Poltrona 19

8 Qual seria seu desejo?


Notas iniciais
Olá pessoal! Depois de MUITO sacrifí­cio, pois o site estava dando problema, aqui está mais um capítulo para vocês. Espero que gostem :D

O jogo acabou e o pessoal começou a discutir o que fariam a seguir. Eu me deitei no chão com os braços abertos e me desliguei do mundo. Estava me sentindo leve e feliz. Olhei para cima e observei o céu estrelado, comecei a pensar que gostaria de observá-lo todas as noites. Quem sabe eu não pediria minha mãe para tirar o teto do meu quarto, ou quem sabe ela não criaria um céu só pra mim. Poderia passar uma estrela cadente, eu pediria o direito a três desejos e a mais três e depois mais três. Seria bom ter direito a tantos desejos, porque só um me enlouqueceria.

Ouvi uma música tocar me trazendo de volta ao mundo real. Percebi que alguém deitou ao meu lado esquerdo, olhei e era Gustavo. Senti outro braço encostando-se a mim e lá estava Gabriel deitado ao meu lado direito, também olhando para o céu.

– Se pudessem fazer um único pedido, o que seria? – perguntei em voz alta, mas não esperei por uma resposta. – São tantas as possibilidades... Realizaria um sonho? Ganharia na mega sena? Eu poderia viajar pelo mundo... Eu gostaria de viajar pelo mundo. Ou eu pediria a fórmula da felicidade eterna?

– Ou uma fórmula que resolvesse todos os problemas da vida. – sugeriu Gabriel.

– Eu poderia ser menos egoísta e pedir que o mundo fosse um lugar melhor.

– É, você poderia pedir a paz mundial. – concordou Gustavo.

– Você pediria? – perguntei ao Gustavo.

– Não, eu pediria a cura do câncer. Eu seria um médico famoso.

– Eu acho que poderia pedir que a mitologia fosse real e que eu fosse uma semideusa.

– E que seu namorado fosse Percy Jackson? – perguntou Gustavo rindo.

– Seria incrível namorar o Cabeça de Alga. – respondi animada com a ideia.

– Ele gosta de loiras. – afirmou e eu ri.

A lua cheia estava linda, iluminando toda a escuridão do céu. Levantei os dedos e os coloquei em frente ao meu rosto tentando “segurar” a lua com eles. Eu gostaria de saber se o homem realmente já pisou na lua ou se tudo que dizem sobre ter sido uma farsa é verdade. Eu gostaria de ser uma astronauta, gostaria de pisar na lua. Gostaria de ver o Planeta Terra sobre ela, será que ele é tão bonito quanto a Lua é? Ou tão iluminado? Eu com certeza tiraria uma foto e postaria no instagram.

Olhei para os lados e Gustavo não estava mais ali, apenas Gabriel de olhos fechados. Procurei ao redor e o avistei abraçado com Carol perto da piscina. Ela falava algo animadamente e ele escutava com um sorriso nos olhos. Sim, nos olhos. Ele sorria com os olhos observando a garota em seus braços e quando ela finalmente pareceu ficar em silêncio, ele a beijou. Foi a primeira vez que os vi ficando.

Eu poderia pedir a chance de conhecer o amor verdadeiro. Fechei os olhos.

– O amor existe ou é apenas uma ilusão? – perguntei em voz alta.

– Depende. – respondeu Gabriel.

– Do que?

– De você. Você pode fazer com que ele seja real, ou com que tudo seja apenas uma grande ilusão.

E como fazer com que ele seja real? Tive vontade de perguntar, mas não o fiz. Abri os olhos e olhei para ele que agora estava com os olhos abertos, centrados na imensidão acima de nós. Mais uma vez dispersos.

– Qual seria seu desejo? – perguntei à ele quase em um sussurro.

– Uma segunda chance. – respondeu sem hesitar.

– Pra que?

– Reviver o passado.

– E o que existiu no passado que tanto te prende a ele?

Ele respirou fundo e permaneceu em silêncio. Pela primeira vez vi sua expressão mudar, perdendo o ar de tranquilidade que ele possuía, como se lembranças ruins invadissem sua mente. Me arrependi de ter perguntado.

– Alice. – respondeu por fim.

Eu queria perguntar quem era Alice, mas não invadiria sua privacidade mais do que já invadi. Além de que estava visível que ele não gostava de falar sobre esse assunto. Voltei a olhar para o céu.

– Ela era minha irmã, faleceu em um acidente de carro. – explicou. – Você nunca acha que vai acontecer com você... Eu queria ter me despedido ou feito por ela metade do que merecia.

Senti um aperto no peito quando ele disse isso. Não esperava que algo assim tivesse acontecido ao Gabriel. Olhei para ele e a expressão que vi em seu rosto era de extrema tristeza.

– Tenho certeza de que ela sabe o quanto você a amava... – afirmei tentando reconfortá-lo – E tenho certeza de que se ela pudesse fazer um pedido, seria que você seguisse sua vida.

Um sorriso triste brotou em seus lábios.

– Decidiu qual seria seu desejo? – perguntou Gabriel.

– Acho que eu iria a lua. – respondi e ele riu. Me senti aliviada por ouvir sua risada.

Ouvi um grito e olhei para o lado bem a tempo de observar Carol sendo jogada por Gustavo na piscina. Não controlei a risada, pois a cena foi muito engraçada. Ela submergiu praguejando sobre o quanto a água estava gelada e que mataria Gustavo. No instante seguinte vi Bruno correndo e também se jogando dentro da piscina. Espero que dessa vez seus objetos não estejam no bolso.

– A água deve estar bem gelada, né? – perguntou Gabriel.

Olhei para onde ele estava e o mesmo estava em pé me olhando de cima.

– Seria uma pena se você caísse lá dentro. – ele disse irônico sorrindo.

Não tive muito tempo pra raciocinar, pois no instante seguinte Gabriel estava me segurando nos braços e correndo até a piscina. Eu achei que ele me jogaria, mas ele pulou. Quando meu corpo se chocou contra a água tive certeza de que morreria de hipotermia. E se for verdade o que dizem sobre água gelada curar o álcool, se não morresse eu com certeza ficaria sóbria. Submergi e avistei Gabriel rindo.

– Essa porra ta muito gelada – gritei.

E como se não tivessem me ouvido, todo o resto do pessoal também se jogou na piscina. O pior de tudo é que quando estávamos todos dentro da mesma, estávamos tremendo de tanto frio, mas não parávamos de rir.

– Vamos tentar fazer uma pirâmide? – Rafa sugeriu.

– Estou bêbada demais pra isso. – confessou Luiza.

Eu deveria ter concordado e não topado participar do que foi a pior ideia que tiveram na noite. Gabriel, Bruno, Gustavo e Caio ficaram no que seria a base da pirâmide, enquanto eu e o resto das meninas tentávamos subir em seus ombros. Escorreguei e caí umas quinze vezes até conseguir finalmente me equilibrar em cima dos ombros de Bruno e Gabriel. Até que Rafa se apoiou em mim buscando por equilíbrio e desabamos de volta na água. No fim estava com muitos hematomas, quase afoguei um monte de vezes e a pirâmide não deu certo.

Quando finalmente desistimos, Gustavo saiu da piscina e alguns minutos depois retornou trazendo duas coisas em mãos: uma bola e uma garrafa de vodka.

– Olha o que eu achei. – ele disse mostrando a garrafa e arrancando gritinhos animados do pessoal.

Tudo que eu pensei foi: eu vou entrar em coma alcoólico.

– E pensei em jogarmos algo. – completou dessa vez erguendo a bola.

Tive vontade de gritar que eu não queria jogar e sim sair daquela água que estava congelando pouco a pouco todos os meus músculos e órgãos, mas simplesmente aceitei jogar e virei um pouco da vodka quando Carol me passou a garrafa.

Primeiro acabamos com a bebida, depois começamos a jogar vôlei. O jogo acabou sendo uma boa ideia, pois nos movimentávamos e o frio passava um pouco, mas teve de ser encerrado no momento em que a bola acertou a garrafa de vodka vazia que colocaram na beirada da piscina.

Carol se ofereceu para pegar os cacos e aproveitamos a deixa para sairmos da piscina. Enquanto ela limpava a bagunça, Gustavo buscou toalhas para todo mundo e entregou uma pra cada. Tentei me secar em vão, já que minha roupa estava toda molhada e depois me enrolei na toalha que ficou quase tão molhada quanto as minhas roupas.

– Quantas horas são? – perguntei me sentando encolhida no sofá.

– Ainda é três horas da madrugada, acreditam? – Bruno respondeu incrédulo.

– A gente começou a beber cedo, por isso parece que já passou muito tempo. – explicou Gustavo.

– Querem comer algo? – perguntou Carol se aproximando de nós.

– Por favor. – Gabriel respondeu se jogando ao meu lado no sofá. – Comida é algo sempre bem-vindo.

Concordei mentalmente. Só quando ela falou a palavra comida que percebi que a última coisa que comi foi sorvete. Estava morrendo de fome e provavelmente Gabriel também.

– Vou fazer uns sanduíches pra gente. – ela respondeu e se retirou indo para a cozinha junto com Gustavo.

Essa garota é um anjo.

– Eu poderia facilmente comer uns cinco. – disse Gabriel.

– Eu também. – concordei.

Procurei pelo resto do pessoal e avistei Gabi e Rafa deitadas em uma rede conversando, Caio jogado em um sofá menor ali perto e não encontrei nem Bruno e nem Luiza.

Me lembrei da conversa que tive com Luiza na festa, quando ela me confessou ser apaixonada pelo Bruno e disse que ele só enrola ela. Tive vontade de espancar o Bruno naquele exato momento. Ele provavelmente tentou algo com ela e ela cedeu por estar bêbada.

– Ta pensando no que? – perguntou Gabriel.

– Em socar a cara do Bruno. – resmunguei.

– Por que?

– Porque a Luiza ta bêbada. Ela não sabe o que ta fazendo, aliás, ela sabe, mas as pessoas fazem coisas por impulso quando então bêbadas. – respondi e ele gargalhou.

– Até você já sabe desse rolo todo dos dois?

– Sim, ela me contou.

– Fica de boa, isso já é normal.

Percebi que estava sentada em cima da minha jaqueta e me lembrei das mensagens e chamadas perdidas que haviam no meu celular. A peguei e procurei pelo meu celular que guardara no bolso da mesma.

Haviam cinco chamadas perdidas da Leticia e as mensagens também eram dela. A primeira mensagem era de 16h39min do dia anterior, dizendo:"Entendo que esteja com raiva, mas não precisa me ignorar, quero saber se esta bem". A segunda de 18h00: "Isabelle, dá pra me responder em algum lugar por favor?" e a última recebida às 22h15min, dizia "Eu morrendo de preocupação por você não me responder ou atender ao telefone, ligo na sua casa e o que sua mãe diz? Que você saiu com o Gabriel. Muito bom."

Apoiei minha cabeça nos joelhos e bufei de raiva. Ela provavelmente estaria furiosa.

– Ta tudo bem? – perguntou Gabriel e apenas assenti.

Peguei meu celular e comecei a digitar uma mensagem, a reformulei umas seis vezes e fiquei satisfeita em enviar a seguinte:

"Eu juro que ia te responder, mas o Gabriel apareceu lá em casa querendo conversar e explicou tudo que aconteceu, foi também por isso que não atendi o telefone, eu não o vi tocar. E juro que não pretendia sair com ele, mas ele convenceu MINHA MÃE a me deixar ir e acabei saindo. Eu entendo que esteja com raiva de mim, por tudo que aconteceu e que não goste do Gabriel, mas ele é realmente legal comigo e é meu amigo agora, sair com ele não implica me envolver. Queria que me entendesse. Desculpa por tudo, te amo."

Depois que enviei guardei meu celular de volta no mesmo lugar, ela não responderia mesmo devido a hora. Tombei minha cabeça no sofá e encarei o teto.

– Tem certeza que ta tudo bem?– Gabriel tornou a perguntar.

Olhei para ele e novamente apenas assenti.

– Vamos lá... Apaixonada por música, livros e lembranças. Tem medo do futuro. É fascinada pela mente humana. Quer ir a lua, viajar pelo mundo, ser uma semideusa... – disse enumerando as informações com os dedos me fazendo rir. – O que mais devo saber sobre Isabelle? – perguntou.

– Esqueceu de dizer que eu amo sorvete.

– Ah é, o sorvete.

– Eu também amo brigadeiro, pizza e bata-frita. Na verdade acrescente nessa lista tudo que engorda.

– Informação anotada.

– Eu também tenho medo de morrer sem ir a pelo menos um show de minhas bandas preferidas. – disse me referindo ao medo que ele contara na apresentação que ocorreu na aula de Língua Portuguesa. – E de perder as pessoas que amo. – completei lembrando do medo de Carol. – Ah, também acho que seria massa presenciar um apocalipse zumbi.

– Interessante. – disse Gabriel rindo.

– Eu não sei nada sobre você. – afirmei.

– Claro que sabe. Sabe quase tudo da minha família, sabe que eu também amo música e que nas horas vagas sou uma estrela do rock. – ele disse e foi a minha vez de rir. – Eu não gosto de refletir... Porque isso meio que fode minha cabeça. Mas você quase sempre me faz fazer isso, então eu meio que também não gosto de você. – ele disse sério.

– Tudo bem, eu posso ir embora. – respondi fingindo estar magoada e ele riu.

– Eu também tenho medo de perder as pessoas que amo. Medo pra caralho. – ele disse sincero.

Agora que sabia de Alice tive certeza de que ele falara aquilo por causa dela. Me perguntei o que faria se perdesse alguém que amasse tanto, alguém como Natália por exemplo. Eu não sei o que faria ou se suportaria isso. Deve ter sido muito difícil pra ele.

– A vida é complicada. – disse por fim e ele concordou.

Olhei para Caio e ele havia adormecido, também não escutei mais as vozes das meninas. Invejei eles, gostaria muito de estar na minha cama debaixo de cobertas. Ou talvez não, estava feliz.

– A noite foi divertida. – afirmei.

– Nós somos divertidos. – Gabriel disse convencido.

– São mesmo. – concordei.

Ouvi as vozes de Carol e Gustavo ao longe e elas foram ficando cada vez mais nítidas.

– A comida chegou! – Carol disse animada saindo na varanda com duas bandejas de sanduíche nas mãos. Gustavo vinha ao seu lado com refrigerante e copos.

– Espero que estejam com bastante fome, porque somos apenas nós. – disse.

– Cade o povo? – perguntou Carol colocando as bandejas em cima de uma mesinha. Gustavo colocou o resto das coisas na mesma mesa.

– Caio apagou, as meninas também e o Bruno e a Luiza foram se divertir...

– A Luiza não toma jeito. – afirmou Carol nervosa.

– Cara, tem dois sanduíches pra cada aqui, isso é sacanagem. – disse Gustavo.

– Não se preocupem, eu como tudo. – Gabriel afirmou pegando um dos sanduíches.

– Eu não duvido. – disse Carol fazendo todos rirem.

Gabriel não comeu todos os sanduíches, mas comeu três. Eu fiquei perplexa. Comi dois e ao terminar o segundo já estava me sentindo extremamente cheia, só de pensar em comer mais algum senti repulsa.

Nós passamos o resto da noite conversando, lembrando das coisas que haviam acontecido e comentando. Não faço ideia de para onde Bruno e Luiza foram ou o que estavam fazendo, mas eles não apareceram mais.

Mesmo que quisesse ver o dia nascer junto com o pessoal, quando deu cinco horas da manhã decidi que já estava na hora de ir embora. Na verdade já havia passado da hora. Se minha mãe acordasse e me visse chegando aquela hora provavelmente brigaria comigo durante a próxima semana inteira. Isso na melhor das hipóteses.

Gabriel estava determinado a me levar embora e sugeriu que chamássemos um táxi, porém o lembrei de que taxista nenhum nos aceitaria molhados dentro do carro. Nossas roupas não estavam tão molhadas quanto antes, mas ainda estavam. Então chegamos ao consenso de ir embora a pé.

Gustavo e Carol me levaram até a saída, enquanto Gabriel disse que precisava pegar algo e sumiu, quando ele apareceu de volta estava segurando um edredom em mãos. Não entendi porra nenhuma, mas ele disse que depois devolveria e Gustavo não se importou. Nos despedimos dos dois e saímos.

– Por que você ta levando um edredom da casa do Gustavo? – perguntei confusa assim que ele fechou o portão

Gabriel se embrulhou com o edredom e logo em seguida me abraçou de lado, colocando seu braço por cima de meu ombro e também me envolvendo no mesmo.

– Pra não morrermos congelados até sua casa. – ele explicou com um sorriso irônico.

Seguimos andando pelas ruas dessa forma, abraçados e enrolados em um edredom. Qualquer pessoa que passava pela gente nos encarava estranhando.

– E depois você diz que eu que preciso ser mais normal... – resmunguei.

– Duas pessoas se tampando do frio é normal.

– Duas pessoas enroladas em um edredom na rua cinco horas da manhã definitivamente não é normal. – afirmei e ele riu.

– Vai fazer o que hoje? – perguntou.

– Qualquer coisa que não envolva você. – respondi brincando.

– Poxa, eu ia sugerir uma festinha legal ali no...

– Gabriel, hoje é domingo. – disse o interrompendo. – Você vai ficar quietinho em casa.

– Na minha casa? Anem, eu gostei da sua cama. – ele disse com um sorriso malicioso.

– Não vou nem responder. – disse. – A propósito, minha mãe vai me matar quando eu chegar em casa...

– Fala pra ela que você é obediente e chegou literalmente cedo.

– Claro, por que já não levo o pão também? – perguntei sarcasticamente.

– Você é genial. – ele afirmou.

– Genial? – perguntei desconfiada, mas ele não respondeu.

Gabriel me guiou por um trajeto diferente do que deveríamos fazer, até que avistei do outro lado da avenida em que estávamos, uma panificadora 24 horas. Atravessamos a avenida e seguimos rumo à panificadora. Eu não acreditei que ele tivesse mesmo levado minha ideia a sério, achei que estivesse apenas fazendo graça. Só me toquei quando estávamos quase entrando dentro do estabelecimento e eu parei no mesmo lugar.

– Você ficou louco? – perguntei.

– Por que?

– Nós não vamos entrar ai dentro assim, estamos parecendo dois mendigos e o lugar é super refinadinho.

– Temos dinheiro, não temos? Então foda-se.

– Eu não vou entrar. – afirmei séria.

– Não me faça te carregar, Isabelle. – ele disse e me puxou para dentro da panificadora, onde entrei extremamente frustrada.

Eu nunca senti tanta vergonha na minha vida. Assim que entramos todos os funcionários olharam pra gente com expressões nada gentis, provavelmente estariam pensando que éramos mendigos, que íamos assaltar o lugar ou que a atual geração de jovens está perdida. Qualquer das opções que fossem, não me fez me sentir confortável ao caminhar rumo ao balcão com Gabriel.

– Vai querer o que? – perguntou Gabriel de frente ao balcão enquanto uma funcionária vinha nos atender.

– Nada. – respondi e ele revirou os olhos.

Gabriel fez o pedido à atendente e apesar de tudo, ela foi gentil com ele. Provavelmente o vira de perto, sorrindo e sendo educado, e pensou que não importava se ele era um mendigo, assaltante ou bêbado, ela ficaria feliz se ele a pedisse o número de seu telefone.

A mulher voltou com um copo de café e o entregou, depois se retirou para buscar todas as outras coisas.

– Aceita café? – ofereceu.

– Não gosto de café.

Quando a atendente voltou com todos os seus pedidos, ele já havia terminado o café que pedira. O ajudei a segurar as coisas e seguimos rumo ao caixa, onde a funcionária obviamente nos olhou com uma cara de quem esperava do fundo do coração que tivéssemos dinheiro. Assim que Gabriel pegou sua carteira e a abriu, ela também abriu um sorriso largo.

Gabriel mais uma vez pagara tudo, o que me deixou brava. Saímos dali ainda embrulhados no edredom e agora segurando um monte de sacolas.

– Por que você comprou tanta coisa? Vai levar isso pra casa, né?

– Claro que não. – Gabriel respondeu como se fosse óbvio. – Isso é pra sua mãe.

– Gabriel, uma hora eu acabo te espancando.

– Aguardarei ansiosamente.

O caminho da casa de Gustavo até a minha não era perto, mas eu não achei longe. Devemos ter demorado meia hora caminhando, mas não me pareceu tudo isso, pois fomos o caminho inteiro conversando sobre besteiras. Quando chegamos em frente a minha casa, nos sentamos na calçada e Gabriel começou a abrir as sacolas procurando por algo.

– Não é tudo pra sua mãe, comprei coisa pra gente tomar café-da-manhã. – explicou.

– Na calçada da minha casa?

– Você não queria ver o dia nascer? – respondeu fazendo outra pergunta e eu apenas sorri.

Ele retirou das sacolas duas latinhas de suco, dois pedaços de bolo de chocolate e me entregou um de cada.

– Vai ter que comer com a mão, foi mal. – disse se desculpando.

– Não importo. – respondi. – Mas como você consegue sentir fome depois de ter comido três sanduíches?

Ele deu uma mordida no bolo.

– Isso foi há quase três horas atrás. – Gabriel respondeu de boca cheia me fazendo rir.

– Sua mãe não te ensinou que não é educado conversar com a boca cheia de comida?

– Olha, minha mãe tentou me ensinar um monte de coisas que infelizmente não funcionaram. – afirmou e mais uma vez não contive a risada.

Permanecemos em silêncio enquanto comíamos o bolo, ou melhor, eu saboreava o bolo que estava uma delícia e Gabriel devorava o dele. O mais engraçado foi que assim que ele terminou o mesmo, retirou um outro bolo de dentro das sacolas e começou a comer.

– Como você consegue comer tanto? – perguntei.

– To em fase de crescimento.

– Faz todo sentido.

– Espera – ele gritou me assustando.

– Esperar o que menino? – perguntei enquanto ele retirava o celular do bolso.

Gabriel mexia no celular com uma mão e segurava o bolo na outra. Me surpreendeu quando chegou mais perto de mim e colocou o celular a nossa frente, sendo só então que percebi que estava na câmera frontal e que ele tiraria uma foto nossa.

– Momento digno de foto – ele disse analisando a foto no visor.

– Claro. – disse com sarcasmo – Pode postar com legenda pedindo esmola.

– Se conseguirmos mais dessa delícia eu ficarei feliz. – Gabriel disse apontando para o bolo e eu gargalhei. Esse garoto só pensa em comer.

O dia começou a clarear e eu me senti extremamente feliz por estar ali, tomando o que seria um café-da-manhã, na calçada da minha casa com Gabriel, depois de ter me divertido a noite inteira com ele e seus amigos. Quer dizer, nossos amigos.

Quando terminei de comer peguei meu celular para averiguar as horas, já era seis e vinte da manhã. Havia uma mensagem de Leticia, dizendo: "Eu entendo, só não quero te ver quebrando a cara, Isa. Também te amo". Estava tudo bem novamente, não tinha como tudo melhorar.

Olhei para Gabriel e ele também terminara de comer, estava novamente mexendo em seu celular.

– Minha família. – disse me entregando o aparelho.

No visor havia uma foto com seis pessoas. Uma mulher elegante e bonita, usando um vestido branco e colar de pérolas ao lado de um homem de terno preto, igualmente elegante e bonito, com quem Gabriel se parecia bastante. Em frente aos dois adultos, haviam quatro crianças. A esquerda o garoto mais alto vestia uma roupa social. No meio havia uma garota de longos cabelos castanhos com um lindo vestido florido segurando em seu braço direito uma criança de provavelmente cinco anos, com um vestido cor-de-rosa. A direita um garoto um pouco maior que a menina do meio estava usando um terno. O primeiro garoto era Henrique, o último Gabriel e a menina no meio era Alice segurando Babi no colo.Todos estavam sorrindo alegremente.

– Linda família. – elogiei.

– Sim. – concordou Gabriel sorrindo.

O entreguei o celular de volta e ele acabou me mostrando várias outras fotos, dele com a família e com os amigos. Uma foto em questão me chamou a atenção, uma dele com Gustavo na segunda série que era a coisa mais fofa do universo. Os dois sempre foram lindos.

Apoiei minha cabeça no braço de Gabriel e olhei para o céu que já estava iluminado pelo sol apontando no horizonte. Queria parar o tempo. Aquela com certeza seria uma de minhas melhores lembranças.

Levantei minha cabeça e bocejei fazendo Gabriel rir, estava com sono e me sentindo cansada, provavelmente Gabriel também.

– Tenho de entrar. – disse olhando para ele que não respondeu.

Quando ia virar meu rosto Gabriel segurou meu queixo fazendo com que eu continuasse a olhar para ele. Me senti constrangida com ele me encarando e quando percebi ele estava aproximando seu rosto do meu. Ele parou quando seu rosto estava a poucos centímetros de distância, estava tão perto que podia sentir sua respiração.

– Gabriel, não complica minha vida, por favor. – pedi com a voz baixa. Eu não podia me envolver com ele.

– A vida já é complicada, você mesma disse. – ele respondeu no mesmo tom e juntou nossos lábios.

Eu poderia ter o empurrado, poderia ter negado, poderia ter feito um milhão de coisas e o que eu fiz foi dar permissão para que ele iniciasse um beijo. E aquele beijo foi diferente. Mesmo que intenso, ao contrário da última vez, nesse não havia malícia, apenas desejo.

Nos afastamos e mantive minha testa colada na dele.

– Tenho mesmo de entrar. – afirmei e ele assentiu.

O dei um selinho e me levantei com pressa, seguindo rumo ao portão procurando pela chave de casa nos bolsos de minha jaqueta.

– Isabelle. – Gabriel chamou e olhei para trás. Ele estava em pé segurando as sacolas de comida em uma das mãos.

– Não ta esquecendo nada? – perguntou levantando as sacolas e eu ri.

Voltei até ele e estendi a mão para que me entregasse tudo, mas ele não entregou. Cheguei mais perto para tentar pegar de sua mão e ele levou a mesma para trás do corpo e me puxou com a outra mão para perto de si.

– Isso é trapaça. – disse rindo.

– Não, isso é esperteza. – ele respondeu antes de me beijar novamente.

Envolvi seu pescoço com os braços e ele segurou minha cintura com a mão disponível. Não faço ideia de quanto tempo ficamos ali, mas só nos separamos por falta de ar.

– Agora pode ir. – ele disse me entregando as sacolas.

Me despedi dele e entrei em casa tentando fazer o menos de barulho possível. Coloquei as sacolas sobre a mesa, com pão, suco, bolo e outras mil coisas que Gabriel comprara e procurei um papel e uma caneta. Quando achei escrevi um bilhete e coloquei sobre a mesa.

"Bom dia linda, bom apetite. Mimos mandados por Gabriel. Te amo. Beijos, Isa"

Fui para o meu quarto e mesmo que estivesse louca para me jogar sobre a cama e adormecer, fui até o banheiro e me livrei das roupas molhadas, logo em seguida tomando um banho quente. Quando já estava de banho tomado e pijama confortável, ai sim me deitei. Meu celular apitou e o peguei para olhar o que era. Era uma mensagem de Gabriel.

A última coisa que vi antes de meus olhos fecharem involuntariamente, foi eu e Gabriel completamente destruídos, enrolados em um edredom, segurando um bolo em mãos e mesmo assim sorrindo abertamente, na foto que ele acabara de me mandar. A primeira foto que tiramos juntos.

Notas finais
O que acharam do capítulo? O que estão achando da história? Peço que comentem, por favor, pois é importante. E obrigada por ter lido s2