar porque achou que eu tinha chegado era passando mal.

Eu tava gargalhando tanto que tava até com falta de ar.

— Meu deus! – exclamei. – Espero que depois disso todos tenham aprendido a nunca mais abrir a porta do seu quarto sem bater.

— Aprenderam!

— Mas falando em namorada, você se considera romântico, Vine? – indaguei curiosa.

— Não sei... Acho que sim. Não sou de fazer essas coisas espalhafatosas, mas quando eu to apaixonadinho fico um pouco meloso.

— Isso é tão gay. – zoei e levei uma almofadada em resposta.

— Me deixa! Por acaso você não é?

— Muito, mas não me orgulho disso. – confessei. Como podemos perceber pela minha última experiência, só tomei no cu. – Você já namorou quantas vezes?

— Só uma.

— O que te atraiu nela?

— Eu não faço mais perguntas, é? Só você? – contestou Vinícius.

— Não! – respondi rindo. – Eu falo o tempo todo da minha vida, você já sabe coisa demais de mim, quero saber suas. Responde.

Ele fez uma expressão de derrotado e respondeu.

— A espontaneidade. Nessa fase de adolescência a gente liga muito pro que os outros pensa e força muito pra construir uma identidade, mas ela não ligava pra nada disso.

— Ela devia ser legal. – elogiei.

— Pois saiba que é a mesma coisa que me atraiu em você.

Eu sorri, mas essas palavras me arremessaram em pensamentos que eu não queria que viessem à tona naquele momento. Eu sempre fui exatamente assim e me lembro até mesmo de Gabriel ter me falado isso uma vez. Eu não conseguia entender bem esse mundo em que as pessoas se importam o tempo todo com outras e não em simplesmente serem elas mesmas. E veja só onde parei, entrei numa depressão pelo simples fato de me sentir constrangida por ter amado. A vida e suas ironias.

— Como você lidou com o fim do relacionamento de vocês? – perguntei.

— Muito mal. – respondeu Vinícius visivelmente constrangido. – Muito mal mesmo. De verdade, achei que era o fim do mundo.

— É por isso que você não está me julgando?

— Exatamente. Eu sei como o primeiro amor é um negócio que destroça a gente.

E como destroça!

— Me pergunte qual meu maior arrependimento. – ordenei pegando a garrafa de bebida em cima da mesinha e enchendo nossos copos já quase vazios novamente.

— Qual seu maior arrependimento? – ele perguntou me olhando curioso.

— Não ter deixado a gente acontecer. – respondi olhando em seus olhos.

Dessa vez, ele sorriu, e nós não desviamos o olhar. Foi só quando percebi isso que mudei de assunto imediatamente.

— Af, a gente sempre acaba em assuntos melancólicos. – reclamei. – Chega. Vamos virar isso aqui e mudar o foco dessa conversa. – ordenei apontando para nossos copos.

— Virar? – ele repetiu sem acreditar. – Você quer virar vodka com suco de saquinho?

— Você não dá conta? – provoquei.

Ele ergueu as sobrancelhas como quem duvidava que eu tivesse dito mesmo aquilo e estendeu o copo em minha direção. Nós brindamos e juntos, viramos toda a bebida de uma só vez. Desceu queimando, porque era uma vodka barata e ruim, e mesmo assim, ao decorrer da noite, acabamos com ela. Embalados em conversas cada vez mais sem sentido, com gargalhadas cada vez mais altas e espalhafatosas.

Acabou quando Vinícius sentado sobre o braço do sofá, foi rir de algo e espatifou no chão de costas. Juro que tentei ajuda-lo, mas não conseguia parar de rir.

— Definitivamente tá na hora de esse jogo acabar. – grunhiu Vinícius se levantando do chão, com as mãos nas costas e ainda fazendo caretas.

— Acho que você vai ficar com alguns roxos. – observei debruçada sobre o braço do sofá.

— Tenho certeza!

Me virei para pegar meu celular e olhar as horas e para minha surpresa já havia passado das três da madrugada.

— É, acho que ta na hora de eu ir pra casa. – anunciei.

— Não quer dormir aí? – convidou Vinícius. – Amanhã te deixo em casa.

Eu ia argumentar que era melhor ir pra casa, porque pelo nível de álcool no meu corpo naquele momento, seria a melhor maneira de evitar alguma merda. Mas ele percebeu pela minha hesitação o que eu estava pensando e nem me deixou falar.

— To convidando sem maldade! – se defendeu. – Como o Lucas não vem pra casa hoje, eu durmo no quarto dele e você dorme no meu.

Eu dei uma risada, mas concordei.

— Tudo bem.

— Vou arrumar as coisas. – ele avisou se levantando.

Aproveitei o tempo para mandar uma mensagem avisando minha mãe que não voltaria para casa. Nem me preocupei com o que ela pensaria ou acharia. Eu não estou fazendo nada de errado e to cansada de ficar mentindo onde estou apenas porque ela não confia em mim. Depois juntei todas as coisas que havíamos sujado e levei para a cozinha na intenção de lavar, mas Vinícius me pegou no flagra.

— Não, não mesmo! – ele exclamou segurando meus braços por trás e me tirando a força de dentro da cozinha.

— É mais do que minha obrigação, Vinícius! Eu ajudei a sujar todas as coisas e sei que ninguém vai limpar pra você.

— Eu tenho mãos e sei como usá-las, não se preocupe. – ele rebateu, mas comecei a rir.

— Isso soou tão maldoso na minha cabeça. – admiti.

Ouvi ele gargalhar atrás de mim.

— Não tenho culpa se só tem malícia nessa sua cabecinha. – disse me soltando quando chegamos na porta de seu quarto. Nem tentei me defender. – Já tá tudo arrumado. – ele informou apontando para a cama e só então percebi que agora ele estava sem camisa e com uma toalha pendurada no ombro. – Deixei uma camiseta minha aí em cima caso você queira vestir para dormir. Vou só tomar um banho e também já vou.

— Obrigada. – agradeci e ganhei um beijo na testa em troca, antes que ele se retirasse.

Olhei para sua camiseta em cima da cama e pensei automaticamente que eu não deveria dormir de camiseta e calcinha na casa de um cara com quem já transei, mas o álcool me disse que estava tudo bem e eu a vesti. Assim que me deitei senti seu cheiro impregnado na fronha do travesseiro e fiquei um bom tempo pensando em como tudo ali tinha um pouco de Vinícius. Aquele era o seu quarto e costumo pensar que nosso quarto talvez seja o único lugar que realmente é nosso nesse mundo.

Passei tanto tempo pensando nisso, que só despertei de meus pensamentos quando Vinícius reapareceu na porta já de banho tomado. Ele estava apenas com metade do corpo a mostra, de cabelos molhados e a toalha amarrada na cintura. Dei um sorriso malicioso apenas para implica-lo.

— Sexy. – elogiei.

Ele revirou os olhos e ignorou.

— Você ta precisando de alguma coisa? – indagou-me.

— Não, to bem. – o tranquilizei me esparramando pela cama. – Bastante confortável.

— Pode ficar a vontade e qualquer coisa que precisar pode pegar ou me gritar.

— Ta bom!

— Boa noite! – ele desejou e após eu responder o mesmo, apagou a luz e saiu. Mas nem deu tempo de chegar muito longe, porque quando ouvi o som de seus passos se tornando quase inaudíveis, o gritei. Ele rapidamente apareceu de volta e me encarou preocupado.

— Fica aqui até eu dormir. – pedi. Ele pareceu surpreso. – Olha como a cama é grande...

— Ta com medo dos monstros escondidos no armário, é? – provocou.

— Morrendo!

Apesar de termos rido, ele não parecia ter gostado da ideia.

— Acho melhor eu realmente ir pro quarto do Lucas. – admitiu Vinícius.

— Por que?

— Porque eu sou legal, mas eu ainda sou um cara, Isa. – ele respondeu me fazendo rir. – E sabe o que se passa na cabeça de um cara quando ele tá deitado numa cama com uma guria de calcinha?

— O que?

— Coisas não muito legais.

— Na verdade eu acho essas coisas bem legais. – brinquei o arrancando uma risada que ele não queria ter dado, pois no segundo seguinte ficou sério de novo e me reprimiu.

— Isabelle...

— Eu confio em você. – argumentei. – Por favor...

Ele continuou pensando por alguns segundos, mas cedeu. Entrou no quarto, pendurou sua toalha em uma cadeira e pra minha infelicidade estava usando cueca. Depois caminhou até a cama e se deitou ao meu lado. Nos aconchegamos e ficamos em silêncio por um bom tempo. Tanto tempo que só soube que ele não estava dormindo, porque vez ou outra ele se mexia.

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— Vinícius... – chamei e ele apenas fez um barulho indicando que estava ouvindo. – Qual foi a primeira coisa que você pensou quando me viu?

— Não deu muito tempo de pensar. – ele respondeu. – Quando seu celular caiu, eu fui pegá-lo por impulso, apenas por educação. Só quando fui entrega-lo que vi quem era a dona e tive a reação automática de meio que dar em cima de ti.

Dei uma risada preguiçosa, mas aquela ainda não era a resposta que eu queria.

— Mas o que você pensou? Eu sei que você pensou algo.

Ele ficou em silêncio por um tempo. Tentei decifrar sua expressão, mas na penumbra tudo que conseguia enxergar era alguns dos traços de seu rosto. E então, por fim, ele exclamou:

— Uau!

Eu apenas sorri.

Notas finais
Sério, amo vocês.